Pesquisadora desenvolve livros táteis para alunos com deficiência visual

Dissertação de mestrado aborda a aprendizagem de crianças com baixa visão ou cegueira a partir da elaboração de materiais especializados
mãos tocando um livro aberto. Em uma página há um gatinho de pelúcia em alto relevo, na outra, o texto "na cama dormindo" e seu correspondente em braile abaixo
"Gatinho Adolfo" foi um dos livros confeccionado por Roberta Stockmanns em sua pesquisa - Foto: Gustavo Diehl/UFRGS

Livros táteis são livros ilustrados com diferentes materiais e texturas feitos para crianças com deficiência visual. Há indícios de que os primeiros livros desse tipo surgiram na Itália, no início dos anos 1970. Com a intenção de auxiliar na aprendizagem de crianças com baixa ou nenhuma visão, servem ainda como elemento de inclusão infantil. Isso acontece porque podem ser lidos também por crianças com visão regular, promovendo interações entre os pequenos.

Em maio deste ano, a professora do Instituto Federal Catarinense Roberta Stockmanns defendeu sua dissertação de mestrado, intitulada “Livros ilustrados táteis e o processo de letramento de crianças com deficiência visual”. O estudo foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS e faz parte da linha de pesquisa Educação Especial e Processos Inclusivos.

Letramento, diferente do que o senso comum crê, não é o mesmo que alfabetização. Alfabetização é o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita; já o letramento é todo processo que a pessoa desempenha com a comunicação durante a sua vida. Esse processo é muito importante, porque é a partir da comunicação que as práticas sociais se estabelecem e os laços afetivos se originam. No caso das crianças, as amizades são um exemplo. Portanto, o letramento sugere o uso social da alfabetização.

Roberta conta que o tema da dissertação já era um interesse antigo. Desde a graduação, sempre se dedicou a estudar os processos de aprendizagem infantil. Antes do mestrado, realizou uma especialização em Educação Especial e Neuroeducação, que focava em crianças com deficiências ou distúrbios de aprendizagem. Também a professora orientadora do projeto, Cláudia Rodrigues de Freitas, contribuiu para a intenção do estudo. Cláudia é pesquisadora de livros para diversidade há anos, o que instigou mais ainda Roberta a defender sua dissertação dentro da temática.

 

As etapas do projeto

A pesquisa que fundamentou o trabalho foi dividida em três etapas. A primeira consistiu na revisão bibliográfica. Esse foi o período de estudar os livros táteis já existentes – os produzidos no Brasil e na Itália – e pensar nos elementos a serem utilizados, como os materiais para as ilustrações. A partir dessa análise, a autora destacou problemas como a simplicidade de alguns modelos. Livros em braile sem recursos gráficos, totalmente brancos, ou apenas com pontilhismo em volta dos desenhos não colaboram para a inclusão, já que crianças que enxergam regularmente não têm interesse em lê-los.

A segunda etapa da pesquisa deu-se a partir de um curso de extensão de confecção de livros táteis oferecido pela UFRGS. Direcionada a professores especializados em educação especial ou com  experiência no trabalho com crianças com deficiências visuais, a atividade de extensão foi organizada dentro da linha de pesquisa Educação Especial e Processos Inclusivos e contou com oito encontros presenciais para a produção dos livros. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) financiou as aulas, disponibilizando recursos para a aquisição dos materiais utilizados. Foi durante esse período que Roberta confeccionou os  dois livros que utilizaria como objeto de pesquisa: Vovó Esquecida e Gatinho Adolfo.

Na terceira etapa da pesquisa, a professora convidou duas crianças para participarem do estudo. Francisco, de 8 anos, com cegueira, e Ricardo, de 11 anos, com baixa visão. Com a colaboração deles foi possível observar a eficácia dos livros táteis no processo de aprendizagem dos pequenos. Roberta avaliou que os resultados foram positivos: “as crianças afirmaram, muito empolgadas, que estes foram os primeiros livros neste formato com que tiveram contato. Ter oportunizado isso é uma das minhas principais alegrias durante o processo”.

Mão tocando uma página de um livro aberto, com a frase "Na sala brincando". A mesma frase está reproduzida em braile abaixo

A escrita em braile e em português por extenso permite a inclusão social no universo infantil – Foto: Gustavo Diehl/UFRGS

Ao longo da sua dissertação, Roberta destaca a importância do fato de que os livros táteis são acessíveis para quem enxerga regularmente. A aprendizagem se dá também no processo de interação entre as crianças quando se possibilita o contato entre todas elas. Portanto, o livro não deve conter apenas as imagens texturizadas, as palavras escritas também são importantes. A pesquisadora pôde presenciar o benefício que os livros proporcionam no próprio experimento: “Francisco, em todas as mediações de leitura, pediu para mostrar os livros aos colegas da turma. Nesses momentos de socialização, ele foi o protagonista, lendo e apresentando os livros para seus colegas bastante empolgado. As crianças, encantadas e atentas, passavam as mãos por cada imagem tátil, exclamando: ‘Ai que vovó fofinha’, ‘Ela é macia’, ‘Que livro legal’, demonstrando que os livros são atrativos inclusive para crianças sem deficiência”.

 

A inclusão dos alunos na aprendizagem

Hoje, no Brasil, os materiais oferecidos para o aprendizado de crianças com baixa visão ainda deixam muito a desejar. Na maioria das vezes, os livros contêm apenas escritas ampliadas sem cores nem estímulos sensoriais – o que não contempla os instintos infantis. Uma das constatações da pesquisa de Roberta foi que o interesse das crianças é despertado antes pelas texturas dos desenhos do que pela escrita em braile. “Como qualquer criança, o interesse inicial é voltado para as imagens contidas nos livros. E essa oportunidade não é encontrada nos livros elaborados para crianças com deficiência visual; estes em geral são totalmente brancos ou apenas com desenhos de apelo visual”, conta. Para a autora, todos os educadores deveriam ter conhecimento do sistema braile, mesmo não tendo alunos cegos. Todos têm direito de ter suas necessidades abrangidas com a devida importância, e não deixadas de lado.

Na Constituição Brasileira de 1988 consta que alunos com deficiência têm direito ao ensino especializado, preferencialmente no ensino regular. Além disso, na Conferência Mundial sobre Educação Especial de 1995, realizada em Salamanca, Espanha, foi concedido a todas as crianças o direito à educação no sistema regular de ensino. A Declaração de Salamanca – como ficou conhecido o documento elaborado na conferência – consolidou a educação inclusiva como um direito.

O tema da dissertação também é estudado no projeto Multi, grupo de pesquisa da UFRGS do qual a professora fez parte. Ela conta que continua a pesquisar sobre o tema e a buscar meios de beneficiar cada vez mais as crianças com cegueira ou baixa visão no processo de aprendizagem. “Para mim, inclusão literária é quando um livro pode ser lido por qualquer criança, seja ela com ou sem deficiência.”

Mulher tocando mãos de pelúcia em alto relevo coladas em uma página de um livro.

Os recursos táteis permitem às crianças com deficiência visual maior contato com as histórias – Foto: Gustavo Diehl/UFRGS

Dissertação

Título: Livros ilustrados táteis e o processo de letramento de crianças com deficiência visual
Autora: Roberta Stockmanns
Orientadora: Cláudia Rodrigues de Freitas
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Educação

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