Pesquisadora estuda o desenvolvimento de atitudes raciais na infância

Estudo revela que práticas discriminatórias já estão internalizadas em crianças pequenas
Foram analisadas as atitudes de crianças de Porto Alegre e Salvador - Foto: Ramon Moser/UFRGS

Talvez você nunca tenha percebido, mas os personagens presentes no universo infantil, em sua maioria, são de pele branca. Pode parecer irrelevante, mas definitivamente não é. As práticas discriminatórias se revelam cada vez mais cedo. Diversas pesquisas têm indicado que crianças pequenas já exibem os mesmos níveis de preconceito racial apresentados pelos adultos. “A criança percebe a sociedade ao seu redor. Não é um processo lento, pelo contrário, é muito rápido e não depende apenas da influência dos familiares”, afirma a professora Airi Sacco. Em sua tese de doutorado defendida no Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFRGS, ela mapeou o desenvolvimento de atitudes racistas em crianças. Como seria inviável um estudo de caráter nacional, a pesquisadora realizou um comparativo entre crianças de Porto Alegre e Salvador. 542 crianças entre seis e 14 anos participaram do estudo, sendo 399 gaúchas e 143 baianas.

O interesse em estudar o assunto surgiu a partir dos mitos da democracia racial brasileira. “Em Angola, numa conversa, uma pesquisadora também brasileira me falou que no Brasil a pobreza tem cor. Isso me tocou muito”, lembra Airi. De acordo com levantamento realizado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz em 2014, a renda familiar de pretos (incluem-se os negros e os considerados pardos) é 75% mais baixa do que a de brancos. Além disso, o índice de jovens vítimas de homicídio é 146% mais alto nessa parcela da população. O mesmo acontece com as taxas de escolaridade e de desemprego. O Censo do IBGE/2010 mostrou que o analfabetismo entre pretos (14,4%) e pardos (13%) de todas as idades é quase três vezes maior do que entre brancos (5,9%). Entre 2013 e 2014, os negros representaram 60,3% de todo o aumento de desemprego, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

De acordo com a pesquisadora, no Brasil ninguém se considera racista, apesar de grande parte das pessoas admitir que o preconceito racial exista. Para estudar essa questão, ela mergulhou em pesquisas, buscando compreender o trajeto de desenvolvimento de atitudes raciais implícitas e explícitas em crianças. “Se as preferências raciais se formam ao longo dos anos inicias de desenvolvimento, não parece produtivo ignorar o público infantil no delineamento de estudos sobre essa temática”, enfatiza Airi.

Apesar de, segundo a professora, haver poucos estudos relacionados ao assunto, o fato de atitudes racistas se desenvolverem já na infância há anos vem sendo exposto. Nelson Mandela, em sua autobiografia Longo Caminho para a Liberdade (1995), fala que o racismo é um aprendizado. Para Pap Ndiaye, doutor em História e especialista em Relações Raciais, “o problema é fruto das disposições sociais, e a aprendizagem pode acontecer muito rapidamente, logo na infância”.

Para a realização da pesquisa, Airi observou que a inclusão apenas de crianças gaúchas seria mais praticável, mas pouco expressivo, já que a composição racial do Rio Grande do Sul contrasta com a do restante do país. Enquanto na Bahia 59% das pessoas se declararam pardas e 17% pretas, 84% dos gaúchos se declararam brancos no último censo (IBGE/2010). Como os dois estados possuem divergências históricas e culturais, a pesquisadora se perguntou se essas diferenças se expressam também no desenvolvimento do preconceito racial na infância.

Das crianças participantes da pesquisa, no Rio Grande do Sul, pouco menos de 46% eram brancas, 39% pardas e quase 15% pretas. Entre as baianas, 23% eram brancas, praticamente 54% pardas e cerca de 20% pretas. As crianças foram avaliadas em suas escolas com o consentimento dos pais. “Aqui em Porto Alegre, eu e a equipe da UFRGS realizamos a pesquisa nas escolas. Em Salvador, quem a realizou foi o pessoal da Universidade Federal da Bahia. Fui até lá treiná-los, e eles foram até as escolas.”

Para esse estudo, foram utilizadas duas medidas implícitas de atitude: o Teste de Associação Implícita e a tarefa de Priming Avaliativo. Além disso, também foram usados cinco métodos explícitos: identificação de grupo, atitude racial explícita, associação entre cor e status social, preferência por cor e preferência por status social. Algumas crianças não conseguiram completar os testes, principalmente por dificuldade de compreensão, mas também por fadiga e distração. “A coleta foi feita individualmente. Cada criança levava cerca de 40 minutos, então foi um processo bem demorado” afirma Airi. As fotos usadas nos testes fazem parte do banco de dados produzido pela equipe de pesquisa.

 

Teste de Associação Implícita

O Teste de Associação Implícita é uma tarefa de tempo de reação que mede a força relativa de associação subentendida entre pares de conceitos. A ideia é responder rapidamente a associações já pré-definidas em nossas mentes. Na pesquisa, foram utilizadas imagens de crianças pretas e brancas, com expressões simpáticas. Os participantes tiveram que associar as imagens com atributos positivos e negativos. Logo, quanto mais rápido for vinculada a criança branca com aspecto positivo e a preta com negativo, por exemplo, maior é sua preferência implícita por brancos e vice-versa.

Dos 542 participantes, 531 completaram o teste. Desses, 153 foram excluídos da análise devido a um grande número de erros, como indicar a resposta errada pela ânsia de responder rápido. A análise final foi composta por 378 participantes. Na média do resultado desse teste, a tendência foi positiva para a criança branca. No geral, crianças brancas e pardas apresentaram maior inclinação para associar aspectos positivos a crianças brancas. Quando consideramos a raça dos participantes e a cidade, os resultados variam, ainda indicando preferência por brancos sobre os negros. Na Bahia, um estado composto por maioria de pardos e pretos, os brancos tiveram uma tendência pró-branca, enquanto as preferências de pardos e pretos eram ambas para seu próprio grupo. No Rio Grande do Sul, estado predominantemente branco, participantes brancos e pardos apresentaram preferência por brancos.

 

Priming Avaliativo

A tarefa de Priming Avaliativo também é baseada em tempos de reação. Os participantes tiveram que avaliar rapidamente alvos que eram positivos ou negativos.  Cada alvo foi precedido de uma recompensa – um estímulo para influenciar as avaliações. A proposta por trás desse teste, para que o participante respondesse mais rápido, é que o prêmio e o alvo possuam o mesmo peso. Foram usadas 30 imagens para representar crianças brancas, pardas e pretas. Os participantes as classificaram de acordo com a raça, expressões faciais e simpatia. Para a categorização de raça, as crianças precisavam responder a uma pergunta com três opções (brancos, pardos e pretos). Para as expressões faciais e simpatia, elas classificaram as imagens em uma escala de sete pontos.

Dos 542 participantes do estudo, 506 completaram a tarefa. Entre os que completaram, 30 foram excluídos devido ao mesmo erro do teste anterior, restando 476 participantes. Os resultados indicaram que brancos e pardos são preferidos implicitamente quando comparados com negros.

 

Identificação de Grupo

Nesta tarefa, os participantes tiveram que medir a identificação racial visual. Das 542 crianças, 527 conseguiram completar a tarefa. Cada combinação de raça foi apresentada duas vezes para os participantes. As comparações eram

  1. a) identificação com o branco em comparação com o preto
  2. b) identificação com o branco em comparação com o pardo
  3. c) identificação com o pardo em comparação com o preto.

As crianças do Rio Grande do Sul, em geral, identificaram-se com o seu próprio grupo. Na Bahia, no entanto, as crianças dos três grupos (brancos, pardos e pretos) identificaram-se com tons mais claros de pele.

 

Atitude Racial Explícita

Na tarefa de atitude racial explícita, os participantes tiveram de avaliar 15 crianças e indicar o quanto eles gostavam delas, em uma escala de sete pontos, sendo que sete era o mais positivo. Dos 542 participantes, 531 completaram o teste. No geral, a avaliação média foi de 5,42 para alvos brancos, 4,82 para alvos pardos e 4,59 para alvos pretos.

 

Associação entre cor e status social

Na associação entre cor e status social, os participantes foram informados de que veriam imagens de duas crianças e de dois carros ou duas casas, e então teriam de apontar quais crianças viviam em qual casa ou tinham qual carro. Brancos foram associados com riqueza em praticamente 74% das respostas; pardos, em quase 49%; e negros, em cerca de 30%. Essa tarefa mostrou uma diferença significativa entre a associação branco/riqueza e pardo ou negro/riqueza, com predisposição sempre para o branco. Quanto mais claro o tom da pele, mais forte era a associação com riqueza.

 

Preferência por raça e status social

A preferência por raça e por status social foram baseadas em duas escalas de gosto de cinco pontos. Os participantes tiveram de indicar o quanto eles gostavam de brancos e negros e de pessoas ricas e pobres.

Os resultados mostraram que crianças de 6 e 7 anos apresentaram maior preferência por brancos e ricos do que as de 8 e 9 anos. Para Airi, os resultados confirmam a hipótese de que quando menores as crianças expressam suas preferências sem se preocupar com normas sociais. Já quando mais velhas, suas respostas são selecionadas de acordo com o que compreendem ser a resposta socialmente aceitável.

Quanto ao impacto social, a pesquisadora assegura que a sua pesquisa “é superimportante, pois o nível de discriminação que resulta na desigualdade do Brasil é indiscutível”. A professora afirma estar analisando a melhor forma para ampliar a pesquisa, abordando outras questões e outros grupos, além de explorar em outras áreas, visto que foi um tipo de estudo que deu certo.

 

Tese

Título: Orgulho e preconceito: o desenvolvimento de atitudes raciais implícitas e explícitas em crianças de Porto Alegre e Salvador
Autora: Airi Macias Sacco
Orientadora: Silvia Helena Koller
Unidade: Programa de Pós-graduação em Psicologia

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