Pesquisadora investiga como os modelos de masculinidade afetam a saúde de idosos no ambiente rural

Estudo aponta que mulheres e homens apresentam comportamentos distintos em relação ao adoecimento
mãos envelhecidas
Pesquisa discute questões de gênero e suas repercussões na saúde e no adoecimento - Foto: Sgt. Andrew Lee/U.S. Air Force

Muitas vezes, o processo de envelhecimento é visto negativamente pelos homens, que rejeitam o fato de que os seus corpos não são mais tão resistentes quanto costumavam ser. As construções sociais de gênero afetam ambos os sexos, de maneiras e graus diferentes. O conceito de masculinidade estereotipada que se origina dessas construções naturalizadas na nossa sociedade pode causar problemas para homens idosos em relação ao adoecimento nessa idade. Durante o seu doutorado, realizado no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFRGS, a enfermeira e professora da Universidade do Rio dos Sinos (Unisinos) Andréia Burille procurou pequenas comunidades rurais do Rio Grande do Sul para analisar as diferentes táticas de cuidado e atendimento médico acionadas pelos idosos ao ficarem doentes. Segundo ela, “a masculinidade traz benefícios para os homens, mas também traz muito prejuízo. Os homens não podem ser fracos, não podem chorar, não podem uma série de coisas. Há todo um esforço para ocultar esse sofrimento por causa das expectativas”. A fim de provar que o envelhecimento é somente numérico e que não há nenhum efeito nos seus corpos, alguns indivíduos podem ignorar problemas de saúde até que se tornem algo sério e inevitável. O projeto teve como objetivos discutir questões de gênero e suas repercussões na saúde e no adoecimento, observar como os homens lidam com o enfraquecimento dos seus corpos e avaliar o impacto das doenças na condição social do homem.

Sendo de uma família vinda de uma cidade do interior, a pesquisadora sempre teve vontade de trabalhar com o rural, com suas singularidades. É um ambiente permeado de símbolos, que formam também uma identidade e um modo de vida para os moradores. “Pensar o rural foi sempre uma coisa que eu, como enfermeira, achava importante”, diz ela. Em parceria com a Universidade de Vale do Taquari (Univates), Burille procurou pelo município em que iria desenvolver a sua tese com base no número de idosos que possuía. O escolhido foi Deutsch, nome fictício escolhido para preservar as identidades dos pesquisados. Localizada na região dos Vales, a cidade tem menos de 2.500 habitantes, sendo que mais da metade (54%) reside em áreas rurais e cerca de um quarto da população possui mais de 70 anos de idade.

Trabalhando com a saúde do homem há cerca de 10 anos, Burille ficou quase um ano envolvida com a comunidade e os entrevistados escolhidos. Durante dois meses, ela morou na casa de uma viúva da região, que a ajudou a entender mais a cultura dos moradores. Não somente ela queria conversar com os homens idosos da região sobre suas experiências, mas também entender a comunidade na qual eles estão inseridos. Sendo quase todos eles imigrantes ou descendentes de alemães, ela foi rapidamente identificada como “gringa”, por sua descendência italiana. Conseguir a confiança deles foi um processo delicado, que contou com o apoio da agente comunitária da região, que a acompanhou durante o período de aproximação com as famílias. “Toda pesquisa que vai trabalhar com comunidades rurais tem que contar com a agente local para fazer essa aproximação, para que as pessoas consigam confiar e não se sintam acuadas”, afirma. Após o término do período de convivência com os moradores, que ocorreu durante os meses de janeiro e fevereiro de 2015, Burille continuou retornando à cidade todos os finais de semana até outubro. As informações e histórias foram contadas por eles em confidência para a pesquisadora, que assumiu o compromisso de mantê-los anônimos.

 

Período de imersão

A pesquisa começou em um encontro da terceira idade no qual a pesquisadora explicou a todos os idosos a ideia por trás do seu trabalho. Com exceção de um entrevistado que pediu pessoalmente para ser incluído no estudo, todos os outros homens foram escolhidos com base em um sorteio, focando em pessoas que têm ou tiveram como ocupação principal a agricultura. As entrevistas partiram de um roteiro semiestruturado. Nas primeiras visitas, Burille levou um gravador consigo, mas percebeu o desconforto dos idosos com o equipamento e sua hesitação em falar quando sabiam que estavam sendo gravados. A fim de conseguir interações mais descontraídas, que envolviam o resto da família também, ela adotou o diário de campo como meio de documentar as informações que considerava mais importantes. Após cada encontro, ela saía com uma grande quantidade de material que deveria ser escrito e analisado. A principal característica que notou nos membros da comunidade alemã foi a sua organização, um traço em comum entre a maioria dos entrevistados. “Pessoal do interior gosta de se organizar para te esperar. Sempre pediam para avisar quando eu iria. Tinha um deles que tomava banho e se arrumava todo. Um dia cheguei uns dez minutos atrasada, e ele disse que achava que eu não ia mais”, lembra.

Com base em uma pesquisa bibliográfica realizada antes do período de entrevistas, a enfermeira foi capaz de perceber dois tipos de comportamento distintos entre homens idosos que estão lidando com o adoecimento crônico. O corpo se torna vulnerável com o passar dos anos e se torna difícil corresponder às expectativas da masculinidade, na qual o homem deve ser provedor e protetor da sua família, além de autossuficiente. A masculinidade hegemônica tem as mesmas expectativas de homens em diferentes contextos e tempos de vidas, desconsiderando as suas situações atuais. Quando questionados sobre o que era ‘ser homem’, os entrevistados não sabiam responder à pergunta, como se a masculinidade fosse algo natural a eles, e não uma mera construção social. Durante o envelhecimento, é importante a ressignificação desse conceito para que os homens possam viver melhor esse ciclo das suas vidas.

No primeiro caso, diante da incapacidade de continuar trabalhando, alguns idosos podem lidar de maneira negativa com o envelhecimento e o adoecimento. Eles negligenciam a própria condição para provar que nada mudou e ainda são capazes de continuar as suas vidas normalmente. Com essa conduta, colocam em risco a saúde e tendem a buscar auxílio médico somente em situações de emergência, quando estão em risco iminente. Há um grande esforço masculino em ocultar a própria fragilidade, tendo uma certa timidez e vergonha ao expor o corpo e omitindo os sintomas das suas condições até que se tornem visíveis. Por esse mesmo motivo, homens também apresentam menor adesão a tratamentos de longa duração ou atividades que promovam a saúde.

A segunda situação possível que Burille encontrou em sua pesquisa é quando esses idosos possuem certa autoconfiança a partir do reconhecimento das pessoas ao seu redor. As redes sociais em que se encontram estimulam o cuidado tanto de si mesmos como dos outros. “O reconhecimento faz com que as pessoas se sintam mais felizes e consigam lidar melhor com as adversidades que elas enfrentam. O reconhecimento é essencial para que as pessoas consigam produzir situações de cuidado”, aponta Burille. Possuir o respeito social os ajuda a terem também um autorrespeito e a cuidarem melhor dos seus corpos em vez de ignorar as doenças.

De acordo com a pesquisadora, envelhecer no meio rural é também um desafio social. Ao terem a oportunidade de contar suas histórias e compartilhá-las com suas famílias, os entrevistados se sentiram valorizados e reconhecidos. “Foi uma oportunidade de falar sobre e também de mostrar que isso não vai fazer com que eles sejam menos homens ou que sejam vistos como frágeis”, diz.  Para os idosos dessas regiões cheias de fragilidades na questão do acesso aos cuidados de saúde, as pessoas com quem convivem se tornam mais importantes durante esse período. “O envelhecimento é também um reflexo do que você construiu na vida, das relações que você teve. Tudo isso toma uma intensidade maior nesse período da vida”, comenta a pesquisadora.

 

A hora da despedida

Por meio dessas experiências, dessas histórias de superação e sofrimento, pode-se pensar em maneiras de melhorar a formação dos profissionais de saúde para lidar com os homens idosos, principalmente do meio rural. É necessária uma sensibilização desses profissionais às especificidades masculinas, promovendo ações não só de tratamento, mas também de cuidado. É um cuidado diferenciado e sensível, a partir do qual se deve enxergar para além do corpo, enxergar a pessoa e que referências ela tem do meio em que vive. De acordo com Burille, “existe uma mudança, uma necessidade de o Brasil se articular para pensar esse envelhecimento que é uma demanda crescente. Pensar no envelhecimento precisa ser uma agenda dentro da formação e dentro do cotidiano dos serviços”. Um comentário constante dos entrevistados da sua pesquisa foi que os profissionais da saúde, quando estão promovendo o envelhecimento, só falam em doença e reforçam uma visão negativa desse período de suas vidas. A qualidade do cuidado também envolve a satisfação de quem o busca, e é imprescindível questionar como promover um envelhecimento ativo e saudável em qualquer situação.

Após todo esse tempo trabalhando com os moradores de Deutsch, era a hora de começar o processo de desligamento da comunidade. Para comemorar o término da pesquisa, Burille realizou um almoço com os entrevistados e suas famílias, uma forma de agradecer por toda a ajuda e pelo acolhimento. Também montou um quadro com as fotos que realizou durante o trabalho e as fotos das juventudes desses homens que ela havia reunido, e o deu de presente a eles. Embora a pesquisa tenha terminado, ela manteve contato com essas pessoas que conheceu durante o processo, tanto por telefonemas como por visitas. “Hoje os visito não mais como pesquisadora, mas porque criei um vínculo com eles”, conta. A pesquisa criou uma rede de relação dentro da comunidade, razão pela qual eles se encontravam e falavam sobre a participação do projeto. Para agradecer a ela pela oportunidade de dividirem as suas histórias, eles surpreenderam Burille com uma cesta cheia de produtos do interior que produziram. “O melhor resultado da minha tese foi o tempo que eu pude viver com as pessoas e aprender com elas como elas aprenderam comigo.”

 

Tese

TítuloQuando a masculinidade encontra o envelhecimento: experienci(a)ções de reconhecimento e de cuidado no cotidiano de idosos rurais
AutoraAndréia Burille
Orientadora: Tatiana Engel Gerhardt
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Enfermagem

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