Pesquisadores desenvolvem fantoches eletrônicos para contação de histórias a crianças autistas

Doutorando estuda de que forma o dispositivo pode colaborar para a promoção do interesse de crianças que não têm a oralidade plenamente desenvolvida
Close na mão de Roceli Lima, que segura um fantoche e um dedoche
Fantoches contam com um conjunto de tecnologias de hardware e software - Foto: Gustavo Diehl/UFRGS

Em uma sala de aula, a professora utiliza um fantoche para contar uma história aos alunos. Diferente dos tradicionais brinquedos de pano com que estamos acostumados, entretanto, esse guarda alguns componentes eletrônicos em uma mochilinha em suas costas: uma placa controladora Arduino, um leitor de sensor, uma bateria e um transmissor wi-fi. Sobre a mesa, está disposta uma série de dedoches de bichinhos. Comprados na feira de artesanato do Parque da Redenção, em Porto Alegre, os brinquedos agora contam com pequenos sensores. Ao aproximá-los do fantoche que está na mão da professora, seus dados de identificação são processados pelo Arduino, que transmite a informação para um software específico, e as crianças são surpreendidas com animações dos animais representados nos brinquedos pulando e reproduzindo sons na tela ao fundo.

Chamado de fantoche eletrônico, o dispositivo está sendo desenvolvido por um grupo de pesquisadores da UFRGS que reúne professores e estudantes das áreas da Educação, da Computação e da Engenharia. O artefato consiste em um modelo de fantoche de mão com um conjunto de tecnologias de hardware e software, baseado na abordagem da Internet das Coisas. Voltada, principalmente, a ser utilizada como mediadora entre educadores e crianças com Transtorno do Espectro Autista ou outras deficiências cognitivas, a ferramenta faz parte da pesquisa de doutorado de Roceli Lima, aluno do Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação da UFRGS e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

Roceli Lima segurando um fantoche

Trabalho faz parte da pesquisa de doutorado de Roceli Lima – Foto: Gustavo Diehl/UFRGS

A ideia do doutorando é estudar de que modo os fantoches eletrônicos podem estimular o interesse de crianças que não têm a oralidade plenamente desenvolvida. Segundo a professora da Faculdade de Educação da UFRGS Liliana Passerino, coorientadora de Roceli, essa é uma condição que afeta 50% das crianças autistas de 3 a 7 anos. “Elas têm atraso na linguagem ou não desenvolveram a oralidade por algum motivo. Essas crianças vão para a sala de aula, e o professor precisa trabalhar com ela. A gente tem que dar mecanismos para o professor poder se comunicar com essa criança”, explica Liliana.

“Existem várias pesquisas que indicam que diferentes tipos de mídias promovem estados afetivos nos sujeitos. Nós estamos investigando, mais especificamente, o estado afetivo de interesse, que está muito relacionado à motivação”, comenta Roceli. Os pesquisadores verificam se houve ou não a promoção desse estado afetivo a partir da observação dos gestos, do sorriso e da análise facial dos sujeitos, entre outros fatores.

O doutorando exemplifica essa questão com o relato da reação de uma criança com paralisia cerebral, aluna de uma turma de 1ª série de uma escola pública de Porto Alegre, participante do estudo de caso piloto. Apesar das dificuldades para falar e caminhar, ela conseguiu se envolver com a história e interagir com os objetos. “O interessante é que ela imitou as outras crianças. Ela estava na extremidade da sala e pediu para ser auxiliada na caminhada. Essa tecnologia deu a oportunidade para ela participar também da história. Ela pegava o sapinho, foi em direção ao fantoche, queria beijar o fantoche. O sorriso e o impulso de caminhar para aqueles instrumentos indicam que ela teve interesse em participar daquela atividade.”

A partir dessa experiência, os pesquisadores optaram por incluir a caminhada em direção aos objetos como um dos indicativos da promoção do estado afetivo de interesse. “Esse indicador não existe em nenhuma publicação, e a gente está também apostando nesse”, afirma o estudante. A coleta de dados, que, agora, aguarda autorização do Comitê de Ética da UFRGS para ter início, será baseada na observação de quatro crianças de 5 a 8 anos de idade diagnosticadas com autismo. A previsão é que Roceli defenda sua tese em fevereiro de 2018.

Como aponta o pesquisador, os fantoches em desenvolvimento se diferenciam dos brinquedos eletrônicos comercializados atualmente devido ao seu foco na utilização no processo de ensino-aprendizagem. “Temos muitos brinquedos que reproduzem áudio, luz, mas que não são pensados para essa aplicação na educação. Essa que é a grande inovação dessa tecnologia”, salienta, lembrando o pioneirismo do dispositivo mesmo em nível mundial.

O trabalho é realizado no âmbito do grupo de pesquisa Tecnologia em Educação para Inclusão e Aprendizagem em Sociedade (Teias). Coordenado por Liliana, o grupo investiga o uso de tecnologias na educação para a promoção de processos inclusivos. A concepção do projeto eletrônico é realizada no Laboratório de Robótica e Sistemas Embarcados (Larose), sob coordenação do professor da Escola de Engenharia Renato Ventura.  A tese de Roceli é orientada pela professora do Instituto de Informática Magda Bercht.

Roceli Lima segura uma pequena mochila de pano e uma placa Arduino conectada a uma bateria

Placa Arduino na qual foi programado o fantoche fica localizada em uma mochilinha que é colocada no brinquedo – Foto: Gustavo Diehl/UFRGS

 

Possibilidades de uso

Os pesquisadores pretendem disponibilizar a tecnologia dos fantoches eletrônicos por meio de kits compostos por elementos intercambiáveis, de forma que os professores, ou quaisquer outros interessados, possam aproveitar os componentes eletrônicos para criar seus próprios personagens e histórias. “Também podem usar garrafas PET, sucata… Não tem limite. Pode colocar o sensor na roupa, tu pode ser parte da brincadeira”, comenta Liliana.

O recurso poderá ser adaptado ao contexto e às necessidades do usuário, com possibilidade de utilização em atividades das mais variadas disciplinas com alunos de diversas idades. “Essa é característica que acho mais interessante. Mais do que pensar uma tecnologia que possa ser usada na escola somente com aquele viés, a gente está pensando em uma tecnologia que vai se adequar às diferentes práticas pedagógicas. Claro que demanda esforço, planejamento, mas, por outro lado, a escola não precisa ter um kit por aluno ou um kit por turma. Uma escola mais carente pode ter apenas um kit, por exemplo”, explica a professora.

A versatilidade do dispositivo foi explorada, ao longo do primeiro semestre deste ano, por estudantes de graduação da disciplina Tecnologia de Comunicação Alternativa, oferecida na Faculdade de Educação a estudantes de diversas licenciaturas e do curso de museologia. Os alunos construíram, artesanalmente, objetos e personagens e planejaram histórias com o fantoche para serem usadas em práticas pedagógicas inclusivas. A tecnologia disponível foi adaptada para trabalhar diversos temas: foram criadas atividades com o objetivo de ensinar os numerais e as horas, de trabalhar a diversidade e a inclusão e até de falar sobre os elementos químicos.

Atualmente, o kit completo, com peças compradas de forma avulsa, custa cerca de 270 reais, mas pesquisas conduzidas na Escola de Engenharia devem levar à redução desse valor. Voltados, principalmente, à miniaturização dos componentes eletrônicos, esses trabalhos devem possibilitar a redução de custos para menos de 90 reais por kit.

Os pesquisadores pretendem também, até fevereiro do próximo ano, disponibilizar um manual de como desenvolver uma prática educativa com essa tecnologia. Pensam, ainda, em realizar oficinas para a formação de professores, nas quais será trabalhado todo o processo, desde a criação das histórias e dos objetos até a apresentação em sala de aula. As histórias já criadas – duas pela equipe de pesquisa e mais nove desenvolvidas pelos alunos da disciplina Tecnologia de Comunicação Alternativa – também estarão disponíveis online.

Outro desdobramento da pesquisa decorre do convênio com a Pontificia Universidad Javeriana, de Bogotá, Colômbia. Em setembro, dois alunos da graduação em Pedagogia partem para o país, onde ficarão 11 meses para ensinar os pesquisadores de lá a reproduzir a tecnologia dos fantoches eletrônicos e a utilizá-la pedagogicamente. Nesse período, os estudantes também farão trabalhos em parceria com uma escola local, na qual utilizarão os fantoches para contação de histórias para crianças autistas. Liliana foi à Bogotá no início do ano para trabalhar as questões metodológicas, enquanto a formação da equipe técnica que fará parte do projeto ficou por conta de Roceli e Renato Ventura.

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