Pesquisadores desenvolvem nova dieta para o estudo da obesidade em modelos animais

O trabalho, que também comparou os efeitos de diferentes tipos de dieta no organismo, destacou os impactos de alimentos ultraprocessados sobre a microbiota intestinal
hambúrguer e salada
Pesquisa apontou ainda a influência do açúcar, do sal e das fibras no desenvolvimento do sobrepeso - Foto: Michael Stern/Flickr - CC BY-SA 2

A obesidade é um problema de saúde pública de dimensões crescentes. Em 2015, segundo estudo publicado na revista médica New England Journal of Medicine, a condição atingia mais de 603 milhões de adultos e de 107 milhões de crianças em todo o mundo. A mesma pesquisa revela que o percentual de pessoas obesas dobrou em 73 países desde 1980. No Brasil, conforme dados do Ministério da Saúde, uma em cada cinco pessoas está acima do peso recomendado, e a prevalência da obesidade passou de 11,8%, em 2006, para 18,9%, em 2016. O crescimento da obesidade também pode ter colaborado para o aumento da prevalência de diabetes e hipertensão, entre outras enfermidades que estão diretamente relacionadas ao excesso de peso.

Dada a relevância da questão, é essencial que cientistas disponham de modelos confiáveis para o estudo dos mecanismos e dos efeitos da obesidade no organismo. Para as pesquisas que demandam a utilização de animais – como ratos e camundongos, por exemplo –, é bastante comum alimentá-los com dietas específicas que induzam o aumento de peso, possibilitando que os pesquisadores observem, no ambiente controlado do laboratório, as diversas variáveis relacionadas à obesidade.

Atualmente, as duas dietas mais utilizadas nesses casos são a Dieta Hiperlipídica, baseada numa alimentação com alto teor de gordura, e a Dieta de Cafeteria – na qual são comprados diferentes tipos de alimentos industrializados, como chocolates, biscoitos, salgadinhos, queijos, etc. Ambas, entretanto, são alvos de questionamentos em relação à sua efetividade e à falta de padronização, que pode influenciar nos resultados obtidos por cada grupo de pesquisa. No caso da Dieta Hiperlipídica, o teor de gordura dos alimentos pode variar de 20% a 60%. A Dieta de Cafeteria, por sua vez, além de estar sujeita a variações em relação aos alimentos encontrados em cada país, mesmo em nível regional, não possui padronização. Como comenta Rafael Bortolin, doutorando no Programa de Pós-graduação em Bioquímica da UFRGS, mesmo dentro da Universidade, diferentes grupos utilizam protocolos bem variados entre si.

Foi com a intenção de eliminar as desvantagens dessas dietas obesogênicas que Bortolin se dedicou a desenvolver uma nova dieta para a indução de obesidade em animais, chamada Dieta Ocidental. Baseada nos parâmetros de consumo de adultos dos Estados Unidos – país em que 70,7% das pessoas com mais de 20 anos possuem obesidade ou sobrepeso, conforme o Centro Nacional de Estatística em Saúde dos Estados Unidos –, a dieta teve sua efetividade testada a partir da comparação com as dietas Hiperlipídica e de Cafeteria. Os resultados do estudo, que faz parte da pesquisa de doutorado de Bortolin, foram publicados na revista International Journal of Obesity.

A Dieta Ocidental contém alto teor de açúcar, de gordura e de sal e baixa quantidade de fibras. Em termos de macronutrientes, é similar à Dieta de Cafeteria. Diferente desta, no entanto, a dieta desenvolvida por Bortolin não é composta por alimentos industrializados; é como uma ração produzida à mão. Além disso, a Dieta de Cafeteria envolve alimentos ultraprocessados, com muitos conservantes e aditivos químicos e deficientes em vitaminas, minerais e proteínas – o que não é o caso da Dieta Ocidental.

Para testar a efetividade de sua dieta, Bortolin e seu grupo de pesquisa (outros nove pesquisadores participaram do estudo) dividiram 48 ratos em quatro grupos e alimentaram cada grupo com uma dieta diferente – Hiperlipídica, de Cafeteria, Ocidental e uma dieta-controle – por 18 semanas. De fato, como previa a hipótese inicial, a Dieta Ocidental foi a que se mostrou mais efetiva para a indução da obesidade: os animais alimentados com ela foram os que mais ganharam peso e acumularam gordura, apesar de o consumo de calorias ter sido mais elevado entre os que comeram a dieta de cafeteria (provavelmente devido à palatabilidade da dieta, considerada a mais apetitosa pelos ratinhos).

Também se percebeu que a dieta rica em gorduras foi a que menos interferiu nos parâmetros avaliados, não induzindo nem à obesidade e nem às demais disfunções associadas ao excesso de peso. A baixa palatabilidade dessa dieta teve um papel importante nessa questão – entre as três, foi a que os ratos menos sentiam vontade de comer. Porém, mais do que isso, como aponta Bortolin, os resultados indicam que o alto teor de açúcar e a baixa quantidade de fibras talvez desempenhem um papel mais determinante para o desenvolvimento da obesidade do que a gordura.

 

Alimentos ultraprocessados e microbiota intestinal

Também chama a atenção os efeitos observados da Dieta de Cafeteria sobre a microbiota intestinal, o ecossistema de microorganismos que vive no trato digestivo de todos os animais (incluindo os humanos). O estudo demonstrou que o alto consumo de alimentos ultraprocessados causa um desequilíbrio na microbiota intestinal mais severo do que o observado com as outras duas dietas, sendo que a diversidade de microorganismos caiu pela metade nos ratos alimentados com a Dieta de Cafeteria. Isso ocorre, provavelmente, devido à grande quantidade de conservantes e à falta de nutrientes importantes nos alimentos industrializados.

Essa mudança na microbiota, chamada disbiose, tem sido relacionada a diversas doenças, incluindo diabetes, obesidade e enfermidades relacionadas ao sistema nervoso. “Imagino que boa parte dos efeitos que a gente vê nesse grupo que a gente chamou de Dieta de Cafeteria ocorre devido a essa alteração na microbiota. Por exemplo, já se sabe que existe uma relação entre a microbiota e o fígado, e a gente consegue ver que os fígados desses animais estão muito alterados. Talvez até mais do que os da dieta que a gente desenvolveu”, comenta Bortolin.

Como ressalta o pesquisador, a Dieta de Cafeteria se mostrou adequada para estudar os efeitos de alimentos ultraprocessados no corpo, e não a obesidade propriamente dita. “O que acontece é que essa dieta não é padronizada. Então, quando eu desenvolvo ela aqui, os animais comem alimentos diferentes dos animais de outras regiões do mundo, porque os alimentos que tem nessas regiões são outros. Assim, nossos animais do grupo Cafeteria podem não ter desenvolvido a obesidade, mas animais de outras regiões, sim. E talvez pesquisadores que obtiveram animais obesos com essa dieta cheguem à conclusão de que os efeitos observados nos animais são devido à obesidade. Mas a gente conseguiu ver neste trabalho que eles não podem afirmar isso, pois os efeitos podem ocorrer devido à alta quantidade de aditivos alimentares presentes nessa dieta, e não à obesidade”, destaca.

Outros estudos já haviam comparado os efeitos das dietas de Cafeteria e Hiperlipídica sobre diversos parâmetros – alguns com resultados diferentes dos obtidos por Bortolin, devido aos distintos protocolos adotados. Esse foi, contudo, o primeiro a comparar os efeitos das dietas sobre a microbiota intestinal. Assim, o doutorando ressalta a importância de se selecionar a dieta em função do que se pretende estudar, sendo que a Dieta Ocidental proporcionaria um modelo mais confiável para o estudo da obesidade. Agora, os pesquisadores do Centro de Estudos em Estresse Oxidativo da UFRGS, do qual Bortolin faz parte, botam em prática o conhecimento adquirido com esse estudo para desenvolver novas pesquisas relacionadas à obesidade, já utilizando o protocolo da Dieta Ocidental.

 

Artigo científico

BORTOLIN, R C et al. A new animal diet based on human Western diet is a robust diet-induced obesity model: comparison to high-fat and cafeteria diets in term of metabolic and gut microbiota disruption. International Journal Of Obesity, 2017.

Leia também: