Pesquisadores divulgam a mais completa referência para sinais sonoros emitidos por morcegos brasileiros

O estudo dos sons que produzem é fundamental para ampliar o conhecimento sobre as espécies
rosto de morcego de cabeça para paixo
Projeto reuniu informações sobre oito das nove famílias de morcegos existentes no Brasil - Foto: Klaus Stiefel/Flickr CC 2.0

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil é o país mais biodiverso do mundo, com uma fauna rica e diversificada. Existem mais de 100 mil espécies de invertebrados e quase 9 mil de vertebrados no país. Entre esses, são 720 espécies de mamíferos, grupo que inclui os morcegos. Recentemente publicado na revista científica Mammal Research, o artigo intitulado Who’s calling? Acoustic identification of Brazilian bats mostra os resultados da pesquisa que compilou os sons produzidos por espécies de morcegos existentes na fauna brasileira. O trabalho contou com a colaboração de pesquisadores de diferentes universidades, sendo eles Adriana Arias-Aguilar (UFRGS), Frederico Hintze (UFPE), Ludmilla M. S. Aguiar (UnB), Vincent Rufray (Biotope), Enrico Bernard (UFPE) e Maria João Ramos Pereira (UFRGS).

O projeto reuniu informações sobre oito das nove famílias de morcegos existentes no Brasil (Emballonuridae, Furipteridae, Molossidae, Mormoopidae, Natalidae, Noctilionidae, Thyropteridae e Vespertilionidae), considerando 93 dentre as 180 espécies de morcegos registradas no país. As espécies da nona família (Phyllostomidae), que não foi pesquisada, emitem sons de alta frequência e muito semelhantes entre si. Por não haver uma definição de outros parâmetros acústicos que permitam distinguir as espécies pelo som, elas não foram englobadas dentro desse estudo. A necessidade de produzir mais informações sobre esses animais se torna óbvia a partir de uma das maiores dificuldades encontradas pelos pesquisadores: entre essas espécies, somente 65 eram descritas acusticamente na literatura, sendo que das demais 28 não havia qualquer dado disponível que permitisse essa descrição. “Temos uma grande lacuna de conhecimento sobre a diversidade de vários grupos de animais no Brasil. Há muita falta de conhecimento sobre ocorrência e distribuição de espécies, e os morcegos não são uma exceção a esse padrão”, afirma Maria João Ramos Pereira, uma das integrantes do projeto de pesquisa. Esse tipo de amostragem, o monitoramento acústico, é importante para detectar espécies que são difíceis de observar e capturar. Os morcegos, sendo animais noturnos e voadores, são praticamente impossíveis de ver ativos no campo.

Para captar e descrever os sons desejados, existem duas opções: capturar o animal e gravá-lo após soltura ou realizar uma abordagem mais passiva, deixando detectores de ultrassom em áreas onde se acredita que essas espécies estejam presentes, gravando os sons dos morcegos durante a noite. Ambas as abordagens foram conduzidas pelos pesquisadores ao longo dos anos em vários outros projetos que realizaram. As gravações vêm de estados como Tocantins, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Pernambuco, incluindo áreas preservadas ambientalmente e regiões urbanas. Essas gravações foram posteriormente utilizadas para apresentar os sonogramas e os parâmetros dos chamados sonoros das espécies descritas no artigo. Os pesquisadores utilizaram dados obtidos na Guiana Francesa e na Costa Rica para espécies que sabiam ou acreditavam existir no Brasil, mas para as quais não tinham obtido dados no nosso país. Aos sons coletados por eles, foram adicionados dados de outros autores, obtidos através de uma extensa pesquisa bibliográfica.

Já que a maior parte da informação acústica dessas espécies foi retirada de pesquisas estrangeiras, era importante considerar possíveis mudanças nos sons produzidos de acordo com a região em que se encontram. Quando possível, essas informações foram comparadas com dados obtidos no próprio país. Os valores apresentados pelos autores da pesquisa são descrições gerais dos padrões de chamados das famílias e espécies mais estudadas. Enquanto a amostragem acústica é comum em outros países, no Brasil poucos trabalhos foram realizados até hoje utilizando essa metodologia. “Tem sido muito pontual, e nós acreditamos que tem muito a ver com o fato de as pessoas sentirem que ainda não conseguem fazer a identificação das espécies por meio do som”, afirma Maria João.

detector de ultrassons

Detector de ultrassons instalado no bioma Cerrado – Foto: Adriana Arias-Aguilar

Mas que sons são esses?

Os morcegos utilizam a ecolocalização para se orientar no espaço e identificar presas e alimentos. Os animais emitem ondas ultrassônicas que refletem no alvo e retornam na forma de eco, permitindo a detecção da posição e da distância de objetos no seu entorno. Essa capacidade biológica é essencial em situações em que a visão é insuficiente, como durante a noite. Esses sinais que são utilizados para identificar os morcegos, sendo específicos para cada espécie e podendo mudar até mesmo dependendo da região. Como são inaudíveis para o ser humano, captar os sons produzidos por eles requer equipamentos e softwares especiais.

As ondas de som possuem vários parâmetros físicos que as tornam únicas e auxiliam na diferenciação entre as espécies: como a frequência, o intervalo entre os pulsos, entre outros. O principal parâmetro analisado é a frequência de máxima energia: a frequência do som em que é colocada mais energia, como se fosse a parte do som em que o volume é mais alto. Posteriormente, essas ondas acústicas capturadas podem ser representadas em gráficos (sonogramas e oscilogramas) para mais fácil visualização. Para as espécies que não possuíam dados disponíveis, o trabalho foi mais complicado. “Para conseguir atribuir um som a uma espécie, primeiro temos de capturar o animal para garantir que aquele som é realmente emitido por ela. Dentro da família e do gênero, nós podemos estimar parcialmente como será o som, mas não podemos afirmá-lo com certeza”, explica a pesquisadora.

Sons dos morcegos das espécies “Cormura brevirostris” (acima) e “Eumops-perotis”

 

E para que servem?

O trabalho de identificação acústica auxilia o monitoramento da presença de espécies, além de criar um inventário desses sons que pode ser utilizado em outras pesquisas. Afora o fato de melhorar o conhecimento sobre os morcegos, responsáveis por vários serviços importantes no ecossistema (como a polinização de flores, a dispersão de sementes e o controle de populações de insetos), o monitoramento pode auxiliar a sua conservação, possibilitando a identificação de áreas prioritárias para preservação de biodiversidade e influenciando em questões de licenciamento ambiental para grandes obras que perturbam a fauna da região.

Os sons captados pela equipe podem ter diversos usos. Por exemplo, os chamados experimentos de playback utilizam os sons emitidos por um animal para atrair um indivíduo da mesma espécie ou para esperar uma resposta dele como uma maneira de determinar a presença ou ausência dessa espécie no local. No caso de outros animais, como aves e anfíbios, esse tipo de abordagem já é comum. Para os morcegos, entretanto, é preciso um equipamento específico para chamá-los e ouvi-los. Os arquivos de sons capturados nesse projeto foram disponibilizados online para acesso público. A partir deles, existem diversos softwares gratuitos que podem gerar gráficos na internet.

A pesquisadora espera que ainda mais trabalhos sejam realizados utilizando a amostragem acústica. “Acredito que possa servir de base e apoio para outros pesquisadores que estão trabalhando com esse tipo de informação ou que ainda não tiveram coragem de avançar para ela e que possam usufruir do nosso trabalho nesse sentido”, expressa. O grupo aponta a importância da criação de uma extensa biblioteca de sons desses animais, além de manter as bibliotecas que já existem sempre atualizadas. Atualmente, a Macaulay Library, da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, é a maior biblioteca de sons de vida animal disponível ao público. Em âmbito nacional, o Laboratório de Evolução, Sistemática e Ecologia de Aves e Mamíferos da UFRGS pretende dar continuidade a projetos como esse, tanto dentro da faculdade como com parcerias, como a que foi realizada nessa pesquisa. No futuro, destaca Maria João, é preciso continuar o trabalho de amostragem acústica dos morcegos, gerando mais informação e completando a lacuna no conhecimento sobre as inúmeras espécies desse animal no Brasil.

 

Artigo científico

ARIAS-AGUILAR, Adriana et al. Who’s calling? Acoustic identification of Brazilian bats. Mammal Research, 23 abr. 2018

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