Pesquisadores descobrem registro mais antigo de dentição que atualmente só se encontra em mamíferos

O dente data de cerca de 235 milhões de anos atrás e pertence a uma espécie de cinodonte, que viveu milhões de anos antes dos primeiros mamíferos herbívoros
Osso do maxilar e dentes de cinodontes
Pesquisa incluiu fósseis com mandíbulas e dentes isolados reunidos entre 1995 e 2008 - Imagem: divulgação

A dentição hipsodonte, caracterizada pelo crescimento mais prolongado, foi encontrada em um parente distante dos mamíferos, um cinodonte da espécie Menadon besairei. Os cinodontes são espécies primitivas que povoaram a Terra durante o período Triássico, entre 200 e 250 milhões de anos atrás, antes dos dinossauros. Nessa época, todos os continentes estavam unidos em um só, chamado Pangeia. O fóssil dessa espécie foi primeiramente achado na costa leste da África, mas também estava presente em uma área correspondente ao interior do Rio Grande do Sul atual.

Os dentes hipsodontes, em alguns casos, podem crescer durante toda a vida. Roedores, cavalos, vacas e bichos-preguiça são exemplos de animais atuais que têm esse tipo de dentição. Ao longo da história dos mamíferos, essa característica dentária apareceu em diferentes grupos, mas é principalmente presente em herbívoros. Esses sofrem com o desgaste dos dentes devido à necessidade de maior mastigação do que espécies carnívoras. A presença da dentição hipsodonte também está conectada a uma dieta abrasiva e a um ambiente árido. A poeira e a areia também podem aumentar o desgaste dos dentes e prejudicar a capacidade de os animais se alimentarem, o que não acontece devido ao fato de tal tipo de dentição continuar crescendo, como descreve o doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geociências da UFRGS Tomaz Melo, um dos responsáveis pela pesquisa.

comparação de crânio e dentes de Menadon e de bicho-preguiça

À esquerda, crânio e dentes de um Menadon. À direita, ossos de um bicho-preguiça (Bradypus)

A descoberta foi relatada em artigo publicado nesta sexta-feira, 28 de junho, na revista científica Nature Communications. “Nosso trabalho mostra que a hipsodontia já ocorria antes mesmo do surgimento dos mamíferos. É o registro mais antigo e o único até o momento fora dos mamíferos”, explica Melo. Foi através de comparações com espécies fósseis e atuais que esse dente foi encontrado e categorizado. Foram vários fósseis: 15 indivíduos incompletos com crânio ou mandíbula e mais de 20 dentes isolados, reunidos entre 1995 e 2008 por três instituições de pesquisa. Os espécimes brasileiros foram coletados em Santa Cruz do Sul e guardados nas coleções científicas da UFRGS, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul e da PUCRS. Antes, o fóssil mais antigo com dentes hipsodontes conhecido era de um mamífero que viveu pelo menos 70 milhões de anos depois do Menadon. Os mamíferos são os únicos sobreviventes da linhagem Synapsida, da qual os cinodontes também fazem parte. Apesar de não possuírem certas características presentes em animais da classe Mammalia (como os três ossículos da orelha média, a dentição de leite e permanente, a lactação e a distinção entre pré-molares e molares), os cinodontes são os mais parecidos com os mamíferos dentro dessa linhagem.

Dentes como os nossos, chamados de braquiodontes, possuem um crescimento finito. Eles se formam dentro do osso e erupcionam na boca sem ter a raiz completamente formada. Quando isso acontece, a coroa dentária (a parte externa) já não se desenvolve mais e, assim que a raiz for desenvolvida, o dente para de se alongar. A hipsodontia é uma adaptação evolutiva a dietas e ambientes que propiciam maior desgaste, e é esse crescimento diferenciado que possibilita que os animais continuem se alimentando. Diferentemente do que os cientistas acreditavam antes, os mamíferos não foram os primeiros com dentes hipsodontes. “Os cinodontes herbívoros que eu estudo são bem distantes da linhagem que deu origem aos mamíferos e, quando surgiram os primeiros mamíferos herbívoros, esses cinodontes herbívoros já estavam extintos há milhões de anos”, esclarece Melo. A evolução desse tipo de dentição no Menadon está ligada ao ambiente árido em que vivia no Triássico, muitas vezes caracterizado pela presença de poeira ou areia recobrindo a vegetação.

Ilustração de um cinodonte adulto, com seus filhotes à beira de um lago com diversos predadores ao seu redor

Reconstrução de uma paisagem, do Triássico, com o cinodonte “Menadon besairiei” com seus filhotes ao centro, sendo seguidos por um bando de “Santacruzodon hopsoni”. À esquerda, um “Dagasuchus santacruzensis”, réptil carnívoro como o “Chanaresuchus bonapartei” (atrás da árvore) – Ilustração: Voltaire Paes Neto/Pesquisa Fapesp

Artigo científico

MELO, Tomaz P. et al. Early evidence of molariform hypsodonty in a Triassic stem-mammal. Nature Communications, 28 jun. 2019.

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