Pesquisadores estudam o efeito neuroprotetor da guanosina em ratos com lesões no fígado

A substância produzida em nosso organismo diminuiu a progressão de doenças e a taxa de óbito dos animais estudados
Cientista segurando uma pipeta e um tubo de ensaio
Conforme os pesquisadores, a guanosina promove a neuroproteção de danos causados por substâncias tóxicas, além de agir como antioxidante - Foto: Ramon Moser/UFRGS-Arquivo

O glutamato, um aminoácido que age como neurotransmissor e repassa o estímulo elétrico entre as células neurais, é essencial para a vida em condições normais. Se torna tóxico, porém, em grande quantidade, principalmente quando há doenças cerebrais como isquemia, Alzheimer, Parkinson, entre outras. Em estudo publicado na revista Molecular Neurobiology, um grupo de pesquisadores da UFRGS e da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) observou que uma substância chamada guanosina aumentou a retirada do glutamato das regiões lesadas e diminuiu a progressão de doenças e a taxa de óbito em ratos.

Produzida pelo nosso organismo, a guanosina promove a neuroproteção de danos causados por substâncias tóxicas. Conforme as pesquisas, ela também age como um antioxidante, prevenindo o aumento de radicais livres, que são prejudiciais e crescem ao mesmo tempo em que o nível de glutamato aumenta. Foi observado que a guanosina diminuiu a concentração de glutamato no líquor – líquido que banha as meninges do cérebro, circula pela medula espinhal e fornece informações de substâncias que entram e saem das células neurais. “Coletamos o líquor e avaliamos alguns aminoácidos, entre eles o glutamato. O interessante foi que a guanosina preveniu o aumento do glutamato e diminuiu a toxicidade, fato que provavelmente está relacionado à sobrevida desses ratos”, comenta o pós-doutorando Adriano Assis.

Na pesquisa, foi analisada a Encefalopatia Hepática, doença causada por lesões no fígado ocasionadas, por exemplo, pela intoxicação por paracetamol (a quantidade máxima que deve ser ingerida por dia é de apenas três gramas, ou quatro comprimidos) ou por excesso de amônia. “O fígado tem a função de desintoxicação. Uma das principais substâncias que o fígado desintoxica é a amônia. Quando sua quantidade fica elevada no sangue, chega ao cérebro e causa a encefalopatia”, explica o pesquisador.

O grupo injetou a guanosina nos ratos, aguardou 25 minutos e injetou acetato de amônia, com o objetivo de provocar a intoxicação e avaliar os efeitos da substância no organismo. A injeção de água no grupo-controle foi feita para que ele tivesse o mesmo estresse do grupo que recebeu a guanosina, para confirmar que o problema não é o estresse causado pela injeção em si. Além do placebo, esses ratos receberam também a injeção de amônia. “Observamos que, em ambos os grupos, os animais entraram em coma. Entretanto, o tempo de coma do grupo que recebeu a guanosina foi reduzido pela metade, e a morte desses ratos também foi 50% menor. O que recebeu apenas água e amônia permaneceu mais tempo em coma e mais animais vieram a óbito”, relata Adriano.

Para confirmar esses dados, foram colocados eletrodos no córtex cerebral dos animais cinco dias antes das injeções e depois foi feito um eletroencefalograma. Em outro experimento, os pesquisadores retiraram o córtex, incubaram-no com glutamato e observaram quanto dessa substância foi incorporada ao tecido. Adriano explica que “quando se tem muito glutamato, provavelmente é porque o tecido está captando menos. A guanosina diminuiu essa quantidade no líquor e aumentou a captação da substância pelo tecido”.

O pesquisador comenta que existem outras pesquisas que trabalham com fármacos que aumentam os transportadores de glutamato. “Sabe-se que a guanosina aumenta a atividade desses transportadores, mas não a quantidade.” Ele salienta que o estudo foi o primeiro que mostrou a diminuição da morte dos animais, mas como o mecanismo da guanosina ainda não é completamente conhecido, ainda é cedo para se pensar em estudos clínicos feitos diretamente em humanos.

Entre os próximos projetos do grupo, está o artigo em que se estabelece um modelo de encefalopatia hepática por cirurgia e se retira 92% do fígado dos ratos. “Nesse estudo, os animais tendem a morrer de 24 a 40 horas, o que nos dá uma janela terapêutica para estudarmos melhor os mecanismos”, resume Adriano.

 

Artigo científico

CITTOLIN-SANTOS, G. F. et al. Guanosine exerts neuroprotective effect in an experimental model of acute ammonia intoxication. Molecular Neurobiology6 abr. 2016.

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