Pós-graduação em Ciências Biológicas estuda mecanismos e tratamentos de doenças raras

Mucopolissacaridoses são objeto de pesquisa nos departamentos de Fisiologia e Genética da Universidade
Pesquisadores trabalham com abordagens terapêuticas baseadas em terapia gênica - Foto: Gustavo Diehl/UFRGS

Pertencentes ao grupo das doenças lisossômicas, as mucopolissacaridoses (MPS) são um conjunto de onze enfermidades hereditárias muito raras. Com incidência de uma em cada cem mil pessoas, as MPS são caracterizadas por modificações nos genes que codificam as enzimas responsáveis pela degradação de glicosaminoglicanos (GAGs, também conhecidos como mucopolissacarídeos) – açúcares de consistência viscosa que garantem o bom funcionamento das articulações de nosso corpo. Assim, a falta ou deficiência dessas enzimas podem causar deformação nos ossos, aumento de órgãos e limitação articular, além de atingir funções auditivas, visuais e respiratórias, podendo inclusive comprometer o Sistema Nervoso Central.

Professor adjunto do Departamento de Fisiologia e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da UFRGS, Guilherme Baldo tem se dedicado ao estudo da MPS tipo I. Seguindo duas linhas de pesquisa, Baldo atua nos campos da genética e da fisiologia. Em sua tese de doutorado, intitulada Mucopolissacaridoses: mecanismos patogênicos e abordagens terapêuticas baseadas em terapia gênica e reposição enzimática, além de estudar novos tratamentos, o pesquisador procura entender os mecanismos da doença e as causas das anomalias apresentadas pelos portadores de MPS. A pesquisa foi orientada por Roberto Giugliani e Ursula Matte, que também integram outros projetos com Baldo.

Inicialmente, pacientes com MPS I eram tratados apenas por meio de um suporte geral, que inclui fisioterapia, cirurgias e medicações. No entanto, essa assistência é uma maneira de melhorar a qualidade de vida, e não uma cura. Posteriormente, foram desenvolvidos dois tratamentos que são, hoje, os principais: o transplante de células-tronco hematopoiéticas e a terapia de reposição enzimática. O primeiro é feito através de um transplante de medula. Reconstituindo o sistema hematopoiético, as células transplantadas, que produzem as enzimas antes ausentes, podem circular e distribuí-las a outros órgãos e sistemas do corpo. Esse método é utilizado para crianças de menos de dois anos de idade com a forma mais grave de MPS, para que se possam preservar as funções neurológicas. Contudo, no Brasil, devido ao diagnóstico tardio, isso muitas vezes não é possível.

Já a terapia de reposição enzimática consiste na substituição ou suplementação das enzimas ausentes ou deficientes. Aprovada em 2003, a reposição pode ser feita semanal ou quinzenalmente. Ensaios clínicos de 2007 apontaram uma redução nos volumes do fígado e do baço, bem como uma melhora na capacidade pulmonar. Estudos posteriores, no entanto, descreveram pouca ou nenhuma melhora nas articulações. Além de não ter 100% de eficácia, a terapia também apresenta outro problema: o custo. Com uma média de 500 mil reais anuais por paciente, no Brasil muitas vezes é preciso entrar na justiça para que se garanta o acesso às enzimas, o que, por questões burocráticas, pode acarretar a interrupção temporária do tratamento.

A alternativa estudada pelo grupo de pesquisa do qual Baldo faz parte é a terapia gênica. Esse método, bastante polêmico, ainda não é usado em hospitais, pois sua segurança não foi comprovada. No entanto, desde a época em que surgiu, em meados da década de 1970, os testes feitos em laboratórios têm apresentado avanços. Também conhecido como geneterapia, esse tratamento consiste na correção do gene defeituoso responsável pela doença. Há duas maneiras de se realizar a terapia gênica: in vivo (com animais) e ex vivo (com órgão e/ou tecidos retirados de seres vivos). Nos testes feitos para sua pesquisa de doutorado, Baldo utilizou o método in vivo, num procedimento em que um vírus, carregando o gene de interesse, foi inserido em camundongos. Houve melhora no aspecto cerebral da doença em experimentos tanto com terapia gênica quanto com reposição enzimática. Os camundongos testados demonstraram boas performances em testes comportamentais e o nível de mucopolissacarídeos nos tecidos foi reduzido. Entusiasta da terapia gênica, o pesquisador acredita que o estudo é muito importante, pois, se comprovada a sua eficácia no tratamento da MPS, existem chances de que ela funcione com outras doenças genéticas também.

Atualmente, Guilherme Baldo integra duas pesquisas sobre o assunto. Financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, Inibição da catepsina B como terapia para MPS I conta com a coordenação de Ursula Matte e participação de Roberto Giugliani, Fillipo Vairo e Talita de Carvalho. Uso do sistema CRISPR/Cas9 para correção de mutações em erros inatos do metabolismo tem a coordenação de Baldo e o auxílio de estudantes de graduação, mestrado e doutorado.

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