Processos de conservação das sementes crioulas são tema de tese de doutorado

Pesquisadora estudou os meios pelos quais o conhecimento acerca das variedades crioulas é construído e compartilhado e sua vinculação com aspectos ecológicos, culturais e afetivos
Milhos crioulos de cores diversas
Feiras de trocas de sementes estão entre os principais espaços de compartilhamento de conhecimento acerca das sementes crioulas - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O mercado de sementes movimenta R$ 10 bilhões ao ano no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem). Com a terceira maior indústria do mundo no setor, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, o mercado brasileiro de sementes cresceu 122% em dez anos, passando de 1,8 milhão de toneladas na safra 2005/06 para 4 milhões em 2015/16. Comercializadas geralmente em pacotes tecnológicos que incluem a prestação de serviços e a aquisição de insumos químicos, as sementes híbridas e transgênicas têm, entre seus principais apelos, o aumento da produtividade – a Abrasem, inclusive, aponta a indústria como principal responsável pelo crescimento da produtividade agrícola no país.

Não são poucos, entretanto, aqueles que questionam esse modelo de negócios. Diversos pesquisadores, organizações sociais, ecologistas e trabalhadores rurais têm denunciado práticas monopolistas entre as empresas detentoras das patentes de sementes e forte pressão sobre os agricultores para aquisição das sementes transgênicas, como relatado na reportagem do site Repórter Brasil. Aponta-se, ainda, que a homogeneização de práticas promovida pela indústria, que não leva em consideração especificidades ambientais e culturais, pode ocasionar a redução da biodiversidade e a perda do conhecimento tradicional.

Também não são poucas as famílias de agricultores que, apesar da disseminação das sementes comerciais híbridas e transgênicas, resistem como guardiãs de sementes crioulas, realizando a conservação da agrobiodiversidade. Compartilham conhecimentos, práticas e crenças, organizam-se em associações e estabelecem redes e parceiros, buscando soluções para suas próprias demandas. Entender como se dá a conservação das sementes crioulas pelos agricultores do Rio Grande do Sul, que práticas estão envolvidas nesse processo e como elas se vinculam a aspectos ecológicos, culturais e afetivos foi o objetivo da pesquisadora Viviane Camejo durante seu doutorado, defendido no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Rural da UFRGS.

A semente crioula é aquela cujo germoplasma vem sendo multiplicado por agricultores através do tempo. Pode ser original do próprio local em que vem sendo cultivada, de outras regiões ou até de outros países. Seu cultivo in loco conduz à adaptação ao ambiente em que se encontra, o que ocorre como resultado da seleção natural, da seleção artificial pelo agricultor ou da combinação de ambas. As sementes crioulas não tiveram sua estrutura genética modificada pela indústria, em um processo de melhoramento genético, e não são, consequentemente, patenteadas por nenhuma empresa.

Para além de sua definição técnica, entretanto, cada semente crioula traz uma história e possui toda uma relação afetiva com os agricultores que as guardam. “Os guardiões que plantam essas sementes fazem isso há décadas. Elas deixam de ser só um recurso fitogenético. Algumas pessoas dizem que a semente faz parte da família. E cada variedade vai ter uma história com a família: tem sementes que os casais ganharam quando eram noivos ou quando casaram, e seguem sempre plantando a mesma semente. Ela tem toda essa relação mais íntima com a família que faz a guarda dessa variedade crioula. Como me falou uma senhora: ‘eu sei as coisas que ela gosta de comer, eu sei de como gosta do sol, como gosta de ser plantada’. É como se a semente se comunicasse com essas pessoas que fazem a guarda”, relata Viviane, que, para sua tese, realizou uma abordagem etnográfica e conviveu com sete famílias guardiãs de sementes crioulas: três vinculadas à Associação de Guardiões das Sementes Crioulas de Ibarama e quatro que fazem parte da Associação do Agricultores Guardiões da Agrobiodiversidade de Tenente Portela.

A pesquisadora realizou visitas periódicas às famílias entre abril de 2014 e agosto de 2016. No início, passou uma semana hospedada na casa de cada uma delas, com o objetivo de criar proximidade e confiança. Depois, voltou mais algumas vezes para passar alguns dias acompanhando o cotidiano desses agricultores. A coleta de dados foi realizada a partir de entrevistas e da observação das práticas dessas pessoas. “Eu fazia visitas de tempos em tempos, acompanhando como que eles plantavam, como guardavam as sementes, observando o quanto, no dia-a-dia, eles realmente se envolviam com essa questão das sementes. Ficando um tempo com eles, a gente podia ir conversando aos pouquinhos, enquanto eu anotava as coisas que considerava mais importante”, conta Viviane.

 

Conservação das sementes crioulas

Os guardiões são agentes que atuam na conservação das variedades crioulas e da agrobiodiversidade.  Em sua pesquisa, Viviane pôde notar que essa conservação contempla tanto aspectos técnicos – como o local mais apropriado para se manter cada semente, a temperatura ideal e o nível de umidade recomendado – quanto aspectos simbólicos, relacionados às formas de organização dos guardiões e aos meios pelos quais o conhecimento acerca das sementes é construído e compartilhado.

Normalmente, os guardiões se organizam em associações ou cooperativas, nas quais compartilham saberes e práticas. “O grande objetivo dessas associações é a conservação da agrobiodiversidade. Conservam sementes crioulas, mas também mudas de árvores frutíferas, plantas nativas, raças crioulas de animais… Pode-se pensar toda essa conservação da agrobiodiversidade para além das sementes de lavoura”, explica a pesquisadora. A organização em associações também colabora para o fortalecimento desses grupos. “Eles sabem que organizados têm maior acesso a projetos e maior visibilidade”, complementa.

Segundo o Plano Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica (Pleapo), até 2012, o Rio Grande do Sul contava com mais de 140 guardiões, sendo que grupos ou associações, como os existentes em Ibarama e Tenente Portela, que reúnem cerca de 30 famílias cada, foram identificados como um guardião único. Esses guardiões são, em geral, agricultores familiares, camponeses, quilombolas ou indígenas, com distribuição, na época do levantamento, por 29 cidades distribuídas pelo estado, com maior concentração nas regiões sul e central.

Outro ator importante para a conservação das sementes crioulas são os chamados mediadores – instituições públicas, organizações não governamentais, universidades e órgãos de pesquisa que fomentam a criação de associações e fazem a mediação dos guardiões com o Estado. “São parceiros que os ajudam a ter acesso a projetos, a editais, a uma câmara fria, a uma estufa… Coisas que, sozinhos, eles teriam mais dificuldade de conseguir”, explica Viviane. Aqui no Rio Grande do Sul, segundo a pesquisadora, a Emater e a Embrapa são os principais parceiros, mas os guardiões também têm relações próximas com algumas universidades, em especial com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Entre os espaços de compartilhamento de conhecimento acerca das sementes crioulas, destacam-se as feiras promovidas pelas associações de guardiões, a exemplo da Mostra da Agrobiodiversidade de Tenente Portela e do Dia da Troca de Sementes Crioulas de Ibarama. Esses eventos são abertos, e, como relata Viviane, contam com um público bastante diverso: “Além dos guardiões, tem muitas pessoas do meio urbano que vão, curiosos em geral e até pessoas que plantam híbridos ou transgênicos e querem fazer a transição”.

Apesar de também serem feitas vendas, nesses espaços, o que impera é a troca de sementes. “Vejo que os guardiões têm uma espécie de compromisso moral de fazer a troca. Por mais que eles vejam que já têm aquela semente, se aparece alguém que quer trocar, eles vão trocar”, comenta a pesquisadora. Mais do que sementes, entretanto, esses são espaços de intercâmbio de conhecimento e de experiências. “No momento em que se troca uma semente, trocam-se histórias sobre ela, telefone, contatos… Tem, inclusive, vários casos de amizades que surgiram nessas feiras.”

Viviane destaca também a relação de reciprocidade e confiança que se desenvolve entre as famílias guardiãs. “Em algumas regiões, além de trocar sementes, eles vão trocar produtos, alimentos e serviços também com os vizinhos. Principalmente nos locais que plantam fumo, às vezes falta mão de obra porque os filhos mais jovens saíram de casa, e, em muitos casos, fica na propriedade só um casal de idosos. Então, há essa necessidade de relação com as outras famílias. Por exemplo, um dia todos ajudam a família X. Depois, aquela família fica comprometida e, quando outra precisar – para plantar, para colher ou para qualquer outra coisa –, ela vai lá e ajuda também. Há formas de ajuda mútua entre essas famílias, e a gente caracterizou isso como forma de conservação não só das sementes crioulas, mas da agrobiodiversidade como um todo.”

A questão da sucessão familiar e da permanência dos jovens no campo, aliás, está entre as principais preocupações dos guardiões, segundo Viviane. “Existe, por parte de muitos, esse medo de não saber se, na ausência deles, esse trabalho vai continuar. Alguns são mais otimistas e dizem que com ou sem eles vai seguir do mesmo jeito, mas outros são mais pessimistas e se preocupam mais”, relata.

Algumas ações vêm sendo desenvolvidas para estimular o interesse dos jovens e garantir a continuidade do processo de conservação das espécies crioulas, como é o caso do grupo de guardiões mirins de Ibarama, projeto desenvolvido junto a alunos das escolas públicas do município. Criado em 2010, em uma iniciativa de professores e direção das escolas, com o apoio da Emater/RS-Ascar, da Secretaria de Educação municipal, da Associação dos Guardiões de Sementes Crioulas de Ibarama e da UFSM, o projeto tem o objetivo de incentivar o resgate, a conservação e o uso sustentável de cultivares crioulas.

 

Autonomia camponesa e soberania alimentar

O uso de sementes crioulas já foi sinônimo de atraso, e agricultores que não tinham acesso às sementes comerciais foram considerados pobres e ultrapassados. “Muitas das pessoas que fazem a guarda da semente crioula foram criticadas em algum momento da vida por outras pessoas, que cobravam que deixassem sua semente crioula e adquirissem sementes híbridas e, a partir dos anos 2000, transgênicas. E essas pessoas resistiram desde os anos 40, 50 – desde que as sementes híbridas começaram a chegar. Alguns até experimentaram a semente híbrida e viram que não deu certo, mas nunca deixaram de lado sua semente crioula”, comenta Viviane.

O trabalho dos mediadores, como explica a pesquisadora, foi essencial para a valorização das variedades crioulas e o empoderamento dos guardiões. Hoje se reconhece que as sementes crioulas cumprem um papel fundamental para a autonomia das famílias camponesas e para a soberania e a segurança alimentar dessas comunidades. “Da semente crioula, tu alimenta a vaca, as galinhas, os porcos e a própria família. Alimenta todos os seres vivos que vivem ali. a semente crioula não é uma fonte de renda pela sua venda. A renda dela é tu não precisar compra a semente”, relata Viviane. Além disso, muitos dos guardiões vendem alimentos em feiras, de casa em casa ou para merenda escolar, a partir do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Ainda, os produtos decorrentes dos alimentos crioulos podem virar artesanato, como os produzidos com a palha do milho pela Associação das Artesãs de Ibarama.

Entre as famílias entrevistadas para sua pesquisa, Viviane notou que a prioridade é a subsistência. “Primeiro eles comem, depois, o que sobrar é vendido.  Se quiserem ficar meses sem ir ao mercado, ficam. Eles têm uma alimentação bem balanceada e variada a partir das coisas que eles mesmos produzem”, relata. Algumas das famílias contavam com mais de 200 variedades de sementes crioulas, sendo as principais de milho, feijão, hortaliças e cucurbitáceas (família de plantas que inclui a abóbora, o melão, a melancia, a abobrinha e o pepino).

As sementes crioulas possibilitam também uma diminuição significativa dos insumos químicos comprados da indústria – ou até sua não utilização. Por estarem mais bem adaptadas às condições locais de clima e solo, elas são mais resistentes a insetos e à incidência de doenças, bem como a variações climáticas. “Alguns autores já identificaram também que a semente crioula, depois de algumas dezenas de anos, está tão adaptada ao clima e ao lugar em que ela está, que pode vir um evento climático e ela vai se manter”, salienta Viviane.

Outro fator que influencia significativamente na opção pelas sementes crioulas é o sabor dos alimentos. “Eles dizem que o alimento fica melhor se é produzido com semente crioula; que a farinha produzida a partir de semente híbrida, por exemplo, não é tão boa. E também dizem que os animais preferem alimentos oriundos de sementes crioulas; que eles não comem, por exemplo, a moranga produzida com semente híbrida com tanta vontade como comem a que é crioula. E a carne sai também com sabor melhor”, ressalta.

 

Riscos e incertezas da contaminação transgênica

Também é fonte de preocupação dos guardiões de sementes crioulas a contaminação pelos transgênicos. Além das tarefas rotineiras relacionadas às suas lavouras, essas pessoas precisam estar atentas às plantações dos vizinhos, uma vez que existe o risco de as plantas transgênicas, por meio da dispersão e da polinização, cruzarem com as crioulas, transferindo-lhes seu material genético. O milho transgênico e o crioulo, por exemplo, podem até conviver como plantas em algum momento, mas não podem florescer juntos. Assim, o guardião precisa planejar seu plantio de maneira que as plantas dele e as do vizinho floresçam em períodos diferentes. “Nem todos os vizinhos avisam que estão plantando transgênico, mas, como são municípios pequenos, as pessoas se comunicam, alguém comenta. Em alguns casos, os guardiões vão até o vizinho perguntar se ele vai plantar transgênicos. Eles vivem nessa ansiedade de estar cuidando tudo a sua volta para que não haja essa contaminação”, comenta Viviane.

A entrada de genética transgênica nas variedades crioulas pode comprometer o sabor, o jeito e a história da planta. Pesa, ainda, a incerteza acerca dos riscos e dos impactos dos transgênicos no meio-ambiente e na saúde humana e animal. “No Brasil, de modo geral, a gente ainda não entende muito bem o impacto do transgênico na nossa saúde. Há algumas pesquisas, mas a gente ainda não tem uma comprovação científica muito certa. Existe essa incerteza de não saber se o transgênico vai oferecer realmente algum risco, que risco é esse e em quanto tempo. E essa coisa incerta faz com que pessoas optem por dizer não.”

Outro fator que reforça a insegurança está associado ao fato de que a genética transgênica é propriedade de uma empresa. Como o germoplasma transgênico é patenteado, e são cobrados royalties pela sua utilização, existe o risco de as empresas encontrarem meios de fazer os agricultores pagarem pelas sementes contaminadas. “Há esse medo de que não haja a contaminação de jeito nenhum, principalmente pela incerteza. Por tu não saber da empresa como vai ser, tu não saber da tua saúde como vai ser… Então, ficam muito inseguros em relação a isso”, relata a pesquisadora.

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