Projeto entre Brasil e Reino Unido discute a mobilidade urbana saudável

Estudo investigou o impacto das atividades físicas em comunidades de baixa e média renda
mulher andando de bicicleta em uma cidade
Mobilidade urbana saudável é aquela feita com meios não motorizados, por exemplo de bicicleta ou a pé - Foto: Ramon Moser/UFRGS-Arquivo

Pedalar pela cidade pode ser apenas uma atividade de lazer em um fim de semana. Essa prática, porém, pode, muitas vezes, ser incluída no cotidiano como meio de transporte, até mesmo substituindo o carro. Pensando nisso, um grupo de pesquisadores brasileiros e britânicos buscou identificar a relação entre as atividades físicas e a rotina da população de baixa e média renda nos dois países. O projeto foi uma parceria entre a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade de Brasília (UnB) e a Oxford Brookes University, do Reino Unido. Foi financiado pelo Fundo Newton – iniciativa do governo britânico para promover pesquisa, ciência e tecnologia com países parceiros – e pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF).

O estudo é fruto de uma chamada de financiamento de pesquisa colaborativa internacional, feita em 2015 pelo Fundo Newton, para ser usado em projetos entre Brasil e Reino Unido. Teve como inspiração o movimento Cidades Saudáveis da Organização Mundial da Saúde (OMS), criado em 1978, que visa entender como o ambiente urbano afeta a saúde da população e melhorar sua qualidade de vida.

As cidades de Brasília, Florianópolis, Porto Alegre e Oxford (no sul da Inglaterra) foram selecionadas como áreas de estudo por se tratarem da sede de cada universidade. Os pesquisadores escolheram três bairros em cada cidade brasileira e dois na inglesa. Os bairros foram selecionados por suas diferenças demográficas e pelos obstáculos impostos à locomoção; entretanto, todos se assemelhavam quanto a sua localização: estavam situados perto do centro da cidade. Em Porto Alegre, foram pesquisados o Menino Deus, a Vila Tronco e a Vila Cruzeiro; o primeiro é um bairro de classe média, e os outros são considerados segregados cultural e socioeconomicamente.

A mobilidade urbana saudável é considerada aquela feita com meios não motorizados, por exemplo de bicicleta ou a pé, e como parte das viagens do dia a dia. Portanto, a utilização de carros não se adequaria ao conceito, já que não traz benefícios à saúde do usuário. “Mas se começou a ver, principalmente para idosos e pessoas com deficiência, que só o fato de sair de casa, ter mais mobilidade, seja ela ativa ou motorizada, já melhora a qualidade de vida”, explica o professor da Faculdade de Arquitetura da UFRGS Júlio Vargas, um dos autores do estudo.

Para guiar as etapas do trabalho, o grupo utilizou uma abordagem de métodos mistos − que se resume na junção do método qualitativo com o quantitativo− e contou com a participação ativa da comunidade e de gestores. A pesquisa foi dividida em cinco componentes, considerando o conhecimento dos integrantes das equipes nas áreas de planejamento urbano, estudos de transporte, saúde pública e psicologia ambiental.

No mapeamento espacial e geoprocessamento, foi realizada uma análise da configuração das ruas, da infraestrutura e da disponibilidade de transporte público. Já o questionário foi elaborado para coletar dados dos moradores – qualidade e hábitos de vida, renda mensal, percepção do bairro, atividades físicas – e aplicado em endereços aleatórios. Ao final foram arrecadadas cerca de 1100 amostras em cada bairro brasileiro e 272 no britânico. Nas entrevistas, realizadas com um total de 99 participantes, era pedida uma linha do tempo, contemplando as trajetórias – mudanças de residência, educação, trabalho – realizadas ao longo da vida. Para a jornada acompanhada, outras 99 pessoas concordaram em realizar um caminho, a pé ou de bicicleta, enquanto eram gravadas. A comunidade local também participou por meio de outras atividades, como a produção de vídeos sobre a situação da mobilidade em Oxford e a confecção de um “varal dos desejos” em Brasília. Os resultados colhidos pelas quatro equipes foram posteriormente reunidos no material utilizado para divulgação e produção teórica.

Cada pesquisador ficou encarregado do levantamento de dados da sua cidade e teve a disponibilidade de montar uma equipe de trabalho para auxiliá-lo. “Aqui surgiu uma diferença bem clara entre mim e meus outros colegas, que já são mais seniores. Tudo eles encaixam no fluxo da pós-graduação. Então, em Brasília e Florianópolis, a pesquisa ficou muito presa aos prazos dos mestrandos e doutorandos. Eu, por não estar tão envolvido na pós-graduação, tive mais liberdade para montar minha equipe para o projeto. Então eu peguei estudantes de arquitetura e urbanismo, engenharia ambiental, geografia, psicologia e saúde coletiva. Eu fui atrás de estudantes da UFRGS com perfis diferentes que pudessem montar uma equipe multidisciplinar”, comenta o professor Júlio Vargas, que escolheu uma equipe diversificada para abranger diferentes pontos da pesquisa.

Nas cidades brasileiras, principalmente Porto Alegre – área de pesquisa do professor –, foi constatado que a precariedade nos serviços de transporte público, aliada ao alto valor das passagens, obriga os moradores de comunidades de baixa renda a praticarem mobilidade forçada. Assim, caminhar se torna a única opção para essas pessoas, já que não possuem carro e não podem pagar a passagem de ônibus. A pesquisa também apontou que a falta de segurança, vegetação e infraestrutura nas ruas é um obstáculo para a adoção da mobilidade urbana saudável.

Apareceram ainda, nos resultados obtidos nas quatro cidades, outros fatores que dificultam a mobilidade: a escassez de ciclovias, a pouca iluminação, a segurança pública e a falta de manutenção das calçadas. No Brasil, também foram apontados problemas como o tráfego intenso de carros em alta velocidade e o uso das calçadas como estacionamento, impossibilitando a circulação dos moradores, além da elevada taxa de criminalidade.

Segundo o professor, antes de melhorar a qualidade das calçadas das ruas, é preciso assumi-las como parte da cidade através da regularização e da formalização da situação dos moradores e do bairro. Ele ressalta as diferenças físicas entre os bairros bem cuidados de classe média e os de baixa renda, normalmente localizados em encostas íngremes, sem serviços regulares de água, luz e saneamento básico. Essas dificuldades acabam prejudicando mais do que a falta de vegetação e de calçadas em boa qualidade.

A adoção da mobilidade na rotina também pode ajudar na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, porém, quando não praticada em conjunto com mudanças nos hábitos alimentares e redução do uso de álcool e tabaco, pode não dar resultados. Este foi um dos principais achados da pesquisa: o elevado consumo de álcool. Florianópolis teve o maior número de consumidores, 71%, e Oxford, o mais baixo, 39,8%. Quanto à prática de atividades físicas, nas quatro cidades, em torno de 20% a 25% dos entrevistados afirmaram fazê-lo. Além disso, foi avaliado se os moradores possuíam problemas de saúde – o índice mais alto foi o de hipertensão em Florianópolis, com 38,9% – ou sobrepeso – Porto Alegre e Oxford tiveram dados próximos, 40,7% e 40,6%, respectivamente. Segundo Júlio, a atividade física acaba por fazer parte da realidade de grande parte da população de comunidades de baixa renda, no entanto, vem acompanhada de hábitos alimentares ruins construídos culturalmente.

Apesar do resultado positivo do projeto, as equipes se depararam com algumas barreiras culturais, como a falta de recursos, que impossibilitou reunir as informações de um terceiro bairro em Oxford e forçou a equipe britânica a utilizar um método de entrega de questionários e coleta de dados, diferentemente do misto utilizado nas outras regiões investigadas. Na mesma cidade, houve relutância dos moradores em permitir a medição da circunferência abdominal, que acabou ficando de fora. Além disso, lá, o número de entrevistados foi menor, pois muitos moradores acharam as perguntas invasivas e alegaram estar sobrecarregados com outras pesquisas feitas pela prefeitura local.

O estudo, que durou três anos, está agora na etapa de produção dos artigos científicos. “Para continuar uma pesquisa nesse nível, a gente vai ter que correr atrás de financiamento. O trabalho terminou, continua reverberando a divulgação científica, mas para aumentar e expandir, só com verba de fundo que a gente precisa obter“, esclarece. Durante a produção, contaram com a participação de entidades do governo e da sociedade civil, como ONGs, associações de moradores e feira de orgânicos. Os resultados e outros materiais foram divulgados em um site criado para o projeto, na imprensa e em cartilhas distribuídas em eventos realizados na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, no Centro de Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados em Brasília e na Universidade de Oxford.

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