Que a força esteja com elas!

Anelise Ennes, graduada em Publicidade pela UFRGS, analisa o papel das mulheres em Star Wars
Princesa Leia segurando uma arma em cena do filme "Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança"
A Princesa Leia, assim como a Amidala, sofreu mudanças bruscas de abordagem ao longo da trama em função de necessidades de roteiro em torno dos heróis homens - Foto: divulgação

Um levantamento feito pela pesquisadora Amber Thomas apontou que em 2016, apesar de protagonizarem diversos filmes lançados em larga escala pelo mundo, o espaço de fala das mulheres em Hollywood ainda foi muito pequeno. Nas produções mais assistidas do ano, menos de 27% dos diálogos foram destinados às personagens mulheres, e o mais recente exemplar da franquia Star Wars, Rogue One: Uma História Star Wars, foi o pior avaliado: Jyn Erso (heroína do filme vivida pela indicada ao Oscar Felicity Jones) teve apenas 9% das falas. Foi antes disso, porém, que a então graduanda em Publicidade e Propaganda pela UFRGS, Anelise Ennes, identificou alguns problemas em como a feminilidade ocupava lugar nesses filmes e decidiu debruçar seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na análise da presença feminina no universo de Guerra nas Estrelas.

Uma das mais influentes referências modernas na cultura do entretenimento, Star Wars gerou um sinônimo visual de vilão (o Darth Vader), expressões famosas (“que a força esteja com você”) e personagens icônicos que jamais abandonaram o imaginário popular, como os Cavaleiros Jedi, Mestre Yoda, Chewbacca e os robôs C-3PO e R2-D2. Toda a trama e seus conceitos foram uma ideia original do cineasta George Lucas, que desde o lançamento do primeiro longa-metragem, em 1977, tem explorado sua criação ao máximo em todos os sentidos, com sequências, livros, videogames e inúmeros brinquedos.

Portanto, apesar de ter crescido inevitavelmente sabendo o que era Star Wars, Anelise admite que só conheceu os filmes de fato quando mais velha. “Eu achava a Amidala uma chata”, afirma sobre a personagem feminina de maior destaque na chamada trilogia nova (lançada entre 1999 e 2005), que é vivida por Natalie Portman. Essa opinião que formou na infância não é injustificada: embora vital para a trama, Amidala não está inserida na ação como os homens, ela está quase sempre à parte das sequências mais movimentadas e, quando se encontra nelas, é a vítima ou, pior, uma figura indiferente para o êxito dos planos dos heróis. Sem ninguém com quem se identificar, Anelise acabou não se interessando pelos filmes até muitos anos depois, e quando retomou o universo às vésperas do lançamento de Star Wars: O Despertar da Força (2015), percebeu que ainda assim, quando se enxergava em tela, era em personagens como Han Solo ou Luke Skywalker, nunca em figuras como a Princesa Leia, por exemplo.

Foi esse incômodo que denunciou um impactante contraste de sentimentos quando se deparou com Rey (Daisy Ridley), protagonista da nova leva de filmes que se iniciou com O Despertar da Força. Mais cedo nesse mesmo ano, Anelise havia se deparado com a personagem Furiosa (vivida por Charlize Theron) no filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015), e já considerava traçar em seu trabalho de conclusão um perfil das mulheres fortes no cinema ao longo de sua história. Porém, como definiria o que é forte? Pois para tanto, seria preciso existir um oposto, aquilo que é fraco. E como contextualizar isso em cada época? Percebendo que tentar concretizar esses conceitos poderia ser algo prejudicial aos seus objetivos, decidiu se inspirar na nova personagem de Star Wars, tão forte e cheia de representatividade, e investigar os motivos pelos quais, como mulher, ela mesma se sentia antes tão distante daquele mundo de ficção.

Entretanto, não foi sem um pouco de decepção que percebeu que, por fim, não poderia englobar Rey na sua análise. Ao longo de sua pesquisa, notou que Amidala e Leia, as duas principais figuras femininas no universo Guerra nas Estrelas, não podiam ser avaliadas apenas por suas primeiras aparições. Segundo o trabalho da publicitária, as necessidades de roteiro e trama em torno dos heróis homens exigiram constantemente que ambas as personagens sofressem mudanças bruscas de abordagem: num dos filmes Amidala é uma figura materna para o protagonista, carinhosa e decidida a seguir seus objetivos políticos, noutro ela já é retratada com decotes e roupas insinuantes, completamente incapaz de resistir à paixão juvenil que acomete os dois; num Leia é uma mulher impaciente e de personalidade forte, perfeita para lidar com figuras como o canalha Han Solo, noutro ela torna-se uma figura calma e passiva às revelações feitas por Luke.

Rey, por outro lado, é a protagonista dessa nova leva de filmes, mas também está rodeada de homens. Para entender qual será o retrato final da personagem, é preciso analisar toda a sua trajetória, que deve se encerrar só em 2019 com o terceiro filme. Afinal, por mais promissoras que sejam as novas heroínas de Star Wars, Anelise diz que elas ainda carregam alguns valores pouco favoráveis à representação das mulheres no cinema, como o fato de serem objetos de desejo. “Ainda é impossível que exista uma amizade entre um homem e uma mulher sem que o cara acabe se apaixonando por ela”, ressalta, apontando como tanto O Despertar da Força quanto Rogue One dão a entender que os personagens homens que acompanham Rey e Jyn estão interessados romanticamente nelas. Ela afirma que essa visão também é prejudicial, pois destaca aquele modelo de mulher como uma exceção, alguém que é diferente das outras e que, por isso, é atraente para os homens – além de reafirmar a máxima de que homens e mulheres não podem dividir uma amizade sem o interesse amoroso, o que reforça essa tensão de sexo e poder entre os gêneros.

Ainda que admita que provavelmente estamos passando por uma fase em que as artes reagem drasticamente à onda de conservadorismo político pelo mundo, e que em algum ponto iremos estabilizar esse grande volume de produções como Orange is the New Black, Mad Max, Sense8, Jessica Jones e outros filmes e programas que celebram a diversidade, ela espera pelo melhor para Rey. No passado, Amidala se sujeitava a um relacionamento abusivo com o futuro Darth Vader, o que, por sua vez, hoje faz dele não um vilão daqueles que é bom detestar, mas um que realmente é desprezível para Anelise. Já Leia, ao testemunhar seu planeta natal ser destruído, não tinha direito a sequer uma cena de luto, e mesmo depois disso, quando é presa e torturada, os heróis a encontram em sua cela aguardando deitada em uma pose sugestiva e fazendo piadinhas. A esperança é que os 40 anos que separam as produções sejam o suficiente para trazer uma nova visão para as mulheres não só em Star Wars, mas em Hollywood como um todo.

Ela analisa, por exemplo, como antes Amidala e Leia eram associadas ao declínio dos personagens homens: a primeira é a causa de o herói tornar-se o vilão, e a segunda é usada por Darth Vader para tentar Luke para o Lado Negro. E mesmo pequenos detalhes, como relacionar o fato de “sujar as mãos” à paixão entre Leia e Han, não passaram despercebidos à Anelise. Ela ainda traz conceitos clássicos como aquele estabelecido por Simone de Beauvoir sobre “tornar-se mulher”, para analisar como momentos como a luta de Leia para se libertar em O Retorno de Jedi (1983), depois de ser obrigada a se vestir com roupas mínimas e ser acorrentada a um ser masculino grande e nojento, é imediatamente “punido” pelo filme ao colocá-la na necessidade de se agarrar a um herói que a leva no colo para fora de seu cativeiro, impedindo-a de concretizar sua identidade de mulher independente.

Hoje, as próprias animações da Disney, responsáveis por estabelecer certos padrões de mulheres e princesas, vêm trazendo uma nova visão sobre suas protagonistas, que já não dependem de príncipes ou sequer de um par romântico. Esse tipo de subversão das expectativas é importante, explica Anelise, pois não se trata de “só um filme” ou “só uma série”; esses veículos propagam uma imagem da nossa própria realidade, e as pequenas meninas, e mesmo as mulheres já adultas, precisam poder se identificar nessas obras para entenderem que, se possuem um lugar de fala na cultura pop, também o possuem no mundo real. A representatividade empodera grupos oprimidos ao mostrar para o mundo que todos os tipos de pessoas são iguais e podem ocupar o mesmo espaço de protagonismo que os corriqueiros homens, brancos e heterossexuais, que normalmente estão à frente das produções hollywoodianas.

 

Trabalho de Conclusão de Curso

Título: Que a força esteja com elas: uma análise do feminino em Star Wars
Autora: Anelise Ennes Marques
Orientadora: Miriam de Souza Rossini
Coorientadora: Vanessa Kalindra Labre de Oliveira
Unidade: Curso de Comunicação Social: Habilitação em Propaganda e Publicidade

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