Relações entre pessoas em situação de rua e o espaço são tema de dissertação

Pesquisador buscou identificar como a população de rua de Porto Alegre se relaciona com seu entorno
Pernas de um morador de rua deitado em um banco na Praça da Alfândega, em Porto Alegre
Estudo teve como objetivo entender que tipo de relação as pessoas em situação de rua constroem com o ambiente urbano - Foto: Filipe Castilhos/Flickr - CC BY-ND 2.0

A percepção do aumento do número de pessoas em situação de rua tem sido comum nas grandes cidades. Em Porto Alegre, são 2.115 adultos em situação de rua, conforme a última pesquisa divulgada pela UFRGS e pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (FASC) – são 57% a mais do que havia em 2011. Com esse crescimento, muitas são as dúvidas acerca de como essa população vive. A partir do olhar da Geografia, Leonardo Palombini investigou em sua dissertação de mestrado como é a vida de quem não tem posse sobre o território: “Se essas pessoas não possuem uma casa, que tipo de relação elas têm com o espaço, de forma a reproduzir suas vidas diariamente?”, questiona.

Durante dois anos Leonardo trabalhou em uma pesquisa participante, com acompanhamentos e observações, além de ter frequentado diversos eventos relativos ao tema. Para traçar um perfil sobre os habitantes urbanos, o pesquisador entrevistou quarenta pessoas e, para problematizar as questões do trabalho, conversou com outras vinte. O acesso foi possibilitado pelo contato de Leonardo com o jornal Boca de Rua (publicação produzida por moradores de rua na capital), desde seu estágio de graduação.

 

Na rua se é discriminado, tratado como cachorro, banido da sociedade.

Além de conviverem com o preconceito, de acordo com a pesquisa, por viverem no espaço urbano, sem um domicílio próprio, esses indivíduos têm uma visão mais frágil – e totalmente diferente – do ambiente do que as pessoas domiciliadas: “Partindo do pressuposto de que a sociedade se organiza a partir do conceito de propriedade privada, e ainda que a Constituição diz que todo cidadão tem direito à privacidade, podemos dizer que o morador de rua não tem isso. Assim, ele não possui núcleos familiares e sim, forma grupos por afinidade”, afirma.

 

Olha, eu fico aqui há muito tempo. Ás vezes saio, volto pra cá, mas ultimamente a polícia e a Prefeitura têm incomodado mais.

Mesmo sem ter nenhuma espécie de posse sobre o terreno, essas pessoas estabelecem preferências por habitar e circular em certas partes específicas da cidade, as quais Leonardo denominou subespaços: “São lugares que são subutilizados, como pontes e viadutos, sem uma serventia prática. Lugares que permitem a ocupação por mais tempo, de forma que eles não incomodem, já que não possuem poder nenhum sobre o espaço”, conta. Apesar disso, esses locais não lhes são de livre escolha, mas submetidos à rede de controle espacial do poder público, que os expulsa constantemente: “Essas ocupações são efêmeras, pois a Prefeitura, a Secretaria de Meio Ambiente, a de Indústria e Comércio, expulsam os moradores de rua. Mantendo um constante trânsito na busca de lugares para ocupação”.

Além disso, Leonardo revela que as ocupações mantêm códigos de conduta: “Muitos dizem que ‘o ambiente da droga não é o da moradia, se eu fumar crack, vão chamar a polícia e vamos ser expulsos’. Assim, para comunidade domiciliada aquelas pessoas estão ali para usar droga, e na verdade elas estão em uma perspectiva contrária”, completa.

 

Eu não escolhi né, porque se escolhesse eu tava num desses apartamento aí. Com cama quentinha, banheiro, carrão…

Todas as pessoas entrevistadas afirmaram estar nas ruas em decorrência de problemas familiares. Para Leonardo, há a expectativa de que trabalhos como esse contribuam para a formação de políticas públicas, como o aumento de vagas em albergues. Sobretudo, ele acredita que é papel da academia buscar novos sujeitos: “É importante que a ciência se debruce mais sobre esses grupos que são marginalizados, que vá atrás dessas pessoas que sofrem com o nosso sistema excludente. É sair do laboratório e fazer ciência na rua mesmo”, reflete.

 

* Os entretítulos dessa matéria são trechos das entrevistas realizadas por Leonardo com pessoas em situação de rua.

 

Dissertação

Título: Dos subespaços ao território descontínuo paradoxal: os moradores de rua e suas relações com o espaço urbano em Porto Alegre/RS – Brasil
Autor: Leonardo Lahm Palombini
Orientadora: Cláudia Luísa Zeferino Pires
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Geografia

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