Suicídio e preconceito na juventude brasileira

Pesquisadores analisam a ligação entre os estigmas da sexualidade e a tendência ao suicídio
Bandeira LGBT
Primeiro estudo sobre o tema com abrangência nacional apontou o preconceito como um fator muito próximo à tendência ao suicídio - Foto: Gustavo Diehl/UFRGS - Arquivo

As relações entre as tentativas de suicídio de jovens brasileiros e o estigma que carregam por conta de sua orientação sexual foram objeto de análise da pesquisa de pós-doutorado, realizada no Instituto de Psicologia da UFRGS, de Angelo Brandelli Costa, professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS. O estudo gerou o artigo The experience of sexual stigma and the increased risk of attempted suicide in young brazilian people from low socioeconomic group (A experiência do estigma sexual e o aumento do risco de tentativa de suicídio em jovens brasileiros de baixo nível socioeconômico, na tradução em português), o primeiro sobre o tema com abrangência nacional e que apontou o preconceito como um fator muito próximo à tendência ao suicídio. O trabalho, feito em conjunto com pesquisadores do Instituto de Psicologia da UFRGS, da PUC de Campinas e da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, foi baseado na Pesquisa da Juventude Brasileira, comandada pela professora do Instituto de Psicologia da UFRGS Silvia Koller, que buscou mapear os jovens de classe baixa do país.

Antes, o maior estudo feito no Brasil com esse enfoque era limitado à cidade de Campinas. Por esse motivo, os pesquisadores decidiram aproveitar a oportunidade contida na base de dados coletados pelo trabalho de Koller, que recolheu amostras de cidades de todas as regiões do país através de um questionário feito com jovens de 11 a 24 anos em dois períodos: entre 2004 e 2006 e entre 2010 e 2012. Das informações obtidas, foram analisadas então as interseções entre os fatores “baixa renda”, “experiência de estigma sexual” e “tentativas de suicídio”. Os resultados mostraram que, entre esses dois períodos, embora as tentativas de suicídio tenham diminuído 20% entre os participantes que não experienciaram estigma sexual, houve um aumento de 60% entre aqueles que sofreram discriminação.

Buscando compreender melhor o cenário que estavam estudando, os pesquisadores Andrew Pasley, da Universidade de Auckland, e Walter de Lara Machado, da PUC de Campinas, também envolvidos no estudo, propuseram uma análise em rede. Nela, a relação entre as variáveis é organizada para criar um gráfico que ilustra as ligações e a proximidade entre os fatores observados. O resultado permitiu aos pesquisadores visualizar a influência dos fatores ligados ao estigma sexual nas tentativas de suicídio e em outras formas de violência.

Angelo ressalta, porém, que a orientação sexual não foi uma das variações usadas na pesquisa, já que a maioria dos jovens não oferece uma resposta fidedigna quando questionados sobre o assunto. “A adolescência é um momento de construção da identidade, e pode haver a não desejabilidade social da pessoa de se abrir com o pesquisador”, explica. Ele fala que a juventude é uma época de formação identitária, e por isso se apresenta tão mais vulnerável em relação à questão da sexualidade, pois é nessa época que a pessoa decide se vai retrair sua orientação ou se vai assumi-la e encontrar um lugar junto a grupos com hábitos similares.

Por isso, a pergunta utilizada para abordar o tópico foi se o indivíduo já tinha sofrido preconceito por conta de sua orientação sexual. O que se constatou foi que essa variável apresentou ligação direta com outros marcadores de discriminação, ligados à família e aos locais de moradia e estudo, ilustrando que a orientação sexual representa um agravante para situações que já são naturalmente de maior vulnerabilidade. Dessa forma, os pesquisadores também determinaram a existência dentro da sua pesquisa de um Modelo de Estresse em Minoria — uma relação demonstrando que, se a população em geral passa por uma série de estresses cotidianos, como o trânsito, salário e família, aquelas que se encaixam em grupos de desequilíbrio social de poderes, como negros, mulheres e a comunidade LGBT, sofrem com estresses a mais, tendo de superar uma gama de barreiras que cidadãos heterossexuais, brancos e homens não têm que enfrentar. É importante apontar, entretanto, que a pesquisa estudou apenas a população LGB (lésbicas, gays e bissexuais), desconsiderando os transexuais, pois, segundo Angelo, sua situação social representa toda uma outra série de variáveis que precisam de uma pesquisa própria para serem analisadas.

Por trás dessa situação, o pesquisador descreve um sistema educacional que não oferece estrutura para que a população LGBT encontre de maneira acessível modelos de identidade. “Mesmo as instituições de ensino de elite têm dificuldade de colocar em pauta esses temas, imagina então uma escola pública, que depende de materiais que vêm do MEC”, ele conta, apontando para a grande pressão dentro do governo para barrar projetos como o Kit Gay, oficialmente chamado de Escola sem Homofobia, que foi vetado pelo Congresso Nacional em 2011. Inciativas como essa, que busca desconstruir os preconceitos, seriam os primeiros passos para oferecer aos jovens brasileiros LGB uma melhor infraestrutura social. “Uma pessoa heterossexual nem pensa sobre isso, ela se constrói como sujeito naturalmente porque é apoiada pela mídia, pelos filmes, pelas narrativas, pela escola, pela pedagogia, pelos livros didáticos… A pessoa que não está nesse script, no entanto, precisa procurar recursos em lugares muito precários, em livros e filmes periféricos e escondidos”, afirma Angelo. Para ele, é pelo preconceito e, consequentemente, pela dificuldade de encontrar respaldo de si mesmo na sociedade que o jovem LGB brasileiro está mais propenso aos agravos da saúde mental.

 

Sexualidade e política

Para o pesquisador, a sexualidade não é apenas uma questão científica, mas também política. Atualmente, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 539/16, do deputado Pastor Eurico (PHS-PE), que busca suspender a resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) responsável por delimitar a atuação de psicólogos em relação à orientação sexual. A resolução, que busca inibir a discriminação direta da população de gays, lésbicas e bissexuais dentro da psicologia, proíbe terapias conversivas (popularmente chamadas de “cura-gay”) e a patologização de comportamentos homoeróticos por parte dos psicólogos. A justificativa dos deputados favoráveis à suspensão da resolução consiste em dizer que os conselhos profissionais não teriam competência para regular a prática das profissões, porque feriria a liberdade de atuação profissional. Angelo compara o argumento com a medicina: “Seria como dizer que não são os médicos que devem dizer o que é uma cirurgia”.

Segundo ele, a resolução é um dos poucos dispositivos existentes no Brasil contra a discriminação da população LGB (a resolução não fala sobre a transexualidade. Uma resolução própria para pessoas trans está sendo desenvolvida pelo conselho). A medida seria uma forma de corrigir a postura histórica da psicologia, que tratava as homossexualidades como anormalidades que necessitavam de correção. O pesquisador explica que ao longo do século XX essa mentalidade foi se alterando, chegando à compreensão atual de que as terapias conversivas promoviam sofrimento e não tinham eficácia. “Entende-se, hoje, que a sexualidade que não a heterossexual é uma variação da normalidade que acontece em várias espécies”, afirma.

Em 2011 e 2014, ocorreram projetos semelhantes ao do Pastor Eurico, tentando derrubar a norma do CFP, mas que foram arquivados depois de atuações civis e do próprio conselho. Angelo acredita que mesmo que a resolução não seja derrubada, os ataques continuarão em outras esferas. Ele afirma que os grupos contrários à medida se utilizam de religiões conservadoras em relação à sexualidade para imprimir uma pauta política e conseguir cargos políticos, em detrimento à vida de pessoas, como mostra a pesquisa: “É esse tipo de discurso que legitima a discriminação que faz com que essas pessoas pensem mais em se matar. Um discurso lá do congresso impacta a vida da pessoa lá na escola do interior do Amazonas”.

 

Artigo científico

COSTA, Angelo Brandelli et al. The experience of sexual stigma and the increased risk of attempted suicide in young brazilian people from low socioeconomic group. Frontiers In Psychology, v. 8, 22 fev. 2017.

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