TCC aborda a relação entre o ambiente familiar e a saúde bucal de crianças

A partir de inquérito epidemiológico realizado no interior do RS, Mariél Goulart investigou a influência das práticas educativas parentais sobre a saúde dos filhos
Estudo ressalta a importância da atuação precoce nos problemas de saúde bucal - Foto: Thiago Cruz/UFRGS

Analisar a relação da saúde bucal de crianças e adolescentes com as práticas educativas adotadas pelos pais foi o que buscou a bacharel em Odontologia pela UFRGS Mariél Goulart em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Para isso, a estudante realizou um inquérito epidemiológico – uma espécie de censo – sobre a condição da saúde bucal das crianças e dos adolescentes entre nove e 18 anos de Pejuçara, um município com cerca de 3.900 habitantes localizado no noroeste do Rio Grande do Sul, a 387 km de Porto Alegre.

Foram examinados 329 dos 411 estudantes do 4º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio das duas escolas da cidade, uma municipal e outra estadual. Foram excluídos os que não preenchiam os pré-requisitos da pesquisa, os que não haviam ido à aula nos momentos de coleta de dados, os que não quiseram participar e os que não tiveram autorização dos pais. Os exames realizados incluíram avaliação de dentes permanentes e de leite, cariados, perdidos e obturados.

Além disso, um questionário socioeconômico, que incluía questões referentes ao acesso e à utilização de serviços odontológicos, foi enviado aos pais, junto com o termo de consentimento. As crianças e os adolescentes também responderam a questões relacionadas à experiência e à utilização de serviços odontológicos. Para a descrição das práticas educativas adotadas pelos pais, foi aplicado o Inventário de Estilos Parentais. O instrumento avalia as práticas em sete categorias: monitoria positiva (práticas que envolvem atenção e conhecimento dos pais sobre onde seu filho se encontra e o que ele faz); comportamento moral (ensinamento de valores como honestidade, empatia e senso de justiça, auxiliando na distinção entre certo e errado); negligência (falta de atenção às necessidades dos filhos, com omissão de auxílio ou responsabilidades); punição inconsistente (associada à mudança de humor dos pais e não à atitude da criança); monitoria negativa (supervisão estressante ou excesso de fiscalização dos pais sobre o filho); disciplina relaxada (as regras estabelecidas pelos responsáveis são esquecidas ou desrespeitadas por eles próprios); e abuso físico (com a justificativa de estarem educando, os pais machucam ou causam dor aos filhos). Cada estudante respondeu a um questionário referente às práticas maternas e a outro referente às práticas paternas.

Segundo Mariél, esse foi o primeiro estudo a relacionar as condições de saúde bucal de crianças e adolescentes às práticas educativas parentais. “Sempre me interessei por esse aspecto psicológico do atendimento em saúde e, enquanto procurava por assuntos para o TCC e em conversas com profissionais, decidi pesquisar por que as pessoas começam a ter os problemas de saúde bucal. Então, fui lá atrás, na criação, para entender como a maneira pela qual a família se estrutura pode se refletir na saúde bucal”, comenta.

A opção por Pejuçara se deu pela familiaridade com o município e pela facilidade de acesso: “Vivi minha vida toda em Pejuçara, então tinha contato com a Secretaria Municipal de Saúde e com a Prefeitura. Por ser um município pequeno, a gente acaba conhecendo todo mundo. A ideia inicial era fazer em Porto Alegre, mas foi muito difícil o contato com a Secretaria Estadual de Saúde e também não conseguimos o número de alunos… Então resolvemos fazer em Pejuçara, já que era mais fácil o acesso”, explica.

O projeto foi apresentado ao prefeito e ao secretário de Saúde. “Eles me deram grande apoio, até porque também é de interesse deles a pesquisa”, comenta Mariél, ressaltando que o município não possuía um censo da saúde bucal de suas crianças e seus adolescentes. A necessidade de inquéritos, como suporte à vigilância epidemiológica, para o estabelecimento de prioridades e a alocação de recursos é estabelecida pela Lei nº 8080/1990. “É importante para que se possa ter uma ideia do que está acontecendo na saúde da comunidade. Principalmente em crianças, isso é fundamental, porque a infância é a época em que a gente consegue prevenir a formação de hábitos deletérios. Na vida adulta surgem outras coisas que acabam dificultando a mudança de hábitos. Quanto mais precocemente a gente atuar, melhores vão ser os resultados, até porque os problemas de saúde bucal são cumulativos”, enfatiza a pesquisadora.

A Secretaria de Saúde, além de auxiliar os contatos com as escolas e a prefeitura, disponibilizou, para o desenvolvimento da pesquisa, uma dentista, uma técnica em saúde bucal e duas agentes comunitárias de saúde, que ajudaram na anotação dos dados e na coordenação das crianças. Também participaram da pesquisa uma mestranda da UFRGS e uma psicóloga, responsável pela aplicação do Inventário de Estilos Parentais.

Foram dois os principais resultados trazidos pelo levantamento: o primeiro se refere ao nível de saúde bucal da população de Pejuçara – melhor que as médias gaúcha e brasileira; o segundo é a constatação de que, de fato, a saúde bucal da criança tem relação com o ambiente socioemocional familiar, bem como com as práticas realizadas pelos pais durante o processo de educação.

 

Saúde em Pejuçara

A média de dentes cariados, perdidos e obturados nas crianças e nos adolescentes de Pejuçara foi de 1,4, sendo a média de 0,8 para os de 12 anos e de 2,1 para os de 15 a 19. Já os dados obtidos pelo SB Brasil 2010 – Pesquisa Nacional de Saúde Bucal apontam que a média brasileira é de dois dentes para a idade de 12 anos e de 4,2 para a faixa de 15 a 19 anos. Os valores foram menores mesmo se comparados com os do interior da Região Sul (2,1 dentes aos 12 anos e 4,3 entre 15 e 19) e de Porto Alegre (1,4 dente aos 12 anos e 2,9 dos 15 aos 19).

Mariél ressalta que não se pode descartar a existência de um efeito de coorte, já que os dados obtidos pela pesquisadora em 2016 são comparados aos de indivíduos examinados em 2010. “Isso já é uma geração diferente da população atual, então pode ter um efeito da própria pesquisa ao comparar com um estudo de tanto tempo atrás. Mas a gente sabe que a população tem um bom acesso porque a gente estudou a proporção dos dentes restaurados sobre os cariados, e isso também é maior aqui”, comenta. Em Pejuçara, essa proporção, na faixa de 15 a 19 anos, é de 78,5%, enquanto no Brasil é de 50%. Além disso, 85% dos pesquisados relataram ter se consultado com o dentista há menos de um ano, enquanto apenas 0,9% nunca haviam ido ao dentista.

“Eles têm práticas de saúde muito boas no município. E isso está dando um resultado positivo”, enfatiza a pesquisadora. “Acho que esses dados servem de reforço para a manutenção das políticas municipais. É um reforço para que o que já tem não seja retirado, ainda mais agora, em época de crise e de corte de gastos”, complementa.

Entre as ações voltadas à promoção da saúde bucal realizadas em Pejuçara está o Programa Saúde na Escola, voltado à atenção básica e realizado por profissionais do município, e a adequação da alimentação nas escolas, com cardápio balanceado tanto para as refeições fornecidas pelo poder público quanto para aquelas comercializadas pelas cantinas. Além disso, as duas escolas da cidade possuem consultórios odontológicos, o que facilita o acesso dos estudantes ao atendimento.

 

Práticas educativas e saúde bucal

Em relação à associação entre o ambiente familiar e a saúde bucal das crianças e dos adolescentes, de modo geral, em todos os âmbitos avaliados, a tendência foi a mesma: quanto mais negativas as práticas adotadas pelos pais, maior a probabilidade de os filhos desenvolverem problemas de saúde bucal. Um dos resultados mais estatisticamente significativos é referente à monitoria positiva: o interesse e o apoio dos pais atuam como fatores protetores para as doenças dos filhos e diminui a probabilidade de desenvolvimento de cáries. “Isso, baseado na literatura, explica-se pelo fato de que o apoio e o amor dos pais são a base para a monitoria positiva, o que diminui a necessidade de ficar fiscalizando a criança, além de possibilitar um ambiente com menos conflitos”, esclarece Mariél.

Por outro lado, foi demonstrado que a disciplina relaxada e o abuso físico materno aumentam consideravelmente a probabilidade de a criança ter dentes cariados. O que se demonstrou, segundo a pesquisadora, é que “quanto mais a mãe batia na criança com o objetivo de educá-la ou manifestava qualquer atitude que machucasse ou causasse dor aos filhos, maior a chance de a criança desenvolver doenças bucais. E isso é bem presente aqui em Pejuçara, porque se tem uma cultura da ‘falta de laço’. ‘Se a criança é espoleta, é por falta de laço’, dizem. Tanto é que aqui a média de abuso físico materno foi maior que o estudo padrão desse instrumento. E o abuso físico pode fazer com que a criança se torne apática, medrosa, desinteressada, e isso também se reflete na saúde dela”.

Conforme está explicitado na pesquisa, as falhas existentes durante o processo de educação da criança podem desencadear prejuízos à saúde. Assim, é importante que os problemas sejam identificados cedo, de forma a permitir um adequado desenvolvimento infantil. E, nesse sentido, é essencial olhar para a família, seu modo de funcionamento e sua dinâmica. A forma como os pais educam seus filhos pode trazer indicativos para novas ações. Afinal, é na família que se iniciam os cuidados com a saúde bucal, e “a gente tem que olhar para a família se quiser ter essa abordagem precoce e tentar evitar as consequências deletérias do mal cuidado, da má higiene e de todos os efeitos que vêm a seguir”, realça Mariél.

 

Encaminhamentos

Todas as crianças nas quais, ao longo do levantamento, foram diagnosticados problemas de saúde bucal eram imediatamente encaminhadas para o posto de saúde. A partir das tratativas com a Secretaria de Saúde, já havia sido acertado previamente que o posto estaria disponível para atender às demandas encaminhadas pelas pesquisadoras.  Além disso, em relação aos resultados obtidos no Inventário de Estilos Parentais, algumas crianças foram colocadas “em observação”, e ainda serão feitas análises para verificar a necessidade de encaminhamentos para atendimento com profissionais apropriados. No momento, Mariél está preparando o relatório com as informações obtidas no censo, que deve ser entregue à prefeitura neste mês.

 

Trabalho de Conclusão de Curso

Título: Inquérito de saúde bucal e sua relação com práticas educativas parentais em crianças e adolescentes no Sul do Brasil
Autora: Mariél de Aquino Goulart
Orientador: Roger Keller Celeste
Unidade: Faculdade de Odontologia

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