Tese aborda os conflitos entre as grandes empreitadas de mineração e os camponeses peruanos

Pesquisadora estuda os impactos do projeto mineiro na região andina de Cajamarca, no Peru
Dezenas de pessoas agasalhadas, próximas à Lagoa Mamacocha, em região montanhosa do Peru
Denominados “Guardiões da Lagoa”, os habitantes do povoado El Tambo saíram em defesa da lagoa Mamacocha - Foto: Adriana Peñafiel/Arquivo pessoal

“Como se pode falar em desenvolvimento se as comunidades camponesas protestam?” Quando veio ao Brasil em 2004 fazer seu mestrado, a peruana Adriana Peñafiel admite que ainda tinha certa ingenuidade e que acreditava que seria possível conciliar um projeto mineiro com a agricultura local na região andina de Cajamarca, em seu país de origem. Interessada pelo assunto desde que cursava Administração na Universidad del Pacífico, em Lima, foi apenas no início dos anos 2010, depois de anos longe de casa, que finalmente voltou sua atenção para os conflitos entre as grandes empreitadas de mineração no Peru e os camponeses que dependem das lagoas que seriam destruídas nesse processo que, segundo ela, o governo chama erroneamente de desenvolvimento.

Apesar de empresas como a Yanacocha prometerem construir reservatórios para substituir o abastecimento de água dos povoados e de suas plantações, Adriana destaca que a resolução do conflito não seria tão simples assim. Os agricultores, que desenham as encostas das montanhas com córregos de irrigação e campos de cultivo, possuem uma conexão cultural com a água, segundo revelou sua pesquisa etnográfica. Para eles, as nascentes deveriam ser naturais, pois a perturbação desse estado de formação das lagoas afetaria diretamente o resultado das colheitas. Além disso, a pesquisadora destaca que esses hábitos dos agricultores funcionam como espaços de encontros que dinamizam a troca oral de conhecimento e intensificam as colaborações entre os diferentes coletivos que habitam a encosta.

Na lagoa de Mamacocha, por exemplo, ela explica que um canal de irrigação aberto no topo da montanha pode serpentear por uma plantação e seguir para a próxima, um pouco mais abaixo, e assim por diante. Para que a água chegue corretamente ao nível inferior, os camponeses de cima têm de desenhar e tratar apropriadamente o córrego, assim como aqueles no pé da elevação têm de garantir que a corrente d’água volte para o sistema fluvial da região, retomando o ciclo. Esse tipo de relação que os povoados possuem com a configuração lacustre do local mobilizou diversas famílias a formarem coletivos para protegê-la.

Adriana fez suas primeiras saídas de campo ao Peru no final de 2012 e meados de 2013. A partir de então retornou para estadias mais longas que se intercalaram até o final de 2014. Durante essas visitas à região de Cajamarca, se focou principalmente no povoado de El Tambo e no centro mineiro da província de Hualgayoc, além da própria cidade de Cajamarca, onde conviveu com os habitantes locais e realizou a observação etnográfica, recolhendo seus depoimentos. Com o material coletado, concebeu uma tese de doutorado em Desenvolvimento Rural, que foi defendida na UFRGS em 2016 e recebeu uma menção honrosa na premiação de teses LASA/Oxfam America 2017, da Latin American Studies Association.

Para entender o contexto atual de seu trabalho, entretanto, a pesquisadora salienta que é preciso relembrar as circunstâncias em que esses conflitos começaram. No início da década de 1990, a ditatura civil de Alberto Fujimori propagava para a nação peruana uma retomada do projeto mineiro. Segundo Adriana, no começo, a juventude acadêmica enxergou isso com bons olhos, e mesmo o povo, que tem tradição no ramo da mineração, se sentiu esperançoso, principalmente porque o país acabara de sair de uma década sombria. A Comissão da Verdade estima que nos anos 1980 foram mais de 69 mil mortos em protestos e enfrentamentos das forças armadas do governo com os grupos Sendero Luminoso, Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA) e a população, que sofria com a inflação e o descaso.

Entretanto, não foram apenas os cidadãos peruanos que se tornaram céticos com seu governo durante esse período. O Peru também afastou o mercado internacional nessa época, e, para tornar o país mais atrativo aos investimentos externos na área, Fujimori implementou a reforma do marco da exploração mineral. Tais mudanças, porém, deram grande abertura a empresas estrangeiras, que colocaram em prática no país técnicas que contradiziam a cultura local de mineração. Em Hualgayoc, por exemplo, onde opera a empresa Goldfields, ao contrário do que se esperava, os trabalhadores com experiência no ramo não conseguiram se empregar nas novas empreitadas. Acontece que os mineiros peruanos dominam, em geral, a técnica do socavão, a escavação de túneis que seguem as vetas (formações laminares de minerais dentro das montanhas). As suas minas, portanto, nunca interferem com a formação lacustre, passando por baixo ou ao redor das lagoas. Já as grandes mineradoras utilizam um maquinário pesado para abrir campos de mineração a céu aberto, chegando às vetas de cima para baixo. Isso, primeiramente, conflita com a delicada relação descrita acima dos camponeses com a água e a geografia da região, e, depois, não oferece nem mesmo oportunidade de trabalho para os mineradores locais, que não estão aptos para lidar com os equipamentos de escavação. Além disso, há o sentimento de exclusão, já que a mineração está ligada à história peruana, e é um traço forte dessas comunidades.

É neste contexto, conta Adriana, que surgem os coletivos de proteção às lagoas nas montanhas de Cajamarca. Os habitantes do povoado El Tambo, por exemplo, saíram em defesa da lagoa Mamacocha, tendo sido denominados “Guardiões da Lagoa”. O grupo organiza vigias e acampamentos nos entornos da Mamacocha, gerando uma migração periódica para a região. Atualmente, o setor privado já tem licitação para explorar o local com projetos de mineração e produção de energia – segue um impasse na justiça sobre construção de uma usina hidroelétrica. Em outro caso, os membros do coletivo indígena Awajú Wampi, tentaram exigir a revogação de decretos legislativos que aceleravam a implementação do Tratado de Livre Comércio entre o Peru e os Estados Unidos, impostos pelo presidente Alan García Pérez em 2008 de forma unilateral, sem o consentimento da população. Os indígenas, segundo a pesquisadora, foram decretados cidadãos de segunda classe por Pérez, perdendo sua força política.

A urgência dessas disputas da esfera econômica e governamental contra aquela da população tradicional do Peru só ficou mais evidente para Adriana quando ela se deparou com os escritos do antropólogo Arturo Escobar, com quem a doutora descobriu o conceito dos desenhos culturais, que são as transformações físicas realizadas por comunidades, tais quais as andinas, como resultado de sua relação simbiótica com a geografia local. Ele escreve: “Uma das tarefas do ativista ou do intelectual é fazer a comunidade mais consciente desse desenho que ela tem praticado”. Sua tese busca, portanto, ressaltar essa dinâmica e produtos etnográficos dela. Quando ainda tinha ideia de conciliar teoricamente os projetos de mineração e agricultura, Adriana se debruçou sobre o caso de Tambogrande, onde aconteceu o primeiro registro de um referendo em uma sociedade comunal – sistema semelhante ao de algumas aldeias indígenas, em que o uso dos meios de produção é coletivo, assim como as relações familiares são baseadas no cooperativismo. A votação teve como foco o debate sobre a expansão das atividades mineiras no lugar, e estima-se que em torno de 90% dos presentes se posicionou contra a iniciativa. Manifestações como essa, como a dos Guardiões da Lagoa e mesmo a dos indígenas Awajú Wampi, são todas parte do organismo cultural que desenha a região andina da Cajamarca, que hoje vem sendo redesenhada pelos novos projetos de mineração.

 

Tese

Título: Desenhos, relações e desenvolvimento: conflitos em torno da mineração na região andina de Cajamarca, Peru
Autora:
Adriana Paola Paredes Peñafiel
Orientador:
 Jalcione Pereira de Almeida
Unidade: 
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural

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