Utilização de multimateriais em produtos pode ocasionar maior poluição

Trabalho destaca falhas no ciclo de reciclagem em Porto Alegre
Centro de triagem de lixo
Materiais com diversos tipos de componentes com frequência são rejeitados nos centros de triagem - Foto: divulgação

Inspirado pelas diretrizes do Ecodesign, o designer de produto Felipe Luis Palombini já participou quatro vezes do Salão UFRGS com trabalhos que abordam impactos no meio ambiente. De acordo com Felipe, “é essencial para o Design ter essa consciência” – pois, no momento de projetar um produto, é necessária a inserção da preocupação ambiental desde as primeiras ideias de concepção. O pesquisador venceu a categoria Ciências Humanas e Ciências Sociais Aplicadas da Feira de Inovação Tecnológica (Finova) em 2015, com o trabalho Multimateriais e centros de triagem: análise e caracterização de resíduos sólidos. O interesse pela temática, segundo ele, foi despertado academicamente pelas disciplinas que trataram de questões ambientais durante o curso.

A pesquisa identificou rejeitos que não são aproveitados em centros de triagem na capital, já que eles não usufruem de tecnologia para tal. Em especial os que possuem multimateriais, que “são materiais com diversos tipos de componentes comprimidos em um único produto, o que acaba tornando inviável a separação mecânica na reciclagem”, diz. Entre os exemplos, estão: escovas de dente, que apresentam vários polímeros na sua composição; embalagens longa-vida, que possuem diversas camadas; e pacotes de salgadinhos, que sofrem uma metalização com alumínio.

O frequente uso desse tipo de material, segundo Felipe, está ligado principalmente ao viés econômico, visto que as embalagens com essas características apresentam desempenho melhor, auxiliando na conservação do produto e diminuindo os custos de fabricação. Por outro lado, resíduos com multimateriais impossibilitam a reciclagem convencional, exercendo impacto no meio ambiente. A maioria dos pacotes recolhidos dos rejeitos de centros de triagem incluía Copolímero de Ácido Acrílico Etileno, como cobertura brilhosa em seu exterior: “É uma renda que eles deixam de receber e uma poluição a mais na natureza”, afirma Felipe.

Cinco corpos de canetas esferográficas interligados a partir de duas peças-encaixes

Felipe produziu também peças-encaixe para corpos de canetas esferográficas que permitem a criação de brinquedos ou elementos de decoração – Foto: divulgação

Além da caracterização dos produtos, foi desenvolvida pela pesquisa uma peça-encaixe para corpos de canetas esferográficas,que também são rejeitados pela reciclagem, devido à ausência de compradores: “Mesmo que a gente separe o lixo e faça toda a triagem em casa, se o resíduo não tem um valor comercial, acaba destinado a aterros”, conta. A peça produzida permitiu a criação de brinquedos ou elementos de decoração, por exemplo, proporcionando uma situação de aproveitamento de resíduos. Por fim, também foi ressaltada a importância de os designers e engenheiros de materiais considerarem as etapas de reciclagem ao elaborarem um produto, e não apenas fatores de fabricação.

Essa mensagem de conscientização presente no trabalho de Felipe foi o ponto em comum destacado pelos avaliadores da Finova. “Todos eles enfatizaram a importância de trazer para o meio científico um problema real que a gente tem, que é social e ambiental”, diz. Após a graduação, Felipe seguiu no mestrado em Design na UFRGS e vê o Salão como parte fundamental da pesquisa: “A divulgação é muito importante, sobretudo porque estamos em uma universidade pública e precisamos dar um retorno para a sociedade”, completa.

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