Variante genética influencia hábitos alimentares de meninas

Garotas que possuem o gene DRD4 com sete repetições podem apresentar comportamentos diferentes em relação à alimentação, dependendo do ambiente socioeconômico em que vivem
Em sua interação com o ambiente, o gene determina se as meninas preferem comer mais gorduras ou ter uma alimentação saudável - Foto: Joseph Molieri/Bread for the World

Um estudo realizado em colaboração entre a UFRGS e as universidades canadenses McGill, McMaster e Universidade de Toronto descobriu que algumas meninas possuem uma variação genética que pode influenciar nas suas escolhas alimentares. O gene DRD4 VNTR com sete repetições e sua interação com o ambiente socioeconômico determinam se elas preferem comer mais gorduras ou ter uma alimentação saudável.

O gene DRD4 com sete repetições é encontrado em aproximadamente 20% da população e é comumente associado à obesidade, especialmente em mulheres. O estudo constatou que meninas de famílias mais pobres que possuíam o gene tinham maior nível de gordura do que as demais meninas com o mesmo perfil socioeconômico. Por outro lado, aquelas que tinham a mesma variante genética e vinham de famílias mais ricas comiam menos gorduras comparadas com as demais meninas da mesma classe social. “Isso sugere que não é o gene em si, mas, sim, como ele faz o indivíduo mais sensível às condições ambientais o que direciona as escolhas alimentares ‘para melhor ou para pior’ em relação à gordura e, consequentemente, influencia no risco para obesidade conforme os anos passam”, diz Laurette Dubé, uma das pesquisadoras envolvidas no estudo.

Os cientistas usaram diários alimentares preenchidos pelos pais de aproximadamente 200 crianças com média de quatro anos de idade nas cidades de Montreal e Hamilton, no Canadá. Foram calculadas as porcentagens de gordura, proteína e carboidrato que as crianças consumiam, assim como seu índice de massa corporal. Testes salivares foram realizados para identificar quais crianças possuíam o DRD4 com sete repetições. O salário da família foi usado como forma de avaliar a qualidade do ambiente socioeconômico no qual as crianças eram criadas e como um marcador indireto de seu ambiente alimentar (como disponibilidade de frutas e vegetais ou presença de fast-food na vizinhança, por exemplo).

A pesquisa se baseia em trabalhos recentes de outros autores, que sugerem que certos genes, incluindo o DRD4, funcionam como “genes de plasticidade”. Isso significa que as pessoas que carregam tais variantes podem ser mais “abertas” às influências ambientais do que as que não as possuem. Dessa forma, dependendo do ambiente no qual esse indivíduo vive, pode haver maior ou menor risco para certas condições neurocomportamentais. Como as pessoas que carregam o DRD4 com sete repetições já haviam sido descritas como tendo maior risco de obesidade, os cientistas se perguntaram se neste caso ele também funcionaria como um “gene de plasticidade”, no qual os efeitos dependem do ambiente.

“Nós supomos que o maior consumo de gorduras já descrito nas meninas que tinham o DRD4 com sete repetições poderia ser modificado pelo ambiente social – e mostramos que pode, uma vez que a preferência por gorduras aumenta ou diminui de acordo com o nível socioeconômico. Isso é importante porque transfere a atenção do gene, previamente ‘culpado’ pela associação com maior preferência por gorduras, para o ambiente, já que os efeitos do gene variam de acordo com as condições nas quais a criança foi criada”, salienta a professora da Faculdade de Medicina da UFRGS Patricia Pelufo Silveira.

Por outro lado, os cientistas observaram que esse efeito não aconteceu nos meninos testados. Eles sugerem que, de um ponto de vista evolucionário, pode ter sido mais importante para as meninas serem capazes de ganhar peso facilmente em condições adversas para garantir a reprodução. Outra possibilidade é de que, aos quatro anos, pode ser muito cedo para perceber os efeitos nos garotos, já que meninos e meninas ganham peso de forma diferente ao longo da infância e podem ter respostas comportamentais distintas às sensações de fome e saciedade. “Tudo o que podemos dizer com certeza a partir desses resultados é que a variante genética influencia as preferências alimentares diferentemente, de acordo com o ambiente, mas não sabemos como o gene influencia nessas escolhas”, comenta Patrícia.

“Esses resultados realçam a importância de se abandonar a abordagem ‘um modelo para todos’ na prevenção da obesidade infantil. Precisamos avançar em abordagens direcionadas, que focam em populações particularmente suscetíveis a fatores tanto genéticos quanto ambientais: indivíduos biologicamente mais vulneráveis sob condições adversas são os mesmos que provavelmente respondem mais às melhorias dessas condições”, enfatiza Laurette.

 

Artigo científico

Silveira, Patricia P. et al. Genetic differential susceptibility to socioeconomic status and childhood obesogenic behavior: why targeted prevention may be the best societal investment. Jama Pediatrics. Published online February 01, 2016.

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