7.6 VOCÊ COMPRARIA UM PRODUTO FEITO COM MATERIAL RECICLADO?

Lisiane Celia Palma e Luis Felipe Nascimento

Diariamente, podemos ver notícias em jornais, em revistas, na televisão, sobre violência,  desemprego, fome,  excesso de  lixo,  aquecimento  global, desastres ambientais, entre  outros. Vários fatores contribuem para a geração desses problemas, dentre os quais podemos citar o crescimento da população, a má distribuição de renda, o baixo nível de educação e o consumo elevado. Devido ao aumento destes problemas nos últimos anos, a preocupação em relação às questões sociais e ambientais tem aumentado no Brasil e no mundo. Parece que, aos poucos, o ser humano tem se dado conta de que, afetando ao meio ambiente, também estará fazendo mal a si mesmo.

Às vezes, pode parecer que não podemos fazer nada em relação a estes problemas, pois eles são amplos, envolvendo questões relacionadas ao governo, às empresas e a outras organizações que parecem estar distantes de nós. Contudo, cada um pode e deve fazer a sua parte! Afinal, as organizações (sejam elas públicas ou privadas) são pensadas e organizadas por pessoas.

Uma forma simples de ajudarmos na redução destes problemas, é fazendo a separação do lixo seco e do lixo orgânico em nossas casas e no trabalho. Separar o lixo é muito importante, pois assim estamos incentivando a reciclagem. Por meio  dela  é  possível  reaproveitar  certos  tipos  de materiais.  Plástico, papel, madeira,  alumínio,  vidro,  entre  outros,  são  materiais  que,  ao  invés  de  virarem  lixo  e  serem novamente  extraídos  da  natureza,  podem  ser  reciclados,  evitando  assim  que  os  recursos  naturais se acabem mais rapidamente. Portanto, devemos separar o lixo e dar a ele o destino correto, incentivando outras pessoas para que também o façam.

Além  da  preservação  dos  recursos  naturais,  o  processo  de  reciclagem  contribui para a redução da geração de lixo que, como exposto anteriormente, também é um grave problema ambiental que tem aumentado consideravelmente. Segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico do IBGE, cada brasileiro produz 1,1 quilogramas de lixo em média por dia. No país, são coletadas diariamente 188,8 toneladas de resíduos sólidos. Desse total, na metade dos municípios brasileiros, os resíduos ainda têm destino inadequado, pois vão parar nos 2.906 lixões que o Brasil possui. Estes dados já nos ajudam a ter uma melhor noção do problema que isso representa e das consequências negativas que traz para o meio ambiente.

A elevada geração de lixo orgânico e os problemas gerados por ela são grandes e preocupam pela superlotação dos aterros. O lixo seco é  ainda  mais  problemático  devido  ao  seu  volume,  que  normalmente  é  grande,  e  a  sua dificuldade  de  decomposição.  Alguns materiais como o plástico, por exemplo, podem demorar mais de 100 anos para se decomporem!

A melhor alternativa para os resíduos sólidos é a não geração destes ou, pelo menos, a sua  redução.  Porém,  uma  vez  os  resíduos  gerados,  podemos,  por  meio  do  processo  de reciclagem,  minimizar  os  prejuízos  e  os  impactos  ao  meio  ambiente  e,  também,  transformá-los em geradores de renda e emprego. Muitas pessoas, principalmente as  de mais baixa  renda,  encontraram  no  processo  da  reciclagem  uma  solução  para  o  desemprego, trabalhando  como  catadores  de  lixo,  separadores  de  lixo  ou  mesmo  no  próprio  processo  de reciclagem  dos  materiais.

Além de separar o lixo, podemos incentivar a fabricação de produtos que utilizam material reciclado na sua composição. Mas como fazer isso? Como consumidores, devemos, ao comprar um bem, buscar informações sobre seu fabricante, verificar se este utiliza material reciclado na fabricação de seus produtos e se tem uma preocupação com as questões socioambientais.

O  número  de  empresas  que  utilizam  material  reciclado  como  matéria-prima  tem aumentado,  e  produtos  compostos  por  esse  tipo  de  material  têm  estado  cada  vez  mais presentes no mercado. Contudo essas empresas nem sempre divulgam isso aos consumidores.  Algumas  delas  acreditam  que  os  consumidores  deixariam  de  comprá-los  por acharem  que  esses  produtos  são  de  menor  qualidade.  Entretanto, se  os consumidores  valorizam  esse  tipo  de  produto, essas  empresas  podem  estar  perdendo uma  oportunidade  de  aproveitar  esse  fato  e  trabalhar  com  material reciclado, divulgando isso aos consumidores e  contribuindo assim para o crescimento da reciclagem.

Logo,  torna-se  importante  conhecer  o  que  os  consumidores  pensam  em relação  aos  produtos  que  utilizam  material  reciclado  em  sua  composição;  se  existe  um preconceito em relação a esse tipo de produto que inibe a ampliação dessa prática, ou se está sendo desperdiçada uma oportunidade de fomentá-la.  Uma  vez  confirmado  que  os consumidores  valorizam este  tipo  de  produto,  e  as  empresas  tendo  conhecimento  disso,  essa  prática  poderá  ser estimulada.

Para conhecer melhor a opinião dos consumidores sobre  os  produtos  que  são  fabricados  com  matéria-prima  reciclada, realizamos uma pesquisa com 315 alunos do Curso de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Destes, 62% eram homens  e  38%, mulheres. A grande maioria dos pesquisados residia na cidade de Porto Alegre, e os demais, em cidades próximas a capital.

A maioria dos entrevistados tinha menos de 25 anos, representando uma população jovem, mas já inserida no mercado de trabalho, seja como funcionários ou estagiários. Por se tratar de uma  população  jovem,  em sua grande  maioria, eram solteiros  e também não tinham filhos. Contudo, moravam geralmente em residências com mais de uma pessoa. Os entrevistados pertenciam, principalmente, as  classes  A  e  B.

Após a análise  das  respostas da pesquisa,  foi  possível  perceber  que  a  maioria  dos  estudantes  já compraram e estão dispostos a continuar comprando produtos que contém material reciclado em  sua  composição,  desde  que  não  precisem  pagar  mais por isso. A maior parte deles discorda  da  ideia  de  que  estes produtos  têm  baixa  qualidade  e  concorda  que  isto  está  relacionado  a  outros  fatores  e  não  ao fato  de  ser feito  com  matéria-prima  reciclada.  Além  disso,  na  hora  na  compra,  revelam  uma tendência,  apesar  de  pequena,  a  comprar  produtos  que  possam  ser  reciclados  e  reutilizados, além  de  procurarem  reduzir  o  uso  de  produtos  feitos  com  recursos  naturais  escassos.  No entanto, estes jovens não têm ainda uma grande  consciência ambiental. Apesar de muitos afirmarem  que  fazem  a  separação do lixo  em  suas  residências,  verificou-se  que  eles  não  estão envolvidos de forma significativa com esta atividade.

Notou-se, também,  que  estes  estudantes  valorizam  as  empresas  que  fazem  produtos utilizando  como  matéria-prima  material  reciclado  e  se  sentem  estimulados  a  comprar  delas, pois  as  consideram  organizações  preocupadas  com  as  questões  ambientais.  Porém,  têm  pouco conhecimento  de  quais  são  estas  empresas  e  discordam  que  o  fato  delas  divulgarem  que utilizam material reciclado na composição de seus produtos seja ruim para a imagem delas. Em  sua  maioria,  afirmam  não  receber  informações  suficientes  para  poder  optar  pela compra de produtos ecologicamente corretos, embora  concordem que há indicação quando o produto  é  feito  com  material  reciclado.  Consideram  baixo  ou  nulo  o  seu  conhecimento  em relação  aos  processos  de  reciclagem,  entretanto  acreditam  ser  pessoas  bem  informadas  em relação às questões ambientais.

Ao término da pesquisa, verificou-se a existência de um mercado que pode ser melhor explorado  uma  vez  que  os  consumidores,  neste  caso  alunos  universitários,  mostraram  um tendência positiva em relação à compra dos produtos reciclados e à valorização das empresas que  fazem  este  tipo  de  produto.  Além  disso,  é  importante  salientar  que  muitos  desses jovem  possam  ser  ‘consumidores  verdes’  passivos, ou seja, consumidores que podem ser motivados por soluções custo-benefício eficazes.  Sugere-se  as empresas  que  fazem  este  tipo  de  produtos  à  utilização  do  ‘marketing  verde’  como  forma  de  atingir estes consumidores e fomentar o mercado da reciclagem.

Por fim, podemos concluir que os dados apresentados são um indício de que o mito de que os produtos que contém material reciclado em sua composição são de baixa qualidade não esteja tão presente. Os resultados apresentados mostram-se importantes uma vez que revelam a opinião de pessoas que estarão ocupando posições de destaque na sociedade e serão futuros formadores de opinião. Deste modo, poderão incentivar práticas que beneficiem a sociedade e o meio ambiente.

6.5 A QUESTÃO DO MICRO LIXO NO DESENVOLVIMENTO DE EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE

Deisi Viviani Becker, Olinda Barcellos, Valéria Dias da Veiga

A cerca de 20 anos o lixo não era percebido como uma questão que deveria ser pensada ou discutida por todos nós, isso porque nem tudo que consumíamos tinha tantos componentes de difícil decomposição, já que eram compostos basicamente por materiais orgânicos como alimentos degradáveis pela natureza.  No entanto, consumir alimentos, bem como produtos e serviços que tornam a vida mais prática, acabam gerando para a sociedade uma quantidade de lixo (resíduo) cada vez maior por habitante. O lixo tornou-se um problema sério nas cidades e seu acúmulo ocasiona entupimento de bueiros causando enchentes, afetando a qualidade da água e ainda propiciando a proliferação de ratos, baratas e outros malefícios pra saúde de toda a população.

Muitos livros que tratam desse tema apresentam dados gerais sobre o tempo de degradação, porém, quase sempre a abordagem é feita de forma superficial, sem, entretanto, discuti-la dentro do contexto que o tema requer, como por exemplo, o tempo de cada tipo de material. Uma breve constatação sobre o que se está tratando é apresentada no quadro abaixo, com informações a repeito do tempo que cada tipo de material leva para ser absorvido pelo ambiente:

Quadro 1 – Material e prazo de absorção pelo ambiente

Fonte de Pesquisa / Material

Campanha
Ziraldo

Comlurb website

SMA
São Sebastião

DMLU
POA

UNICEF
website

Papel 3 a 6 meses De 3 meses a vários anos 2 a 4 semanas 3 meses
Papel plastificado 1 a 5 anos
Ponta de cigarro 5 anos 10 a 20 anos De 3 meses a vários anos 1 a 2 anos
Chiclete 5 anos 5 anos 5 anos 5 anos
Sacos plásticos 30 a 40 anos
Alumínio 80 a 100 anos Mais de 1.000 anos 200 a 500 anos 200 a 500 anos
Palito de fósforo

6 meses

Fonte: Elaborado pelas autoras

É fundamental uma reflexão sobre o que estamos descartando como materiais inúteis e/ou indesejáveis, antes mesmo de discutirmos quanto tempo levará esse material para degradar-se no meio ambiente. É de fundamental importância pensar efetivamente sobre como podemos contribuir para que tenhamos um modelo sustentável, ecologicamente equilibrado, contemplando os “Rs mágicos”: Redução, Reutilização e Reciclagem, permitindo economia de matéria prima e energia. Assim, sugerimos Repensar nosso modelo de consumo e descarte, mudar atitudes, conduzindo-nos por caminhos seguros, para essa e para as futuras gerações.

Mas porque então essa proposta se propõe estudar algo que se chama “micro lixo”? Na verdade, quando se trata de conscientização, cultura ou comportamento do ser humano, tudo faz diferença. Você já ouviu falar sobre “quem faz pequeno, faz grande? As pessoas que degradam o meio ambiente podem fazer isso com um pequeno papel de bala ou com um grande saco de lixo jogado na rua. A diferença é que, ao jogar um grande saco de lixo na calçada os impactos disso serão visíveis e, possivelmente, a pessoa poderá ser repreendida rapidamente pela sujeira e mau odor causados, enquanto o pequeno toco de cigarro ou papel de bala passa despercebido, mas pode no longo prazo causar tantos problemas quanto o saco de lixo.

O micro lixo, portanto, são aqueles “lixinhos” que a maioria das pessoas acha que não vai fazer diferença, como papéis de bala, tampas de garrafas, canudos, palitos de picolé e pirulito, goma de mascar, bitucas de cigarro, embalagens plásticas e de cigarro, anéis de latinha, cacos de vidro, tudo o que se encontra na rua, nos gramados, entopem bueiros gerando enchentes e outros graves problemas. A partir dessa ideia, desenvolveu-se o estudo em questão visando participar do processo de desenvolvimento de uma cultura preocupada com a sustentabilidade e a preservação ambiental.

Este trabalho foi realizado em 2012 dentro de uma Instituição que abriga vários tipos de empresas (duas indústrias diferentes, uma Instituição de Ensino Superior (IES) e uma escola), sendo que as pessoas que trabalham nestas empresas dividem o mesmo espaço, em uma área comum. As pessoas que circulam neste espaço comum pertencem a diferentes categorias de instrução, idade, níveis de renda, interesses, entre outras. Ainda, ocupam cargos também distintos, como: diretor, operário, professor, aluno, pessoal de escritório, crianças, etc.

O curso de administração da instituição abraçou a causa e se responsabilizou pelo trabalho de alcançar os objetivos do projeto que foram: identificar os tipos e as quantidades de micro lixos nos espaços físicos da instituição; sensibilizar as pessoas envolvidas (stakeholders) com a instituição para as questões de reciclagem e cuidados com o meio ambiente; reduzir a quantidade de micro lixo em níveis aceitáveis de acordo com as práticas de gestão ambiental, por meio da utilização de recipientes adequados (pré-formas [1]); promover parcerias, tendo em vista arrecadar os recipientes (pré-formas) para a coleta do micro lixo.

[1] Recipiente com tampa que pode ser guardado na bolsa e mesmo com armazenamento de chicletes ou cigarros pode ser lavado e reutilizado sem odor.

O levantamento de quantidades de micro lixo existente na instituição foi realizado por funcionários escolhidos e convidados para participarem do projeto, sempre na intenção de transformá-los em multiplicadores da ideia.

A coleta foi estruturada em duas etapas, sendo que cada etapa foi realizada em momentos mais convenientes para cada organização envolvida. Iniciada coleta na 1ª semana de julho e finalizada em 31/07/2012. A devolução dos formulários com os dados de coleta ocorreu na primeira semana de agosto. Após o término da primeira coleta de micro lixo nas dependências da instituição, onde o espaço para coleta e posterior análise foi divido em seis subespaços, é possível verificar que toco de cigarro está presente em quatro subespaços, sendo que em três destas, o micro lixo apresenta o maior percentual de coleta, ou seja, em torno de 35% do total coletado. Nos subespaços IES e Indústria 1, o micro lixo toco de cigarro representou algo em torno de 8% do total recolhido.

O micro lixo papel de bala foi recolhido nos seis subespaços, representando em torno de 15% do total coletado em cinco subespaços. No subespaço IES, o papel de bala representou 35% do total coletado de micro lixo. E, no entanto, no Colégio este micro lixo tem uma representação insignificante.

Guardanapo de papel e o Canudinho representam em torno de 15% do micro lixo recolhidos nos subespaços da instituição. O micro lixo que mais foi recolhido no Colégio foi chicletes, ou seja, 35% do total recolhido. Percentual igual de papel de bala recolhido na IES. Então, pode-se verificar que, enquanto no Colégio, as crianças e adolescentes mastigam chicletes, os adultos da IES preferem as balas. Na Indústria 1, o micro lixo tampa de garrafa foi o destaque, representando mais ou menos 25% do total de micro lixo recolhido.

Foi possível verificar que todos os micro lixos especificados no instrumento de coleta, foram encontrados nos subespaços da instituição, com exceção apenas do palito de madeira que não foi recolhido no subespaço da IES.

O espaço de quantidade predominante em todos os seis subespaços da instituição foi entre 1 a 10 unidades, exceto chicletes no Colégio e papel de bala, canudinho e guardanapo de papel na IES, onde foram encontrados em quantidades acima de 41 unidades.

Ao final dessa primeira coleta, é possível perceber que o vício do tabagismo é muito presente nos espaços da instituição, principalmente na parte administrativa da organização, onde mais de 44% do micro lixo recolhidos é de toco de cigarro.

A partir da coleta, ações de sensibilização foram desenvolvidas junto aos alunos de primeiro e segundo graus do colégio vinculado à instituição. Durante a coleta, os professores envolveram os alunos para que pudessem entender os impactos de ações como deixar chiclete no chão ou papéis na sala de aula. Notou-se que este envolvimento já repercutiu em ações no dia a dia das crianças na escola e em casa, de acordo com relatos dos professores: “alguns pais vieram buscar informação do por que os filhos estavam envolvidos com lixo? Outros vieram perguntar o que estava ocorrendo na escola, pois o filho estava interessado em repreender ações dos adultos em relação ao lixo, economia de água e energia”. Os alunos do ensino fundamental demonstraram um rápido entendimento da questão e uma mudança de atitude que refletiu nas demais pessoas de sua convivência, iniciando um processo de transformação cultural da família, o que acaba interferindo na dinâmica das compras e atitudes das famílias.

 

5.3 Como criar uma inovação social?

Angela Maria Maurer e Tania Nunes da Silva

Para discutir sobre esse questionamento, é importante saber primeiro o que é uma inovação. Esse conceito é utilizado principalmente por empresas, quando elas desenvolvem algum novo produto ou serviço, alguma nova forma de se organizar, alguma nova maneira de comercializar. O principal objetivo das inovações é aumentar a competitividade de determinada empresa para que ela sobreviva por mais tempo no mercado.

As inovações sociais, por outro lado, não visam beneficiar só uma determinada empresa, mas uma coletividade de indivíduos, como uma comunidade ou um grupo de pessoas interessado em resolver problemas ou necessidades sociais que enfrentam. Exemplos de necessidades sociais são demandas por alimentação, educação, energia, habitação, renda, recursos hídricos, saúde ou até melhorias que podem ser feitas em prol do meio ambiente. Assim, a coletividade de indivíduos pode mapear e discutir sobre as situações problemáticas que mais lhe atinge para, posteriormente, serem desenvolvidas soluções, que podem ser um novo produto (criação de um parque público em uma área abandonada, lentes intraoculares comercializadas a baixo custo, cisternas de fibra de bananeira para captação de água), um novo serviço (microcrédito, microsseguro), uma nova abordagem (projetos “Pão para Todos”, laboratório de aprendizagem para jovens que utiliza sucata como matéria-prima), ou até um modelo de negócios (cooperativas e parcerias entre grandes empresas para desenvolver produtos de baixo custo).

Para desenvolver essa inovação, os indivíduos podem contar com o auxílio de outras instituições e organizações, como ONGs, instituições governamentais, grupos religiosos, os quais podem auxiliar com ideias e maneiras de implementá-las. A solução não precisa ser necessariamente alguma ideia nunca antes vista, mas desde que para as pessoas envolvidas ela seja nova, ou seja, inédita no contexto onde será desenvolvida. Após definir qual inovação será feita, para iniciar o seu processo de implantação, ela deve ser testada e experimentada pelo grupo de pessoas que será seus usuários. Pensando setor de artesanato, os artesãos geralmente apresentam dificuldade para comercializar os seus produtos, o que os impede de ter uma renda a partir do ofício que sabem executar. Portanto, muitos órgãos, como o SEBRAE, EMATER e outras entidades trabalham no sentido de organizar as pessoas que trabalham com essa função para criar associações e cooperativas, como é feito no Estado do Rio Grande do Sul.

Um dos exemplos de cooperativa nesse setor é a Lã Pura, localizada nas cidades de São Borja e também de Uruguaiana. Para formar essa cooperativa, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) entrou em contato com o SEBRAE para desenvolver um projeto de artesanato com matéria-prima local. O oeste e o sul do Rio Grande do Sul são regiões que tem como uma das principais fontes de renda a criação de ovinos. E, como nessas regiões o frio também é intenso no inverno, geralmente as mulheres dos chamados “homens do campo” trabalhavam com a produção artesanal de cobertores e casacos. No entanto, a partir da década de 1990, com a forte entrada da indústria têxtil no mercado, a ocupação dessas mulheres passava a não ter tanto destaque e as dificuldades para comercializar seus produtos eram cada vez maiores.

A iniciativa do MDA, em conjunto com o SEBRAE e a EMATER, buscava, então, resgatar esse conhecimento de produção artesanal por meio da lã ovina, utilizando, também, técnicas e design de produtos, feitos por um designer renomado no Brasil. Para tanto, diversas reuniões foram feitas com as artesãs, em 2005, para que elas pudessem experimentar o que seria o seu novo ambiente de trabalho e a forma como iriam se organizar. A ideia da inovação social, nesse caso, partiu, portanto, de uma parceria entre diversas instituições que objetivavam contribuir e auxiliar no processo de formação da cooperativa.

No início das atividades, diversas dificuldades foram enfrentadas pelas artesãs, como falta de compromisso de algumas delas, resistência ao modelo e problemas de gestão. Com o passar do tempo, no entanto, o grupo foi se consolidando e passou a ser um dos exemplos de cooperativa de artesanato, tanto no Rio Grande do Sul quanto em outros Estados. Diversos benefícios são destacados por suas participantes, principalmente a contribuição para sua autoestima e prevenção contra doenças como depressão, além da geração de renda para pessoas que geralmente não se enquadram no mercado formal de empregos: idade avançada, baixo grau de escolaridade e sexo feminino.

A cooperativa ainda conta com o apoio de diversas instituições e organizações para o desenvolvimento de suas atividades. Assim, a inovação social, que aqui se refere à formação da cooperativa Lã Pura, passou por estágios desde o seu teste e experimentação até se tornar um modelo de forma de trabalho para outras organizações e setores. O principal diferencial dessa inovação é o capital social e a aprendizagem que foi gerado, assim como a melhoria da qualidade de vida das artesãs envolvidas. Portanto, qualquer inovação social deve ter como objetivo primordial a melhoria de algum aspecto tido como “social” para, posteriormente, desenvolver outros benefícios como ambientais, econômicos e culturais, como no caso da Lã Pura. Para sintetizar os aspectos envolvidos no processo de desenvolvimento de uma inovação social, tem-se a Figura 01.

5_3

Cabe salientar que qualquer indivíduo, organização, ou grupo de indivíduos podem iniciar o processo de desenvolvimento de uma inovação social. É partir da identificação de problemas sociais e mobilizar atores para a sua solução.

 

Texto elaborado com base na dissertação de mestrado de Angela Maria Maurer, intitulada de “As dimensões de inovação social em empreendimentos econômicos solidários do setor de artesanato gaúcho”, defendida no ano de 2011, no Programa de Pós-Graduação em Administração da UFRGS.

4.6 E A COLETA SELETIVA EM SANTA MARIA (RS), COMO ESTÁ?

Luciana Nunes de Oliveira

A dissertação de mestrado intitulada “COLETA SELETIVA NO MUNICÍPIO DE SANTA MARIA (RS): PANORAMA, LIMITAÇÕES E OPORTUNIDADES”, foi defendida quando fazia um ano em que a Prefeitura Municipal havia implantando a Coleta Seletiva (com a “participação” das Associações de Catadores) para se adequar a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei n. 12.305 de 02 de agosto de 2010).

O objetivo geral da dissertação foi verificar qual a atual situação da coleta seletiva no município, além de identificar a evolução das políticas públicas para a promoção da coleta seletiva no município; identificar os agentes que se envolvem com a coleta seletiva; analisar as condições de trabalho das associações e dos catadores autônomos; e identificar as limitações e oportunidades para o desenvolvimento da coleta seletiva no município.

E qual foi o caminho seguido para alcançar os objetivos propostos? Foi realizada uma revisão de literatura nos temas afins a dissertação, foi realizada uma entrevista com o Secretário de Proteção Ambiental da cidade, entrevistas com os representantes legais das Associações de Catadores estudadas, entrevistas com os associados e entrevistas com os catadores autônomos.

E o que surgiu de todas estas entrevistas? Na entrevista com o Secretário de Proteção Ambiental descobriu-se que eram gerados 170 toneladas/dia no município e os destinos eram: um aterro sanitário particular de propriedade da empresa Revita Engenharia S.A. e Coleta seletiva realizada pela Associação dos Selecionadores de Materiais Recicláveis (ASMAR). E quando teve início e como funcionava esta coleta seletiva? Ela teve início apenas em onze de maio de 2011 tendo como titular dos serviços a ASMAR. De acordo com o Secretário, foi realizada uma concorrência pública, onde a Associação foi a vencedora. A concorrência contou com quatro associações concorrendo à execução do serviço, entretanto, apenas três atendiam as exigências necessárias (ASMAR, Associação de Reciclagem Seletiva de Lixo Esperança – ARSELE e Associação de Catadores e Reciclagem Noemia Lazzarini – NOEMIA). Ainda de acordo com o Secretário, apesar de todo o material ser recolhido pela ASMAR, o mesmo era distribuído em sistema de rodízio para as demais associações legalizadas do município, garantindo, inclusive, que elas sobrevivam e sejam então alavancadas com a destinação desse resíduo.

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Das entrevistas com os representantes legais e de alguns associados das três associações estudadas foi possível perceber uma grande diferença entre as mesmas. O ponto comum foi a total falta de estrutura, pois nenhuma delas possuía prédio próprio e legalizado. Além disso, quando se tem equipamentos, falta meio de transporte. Ou então não se tem nada, como era o caso da NOEMIA. A ASMAR possuía uma melhor organização, era mais profissional, possuía um caminhão, é era responsável pela coleta seletiva do município e era a Associação onde os associados recebiam melhor remuneração. Porém, esta remuneração poderia ser ainda melhor se ela não tivesse gastos enormes com conserto do caminhão praticamente todo mês, aluguel de caminhão (quando o da Associação estraga), pagamento de uma linha de telefone ociosa, dentre outros gastos. A ARSELE estava em uma situação intermediária, pois possuía um refeitório bem equipado, possuía bons equipamentos, porém, o recolhimento do material era feito através de carrinhos. Ou seja, os associados estavam expostos às mesmas condições insalubres dos catadores autônomos. Porém, caso eles não saíssem em busca de material, a sobrevivência da Associação apenas com o material proveniente da coleta seletiva não era possível. A NOEMIA possuía péssimas instalações em um galpão pequeno que era proveniente de invasão. Quando chovia todo o material era perdido, pois o galpão de madeira possuía vários buracos. Assim como ocorre na ARSELE, os associados precisavam ir às ruas em busca do material que garantiria a sobrevivência da Associação. E ao contrário da ASMAR e da ARSELE, a NOEMIA não possuía cozinha e tão pouco recebia alimentos do Programa Mesa Brasil SESC, ou seja, cada associado era responsável por sua alimentação.

E os catadores autônomos? Qual era a situação deles? Eles foram identificados como uma parcela da sociedade totalmente esquecida. Seres invisíveis e que não recebiam apoio nenhum, além de serem marginalizados por todas as esferas. Estavam em condições insalubres e não possuíam perspectiva alguma de crescimento, pois não possuíam escolaridade e qualificação para ingresso no mercado de trabalho. Estavam subordinados a um intermediário que pagava um valor bem inferior ao valor de mercado.  Possuíam baixa escolaridade e utilizam os recursos do Programa Bolsa Família para complementação da renda, pois mesmo trabalhando todos os dias, a atividade de catador não permitia a manutenção da sua família. Sabiam da dificuldade que enfrentariam ao tentar ingressar no mercado de trabalho e percebiam uma barreira no ingresso no mercado formal da reciclagem (associações).

Com o estudo foi possível perceber que as associações continuaram com um número limitado e pequeno de associados, apesar da implementação da coleta seletiva. Além disso, as associações possuíam uma série de problemas de qualificação e infraestrutura. Era visível a presença de catadores autônomos nas ruas, sendo que os mesmos trabalhavam em condições insalubres. E a coleta abrangia apenas 2% dos domicílios do município, ou seja, a população não estava “adotando” esta ideia, conforme informou o Secretário de Proteção Ambiental.

As limitações e oportunidades para o desenvolvimento da coleta seletiva no município foram:

Limitações

Oportunidades

Baixa qualificação das Associações estudadas

Cidade universitária que conta com pesquisadores que podem auxiliar na captura de recursos

Falta de infraestrutura das Associações estudadas (instalações e equipamentos)

Projetos especiais – aqueles que pomovem a coleta seletiva (que poderiam ser replicados)

Baixa conscientização da população

Política Nacional de Resíduos Sólidos

Presença de um grande intermediário no município

Presença de órgãos federais que podem adotar a Coleta Seletiva Solidária

Um ano já se passou desde a defesa da dissertação e nada mudou em Santa Maria e o percentual de bairros atendidos continua estagnado. Ou seja, a responsabilidade para efetuar a coleta seletiva municipal foi colocada nas costas de uma Associação que não tem condições para isso e o desperdício continua, pois o que poderia ser uma fonte de subsistência das Associações vai direto para o Aterro Municipal.

Luciana Nunes de Oliveira é autora da dissertação “COLETA SELETIVA NO MUNICÍPIO DE SANTA MARIA (RS): PANORAMA, LIMITAÇÕES E OPORTUNIDADES”, defendida em 2012 no PPGA/EA/UFRGS disponível em: http://hdl.handle.net/10183/55135

Em abril de 2013, Luciana era Secretária Executiva na Universidade Federal de Santa Maria, em Santa Maria.

3.7 Turismo e sustentabilidade: desenvolvimento regional baseado nas boas práticas do Turismo através de um Geoparque

Rodrigo von Mengden Tomasi

Sustentabilidade e Turismo podem estar, e estão em alguns casos, em lados opostos em relação aos requisitos necessários para ser sustentável e as práticas usuais sem a devida orientação dos turistas.

Muitas iniciativas de Turismo implantadas não tem qualquer vinculação com os princípios de sustentabilidade necessários para a continuidade da atividade, sendo apenas imediatistas e colocadas em prática sem a devida preparação e observância dos critérios adequados.

Entender o fenômeno turístico em sua totalidade exige que se relacionem aspectos amplos e complementares integrantes da sociedade de consumo atual. Assim, o Turismo pode ser definido como uma atividade que permeia diversos segmentos, desde os relacionados diretamente com o seu impacto na economia, até os que dizem respeito às influências nas relações sociais, históricas e culturais das pessoas.

Atualmente, o objetivo de alcançar um desenvolvimento turístico sustentável surge como algo fundamental para diversas regiões ou países que podem ter no Turismo uma importante fonte de receitas para o desenvolvimento de sua economia. Porém apresentam-se inúmeras dificuldades de utilização plena e sustentável das diversas áreas naturais de possível aproveitamento turístico pelas comunidades interessadas, seja pela falta de legislação ou pelas diferentes orientações dadas a esses locais.

Posso afirmar que o desenvolvimento sustentável de uma região com base no Turismo é possível sim, e através de formas distintas, necessariamente evidenciando que a exploração turística, para ser sustentável, pressupõe a adoção de conceitos adequados tanto sobre Turismo, quanto sobre desenvolvimento regional.

Sabe-se que o Turismo, quando bem executado, gera emprego, trabalho e renda, de forma direta e indireta, abrangendo os diversos setores da economia, exigindo qualificação e capacitação dos atores envolvidos. Cada trabalhador da hotelaria, da gastronomia, dos setores de comércio, de eventos, de receptivo e de transporte, dos serviços de trânsito, da guarda municipal, da polícia e dos guias de turismo, representa uma parcela integrante da cadeia produtiva do Turismo.

Com base nessa orientação, compreende-se que seja crescente o número de administrações públicas de diferentes níveis que entendem a atividade turística como uma solução para seus problemas financeiros e de inserção da comunidade no mercado de trabalho. Muitas prefeituras, regiões, estados e inclusive países buscam associar sua imagem a atrativos históricos, naturais e culturais, buscando visitantes que ao dirigirem-se a sua localidade empregam recursos em diversos setores da economia.

Alguns dos principais produtos dessa atividade turística, porém, estão divididos territorialmente entre mais de um município, estado, região ou país, o que exige dos seus gestores estratégias diversificadas para a efetiva utilização e aproveitamento de seus recursos visando o ganho financeiro objetivado. Então, com o intuito de evitar principalmente que Prefeituras, Associações de Municípios e Governos Estaduais e Federais invistam recursos na implantação de estruturas e práticas inadequadas ou ineficientes, com base em conceitos equivocados e ultrapassados sobre Turismo e desenvolvimento regional, vislumbrou-se a implantação de uma proposta específica que contemplasse práticas bem direcionadas e que cumprissem com os requisitos do desenvolvimento sustentável.

Ao encontro desta visão, a UNESCO propõe uma estrutura diferenciada, denominada de Geoparque, para ser adotada em situações possivelmente semelhantes a esta. O que foi pesquisado em minha dissertação de mestrado, então, foi entre outros aspectos, a compreensão desse contexto necessário e as possibilidades de implantação desta estrutura em um destino no extremo norte do Sul do Brasil, mais especificamente na área que abrange o Parque Nacional dos Aparados da Serra e da Serra Geral, entre os Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.

Criado originalmente para colaborar no sentido de proteger e promover o patrimônio geológico europeu, através do desenvolvimento econômico sustentável dos seus territórios, “devendo ser um promotor da geoconservação na sua área e um impulsionador do desenvolvimento das populações que lá vivem”, o Geoparque apresenta-se como possível solução para estes problemas em localidades com as características sugeridas para sua proposição.

Buscando a aplicabilidade do conceito, foi analisada a proposta de candidatura da região denominada neste estudo como dos “Canyons do Brasil”, para integrar o seleto grupo de Geoparques existentes no mundo. Esta proposta foi realizada por um grupo de consultores contratado através da parceria entre seis municípios que compõem o posteriormente chamado núcleo gestor no caso da implantação de um futuro Geoparque, serviço iniciado no ano de 2007 e que não chegou ainda ao resultado final devido a entraves burocráticos.

Mesmo assim, foi produzida uma analise do efeito no desenvolvimento regional de uma proposta de incremento do Turismo resultante da implantação de um Geoparque de acordo com os preceitos da UNESCO, tornando esta pesquisa relevante, pois possibilitou a busca de alternativas para conservação e aproveitamento dos atrativos turísticos, aqui compreendidos como aspectos de fauna e flora, relevo, rios, hábitos e costumes locais, entre outros, e ofereceu um formato real e possível, com suas limitações apresentadas, de organizar as práticas de desenvolvimento com base no Turismo.

Ao analisar a proposta de candidatura da região dos “Canyons do Brasil” visando sua inclusão na Rede Global de Geoparques da UNESCO, conclui-se que viabilizar o encaminhamento desta região como um Geoparque na Rede, apresenta-se como possível e de fundamental importância para o destino. Cabe ressaltar que nas condições atuais, a região não apresenta uma oferta turística devidamente estruturada, porém pelas iniciativas apresentadas e pelas suas condições de beleza cênica e patrimônio científico, no entanto, reúne todas as condições para o desenvolvimento de um Turismo sustentável, inclusive de relevante projeção internacional.

Importante destacar que a inclusão na Rede Global de Geoparques é um sinal de reconhecimento da excelência na relação com as orientações presentes, mas não deve ser considerado como objetivo final, pois a manutenção da permanência nessa estrutura deve ser sempre destacada como algo fundamental, tendo em vista que desta forma também identificam-se os princípios da sustentabilidade discutidos em todo estudo.

Perceber que mesmo na projeção de um cenário bastante pessimista (na dissertação três cenários foram projetados) a implantação de um Geoparque traria benefícios evidentes a economia, faz com conclua-se que a candidatura não possa parar no estágio adiantado em que se encontra, até para não desmotivar os atores participantes de buscarem soluções para melhorar a qualidade de vida da região.

Estes resultados não podem, porém, causar a impressão de que o Geoparque por si só seria o responsável pela incorporação dos benefícios resultantes dos efeitos projetados pela comunidade local possibilitando desta forma um desenvolvimento sustentável conforme proposto somente a partir de sua execução. Os valores previstos somente serão gerados e aproveitados pela região no caso desta estar preparada e em condições de responder às demandas geradas nas diversas fases de produção e comercialização do todo que envolve o setor do Turismo.

Rodrigo von Mengden Tomasi é autor da dissertação de mestrado: “Desenvolvimento regional sustentável com base no turismo: A proposta do Geoparque dos Canyons do Brasil”, defendida em 2011 no PPGA/EA/UFRGS. Disponível em ….

Em abril de 2013, Rodrigo von Mengden Tomasi era Professor na ULBRA – Universidade Luterana do Brasil.

3.6 Hotéis com práticas ambientais: isto é um bom negócio?

Renata Fernandes Guzzo

Infelizmente nos últimos tempos tem se tornado cada vez mais comum ouvirmos falar de impacto ambiental, injustiças sociais, desenvolvimento econômico desleal… Quando tais assuntos surgem, logo pensamos: quem são os culpados por isso tudo? Será o governo, que tem o poder de legislar, mas que pouco fiscaliza, serão as empresas que objetivam a lucratividade, mas são poucas que pensam em toda a sua cadeia de produção de forma sustentável? Ou ainda, será que somos todos nós, enquanto indivíduos, que estamos tão envolvidos nesta sociedade de consumo frenético e que não conseguimos nos desvincular desse circulo vicioso? O objetivo aqui não é encontrar respostas, mas propor uma reflexão sobre a atuação de uma peça desse grande “tabuleiro” que são as empresas, mais especificamente empreendimentos hoteleiros.

A hospedagem enquanto ato hospitaleiro da comunidade local e depois como hospitalidade comercial surgiu conforme a necessidade natural que os viajantes possuem durante suas viagens de abrigo e alimentação, observadas desde que o homem passou a ser nômade. A primeira notícia sobre a criação de um espaço destinado especificamente à hospedagem vem de alguns séculos antes da era cristã, na Grécia Antiga, no santuário de Olímpia, onde eram realizados os jogos olímpicos (ANDRADE, 2002, p.165). Apesar disso, o turismo enquanto fenômeno social vêm sendo estudado a pouco tempo (comparado, por exemplo, com às ciências biológicas, exatas,…).

O setor de hospedagem representa um dos principais componentes de uma viagem, sendo este o responsável pela maior parte de gastos efetuados pelos viajantes (YOUELL, 2002). Desta forma, as organizações hoteleiras precisam observar as mudanças que ocorrem no ambiente institucional que regula suas ações, como por exemplo, a atual questão ambiental.

Ok, tudo isso é muito bonito, mas quando falamos dos problemas ambientais, sociais e econômicos, o turismo e aqui mais especificamente a hotelaria são lembrados como potenciais fontes de impacto? Aí é que mora o grande “X” da questão. As indústrias e grandes organizações são as primeiras dessa lista “negra”. Os impactos das operações de um empreendimento hoteleiro podem estar diluídos, por exemplo, no uso da água, da energia, na geração de resíduos sólidos, efluentes líquidos, uso da terra, impactos sociais na comunidade local, entre tantos outros, e talvez por isso seus impactos não sejam lembrados tão prontamente. Da mesma forma não podemos esquecer-nos de todos os benefícios que um empreendimento desse segmento pode gerar, como: empregos diretos e indiretos, incrementando a renda dos habitantes e orgulho étnico, valorização do patrimônio histórico e natural, recuperação psicofísica dos viajantes, desenvolvimento da economia local, entre outros pontos positivos. Sabendo da relevância da temática ambiental, social e da necessidade de sobrevivência econômica das empresas, realizei um estudo em dezembro de 2010 com os hotéis da cidade de Porto Alegre para verificar através da interrogação dos gestores, se há relação entre a adoção de práticas ambientais e desempenho organizacional. Tal estudo teve como principal motivação demonstrar que adotar práticas ambientais, além de ser eticamente necessário diante da realidade atual, poderia ainda auxiliar em um melhor desempenho organizacional.

O questionário de 10 questões foi enviado por e-mail à todos os empreendimentos hoteleiros que estavam cadastrados no site da Secretaria Municipal de Turismo de Porto Alegre na época. Foram obtidas ao total 39 respostas (44,31% de índice de retorno) dos 88 meios de hospedagem sondados.

A principal razão apresentada pelos gestores que dificultava o uso das práticas ambientais no estabelecimento foi ‘Não ter informações sobre a viabilidade’, com 58,97% das respostas. Ainda 35,90% dos respondentes responderam que a principal razão era que tais práticas não eram viáveis economicamente. Observa-se que esta visão ainda é bastante comum na hotelaria porto-alegrense. Apesar desse resultado, quando questionados sobre o grau de influência das práticas ambientais no mercado, 58,97% dos respondentes acreditam que a influência seja muito positiva. A média indica que apesar de não saberem sobre a real viabilidade das práticas ambientais, os meios de hospedagem de Porto Alegre consideram que o impacto no mercado é bom. Pode-se inferir que tal comportamento pode estar ligado à ética ambiental, já que se torna evidente frente à crise ambiental que enfrentamos atualmente. Além disso, aponta uma fragilidade e desconhecimento dos empreendimentos sobre a viabilidade de tais ações.

O questionário ainda apresentou uma lista de práticas ambientais. Foi detectado que 40% dos estabelecimentos estudados usam práticas ambientais com frequência. Duas das práticas mais utilizadas são relacionadas ao consumo de energia: ‘Utilização de lâmpadas econômicas’ e ‘Utiliza sensores de presença’. Outras práticas que apareceram com maior utilização foi: ‘Reduz a frequência da troca de lençóis e toalhas por opção do cliente’ e ‘Faz coleta seletiva de resíduos sólidos’. As três práticas menos utilizadas foram atribuídas à utilização de tecnologias mais avançadas e que exigem maiores investimentos: ‘Utiliza aquecedores de energia solar’; ‘Reutiliza água da chuva para atividades como jardinagem e descargas’, e ‘Contrata consultoria externa para aumentar a eficácia ambiental’. Por outro lado, são práticas que se implantadas corretamente, poderiam trazer uma redução de custos fixos da organização.

Os meios de hospedagem classificados como $$$$ (diária do apto standard duplo de R$ 221,00 a R$ 300,00) são os que apresentaram mais práticas ambientais. Fator que causou surpresa, visto que o esperado era que os empreendimentos da faixa $$$$$ (diária do apto standard duplo acima de R$ 300,00) fossem os que tivessem mais práticas. O estudo apontou também que à medida que aumenta a média do RevPar (índice que demonstra a receita por apartamentos disponíveis) dos empreendimentos, observa-se uma maior adesão às questões de práticas ambientais.

Outro resultado observado na pesquisa foi que as redes hoteleiras tendem a realizar mais práticas ambientais, bem como apresentam melhor desempenho organizacional que os demais empreendimentos (hotéis que não pertencem a redes). As redes hoteleiras (internacionais e nacionais) seguem padrões de uma sede, que normalmente compreendem e adotam as tendências globais para se manterem no mercado de forma competitiva, fator que justifica o encontrado na pesquisa. Mas o principal resultado identificado foi que à medida que existe uma maior utilização das práticas ambientais pelos empreendimentos hoteleiros, existe uma tendência de aumento do nível de desempenho organizacional. Tal fator demonstra que os empreendimentos que já realizam práticas ambientais estão tendo resultados no desempenho da organização (que envolvem aspectos relacionados aos resultados financeiros, sociais, ambientais, estratégicos, da cultura organizacional, entre outros).

Em suma, através dos resultados ficou evidente que as práticas ambientais ainda não são prioridade no segmento hoteleiro de Porto Alegre. No entanto, foi identificado que existe uma relação clara e positiva entre o uso das práticas ambientais já existentes e o nível de desempenho organizacional. Apesar de não estabelecer uma relação causal, os resultados apresentam uma tendência.

Este estudo pode contribuir com algumas implicações para os gestores dos hotéis. Os resultados demonstram que o gerenciamento ambiental possui relação com o desempenho organizacional. Então, considerar a implementação de práticas ambientais pode auxiliar na proteção do ambiente natural, respondendo de forma ética aos problemas ambientais e ao mesmo tempo trazer melhorias para o desempenho organizacional das empresas, como: economia de custos, melhoria da imagem junto aos clientes, sentimento de orgulho dos funcionários, entre outras.

Para finalizar, gostaria de retomar o questionamento do início deste texto: quem são os culpados pelos problemas ambientais, sociais e econômicos que estamos enfrentando atualmente? Talvez devêssemos parar de tentar encontrar culpados e passar a encontrar soluções. O estudo acima demonstra que a hotelaria porto-alegrense está iniciando esta trajetória e que alguns gestores começam a compreender as responsabilidades da organização frente à sociedade e meio ambiente. Responsabilidades e soluções que certamente deverão ser ponderadas em termos sustentáveis e que ao serem compartilhadas com a sociedade civil, governo e outras empresas poderão cada vez ser mais aplicadas e difundidas.

Dissertação: A Relação das Práticas Ambientais e Desempenho Organizacional na Hotelaria de Porto Alegre, defendida em 2011 no PPGA/EA/UFRGS.

Em abril de 2013, Renata Fernandes Guzzo era docente na Faculdade Senac Porto Alegre – Sistema Fecomércio – Senac-RS

3.5 A importância da denúncia e as punições decorrentes de danos ambientais

Magda Brancher Gravina

Considerando que  somos parte de um todo, que tudo o que existe no Planeta Terra nos envolve, que precisamos dos recursos naturais  para sobreviver  e que todos  são responsáveis pelos  atos que praticam,  não podemos, de forma alguma, deixar de observar, analisar e,   se for o caso, denunciar qualquer ação que gere algum tipo de dano ambiental.

Podemos afirmar, sem sombra de dúvida,  que os recursos ambientais  nos pertencem e, diante dessa premissa,  temos mais do que o direito, mas também o dever de apontar os danos ambientais que presenciamos e os causadores dos mesmos.

Um estudo realizado para fins de realização de uma Dissertação de Mestrado e que analisou os danos ambientais causados por empresas privadas em uma determinada região do Estado do Rio Grande do Sul,  apontou que, quando denunciado às autoridades competentes, o dano ambiental foi reparado. Isso somente não ocorreu quando não foi possível a reparação, mas nestes casos, ocorreu a aplicação de uma punição, via de regra pecuniária,  ao agente devastador ou poluidor.  E não resta mais dúvida: a punição faz com que sejam evitados muitos danos ambientais. Infelizmente muitas pessoas (físicas ou jurídicas) não teriam qualquer cuidado com o meio ambiente se não fossem as punições previstas na legislação.

Se alguém causa um dano no nosso corpo, reagimos, gritamos, tomamos providências. Um simples e inesperado espetar de agulha nos faria gritar. Assim, considerando o que foi inicialmente exposto quanto a fazermos parte de um todo, qualquer dano ambiental, em maior ou menor grau,  também nos atinge e por isso deveríamos reagir.  Aqueles que tiveram o privilégio de observar o Planeta Terra do espaço constataram que “nosso lar” é uma pequena bola azul, em órbita ao redor do sol, e desse Planeta, no momento (e certamente  por várias décadas ou séculos), não podemos sair de forma definitiva.

É assim que, não nos é dada outra escolha:  como reclamamos quando nos machucam, devemos reclamar quando o nosso planeta é machucado. Um morro devastado, a exploração de uma mina,  são feridas na pele do planeta.  E temos pessoas que o machucam constantemente, derramando nos nosso rios, impurezas que tornam nossa água imprópria para o consumo, despejando partículas na atmosfera de forma a tornar nosso ar irrespirável.

É por isso que a legislação precisa impor limites à atuação humana, precisa impor castigos e obrigações aos infratores da legislação ambiental. E o Direito Ambiental, o Civil e o Penal descrevem quais são as responsabilidades daqueles que não respeitam o meio ambiente.

A primeira idéia que se associa ao conceito de responsabilidade é a de compensação pelo dano causado e todos aqueles que detêm capacidade de direito para agir são também passíveis de serem responsabilizados pelos danos ambientais que causarem, independentemente de culpa ou dolo (Culpa, quando a pessoa não   queria um determinado resultado,  mas por uma ação ou omissão,  por negligência ou imprudência, ou por imperícia, causa um dano;  Dolo, quando uma pessoa causa um dano de forma premeditada, como por exemplo,  maltrata um animal ou despeja  dejetos de sua indústria, no rio). É muito importante destacar que também as pessoas jurídicas (empresas), podem ser responsabilizadas pelos danos ambientais que causarem. Quem é capaz para agir, sem estar assistido ou representado por alguém, deve responder pelos seus atos.

O artigo 225, parágrafo 3º, da Constituição da República Federativa do Brasil determina que:

   “As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar o dano” .

 

Deste artigo da nossa Constituição, destacam-se os três tipos de responsabilidades decorrentes do dano ambiental: administrativa, criminal e civil, exteriorizada, esta  última, no dever de indenizar. Um mesmo dano pode ocasionar a punição do agente causador em três níveis: O poluidor pode, em decorrência de um mesmo dano,  ser autuado, multado, processando criminalmente e também responder com o pagamento de indenizações por danos materiais e morais aos atingidos pela degradação ou poluição.

As punições podem ser reduzidas ou ampliadas, dependendo de alguns fatores. As penas são reduzidas, por exemplo se uma pessoa causa um dano ambiental porque estava com fome. E poderá haver ampliação da pena quando há, por exemplo, reincidência, crueldade excessiva, ou premeditação (Dolo, como comentado antes, como a prática de crime ambiental à noite).

Responsabilidade em nível administrativo: Os órgãos da administração pública têm, além do poder, o dever legal de impor condutas aos seus administrados, podendo fiscalizá-los, autorizá-los e exigir dos mesmos providências. Dentre as atividades inerentes à administração na área ambiental estão as concessões de licença prévia, licença de instalação e de operação. Também pode haver fixação de parâmetros e medições obrigatórias. Se não respeitadas as determinações administrativas, as providências possíveis são a notificação, autuação, aplicação de multas,cancelamento das atividades e outras. Assim, as medidas repressivas no âmbito administrativo vão desde as multas até a suspensão temporária das atividades ou mesmo o fechamento definitivo da empresa. Este último ocorre quando há reincidências e não cumprimento de recomendações.

Responsabilidade criminal: A responsabilidade criminal decorre do fato de o agente ter cometido um crime previsto na legislação ambiental. Dessa responsabilidade decorre a possibilidade da perda da liberdade do agente responsável pelo dano, desde que capaz. Assim, não podem ser punidos os considerados incapazes, como os loucos, por exemplo, por ter matado uma ave silvestre. Além da perda da liberdade, há a possibilidade de pena pecuniária, a qual não deve ser confundida com a fiança. A última antecede o julgamento e a primeira é posterior ao mesmo.

Responsabilidade civil: A responsabilidade civil cuida do dever de ressarcir a(s) vítima(s) pelo dano causado. Leva em consideração os prejuízos decorrentes do dano ambiental e deve ser proporcional ao dano e à capacidade econômica do agente causador.

Um exemplo de responsabilidade civil é o  pagamento de indenização por danos e pelo sofrimento causado às pessoas que foram atingidas por algum tipo de poluição, em qualquer dos ambientes: natural, artificial ou de trabalho. Enquadra-se nesse tipo de dano não somente o material (despesas com hospitalização e medicamentos, por exemplo), mas também o dano moral.

Como se vê, não é desperdiçado nosso controle e nossa denúncia quando observamos um dano ambiental. Devemos, pois, informar às autoridades e pessoas que podem agir em nosso nome (Policiais,  fiscais municipais,  secretarias do Meio Ambiente, Ministério Público, Advogados e Associações de defesa ambiental ou de animais) situação que julgamos tratar-se de dano ambiental. Também devemos ter em mente que as penas acima referidas não tem somente a finalidade de punição, mas também tem como objetivo educar, para que todos, vendo que os poluidores foram responsabilizados, pensem muito bem antes de agir de forma inadequada e evitem causar prejuízos ao local onde nascemos, moramos e onde nossos descendentes irão  nascer e morar.

Magda Brancher Gravina, advogada,  formada em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, especialista em Direito Civil, nas áreas de Obrigações e Contratos e Mestre em Administração, com concentração na área Ambiental, também pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

1.13 GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS: UM MODELO INTEGRADO QUE GERA BENEFÍCIOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E AMBIENTAIS

João stephanou

A preservação do meio ambiente tem se tornado cada vez mais foco de preocupação da sociedade e os agentes envolvidos demonstram de forma bastante dinâmica suas ambições e expectativas. O cidadão comum espera que o poder público faça legislações que sejam cada vez mais restritivas e severas para disciplinar as condutas ambientais e que fiscalizem de forma eficaz o cumprimento destas leis. O poder público, em sua tarefa de zelar pelo bem da coletividade, exerce seu papel e efetivamente regulamenta estas condições, além de dispor os recursos necessários para garantir que as mesmas serão cumpridas. As organizações da sociedade civil atuam intensamente na defesa dos interesses a que elas se propõem e fazem isto de maneira sistemática e organizada. Os meios de comunicação dão repercussão ao assunto, pois se é de interesse do público em geral é coerente que faça disto uma mídia atrativa e relevante.

Dentre os impactos ambientais causados pelas atividades econômicas desenvolvidas numa sociedade, a geração de resíduos sólidos está presente, em maior ou menor escala, na maioria das situações. Na atividade industrial em especial, a geração de resíduos sólidos é uma medida de ineficiência ou de desperdício no processo produtivo, pois um resíduo é gerado quando uma matéria-prima ou um insumo utilizado na produção não se converteu em produto final na atividade produtiva de uma organização ou quando sua geração é inerente a este processo.

Assim, conceitos de sustentabilidade são aplicados rotineiramente nas indústrias como forma de minimizar os impactos ambientais causados pela geração de resíduos sólidos por suas atividades e com isto reduzir seus custos de produção e tornar suas atividades ambientalmente mais sustentáveis. Geralmente estes impactos são adversos e implicam em danos ao meio ambiente quando não são gerenciados adequadamente.

Um conceito de sustentabilidade muito aplicado visando o gerenciamento dos resíduos sólidos é o conceito dos 3 R’s que tange tanto a área ambiental quanto a econômica e a social. O significado dos 3 R´s é “Reduzir, Reutilizar e Reciclar.”

  • Reduzir ajuda a acabar com desperdícios e representa o fato de usar e tirar da natureza somente o necessário. Além da diminuição de resíduos e da economia dos recursos naturais, reduzir significa também economia de dinheiro.
  • Reutilizar é o 2º passo dos 3 R´s e orienta a necessidade de buscar novas utilidades para materiais que supostamente não seriam mais úteis.
  • Reciclar é a transformação física e química de um produto, ou seja, o formato físico e suas características químicas são alterados para a confecção de um novo produto. Isso elimina a necessidade de extrair novos recursos naturais, usa a matéria-prima que já foi gerada e aumenta a vida útil dos aterros sanitários.

Antes de reciclar, é preciso refletir sobre a necessidade do consumo, respeitando a natureza e os limites das suas necessidades, buscando sempre novas utilidades aos objetos, transformando e mudando para melhor o mundo em que vivemos.

Existem ainda outros conceitos associados ao tema e que estão bastante difundidos no meio empresarial, trazendo resultados igualmente expressivos ao serem implementados. A Logística Reversa associada à gestão de resíduos sólidos, a aplicação de técnicas do programa de Produção mais Limpa e programas de gerenciamento que visam o Resíduo Zero são alguns destes conceitos que apresentam boas soluções.

É possível aplicar estes conceitos e gerar excelentes benefícios para as atividades, sejam econômicos, ambientais ou sociais, exemplificando assim os conceitos de sustentabilidade tão em evidência no meio empresarial.

O gerenciamento eficaz de resíduos sólidos proporciona benefícios econômicos uma vez que permite que os materiais recicláveis que possuam valor comercial sejam vendidos nos mercados específicos para cada tipo material. Assim, o resultado financeiro da operação, medido pela diferença entre a receita gerada pela da venda dos materiais e a despesa com movimentação e destinação dos mesmos representa uma fonte de geração de receita muitas vezes bastante significativa para as empresas.

Ao integrar diferentes atores no processo de gerenciamento de resíduos sólidos, criam-se condições de gerar benefícios sociais em várias esferas da sociedade. Desde a geração de emprego e renda aos trabalhadores que estão direta e indiretamente ligados as atividades de prestação de serviços ou indústria de reciclagem, passando por empresas e cooperativas de reciclagem, por programas de educação ambiental, por ONGs e outras organizações que promovem a ética, o desenvolvimento sustentável e a proteção do meio ambiente, todos são beneficiados pela adoção desta medida.

Para um gerenciamento adequado dos resíduos sólidos gerados pelas atividades não existem fórmulas prontas, métodos garantidos, caminho mais fácil ou atalhos para se obter sucesso. O que deve existir é a percepção de todos sobre a relevância e importância do assunto, um ordenamento mínimo da forma de atuação e muita persistência e dedicação na execução daquilo que for proposto.

1.12 As práticas de inovação tecnológica orientadas para o desenvolvimento sustentável das indústrias químicas e o seu desempenho

Uiara De Menezes, Clandia Gomes e Patrícia Tometich

Algumas inovações que surgiram ao longo dos anos apresentaram impactos bastante danosos ao meio ambiente e à vida das pessoas, como por exemplo o uso de agrotóxicos, descarte de pilhas e baterias, uso intensivo de combustível fóssil entre outros. A utilização e o descarte desses produtos têm gerado impactos tanto na natureza (flora e fauna) como na saúde das pessoas. Nesse sentido, as inovações tecnológicas têm requerido análises criteriosas antes de serem lançadas no mercado.

As empresas que fabricam produtos químicos têm um impacto bastante forte no meio ambiente e na saúde dos trabalhadores. Além disso, existe uma diversidade de outras indústrias que utiliza esses produtos químicos em seus processos de produção. Se esses produtos forem danosos para a natureza e para as pessoas eles farão um estrago grande, comprometendo a qualidade de vida na Terra.

Mas, a tecnologia está se desenvolvendo mais a cada dia, então, será que não existe uma forma de diminuir os impactos dos produtos químicos com o uso de tecnologia e inovação?

As inovações em produtos ou processos também podem ser responsáveis pela redução do impacto das atividades empresariais no meio ambiente, como por exemplo ajudar na redução da emissão de gases causadores do efeito estufa e liberação de resíduos, bem como reduzir os gastos das empresas com energia, água, material, entre outros insumos. Devido ao setor químico tratar do uso de substâncias, muitas vezes, nocivas à saúde das pessoas, a avaliação dos possíveis impactos no capital humano também é importante, para buscar maior qualidade de vida tanto dos funcionários das empresas como dos usuários dos produtos.

Pensando nisso, decidi fazer uma pesquisa para descobrir como as empresas industriais do setor químico brasileiro têm procurado desenvolver a inovação tecnológica com um sentido de desenvolvimento sustentável. Ou seja, realizar suas atividades, criar produtos e fazer uso de seus processos respeitando a sociedade e o meio ambiente. Eu também quis entender qual a relação dessa atitude, de buscar inovação tecnológica pensando em desenvolvimento sustentável, com os resultados que as empresas conseguem obter, ou seja, o seu desempenho.

Essa pesquisa foi feita em duas partes. Primeiro conversei com responsáveis por três diferentes indústrias químicas, que eram reconhecidas por investir no desenvolvimento de produtos inovadores de forma a contribuir com o desenvolvimento sustentável. Essas empresas tanto fabricavam produtos para outras empresas como para os consumidores finais.

Nessa primeira fase da pesquisa eu consegui perceber que as três empresas contribuem com o desenvolvimento sustentável, pois elas se preocupam em fabricar os seus produtos buscando amenizar o impacto ambiental e social, usando a inovação tecnológica. Elas fazem parcerias para desenvolver tecnologias ecológicas (com institutos de pesquisas, universidades, com clientes e com fornecedores, entre outros); e também divulgam os resultados positivos que obtém, para que as pessoas e empresas preocupadas com o meio ambiente possam escolher comprar os produtos que causem menor impacto ambiental e social. As três empresas costumam vender para outros países, e elas ajustam os seus produtos às normas ambientais do país importador; e além disso, elas também se esforçam para que seus trabalhadores conheçam os conceitos relacionados ao desenvolvimento sustentável, fazendo com que essas pessoas estejam sensibilizadas e que suas decisões considerem esses critérios.

Depois disso, usei um outro método de pesquisa, que se chama survey, o que de forma simples quer dizer que os pesquisados respondem perguntas diretas que eu elaborei a partir daquela primeira fase da pesquisa. Dessa vez, falei com um número maior de empresas – foram mais de 50 – e o objetivo dessa parte da pesquisa foi descobrir se as empresas que usam a inovação tecnológica pensando no desenvolvimento sustentável percebiam alguma alteração no seu desempenho. Usei alguns métodos estatísticos para conseguir perceber se existia essa relação.

Os resultados mostraram que as empresas pesquisadas são, em sua maioria, pequenas e médias; fazem produtos químicos orgânicos e inorgânicos; apresentam algum tipo de inovação tecnológica e que a própria empresa é responsável pela atividade de inovação, ou seja, ela não depende de nenhuma outra empresa para inovar, e também consegui saber que uma parte delas vende apenas no Brasil.

Outros resultados dessa etapa foram que: quando essas empresas integram a sustentabilidade nas suas atividades de inovação, quando elas colaboram com clientes, fornecedores e outras organizações para fazer inovação, quando elas investem na criação e projeção de novas necessidades sustentáveis que possam mudar o curso dos atuais estilos de vida das pessoas e empresas e quando elas praticam atividades para sensibilizar as pessoas que tomam a decisão dentro da empresa, pode ser que elas obtenham um desempenho positivo, pois existe uma correlação entre essas atividades e o desempenho dessas empresas.

Uma característica importante que eu destaco é que as empresas da primeira parte da pesquisa eram de grande porte, já as da segunda parte eram, em maioria, de pequeno e médio porte. Assim, não posso comparar de forma efetiva os resultados da primeira com a segunda etapa, nem generalizar esses resultados à toda população de indústrias químicas brasileiras, pois como se sabe, a realidade das empresas de grande porte é diferente da realidade das empresas de pequeno e médio portes.

Assim, eu posso concluir que existe a possibilidade da gestão das práticas de inovação tecnológica que buscam o desenvolvimento sustentável influenciar de forma positiva o desempenho empresarial das indústrias químicas brasileiras que fizeram parte da minha pesquisa.

DE MENEZES, Uiara Gonçalves. GESTÃO DA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA ORIENTADA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: UMA AVALIAÇÃO EM EMPRESAS INDUSTRIAIS DO SETOR QUÍMICO BRASILEIRO. Dissertação apresentada para a obtenção do título de Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Maria.

1.11 Aplicação de Tecnologia de Produção Mais Limpa no Setor Metal Mecânico

Roberto Birch Gonçalves

A dissertação foi defendida em dezembro de 1998, período no qual a aplicação de conceitos ambientais se iniciava de maneira mais profissional nas empresas, mas enfrentando desconfianças e constantemente sendo colocada a prova sua utilidade e seu retorno financeiro.

Importante contextualizar os elementos que justificavam e conferiam relevância ao estudo. O primeiro deles era o endurecimento da legislação ambiental que, embora, insipiente já mostrava que se tornaria um fator decisivo a ser considerado na formulação de estratégias organizacionais. Outro fator levado em conta foi a preocupação dos consumidores com a qualidade ambiental dos produtos, já mostrando que a decisão de compra poderia ser promovida por questões ambientais. O conceito de “ecologicamente correto” começava a permear-se pela sociedade e ter escuta nas empresas.

Por outro lado, a inerência do impacto ambiental proveniente dos processos produtivos, por mais minimizado que fossem,  suscitavam atenção especial podendo se repercutir em custos adicionais, principalmente sob o aspecto de ações ambientais.

Além disso, a concepção de que as tecnologias “end-of-pipe” eram mais caras, ou seja, prevenir a geração de resíduos na empresa significaria melhores retornos do que tratar-se posteriormente os resíduos (TIGRE, 1994).

Diante do exposto estruturou-se o trabalho para verificar, num caso, concreto, o processo de aplicação de tecnologia de Produção Mais Limpa (P+L) e avaliar os seus resultados, objetivando contribuir para a discussão da utilidade de uma visão ecologia sobre os sistemas produtivos.  Para que isto fosse alcançado trabalhou-se com três objetivos específicos: i) identificar os principais motivos que levaram a empresa a introduzir as estratégias de P+L; ii) verificar se houveram benefícios econômicos e ambientais; iii) analisar se os objetivos da UNIDO estavam sendo atingidos na empresa.

O terceiro objetivo que tratou da UNIDO deveu-se ao fato de que a empresa, juntamente com outras duas empresas foram escolhidas e convidadas pelo SENAI-CNTL para participarem de um projeto piloto denominado Omega, de implantação de P+L promovido pela UNIDO. O projeto Omega aplicava a P+L baseado no método ECOPROFIT (ECOlogical PROject For Integrated  environmental Tecnologies). Segundo Fresner (1996) este programa visava fortalecer economicamente a indústria através da prevenção da poluição.

Por sua vez, a empresa foi escolhida pelo adiantado estágio tecnológico de seu parque fabril e pela representatividade que tinha no setor e na região.

A metodologia empregada no trabalho foi a de estudo de caso (YIN, 1994), uma vez que na região, as empresas que aplicavam técnicas P+L eram poucas e estavam em estágios muito diferenciados dificultando a generalização de eventuais conclusões.

Tecnicamente utilizou-se como instrumento de pesquisa um questionário semiestruturado com roteiro pré-estabelecido, para responder aos objetivos específicos um e três. A pesquisa documental forneceu os elementos necessários para atingir o segundo objetivo específico. Foram analisados registros da empresa e do SENAI tais como: atas, fichas de processo conforme o método utilizado transcorria,  planilhas eletrônicas de cálculo e viabilidade econômica, relatórios da Fepam.

As entrevistas foram realizadas com os principais envolvidos (Eco-time) na empresa, bem como os técnicos do SENAI-CNTL e assessores internacionais da empresa Stenum AS da Áustria, num total de dez entrevistados.

O estudo proporcionou inúmeros achados, muitos dos quais, relacionados a situação e a época em que foi executado, no entanto, considerando que as empresas podem estar em momentos e estágios diversos, se mostram atuais em sua maioria.

Os motivos que levaram a empresa a adotar as tecnologias P+L foi em primeiro lugar a  “consciência pela melhoria do meio ambiente”, este fato mostrou que os empresários queriam agir responsavelmente, mas não sabiam como (EPSTEIN, 1996), a partir do método Ecoprofit tinham um caminho. O segundo e terceiro motivos tiveram a mesma frequência. O segundo a “busca de retorno financeiro” se justifica, pois a empresa entendeu que a prevenção podia ser rentável. O terceiro ponto foi “atendimento a legislação” devido ao receio que a organização tinha da Fepam enquanto órgão fiscalizador.

Essas constatações permitem concluir que as três forças impulsionadoras das soluções ambientais foram: o ESTADO exercendo o papel de legislador, a INDUSTRIA buscando novas formas de lucro e a SOCIEDADE assimilando os conceitos ambientais e os exigindo. O comprometimento socializado e ordenado destas três forças têm como resultado o desenvolvimento sustentado e a eco eficiência do sistema produtivo.

A medição dos resultados da aplicação de P+L no caso estudado teve retorno financeiro e não financeiro. Sob o ponto de vista financeiro as ações da empresa podem ser vistas no Quadro 1.

Quadro 1: Ações desenvolvidas

AÇÃO CUSTO BENEFÍCIO FINANCEIRO BENEFÍCIO AMBIENTAL
Aquisição de centrifuga para separação de aço e óleo R$ 2.800,00 R$ 26.750,00 Redução anual de 11.500 lts óleo
Troca de matrizes R$ 17.260,00 R$ 30.490,00 Redução anual de 30 ton de aço
Recuperação de sal trat. térmico zero R$ 245,00 Recuperação de 92 Kg de sal tóxico
Lavagem no trat. térmico zero R$ 45,00 Red 720 Lt de água altamente contaminada

Pode-se notar que houveram ações de pouco retorno financeiro, mas que reduziram o risco de produtos altamente tóxicos atingirem o meio ambiente. Outras medidas foram tomadas decorrentes da nova forma da empresa encarar o meio ambiente, sem que seu custo tivesse sido apurado (redução de sobre metal em peças; ar comprimido; coleta seletiva; energia elétrica; trocas de boias; campanhas de prevenção).

No ponto de vista não financeiro os respondentes foram unanimes ao afirmarem que agora tinham “uma nova forma de encarar o processo produtivo”, isto denota que o novo conceito ambiental estava internalizado.

O estudo, também propôs uma nova metodologia de aplicação P+L, derivada do Ecoprofit,  da revisão bibliográfica, da metodologia PDCA e dos conceitos de melhoria contínua. Desenhada em quatro passos visa contrapor as dificuldades que a empresa enfrentou ao aplicar a metodologia proposta pela UNIDO.

Por fim, embora o estudo tenha sido aplicado em 1998 o assunto se mantém atual e pode ser utilizado em empresas de diversos ramos e porte, dependendo de sua visão e conceitos relativos ao meio ambiente. A humanização das empresas e da sociedade sem dúvida passa por sentimentos de sustentabilidade que ainda tem espaço nas empresas e na visão de seus gestores.