COMPULSÃO POR ARMAZENAGEM OU COLECIONISMO

A compulsão por armazenagem é um sintoma bem conhecido do TOC e é definida como a aquisição de e a dificuldade em descartar objetos que aparentemente não tem utilidade ou são de pouco valor. Os pacientes portadores do TOC se distinguem pela grande quantidade de coisas que guardam e pelo seu apego emocional a objetos, por terem uma enorme dificuldade em jogar fora ou no lixo objetos que a maioria das pessoas considera como absolutamente sem nenhuma utilidade. O argumento para não jogá-los no lixo é de que algum dia possam necessitar do objeto jogado fora, que ele possa fazer falta, ou que possa ter alguma utilidade no futuro, perdendo-se a noção do que é razoável. A impressão é de que eles têm um sentimento de segurança com os objetos armazenados.

Os objetos armazenados podem ser qualquer coisa, no entanto com mais freqüência são roupas, revistas, jornais velhos, notas fiscais antigas, mantimentos, embalagens vazias, trabalhos escolares, sacolas, cartões e cartas. É comum ainda o portador de TOC guardar ferramentas danificadas e sem possibilidade de conserto, aparelhos elétricos quebrados, recortes de revistas, roupas e sapatos que não vai mais utilizar, que deixaram de servir ou saíram de moda, e eventualmente coisas absolutamente sem sentido como lâmpadas queimadas, palitos de fósforo usados, cartões telefônicos gastos. Tais objetos ou papéis acabam ocupando espaços enormes, além de acumular poeira e ácaros. Não raro os objetos são guardados amontoados, na maior desordem, seja no forro da casa, na garagem, em armários ou até mesmo nos corredores, muitas vezes dificultando até a movimentação das pessoas. Com o tempo o próprio paciente perde o controle dos objetos armazenados, não conseguindo localizá-los, ou no mínimo tendo grande dificuldade em localizá-los, o que pode ser motivo de grande aflição.

Compulsão por poupar

É bastante comum também a compulsão por poupar dinheiro, seguida de desconforto e culpa diante de qualquer gasto, por mais insignificante que seja. O paciente pode chegar a extremos de ser incapaz de comprar roupas ou até mesmo alimentos, “para não gastar”. Há um controle rigoroso de todos os gastos, seus e dos familiares, e uma necessidade incontrolável de poupar. O que faz suspeitar de que se trata de um sintoma do TOC, é o caráter compulsivo do poupar, um elevado grau de mesquinhez destoante da situação econômica em si, o grande sofrimento ou aflição diante de qualquer gasto e o tempo despendido em checagens de contas bancárias e contagens de dinheiro. Um paciente havia conseguido acumular na poupança uma formidável fortuna. Certamente era uma das pessoas mais ricas da sua cidade. Era incapaz de comprar uma camisa para si, e quando o fazia era com grande sofrimento, muitas reclamações e protestos “pois ficaria mais pobre”. Tinha que ser levado à loja forçado pela esposa. Uma outra paciente tinha brigas freqüentes com seu marido quando esse comprava um par de sapatos ou um tênis, mesmo admitindo que os tênis antigos estavam furados ou os sapatos gastos e que as compras eram mais que justificáveis.

Estima-se que entre 18 a 31 % de todos os portadores de TOC apresentam compulsões de armazenagem, com os sintomas surgindo no início da década entre os 20 e 30 anos. Não foram notadas diferenças entre homens e mulheres. Um outro dado interessante é a alta ocorrência do colecionismo em familiares. Um estudo verificou que 90% dos pacientes relatavam uma história familiar de colecionismo e 80% haviam crescido numa casa com algum familiar que também apresentava os mesmo tipo de sintomas. Entretanto outros estudos encontraram índices bem menores e não se sabe o quanto, nesses pacientes, uma patofisiologia ou uma neuroanatomia distintas em relação aos demais sintomas do TOC, ou um componente específico de aprendizagem (ver outras pessoas guardando coisas, ou aprender que se deve guardar as coisas mesmo sem saber se podem ter qualquer utilidade no futuro) influenciaram para que surgissem os sintomas.

Características comuns dos colecionadores (FOA)

Situações que causam desconforto

  • Quando são obrigados a jogar fora ou dar algum dos objetos que guardam ou armazenam;
  • Quando uma outra pessoa mexe nos objetos guardados;
  • Ao deixar de guardar algo que poderia ser necessário no futuro;

Compulsões mais comuns

  • Guardar coisas inúteis;
  • Organizar as “coleções” de uma certa forma;
  • Verificar no lixo o que outras pessoas jogam fora;
  • Recolher objetos jogados no lixo ou descartados por outras pessoas;

Evitações

  • De se desfazer (jogar no lixo ou doar) objetos inúteis;
  • Impedir que outras pessoas selecionem alguns dos seus objetos ou papeis para jogar no lixo

Ambiente ao redor

  • Deterioração do ambiente ao redor;
  • Peças ocupadas por itens sem nenhuma utilidade prejudicando a convivência e a circulação das pessoas;

Pensamentos, imagens, impulsos que provocam desconforto

  • “Se eu necessitar desse objeto e não encontrar o que será de mim?”
  • “E se eu vier a necessitar desse objeto e tiver jogado fora?”

Conseqüências temidas de não guardar

  • Não serei capaz de encontrar algo que vou necessitar”
  • “É possível que eu não consiga algo que eu venha a precisar.”

 

TRATAMENTO

Como comentamos o colecionismo é um dos sintomas considerados difíceis de tratar, no TOC, não respondendo aos medicamentos ISRS e respondendo pouco à terapia cognitivo-comportamental. A pouca resposta à terapia deve-se em grande parte à ausência de motivação por parte do paciente em buscar tratamento, pois ele se sente confortável, seguro e sente até um certo prazer ao lado do amontoado de objetos. Desfazer-se é penoso, razão pela qual dificilmente irá buscar o tratamento por si próprio. São os demais membros da família os que mais se incomodam com o fato de os espaços estarem tomados por coisas inúteis e pressionam os colecionistas a buscar tratamento. Segundo Edna Foa se a relação com outra pessoa tem uma grande importância para o paciente, e se a compulsão por armazenagem compromete a continuidade da relação, o tratamento tem mais chance de ser bem sucedido. Mas nem sempre esse é o caso. Na maioria das vezes a situação está cristalizada a muitos anos e se não for por alguma razão externa (mudança de casa ou apartamento, necessidade por razões de saúde, nascimento de filho), o armazenador dificilmente fará algum movimento em relação á mudança.

 

Medicamentos

Compulsões de armazenagem ou colecionismo não respondem ao tratamento padrão com medicamentos antiobsessivos ou a resposta é muito pequena.

 

Terapia cognitivo-comportamental multimodal

Em casos mais graves e refratários, um tratamento mais agressivo, envolvendo internação hospitalar por 6 semanas e a adoção de um enfoque chamado de multimodal, envolvendo o uso de inibidores da recaptação da serotonina e terapia cognitivo-comportamental intensiva, mostrou-se efetivo. O tratamento enfocava primariamente nas conseqüências do colecionismo e tinha as seguintes metas: 1) criar um ambiente de estar e espaço para trabalhar; 2) aumentar o uso apropriado do espaço; 3) melhorar a capacidade de tomar decisões; 4) diminuir a procrastinação e a evitação; 5) melhorar as habilidades organizacionais e a administração do tempo; 6) diminuir os medos obsessivos relacionados ao descarte de objetos; 7) descartar objetos desnecessários; 8) diminuir as compras e aquisições compulsivas; 9) prevenir armazenagens futuras desnecessárias. A reestruturação cognitiva focalizou nas crenças relacionadas ao perfeccionismo, excesso de responsabilidade, dúvidas sobre a memória, apego emocional excessivo aos objetos e nas conseqüências negativas de ter os espaços da casa atravancados de objetos.

Para casos de intensidade leve ou moderada o principal recurso ainda é a terapia cognitivo-comportamental de exposição e prevenção de rituais de acordo com as linhas descritas a seguir. As dificuldades maiores, como comentamos, estão relacionadas à falta de motivação do paciente para o tratamento e o fato de os sintomas serem ego-sintônicos (guardar objetos o deixa tranqüilo e seguro). O problema inicial é vencer essa dificuldade.

 

VENCENDO O COLECIONISMO

Se você tem compulsão por guardar coisas inúteis, armazenar demasiadamente comida siga os seguintes passos:

 

  • Estabeleça uma meta realística que você de fato quer atingir

Se você resiste a por fora todas as quinquilharias que acumulou durante anos, em vez de pensar que você terá que se livrar de todas as suas coisas, comece estabelecendo objetivos com os quais concorda e que seriam úteis para si e para os seus familiares: ser menos indeciso, viver num ambiente mais organizado e menos obstruído, ter um ambiente de estar mais agradável, um espaço de trabalho mais organizado e menos obstruído, reduzir rituais (verificações, contagens) e evitações, etc.

  • Faça uma avaliação do seu problema de armazenagem

Responda a algumas das seguintes perguntas:

Quanto a sua casa está atravancada? _________________________________ Quais as peças?___________________________________________________

Que grau de desconforto o problema causa para você e para sua família?___________________________________________________________

Qual o grau ou nota você daria para o grau de desordem da sua casa?___________

Que coisas você armazena_________________________________________

_______________________________________________________________

Quais são as razões para guardar cada objeto__________________________

_______________________________________________________________

Você tem algum critério para organizar os seus objetos___________________

_______________________________________________________________

 

Quanto o seu problema afeta a sua relação com a sua família______________

_______________________________________________________________

 

3. Prevenção de rituais de verificação e contagens

Como foi sugerido em relação a outros rituais identifique as situações nas quais você é levado a verificar se os objetos estão no lugar ou a fazer contagens ou listas para certificar-se de que nada foi extraviado, e de que você sabe onde está cada coisa. Abstenha-se de fazer tais controles.

 

  • Estabeleça uma moratória para novas aquisições.

Estabeleça com você mesmo um compromisso de que não irá adquirir mais nenhum item enquanto não atingir os seus objetivos. Não compre nenhum objeto cuja compra seja imprescindível; não fique com objetos ou roupas que seus amigos estão descartando, e dos quais você não necessita. Evite por algum tempo os ferros velhos e briques se você não está necessitando de nada objetivamente. Isso o auxiliará a resolver o problema mais rapidamente. Não compre nada só porque você poderá necessitar no futuro.

 

5. Faça um plano de organização de sua casa

Revise peça por peça de sua casa para verificar o quanto está sendo usada, que porcentagem do espaço está desorganizado ou ocupado com coisas que não são utilizadas e faça um plano para um uso mais racional da despensa, quartos, living, escritório, garagem, corredores.

 

6. Decida por onde começar: faça uma lista do que deve ser descartado

Por onde começar talvez essa seja a decisão mais difícil de tomar. Estabeleça a diferença entre objetos e papéis inúteis, sucata ou quinquilharias sem qualquer possibilidade de uso, eletrodomésticos sem concerto, móveis que não irá mais usar. Desconfie de tudo o que você guarda anos a fio e nunca utiliza ou de objetos para os quais você não consegue vislumbrar utilidade e que não têm valor afetivo. Faça uma relação de tudo o que você guarda, toma lugar em sua casa sem nenhuma evidência de que de fato será necessário no futuro. Estabeleça uma hierarquia entre os objetos em termos da aflição que poderão provocar ao serem descartados e do grau de inutilidade. Com relação nesses critérios estabeleça as prioridades para descarte preenchendo o espaço para exercícios ao final do presente capítulo.

Comece pelo item que de acordo com a sua avaliação subjetiva provocará menos aflição e que provavelmente seja o que menos chance tenha de no futuro ser necessário, para gradualmente ir descartando os que provocam maiores níveis de aflição. Comece por uma peça, eventualmente a que está mais desorganizada. Ou então se você armazena muito um tipo de objeto, por exemplo, jornais velhos, ou tem muitas roupas que não usa mais, pode decidir começar pelos jornais ou pelo guarda-roupa, o que considera mais fácil, deixando os demais para a semana seguinte.

 

7. Algumas regras simples para o descarte

1. Marque uma data para fazer a faxina e o descarte.

2. Você é a pessoa que irá decidir o que será jogado fora e o que continuará sendo guardado.

3. Seus familiares poderão auxiliá-lo depois que você tiver decidido. Convide-os para isso se achar necessário e sentir que eles respeitarão suas decisões.

4. Marcada a data, veja como fará o descarte e providencie o que for necessário: sacos grandes de lixo, caixas de papelão ou se necessário um transporte. Eventualmente roupas e sapatos, móveis ou eletrodomésticos sem uso podem ser doados para instituições de caridade. Algumas dessas instituções mandam buscar em casa, elas mesmas, os objetos que você quer doar.

5. Procure organizar uma peça ou descartar um item de cada vez, não fique se movimentando de uma peça para a outra, ou de um objeto para outro. Complete inteiramente um descarte planejado para depois iniciar um outro.

6. Ao colocar os objetos nas caixas ou sacos, não volte a olhar para eles, pensando se deve mesmo ou não deve jogá-los fora ou verificando se ainda pode aproveitá-los. De forma alguma os acaricie, antes de colocá-los no lixo.

7. Não volte atrás. Jamais retire do lixo aquilo que já havia decidido pôr fora. A ansiedade é muito maior antes de colocar as coisas fora. Depois passa!

8. Relaxe.Depois de realizar o descarte, procure distrair-se ouvindo música, lendo brincando no computador ou planejando novos usos para o espaço liberado. Saia de casa para dar uma caminhada, ir ao cinema ou visitar um amigo, se a aflição for muito grande. Interrompa quaisquer ruminações sobre dúvidas em relação ao descarte, se foi correto ou não, e em hipótese alguma abra os sacos de lixo ou caixas de descarte para revisar algum item.



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