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CONDIÇÕES
MÉDICAS ASSOCIADAS COM SINTOMAS OBSESSIVO-COMPULSIVOS
Introdução Metodologia O
objetivo deste texto foi o de fazer uma revisão atualizada do assunto,
tendo como base a publicação recente de Lorrin M. Koran (1), muitas das
citações foram extraídas deste livro, e uma pesquisa realizada no MEDLINEâ
limitada a artigos em língua inglesa que disponibilizaram resumo e que
relatavam estudos em seres humos no período de 1997 a 2000. Quando suspeitar que uma doença física pode estar provocando os sintomas de TOC
Síndrome
de Tourette: A síndrome de Tourette é uma condição hereditária com
início na infância caracterizada pela presença de múltiplos tics motores
e vocais e freqüentemente se associa a comportamento obsessivo-compulsivo,
agressivo e a outras alterações neurológicas e comportamentais (2).
Síndrome de Prader-Willi:
Em um estudo realizado com 16 pacientes com esta síndrome evidenciou-se
presença significativa de sintomas obsessivo-compulsivos, sendo provavelmente
secundários a alterações no cromossomo 15 (3).
Encefalite Letárgica: São descritos casos pós-encefalíticos com
obsessões e/ou compulsões, sendo que alguns com parkinson pós-encefalite
associado, outros com períodos de crises oculogiras. Sintomas no parkinson
pós-encefalítico incluem contagem, palilalia, pensamentos intrusivos e
repetitivos invariavelmente ego-distônicos e também movimentos repetitivos
estereotipados.
Crises Parciais Complexas: Pensamentos obsessivos associados a
crises parciais complexas têm ocorrido durante a aura, na crise e no período
pós-ictal. Os casos podem-se apresentar como o descrito de uma mulher
de 39 anos, que teve início de crises parciais complexas aos 21. Durante
a crise, desenvolvia uma irresistível vontade de beber grandes quantidades
de água, sem queixas de xerostomia. A lobectomia temporal direita removeu
completamente a sintomatologia (6).
Perda da consciência de minutos a dias tem caracterizado quase todos os
casos de trauma craniano com TOC subseqüente. O TOC tem surgido de 24
hs após a recuperação da consciência a até 6 meses. Embora quanto maior
o tempo, menos provável seja a possibilidade de relação causal (8). ACIDENTE CEREBROVASCULAR: Na literatura há o relato de um paciente com 62 anos que sempre foi ansioso e perfeccionista, mas sem TOC que subitamente passou a apresentar compulsões de necessidade-de-saber em escala crescente. Três anos após uma TC de crânio evidenciou um infarto frontal direito antigo. Seus sintomas foram refratários a 35 medicações, inclusive todos os ISRS (9). DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS: Doença de Parkinson e Levodopa: Alguns pacientes parkinsonianos tão logo tenham ingerido levodopa para aliviar a acinesia experimentam um período de vários minutos de movimentos estereotipados e involuntários. Já que estes movimentos são involuntários e não são executados como uma resposta às obsessões, sua semelhança com os sintomas do TOC é modesta. Obsessões e compulsões mais típicas foram encontradas em raros casos de parkinson pós-encefalíticos. Doença de Huntington: A doença de Huntington é uma doença autossômica dominante caracterizada por marcada atrofia do núcleo caudado e do putamen associada a movimentos coreiformes e demência progressiva. Somente 2 casos associados a TOC foram descritos. Doença de Creutzfeldt-Jakob: Apenas um caso foi relatado, mas mesmo assim com semelhança modesta. Doença de Pick e outras doenças degenerativas do lobo frontal: Estas doenças têm sido associadas com comportamento repetitivo e compulsivo no contexto do processo demencial. Normalmente, o comportamento ritualístico é limitado à fase inicial da degeneração, enquanto que os atos estereotipados e repetitivos ocorrem mais tarde. Neuroacantocitose: Esta é uma doença neurodegenerativa rara originando atrofia do núcleo caudado e caracterizando-se por tics motores e vocais, movimentos coreiformes e mordeduras de lábios e de língua que podem ser confundidos com compulsões. A ausência de sinais típicos de TOC e a presença de outros sinais como convulsões generalizadas, disartria, discinesia orofacial e orobucal, arreflexia ou hiporreflexia, atrofia muscular e deformidade pés cavus deveriam evitar a confusão com sintomas neurológicos do TOC. Esclerose Múltipla: Há na literatura muito poucos casos de associação de TOC e Esclerose Múltipla, tornando a conecção causal improvável. DOENÇAS ENDÓCRINAS E METABÓLICAS: Doenças da Paratireóide: Recomenda-se cuidadosa avaliação para TOC em pacientes que apresentem mineralizações nos gânglios da base. Isto devido à comprovada relação destas estruturas com o TOC e também pela tendência destes pacientes muitas vezes esconderem os seus sintomas. Porfiria Intermitente aguda: Há relatos de piora da sintomatologia do TOC durante as crises de porfiria aguda, respondendo bem aos ISRS (10). Diabetes insipidus: Não há até o presente momento uma relação significativa entre o Diabete insipidus e o TOC. Vasopressina e Ocitocina: Em um estudo aberto não se obteve nenhuma melhora dos sintomas do TOC utilizando estes hormônios (11). TOXINAS: Há casos relatados em que a intoxicação por Monóxido de Carbono levou a infartamento do globo pálido e do putamen (núcleo lentiforme), ocasionando sintomas obsessivos-compulsivos em seguida. Também existem relatos de lesão no núcleo lentiforme por anóxia ou por veneno de vespa, ocasionando sintomatologia de TOC. O envenenamento por manganês caracteriza-se na sua fase inicial por comportamentos compulsivos freqüentemente acompanhados por irritabilidade e depressão. Após um mês do início dos sintomas obsessivos, os pacientes desenvolvem sinais neurológicos irreversíveis, como fraqueza muscular, marcha atáxica, aumento do tônus motor, redução do discurso e das expressões faciais. FÁRMACOS: Abuso de drogas estimulantes pode induzir comportamentos estereotipados e repetitivos. São raros os casos de crianças que desenvolveram obsessões e compulsões típicas durante o uso de estimulantes no tratamento do Transtorno de Défcit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Nestes casos, os sintomas iniciaram de 6 dias a 6 meses após o início do tratamento e persistiram de um a três meses após a interrupção do tratamento. Nefazodona: Há relato de uma paciente que desenvolveu ruminações obsessivas durante a semana em que iniciou o medicamento, apresentando piora dos sintomas com a elevação da dose e posterior desaparecimento dos sintomas com a descontinuação do tratamento (12). Clozapina: Segundo a literatura, o tratamento com clozapina pode desencadear sintomas obsessivos-compulsivos em mais de 10% dos pacientes esquizofrênicos. Em um estudo de coorte retrospectivo com 121 pacientes com esquizofrenia recém diagnosticada evidenciou-se uma emergência de obsessões em mais de 20% dos sujeitos que receberam clozapina contra 1,3% dos que foram tratados com outros antipsicóticos (13). CONCLUSÕES: Com este texto, procurou-se evidenciar de uma maneira pragmática as principais doenças e substâncias que podem dar origem a sintomas obsessivos e compulsivos. Questionamentos, críticas e sugestões serão certamente bem recebidos. Referências Bibliográficas: 1) Koran, L.M. Obsessive-compulsive and related disorder in addults- A comprehensive clinical guide. Cambridge. Cambridge University Press (1999). 2) Palumbo, D., Maughan, A. e kurlan, R. Hypothesis III. Tourette syndrome is only one of several causes of developmental basal ganglia syndrome. Arch Neurol, 54 (4): 475-83 (1997). 3) State, M.W., Dykens, E.M., Rosner, B., et al. Obsessive-compulsive symptoms in Prader-Willi and "Prader-Willi- Like" patients. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 38 (3) (1999). 4) McDaniel, J.S. and Johnson, K.M. Obsessive-compulsive disorder in HIV disease. Psychosomatics, 36: 147-50 (1995). 5) Swedo, S.E. Sydenham's chorea: A model for childhood autoimmune neuropsychiatric disorder. Jama, 272: 1788-91 (1994). 6) Cascino, G.D. and Sutula, T.P. Thirst and compulsive water drinking in medial basal limbic epilepsy: An electroclinical and neuropathological correlation. (Letter.) J Neurol Neurosurg Psychiatry, 52: 680-1 (1989). 7) Moriarty, J., Trimble, M. and Hayward, R. Obsessive-compulsive disorder onset after removal of a brain tumor. J Nerv Ment dis, 181: 331 (1993). 8) Kant, R., Smith-Seemiller,L. and Duffy, J.D. Obessive compulsive disorder after closed head injury: Review of the literature and report of four cases. Brain Injury, 10: 55-63 (1996). 9) Swoboda, K.J. and Jenike, M.A. Frontal abnormalities in a patient with obsessive-compulsive disorder: The role of structural lesions in obsessive-compulsive behavior. Neurology, 45: 2130-4 (1995). 10) Hamner, M.B. Obsessive-compulsive symptoms associated with acute intermittent porphyria. Psychosomatics, 33: 329-32 (1992). 11) Salzberg, A.D. and Swedo, S.E. Oxytocin and vasopressin in obsessive-compulsive disorder. (Letter) Am J Psychiatry, 149: 713-14 (1992). 12) Sofuoglu, M. and DeBattista, C. Development of obsessive symptons during nefazodone treatment. (Letter.) Am J Psychiatry, 153: 577-8 (1996). 13) De Haan, L., Linszen, D.H. e Gorsira, R. Clozapine and obsessions in patients with recent-onset schizophrenia and other psychotic disorders. J Clin Psychiatry. 60 (6): 364-365 (1999). * Médico. Residente de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. |
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