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[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - II parte] Suzana de Souza Gutierrez Universidade Federal do Rio Grande do Sul Programa de Pós-Graduação em Educação O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial
A tese central de De Masi (2000, p. 16) é a de que "estamos caminhando em direção à uma sociedade fundada não mais no trabalho, mas no tempo vago". Uma sociedade onde as pessoas trabalharão cada vez menos e, em trabalhando, farão cada vez mais atividades intelectuais e criativas e menos atividades manuais e repetitivas. A principal característica da atividade criativa é a que ela praticamente não se distingue do jogo e do aprendizado, ficando cada vez mais difícil separar estas três dimensões que antes, em nossa vida, tinham sido separadas de uma maneira clara e artificial. Quando trabalho, estudo e jogo coincidem, estamos diante daquela síntese exaltante que eu chamo de "ócio criativo". (DE MASI, 2000, p. 16)De Masi (2000) relaciona esta nova configuração das atividades humanas com a passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial. Estabelece, também, uma comparação com a antiguidade grega, onde os homens livres exerciam atividades 'ociosas', ou seja, dedicavam-se à política, à filosofia, ao estudo e aos esportes. O trabalho ficava por conta dos escravos. Hoje não temos mais escravos, mas temos as máquinas e o seu potencial de possibilitar a homens e mulheres exercer o ócio criativo. No meu entender, não fica claro ao longo do livro como isso pode ser concretizado numa sociedade onde as máquinas são propriedade de uns e usadas para substituir o trabalho humano, deixando cada vez mais pessoas com a impossibilidade de prover sua subsistência. Em várias passagens, De Masi (2000) associa o trabalho à necessidade e à atividades tediosas e cansativas. Trabalho é sinônimo de suor, de trabalho manual e repetitivo, onde o trabalhador 'tradicional' é o operário. Um trabalho onde o indivíduo não cria e recria o mundo e a sociedade e, portanto, um trabalho que destitui a ação humana sobre a realidade objetiva e, assim, desumaniza, pois: É precisamente na ação sobre o mundo objetivo que o homem se manifesta como verdadeiro ser genérico. Tal produção é sua vida genérica ativa. Através dela, a natureza surge como a sua obra e a sua realidade. Por conseguinte, o objeto do trabalho é a objetivação da vida genérica do homem: ao não se reproduzir apenas intelectualmente, como na consciência, mas ativamente, ele duplica-se de modo real e intui o seu próprio reflexo num mundo por ele criado (MARX, 1993, p. 165) Na realidade, muitas atividades podem ser realizadas como trabalho ou como lazer, caso sejam movidas ou não pela necessidade de sobrevivência. Uma atividade que é realizada com a finalidade de manutenção da vida ou por coerção pode ser ou não ser agradável e prazeirosa, dependendo da subjetividade do indivíduo, mas é certamente um trabalho. Uma atividade executada como lazer ou como solidariedade é trabalho na medida em que modifica a realidade objetiva do mundo. Neste sentido, entendo que o ócio criativo, na definição de De Masi é trabalho humano. Entendo, também, que a questão central em relação ao trabalho, é a necessidade de vender a força de trabalho. Esta necessidade e todos os seus desdobramentos desfiguram a atuação humana na produção da sua vida e do seu mundo. De Masi (2000, p. 51) fala do sentido do trabalho na sociedade industrial nos seguintes termos: Para os católicos, o trabalho é uma sentença condenatória, como reafirmará a Rerum Novarum, em 1891. Para os liberais, é uma disputa mercantil. Para Marx, é a única possibilidade de redenção junto com a revolução, e por isso é um direito a ser conquistado. Somente Taylor, no plano prático, e Lafargue, no plano teórico, consideram o trabalho um mal que deve ser reduzido ao mínimo, ou evitado.Com relação à Igreja católica, concordo com o autor, porém em relação aos liberais, penso que para eles o trabalho significa um dos itens a serem considerados na economia de mercado. Seu interesse circunscreve-se apenas a otimização da performance do trabalho. Para Marx , o trabalho tem um significado maior na vida humana, que não se limita a ser meio de prover a subsistência. Para Marx, o trabalho é ação objetiva que transforma o mundo, não como possibilidade redentora, como diz De Masi, mas como possibilidade de hominização. Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. Não se trata aqui das formas instintivas, animais, de trabalho. Quando o trabalhador chega ao mercado para vender sua força de trabalho, é imensa a distância histórica que medeia entre sua condição e a do homem primitivo com sua forma ainda instintiva de trabalho. Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. (MARX ; ENGELS, 2002b)Quando De Masi (2000) fala em proletário, fala em trabalhadores manuais e operários da indústria, não incluindo todos os assalariados. Para Marx, proletário era o trabalhador assalariado: Entende-se por burguesia a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social, que empregam o trabalho assalariado. Entende-se por proletário a classe dos operários assalariados modernos que, privados dos meios de produção próprios, se vêm obrigados a vender a sua força de trabalho para poderem subsistir. (Nota de Engels para a edição inglesa de 1888). (MARX ; ENGELS, 2002a)Embora De Masi possa estar correto na sua afirmação de que o número de trabalhadores intelectuais tende a aumentar enquanto diminui o número de trabalhadores manuais e operários, ele incorre em erro quando associa ao pensamento de Marx apenas os trabalhadores manuais e operários da indústria. Sobre o trabalho na sociedade pós-industrial, De Masi (2000) utiliza a teoria de Zsuzsa Hegedus sobre a distribuição internacional do trabalho. Segundo esta teoria, o ciclo econômico teria quatro fases: a ideação, onde os grandes laboratórios fariam pesquisa; a decisão, onde se determinaria em quais invenções investir; a produção propriamente dita; e o consumo, compreendendo a distribuição e o uso. De Masi (2000, p. 126) salienta a diferença na fase de produção "que era a mais importante na fase industrial e que agora vem sendo, progressivamente, deslocada para o terceiro mundo". E o consumo, segundo o autor, passaria pela colonização do mercado. De Masi acrescenta, entre cada fase do esquema de Hegedus, o marketing e, após a fase de ideação, uma fase de pesquisa aplicada que visaria desenvolver todas as potencialidades da descoberta. Após a fase de decisão, novamente viria uma fase de pesquisa, desta vez com ênfase no desenvolvimento, onde máquinas, homens e capitais seriam preparados para a produção em série. Isso sem esquecer os aspectos legais do registro de patente. Para De Masi (2000, p. 129) o marketing agiria "dando ritmo a dança", orientando o processo pela pesquisa de mercado, pois hoje as empresas voltam-se para as exigências do mercado. Eu questiono o quanto um mercado pode necessitar e detalhar um produto, serviço ou descoberta recente e ainda não muito divulgado. Basta abrir os armários de qualquer cozinha de classe média para encontrar alguns exemplos de necessidades criadas. A ação dos meios de comunicação de massa nos faz acreditar mais em mercados criados artificialmente do que em mercados formados a partir de necessidades. Com a descentralização entre ideação, produção, circulação e consumo, De Masi caracteriza o modelo de acumulação flexível do atual capitalismo. A meu ver, a realidade atual mostra um quadro de relações que deriva ainda do modelo de ciência moderna e das transformações tecnológicas aliadas ao modo de produção capitalista. Neste sentido, assistimos nas últimas décadas o esgotamento do modelo fordista-keynesiano gerando mais uma crise no capitalismo. O período pós-guerra de considerável progresso, correspondente ao Estado de Bem Estar Social, dá lugar ao que Santos (2000) chama de "capitalismo desorganizado", o capitalismo neoliberal. Esta transformação associa-se a virada cultural para o que se nomeia pós-modernismo. A acumulação flexível foi acompanhada na ponta do consumo, portanto, por uma atenção muito maior às modas fugazes e pela mobilização de todos os artifícios de indução de necessidades e de transformação cultural que isso implica. A estética relativamente estável do modernismo fordista cedeu lugar a todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma estética pós-moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercadificação das formas culturais. (HARVEY, 2001 p.148)Este sistema privilegia o individualismo nas relações de produção, enfraquecendo a organização dos trabalhadores e tirando o poder de negociação dos sindicatos. Concordo com De Masi (2000, p.107) quando ele diz que, na sociedade atual, o trabalho repetitivo e pesado será a cada dia mais delegado às máquinas, mas acrescento: se isso for mais eficiente e lucrativo para o capital. Um certo ceticismo se deve ao fato do meu olhar partir de uma sociedade onde o tempo livre significa desemprego e desamparo. Mesmo nos países centrais, e De Masi (2000, p. 96) cita estatísticas da Itália, cresce a economia e aumenta o desemprego, concentra-se a riqueza e aumenta a pobreza. Aqui localizo uma das várias contradições que permeiam o texto de De Masi. Ao mesmo tempo em que ele coloca que estamos numa sociedade pós-industrial, com progressivamente mais tempo livre, em atividades que tendem cada vez mais para o ócio criativo, conforme: [...] ele, como eu, pensa que o trabalho de tipo tradicional continuará a diminuir cada vez mais e que, portanto teremos sempre mais tempo livre. (DE MASI, 2000, p. 84)E, mais adiante: Não há mais qualquer compatibilidade entre os modelos de trabalho e de vida industrial e pós-industriais. (DE MASI, 2000, p. 228)Em outros lugares, porém, ele adverte sobre o aumento da jornada de trabalho e a manutenção de formas inadequadas de organização das atividades produtivas: Em outros tempos, os pobres trabalhavam muito mais do que os ricos. Hoje um executivo ou um empresário trabalha muito mais do que um operário. (DE MASI, 2000, p. 233)Sem considerar a contradição, De Masi atribui estas assimetrias à miopia dos empresários que não percebem que a diminuição das horas de trabalho trará lucro e à cultura judaico-cristã que contaminou a sociedade com uma idéia de que o destino do homem é trabalhar e que o ócio é companheiro de todos os vícios. Enquanto o trabalho requeria esforço físico, as pessoas eram obrigadas a trabalhar, porque, se a escolha fosse delas, se absteriam. Uma das coerções era de tipo psicológico: consistia em enfatizar o preconceito de que gozar do ócio fosse um pecado. Quem é ocioso é ladrão, porque rouba o tempo de esforço no trabalho, seja do empregador, seja da sociedade. Quem goza do ócio peca e, até prova em contrário, se entrega aos vícios. (DE MASI, 2000, p. 232)Em alguns trechos do livro, o autor se refere às encíclicas papais, que durante o final do século XIX e no século XX, pregavam a resignação à pobreza e ao trabalho duro e o direito natural e inquestionável de alguns à propriedade privada da terra e dos meios de produção. Deve-se considerar, todavia, que nesta mesma época coexistiam as idéias Iluministas de abandono da providência divina e de primado da razão humana. O domínio científico da natureza prometia liberdade da escassez, da necessidade e da arbitrariedade das calamidades naturais. O desenvolvimento de formas racionais de pensamento prometia a libertação das irracionalidades do mito, da religião, da superstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem como do lado sombrio da nossa própria natureza humana. Somente por meio de tal projeto poderiam as qualidades universais, eternas e imutáveis de toda a humanidade ser reveladas. (HARVEY, 2001, p. 23)Na seqüência de seu texto, Harvey (2001, p. 24) coloca a contradição deste otimismo moderno frente às guerras do século XX e concordo com ele quando ele afirma que havia muitos problemas intrínsecos ao pensamento Iluminista. Entre estes problemas, o fato da não clareza das relações entre meios e fins que, muitas vezes se manifestava em planos que resultavam emancipadores para uns e opressores para outros. Nessa perspectiva, eu compreendo o papel conservador da Igreja, diferente do papel também conservador da burguesia depois de sua ascensão. A dinâmica opressiva para certa parte da sociedade não mudou. O servo feudal seguiu sendo explorado, sob uma nova forma, sob um novo senhor. Quando intuo que este processo que determina exploradores e explorados continua hoje, apesar da ambigüidade que anula a dicotomia, pois são papéis simultâneos para muitos de nós, me vêm à mente as palavras de Rousseau: O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: "Defendei-vos de ouvir este impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence à ninguém!" (ROUSSEAU, 1983, p.259)Marx em uma passagem que, a meu ver, confere sentido a estas contradições, diz: Além das misérias modernas, oprime-nos toda uma série de misérias herdadas, decorrentes do fato de continuarem vegetando entre nós formas de produção antigas e caducas que acarretam um conjunto de relações sociais e políticas anacrônicas. Não sofremos apenas por causa dos vivos, mas igualmente por causa dos mortos. (MARX, 19.., p. 8)A esta visão do movimento histórico que entrelaça visões de mundo e modos de vida de forma que elas se interpenetram e se diferenciam ao mesmo tempo em que se contém, correspondem as palavras de Bensaïd (1999, p.45): A história não conhece sentido único. Nem longitudinalmente, de acordo com a seqüência dos séculos. Nem em corte, quando um pensa a vida do outro enquanto o outro vive o pensamento do primeiro, sem que filosofia e história, economia e política jamais consigam reconciliar-se na harmonia calma da simples "correspondência". Pensado como "atraso", em relação a uma norma temporal imaginária, o anacronismo acaba por impor-se não como anomalia residual, mas como atributo essencial do presente.Índice: :: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial :: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial :: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais :: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências. [Sexta-feira, Abril 23, 2004] [Su] [link] [ | ] |
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