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[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - III parte] Suzana de Souza Gutierrez Universidade Federal do Rio Grande do Sul Programa de Pós-Graduação em Educação A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho
A tecnologia e a ciência são responsáveis pela maioria das transformações no mundo. Ciência e tecnologias criadas pelo engenho humano com vistas a aspirações humanas. Na sua maioria, as invenções e descobertas foram feitas para atender desejos e necessidades de homens e mulheres e, depois de criadas e difundidas, geraram mudanças em todos os espaços da sociedade. Assim como a invenção da máquina a vapor e a descoberta do uso da eletricidade deram base e desenvolveram a indústria moderna, resultando na produção e no consumo de massa, alterando modos de vida e de trabalho e erigindo uma cultura própria, a informática e a digitalização vêm transformando a sociedade de hoje. Em várias partes do seu texto, De Masi esclarece este contexto e conclui da importância central da ciência e da tecnologia na constituição da sociedade pós-industrial. Todavia, o fator mais poderoso que impulsiona o desenvolvimento científico e tecnológico é o impulso para a geração e apropriação da riqueza. Na luta pelos mercados sempre valeu o navio mais rápido, o canhão mais potente, a informação privilegiada. E, nesse sentido, nada mudou. No entanto a história da humanidade é a história da intervenção humana na natureza para domá-la. Para isso desviamos rios, inventamos o pára-raios, casa e remédios. Há quem veja e tema nessa domesticação a sua dimensão aterrorizante. Outros, no entanto, e eu me encontro entre eles, valorizam a sua dimensão salvadora. Não excluo os perigos do progresso tecnológico, porém dou maior peso aos aspectos positivos. Por exemplo, o fato de o homem ter conseguido duplicar a duração da própria vida me parece uma conquista extraordinária. E como teria realizado tal feito sem o auxílio tecnológico? (DE MASI, 2000, p. 82)Compreendo que, se não houvesse, em grande parte, por trás do desenvolvimento tecnológico uma busca frenética por lucros cada vez maiores, num esquema de guerra onde a vida e a ética são colocadas em segundo plano, os aspectos positivos da ciência e da tecnologia, seriam em maior número, maior abrangência e direcionados segundo melhores critérios. Teríamos erradicado a maioria das doenças e não inventado a guerra bacteriológica. Teríamos alimentos em abundância sem correr o risco dos transgênicos. Teríamos ócio criativo para todos e não teríamos exploração. Segundo De Masi (2000), durante um certo tempo o desenvolvimento tecnológico mudou a face do trabalho, criando algumas posições de trabalho ao mesmo tempo em que destruía outras posições, mantendo assim um certo equilíbrio. Atualmente, o desenvolvimento é tão veloz e abrangente que não há como repor os cargos abolidos. Indissociável do desenvolvimento científico e tecnológico está a visão de mundo que lhe dá sustentação e direção. A técnica, a máquina em si, pode ser neutra, mas não o é a filosofia que a produziu e, muito menos, a ideologia que guiará o seu uso. 'Progresso' não é um termo neutro; encaminha-se para fins específicos, e esses fins são definidos pelas possibilidades de melhorar a condição humana. A sociedade industrial desenvolvida se aproxima da fase em que o progresso contínuo exigiria a subversão radical da direção e organização do progresso predominantes. esta fase seria atingida quando a produção material (incluindo os serviços necessários) se tornasse automatizada a ponto de todas as necessidades vitais poderem ser atendidas enquanto o tempo de trabalho necessário fosse reduzido a um tempo marginal. Daí por diante, o progresso o progresso técnico transcenderia ao reino da necessidade no qual servira de instrumento de dominação e exploração, que desse modo limitava sua racionalidade; a tecnologia ficaria sujeita à livre atuação das faculdades na luta pela pacificação da natureza e da sociedade. Tal estado é visualizado na noção de 'abolição do trabalho' de Marx. (MARCUSE, 1982 , p. 35)Podemos assim intuir, em toda a sua lógica, a contradição que faz com que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia aprisione e exclua em vez de emancipar e incluir. A irracionalidade de não se perceber que as estruturas e os sistemas que permitiram o desenvolvimento dos meios de abolir o sofrimento e a necessidade não servem para a consumação e superação desta fase histórica. De Masi (2000, p. 92) fala sobre o desenvolvimento do capitalismo hoje e suas repercussões no Estado e no trabalho: Os capitalistas aperfeiçoaram no mundo todo uma estratégia precisa, guiados por Reagan nos EUA, e por Thatcher, na Grã-Bretanha. Com um grande uso da mídia, elaboraram uma campanha para atacar tudo o que é público: burocracia, empresas estatais, transportes, previdência social e ensino. Obtiveram assim a privatização dos setores mais lucrativos da economia e conquistaram a baixo preço as ações das sociedades privatizadas: companhias de transporte ferroviário, eletricidade, telecomunicações, tudo aquilo de maior valor dos patrimônios estatais.Além disso, deram jeito de receber de volta do Estado todo o seu investimento, na forma de incentivos e isenções. A seguir, desmantelaram as empresas fazendo fusões, reduzindo os investimentos e demitindo empregados para baixar os custos, acumulando imensas quantias nestas operações. De Masi completa dizendo que o capital acumulado foi investido, porém de forma particular no mercado financeiro. Com base em estatísticas que comprovam o aumento de riqueza planetária e a sua cada vez maior concentração é que De Masi propõe, como forma de redistribuição de trabalho e renda, a diminuição drástica da jornada de trabalho. Ele não explicita claramente se a idéia inclui a não redução dos salários, mas, sem isso, não haveria como redistribuir riqueza. Por outro lado, De Masi acredita que, conforme está atualmente, a maioria do trabalho poderia ser executada em 5 ou 6h em vez de 8, sem nenhum tipo de alteração de custos, de produção, de rendimento e lucro, aliás, poderia até haver um aumento na produção, consumo e lucros. Porém, quando um empresário constata que o trabalho na empresa pode ser feito com, digamos uma jornada de trabalho 20% menor, a decisão costumeira é demitir o número de trabalhadores correspondentes a esta percentagem, mantendo o tempo da jornada de trabalho igual e aumentando os lucros. A diminuição do trabalho humano requerido nos processos, pela otimização da organização do trabalho ou pelo desenvolvimento tecnológico, gera desemprego em vez de tempo livre. De Masi (2000) credita este fato ao conservadorismo das empresas e dos próprios trabalhadores. As empresas resistindo aos fatos ou usando inovações apenas em proveito próprio e os trabalhadores ficando no trabalho mais tempo que o necessário, até para deixar patente a sua utilidade. Barreiras culturais e de concepção de vida e mundo difíceis de romper. As empresas seriam mais criativas, mais produtivas e reduziriam as despesas. Os trabalhadores teriam mais tempo disponível para a vida pessoal, revitalizariam seus relacionamentos com a família, com o bairro, com a cultura, alimentariam a própria criatividade. (DE MASI, 2000, p. 177)Para De Masi (2000) um fenômeno recente e ainda incipiente da sociedade industrial é o teletrabalho. Fruto do desenvolvimento da informática e das telecomunicações, uma tendência que, segundo o autor, vem recuperar o que a indústria e o artesanato tinham de melhor. Do artesanato, a produção em pequenas unidades produtivas, até domiciliares, a rapidez nas decisões, a pouca burocracia. Da indústria, a interação que pode ser estabelecida entre unidades produzidas por meio da telemática, a experiência e a solidez. Teletrabalho é um trabalho realizado longe dos escritórios empresariais e dos colegas de trabalho, com comunicação independente com a sede central do trabalho e com outras sedes através de um uso intensivo das tecnologias da comunicação e da informação, mas que não são, necessariamente, sempre de natureza informática. (DE MASI, 2000, p. 214)Para De Masi (2000) as vantagens do teletrabalho são maiores que as desvantagens. Para a sociedade: menor circulação de automóveis e pessoas, menos poluição, menor desgaste de pavimentos e outras estruturas viárias, aproximação do tempo de trabalho ao tempo de vida, redução do conflito de classes. Para os trabalhadores: trabalhar próximo ao lar e a família, autonomia, redução de custos, melhoria das relações familiares, personalização do ambiente e das relações de trabalho, redução das horas de trabalho. Para o empregador: flexibilidade econômica e organizacional, economia de custos, motivação. As desvantagens seriam: para a sociedade, o aumento nos custos da infraestrutura de comunicação, alguma perda nos impostos e o aumento da fragmentação social; para os trabalhadores, o isolamento, a exclusão do ambiente da empresa diminuindo chances na carreira, a necessidade de investimento na casa, a dificuldade de lidar com as alterações na rotina familiar, menores possibilidades de participação nas associações coletivas de trabalhadores e sindicalização, maior concorrência no mercado de trabalho; para as empresas, a perda da identidade empresarial, diminuição do controle, alteração na hierarquia, investimento inicial em treinamento. No relato de De Masi, se nota, em relação ao trabalhador, um maior número de desvantagens do que de vantagens. Em meu entender, o teletrabalho é uma opção válida e nova de trabalho e pode ser muito positiva para algumas situações de empresa, de trabalhadores ou da sociedade. É uma opção que vem a trazer benefícios se for adotada com base em critérios que atendam ao máximo os envolvidos. E ser uma opção flexível, podendo acontecer de forma híbrida, com ocasiões que alternam o teletrabalho com o trabalho normal na empresa, segundo uma escala de grupos de trabalhadores ou de épocas de trabalho. Em locais de inverno rigoroso e acúmulo de neve, por exemplo, o teletrabalho seria realizado nesta época. Em algumas empresas, seria opção do funcionário de acordo com necessidades pessoais passageiras ou contínuas. Enfim, uma alternativa a ser contextualizada para cada situação. Em relação à comunicação e a capacidade de associação entre as pessoas, creio que a internet e os demais meios de comunicação serão cada vez melhor usados. Atualmente, a maioria dos usuários ainda enfrenta muitos problemas neste tipo de interação, a maior parte ligados ao pouco domínio técnico. Nesse sentido, considero uma falta de visão muito grande negligenciar os poderosos mecanismos que oferecem os meios telemáticos, por enquanto ainda democráticos e acessíveis. Digo acessíveis, não no sentido que todos possam possuí-los, mas no sentido de que muitos podem usá-los. O trabalhador pode não ser dono do seu meio de produção ou da sua ferramenta de trabalho, mas ela lhe permite discutir este assunto com outros trabalhadores e se organizar enquanto classe. Ela lhe permite divulgar suas idéias e ter contato com as idéias de outros trabalhadores, movimentos sociais, partidos políticos, etc. De Masi (2000, p. 196) tem razão quando diz que é importante tomar posse dos meios virtuais: O que unirá os portadores dos mesmos interesses, ou dos mesmos rancores, ou das mesmas explorações, daqui por diante, será, de todo modo, de tipo virtual. E neste mundo, ou entramos imediatamente, ou senão entrará o nosso concorrente que ditará a lei que também nós seremos obrigados a cumprir.Ele fala em concorrência, pois sua atenção se volta para os negócios e as empresas. Eu diria o mesmo, porém considerando a hegemonia no uso dos meios telemáticos, a possibilidade de alteração na sua atual configuração aberta e democrática. Configuração esta que, no meu entender, se deve à falta de visão e previsão sobre as potencialidades e desdobramentos deste meio quando do seu início. Neste caso, um benefício que escapou por acidente de uma maior mercadorização e , nisso, devemos ser gratos. Não que não haja restrições e tentativas de fechamento e monopolização, basta que consideremos a privatização e cartelização das telecomunicações que são a base da transmissão de dados. Todavia, este é ainda um território aberto, e convém que nos conscientizemos da vital importância de mantê-lo sem cercas e fossos. Afortunadamente, a história também se alimenta de paradoxos. Jamais o Pentágono suspeitou que a Internet, criada para programar o mundo como um grande campo de batalha, viria a ser utilizada na divulgação da palavra dos movimentos pacifistas, tradicionalmente condenados ao quase silêncio. (GALEANO, 2001, p. 300)Voltando ao teletrabalho, na visão de De Masi (2000, p. 205), passa a ser natural e desejável a integração trabalho-vida: Reduz-se a fratura entre o tempo de trabalho e o tempo de vida. A indústria pedia que eu fosse para a fábrica trabalhar e, depois, quando soava a sirene e a linha de montagem parava, eu voltava para casa, onde tentava esquecer completamente o trabalho. Hoje, se sou um publicitário, e estou tentando criar um slogan, quando saio do escritório e volto para casa, levo o trabalho comigo: na minha cabeça. A minha cabeça não para de pensar e às vezes acontece que posso achar a solução para o slogan em plena noite, ou debaixo do chuveiro, ou ainda naquele estágio intermediário entre o sono e o despertar.Esta proposta traz um perigo potencial: o perigo de uma colonização maior da esfera privada e uma abolição progressiva da esfera pública. O lar como prisão, o trabalho como condenação do trabalhador e da família, a destruição final dos laços sociais, pois a mesma tecnologia que pode emancipar, pode prender e vigiar. A Luta de Classes e os Movimentos Sociais A observação despreocupada da realidade atual já nos permite visualizar uma fragmentação nas lutas sociais, uma descaracterização dos sindicatos e entidades de classe e até a possibilidade de estranhas alianças entre organizações de trabalhadores e entidades patronais. De Masi aponta estas mesmas constatações na sua caracterização da sociedade pós-industrial e as atribui a uma nova conformação das classes em decorrência dos novos modos de trabalho e produção. Por outro lado, em vários momentos opta pela negação da luta de classes como reação à exploração e da própria sobrevivência classes na sociedade pós-industrial, enquanto em outros momentos caracteriza os fenômenos utilizando uma análise de classe. Esta postura ambígua e contraditória faz com que sua análise se torne inconsistente, sem credibilidade, deixando em aberto várias lacunas. Ainda persiste a pergunta: que fim tiveram as classes? O que significa o termo 'classe'? Marx definiu o conceito, junto com a teoria do conflito que dele decorre, numa época em que países como a Inglaterra, mas também os Estados Unidos, a França e a Alemanha, eram caracterizados pela clara dicotomia entre poucos ricos e um número infinito de pobres. (DE MASI, 2000, p. 181)E ainda: Atualmente as agregações se dão mais sob forma de movimentos do que de instituições, como partidos ou sindicatos. A cada ocasião decidimos nos aliar a quem nos convém mais. Há tempos, pelo contrário, nos amarrávamos, da cabeça aos pés, permanecendo toda a vida ligados a uma das partes em luta. Que, aliás, era a luta de classes. (DE MASI, 2000, p.180)Nestas passagens, De Masi se une àqueles que profetizam o fim das classes sociais e propõem o individualismo e o oportunismo como idéia de movimento social. Uma forma de luta que se conforma à forma do sistema. Não que a luta social tenha que assumir sempre uma forma institucional, mas a flutuação entre movimentos variados e circunstanciais dilui o poder dos movimentos como um todo. Além disso, atribui a Marx uma conceituação que ele não fez. Ao longo de sua obra, Marx tratou do tema da luta de classes sem definir as classes, ou melhor, vinculando um possível conceito de classe à sua relação na luta. A noção de classe, segundo Marx não é redutível nem a um atributo de que seriam portadoras as unidades individuais que a compõem, nem a soma destas unidades. É algo diferente. Uma totalidade relacional e não uma simples soma (BENSAÏD, 1999, p. 147)De Masi (2000, p. 182) continua, falando sobre a emergência da classe média como negação do dualismo proposto por Marx, pois a classe média não constitui uma classe, já que "não possui a completa coesão característica desta". E diz que este grupo, que cresce progressivamente, se movimenta entre os extremos anulando a divisão entre ricos e pobres. O autor não considera que uma classe não se distingue apenas pelos seus atributos, mas pode se tornar visível por sinais de sua ação. De Masi não crê na luta de classes mas a propõe como forma de resistência à exploração dos trabalhadores intelectuais. O que é que fizeram os operários no início da era industrial? Tomaram consciência da exploração da qual eram vítimas, identificaram os seus opositores, se agregaram, realizaram alianças e lutaram com coragem e sacrifício. O trabalhador intelectual deveria fazer alguma coisa parecida, neste início de era pós-industrial. mas existem muitas dificuldades para que isso aconteça. Os trabalhadores intelectuais não pensam que pertencem a uma classe diferente da classe dos empregadores. (DE MASI, 2000, p. 250)Nesta passagem, o autor não só reforça a permanência das classes, como aponta as dificuldades para a conscientização dos trabalhadores. Uma pena que ele não avance e reconheça a proletarização do mundo assim como os 'trabalhadores intelectuais' não se apercebem que a sua condição de assalariados os coloca na mesma situação dos operários da fábrica. Ficam fora da análise, também, a grande massa dos despossuídos de tudo, até mesmo da exploração capitalista, os excluídos do mercado, que cada vez mais aumentam em número. Por outro lado, o excedente das forças de trabalho faz ressurgir práticas de produção e trabalho supostamente extintas e que são alegremente incorporadas como estratégia de extração da mais-valia pelo capital 'flexível'. O que talvez seja mais inesperado é o modo como as novas tecnologias e as novas formas coordenantes de organização permitiram o retorno de sistemas de trabalho doméstico, familiar e paternalista, que Marx tendia a supor que sairiam do negócio ou seriam reduzidos a condições de exploração cruel e de esforço desumanizante a ponto de se tornarem intoleráveis sob o capitalismo avançado. O retorno da superexploração em Nova Iorque e Los Angeles, do trabalho em casa e do 'teletransporte', bem como o enorme crescimento das práticas de trabalho do setor informal por todo o mundo capitalista avançado, representa de fato uma visão bem sombria da história supostamente progressista do capitalismo. (HARVEY, 2001, p. 175)Este é um fator que debilita sobremaneira o poder de ação dos movimentos sociais que tem dificuldade de penetração nas organizações familiares e patronais, para não citar as 'mafiosas'. De Masi se refere a uma divisão do trabalho entre máquinas e trabalhadores na sociedade pós-industrial e a uma reorganização do processo na forma de rede que une pequenas unidades, mesmo distantes, por meio da tecnologia. Reduz-se o conflito de classes, que muda de sinal e se transforma de conflito entre instituições em conflito entre movimentos. (DE MASI, 2000, p. 205)O autor se alinha com Touraine na "dupla dialética de classes": [...] há uma classe hegemônica dirigente que olha para a frente e pensa no futuro. Há uma classe hegemônica dominante que se preocupa só em conservar os privilégios adquiridos. Do mesmo modo, há uma classe subalterna propositiva capaz de contrapor os próprios planos aos da classe hegemônica. E há uma classe subalterna defensiva, que se limita a proteger os próprios direitos adquiridos, que recusa a priori os planos da classe hegemônica, mas não é capaz de formular planos alternativos. (DE MASI, 2000, p. 134)Para mim, estas subdivisões ocorrem no interior das classes que se aliam e compartilham uma determinada visão de mundo hegemônica ou não. Da mesma forma como ocorre com o senso comum e a religião, não existe apenas uma filosofia, existem diversas filosofias ou concepções de mundo e estas concepções de mundo correspondem a normas de comportamento. Segundo Gramsci (2001), escolher uma determinada filosofia é um fato complexo que envolve o intelecto e as ações práticas. Nem sempre a concepção de mundo teorizada e verbalizada é a mesma que se manifesta nas ações práticas. E isso não de deve, na maioria das vezes, à má fé. Explica-se pela adesão de grupos subordinados a filosofia de um grupo dominante, em certas épocas. Nesta situação o grupo subalterno acredita e verbaliza ser sua aquela concepção de mundo, ficando evidente a conexão entre filosofia e política. A compreensão crítica de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de 'hegemonias' políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real. (GRAMSCI, 2001, p. 103) A consciência política determina a unidade entre teoria e prática, num devir histórico que parte do sentimento de pertença a um grupo distinto até chegar numa concepção de mundo coerente e unitária. A forma de luta que De Masi (2000, p. 90) propõe aos países pobres é a do seqüestro e a mercadorização da vida. Na realidade territórios como a África Central ou a Amazônia que detém o patrimônio florestal, isto é, o oxigênio de todo o planeta, deveriam dizer aos outros países: 'Vocês querem oxigênio? Paguem por ele. Por cada árvore que produz oxigênio e que nós preservamos, vocês devem pagar uma determinada quantia'O que não se consegue nem com tratados poderia ser conseguido com ameaças. O desmatamento deveria ser usado como um arsenal, do mesmo modo como os países ricos ameaçam com suas bombas atômicas. (DE MASI, 2000, p. 91)O fracasso da recente Rio +10 nos mostra a magnitude de nosso poder de negociação [7]. De Masi (2000, p. 91) propõe, também, uma espécie de conscientização televisiva onde: "O morador da favela que assiste a uma série americana descobre que existe um mundo feito de luxos bem diferente do dele. Confronta-se com isso e fica com raiva: é o início da tomada de consciência, que não pode brotar se não houver confronto, se o pobre não puder se comparar ao rico." A esta concepção perversa de conscientização, que não pode ser creditada a ingenuidade ou alienação do autor, mas que trai uma filosofia da superioridade de uns sobre outros, podemos acrescentar a sua despreocupada previsão do futuro dos trabalhadores do terceiro mundo: Para os pobres, a principal moeda de troca é a 'audiência'. Trata-se de uma tese que tomo de empréstimo de Echevarria. Até o momento, para se comprar patentes e bens de consumo, se pagava com matéria prima, com mão-de-obra, com bases militares, ou com subordinação política. A nova moeda poderá ser a quantidade de horas que passamos diante de um canal de televisão ou navegando na Internet. (DE MASI, 2000, p. 132) O paradigma da sociedade espetáculo. Uma concepção de vida que já vem sendo ensinada no Brasil pelas novelas e os reality shows - a pedagogia da realidade alheia. Os meios de comunicação refletem a realidade ou a moldam? O que vem do quê? O ovo ou a galinha? Como metáfora zoológica, não seria a da cobra que morde o rabo? Oferecemos às pessoas o que as pessoas querem, dizem os meios de comunicação, e assim se absolvem, mas tal oferta, que responde à demanda, gera cada vez mais demanda da mesma oferta: faz-se costume, cria a sua própria necessidade, transforma-se em soma. (GALEANO, 2001, p. 302)De Masi também escreve o que as pessoas querem ler, e nos deixa sem saber se ele pensa ser o ovo ou a galinha... Notas: [7] O encerramento da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, na quarta-feira (04/09/02), foi marcado pela frustração. A conferência não avançou, em relação à Rio-92. Não foram definidos prazos, nem metas de implementação de acordos. Na maioria dos temas, a declaração final prevê vago compromisso dos Estados. (fonte: Boletim da agência de notícias Carta Maior, 22/8-04/9/2002, documento online) Índice: :: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial :: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial :: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais :: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências. [Sábado, Abril 24, 2004] [Su] [link] [ | ] |
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