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[MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. 3. ed. Lisboa: Instituto Piaget, 2001. 177p.]




Fazer uma resenha do livro Introdução ao Pensamento Complexo de Edgar Morin [1] , não é uma tarefa fácil, pois há uma tendência de simplificação dos pressupostos. E isto, a priori, contraria a filosofia empreendida por Edgar Morin em sua teoria, ou seja, a simplificação para o autor é um ato inibidor que limita o processo do conhecimento.
Simplificar um pensamento, para o autor é controlar e dominar o real. O pensamento complexo é "capaz de tratar o real, de dialogar e de negociar com ele" (p.08). Sem a ambição de simplificar o pensamento de Edgar Morin, almejo aqui apresentar seus pressupostos teóricos de forma a iniciar o processo de entendimento da sua complexa teoria.
Já na introdução do seu livro, Morin alerta para duas ilusões que dissipam o pensamento complexo:
a) "Crer que a complexidade conduz a eliminação da simplicidade" (p.08). O pensamento complexo, parte da simplificação, da falha do pensamento simplificador, unidimensional. Recusa as conseqüências redutoras da simplificação, que parte do reflexo do que há de real da realidade (de concreto).
b) "Confundir complexidade com completude [2] " (p.09). O pensamento complexo aspira o conhecimento multidimensional, mas sabe que o conhecimento completo é impossível. O pensamento complexo é animado por um saber não parcelar, não fechado, não redutor e pelo reconhecimento do inacabado, do incompleto.
Em seu livro "A Introdução ao Pensamento Complexo", Morin delineia alguns pressupostos teóricos da sua teoria, ressaltando elementos de fundamentação e concepções do que vem a ser a complexidade. O autor almeja "sensibilizar para as enormes carências do nosso pensamento e fazer compreender que um pensamento mutilador conduz necessariamente a ações mutiladoras" (p. 22).
O livro se divide em seis capítulos:

01. A Inteligência Cega; 02. O Esboço e o Designo Complexo; 03. O Paradigma de Complexidade; 04. A Complexidade e a Ação; 05. A Complexidade e a Empresa e, 06. Epistemologia da Complexidade.

Almejo extrair inicialmente as idéias centrais de cada capítulo e posteriormente apresentar a algumas percepções da minha compreensão inicial do que vem a ser o pensamento complexo de Edgar Morin.

No capítulo 01 (p. 13-23), A Inteligência Cega, o autor argumenta sobre o caráter mutilador de organização do conhecimento, que não reconhece e não apreende a complexidade do real, do que vem a chamar de inteligência cega. Para Morin (p.14), todo conhecimento opera por seleção e rejeição de dados significativos: separa (distingue ou desune) e une (associa, identifica); hierarquiza (o principal, o secundário) e centraliza (em função de um núcleo de noções mestras).
Estas operações são norteadas por princípios lógicos de organização do pensamento e princípios ocultos, na qual não temos consciência e que governam a nossa visão de mundo.
Para Morin, a inteligência cega, é uma patologia do saber, pois opera pelo princípio da disjunção, da redução e da abstração o que chama de paradigma da simplificação. Cita como exemplo, a separação das áreas do conhecimento: a física, a biologia, a ciência do homem. Com o desenvolvimento da ciência há uma hiperespecialização do conhecimento, chegando à inteligência cega, que "destrói os conjuntos e as totalidades, isola todos os objetos daquilo que os envolve" (p.18). O autor propõe distinguir idéias sem separar, associar sem identificar ou reduzir.

Argumenta que, a partir do processo de simplificação, o conhecimento está cada vez menos preparado para ser refletido e discutido e cada vez mais preparado e especializado para ser incorporado nas memórias informacionais. Morin (p.22), identifica algumas patologias de simplificação do saber:
a) A antiga, que dava vida independente aos mitos e aos deuses;
b) A moderna, a inteligência cega, da hipersimplificação do real;
c) A do idealismo, que oculta a realidade e se considera a única real;
d) A da teoria, que está voltada para o dogmatismo, para o doutrinismo;
e) A da razão, que encerra o real em um sistema de idéias coerentes ignorando a ação dialógica da racionalidade.
No segundo capítulo (p.25-82), intitulado: O Esboço e o Desígnio Complexos, Morin aponta alguns princípios que foram utilizados como análise para o apoio teórico da fundamentação da sua teoria:
a) A teoria dos sistemas e da cibernética: considera que desde o átomo à sociedade podem ser considerados sistemas, ou seja, "associação combinatória de elementos diferentes" (p.28). Estes sistemas podem ser abertos (necessitam do meio exterior para manter-se em equilíbrio) ou fechados (não necessitam do meio exterior). Exemplo: uma pedra está em estado de equilíbrio, não necessita do meio exterior; a vela já necessita do meio exterior para manter sua chama viva.Todavia o sistema só pode ser compreendido incluindo-o no meio exterior.
b) A teoria da informação: a informação é um ponto de partida. Um aspecto limitado e superficial de um fenômeno. Apresenta lacunas e incertezas. Abrange dois aspectos: o comunicacional (matriz organizacional) e o estatístico (ignora o aspecto organizacional).
c) A teoria da organização: a organização não é um conceito fechado, é uma concretização do sistemismo; um desenvolvimento ainda não atingido. Há a organização viva (auto-organização); a desorganização (entropia); a reorganização (neguentropia) e a auto-eco-organização (depende do meio externo).
A teoria da complexidade apóia-se inicialmente e avança a partir das concepções teóricas dos sistemas, da organização, da informação e da cibernética, porque:
a) Considera que o conhecimento não se reduz a incerteza (a informação);
b) Compreende incertezas, indeterminações e fenômenos aleatórios como o progresso do conhecimento (sistema aberto);
c) A concepção do conhecimento está associado aos pressupostos da organização, da auto-organização e da desordem;
d) Compreende o mundo como horizonte de realidades mais vastas;
e) Reconhece a sociedade, o conhecimento, o ser humano como um sistema aberto;
f) O sujeito e o mundo interagem e se desenvolvem. Reconhecem-se como um sistema aberto de interações e revitalização.
Uns dos problemas da complexidade é a complexidade da lógica e a organizacional, que há colocam em uma caixa preta, levando-a a simplificação. O autor ressalta da importância de irmos não do simples para o complexo, mas do complexo para uma complexidade ainda maior. Sabendo que o simples é apenas um momento, um aspecto entre várias complexidades (p.54).

O pensamento complexo supõe o mundo, como um horizonte de um ecossistema e reconhece o sujeito, como um ser pensante (último desenvolvimento da complexidade auto-organizadora). Eles são recíprocos, constitutivos e inseparáveis através de uma do sistema auto-organizado/ ecossistema (p.58). Este sujeito se reconhece no ecossistema e deve ser integrado em um metassistema (horizonte de realidades mais vasto).

De acordo com Morin (2001, p.61), "só existe objeto em relação a um sujeito (que observa, isola, define, pensa) e só há sujeito em relação a um meio objetivo (que lhe permite reconhecer-se, definir-se, pensar-se, etc., mas também existir)".

Abandonados cada um a eles próprios são conceitos insuficientes. O sujeito e o objeto como sistemas abertos, devem estar desprovidos de um princípio de resolubilidade dele mesmo, abrem-se brechas para além do conhecimento, da incerteza. Sempre estarão abertos para novas possibilidades.

Nesta relação com o mundo, com o ecossistema social, o conhecimento chega a uma incerteza irredutível, "uma brecha intransponível no acabamento do conhecimento" (p.68). Sempre aparece um novo conhecimento, e com ele incertezas, o desconhecido, a partir da relação com o metassistema.

Neste contexto, a epistemologia é o lugar da incerteza, do diálogo. Há uma revitalização dos pressupostos teóricos, a partir do progresso do conhecimento, com há rupturas dos sistemas fechados de antigas teorias. As teorias exigem uma metodologia simultaneamente aberta (que integra as antigas) e específica (descrição das unidades complexas) (p.72).

A ciência, nesta perspectiva é vista como transdisciplinar. Trata-se de incluir o acaso, a inventividade, a criatividade. Nesta nova ciência, assim chamada por Morin, o objeto não deve ser adequado à ciência, mas a ciência deve ser adequada ao objeto (p.81). Para o autor, a imaginação, a criação contribuiu para o progresso da ciência, mas eram epistemologicamente condenáveis. São citadas nas biografias dos sábios, mas omissas em suas obras científicas.
Apresentada às bases de fundamentação da teoria do pensamento complexo, no terceiro capítulo (p.83-113), intitulado: O Paradigma da Complexidade, o autor apresenta e discute os princípios da complexidade.

A palavra complexidade foi descrita entre o século XIX e início do século XX. A complexidade está presente na vida quotidiana, quando, por exemplo, por inúmeras razões desempenhamos uma multiplicidade de identidades (ser estudante, mãe, mulher, amante, amiga, professora [...]).
O autor ressalta que para entendermos o paradigma [3] da complexidade, devemos a priori entender o paradigma da simplicidade: que põe ordem (leis, princípios) no universo e expulsa a desordem (p.86).

Morin considera a desordem no processo da complexidade. A desordem é um universo da física ligado ao trabalho, a transformação. "A complexidade da relação ordem/ desordem/ organização surge quando se verifica empiricamente que fenômenos desordenados são necessários em certas condições, em certos casos, para a produção de fenômenos organizados, que contribuem para o aumento da ordem" (MORIN, 2001, p.91).

A exemplo, Heráclito, sete séculos antes de Cristo, já dizia: "Viver da morte, morrer da vida" (p.92). Isto é, viver é morrer e rejuvenescer incessantemente. Ou seja, vivemos da morte e do rejuvenescer de nossas células. Num processo de ordem/desordem/organização.
Ressalta o autor que conceber a complexidade do real é difícil, por que o sujeito tem que se colocar no centro do próprio mundo e ocupar o seu lugar do "eu". Para tanto necessita de autonomia que depende de condições biológicas, culturais e sociais e também de consciência, na qual muitas vezes é guiado apenas pelo inconsciente.

Há vários modos de complexidade: a por comodidade; a ligada a desordens; a ligada a contradições lógicas, entre outras (p.99).
Segundo Morin (2001, p. 99):
Pode dizer-se que o que é complexo releva por um lado do mundo empírico, da incerteza, da incapacidade de estar seguro de tudo, de formular uma lei, de conceber uma ordem absoluta. Releva por outro lado de algo de lógico, quer dizer, da incapacidade de evitar as contradições.
A complexidade, não pode ser confundida com completude e por complicação. A complexidade leva a insegurança, a aspiração da completude. Mas nunca poderemos ter um saber total. "A totalidade é a não verdade" (ADORNO, apud, MORIN, 2001, p.100). A complicação é um elemento constituinte da complexidade, ou seja, é a confusão extrema das inter-retroações.

A razão é um dos instrumentos racionais que nos permite conhecer o universo complexo e fazer uma autocrítica. O autor distingue razão, de racionalidade e racionalização:
a) A razão: aspecto lógico que corresponde à visão coerente dos fenômenos, das coisas e do universo;
b) A racionalidade: é o diálogo incessante entre o nosso espírito que cria estruturas lógicas e que as aplica e dialoga com o mundo real;
c) Racionalização: consiste em querer encerrar o mundo em um sistema coerente. O que se contradiz a isto é visto como ilusão ou aparência. Explicação simplista.
Não há fronteira entre a racionalidade e a racionalização. Temos uma tendência de seletiva sobre o que favorece a nossa idéia e uma desatenção sobre o que desfavorece. A racionalização desenvolve-se no próprio espírito dos cientistas.
No contexto do pensamento complexo temos que desenvolver não somente a crítica, mas a autocrítica, lutando contra a supremacia da razão, a partir de um diálogo permanente com a coerência.

O autor destaca três princípios interligados que podem nos ajudar a pensar a complexidade:
a) Dialógico: permite manter a dualidade no seio da unidade. Associa ao mesmo tempo termos complementares e antagônicos. Exemplo: a ordem e a desordem (p.107);
b) Recursão Organizacional: "a idéia recursiva é por tanto uma idéia em ruptura com a idéia linear de causa e efeito, de produto/produtor, de estrutura/superestrutura, uma vez que tudo o que é produzido volta sobre o que produziu num ciclo ele mesmo autoconstitutivo, auto-organizador e autoprodutor" (MORIN, 2001, p.108).
c) Hologramático [4] : perpassa a idéia de que não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte. Imobiliza o espírito linear, pois o movimento produtor do conhecimento se enriquece através do conhecimento das partes pelo todo e do todo pelas partes (relação antropossocial).
Morin, não conceitua o paradigma da complexidade, apenas aponta que é uma tarefa cultural, histórica, profunda e múltipla. "O paradigma da complexidade surgirá do conjunto de novas concepções, de novas visões, de novas descobertas e de novas reflexões que vão conciliar-se e juntar-se" (MORIN, 2001, p.112).
No capítulo quatro (p.115-122), intitulado: A Complexidade e a Ação, Morin analisa a ação no processo da complexidade. Inicia sua exposição, anunciando que a ação é uma escolha, uma aposta. É aleatória e incerta, e requer reflexão sobre a sua própria complexidade. Pois o pensamento da complexidade, a primeiro passo é um desafio. A partir do momento que o sujeito empreende uma ação, esta começa a escapar às suas intenções, diante das interações com o meio.

Para o autor a ação é estratégica, que parte de uma decisão inicial e encara um certo número de cenários para a ação, que poderão ser modificados segundo as informações e os imprevistos.

A palavra programa opõe-se a estratégia. O programa requer ser utilizado em situações estáveis, pois não inova. De acordo com Morin, se faz necessário à utilização de fragmentos de ações programadas para estarmos preparados para a estratégia no aleatório.

Os seres humanos, a sociedade, as instituições são ao mesmo tempo máquinas triviais [5] e não triviais. Somos não triviais, pois nem todos os comportamentos são previsíveis, mas também somos triviais, de certa maneira, pois alguns comportamentos podem ser previsíveis. O importante é os momentos de crises onde a máquina se comporta de certa forma, na qual não se pode prever. É um acréscimo de incertezas. As desordens ameaçam, as regulamentações falham é preciso abandonar os programas, antigas soluções e ser estratégico e elaborar novas soluções.

O pensamento complexo não recusa a clareza, a ordem, o determinismo. Os considera insuficiente, pois sabe que a descoberta, o conhecimento e nem a ação podem ser programados. É estar alerta que o novo pode e vai surgir (p.121). É o ponto de partida para uma ação mais rica e menos mutiladora.

No quinto capítulo (p.123-136), intitulado: A Complexidade e a Empresa, o autor analisa a complexidade a partir do cotidiano das pessoas, no trabalho e na vida em sociedade. Inicia sua exposição comparando metaforicamente a complexidade de tapeçaria, com diversos tipos de fios, a uma organização onde cada um de forma sintética concorre para o conjunto. Descreve três características da complexidade (p.123):
a) A tapeçaria é mais que a soma dos fios que há constituem, isto é, que o todo é mais que a soma das partes;
b) A tapeçaria em seu conjunto inibe a expressão da qualidade dos fios. Ou seja, o todo é tão menor que a soma das partes;
c) O todo é mais e menos que a soma das partes.
A visão simplificada diria: a parte está no todo. Em contrapartida a visão complexa diz que não somente a parte está no todo, mas o todo está na parte.

O autor pondera que a organização não pode ser explicada por nenhuma lei simples, argumentando que: "quem produz as coisas ao mesmo tempo autoproduz-se; o próprio produtor é o seu próprio produto" (MORIN, 2001, p.125). Por exemplo, a partir da interação entre sujeito e sociedade, a sociedade produz o sujeito que a produz.

Isto ocorre a partir de três ângulos apontados pelo autor, que se encontram em todos os níveis da organização:
a) A causalidade linear: tal causa produz tais efeitos;
b) A causalidade circular retroativa: os efeitos retroagem a causa. Necessita ser regulada;
c) A causalidade recursiva: o produto é produtor daquilo que o produz.
Como apontado nos capítulos anteriores meio e sujeito, são inseparáveis, são organismos vivos. Isto é, o sujeito e o meio são interdependentes no seu processo de produção e reprodução, de auto-organização e autoprodução.

A organização, o mercado enfim todo o universo é uma mistura de ordem [6] , de desordem [7] e de organização. Não podemos afastar o incerto, o imprevisto, a desordem. Num universo de pura ordem, não haveria inovação, evolução. Em contrapartida em um universo de pura desordem, não haveria estabilidade para se buscar a organização. A desordem se constitui uma resposta inevitável ao caráter sistemático, abstrato e simplificador da ordem. Não há receita de equilíbrio e sim diante da degeneração (da desordem) buscas constantes de regeneração (ordem).

O último capítulo (p.137-174), intitulado: A Epistemologia da Complexidade é uma resposta do autor aos participantes de uma mesa redonda, em Lisboa, que fizeram objeções e críticas sobre os problemas de uma epistemologia complexa (contidas no livro O Método). Aqui o autor retoma alguns conceitos já enunciados no seu livro e explica mais detalhadamente algumas das suas concepções. Irei me deter nas argumentações ainda não trabalhadas ao longo de sua obra, apresentando-as por tópicos:
a) No que situa como mal entendido Morin esclarece que, a idéia de complexidade comporta a impossibilidade de unificar, da incerteza, da irresolubilidade de frente-a-frente com o indizível. Todavia alerta para que não seja confundida com o relativismo absoluto. Reafirma que a busca da totalidade é uma verdade, mas reconhece a veracidade da impossibilidade desta totalidade. A idéia de complexidade é a aventura indefinida ou infinita do conhecimento (p.139);
b) O autor considera que navega entre a ciência e a não ciência. Navega na destruição dos fundamentos da ciência. Acredita em um pensamento menos mutilador e mais racional possível. Respeita as exigências de investigação, de verificações do conhecimento científico e de reflexão do conhecimento filosófico (p.143);
c) Critica ao ser considerado "vulgarizador", por duas razões: primeiro porque tenta discutir as idéias à medida que as compreende, assimila e as reorganiza. E segundo, porque se situa ao nível das idéias gerais, fazendo comunicar os saberes específicos a idéia geral. Almeja um caminho onde seja possível a reorganização e o desenvolvimento do conhecimento. Salienta que estamos na era da pré-história do espírito humano. E assim se abre a possibilidade para o futuro, caso a humanidade tenha futuro (p.144);
d) Reafirma que a complexidade é um desafio e não uma resposta. Porque: d1) comporta imperfeições, incerteza e reconhecimento do irredutível; d2 ) a simplificação é necessária, mas deve ser relativizada; d3 ) é a alternativa de escapar do pensamento redutor (que só vê os elementos) e do global (que apenas vê o todo); d4) aceita a contradição e a incerteza e d5 ) e a dialógica relação entre a ordem/ desordem/ organização (p.147);
e) Adverte que a ciência progrediu porque é efetivamente complexa, pois se funde no consenso e no conflito. Caminha sobre quatro tripés conflitivos: a racionalidade, o empirismo, a imaginação e a verificação (p.152);
f) O autor analisa as críticas recebidas diante dos princípios da ordem/ desordem/ organização.Salienta que se faz necessário à interação. Propõe um tetragrama (ordem/desordem/interação/organização). É preciso misturar e combinar esses princípios, são interdependentes e nenhum é prioritário. A complexidade é o progresso da ordem, da desordem e da organização. A complexidade muito alta da desordem gera liberdade e da ordem, regulação (p.155);
g) Distingue sabedoria, conhecimento e informação. Sabedoria é reflexiva; o conhecimento é organizador e a informação se apresenta em formas de unidades rigorosamente designáveis. O conhecimento como uma organização viva é ao mesmo tempo um sistema aberto e fechado. Possui uma separação com o mundo exterior e consigo mesmo (p.159);
h) Conhecer é a produção da tradução das realidades do mundo exterior. Neste processo somos co-produtores dos objetos que conhecemos (ver capítulo cinco). A objetividade é um produto que diz respeito há subjetividade. A teoria objetiva do sujeito a partir da auto-organização permite conhecer diferentes desenvolvimentos da subjetividade do sujeito (p.161);
i) A ideologia para Morin é considerada neutra; um sistema de idéias. É reduzir uma teoria, uma doutrina, uma filosofia ao grau zero (p.162);
j) Apresenta algumas percepções da importância da relação da ciência com a filosofia através do qual a reflexão por si só, era incapaz de aceitar. Tece críticas da relação da ciência com a sociedade que sofre a determinação tecnoburocrática da organização industrial do trabalho. E reconhece a sua limitação teórica da relação da ciência com a psicologia no tocante a teoria de Piaget (p. 162);
k) Finalizando, se reconhece como um racional, mas compartilha de uma razão evolutiva. Aponta a racionalização como o maior inimigo da razão e reafirma que a verdadeira racionalidade reconhece a irracionalidade e dialoga com o irracionalizável (ver capítulo três) (p.172);
l) Conclui sua explanação, que como um organismo vivo a humanidade tem vários começos, e que haja novos nascimentos. Salienta que estamos vivendo na "idade de ferro planetária". Que indica que todas as culturas, todas as civilizações estão em comunicação, mas ao mesmo tempo vivemos as barbáries entre as relações entre raças, culturas e etnias. Estamos nesta era e ainda não saberemos como sair dela. Ressalta a idéia que ainda estamos na pré-história do espírito humano, na era da barbárie das idéias, pois estamos submetidos a modos mutiladores e disjuntivos do pensamento, muito distante de pensar de forma complexa. Enfatiza que sua teoria é um apelo de civilização das idéias. Vivemos na barbárie das idéias, pois não sabemos conviver com as idéias e nem com as teorias (p.171).

"Hoje não se trata de soçobrar no apocalipse e no milenarismo, trata-se de ver que estamos talvez no fim de um certo tempo e, esperemo-lo, no começo de tempos novos" (MORIN, 2001, p.174).

2. Um olhar sobre a Introdução ao Pensamento Complexo

Meu primeiro contato com a obra de Edgar Morin foi ao desenvolver uma disciplina intitulada "Escuela Comprensiva: Desarollo profesional y calidad educativa", com a Profa. Carmen Gómez Nieto na Universidade de Valladolid, Espanha.

A reflexão sobre esta obra tinha por objetivo, investigar os pressupostos da Escola Compreensiva, ou seja, uma escola aberta às diversidades da sociedade, com o intuito de oferecer igualdade de oportunidade a todos. A teoria de Edgar Morin, em sua essência, para Nieto (2002) é uma das possibilidades de reflexão à inclusão da diversidade da sociedade espanhola, na chamada de Escola Compreensiva.

Segundo Nieto (2002) a diversidade é uma qualidade ontológica que está imerso na qualidade vital do sujeito. Apresenta características do grupo que pertence o sujeito. Identifica a liberdade individual quando o sujeito sente, pensa e conhece para criar e recriar acontecimentos, quando se manifesta em situações que sempre são novas e singulares. A inserção do estudo do tema diversidade na Escola Compreensiva, nos levou a reflexionar também sobre o tema igualdade de oportunidades. Pois ao trabalharmos a diversidade, a partir do contexto da inserção, estaremos abrindo a possibilidade de oportunidades de igualdade para todos nesta Escola.

A Teoria do Pensamento Complexo, como já mencionado, é uma possibilidade de reflexão, pois é considerada uma teoria de inclusão. Aberta em sua filosofia. Isto é, o pensamento complexo considera todas as possibilidades teóricas de reflexão, não se esgotando em apenas um pressuposto. Busca ampliar os pensamentos simplificadores das teorias e dos pressupostos teóricos, partindo da não completude do conhecimento e da aceitabilidade há diversidade.

Para Morin (2002), tudo está em relação. Nada está isolado. É um pensamento intitulado rotativo, ou seja, a parte está no todo e o todo está na parte. Por exemplo, a escola está na sociedade e a sociedade está na escola. O todo está no todo reciprocamente.

O pensamento complexo embasa-se a priori, na teoria dos sistemas, na cibernética, na teoria da organização e na teoria da informação. Estes pressupostos sistêmicos possibilitam o autor conceber a realidade a partir de um sistema vivo em movimento, em constantes mudanças. Considerando que a partir deste sistema, há ordem, desordem, interação e organização. O movimento deste sistema leva a degradação, no qual se faz necessário uma nova ordem que geram novas estruturas e assim sucessivamente. Quando este movimento se interrompe há a entropia, ou seja, a morte do sistema (NIETO, 2002).

Para Morin (2002), todo sistema vivo gera relações complexas, complementares, recorrentes e antagônicas. A partir deste contexto o sujeito não é um ser passivo, mas interage neste processo sendo parte integrante como produto e produtor.
De acordo com Nieto (2002) a filosofia do pensamento complexo de Morin, se explica a partir de um tetragrama:
a) Os sistemas vivos se desenvolvem em um processo de organização ativa (ordem);
b) Toda informação encontra outra que a procede (interação);
c) Este processo gera interferências (desordem);
d) É necessária uma disposição de relações entre os elementos que produzem um sistema para descobrir qualidades desconhecidas que se expressam com as atividades (organização).
A epistemologia do pensamento complexo se constitui a partir deste tetragrama, considerando a incerteza como uma constante. De acordo com Morin (2001), a ação, por exemplo, é uma aposta, pois não se sabe o que esta pode gerar. Nada é absoluto, fixo e irremediável.
Morin, parte do pensamento simplista, o amplia a partir de novas dimensões, entendendo que não é algo fácil, mas acredita que com esta visão há possibilidades de novas descobertas, de novas possibilidades, incertezas e com isto um novo renascer.

Concebe o autor, que o mundo poderia ser melhor, se os homens não agissem e nem pensassem linearmente. Abrindo assim possibilidades, para outras possibilidades e tendo a certeza que nada é certo, seguro. Todavia, há necessidade de uma ordem, não como determinista, mas sim relacional, que necessita de uma desordem para se regenerar. Para Morin (2002, p.47) "[...] esquemas simplificadores dão lugar a ações simplificadoras e esquemas unidimensionais, dão lugar a ações unidimensionais".

As crises são elementos essenciais na constituição do pensamento complexo, pois exigem novas estratégias, novas ações para novas saídas de um sistema, já falido. É um eterno repensar, reflexionar com e no meio em que o sujeito está inserido, pois não há certezas, nem verdades.

A teoria de Edgar Morin é essencialmente interessante, principalmente quando não concebe a visão simplificadora do fenômeno. Todavia, questiono-me da sua visão sistêmica, de eterno recomeço sem a possibilidade de transformação da realidade. Há uma forte conotação de evolução não de transformação como se trabalha a partir da dialética. Esta evolução não é linear, de causa e efeito, mas uma evolução "rotativa" a partir de um ciclo de ordem, desordem, interação e organização.

A crítica está presente nos pressupostos teóricos do pensamento complexo, porém as classes sociais, a ideologia e a historicidade não fazem parte como categoria de análise, de um contexto mais complexo. No caso da Escola Compreensiva, onde busca a igualdade de oportunidades diante da diversidade, os aspectos sócias, políticos e econômicos não são considerados. Parece uma teoria com conceitos macros de aceitabilidade da realidade sem a possibilidade de transformação. Ocorrendo apenas evoluções [8].

Por outro lado, não se almeja uma escola que ignore estes pressupostos, de igualdade de oportunidades para todos, mas que respeite e a partir de então, desenvolva relações de crítica e transformação do e no seu meio social. O que me parece muito salutar nesta teoria e a exigência do fazer pensar, do reflexionar, de um novo recomeçar mesmo que este não seja um pensar que gere transformação, mas sim o início de um novo recomeçar.

Outra concepção desta teoria é a do sujeito como produto e produtor do seu meio. Questiono-me até que ponto o sujeito realmente é produtor do seu meio? Incluindo ai vários fatores de análises sociais que interferem na constituição deste sujeito. Concordo com o autor na concepção do sujeito como ser ativo, mas em alguns meios este sujeito não é produtor do meio, apenas produto, como por exemplo, nas relações de trabalho.

A idealização desta teoria é fantástica no sentido de ampliar o pensamento simplificador, mas a ausência de categorias sociais de análise, faz com que a sociedade vista de forma sistêmica, fique mais sujeita a entropia. Em contrapartida como alerta o próprio Morin, para o sujeito ser ativo este deve dispor de algumas condições que o fazem um ser ativo, como autonomia, educação, cultura, entre outros fatores. Por outro lado, aqueles que não dispõem destas condições, como poderão exercitar um pensamento complexo? Não estarão no limiar do pensamento simplificador?

Minha análise ainda pode ser simplista partindo do pressuposto de Morin. É apenas uma tentativa de reflexionar sobre o pensamento de um dos grandes filósofos do século XX, que sem dúvida, vem contribuindo para uma nova visão de sociedade, mas planetária no sentido de inclusão. Em que toda reflexão é bem vinda, a partir de uma certeza de que nada é absoluto e a incerteza é o grande desafio da humanidade. Mas para tanto, devemos romper com o pensamento limitante, redutor da realidade.

Muito mais que uma teoria, é um desafio. Pois pensar complexo, é desafiar os preceitos, os valores a ordem até então estabelecida. É olhar a desordem como um meio de aprendizagem. A crise como uma possibilidade. É entender o fenômeno social como uma desordem e/ou ordem com possibilidades de evolução e mudanças.

Ciente que ainda tenho muito que ler e estudar sobre este autor, vejo estes escritos, apenas como um ensaio, uma reflexão, ainda que linear sobre o pensamento complexo. Ainda é uma análise limitante do que vem a ser o pensamento complexo. Todavia, alguns dos pressupostos desta teoria foram permeados, com a certeza da necessidade de um estudo mais aprofundado, e da não limitação desta teoria em si.

Notas

[1] dgar Morin é historiador, sociólogo e filósofo. Considerado um dos maiores pensadores do século XX. Atualmente é diretor emérito de investigação no Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS) da França; presidente da Agência Européia de Cultura (UNESCO) e presidente da Associação do Pensamento Complexo, França. Sua obra inclui mais de trinta títulos traduzidos em distintos idiomas, entre os quais se destacam os cinco volumes intitulados "O Método".

[2] Completude: "qualidade do que está perfeito, acabado" (HOUAISS, 2001, p.101).

[3] Paradigma: "é constituído por um certo tipo de relação lógica extremamente forte entre noções mestras, noções chaves e princípios chaves" (MORIN, 2001, p.85).

[4] Holograma: "imagem fotográfica tridimensional, obtida por raio laser" (HOUAISS, 2001, p.234).

[5] Trivial: "é uma máquina, de que se conheceis todos os inputs, conheceis também todos os outputs; podeis prever o seu comportamento desde que saibas tudo o que entra na máquina" (MORIN, 2001, p.119).

[6] Ordem: "é tudo que é repetição, constância, invariância, tudo o que pode ser colocado sob a égide de uma relação altamente provável, enquadrado sob a dependência de uma lei" (MORIN, 2001, p.129).

[7] Desordem: "é tudo o que é irregularidade, desvio em relação a uma estrutura dada, aleatório, imprevisibilidade" (MORIN, 2001, p.129).

[8] Entende-se por evolução a continuidade do desenvolvimento sem afetar a estrutura essencial do fenômeno. Já há transformação interrompe o processo gradual do desenvolvimento possibilitando novas qualidades ao fenômeno (TRIVIÑOS, 1987).

Referências Bibliográficas

HOUAISS, Antônio. Minidicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 481p.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 3. ed. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.177p.

_______. Educar en la era planetaria. El pensamiento complejo como método de aprendizaje en el error y la incertidumbre humana. Espanha: Universidad de Valladolid. 99p.

NIETO, Carmen Gómez. Escuela comprensiva: desarrollo profesional y calidad educativa. 07 de mar. - 30 de maio de 2002. 06f. Universidad de Valladolid. Notas de Aula.

TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva. Introdução à pesquisa em ciências sociais. A pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987. 175p.

* Pedagoga, Especialista em Metodologia de Ensino e Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutorado sanduíche na Universidad de Valladolid (Espanha). Pedagoga vinculada a Universidade Federal de Santa Catarina. o Integrante do Grupo de Pesquisa A Formação de Professores do CONESUL-MERCOSUL - Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Programa de Pós-Graduação em Educação


[Terça-feira, Maio 04, 2004] [Su] [link] [ | ]

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