|
? |
|
#
[GRAMSCI E A FORMAÇÃO HUMANÍSTICA] Dileno Dustan Lucas de Souza [1] Este texto tem o objetivo de sintetizar alguns aspectos do pensamento humanístico a partir do pensamento de Antonio Gramsci. Nas palavras de Gramsci, é preciso recuperar o valor do pensamento marxista, que supera o de uma teoria do conhecimento, e que é antes de mais nada uma postura filosófica, uma tomada de posição: O marxismo não é apenas um pensamento limitado, a pequenos grupos de intelectuais: ele é a filosofia da classe operária, a ideologia que organiza esta classe para a conquista e exercício da hegemonia. Em outras palavras, como diz Gramsci, o marxismo é uma religião (no especialíssimo sentido croceano da palavra), isto é, uma concepção atuante do mundo, com uma moral que lhe é adequada. Organizar a vontade coletiva, que concretiza esta moral através da subversão da práxis é a tarefa política do marxismo.[2]Considerando a diversidade e a profundidade dos temas abordados por Gramsci em seus escritos, optei por uma análise e discussão sobre a formação do homem, considerando os seguintes pontos: desmistificação da formação humana a partir da afirmação que todos os homens são "filósofos" e do conceito de homem para compreender o processo de formação humana. DESMISTIFICANDO A FORMAÇÃO HUMANA Para propor uma nova formação humana seria preciso que Gramsci rompesse com alguns paradigmas estabelecidos anteriormente, como o de que a filosofia é algo muito difícil, e que deve ser desenvolvida por cientistas especializados, por filósofos profissionais ou sistemáticos. Gramsci então propõe uma completa inversão dos conceitos estabelecidos, o que nos remete a Marx no livro, A Ideologia Alemã, quando inverte o pensamento hegeliano e afirma que "não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência" [3], é essa inversão que o leva a afirmar que todo homem é "filósofo" ao mesmo tempo que não se esquece de resguardar a diversidade contida na peculiaridade de cada homem, ou seja, de cada filósofo: Deve-se destruir o preconceito muito difundido, de que a filosofia seja algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. Deve-se portanto demonstrar, preliminarmente que todos os homens são 'filósofos' definindo os limites e as características desta filosofia espontânea' peculiar a 'todo mundo', isto é, da filosofia que está contida: 1) na própria linguagem, que o conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras gramaticalmente vazias de conteúdo; 2) no senso comum e no bom-senso; 3) na religião popular e consequentemente em todos o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e de agir que se manifestam naquilo que se conhece geralmente como 'folclore'.[4]Gramsci parte do pressuposto de que todo homem é filosofo, exatamente por compreender, que toda atividade humana corresponde a uma determinada concepção de mundo. Porém Gramsci formula algumas hipóteses para se chegar ao que chama de "momento da crítica e da consciência", e indaga: é preferível "pensar" sem ter consciência crítica, ou seja, "participar" de uma concepção de mundo imposta por outros grupos sociais ou é preferível elaborar a própria concepção de mundo de uma maneira crítica e consciente, participando da construção histórica do mundo? Dessa forma, Gramsci, aponta para uma construção humana que possa criticar sua própria concepção de mundo a fim de torná-la unitária e coerente para iniciar uma elaboração crítica e consciente daquilo que somos. Por isso, Gramsci se apressa em dizer que "se é verdade que toda linguagem contém os elementos de uma concepção de mundo e de uma cultura, será igualmente verdade que, a partir da linguagem de cada um, é possível julgar da maior ou menor complexidade da sua concepção de mundo" [5], assim, insiste no fato de que, é mais coerente uma multidão de homens pensar de forma unitária uma determinada realidade, do que a descoberta de uma nova verdade por um "gênio filosófico" que deterá tal verdade como patrimônio de pequenos grupos intelectuais privilegiados. A diferente posição de classe e, portanto, a diversa concatenação entre vida e responsabilidade (prática social) e vida de formação (escola), levam Gramsci a fazer uma avaliação diferenciada dos limites e defeitos da formação escolar proletária e da do burguês. É claro que é defeito da escola suscitar nos alunos entusiasmos presunçosos, auto-convencimento exagerado que não corresponde a uma efetiva e proporcional aprendizagem científica; entretanto, esse defeito é mais perigoso para o jovem burguês que sai da escola sem conteúdo e pensando que sabe tudo torna-se um perigo objetivo para a hegemonia burguesa; sua classe sabe disso e providencia escolas adequadas. O trabalhador, ao contrário, cujo conteúdo de certa maneira já lhe foram oferecidos informalmente pela própria prática produtivo-política, mas que foi sistematicamente afastado das ciências gerais, criou de si uma baixíssima auto-estima. Para este caso, o defeito da escola que eleve 'exageradamente' sua auto-estima, mesmo através dos métodos um tanto dogmáticos, não é tão grave como seria para o burguês: O operário acredita sempre ser mais ignorante e mais incapaz de quanto efetivamente é; o operário tem sempre medo de expressar suas opiniões porque acredita que elas tem pouco valor uma vez que foi acostumado a pensar que a sua função na vida não é produzir idéias, dar a direção, ter opiniões, mas, ao contrário, é seguir as idéias dos outros, executar a direção estabelecida pelos outros e escutar de boca aberta as opiniões alheias. Não devemos, por tanto, nos apavorar demais diante do perigo dos alunos da nossa escola creditarem ser grandes e sábios e terem esgotado o universo só porque decoraram as dispensas e conseguiram repetir mecanicamente as noções aprendidas.[6]Aqui se estabelece a dicotomia no processo educativo onde Gramsci denuncia que há um tipo de educação para a classe trabalhadora e um para a burguesia. "Só faltava essa. Um Estado que sempre criou escolas de cultura humanistas para os ricos e uma outra escola pobre para os filhos dos trabalhadores, apela agora de repente para uma renovação da escola do trabalho. Algo de podre se escondia atras dessa retórica" [7]. Porém Gramsci aponta a grande diferença da escola do trabalho proposta pelo Estado e pelo movimento socialista: a escola do trabalho proposta pelo Estado é interessada, para que pudessem imediatamente dar conta das demandas do Estado, que eram naquele momento, suprimentos para a guerra [8] , a escola do emprego, por outro lado, a escola do trabalho proposta pelo movimento socialista era desinteressada, ou seja, uma escola que propunha uma formação integral, considerando a parte técnica-filosófico-política, através da escola unitária. Dessa forma, Gramsci, prossegue a desmistificação do que seria a filosofia para afirmar o homem fazendo uma conexão entre: o senso comum, a religião e a filosofia, afirmando que a filosofia é a crítica da religião e do senso comum, o que ao seu ver se confunde com o "bom senso" e que se contrapõe ao senso comum, em seguida reflete nas relações entre ciência-religião-senso comum, onde afirma que não existe uma filosofia geral e sim diversas filosofias, ou seja, diversas concepções de mundo, sendo assim, a intelectualidade parte da atividade real de cada um, isso porque o homem de formação prática nem sempre tem uma clara consciência teórica desta sua ação, podendo em alguns momentos ser contraditória a sua prática teórica e o seu agir. Esse processo de formação humana em Gramsci é fundamental, pois é a partir dessa formação que será forjado um novo homem, ou seja, o homem socialista, daí a importância em ressaltar a presença do partido político que contribuirá na elaboração e difusão das concepções do mundo, bem como lembrar da importância da passagem de uma concepção mecanicista para uma concepção ativista, onde dar-se-á uma justa compreensão da unidade entre teoria e prática. Por isso, Gramsci acreditava ser importante nesse processo de construção humana compreender a igreja e a escola, já que, a seu ver: A escola - em todos os seus níveis - e a igreja são as duas maiores organizações culturais em todos os países, graças ao número de pessoal que utilizam. Os jornais, as revistas e a atividade editorial, as instituições escolares privadas tanto quanto integram a escola de Estado, como enquanto instituições de cultura do tipo das universidades populares. [9]Sendo assim, Gramsci compreende que o processo educativo é decisivo na formação humana, pois avalia que a escola é tão importante quanto a igreja. Isso porque as duas são as maiores organizações culturais de seu tempo, não podendo a seu ver, serem dicotomizadas [10] as práticas culturais da teoria, é preciso integrá-las e lembrar que "antes do operário existe o homem que não deve ser impedido de percorrer os mais amplos horizontes do espírito, subjugado às máquinas" [11] . Já naquele momento, Gramsci alertava para o divórcio entre os grupos intelectuais e as camadas populares, e insistia na necessidade de conformá-las como parte integrante do processo educativo, onde o espaço escolar não pode ser um espaço de segregação e sim um local de integração: A escola, mediante o que ensina, luta contra o folclore, contra todas as sedimentações tradicionais de concepção de mundo, a fim de difundir uma concepção mais moderna, cujos elementos primitivos e fundamentais são dados pela aprendizagem da existência de leis naturais como algo objetivo e rebelde, às quais é preciso adaptar-se para dominá-las, bem como de leis civis e estatais que são produto de uma atividade humana estabelecida pelo homem e podem ser por elas modificadas visando o seu desenvolvimento coletivo; a lei civil e estatal organiza os homens de modo historicamente mais adequado à dominação de leis da natureza, isto é, a tornar mais fácil o seu trabalho, que é a forma própria através da qual o homem participa ativamente da vida da natureza visando transformá-la e socializá-la cada vez mais profunda e extensamente. [12]Isso, porque, esses aspectos trazem noções científicas que se apresentam contrárias às absorvidas nos ambientes comunitários, o que reflete relações diferenciadas daquelas em que o processo educativo tenta imprimir, o que demonstra um certo anacronismo, já que, "não existe unidade entre escola e vida e, por isso, não existe unidade entre instrução e educação" [13]. A violenta dicotomia em que esbarra desde seus primeiros anos de vida, até os anos do cárcere, ritimiza-se dolorosamente entre a contraposição do continente explorador e a sua província explorada (regionalismo); entre os ricos que podiam estudar e os pobres que não podiam; entre o campo atrasado e estagnado e a cidade moderna e em desenvolvimento; entre o intelectual que pensa e o trabalhador que faz; entre a mão e a cabeça; entre a prática e a teoria; entre a escola e a oficina; entre o dirigente e o dirigido; entre a cultura 'desinteressada' do intelectual tradicional e a cultura 'interessada' ou estreitamente profissionalizante do operador, do funcionário ou do orgânico; entre as direções políticas e as massas; entre o sujeito (espírito) e o objeto (matéria); entre a filosofia política e a economia; enfim entre o reino da liberdade e o reino da necessidade. [14]O que nos leva a refletir acerca do processo educativo diretamente: Daí é possível dizer que, na escola, o nexo educação-instrução somente pode ser representado pelo trabalho vivo do professor, na medida em que o mestre é consciente dos contrastes entre o tipo de sociedade e de cultura que ele representa pelos alunos, sendo também consciente de sua tarefa, que consiste em acelerar e em disciplinar a formação da criança conforme o tipo superior de luta com o tipo inferior. Se o corpo docente é deficiente e o nexo educação-instrução é relaxado, visando resolver a questão do ensino de acordo com os esquemas de papel nos quais se exalta a educatividade, a obra do professor se torna ainda mais deficiente: ter-se-á uma escola retórica, sem seriedade, pois faltará a corporeidade material do certo, e o verdadeiro será verdadeiro de palavra, ou seja, retórica.[15]É partindo dessa concepção de formação humana que Gramsci forja o aparecimento de um novo tipo de filósofo, ou seja, o "filósofo democrático", que consciente de seu papel social unifica na prática a ciência e a vida e a transforma numa unidade ativa, onde afirma ser ela a responsável pela liberdade de pensamento, o que relaciona o homem dialeticamente com a natureza. Nesse sentido, o ensino passa a ser encarado como um ato de libertação, afirmando a sua eficiência no trato com as camadas mais oprimidas da sociedade, facilitando o aparecimento da solidariedade desinteressada, o desejo de buscar a verdade, porém esse ensino, defende Gramsci, deve ser um pouco acima da média, para que se possa estimular o progresso intelectual, para que os trabalhadores saiam da simples reprodução de palavras panfletárias e consolidem uma visão crítica do mundo onde se vive e se luta, dessa forma, o ambiente escolar tende a ser mais rico e orgânico nas suas relações [16]. O HOMEM E SUA FORMAÇÃO Para Gramsci o homem deve ser encarado como um processo de seus atos, como uma série de relações, e é partindo dessa compreensão que pergunta, quem é o homem? e tenta defini-lo afirmando que a resposta se encontra no próprio homem. Porém essa pergunta representa a compreensão do que o homem pode se tornar, ou seja, o próprio definidor de seu destino, por isso, na sua definição conceitual, Gramsci se preocupa em desvelar se esse homem é criador de si mesmo ou se é criatura da imposição social. Creio que em cada um deles existam todas as tendências, assim como em todas as crianças quer para a prática quer para a teoria ou para a fantasia e que seria correto guiá-las, nesse sentido, para uma harmoniosa e orgânica mistura de todas as faculdades intelectuais e práticas que a seu tempo terão oportunidade de se especializarem, com base numa personalidade vigorosa formada, total e integralmente. O homem moderno deveria ser a síntese dos caracteres que são tipicizados como caráter nacionais: o engenheiro americano, o filosofo alemão, o político francês, recriando por assim se dizer, o homem italiano do renascimento, o tipo moderno de Leonardo Da Vinci que se tornou homem coletivo mesmo mantendo a sua forte personalidade e originalidade individual.[..] [17]O conceito de homem em Gramsci vem exatamente contestar a definição dada pela igreja católica, que o colocava como indivíduo bem definido e limitado, isto é, conceberam o homem como indivíduo limitado a sua individualidade e o espírito como sendo essa individualidade. É nesse ponto que Gramsci ressalta que o conceito de homem deve ser reformulado: Deve-se se conceber o homem como uma série de relações ativas(um processo), no qual, se a individualidade tem a máxima importância, não é toda via o único elemento a ser considerado, a humanidade que se reflete em cada individualidade é composta de diversos elementos: 1) o indivíduo; 2) os outros homens; 3) a natureza. Mas o segundo e o terceiro elemento não são tão simples quanto poderiam parecer. O indivíduo não entra em relação com os outros homens por justa posição, mas organicamente, isto é, na medida em que passa a fazer parte de organismos, dos mais simples aos mais complexos. Desta forma, o homem não entra em relação com a natureza simplesmente pelo fato de ser ele mesmo natureza, mas ativamente, por meio do trabalho e da técnica. E mais: essas relações não são mecânicas. São ativas e conscientes, ou seja, corresponde a um grau maior ou menor de inteligibilidade que delas tenham o homem individual. Dai ser possível dizer que cada um transforma a si mesmo, se modifica, na medida em que transforma e modifica todo conjunto de relações do qual ele é o ponto central. Nesse sentido o verdadeiro filósofo é - e não pode deixar de ser - nada mais que o político, isto é, o homem ativo que modifica o ambiente, intendido por ambiente o conjunto de relações que o indivíduo faz parte. [18]É partindo da analise desse tipo de relação social que o conhecimento é analisado enquanto instrumento de poder, pois "na verdade, esse princípio pedagógico originário do mundo do trabalho e que procura a escola para melhor identificar-se, explica-se, reforçar-se e atuar-se, nada mais é do que o próprio princípio da liberdade concreta e da autonomia universal do homem" [19], o que provoca a necessidade de elaborar uma doutrina onde essas relações devam estar bem claras a partir da consciência individual de cada homem que conhece, que admira na medida em que desenvolve o saber, saber esse que não se constrõe isoladamente mas dialeticamente através das possibilidades oferecidas pelos outros e no contato com as coisas que refletem um conhecimento social, o que gera a perspectiva em Gramsci de afirmar, não mais que todo "homem é um filósofo" e sim, que nesse momento, todo homem além de ser um filósofo é também um cientista. É partido dessa concepção de formação do homem que Gramsci afirma que: Essas orientações didático-pedagógicas expressam, sem dúvida, a sua concepção de vida mais geral segundo a qual o ser humano deve educar-se científica e culturalmente até os níveis mais complexos, sofisticados e modernos, partindo (e mantendo), porém, uma forte e vital ligação com sua base popular e com o seu senso comum.[20] Essa base constitui-se na fonte perene de inspiração, sentimento, fantasia e solidariedade de todo homem culto, caso contrário teremos um técnico abstrato, um intelectual desenraizado e não orgânico [...] [21]É nesse processo de conceituação do homem que entendo ser primordial o aspecto educativo que Gramsci desenvolve, pois ao tomar o homem como potencialidade de uma unidade, trabalha com uma concepção de educação/escola que vise essa formação completa do homem, que é denominada Escola Unitária, que propõe abolir as escolas do tipo interessada, ou seja, instrumental que estejam preocupadas com o imediato, partindo para a formulação de uma escola que propicie equanimimente a capacidade de se trabalhar a parte manual (técnica e industrial) ao mesmo tempo que é desenvolvida a sua capacidade de trabalho intelectual. Eis porque, na escola unitária, a ultima fase deve ser concebida e organizada como a fase decisiva, na qual se tende criar os valores fundamentais do 'humanismo', a autodisciplina intelectual e a autonomia moral necessária a uma posterior especialização, seja ela de caráter científico (estudos universitários), seja de caráter imediatamente prático-produtivo (industria, burocracia, organização das trocas, etc.). O estudo e o aprendizado dos métodos criativos na ciência e na vida deve começar nesta última fase da escola, e não deve ser mais um monopólio da universidade ou ser deixado ao acaso da vida prática: essa fase escolar já deve contribuir para desenvolver o elemento da responsabilidade autônoma nos indivíduos, deve ser uma escola criadora. [22]Assim a escola unitária dá suporte a essa concepção de homem através da construção de um conhecimento que pressupõe um método autônomo e espontâneo a partir da criação coletiva, o que não significa uma escola __ como ressalta Gramsci __ de "inventores e descobridores", mas sim que a aprendizagem se desenvolva naturalmente a partir da postura amigável do professor para com o aluno, de modo que este possa autonomamente descobrir as verdades que, mesmo que sejam velhas, demonstrem a absorção do método, demonstrando uma certa maturidade intelectual no processo de descoberta de novas verdades. Com isso, a escola unitária significa não só um novo tipo de relacionamento entre o campo intelectual e o manual, como também um novo tipo de relação social de produção, fomentando um novo homem [23]. Essa formação educativa, voltada a uma concepção de educação diferenciada é imprescindível na consolidação social da classe trabalhadora para estabelecer o seu potencial no processo de aquisição de conhecimento, é preciso considerar as mudanças pelas quais o mundo vem passando, para que o homem não tenha uma formação aquém dos avanços tecnológicos e sociais tornando-se abstrato. Pois, a escola regular do sistema de ensino vigente além de não atender as necessidades educacionais dos trabalhadores é excludente e elitista, organizada de acordo com os interesses de uma minoria privilegiada, promovendo a ideologia de que a escola é um espaço democrático de aquisição do saber historicamente acumulado. A tendência democrática, intrinsecamente, não pode consistir apenas em que um operário manual se torne qualificado, mas em que cada 'cidadão' possa se tornar governante e que a sociedade o coloque, ainda que 'abstratamente', nas condições gerais de poder fazê-lo: a democracia política tende fazer coincidir governantes e governados (no sentido de governo com o consentimento dos governados), assegurando a cada governado a aprendizagem gratuita das capacidades e da preparação técnica geral necessárias ao fim de governar. Mas o tipo de escola que se desenvolve como escola para o povo não tende mais nem sequer a conservar a ilusão, já que ela cada vez mais se organiza de modo a restringir a base da camada governante tecnicamente preparada, num ambiente social político que restringe ainda mais a 'iniciativa privada' no sentido de fornecer esta capacidade e preparação técnico-política, de modo que, na realidade, retorna-se às divisões em ordens "juridicamente" fixadas e cristalizadas ao invés de superar as divisões em grupos: a multiplicação das escolas profissionais, cada vez mais especializadas desde o início da carreira escolar, é uma das mais evidentes manifestações deste tendência [24].Sendo assim, é preciso que se repense o espaço educativo, pois "o ambiente não-educado e rústico dominou o educador, o vulgar senso comum se impôs à ciência e não vice-versa; se o ambiente é o educador, ele deve ser por sua vez o educado" [25]. Sendo assim, Gramsci apontava naquele momento que: A luta contra a velha escola era justa, mas a reforma não era uma coisa tão simples como parecia, não se tratava de esquemas programáticos, mas de homens, e não imediatamente de homens que são professores, mas de todo o complexo social do qual os homens são expressão. Na verdade um professor medíocre pode conseguir que os alunos se tornem mais instruídos, mas não conseguirá que sejam mais cultos [...] [26]A propósito: A multiplicação de tipos de escola profissional, portanto, tende a eternizar as diferenças tradicionais; mas, dado que ela tende, nestas diferenças, a criar estratificações internas, faz nascer a impressão de possuir uma tendência democrática. (...) Mas a tendência democrática, intrinsecamente, não pode consistir em que apenas um operário manual se torna qualificado, mas em que cada 'cidadão' possa se tornar 'governante' e que a sociedade o coloque, ainda que 'abstratamente', nas condições gerais de fazê-lo: A democracia política tende a fazer coincidir governantes e governados (no sentido de governo com o consentimento dos governados) assegurando a cada governado a aprendizagem gratuita das capacidades e da preparação técnica geral necessária ao fim de governar. Mas o tipo de escola que se desenvolve como escola para o povo não tende mais nem sequer a conservar a ilusão, já que ela cada vez mais se organiza de modo a restringir a base da camada governante tecnicamente preparada, num ambiente social político que restringe ainda mais a 'iniciativa privada' no sentido de fornecer esta capacidade de preparação técnico-político, de modo que, na realidade, retorna-se às divisões em ordens 'juridicamente' fixadas e cristalizadas ao invés de superar as divisões em grupo: a multiplicação das escolas profissionais cada vez mais especializadas desde o início da carreira escolar, é uma das mais evidentes manifestações desta tendência.[27]Por isso, um ponto importante ao qual deve-se estar atento na organização da prática escolar, no pensamento gramsciano, é de que uma escola unitária ou de formação humanista, que busca uma formação omnilateral do homem, que considere a práxis educativa e a relação educador-educando, dê suporte a uma concepção formação das novas gerações de acordo com a ótica do trabalho, isto é, deve ser um dos elementos fundamentais do projeto social da classe trabalhadora. Nesse sentido, em tempos neoliberais, Gramsci não poderia ser mais oportuno ao afirmar que: A escola unitária deveria corresponder ao período representado hoje pelas escolas primárias e médias, reorganizadas não somente no que diz respeito ao conteúdo e ao método de ensino, como também no que toca à disposição dos vários graus da carreira escolar. O primeiro grau elementar não deveria ultrapassar três-quatro anos e, ao lado do ensino das primeiras noções 'instrumentais' da instrução(ler, escrever, contar, geografia e história), deveria desenvolver notadamente a parte relativa aos 'direitos e deveres', atualmente negligenciados, isto é, as primeiras noções do Estado e sociedade, como elementos primordiais de uma nova concepção do mundo que entra em luta contra as concepções determinadas pelos diversos ambientes sociais tradicionais, ou seja, contra as concepções que poderíamos chamar de folclóricas. O problema didático a resolver é o de temperar e fecundar a orientação dogmática que não pode deixar de existir nestes primeiros anos. O resto do curso não poderia deixar de durar por mais de seis anos, de modo que aos quinze-dezesseis anos, dever-se-ia concluir todos os graus da escola unitária. [28]Depois de ter desmistificado a formação humana definindo o homem como um conjunto das relações sociais, Gramsci revela que toda comparação entre os homens é impossível devido ao conjunto de suas condições de vida e a sua relação com a natureza e com a sociedade. O homem então passa a ser visto como bloco histórico, ou seja: O homem deve ser concebido como um bloco histórico de elementos puramente subjetivos e individuais e de elementos de massa - objetivos ou materiais - com os quais o indivíduo está em relação ativa. Transformar o mundo exterior, as relações gerais, significa fortalecer a si mesmo. É uma ilusão, e um erro, supor que o 'melhoramento' ético seja puramente individual: a síntese dos elementos constitutivos da individualidade é 'individual', mas ela não se realiza e desenvolve sem uma atividade para o exterior, atividade transformadora das atividades externas, desde as com a natureza e com os outros homens - em vários níveis, nos diversos círculos em que se vive - até a relação máxima, que abraça todo o gênero humano. Por isso, é possível dizer que o homem é essencialmente 'político', já que a atividade para transformar e dirigir conscientemente os homens realiza a sua 'humanidade', a sua 'natureza humana'. [29]É considerando esse processo pelo qual o homem passa e o compreendendo enquanto bloco histórico que Gramsci nos alerta para o momento caracterizado de catarsis, no momento da passagem do egoísmo individualizado (onde o homem busca uma forma de propriedade), a um momento de consciência humana. "A fixação do momento 'catártico' torna-se assim, creio, o ponto de partida de toda filosofia da práxis; o processo catártico coincide com a cadeia de síntese que resulta do movimento dialético" [30]. Sendo assim, não bastaria Gramsci simplesmente propor uma nova concepção de homem. Era preciso que houvesse uma formulação concebendo esse novo homem, era preciso desfazer o fetiche imposto socialmente de que a cada homem caberiam certas atribuições, por isso, Gramsci condena e caracteriza como preconceituosa tal concepção e afirma dizendo que: A questão é sempre a mesma: o que é o homem ? o que é a natureza humana? Se divide o homem como indivíduo, psicológica ou especulativamente, estes problemas do processo ou do devenir são insolúveis e puramente verbais. Se se concebe o homem como um conjunto de relações sociais entretanto revela-se que toda comparação no tempo entre homem é impossível, já que se trata de coisas diversas se não mesmo heterogêneas. Por outro lado, dado que também o homem é o conjunto de suas condições de vida, pode-se medir quantitativamente a diferença entre o passado e o presente, já que é possível medir a proporção na qual o homem domina a natureza e o acaso. [31]Deve-se considerar então que: A 'natureza humana' é o 'conjunto das relações sociais' é a resposta mais satisfatória porque inclui a idéia do devenir: o homem 'devém' transforma-se continuamente com as transformações das relações sociais; e, também, porque nega o 'homem em geral': de fato, as relações sociais são expressas por diversos grupos de homens que se pressupõe uns aos outros, cuja unidade é dialética e não formal [...] Por isso, a 'natureza humana' não pode ser encontrada em nenhum homem particular, mas em toda história do gênero humano. [32]É partindo dessa compreensão que Gramsci afirma a sua forma de construir a consciência humana: O fato de que uma multidão de homens seja levada a pensar coerentemente e de maneira unitária a realidade presente é um fato 'filosófico' bem mais importante e 'original' do que a descoberta, por parte de um 'gênio filosófico', de uma nova verdade que permaneça como patrimônio de pequenos grupos de intelectuais [33]Assim não basta fazer grandes descobertas ou buscar originalidade é preciso socializá-las para que ao tomar contato com essa nova verdade o homem possa incorporá-las e transformá-las a medida de suas peculiaridades individuais e coletivas. CONSIDERAÇÕES FINAIS É interessante ressaltar que no pensamento gramsciano os aspectos teóricos não são trabalhados isoladamente, mas articulados de forma intrínseca, numa relação de mútua determinação, sendo impossível estabelecer o determinante e o determinado, são partes de um "todo" orgânico. Ao discutir o processo educacional, por exemplo, são utilizados todos os conceitos formulados, seja de cultura, de homem, educação, etc. E em se tratando do homem ele é visto como um conjunto de relações sociais dos mais diversos níveis. O homem conhece objetivamente na medida em que o conhecimento é real para todos os gêneros humano, historicamente unificado em um sistema educacional unitário, mas este processo de unificação histórica ocorre com o desaparecimento , contradições internas de que dilaceram a sociedade humana, contradições que são condições da formação dos grupos e do nascimento da ideologia não universal-concretas, mas que envelhecem imediatamente, graças à origem de prática da sua substância. Trata-se, portanto, de uma luta pela objetividade(para liberta-se da ideologia parciais e falazes) e está luta é própria pela luta unificação cultural do gênero humano, o que os idealistas chamam de 'espírito' não é um ponto de prática, mas na chegada: o conjunto das superestruturas em devenis para a unificação concreta e objetivamente universal, e não mais um pressuposto unitário, etc.(..) conhecemos a realidade apenas em relação ao homem, e como o homem é um devenir histórico, também o conhecimento e a realidade são um devenir, também a realidade é um devenir, etc . Com isso, as críticas de Gramsci continuam bastante atuais na medida em que levamos em consideração a formação humana e a educação instrumental/interessada, bem como os conceitos de escola desinteressada/interessada no processo de construção educacional do homem. Isso porque, quando Gramsci trabalha com o conceito de escola interessada/desinteressada é exatamente para apontar o tipo de educação que está sendo aplicado para os filhos da classe trabalhadora, pois interessada é aquela educação que tem a imediata preocupação com a formação do trabalhador e não a possibilidade de uma formação ampla, omnilateral sem vínculo imediato com o mercado de trabalho. Bibliografia Consultada GRAMSCI, Antônio. Os intelectuais e a Organização da Cultura. 7a Ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1989. ________________. Concepção Dialética da História. 2a Ed. Rio de janeiro, Civilização Brasileira, 1978. ________________. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. 7a Ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1989. MANACORDA, Mário. A. O Princípio Educativo em Gramsci. Porto Alegre, Artes Medicas, 1990. MARX, K. e ENGELS, F. A Ideologia Alemã. São Paulo, ed. Hucitec, 1993. MOCHCOVITCH, Luna. G. Gramsci e a Escola. São Paulo, ed. Ática, 1988. NOSELLA, Paolo. A Escola de Gramsci. Porto Alegre, Artes Medicas Sul, 1992. UFF. MESTRADO EM EDUCAÇÃO. TEXTOS PARA DISCUSSÃO. Pensando (com) Gramsci. Niterói, UFF, 1995. SOUZA, José. S. A Escola Unitária de Gramsci. Rio de Janeiro, Mimeo.1995. Notas [1] Dileno Dustan Lucas de Souza é Professor da Universidade Federal de Viçosa e Doutorando da FACED/UFRGS.[2] Gramsci, A. Concepção dialética da história. ed. Civilização brasileira, edição 2º, 1978, p. 5.[3] Marx, K. e Engels, F. A ideologia alemã. ed. Hucitec, edição 9º, 1993, p.37.[4] Gramsci, A. Op. Cit. p. 11. [5] Ibdem, p.13. [6] Nosella, P. Op. Cit. p. 63. [7] Ibidem, p.16. [8] A retórica governamental é de que: os jovens alunos que circularão, entre os operários, em contato com uma vida menos artificiosa, menos mole das que levam nas famílias, se transformarão e seguirá assim a geração que se espera para se renovar a vida italiana tornando-a mais realista e saborosa(...) E os professores, para não parecerem anti-práticos, deverão baixar a cabeça. E os pais de família, para não parecerem sabotadores da guerra, deverão permitir que seus filhos deixem de estudar para produzir munição, sem que porém, ao mesmo tempo se especializem no trabalho, sem que se exagerem tornar-se operários demais, porque afinal terão que se tornar alguém pela escola e não pela oficina. A costumeira retórica esta construindo a malha de prejuízos e oportunismos na qual será sufocada a escola e com ela uma quantidade de jovens.(NOSELLA, 1992: P. 16/17)[9] Gramsci, A. Op. Cit. p. 29. [10] Nesse momento na Itália a câmara municipal de Turim discutia a formação curricular do instituto profissional operário, quando um vereador liberal defendeu que naquela escola fosse se ministrasse um ensino profissional útil e acessível aos operários, defendia o ensino da prática profissional e não filosófico como queriam os socialistas(Nosella, P. p.19)[11] Ibidem, p. 19. [12] Gramsci, A. Os intelectuais e a organização da cultura. ed. Civilização brasileira, edição 7º, 1989, p. 130.[13] Ibdem, p. 131.[14] Nosella, P. Op. Cit. p. 121. [15] Gramsci, A. Op. Cit. p. 131-132. [16] Nesse sentido, Gramsci toma como exemplo de formação Leonardo Da Vinci, que é apresentado como um símbolo da unidade entre tecnologia e cultura humanística, entre rigor científico e dimensão estética, entre disciplina produtiva e liberdade.(Nosella, 1992: p. 94)[17] Ibidem, p. 90. [18] Gramsci, A. Op. Cit. p. 39-40. [19] Nosella, P. Op. Cit. p. 38. [20] Gramsci caracteriza como senso comum a síntese mecânica de como pensam as moléculas sociais, isto é, é o pensar difuso do ambiente social. Ibdem, p. 79.[21] Ibdem, p. 73. [22] Gramsci, A. Op. Cit. p. 124. [23] Em relação ao homem Gramsci faz o seguinte alerta após a derrota dos operários da FIAT, no seu artigo intitulado homens de carne e osso: "os operários da FIAT são homens de carne e osso, resistiram por um mês, completamente ilhados da nação(...) não há vergonha nessa derrota(...) não abusem demais da resistência e da virtude de sacrifício do proletariado; trata-se de homens, de homens reais, submetidos às mesmas fraquezas de todos os homens comuns que passam pelas ruas, que bebem nos bares, que conversam em grupinhos nas praças, que se cansam, que tem fome e sentem frio, que se comovem quando ouvem o choro de suas crianças e o lamento de suas mulheres. Nosso otimismo revolucionário foi sempre substanciado por essa visão cruelmente pessimista quanto a realidade humana. Precisamos inexoravelmente mudar essa visão. (Gramsci, apud Nosella, 1992: p. 51.) O operário que voltou a trabalhar porque não agüentou de fome, não deixou de ser revolucionário. (Ibdem, p. 52.)[24] Gramsci, A. Op. Cit. p. 137.[25] Ibdem, p. 132.[26] Ibdem, p. 137. [27] Ibdem, p. 122. [28] Ibdem, p. 122. [29] Gramsci, A. Op. Cit. p. 47/48. [30] Ibdem, p. 53. [31] Ibdem, p. 43. [32] Ibdem, p. 43. [33] Gramsci, A. Op. Cit. p. 13-14. [34] Ibidem, p. 170. [Sexta-feira, Julho 02, 2004] [Su] [link] [ | ] |
argumento índice links associados
|
| ? |