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[Parecer de Dissertação de Mestrado]



UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL


FACULDADE DE EDUCAÇÃO – FACED


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO — PPGEDU


 


PARECER

Referente à Dissertação:


"Deusas em Preto e Branco, uma experiência de Educação Popular", de

Sandra Beatriz Morais da Silveira

orientada pela Professora Doutora Marlene Ribeiro

Redigir a posteriori um parecer que já foi falado parece ser mais fácil. No entanto, ao descobrir que a gravação na fita magnética estará substituída pela gravação na nossa memória, me fez repensar este fazer. Assim, é necessário dizer que a dissertação de Sandra, lida por mim, em tempos diversos entre a entrega do texto e comentada com amigas desde o projeto até a execução do estudo, se materializa neste parecer redigido após a realização da Defesa Pública da Dissertação, no
dia 2 de junho e no prazer de ter reencontrado as pessoas que integram este grupo. A própria Sandra, a Marlene, a Daisy, a Sinara, e o único homem na Banca, o sempre Mestre Balduino, o Baldô! Três partes compõe o corpo deste parecer e expressam o refletido, o sentido e o que foi lido e apresenta ao final a minha decisão como examinadora.

A vida se encarregou de hoje, 7 de junho, oportunizar-me o encontro com a Vera Rosane. E o que tem isto com o parecer sobre a dissertação da Sandra? Ambas mulheres, minhas ex-alunas, militantes da vida, envolvidas com educação popular, ambas negras. Tento, mas antecipo que não sei se serei capaz de descrever o acontecido. Na sala 700-08 da FACED, hoje pela manhã, cumprindo o horário previsto para orientação, entra eufórica a Vera Rosane. Traz na mão o livro que acaba de ganhar. Diz: "Olha o presente que eu ganhei!" O livro se chama Racismos Contemporâneos, publicado no Rio de Janeiro, pela Takano Editora, em 2003.
Olho a capa de bela estética, e peço-lhe para pegar o livro. Curiosa, informo que vou ler a dedicatória do Prof. Dr. Luiz Fernando Coelho de Souza. Enquanto os meus olhos correm pelas palavras,  ela me fala de sua admiração por este professor com quem trabalhou na Pró-Reitoria de Extensão desta Universidade. Concordo com ela. Um homem que tem a sensibilidade para escolher este livro e presenteá-lo lembrando da pessoa. (Puro preconceito meu de que os homens não tem esta sensibilidade.) Folheio o livro e ao fazê-lo me reencontro. Encontro o texto de Ricardo Henriques, "Silêncio – o canto da desigualdade racial", quando diz que " O silêncio oculta o racismo brasileiro. Silêncio institucional e silêncio individual. Silêncio público e privado. Silêncio a que nos habituamos, convencidos, por vezes, da pretensa cordialidade nacional ou do elegante mito da 'democracia racial'."


Aqui, retomo a fala do dia da defesa de Sandra dos silenciamentos que o seu texto apresenta. São dois os silenciamentos. Um é o que diz respeito à metodologia efetivamente utilizada por ela, e o outro, à construção do conhecimento feito na e com a experiência da autora que com sua qualificação vivenciou o processo na THEMIS e ao mesmo tempo, como diz Henriques, vive o "desafio de uma moderna agenda de políticas públicas no Brasil (que) solicita uma ruptura com o insano silêncio estabelecido diante dos múltiplos aspectos históricos, éticos políticos e socio-econômicos da desigualdade racial", mas também como prioridade para a construção de um país, livre, economicamente eficiente e socialmente justo. Sandra e Vera Rosane me ensinando a ser mulher branca na diferença e no não silenciamento da vida. Aprendendo a não ser tolerante!

Na DISCRIMINAÇÃO de brancas e negras, inter e intra - culturas, se enfrenta com mulheres políticas com mulheres públicas, entre a honra e a desonra que se torna violência, ou não, acolhimento ou não!

Homem no meio ambiente é como criança no útero. É uma relação de dependência. E neste lugar estão tão poucos! Conhecer é colocar em prática. É cuidar do lixo. É saber das implicações do lixo. É cuidar do outro. Como diz a Sandra: É CONSCIENTIZAÇÃO. É sentimento de pertença! Aquele que nos faz querer sulear para não nortear, tal como disse Paulo Freire.


No escuro e no claro, buscando na memória musical "como nossos pais", mulheres se entortam nas cadeiras, criança cala, escuta, obedece e é julgada, não pode se comunicar; Ou, pode ser CRIATIVA, aprende a pensar, adora o seu fazer. Como diz a música: "Por isso cuidado meu bem, entre o convívio com a morte e a sua naturalização, a violência e o afeto. Como ser um lugar agradável?

Perguntar da ESPERANÇA, do eu ainda sonho que a escola vai falar das coisas de mim que não quebre os sentimentos, que se abra para a inquietude. "A memória é o quadro que dói mais", nas velas, nas janelas, nas luzes, modernidade e não, projetos ou sonhos, de MULHERES deste lugar, que na cultura e na religião são identitárias.

Dos trabalhos que fazemos juntas aprendemos que o desemprego se faz no capitalismo, que no cotidiano as pessoas sobrevivem e tem sucesso, tem renda tanto a que sustenta como a que embeleza, mas que tem como objetivo mostrar à sociedade que mulher pobre é capaz de PENSAR, que as histórias das descobertas, no trabalho que não é emprego, são memórias e trabalhos feitos com os fios do tecido de nossos sonhos.

Há coisas que não se consegue escrever/ descrever. Ficam no REGISTRO de nossa memória, de nosso sentimento, de nossos afetos.

Brancas, Corinas, Filomenas, Clotildes e Anastácias contam histórias de vozes esquecidas, de leis orgânicas, de renúncias à família e a vida pessoal, e do respeito por quem tem uma FORMAÇÃO, do parar de dar aos outros uma identidade, mas dar a nós mesmas, pois a história da outra é a minha história, é a nossa história.

Dá raiva. Ouvir: para que ensinar/estudar relações de raça, gênero, classe se não vamos sair daqui? "A beleza de ser um eterno aprendiz", na nossa história é que nós iremos EDUCAR seu filho amanhã! Nós iremos nos educar hoje, nós nos educamos hoje, e amanhã, e ontem, na interação, no filme que vemos, ou não, e no que esperamos para ver.


Morte  da palavra; morte do pensamento; morte das ações. Horizontes no cotidiano da VIDA, nas reuniões à noite, escondidas, nas perseguições... Na cultura, na Música, no teatro, na felicidade das ausências, na Memória da vida!

Aprender no trabalho, nas necessidades da vida, na industrialização, na escola profissionalizante, na teoria internacional, na prática os porões.

Mulher no "lugar da mulher", nas rotinas: o lar,

a mão de obra barata para a fábrica, ontem tal como hoje.

IMAGENS - Formar os Trabalhadores órfãos, a "referência

nacional", a exclusão da maior parte dos trabalhadores.

Pesquisa: organização do material, clareza dos passos do trabalho,

trajetória de investigação; Mostra com FORMA e CONTEÚDO.

Do ensino da adequação para o ensino do caminhar junto.


VIOLÊNCIA: física, explícita – brutal, sutil – não visível, das mortes do sonho ao corpo. Violência que gera violência, na escola e da escola, que exclui, que deixa apanhar. Que acolhe as vítimas da escola e os Programas de combate à violência. Solidificar os DIREITOS HUMANOS. Fortalecer espaços de democracia, de participação.


Recriando uma "ZONA MAIS SENSÍVEL" entre vítima e agressor capaz de desmistificar a origem de classe da violência que não é a agressividade - é preconceito, é discriminação, é ideologia. Na relação de poder em que, ter, pode impedir de ver a violência social e racial exacerbada no neoliberalismo.

Mulher - sexo frágil – responsabiliza mulher pelos males sociais; implica: lutar contra a discriminação masculina e educar mulheres. Tarefa para DEUSAS GREGAS, como Themis, desde elevar a auto-estima até apoiar nas situações de violência, estudar, debater, escrever, divulgar, denunciar, publicar e outros agires! Num envolvimento que se enfrenta com o alheiamento! Deusas africanas, como Iansã!


Afinal, sem ser chocolates, temos MMM's. Mulheres Maravilhosas em Movimento desculpem o tamanho dos egos, ou do meu). Produzimos filmes para nossa memória. Fazemos músicas. Cantamos, choramos, rimos, brincamos, trabalhamos, refletimos, interpretamos (não o papel do ator, a obra do autor e a singeleza da vida, do alienado, do acorrentado, do absorto - egoísta, do robô ou do iludido).


No espelho da alma, como diziam os gregos, no pensar que é a esteira dos outros da leitura, como diz Chauí, é dar atenção ao seu coração, porque a MÍDIA não MOSTRA o que a gente faz!

Porque não dá tempo. Porque O PRONOGRAMA MUDA. Porque a vida muda. Porque nos esquecemos, até de nós! Porque temos trabalhos, apresentações, projetos, estudos, colegas.


Sandra examina as teorizações sobre os movimentos sociais, destaca a legislação que a sustenta, situa a noção da educação em acesso aos Direitos Humanos para todos e oriundos das transformações do mundo educativo, e suas implicações para a formação continuada das PLPs (Promotoras legais Populares), localizada no tempo e no espaço, efetivada numa ONG, a THEMIS, em processo de parcerias e faz emergir o conceito de conhecimento a luz de um paradigma afrocentrista. Utilizando de uma metodologia de pesquisa baseada num estudo de caso, enquanto representação singular da realidade, Sandra realiza questionário estruturado, no intuito de responder às questões de pesquisa. Mais do que isto, acompanha a vida que ficou silenciada. Mas que grita, que esteticamente canta.


O desenvolvimento apresenta uma séria discussão com os autores nacionais e internacionais que estudam esta temática. Os conceitos vão sendo trazidos ao longo do texto e articulando-se para constituir o problema de pesquisa que está colocado ao longo do texto. O curto tempo da redação da Dissertação mostra a capacidade da pesquisadora de alcançar objetivos, antes dispersos e, agora, recolocados num novo patamar, no qual a "autoria" está presente.

A fim de contribuir para novas reflexões acerca da investigação, e da vida que dá origem ao texto sugiro que Sandra, continue os seus estudos, em nível de doutorado, na dimensão social implicada na temática educativa, na sua busca. Sugiro ainda que seja realizada uma revisão das referências bibliográficas.

Frente à análise do texto e de
acordo com as normas do PPGEDU, sou de parecer que a "Deusas em Preto e Branco, uma experiência de Educação Popular", de Sandra Beatriz Morais da Silveira, orientada pela Professora Doutora Marlene Ribeiro, preenche os requisitos necessários para sua aprovação e merece Conceito A.


PORTO ALEGRE, 7 de junho de 2004.


Carmen Lucia Bezerra Machado



[Segunda-feira, Julho 05, 2004] [Su] [link] [ | ]

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