?

#
[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - III parte]


Suzana de Souza Gutierrez
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação


O ócio criativo e o tempo livre

O desenvolvimento da tecnologia não está servindo para multiplicar o tempo do ócio e os espaços de liberdade, mas está multiplicando a falta de emprego e semeando o medo. É universal o pânico ante a possibilidade de receber a carta que lamenta comunicar-lhe que estamos obrigados a prescindir de seus serviços em razão da nova política de gastos, ou devido à inadiável reestruturação da empresa, ou apenas porque sim, já que nenhum eufemismo abranda o fuzilamento. Qualquer um pode cair, a qualquer hora e em qualquer lugar. Qualquer um pode se transformar, de um dia para o outro, num velho de quarenta anos (GALEANO, 2001, p. 170)



Para De Masi (2000, p. 234) a sociedade tende para o aumento do tempo livre e para a execução de atividades intelectuais e criativas.

O ócio criativo é aquela trabalheira mental que acontece até quando estamos fisicamente parados, ou mesmo quando dormimos à noite. Ociar não significa não pensar. Significa não pensar regras obrigatórias, não ser assediado pelo cronômetro, não obedecer aos percursos da racionalidade e todas aquelas coisas que Ford e Taylor tinham inventado para bitolar o trabalho executivo e torná-lo eficiente.
Segundo o autor estamos numa época que corresponde a uma transição que inclui a passagem de atividades físicas para atividades intelectuais, a passagem de atividades intelectuais repetitivas para atividades intelectuais criativas, a passagem do trabalho labuta para o ócio criativo. Um ócio criativo que aproxima o trabalho, o estudo e o jogo e que é característico da sociedade pós-industrial.

De Masi (2000) aponta a superação do trabalho repetitivo da linha de montagem fordista, agora quase que inteiramente delegado às máquinas. Celebra a libertação do tédio que estas atividades automáticas, onde o cérebro tinha participação quase nula, causavam aos trabalhadores. Ressalva, porém, que os postos de trabalho que são abolidos pelo progresso tecnológico não vão ser compensados pela criação de outros postos de trabalho. E que devemos buscar alternativas para sobreviver em uma sociedade sem empregos, embora com riqueza que daria para todos. Critica a visão de alguns políticos que falam da criação de empregos via investimentos, que ele acredita ser uma esperança irreal, dado que as empresas vêm diminuindo os investimentos, mesmo recebendo incentivos e outros privilégios. O mercado financeiro é o destino dos investimentos.

No final da década de 60, Marcuse (1982) já sinaliza que nas novas formas de produção o aparato técnico se torna o próprio processo de produção dispensando a ação humana e rompendo os laços que prendem o trabalhador à máquina.

A automatização completa na esfera da necessidade abriria a dimensão do tempo livre como aquela em que a existência privada e social do homem constituiria ela própria. Isso seria a transcendência histórica rumo a uma nova civilização. (MARCUSE, 1982, p. 53)
Acrescenta que esta tendência esbarra na oposição dos movimentos dos trabalhadores que reagem à automatização capitalista que os deixa sem emprego e sem meios de sobrevivência. Marcuse escreve em época anterior a derrocada do socialismo real soviético, numa época em que a Guerra Fria trazia um certo equilíbrio, nem que fosse baseado na competição leste-oeste. Hoje, a alternativa capitalista hegemônica destrói uma a uma as conquistas dos trabalhadores duramente extraídas do Estado de Bem Estar Social e o desenvolvimento não se traduz em tempo livre, mas sim em desemprego.

De Masi (2000) credita à indústria uma supervalorização do trabalho que fez com que este assumisse um status de dominância na vida humana em detrimento da família, da comunidade, do lazer e de outros valores. Em parte concordo, mas acrescentaria que esta cultura foi criada pelo modo de produção capitalista a partir da dominação pela fome e a necessidade do início da revolução industrial. Uma cultura que ainda predomina nos dias de hoje com estes e outros condicionantes e, aí concordando com De Masi, perpassa as camadas sociais as quais se destina e influencia outras camadas que não teriam esta necessidade.

Da intersecção entre estudo, trabalho e jogo , o autor aponta como sendo a mais perfeita e adequada a posição onde estes três itens se sobrepõem.
Os valores emergentes na nova sociedade incluem a globalização como contexto.

São globalizados os meios de comunicação de massa, a ciência, o dinheiro, a cultura. [...] A vida inteira é globalizada: o mundo inteiro escuta as mesmas canções, assiste aos mesmos filmes e tende aos mesmos consumos. A cadeia McDonald's vende 15 milhões de hambúrgueres por dia, todos iguais, nas suas 16 mil lanchonetes espalhadas por oitenta e três países. (DE MASI, 2000, p. 141)
Uma globalização que homogeneiza a cultura global. De Masi concorda com este fato, mas não se alonga nos possíveis danos que isso causa a culturas diversas. Limita-se a apontar as tendências e a propor formas de 'adequação' aos novos rumos.

A economia global é guiada pelas multinacionais. Elas dispõem de sistemas informativos e de lobby muito poderosos, com os quais conseguem ocultar melhor sua política. E, além disso, a trama dos negócios que fazem é tão emaranhada, que muito pouca gente é capaz de descobrir o fio da meada. (DE MASI, 2000, p. 143)
Coloca a globalização como a forma contemporânea do impulso humano para explorar e colonizar.
Quanto às características emergentes nesta nova sociedade, o autor cita a intelectualização, o tempo livre, a emotividade em vez da razão, a desestruturação tempo-espaço e a qualidade de vida. Vê uma tendência de decréscimo do consumismo e da competitividade e uma progressiva delegação das tarefas de 'baixo nível' para imigrantes ou para o terceiro mundo.

Em meu entender o ócio criativo de De Masi, embora ele fale numa redistribuição de renda via redução da jornada de trabalho, destina-se apenas a muito poucos trabalhadores do primeiro mundo. Em primeiro lugar, porque parte de uma concessão das empresas que não altera as relações entre capital e trabalho. Em segundo lugar, toda a análise de De Masi sobre a produção e os serviços levam a crer, embora isso não seja dito, que as empresas necessitam ampliar os mercados para os novos produtos 'imateriais'.

Ora, o consumo de serviços e produtos culturais depende, além da renda, do tempo livre, na seguinte lógica: não há quase nada material a produzir que não possa ser facilmente produzido quase que sem interferência de trabalho humano. Por outro lado, esgotam-se as possibilidades de 'suscitar novas necessidades' e criar mercados para produtos de curta duração. O sucateamento rápido e outras medidas que intensificam o consumo e fazem funcionar a máquina capitalista podem não estar sendo suficientes para dar conta da necessidade de aumento contínuo da produção.

Os serviços liberaram tempo para a produção. Agora é a hora da produção liberar tempo para que as pessoas possam consumir os produtos 'temporais' e fazer girar a roda do mercado. Penso que é neste sentido que De Masi propõe mudanças no funcionamento da produção. Não no sentido de subverter o sistema, mas no sentido de manter o sistema funcionando.

Mas de nada adianta: burgueses que se empanturram, domésticos mais numerosos que a classe produtiva, nações estrangeiras e bárbaras abarrotadas de mercadorias européias. Nada disso faz escoar as montanhas de produtos que se acumulam, maiores que as pirâmides do Egito: a produtividade dos operários europeus desafia qualquer consumo ou desperdício. Os industriais, aflitos, não sabem mais a quem apelar, não conseguem mais encontrar matérias-primas para satisfazer a paixão desordenada e depravada de seus operários pelo trabalho. (LAFARGUE, 2000, p. 167)
Lafargue aponta de forma irônica e certeira a lógica que move o capital, que no século XIX dominava e explorava pela fome e pela miséria e que hoje domina e explora pela cultura e pela ideologia.
Nesta perspectiva, o ócio criativo surge como um mercado em expansão ou um trabalho sublimado e incorporado, digno de mais uma revolução do capitalismo na busca de sua preservação.


À guisa de conclusão ou para quem fala De Masi

O ócio criativo me parece escrito no típico formato dos livros de auto-ajuda. Quase científico, utilizando referências de autores consagrados e de linhas teóricas diversas, nem sempre de uma forma que evidencie com correção o contexto das obras. Os textos apoiam-se em conceitos já presentes na literatura, mas com referências opacas e não identificadas.

No caso de uma leitura crítica como a proposta por um trabalho acadêmico tem a virtude de trazer à discussão as obras de Lafargue, de Russell e de Marx, para os que aprofundarem os temas. Desconheço as outras obras de De Masi, então fica difícil avaliar se esta obra segue um padrão ou se o formato atende uma estratégia elaborada com uma determinada finalidade.

De certa forma julguei difícil não jogar o livro pela janela uma dúzia de vezes e destilar veneno puro no meu texto. Na realidade, o que mais me incomodou foi ter que concordar com o autor sobre certos fatos ou tendências. Não que eu concorde com a sua análise ou prognóstico, mas quanto ao fato em si não há como discordar. Por exemplo, o nosso progressivo status de 'audiência'; a nossa posição de consumidores de conhecimentos; a nossa impotência diante da dominação que se vê gravada no coração das pessoas. Uma dominação mais eficiente que a fome.

O incremento da produção, das ciências, das técnicas revela necessidades e capacidades desconhecidas, faz refletir um espectro suntuoso de gostos, de criações, de diferenças; mas a reificação e a alienação fazem da humanidade uma plebe perplexa diante do espetáculo de seus próprios fetiches. A produtividade aumentada do trabalho libera tempo para a criatividade individual e coletiva, propícia a novas formas de convívio e lucidez; mas a medida 'miserável' de qualquer riqueza e de qualquer troca pelo tempo de trabalho abstrato transforma a incrível liberação potencial em desemprego, em exclusões, em miséria física e moral. (BENSAÏD, 1999, p. 99)
Qual a saída? Bensaïd (1999) aponta a saída de Marx que envolve uma redefinição dos critérios do progresso, a consideração de critérios que priorizem o enriquecimento do indivíduo e da espécie, que suprimam o trabalho alienado e que valorizem as relações entre as pessoas.
De Masi não aponta saídas, apenas descarta alternativas, entre outras: o socialismo porque não sabe produzir, o capitalismo por não ser capaz de distribuir o que produz. Acena de leve com o 'modelo grego', o que por si só já é preocupante. A sua proposta de redução da jornada de trabalho é mais técnica que política, não altera o funcionamento do sistema produtivo na sua essência e não vem acompanhada de uma teoria consistente que lhe dê sustentação.
Basta analisar a maioria dos textos de De Masi, citados anteriormente para ter claro que seu discurso e análise correspondem às sociedades 'avançadas'. A elas se destina o ócio criativo. Uma possibilidade que De Masi visa ampliar para mais trabalhadores pela redução da jornada de trabalho, ficando a produção e os serviços de nível mais baixo para os pobres e o terceiro mundo.

E, no meu entender, De Masi fala para as empresas. A quase totalidade de seus exemplos inclui as empresas e as suas necessidades, chegando a considerar a dinâmica da sociedade pós-industrial como uma guerra entre empresas (DE MASI, 2000, p. 129). Alerta para o estrangulamento dos mercados de consumo, alerta para o 'tempo livre' como tempo para consumir que a empresa paga para receber de volta. Uma mensagem que vem vestida como proposta revolucionária e, para isso, De Masi chega a aproximar Lafargue de Taylor.

De Masi fala o que todos querem ouvir, fala de uma sociedade ideal onde jogo, trabalho e estudo se misturam. Usa as palavras de ordem dos discursos atuais como solidariedade, hospitalidade, qualidade de vida. E acena com a esperança que a riqueza e o desenvolvimento por 'transbordamento' possam acabar atingindo até as regiões mais pobres. Uma cantiga sedutora como as que eram ensinadas às crianças no século XIX, para que enfrentassem uma jornada de 12h de trabalho nas fábricas.

Referências

RIO + 10 [homepage] Boletim da África São Paulo: Carta Maior - agência de notícias, 2002. Disponível em < http://agenciacartamaior.uol.com.br/riomaisdez/> Acesso em setembro de 2002.

BENSAÏD, Daniel. Marx, o intempestivo : grandezas e misérias de uma aventura crítica (séculos XIX e XX). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. 512p.

DE MASI, Domenico. O Ócio Criativo. 4ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. 336p.

GALEANO, Eduardo. De pernas para o ar: a escola do mundo ao avesso. Porto Alegre: L&PM, 2001, 386p.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. Vol ,I. Introdução ao estudo da filosofia. A filosofia de Benedetto Croce.

HARVEY, David. Condição Pós Moderna. 10ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001.349p.

LAFARGUE, Paul. O Direito ao Ócio In: DE MASI, Domenico (org.) A Economia do Ócio. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. 183p.

MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. 238p.

MARX, Karl ; ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista In: Clássicos do Marxismo Campinas, SP: Articulação de Esquerda, 2002. Disponível em http://www.pagina13.com.br/manifestopartidocomunista.htm .Acesso setembro de 2002. (a)

MARX, Karl ; ENGELS, Friedrich. O Capital Brasília, DF: Instituto De Estudos Políticos, Econômicos e Sociais Maurício Grabois, 2002. Disponível em http://www.vermelho.org.br/img/obras/processo.asp. Acesso setembro de 2002. (b)

MARX, Karl ; ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega, [19--.] 2v. 355p.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social ensaio sobre a origem das línguas ou discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens ou discurso sobre as ciências e as artes. São Paulo: Abril Cultural, 1983. 428 p.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Crítica da Razão Indolente : contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000. 415p.

Índice:
:: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial
:: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial
:: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais
:: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências.


[Domingo, Abril 25, 2004] [Su] [link] [ | ]

#
[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - III parte]


Suzana de Souza Gutierrez
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação


A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho


A tecnologia e a ciência são responsáveis pela maioria das transformações no mundo. Ciência e tecnologias criadas pelo engenho humano com vistas a aspirações humanas. Na sua maioria, as invenções e descobertas foram feitas para atender desejos e necessidades de homens e mulheres e, depois de criadas e difundidas, geraram mudanças em todos os espaços da sociedade. Assim como a invenção da máquina a vapor e a descoberta do uso da eletricidade deram base e desenvolveram a indústria moderna, resultando na produção e no consumo de massa, alterando modos de vida e de trabalho e erigindo uma cultura própria, a informática e a digitalização vêm transformando a sociedade de hoje. Em várias partes do seu texto, De Masi esclarece este contexto e conclui da importância central da ciência e da tecnologia na constituição da sociedade pós-industrial.
Todavia, o fator mais poderoso que impulsiona o desenvolvimento científico e tecnológico é o impulso para a geração e apropriação da riqueza. Na luta pelos mercados sempre valeu o navio mais rápido, o canhão mais potente, a informação privilegiada. E, nesse sentido, nada mudou.

No entanto a história da humanidade é a história da intervenção humana na natureza para domá-la. Para isso desviamos rios, inventamos o pára-raios, casa e remédios. Há quem veja e tema nessa domesticação a sua dimensão aterrorizante. Outros, no entanto, e eu me encontro entre eles, valorizam a sua dimensão salvadora. Não excluo os perigos do progresso tecnológico, porém dou maior peso aos aspectos positivos. Por exemplo, o fato de o homem ter conseguido duplicar a duração da própria vida me parece uma conquista extraordinária. E como teria realizado tal feito sem o auxílio tecnológico? (DE MASI, 2000, p. 82)
Compreendo que, se não houvesse, em grande parte, por trás do desenvolvimento tecnológico uma busca frenética por lucros cada vez maiores, num esquema de guerra onde a vida e a ética são colocadas em segundo plano, os aspectos positivos da ciência e da tecnologia, seriam em maior número, maior abrangência e direcionados segundo melhores critérios. Teríamos erradicado a maioria das doenças e não inventado a guerra bacteriológica. Teríamos alimentos em abundância sem correr o risco dos transgênicos. Teríamos ócio criativo para todos e não teríamos exploração.
Segundo De Masi (2000), durante um certo tempo o desenvolvimento tecnológico mudou a face do trabalho, criando algumas posições de trabalho ao mesmo tempo em que destruía outras posições, mantendo assim um certo equilíbrio. Atualmente, o desenvolvimento é tão veloz e abrangente que não há como repor os cargos abolidos.
Indissociável do desenvolvimento científico e tecnológico está a visão de mundo que lhe dá sustentação e direção. A técnica, a máquina em si, pode ser neutra, mas não o é a filosofia que a produziu e, muito menos, a ideologia que guiará o seu uso.

'Progresso' não é um termo neutro; encaminha-se para fins específicos, e esses fins são definidos pelas possibilidades de melhorar a condição humana. A sociedade industrial desenvolvida se aproxima da fase em que o progresso contínuo exigiria a subversão radical da direção e organização do progresso predominantes. esta fase seria atingida quando a produção material (incluindo os serviços necessários) se tornasse automatizada a ponto de todas as necessidades vitais poderem ser atendidas enquanto o tempo de trabalho necessário fosse reduzido a um tempo marginal. Daí por diante, o progresso o progresso técnico transcenderia ao reino da necessidade no qual servira de instrumento de dominação e exploração, que desse modo limitava sua racionalidade; a tecnologia ficaria sujeita à livre atuação das faculdades na luta pela pacificação da natureza e da sociedade. Tal estado é visualizado na noção de 'abolição do trabalho' de Marx. (MARCUSE, 1982 , p. 35)
Podemos assim intuir, em toda a sua lógica, a contradição que faz com que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia aprisione e exclua em vez de emancipar e incluir. A irracionalidade de não se perceber que as estruturas e os sistemas que permitiram o desenvolvimento dos meios de abolir o sofrimento e a necessidade não servem para a consumação e superação desta fase histórica.
De Masi (2000, p. 92) fala sobre o desenvolvimento do capitalismo hoje e suas repercussões no Estado e no trabalho:

Os capitalistas aperfeiçoaram no mundo todo uma estratégia precisa, guiados por Reagan nos EUA, e por Thatcher, na Grã-Bretanha. Com um grande uso da mídia, elaboraram uma campanha para atacar tudo o que é público: burocracia, empresas estatais, transportes, previdência social e ensino. Obtiveram assim a privatização dos setores mais lucrativos da economia e conquistaram a baixo preço as ações das sociedades privatizadas: companhias de transporte ferroviário, eletricidade, telecomunicações, tudo aquilo de maior valor dos patrimônios estatais.
Além disso, deram jeito de receber de volta do Estado todo o seu investimento, na forma de incentivos e isenções. A seguir, desmantelaram as empresas fazendo fusões, reduzindo os investimentos e demitindo empregados para baixar os custos, acumulando imensas quantias nestas operações. De Masi completa dizendo que o capital acumulado foi investido, porém de forma particular no mercado financeiro.
Com base em estatísticas que comprovam o aumento de riqueza planetária e a sua cada vez maior concentração é que De Masi propõe, como forma de redistribuição de trabalho e renda, a diminuição drástica da jornada de trabalho. Ele não explicita claramente se a idéia inclui a não redução dos salários, mas, sem isso, não haveria como redistribuir riqueza.
Por outro lado, De Masi acredita que, conforme está atualmente, a maioria do trabalho poderia ser executada em 5 ou 6h em vez de 8, sem nenhum tipo de alteração de custos, de produção, de rendimento e lucro, aliás, poderia até haver um aumento na produção, consumo e lucros.
Porém, quando um empresário constata que o trabalho na empresa pode ser feito com, digamos uma jornada de trabalho 20% menor, a decisão costumeira é demitir o número de trabalhadores correspondentes a esta percentagem, mantendo o tempo da jornada de trabalho igual e aumentando os lucros. A diminuição do trabalho humano requerido nos processos, pela otimização da organização do trabalho ou pelo desenvolvimento tecnológico, gera desemprego em vez de tempo livre.
De Masi (2000) credita este fato ao conservadorismo das empresas e dos próprios trabalhadores. As empresas resistindo aos fatos ou usando inovações apenas em proveito próprio e os trabalhadores ficando no trabalho mais tempo que o necessário, até para deixar patente a sua utilidade. Barreiras culturais e de concepção de vida e mundo difíceis de romper.

As empresas seriam mais criativas, mais produtivas e reduziriam as despesas. Os trabalhadores teriam mais tempo disponível para a vida pessoal, revitalizariam seus relacionamentos com a família, com o bairro, com a cultura, alimentariam a própria criatividade. (DE MASI, 2000, p. 177)
Para De Masi (2000) um fenômeno recente e ainda incipiente da sociedade industrial é o teletrabalho. Fruto do desenvolvimento da informática e das telecomunicações, uma tendência que, segundo o autor, vem recuperar o que a indústria e o artesanato tinham de melhor. Do artesanato, a produção em pequenas unidades produtivas, até domiciliares, a rapidez nas decisões, a pouca burocracia. Da indústria, a interação que pode ser estabelecida entre unidades produzidas por meio da telemática, a experiência e a solidez.

Teletrabalho é um trabalho realizado longe dos escritórios empresariais e dos colegas de trabalho, com comunicação independente com a sede central do trabalho e com outras sedes através de um uso intensivo das tecnologias da comunicação e da informação, mas que não são, necessariamente, sempre de natureza informática. (DE MASI, 2000, p. 214)
Para De Masi (2000) as vantagens do teletrabalho são maiores que as desvantagens. Para a sociedade: menor circulação de automóveis e pessoas, menos poluição, menor desgaste de pavimentos e outras estruturas viárias, aproximação do tempo de trabalho ao tempo de vida, redução do conflito de classes. Para os trabalhadores: trabalhar próximo ao lar e a família, autonomia, redução de custos, melhoria das relações familiares, personalização do ambiente e das relações de trabalho, redução das horas de trabalho. Para o empregador: flexibilidade econômica e organizacional, economia de custos, motivação.
As desvantagens seriam: para a sociedade, o aumento nos custos da infraestrutura de comunicação, alguma perda nos impostos e o aumento da fragmentação social; para os trabalhadores, o isolamento, a exclusão do ambiente da empresa diminuindo chances na carreira, a necessidade de investimento na casa, a dificuldade de lidar com as alterações na rotina familiar, menores possibilidades de participação nas associações coletivas de trabalhadores e sindicalização, maior concorrência no mercado de trabalho; para as empresas, a perda da identidade empresarial, diminuição do controle, alteração na hierarquia, investimento inicial em treinamento.
No relato de De Masi, se nota, em relação ao trabalhador, um maior número de desvantagens do que de vantagens. Em meu entender, o teletrabalho é uma opção válida e nova de trabalho e pode ser muito positiva para algumas situações de empresa, de trabalhadores ou da sociedade. É uma opção que vem a trazer benefícios se for adotada com base em critérios que atendam ao máximo os envolvidos. E ser uma opção flexível, podendo acontecer de forma híbrida, com ocasiões que alternam o teletrabalho com o trabalho normal na empresa, segundo uma escala de grupos de trabalhadores ou de épocas de trabalho. Em locais de inverno rigoroso e acúmulo de neve, por exemplo, o teletrabalho seria realizado nesta época. Em algumas empresas, seria opção do funcionário de acordo com necessidades pessoais passageiras ou contínuas. Enfim, uma alternativa a ser contextualizada para cada situação.
Em relação à comunicação e a capacidade de associação entre as pessoas, creio que a internet e os demais meios de comunicação serão cada vez melhor usados. Atualmente, a maioria dos usuários ainda enfrenta muitos problemas neste tipo de interação, a maior parte ligados ao pouco domínio técnico. Nesse sentido, considero uma falta de visão muito grande negligenciar os poderosos mecanismos que oferecem os meios telemáticos, por enquanto ainda democráticos e acessíveis. Digo acessíveis, não no sentido que todos possam possuí-los, mas no sentido de que muitos podem usá-los. O trabalhador pode não ser dono do seu meio de produção ou da sua ferramenta de trabalho, mas ela lhe permite discutir este assunto com outros trabalhadores e se organizar enquanto classe. Ela lhe permite divulgar suas idéias e ter contato com as idéias de outros trabalhadores, movimentos sociais, partidos políticos, etc.
De Masi (2000, p. 196) tem razão quando diz que é importante tomar posse dos meios virtuais:

O que unirá os portadores dos mesmos interesses, ou dos mesmos rancores, ou das mesmas explorações, daqui por diante, será, de todo modo, de tipo virtual. E neste mundo, ou entramos imediatamente, ou senão entrará o nosso concorrente que ditará a lei que também nós seremos obrigados a cumprir.
Ele fala em concorrência, pois sua atenção se volta para os negócios e as empresas. Eu diria o mesmo, porém considerando a hegemonia no uso dos meios telemáticos, a possibilidade de alteração na sua atual configuração aberta e democrática. Configuração esta que, no meu entender, se deve à falta de visão e previsão sobre as potencialidades e desdobramentos deste meio quando do seu início. Neste caso, um benefício que escapou por acidente de uma maior mercadorização e , nisso, devemos ser gratos. Não que não haja restrições e tentativas de fechamento e monopolização, basta que consideremos a privatização e cartelização das telecomunicações que são a base da transmissão de dados. Todavia, este é ainda um território aberto, e convém que nos conscientizemos da vital importância de mantê-lo sem cercas e fossos.

Afortunadamente, a história também se alimenta de paradoxos. Jamais o Pentágono suspeitou que a Internet, criada para programar o mundo como um grande campo de batalha, viria a ser utilizada na divulgação da palavra dos movimentos pacifistas, tradicionalmente condenados ao quase silêncio. (GALEANO, 2001, p. 300)
Voltando ao teletrabalho, na visão de De Masi (2000, p. 205), passa a ser natural e desejável a integração trabalho-vida:

Reduz-se a fratura entre o tempo de trabalho e o tempo de vida. A indústria pedia que eu fosse para a fábrica trabalhar e, depois, quando soava a sirene e a linha de montagem parava, eu voltava para casa, onde tentava esquecer completamente o trabalho. Hoje, se sou um publicitário, e estou tentando criar um slogan, quando saio do escritório e volto para casa, levo o trabalho comigo: na minha cabeça. A minha cabeça não para de pensar e às vezes acontece que posso achar a solução para o slogan em plena noite, ou debaixo do chuveiro, ou ainda naquele estágio intermediário entre o sono e o despertar.
Esta proposta traz um perigo potencial: o perigo de uma colonização maior da esfera privada e uma abolição progressiva da esfera pública. O lar como prisão, o trabalho como condenação do trabalhador e da família, a destruição final dos laços sociais, pois a mesma tecnologia que pode emancipar, pode prender e vigiar.


A Luta de Classes e os Movimentos Sociais

A observação despreocupada da realidade atual já nos permite visualizar uma fragmentação nas lutas sociais, uma descaracterização dos sindicatos e entidades de classe e até a possibilidade de estranhas alianças entre organizações de trabalhadores e entidades patronais.
De Masi aponta estas mesmas constatações na sua caracterização da sociedade pós-industrial e as atribui a uma nova conformação das classes em decorrência dos novos modos de trabalho e produção. Por outro lado, em vários momentos opta pela negação da luta de classes como reação à exploração e da própria sobrevivência classes na sociedade pós-industrial, enquanto em outros momentos caracteriza os fenômenos utilizando uma análise de classe. Esta postura ambígua e contraditória faz com que sua análise se torne inconsistente, sem credibilidade, deixando em aberto várias lacunas.

Ainda persiste a pergunta: que fim tiveram as classes? O que significa o termo 'classe'? Marx definiu o conceito, junto com a teoria do conflito que dele decorre, numa época em que países como a Inglaterra, mas também os Estados Unidos, a França e a Alemanha, eram caracterizados pela clara dicotomia entre poucos ricos e um número infinito de pobres. (DE MASI, 2000, p. 181)
E ainda:

Atualmente as agregações se dão mais sob forma de movimentos do que de instituições, como partidos ou sindicatos. A cada ocasião decidimos nos aliar a quem nos convém mais. Há tempos, pelo contrário, nos amarrávamos, da cabeça aos pés, permanecendo toda a vida ligados a uma das partes em luta. Que, aliás, era a luta de classes. (DE MASI, 2000, p.180)
Nestas passagens, De Masi se une àqueles que profetizam o fim das classes sociais e propõem o individualismo e o oportunismo como idéia de movimento social. Uma forma de luta que se conforma à forma do sistema. Não que a luta social tenha que assumir sempre uma forma institucional, mas a flutuação entre movimentos variados e circunstanciais dilui o poder dos movimentos como um todo. Além disso, atribui a Marx uma conceituação que ele não fez. Ao longo de sua obra, Marx tratou do tema da luta de classes sem definir as classes, ou melhor, vinculando um possível conceito de classe à sua relação na luta.

A noção de classe, segundo Marx não é redutível nem a um atributo de que seriam portadoras as unidades individuais que a compõem, nem a soma destas unidades. É algo diferente. Uma totalidade relacional e não uma simples soma (BENSAÏD, 1999, p. 147)
De Masi (2000, p. 182) continua, falando sobre a emergência da classe média como negação do dualismo proposto por Marx, pois a classe média não constitui uma classe, já que "não possui a completa coesão característica desta". E diz que este grupo, que cresce progressivamente, se movimenta entre os extremos anulando a divisão entre ricos e pobres.
O autor não considera que uma classe não se distingue apenas pelos seus atributos, mas pode se tornar visível por sinais de sua ação.
De Masi não crê na luta de classes mas a propõe como forma de resistência à exploração dos trabalhadores intelectuais.

O que é que fizeram os operários no início da era industrial? Tomaram consciência da exploração da qual eram vítimas, identificaram os seus opositores, se agregaram, realizaram alianças e lutaram com coragem e sacrifício. O trabalhador intelectual deveria fazer alguma coisa parecida, neste início de era pós-industrial. mas existem muitas dificuldades para que isso aconteça. Os trabalhadores intelectuais não pensam que pertencem a uma classe diferente da classe dos empregadores. (DE MASI, 2000, p. 250)
Nesta passagem, o autor não só reforça a permanência das classes, como aponta as dificuldades para a conscientização dos trabalhadores. Uma pena que ele não avance e reconheça a proletarização do mundo assim como os 'trabalhadores intelectuais' não se apercebem que a sua condição de assalariados os coloca na mesma situação dos operários da fábrica.
Ficam fora da análise, também, a grande massa dos despossuídos de tudo, até mesmo da exploração capitalista, os excluídos do mercado, que cada vez mais aumentam em número.
Por outro lado, o excedente das forças de trabalho faz ressurgir práticas de produção e trabalho supostamente extintas e que são alegremente incorporadas como estratégia de extração da mais-valia pelo capital 'flexível'.

O que talvez seja mais inesperado é o modo como as novas tecnologias e as novas formas coordenantes de organização permitiram o retorno de sistemas de trabalho doméstico, familiar e paternalista, que Marx tendia a supor que sairiam do negócio ou seriam reduzidos a condições de exploração cruel e de esforço desumanizante a ponto de se tornarem intoleráveis sob o capitalismo avançado. O retorno da superexploração em Nova Iorque e Los Angeles, do trabalho em casa e do 'teletransporte', bem como o enorme crescimento das práticas de trabalho do setor informal por todo o mundo capitalista avançado, representa de fato uma visão bem sombria da história supostamente progressista do capitalismo. (HARVEY, 2001, p. 175)
Este é um fator que debilita sobremaneira o poder de ação dos movimentos sociais que tem dificuldade de penetração nas organizações familiares e patronais, para não citar as 'mafiosas'.
De Masi se refere a uma divisão do trabalho entre máquinas e trabalhadores na sociedade pós-industrial e a uma reorganização do processo na forma de rede que une pequenas unidades, mesmo distantes, por meio da tecnologia.

Reduz-se o conflito de classes, que muda de sinal e se transforma de conflito entre instituições em conflito entre movimentos. (DE MASI, 2000, p. 205)
O autor se alinha com Touraine na "dupla dialética de classes":

[...] há uma classe hegemônica dirigente que olha para a frente e pensa no futuro. Há uma classe hegemônica dominante que se preocupa só em conservar os privilégios adquiridos. Do mesmo modo, há uma classe subalterna propositiva capaz de contrapor os próprios planos aos da classe hegemônica. E há uma classe subalterna defensiva, que se limita a proteger os próprios direitos adquiridos, que recusa a priori os planos da classe hegemônica, mas não é capaz de formular planos alternativos. (DE MASI, 2000, p. 134)
Para mim, estas subdivisões ocorrem no interior das classes que se aliam e compartilham uma determinada visão de mundo hegemônica ou não. Da mesma forma como ocorre com o senso comum e a religião, não existe apenas uma filosofia, existem diversas filosofias ou concepções de mundo e estas concepções de mundo correspondem a normas de comportamento. Segundo Gramsci (2001), escolher uma determinada filosofia é um fato complexo que envolve o intelecto e as ações práticas. Nem sempre a concepção de mundo teorizada e verbalizada é a mesma que se manifesta nas ações práticas. E isso não de deve, na maioria das vezes, à má fé. Explica-se pela adesão de grupos subordinados a filosofia de um grupo dominante, em certas épocas. Nesta situação o grupo subalterno acredita e verbaliza ser sua aquela concepção de mundo, ficando evidente a conexão entre filosofia e política.

A compreensão crítica de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de 'hegemonias' políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real. (GRAMSCI, 2001, p. 103)
A consciência política determina a unidade entre teoria e prática, num devir histórico que parte do sentimento de pertença a um grupo distinto até chegar numa concepção de mundo coerente e unitária.
A forma de luta que De Masi (2000, p. 90) propõe aos países pobres é a do seqüestro e a mercadorização da vida.

Na realidade territórios como a África Central ou a Amazônia que detém o patrimônio florestal, isto é, o oxigênio de todo o planeta, deveriam dizer aos outros países: 'Vocês querem oxigênio? Paguem por ele. Por cada árvore que produz oxigênio e que nós preservamos, vocês devem pagar uma determinada quantia'
O que não se consegue nem com tratados poderia ser conseguido com ameaças.

O desmatamento deveria ser usado como um arsenal, do mesmo modo como os países ricos ameaçam com suas bombas atômicas. (DE MASI, 2000, p. 91)
O fracasso da recente Rio +10 nos mostra a magnitude de nosso poder de negociação [7].
De Masi (2000, p. 91) propõe, também, uma espécie de conscientização televisiva onde: "O morador da favela que assiste a uma série americana descobre que existe um mundo feito de luxos bem diferente do dele. Confronta-se com isso e fica com raiva: é o início da tomada de consciência, que não pode brotar se não houver confronto, se o pobre não puder se comparar ao rico."

A esta concepção perversa de conscientização, que não pode ser creditada a ingenuidade ou alienação do autor, mas que trai uma filosofia da superioridade de uns sobre outros, podemos acrescentar a sua despreocupada previsão do futuro dos trabalhadores do terceiro mundo:

Para os pobres, a principal moeda de troca é a 'audiência'. Trata-se de uma tese que tomo de empréstimo de Echevarria. Até o momento, para se comprar patentes e bens de consumo, se pagava com matéria prima, com mão-de-obra, com bases militares, ou com subordinação política. A nova moeda poderá ser a quantidade de horas que passamos diante de um canal de televisão ou navegando na Internet. (DE MASI, 2000, p. 132)

O paradigma da sociedade espetáculo. Uma concepção de vida que já vem sendo ensinada no Brasil pelas novelas e os reality shows - a pedagogia da realidade alheia.

Os meios de comunicação refletem a realidade ou a moldam? O que vem do quê? O ovo ou a galinha? Como metáfora zoológica, não seria a da cobra que morde o rabo? Oferecemos às pessoas o que as pessoas querem, dizem os meios de comunicação, e assim se absolvem, mas tal oferta, que responde à demanda, gera cada vez mais demanda da mesma oferta: faz-se costume, cria a sua própria necessidade, transforma-se em soma. (GALEANO, 2001, p. 302)
De Masi também escreve o que as pessoas querem ler, e nos deixa sem saber se ele pensa ser o ovo ou a galinha...

Notas:
[7] O encerramento da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, na quarta-feira (04/09/02), foi marcado pela frustração. A conferência não avançou, em relação à Rio-92. Não foram definidos prazos, nem metas de implementação de acordos. Na maioria dos temas, a declaração final prevê vago compromisso dos Estados. (fonte: Boletim da agência de notícias Carta Maior, 22/8-04/9/2002, documento online)

Índice:
:: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial
:: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial
:: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais
:: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências.


[Domingo, Abril 25, 2004] [Su] [link] [ | ]

#
[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - II parte]


Suzana de Souza Gutierrez
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação


O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial

A tese central de De Masi (2000, p. 16) é a de que "estamos caminhando em direção à uma sociedade fundada não mais no trabalho, mas no tempo vago". Uma sociedade onde as pessoas trabalharão cada vez menos e, em trabalhando, farão cada vez mais atividades intelectuais e criativas e menos atividades manuais e repetitivas.

A principal característica da atividade criativa é a que ela praticamente não se distingue do jogo e do aprendizado, ficando cada vez mais difícil separar estas três dimensões que antes, em nossa vida, tinham sido separadas de uma maneira clara e artificial. Quando trabalho, estudo e jogo coincidem, estamos diante daquela síntese exaltante que eu chamo de "ócio criativo". (DE MASI, 2000, p. 16)
De Masi (2000) relaciona esta nova configuração das atividades humanas com a passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial. Estabelece, também, uma comparação com a antiguidade grega, onde os homens livres exerciam atividades 'ociosas', ou seja, dedicavam-se à política, à filosofia, ao estudo e aos esportes. O trabalho ficava por conta dos escravos. Hoje não temos mais escravos, mas temos as máquinas e o seu potencial de possibilitar a homens e mulheres exercer o ócio criativo. No meu entender, não fica claro ao longo do livro como isso pode ser concretizado numa sociedade onde as máquinas são propriedade de uns e usadas para substituir o trabalho humano, deixando cada vez mais pessoas com a impossibilidade de prover sua subsistência.

Em várias passagens, De Masi (2000) associa o trabalho à necessidade e à atividades tediosas e cansativas. Trabalho é sinônimo de suor, de trabalho manual e repetitivo, onde o trabalhador 'tradicional' é o operário. Um trabalho onde o indivíduo não cria e recria o mundo e a sociedade e, portanto, um trabalho que destitui a ação humana sobre a realidade objetiva e, assim, desumaniza, pois:

É precisamente na ação sobre o mundo objetivo que o homem se manifesta como verdadeiro ser genérico. Tal produção é sua vida genérica ativa. Através dela, a natureza surge como a sua obra e a sua realidade. Por conseguinte, o objeto do trabalho é a objetivação da vida genérica do homem: ao não se reproduzir apenas intelectualmente, como na consciência, mas ativamente, ele duplica-se de modo real e intui o seu próprio reflexo num mundo por ele criado (MARX, 1993, p. 165)


Na realidade, muitas atividades podem ser realizadas como trabalho ou como lazer, caso sejam movidas ou não pela necessidade de sobrevivência. Uma atividade que é realizada com a finalidade de manutenção da vida ou por coerção pode ser ou não ser agradável e prazeirosa, dependendo da subjetividade do indivíduo, mas é certamente um trabalho. Uma atividade executada como lazer ou como solidariedade é trabalho na medida em que modifica a realidade objetiva do mundo. Neste sentido, entendo que o ócio criativo, na definição de De Masi é trabalho humano. Entendo, também, que a questão central em relação ao trabalho, é a necessidade de vender a força de trabalho. Esta necessidade e todos os seus desdobramentos desfiguram a atuação humana na produção da sua vida e do seu mundo.

De Masi (2000, p. 51) fala do sentido do trabalho na sociedade industrial nos seguintes termos:

Para os católicos, o trabalho é uma sentença condenatória, como reafirmará a Rerum Novarum, em 1891. Para os liberais, é uma disputa mercantil. Para Marx, é a única possibilidade de redenção junto com a revolução, e por isso é um direito a ser conquistado. Somente Taylor, no plano prático, e Lafargue, no plano teórico, consideram o trabalho um mal que deve ser reduzido ao mínimo, ou evitado.
Com relação à Igreja católica, concordo com o autor, porém em relação aos liberais, penso que para eles o trabalho significa um dos itens a serem considerados na economia de mercado. Seu interesse circunscreve-se apenas a otimização da performance do trabalho. Para Marx , o trabalho tem um significado maior na vida humana, que não se limita a ser meio de prover a subsistência. Para Marx, o trabalho é ação objetiva que transforma o mundo, não como possibilidade redentora, como diz De Masi, mas como possibilidade de hominização.

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. Não se trata aqui das formas instintivas, animais, de trabalho. Quando o trabalhador chega ao mercado para vender sua força de trabalho, é imensa a distância histórica que medeia entre sua condição e a do homem primitivo com sua forma ainda instintiva de trabalho. Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. (MARX ; ENGELS, 2002b)
Quando De Masi (2000) fala em proletário, fala em trabalhadores manuais e operários da indústria, não incluindo todos os assalariados. Para Marx, proletário era o trabalhador assalariado:
Entende-se por burguesia a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social, que empregam o trabalho assalariado. Entende-se por proletário a classe dos operários assalariados modernos que, privados dos meios de produção próprios, se vêm obrigados a vender a sua força de trabalho para poderem subsistir. (Nota de Engels para a edição inglesa de 1888). (MARX ; ENGELS, 2002a)
Embora De Masi possa estar correto na sua afirmação de que o número de trabalhadores intelectuais tende a aumentar enquanto diminui o número de trabalhadores manuais e operários, ele incorre em erro quando associa ao pensamento de Marx apenas os trabalhadores manuais e operários da indústria.

Sobre o trabalho na sociedade pós-industrial, De Masi (2000) utiliza a teoria de Zsuzsa Hegedus sobre a distribuição internacional do trabalho. Segundo esta teoria, o ciclo econômico teria quatro fases: a ideação, onde os grandes laboratórios fariam pesquisa; a decisão, onde se determinaria em quais invenções investir; a produção propriamente dita; e o consumo, compreendendo a distribuição e o uso. De Masi (2000, p. 126) salienta a diferença na fase de produção "que era a mais importante na fase industrial e que agora vem sendo, progressivamente, deslocada para o terceiro mundo". E o consumo, segundo o autor, passaria pela colonização do mercado.

De Masi acrescenta, entre cada fase do esquema de Hegedus, o marketing e, após a fase de ideação, uma fase de pesquisa aplicada que visaria desenvolver todas as potencialidades da descoberta. Após a fase de decisão, novamente viria uma fase de pesquisa, desta vez com ênfase no desenvolvimento, onde máquinas, homens e capitais seriam preparados para a produção em série. Isso sem esquecer os aspectos legais do registro de patente. Para De Masi (2000, p. 129) o marketing agiria "dando ritmo a dança", orientando o processo pela pesquisa de mercado, pois hoje as empresas voltam-se para as exigências do mercado.

Eu questiono o quanto um mercado pode necessitar e detalhar um produto, serviço ou descoberta recente e ainda não muito divulgado. Basta abrir os armários de qualquer cozinha de classe média para encontrar alguns exemplos de necessidades criadas. A ação dos meios de comunicação de massa nos faz acreditar mais em mercados criados artificialmente do que em mercados formados a partir de necessidades.
Com a descentralização entre ideação, produção, circulação e consumo, De Masi caracteriza o modelo de acumulação flexível do atual capitalismo. A meu ver, a realidade atual mostra um quadro de relações que deriva ainda do modelo de ciência moderna e das transformações tecnológicas aliadas ao modo de produção capitalista. Neste sentido, assistimos nas últimas décadas o esgotamento do modelo fordista-keynesiano gerando mais uma crise no capitalismo. O período pós-guerra de considerável progresso, correspondente ao Estado de Bem Estar Social, dá lugar ao que Santos (2000) chama de "capitalismo desorganizado", o capitalismo neoliberal. Esta transformação associa-se a virada cultural para o que se nomeia pós-modernismo.
A acumulação flexível foi acompanhada na ponta do consumo, portanto, por uma atenção muito maior às modas fugazes e pela mobilização de todos os artifícios de indução de necessidades e de transformação cultural que isso implica. A estética relativamente estável do modernismo fordista cedeu lugar a todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma estética pós-moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercadificação das formas culturais. (HARVEY, 2001 p.148)
Este sistema privilegia o individualismo nas relações de produção, enfraquecendo a organização dos trabalhadores e tirando o poder de negociação dos sindicatos.
Concordo com De Masi (2000, p.107) quando ele diz que, na sociedade atual, o trabalho repetitivo e pesado será a cada dia mais delegado às máquinas, mas acrescento: se isso for mais eficiente e lucrativo para o capital. Um certo ceticismo se deve ao fato do meu olhar partir de uma sociedade onde o tempo livre significa desemprego e desamparo.
Mesmo nos países centrais, e De Masi (2000, p. 96) cita estatísticas da Itália, cresce a economia e aumenta o desemprego, concentra-se a riqueza e aumenta a pobreza. Aqui localizo uma das várias contradições que permeiam o texto de De Masi. Ao mesmo tempo em que ele coloca que estamos numa sociedade pós-industrial, com progressivamente mais tempo livre, em atividades que tendem cada vez mais para o ócio criativo, conforme:
[...] ele, como eu, pensa que o trabalho de tipo tradicional continuará a diminuir cada vez mais e que, portanto teremos sempre mais tempo livre. (DE MASI, 2000, p. 84)
E, mais adiante:
Não há mais qualquer compatibilidade entre os modelos de trabalho e de vida industrial e pós-industriais. (DE MASI, 2000, p. 228)
Em outros lugares, porém, ele adverte sobre o aumento da jornada de trabalho e a manutenção de formas inadequadas de organização das atividades produtivas:
Em outros tempos, os pobres trabalhavam muito mais do que os ricos. Hoje um executivo ou um empresário trabalha muito mais do que um operário. (DE MASI, 2000, p. 233)
Sem considerar a contradição, De Masi atribui estas assimetrias à miopia dos empresários que não percebem que a diminuição das horas de trabalho trará lucro e à cultura judaico-cristã que contaminou a sociedade com uma idéia de que o destino do homem é trabalhar e que o ócio é companheiro de todos os vícios.
Enquanto o trabalho requeria esforço físico, as pessoas eram obrigadas a trabalhar, porque, se a escolha fosse delas, se absteriam. Uma das coerções era de tipo psicológico: consistia em enfatizar o preconceito de que gozar do ócio fosse um pecado. Quem é ocioso é ladrão, porque rouba o tempo de esforço no trabalho, seja do empregador, seja da sociedade. Quem goza do ócio peca e, até prova em contrário, se entrega aos vícios. (DE MASI, 2000, p. 232)
Em alguns trechos do livro, o autor se refere às encíclicas papais, que durante o final do século XIX e no século XX, pregavam a resignação à pobreza e ao trabalho duro e o direito natural e inquestionável de alguns à propriedade privada da terra e dos meios de produção. Deve-se considerar, todavia, que nesta mesma época coexistiam as idéias Iluministas de abandono da providência divina e de primado da razão humana.
O domínio científico da natureza prometia liberdade da escassez, da necessidade e da arbitrariedade das calamidades naturais. O desenvolvimento de formas racionais de pensamento prometia a libertação das irracionalidades do mito, da religião, da superstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem como do lado sombrio da nossa própria natureza humana. Somente por meio de tal projeto poderiam as qualidades universais, eternas e imutáveis de toda a humanidade ser reveladas. (HARVEY, 2001, p. 23)
Na seqüência de seu texto, Harvey (2001, p. 24) coloca a contradição deste otimismo moderno frente às guerras do século XX e concordo com ele quando ele afirma que havia muitos problemas intrínsecos ao pensamento Iluminista. Entre estes problemas, o fato da não clareza das relações entre meios e fins que, muitas vezes se manifestava em planos que resultavam emancipadores para uns e opressores para outros.

Nessa perspectiva, eu compreendo o papel conservador da Igreja, diferente do papel também conservador da burguesia depois de sua ascensão. A dinâmica opressiva para certa parte da sociedade não mudou. O servo feudal seguiu sendo explorado, sob uma nova forma, sob um novo senhor. Quando intuo que este processo que determina exploradores e explorados continua hoje, apesar da ambigüidade que anula a dicotomia, pois são papéis simultâneos para muitos de nós, me vêm à mente as palavras de Rousseau:
O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: "Defendei-vos de ouvir este impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence à ninguém!" (ROUSSEAU, 1983, p.259)
Marx em uma passagem que, a meu ver, confere sentido a estas contradições, diz:
Além das misérias modernas, oprime-nos toda uma série de misérias herdadas, decorrentes do fato de continuarem vegetando entre nós formas de produção antigas e caducas que acarretam um conjunto de relações sociais e políticas anacrônicas. Não sofremos apenas por causa dos vivos, mas igualmente por causa dos mortos. (MARX, 19.., p. 8)
A esta visão do movimento histórico que entrelaça visões de mundo e modos de vida de forma que elas se interpenetram e se diferenciam ao mesmo tempo em que se contém, correspondem as palavras de Bensaïd (1999, p.45):
A história não conhece sentido único. Nem longitudinalmente, de acordo com a seqüência dos séculos. Nem em corte, quando um pensa a vida do outro enquanto o outro vive o pensamento do primeiro, sem que filosofia e história, economia e política jamais consigam reconciliar-se na harmonia calma da simples "correspondência". Pensado como "atraso", em relação a uma norma temporal imaginária, o anacronismo acaba por impor-se não como anomalia residual, mas como atributo essencial do presente.
Índice:

:: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial
:: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial
:: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais
:: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências.


[Domingo, Abril 04, 2004] [Su] [link] [ | ]

#
[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - I parte]


Suzana de Souza Gutierrez
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação


Resumo


O presente trabalho consiste na análise da obra O Ócio Criativo de Domenico de Masi. Parte de um projeto de grupo onde se pretende investigar o momento atual na perspectiva econômica, política, social e cultural, em especial as teorias que caracterizam a mudança da sociedade de um paradigma moderno para um pós-moderno. Acompanha de forma crítica a teoria de De Masi, onde ele fala sobre uma sociedade que se encaminha para uma diminuição progressiva do tempo de trabalho e um aumento do tempo livre, traçando um retrato da sociedade pós-industrial, estabelecendo uma análise histórica ligada ao desenvolvimento social, econômico, político e cultural, que abrange o trabalho, a ciência e a tecnologia, as transformações do modo de produção capitalista e intenta uma previsão dos desdobramentos que estas questões terão nos próximos anos. Este trabalho contém uma seleção de assuntos considerados centrais na obra de De Masi e elabora uma análise de cada um, problematizando, interpondo outras visões e procurando levantar questões importantes julgadas dignas de aprofundamento. Focaliza principalmente as características da sociedade pós-industrial em comparação com a sociedade industrial, localiza o trabalho e o trabalhador neste contexto, fala da tecnologia em sua relação com o desenvolvimento econômico e com o trabalho, aborda as relações de trabalho, a luta de classes e os movimentos sociais na sociedade atual, insere o tema central da obra que é o ócio criativo e procura situar a visão do autor em termos do ponto de partida da sua análise e da realidade social que seu olhar abrange.

palavras chaves: sociedade industrial, sociedade pós-industrial, trabalho, ócio criativo, tempo livre, De Masi.


Introdução

Hoje vivemos uma época de grandes transformações sociais e culturais. Uma vertiginosa aceleração se reflete em todos os aspectos da vida humana reconfigurando radicalmente a face de nosso mundo sensível e provocando mudanças profundas nas relações sociais. Especialmente em relação ao trabalho e nas práticas cotidianas estas alterações provocam a necessidade de reorganização e de novas abordagens.
A tecnologia está aí para facilitar e diminuir o nosso trabalho, porém nunca se trabalhou tanto e em tão inseguras condições como atualmente. Neste sentido, o desenvolvimento técnico-científico e todo o movimento em direção a uma sociedade global são ambivalentes e contraditórios.
Na obra O Ócio Criativo, Domenico De Masi se propõe a teorizar sobre o momento atual, a sua inserção histórica e re-lança o assunto da diminuição do tempo de trabalho e aumento do tempo livre sob uma abordagem e um contexto próprios. Nesta perspectiva, busca referências nas obras de Bertrand Russell [1] e Paul Lafargue [2] , somando autores como Alvin Toffler, Daniel Bell e Alain Touraine.
Analisar uma época não é olhar para uma linha de tempo e pontuar eventos de forma linear. Analisar uma época tem a ver com a humana condição destes tempos. Com o humano fazer e refazer da história na produção de sua vida. Para isso, é preciso manter uma idéia de humanidade que permeia e condiciona o que vai ser estudado. Que dirige e dá forma ao olhar que pretende captar e entender a teia das relações humanas. Um olhar do humano sobre o humano. Neste sentido, contraponho a minha visão de mundo e sociedade que dialoga com a visão do autor. Desta intertextualidade e buscando auxílio em Marx, Gramsci, Santos e Harvey, entre outros, procuro esclarecer e problematizar os pontos que achei centrais nesta leitura de De Masi. Uma leitura que não se esgota e abre espaço para a interação com outros textos e outras abordagens.

Sociedade Industrial - pós - Industrial

"'O problema do desemprego é um tema duro. Hoje nós podemos fazer o dobro de carros com o mesmo número de operários. Quando se fala em melhorar o nível educacional da população, como solução para o problema do desemprego, sempre digo que me preocupa a lembrança do que aconteceu na Alemanha: ali se promoveu a educação como remédio para o desemprego e o resultado foi a frustração de milhares de profissionais, que foram empurrados para o socialismo e para a rebelião. Me custa dizer, mas me pergunto se não seria melhor que os desempregados agissem com lucidez e fossem procurar trabalho direto no Mc Donald's" - excerto da conferência de Lee Iacocca na Argentina em 1993 (GALEANO, 2001 p. 175)

Desde os anos 60 que muitos autores (Lyotard, 1989 ; De Masi, 2000) sinalizam uma passagem histórica. Seus argumentos baseiam-se principalmente nas evidentes e grandes mudanças no panorama sócio-econômico-político e cultural da modernidade e o advento de um status diferente que a maioria chama de pós-modernidade. Outros autores (Harvey, 2001 ; Santos, 2000) consideram as transformações ocorridas, mas reconhecem nelas uma continuidade do projeto moderno ainda inacabado. A questão não é propriamente o nome que se dá a períodos históricos, mas se a passagem entre um e outro consiste numa ruptura total onde toda a organização social muda.
Domenico De Masi (2000, p. 71) se situa no primeiro grupo e diz que "o contexto no qual vivemos não pode ser considerado uma continuação da sociedade industrial. E que neste contexto não mudaram só alguns aspectos: mudou todo o conjunto". De Masi fundamenta suas afirmações baseando-se na coincidência da mudança de três fatores: fontes energéticas, divisão do trabalho e divisão do poder. Segundo o autor, esta mudança simultânea determinaria "um salto de época". (DE MASI, 2000, p.23)
Realmente, são fatores que determinam grandes alterações sociais, econômicas, políticas e culturais e vêm interligados, interferindo uns nos outros. Por exemplo, o desenvolvimento da agricultura fixou as pessoas ao lugar e isso ensejou alterações na organização social e política que, entre outras coisas, deram origem às cidades. Considero que as transformações se sobrepõem no tempo histórico e não se pode afirmar com exatidão em qual ponto ocorreu e o quê causou determinadas metamorfoses. Além disso, o novo se faz sobre o antigo e leva consigo, indissociáveis, traços que eventualmente emergem e se mostram.
De Masi (2000), ao contrário, aponta uma ruptura entre sociedade industrial e sociedade pós-industrial e descreve o nascimento desta citando Daniel Bell [3] , que localiza este momento no ano de 1956 quando, pela primeira vez o número de trabalhadores no setor de serviços superou a soma de trabalhadores nos setores industrial e agrícola. Uma dificuldade que vejo neste raciocínio diz respeito à vinculação de uma supremacia da indústria (ou não) ao número de trabalhadores que ela agrega e não a sua real importância nas economias nacionais. Harvey (2001, p. 149) apresenta uma tabela onde são comparados os percentuais de trabalhadores empregados no setor industrial, agrícola e de serviços, nos anos de 1960, 1973 e 1981, para diversos países. Nesta tabela, se pode observar o progressivo crescimento do percentual de trabalhadores empregados no setor de serviços e a diminuição do percentual nos setores agrícola e industrial. Ainda assim, resta a seguinte dúvida: quais seriam os resultados se comparássemos os percentuais do montante de capital movimentado em cada setor?
Para que se possa melhor entender as concepções onde De Masi apóia suas idéias, convém que apresentemos a sua construção teórica com relação à sociedade industrial e a sociedade pós-industrial. Para o autor, a sociedade industrial nasce com a Revolução Industrial dentro do período chamado modernidade, um salto de época no século XVIII. De Masi (2000) indica que as idéias do Iluminismo, como a confiança na razão humana para solução dos problemas, a crença num progresso ilimitado a partir da ciência, a descoberta da eletricidade e a criação da máquina a vapor foram os fatores determinantes para a virada.
De Masi (2000) não chega a nomear o modo de produção capitalista quando fala das características e mudanças econômicas correspondentes à sociedade industrial, mas localiza no colonialismo o primeiro processo de acumulação. Coloca, também, a emergência da classe burguesa como resultado das possibilidades abertas pelas revoluções americana e francesa.

Cada vez que uma revolução concede o acesso à "sala de controle" a novas classes sociais - classes estas que, até então, eram oprimidas e, num certo sentido "virgens" - , enormes potencialidades são liberadas. Foi o que aconteceu naquele tempo com o advento da burguesia. (DE MASI, 2000, p. 48)
Para De Masi (2000), estas transformações ocorridas no nascimento da modernidade só vieram a ser reconhecidas como globais por volta de 1850.
Do ponto de vista da sociedade ocidental eurocêntrica daquela época, pode-se falar em universalidade da mudança, mas devemos considerar que, mesmo hoje, em termos planetários convivemos com sociedades em diferentes estágios de desenvolvimento, com diferentes modos de produção, organização social, política e cultural. Dentro de um quadro de globalização unilateral baseado na expansão dos mercados e da exploração capitalista, convivem modos de produção quase feudais e artesanais até dentro da mesma sociedade. O próprio De Masi (2000, p. 87) fala sobre isto do ponto de vista do 'já foi pior', uma forma de expressão que é constante ao longo de todo o livro:

A questão é que as exigências dos países ricos mudaram: antes precisavam de matéria-prima, agora necessitam de mão-de-obra e mercado para suas exportações. É exploração? Sem dúvida. Mas, apesar disso, é uma exploração inferior à exploração colonial, na qual as grandes potências se apropriavam das matérias-primas e reduziam as populações nativas à escravidão. Representa, portanto, uma melhora, nem que seja pelo simples motivo de que o trabalho é de alguma forma remunerado. (DE MASI, 2000, p. 87)
A sociedade industrial tem como características a estandardização das mercadorias, a especialização das tarefas, a sincronização na produção e nos modos de vida, a maximização do ritmo produtivo, a centralização do poder e a concentração cada vez maior da forças produtivas: "Tudo isso resumido significa racionalização" (DE MASI, 2000, p.67)
De Masi (2000) fala destas características na forma de um relato, usando exemplos ligados a empresas. Embora discorra sobre a totalidade das transformações, não faz a necessária avaliação dos pontos comuns e derivações entre os âmbitos científicos, políticos, econômicos, sociais e culturais. Nisso podemos contrapor a visão de Boaventura de Sousa Santos que focaliza os desdobramentos da modernidade vinculando todos os âmbitos envolvidos e apontando a cooptação da ciência pelo capitalismo como catalisador de outras transformações.

[...] a ciência moderna, outrora vista como solução para todos os problemas das sociedades modernas, acabou por se tornar ela própria um problema. A transformação gradual da ciência em força produtiva neutralizou-lhe o potencial emancipatório e submeteu-a ao utopismo automático da tecnologia (SANTOS, 2000, p. 117)
Santos é um dos que propõe uma retomada do projeto sócio-cultural da modernidade através do desenvolvimento de seus potencias que permaneceram inacabados, que ele localiza nos princípio de comunidade e na racionalidade estético-expressiva.

Isso significa, antes de mais, que só a partir da modernidade é possível transcender a modernidade. Se é verdade que a modernidade não pode fornecer a solução para excessos e défices por que é responsável, não é menos verdade que só ela permite desejá-la. De facto, podemos encontrar na modernidade tudo o que é necessário para formular uma solução, tudo menos esta solução. Em meu entender, as representações que a modernidade deixou até agora mais inacabadas e abertas são, no domínio de regulação, o princípio da comunidade e, no domínio da emancipação, a racionalidade estético-expressiva. (SANTOS, 2000, p. 74-75)
Para caracterizar a sociedade pós-industrial, De Masi (2000) utiliza as concepções de Alvin Toffler [4] , de Alain Touraine [5] e de Daniel Bell. A partir de Toffler, cita o desenvolvimento histórico em 'ondas', cada onda correspondendo à agregação de uma série de condições, onde a mais influente é o desenvolvimento científico e tecnológico. Juntamente com Toffler, aponta o advento de uma maior subjetividade e acrescenta que esta provém das múltiplas possibilidades de escolha entre os produtos hiper-diferenciados criados pelos novos modelos produtivos. Restringe, assim, a liberdade a uma liberdade de escolha entre o que é oferecido e a subjetividade a uma subjetividade de consumo.

[...] a produção potencialmente infinita de objectos na sociedade de consumo encheu os sujeitos com objectos, mas, ao mesmo tempo, como Baudrillard e outros frisaram, conferiu subjectividade a estes objectos de forma a aumentar a eficácia do consumo. Hoje em dia, na fase posterior ao consumo massificado, caracterizada pela personalização e clientelização dos objectos, este processo é mais evidente do que nunca. Trata-se, evidentemente, de uma falsa subjectivação [...] (SANTOS, 2000, p. 83)
Concordando com Santos, vejo como característica dos tempos atuais esta pseudo-subjetivação baseada na posse de objetos que pretensamente identificariam o seu possuidor.
A partir de Touraine, De Masi (2000) diz que a sociedade pós-industrial se distingue pela "necessidade e capacidade de projetar o próprio futuro. É a primeira sociedade que não considera que o futuro dependa do acaso, da providência divina ou das circunstâncias." (DE MASI, 2000, p. 123) Ora, mas isso é moderno! Onde fica a tal ruptura entre modernidade e pós-modernidade? E De Masi (2000, p. 124) continua:

Eu coloco a criatividade no centro, onde ele coloca a programação. Se tivesse que definir a sociedade pós-industrial de outra maneira, eu a definiria como sociedade criativa. [...] Imagine a nossa sociedade como um único cérebro que projeta medicamentos, ferrovias, aeroportos e, em relação a cada um destes projetos, procura antecipar para onde vai o mundo nos próximos cinco, dez ou quinze anos. É esta a sociedade que cria. Depois, imagine todos os conselhos administrativos, os estrategistas, os grandes executivos das multinacionais e some ainda todos os governantes de todos os Estados: esta é a sociedade que programa
Em relação a esta capacidade de 'projetar', que implica em prever e programar, gostaria de contrapor o pensamento de Santos (2000) que alerta sobre os riscos de confiança num projeto que, em termos de economia, ciência, tecnologia, política e cultura acha-se colonizado por um sistema social.

A ciência e a tecnologia aumentaram a nossa capacidade de acção de uma forma sem precedentes, e, com isso, fizeram expandir a dimensão espácio-temporal dos nossos actos. Enquanto anteriormente os actos sociais partilhavam a mesma dimensão espácio-temporal das suas conseqüências, hoje em dia a intervenção tecnológica pode prolongar as conseqüências, no tempo e no espaço, muito mais além da dimensão do próprio acto através de nexos de causalidade cada vez mais complexos e opacos. A expansão da capacidade de acção ainda não se faz acompanhar de uma capacidade de previsão, e, por isso a previsão das conseqüências da ação científica é necessariamente muito menos científica do que a acção científica em si mesma. (SANTOS, 2000, p. 58) [6]
De Masi, no rastro de Touraine, opta por uma linearidade de causa e efeito e uma previsibilidade de evolução dos fenômenos, quase cartesiana, que vai contra a sua postura pós-moderna em outros assuntos.
Penso, juntamente com Santos (2000) que a complexidade do mundo e a própria ciência, que nos mostra a não linearidade da ciência, são razões suficientes para se por em questão a tranqüilidade de De Masi sobre a capacidade de projetar da sociedade atual.
Por último, conforme Bell teorizou na década de 60, De Masi (2000) caracteriza a sociedade pós-industrial por cinco fatores: a passagem da produção de bens para a produção de serviços, a progressiva superação em importância da classe operária pela classe de profissionais liberais, a centralidade do conhecimento em relação ao trabalho, a gestão da tecnologia que não pode mais ser feita por pessoas ou nações isoladas e o advento das máquinas inteligentes.
Entendo que a grande diferença entre a sociedade industrial e a pós-industrial é que nos novos modos de produção a ideologia de um certo modelo de sociedade está implícita na própria produção. A mercadoria condiciona atitudes, pensamentos, formas de ver o mundo, configura o tempo e o espaço de vida. Para explicitar melhor esta idéia, lanço mão das palavras de Marcuse:

O aparato produtivo e as mercadorias e serviços que ele produz 'vendem' ou impõem o sistema social como um todo. Os meios de transporte e comunicação em massa, as mercadorias casa, alimento e roupa, a produção irresistível da indústria de diversões e informação trazem consigo atitudes e hábitos prescritos, certas reações intelectuais e emocionais que prendem os consumidores mais ou menos agradavelmente aos produtores e através destes, ao todo. Os produtos doutrinam e manipulam; promovem uma falsa consciência que é imune a sua falsidade. (MARCUSE, 1982 , p. 32)
A meu ver, De Masi mistura características modernas e pós-modernas, industriais e pós-industriais contradizendo a sua proposição de uma mudança total entre fases históricas da sociedade. Por outro lado, quando ele fala em 'fim da indústria', pelo seu cada vez menor contingente de trabalhadores, isso não significa que o número de indústrias e o montante de produção reduziram-se. Ao contrário, a produção aumentou e diversificou-se, se considerarmos a totalidade do planeta. Igualmente cresceram o setor de serviços e o agrícola. A economia como um todo cresceu. O que mudou foi a geografia econômica e a configuração interna das atividades produtivas que hoje, pelo desenvolvimento tecnológico, necessita menos presença humana na produção. Porém, o que não mudou foi a lógica que perpassa todo o sistema: quem trabalha vende a sua força de trabalho, quer em atividades manuais repetitivas, quer em atividades intelectuais criativas. Os 'serviços' são mercadoria e cotados da mesma forma que os bens. O mesmo vale para o conhecimento e a cultura.

notas:
[1] O Elogio ao Ócio - Bertrand Russell
[2] O Direito ao Ócio - Paul Lafargue
[3] The Coming of Postindustrial Society - Daniel Bell
[4] A Terceira Onda - Alvin Toffler
[5] La société post-industrielle; La production de la société; Pour la sociologie - Alain Touraine
[6] Optei por manter a citação na forma lingüística original

Índice:
:: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial
:: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial
:: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais
:: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências.


[Domingo, Abril 04, 2004] [Su] [link] [ | ]

#
[movimentos sociais]


Artigos, textos, ensaios, apresentações e trabalhos dentro da temática geral de movimentos sociais.


[Domingo, Março 21, 2004] [Su] [link] [ | ]

ARGUMENTO é um projeto vinculado ao [zaptlogs] da ZAPT / UFRGS , Porto Alegre, RS, Brasil

Lives in Brazil/Rio Grande do Sul/Porto Alegre, speaks Portuguese and English.

argumento

página inicial

a proposta

categorias

trabalho

movimentos sociais

educação

resenhas

índice

por título

por autor

por categoria

links associados

[zaptlogs]

TRAMSE

Intramse

Arquivos

21/03/2004
04/04/2004
25/04/2004

[Powered by Blogger]

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com

rss feed

Creative Commons License

?