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[Sábado, Janeiro 27, 2007] [Su] [link] [ | ]

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[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - IV parte]


Suzana de Souza Gutierrez
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação


O ócio criativo e o tempo livre

O desenvolvimento da tecnologia não está servindo para multiplicar o tempo do ócio e os espaços de liberdade, mas está multiplicando a falta de emprego e semeando o medo. É universal o pânico ante a possibilidade de receber a carta que lamenta comunicar-lhe que estamos obrigados a prescindir de seus serviços em razão da nova política de gastos, ou devido à inadiável reestruturação da empresa, ou apenas porque sim, já que nenhum eufemismo abranda o fuzilamento. Qualquer um pode cair, a qualquer hora e em qualquer lugar. Qualquer um pode se transformar, de um dia para o outro, num velho de quarenta anos (GALEANO, 2001, p. 170)



Para De Masi (2000, p. 234) a sociedade tende para o aumento do tempo livre e para a execução de atividades intelectuais e criativas.

O ócio criativo é aquela trabalheira mental que acontece até quando estamos fisicamente parados, ou mesmo quando dormimos à noite. Ociar não significa não pensar. Significa não pensar regras obrigatórias, não ser assediado pelo cronômetro, não obedecer aos percursos da racionalidade e todas aquelas coisas que Ford e Taylor tinham inventado para bitolar o trabalho executivo e torná-lo eficiente.
Segundo o autor estamos numa época que corresponde a uma transição que inclui a passagem de atividades físicas para atividades intelectuais, a passagem de atividades intelectuais repetitivas para atividades intelectuais criativas, a passagem do trabalho labuta para o ócio criativo. Um ócio criativo que aproxima o trabalho, o estudo e o jogo e que é característico da sociedade pós-industrial.

De Masi (2000) aponta a superação do trabalho repetitivo da linha de montagem fordista, agora quase que inteiramente delegado às máquinas. Celebra a libertação do tédio que estas atividades automáticas, onde o cérebro tinha participação quase nula, causavam aos trabalhadores. Ressalva, porém, que os postos de trabalho que são abolidos pelo progresso tecnológico não vão ser compensados pela criação de outros postos de trabalho. E que devemos buscar alternativas para sobreviver em uma sociedade sem empregos, embora com riqueza que daria para todos. Critica a visão de alguns políticos que falam da criação de empregos via investimentos, que ele acredita ser uma esperança irreal, dado que as empresas vêm diminuindo os investimentos, mesmo recebendo incentivos e outros privilégios. O mercado financeiro é o destino dos investimentos.

No final da década de 60, Marcuse (1982) já sinaliza que nas novas formas de produção o aparato técnico se torna o próprio processo de produção dispensando a ação humana e rompendo os laços que prendem o trabalhador à máquina.

A automatização completa na esfera da necessidade abriria a dimensão do tempo livre como aquela em que a existência privada e social do homem constituiria ela própria. Isso seria a transcendência histórica rumo a uma nova civilização. (MARCUSE, 1982, p. 53)
Acrescenta que esta tendência esbarra na oposição dos movimentos dos trabalhadores que reagem à automatização capitalista que os deixa sem emprego e sem meios de sobrevivência. Marcuse escreve em época anterior a derrocada do socialismo real soviético, numa época em que a Guerra Fria trazia um certo equilíbrio, nem que fosse baseado na competição leste-oeste. Hoje, a alternativa capitalista hegemônica destrói uma a uma as conquistas dos trabalhadores duramente extraídas do Estado de Bem Estar Social e o desenvolvimento não se traduz em tempo livre, mas sim em desemprego.

De Masi (2000) credita à indústria uma supervalorização do trabalho que fez com que este assumisse um status de dominância na vida humana em detrimento da família, da comunidade, do lazer e de outros valores. Em parte concordo, mas acrescentaria que esta cultura foi criada pelo modo de produção capitalista a partir da dominação pela fome e a necessidade do início da revolução industrial. Uma cultura que ainda predomina nos dias de hoje com estes e outros condicionantes e, aí concordando com De Masi, perpassa as camadas sociais as quais se destina e influencia outras camadas que não teriam esta necessidade.

Da intersecção entre estudo, trabalho e jogo , o autor aponta como sendo a mais perfeita e adequada a posição onde estes três itens se sobrepõem.
Os valores emergentes na nova sociedade incluem a globalização como contexto.

São globalizados os meios de comunicação de massa, a ciência, o dinheiro, a cultura. [...] A vida inteira é globalizada: o mundo inteiro escuta as mesmas canções, assiste aos mesmos filmes e tende aos mesmos consumos. A cadeia McDonald's vende 15 milhões de hambúrgueres por dia, todos iguais, nas suas 16 mil lanchonetes espalhadas por oitenta e três países. (DE MASI, 2000, p. 141)
Uma globalização que homogeneiza a cultura global. De Masi concorda com este fato, mas não se alonga nos possíveis danos que isso causa a culturas diversas. Limita-se a apontar as tendências e a propor formas de 'adequação' aos novos rumos.

A economia global é guiada pelas multinacionais. Elas dispõem de sistemas informativos e de lobby muito poderosos, com os quais conseguem ocultar melhor sua política. E, além disso, a trama dos negócios que fazem é tão emaranhada, que muito pouca gente é capaz de descobrir o fio da meada. (DE MASI, 2000, p. 143)
Coloca a globalização como a forma contemporânea do impulso humano para explorar e colonizar.
Quanto às características emergentes nesta nova sociedade, o autor cita a intelectualização, o tempo livre, a emotividade em vez da razão, a desestruturação tempo-espaço e a qualidade de vida. Vê uma tendência de decréscimo do consumismo e da competitividade e uma progressiva delegação das tarefas de 'baixo nível' para imigrantes ou para o terceiro mundo.

Em meu entender o ócio criativo de De Masi, embora ele fale numa redistribuição de renda via redução da jornada de trabalho, destina-se apenas a muito poucos trabalhadores do primeiro mundo. Em primeiro lugar, porque parte de uma concessão das empresas que não altera as relações entre capital e trabalho. Em segundo lugar, toda a análise de De Masi sobre a produção e os serviços levam a crer, embora isso não seja dito, que as empresas necessitam ampliar os mercados para os novos produtos 'imateriais'.

Ora, o consumo de serviços e produtos culturais depende, além da renda, do tempo livre, na seguinte lógica: não há quase nada material a produzir que não possa ser facilmente produzido quase que sem interferência de trabalho humano. Por outro lado, esgotam-se as possibilidades de 'suscitar novas necessidades' e criar mercados para produtos de curta duração. O sucateamento rápido e outras medidas que intensificam o consumo e fazem funcionar a máquina capitalista podem não estar sendo suficientes para dar conta da necessidade de aumento contínuo da produção.

Os serviços liberaram tempo para a produção. Agora é a hora da produção liberar tempo para que as pessoas possam consumir os produtos 'temporais' e fazer girar a roda do mercado. Penso que é neste sentido que De Masi propõe mudanças no funcionamento da produção. Não no sentido de subverter o sistema, mas no sentido de manter o sistema funcionando.

Mas de nada adianta: burgueses que se empanturram, domésticos mais numerosos que a classe produtiva, nações estrangeiras e bárbaras abarrotadas de mercadorias européias. Nada disso faz escoar as montanhas de produtos que se acumulam, maiores que as pirâmides do Egito: a produtividade dos operários europeus desafia qualquer consumo ou desperdício. Os industriais, aflitos, não sabem mais a quem apelar, não conseguem mais encontrar matérias-primas para satisfazer a paixão desordenada e depravada de seus operários pelo trabalho. (LAFARGUE, 2000, p. 167)
Lafargue aponta de forma irônica e certeira a lógica que move o capital, que no século XIX dominava e explorava pela fome e pela miséria e que hoje domina e explora pela cultura e pela ideologia.
Nesta perspectiva, o ócio criativo surge como um mercado em expansão ou um trabalho sublimado e incorporado, digno de mais uma revolução do capitalismo na busca de sua preservação.


À guisa de conclusão ou para quem fala De Masi

O ócio criativo me parece escrito no típico formato dos livros de auto-ajuda. Quase científico, utilizando referências de autores consagrados e de linhas teóricas diversas, nem sempre de uma forma que evidencie com correção o contexto das obras. Os textos apoiam-se em conceitos já presentes na literatura, mas com referências opacas e não identificadas.

No caso de uma leitura crítica como a proposta por um trabalho acadêmico tem a virtude de trazer à discussão as obras de Lafargue, de Russell e de Marx, para os que aprofundarem os temas. Desconheço as outras obras de De Masi, então fica difícil avaliar se esta obra segue um padrão ou se o formato atende uma estratégia elaborada com uma determinada finalidade.

De certa forma julguei difícil não jogar o livro pela janela uma dúzia de vezes e destilar veneno puro no meu texto. Na realidade, o que mais me incomodou foi ter que concordar com o autor sobre certos fatos ou tendências. Não que eu concorde com a sua análise ou prognóstico, mas quanto ao fato em si não há como discordar. Por exemplo, o nosso progressivo status de 'audiência'; a nossa posição de consumidores de conhecimentos; a nossa impotência diante da dominação que se vê gravada no coração das pessoas. Uma dominação mais eficiente que a fome.

O incremento da produção, das ciências, das técnicas revela necessidades e capacidades desconhecidas, faz refletir um espectro suntuoso de gostos, de criações, de diferenças; mas a reificação e a alienação fazem da humanidade uma plebe perplexa diante do espetáculo de seus próprios fetiches. A produtividade aumentada do trabalho libera tempo para a criatividade individual e coletiva, propícia a novas formas de convívio e lucidez; mas a medida 'miserável' de qualquer riqueza e de qualquer troca pelo tempo de trabalho abstrato transforma a incrível liberação potencial em desemprego, em exclusões, em miséria física e moral. (BENSAÏD, 1999, p. 99)
Qual a saída? Bensaïd (1999) aponta a saída de Marx que envolve uma redefinição dos critérios do progresso, a consideração de critérios que priorizem o enriquecimento do indivíduo e da espécie, que suprimam o trabalho alienado e que valorizem as relações entre as pessoas.
De Masi não aponta saídas, apenas descarta alternativas, entre outras: o socialismo porque não sabe produzir, o capitalismo por não ser capaz de distribuir o que produz. Acena de leve com o 'modelo grego', o que por si só já é preocupante. A sua proposta de redução da jornada de trabalho é mais técnica que política, não altera o funcionamento do sistema produtivo na sua essência e não vem acompanhada de uma teoria consistente que lhe dê sustentação.
Basta analisar a maioria dos textos de De Masi, citados anteriormente para ter claro que seu discurso e análise correspondem às sociedades 'avançadas'. A elas se destina o ócio criativo. Uma possibilidade que De Masi visa ampliar para mais trabalhadores pela redução da jornada de trabalho, ficando a produção e os serviços de nível mais baixo para os pobres e o terceiro mundo.

E, no meu entender, De Masi fala para as empresas. A quase totalidade de seus exemplos inclui as empresas e as suas necessidades, chegando a considerar a dinâmica da sociedade pós-industrial como uma guerra entre empresas (DE MASI, 2000, p. 129). Alerta para o estrangulamento dos mercados de consumo, alerta para o 'tempo livre' como tempo para consumir que a empresa paga para receber de volta. Uma mensagem que vem vestida como proposta revolucionária e, para isso, De Masi chega a aproximar Lafargue de Taylor.

De Masi fala o que todos querem ouvir, fala de uma sociedade ideal onde jogo, trabalho e estudo se misturam. Usa as palavras de ordem dos discursos atuais como solidariedade, hospitalidade, qualidade de vida. E acena com a esperança que a riqueza e o desenvolvimento por 'transbordamento' possam acabar atingindo até as regiões mais pobres. Uma cantiga sedutora como as que eram ensinadas às crianças no século XIX, para que enfrentassem uma jornada de 12h de trabalho nas fábricas.

Referências

RIO + 10 [homepage] Boletim da África São Paulo: Carta Maior - agência de notícias, 2002. Disponível em < http://agenciacartamaior.uol.com.br/riomaisdez/> Acesso em setembro de 2002.

BENSAÏD, Daniel. Marx, o intempestivo : grandezas e misérias de uma aventura crítica (séculos XIX e XX). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. 512p.

DE MASI, Domenico. O Ócio Criativo. 4ª ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. 336p.

GALEANO, Eduardo. De pernas para o ar: a escola do mundo ao avesso. Porto Alegre: L&PM, 2001, 386p.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. Vol ,I. Introdução ao estudo da filosofia. A filosofia de Benedetto Croce.

HARVEY, David. Condição Pós Moderna. 10ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001.349p.

LAFARGUE, Paul. O Direito ao Ócio In: DE MASI, Domenico (org.) A Economia do Ócio. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. 183p.

MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. 238p.

MARX, Karl ; ENGELS, Friedrich. O Manifesto Comunista In: Clássicos do Marxismo Campinas, SP: Articulação de Esquerda, 2002. Disponível em http://www.pagina13.com.br/manifestopartidocomunista.htm .Acesso setembro de 2002. (a)

MARX, Karl ; ENGELS, Friedrich. O Capital Brasília, DF: Instituto De Estudos Políticos, Econômicos e Sociais Maurício Grabois, 2002. Disponível em http://www.vermelho.org.br/img/obras/processo.asp. Acesso setembro de 2002. (b)

MARX, Karl ; ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega, [19--.] 2v. 355p.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social ensaio sobre a origem das línguas ou discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens ou discurso sobre as ciências e as artes. São Paulo: Abril Cultural, 1983. 428 p.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Crítica da Razão Indolente : contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2000. 415p.

Índice:
:: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial
:: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial
:: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais
:: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências.


[Domingo, Abril 25, 2004] [Su] [link] [ | ]

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[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - III parte]


Suzana de Souza Gutierrez
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação


A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho


A tecnologia e a ciência são responsáveis pela maioria das transformações no mundo. Ciência e tecnologias criadas pelo engenho humano com vistas a aspirações humanas. Na sua maioria, as invenções e descobertas foram feitas para atender desejos e necessidades de homens e mulheres e, depois de criadas e difundidas, geraram mudanças em todos os espaços da sociedade. Assim como a invenção da máquina a vapor e a descoberta do uso da eletricidade deram base e desenvolveram a indústria moderna, resultando na produção e no consumo de massa, alterando modos de vida e de trabalho e erigindo uma cultura própria, a informática e a digitalização vêm transformando a sociedade de hoje. Em várias partes do seu texto, De Masi esclarece este contexto e conclui da importância central da ciência e da tecnologia na constituição da sociedade pós-industrial.
Todavia, o fator mais poderoso que impulsiona o desenvolvimento científico e tecnológico é o impulso para a geração e apropriação da riqueza. Na luta pelos mercados sempre valeu o navio mais rápido, o canhão mais potente, a informação privilegiada. E, nesse sentido, nada mudou.

No entanto a história da humanidade é a história da intervenção humana na natureza para domá-la. Para isso desviamos rios, inventamos o pára-raios, casa e remédios. Há quem veja e tema nessa domesticação a sua dimensão aterrorizante. Outros, no entanto, e eu me encontro entre eles, valorizam a sua dimensão salvadora. Não excluo os perigos do progresso tecnológico, porém dou maior peso aos aspectos positivos. Por exemplo, o fato de o homem ter conseguido duplicar a duração da própria vida me parece uma conquista extraordinária. E como teria realizado tal feito sem o auxílio tecnológico? (DE MASI, 2000, p. 82)
Compreendo que, se não houvesse, em grande parte, por trás do desenvolvimento tecnológico uma busca frenética por lucros cada vez maiores, num esquema de guerra onde a vida e a ética são colocadas em segundo plano, os aspectos positivos da ciência e da tecnologia, seriam em maior número, maior abrangência e direcionados segundo melhores critérios. Teríamos erradicado a maioria das doenças e não inventado a guerra bacteriológica. Teríamos alimentos em abundância sem correr o risco dos transgênicos. Teríamos ócio criativo para todos e não teríamos exploração.
Segundo De Masi (2000), durante um certo tempo o desenvolvimento tecnológico mudou a face do trabalho, criando algumas posições de trabalho ao mesmo tempo em que destruía outras posições, mantendo assim um certo equilíbrio. Atualmente, o desenvolvimento é tão veloz e abrangente que não há como repor os cargos abolidos.
Indissociável do desenvolvimento científico e tecnológico está a visão de mundo que lhe dá sustentação e direção. A técnica, a máquina em si, pode ser neutra, mas não o é a filosofia que a produziu e, muito menos, a ideologia que guiará o seu uso.

'Progresso' não é um termo neutro; encaminha-se para fins específicos, e esses fins são definidos pelas possibilidades de melhorar a condição humana. A sociedade industrial desenvolvida se aproxima da fase em que o progresso contínuo exigiria a subversão radical da direção e organização do progresso predominantes. esta fase seria atingida quando a produção material (incluindo os serviços necessários) se tornasse automatizada a ponto de todas as necessidades vitais poderem ser atendidas enquanto o tempo de trabalho necessário fosse reduzido a um tempo marginal. Daí por diante, o progresso o progresso técnico transcenderia ao reino da necessidade no qual servira de instrumento de dominação e exploração, que desse modo limitava sua racionalidade; a tecnologia ficaria sujeita à livre atuação das faculdades na luta pela pacificação da natureza e da sociedade. Tal estado é visualizado na noção de 'abolição do trabalho' de Marx. (MARCUSE, 1982 , p. 35)
Podemos assim intuir, em toda a sua lógica, a contradição que faz com que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia aprisione e exclua em vez de emancipar e incluir. A irracionalidade de não se perceber que as estruturas e os sistemas que permitiram o desenvolvimento dos meios de abolir o sofrimento e a necessidade não servem para a consumação e superação desta fase histórica.
De Masi (2000, p. 92) fala sobre o desenvolvimento do capitalismo hoje e suas repercussões no Estado e no trabalho:

Os capitalistas aperfeiçoaram no mundo todo uma estratégia precisa, guiados por Reagan nos EUA, e por Thatcher, na Grã-Bretanha. Com um grande uso da mídia, elaboraram uma campanha para atacar tudo o que é público: burocracia, empresas estatais, transportes, previdência social e ensino. Obtiveram assim a privatização dos setores mais lucrativos da economia e conquistaram a baixo preço as ações das sociedades privatizadas: companhias de transporte ferroviário, eletricidade, telecomunicações, tudo aquilo de maior valor dos patrimônios estatais.
Além disso, deram jeito de receber de volta do Estado todo o seu investimento, na forma de incentivos e isenções. A seguir, desmantelaram as empresas fazendo fusões, reduzindo os investimentos e demitindo empregados para baixar os custos, acumulando imensas quantias nestas operações. De Masi completa dizendo que o capital acumulado foi investido, porém de forma particular no mercado financeiro.
Com base em estatísticas que comprovam o aumento de riqueza planetária e a sua cada vez maior concentração é que De Masi propõe, como forma de redistribuição de trabalho e renda, a diminuição drástica da jornada de trabalho. Ele não explicita claramente se a idéia inclui a não redução dos salários, mas, sem isso, não haveria como redistribuir riqueza.
Por outro lado, De Masi acredita que, conforme está atualmente, a maioria do trabalho poderia ser executada em 5 ou 6h em vez de 8, sem nenhum tipo de alteração de custos, de produção, de rendimento e lucro, aliás, poderia até haver um aumento na produção, consumo e lucros.
Porém, quando um empresário constata que o trabalho na empresa pode ser feito com, digamos uma jornada de trabalho 20% menor, a decisão costumeira é demitir o número de trabalhadores correspondentes a esta percentagem, mantendo o tempo da jornada de trabalho igual e aumentando os lucros. A diminuição do trabalho humano requerido nos processos, pela otimização da organização do trabalho ou pelo desenvolvimento tecnológico, gera desemprego em vez de tempo livre.
De Masi (2000) credita este fato ao conservadorismo das empresas e dos próprios trabalhadores. As empresas resistindo aos fatos ou usando inovações apenas em proveito próprio e os trabalhadores ficando no trabalho mais tempo que o necessário, até para deixar patente a sua utilidade. Barreiras culturais e de concepção de vida e mundo difíceis de romper.

As empresas seriam mais criativas, mais produtivas e reduziriam as despesas. Os trabalhadores teriam mais tempo disponível para a vida pessoal, revitalizariam seus relacionamentos com a família, com o bairro, com a cultura, alimentariam a própria criatividade. (DE MASI, 2000, p. 177)
Para De Masi (2000) um fenômeno recente e ainda incipiente da sociedade industrial é o teletrabalho. Fruto do desenvolvimento da informática e das telecomunicações, uma tendência que, segundo o autor, vem recuperar o que a indústria e o artesanato tinham de melhor. Do artesanato, a produção em pequenas unidades produtivas, até domiciliares, a rapidez nas decisões, a pouca burocracia. Da indústria, a interação que pode ser estabelecida entre unidades produzidas por meio da telemática, a experiência e a solidez.

Teletrabalho é um trabalho realizado longe dos escritórios empresariais e dos colegas de trabalho, com comunicação independente com a sede central do trabalho e com outras sedes através de um uso intensivo das tecnologias da comunicação e da informação, mas que não são, necessariamente, sempre de natureza informática. (DE MASI, 2000, p. 214)
Para De Masi (2000) as vantagens do teletrabalho são maiores que as desvantagens. Para a sociedade: menor circulação de automóveis e pessoas, menos poluição, menor desgaste de pavimentos e outras estruturas viárias, aproximação do tempo de trabalho ao tempo de vida, redução do conflito de classes. Para os trabalhadores: trabalhar próximo ao lar e a família, autonomia, redução de custos, melhoria das relações familiares, personalização do ambiente e das relações de trabalho, redução das horas de trabalho. Para o empregador: flexibilidade econômica e organizacional, economia de custos, motivação.
As desvantagens seriam: para a sociedade, o aumento nos custos da infraestrutura de comunicação, alguma perda nos impostos e o aumento da fragmentação social; para os trabalhadores, o isolamento, a exclusão do ambiente da empresa diminuindo chances na carreira, a necessidade de investimento na casa, a dificuldade de lidar com as alterações na rotina familiar, menores possibilidades de participação nas associações coletivas de trabalhadores e sindicalização, maior concorrência no mercado de trabalho; para as empresas, a perda da identidade empresarial, diminuição do controle, alteração na hierarquia, investimento inicial em treinamento.
No relato de De Masi, se nota, em relação ao trabalhador, um maior número de desvantagens do que de vantagens. Em meu entender, o teletrabalho é uma opção válida e nova de trabalho e pode ser muito positiva para algumas situações de empresa, de trabalhadores ou da sociedade. É uma opção que vem a trazer benefícios se for adotada com base em critérios que atendam ao máximo os envolvidos. E ser uma opção flexível, podendo acontecer de forma híbrida, com ocasiões que alternam o teletrabalho com o trabalho normal na empresa, segundo uma escala de grupos de trabalhadores ou de épocas de trabalho. Em locais de inverno rigoroso e acúmulo de neve, por exemplo, o teletrabalho seria realizado nesta época. Em algumas empresas, seria opção do funcionário de acordo com necessidades pessoais passageiras ou contínuas. Enfim, uma alternativa a ser contextualizada para cada situação.
Em relação à comunicação e a capacidade de associação entre as pessoas, creio que a internet e os demais meios de comunicação serão cada vez melhor usados. Atualmente, a maioria dos usuários ainda enfrenta muitos problemas neste tipo de interação, a maior parte ligados ao pouco domínio técnico. Nesse sentido, considero uma falta de visão muito grande negligenciar os poderosos mecanismos que oferecem os meios telemáticos, por enquanto ainda democráticos e acessíveis. Digo acessíveis, não no sentido que todos possam possuí-los, mas no sentido de que muitos podem usá-los. O trabalhador pode não ser dono do seu meio de produção ou da sua ferramenta de trabalho, mas ela lhe permite discutir este assunto com outros trabalhadores e se organizar enquanto classe. Ela lhe permite divulgar suas idéias e ter contato com as idéias de outros trabalhadores, movimentos sociais, partidos políticos, etc.
De Masi (2000, p. 196) tem razão quando diz que é importante tomar posse dos meios virtuais:

O que unirá os portadores dos mesmos interesses, ou dos mesmos rancores, ou das mesmas explorações, daqui por diante, será, de todo modo, de tipo virtual. E neste mundo, ou entramos imediatamente, ou senão entrará o nosso concorrente que ditará a lei que também nós seremos obrigados a cumprir.
Ele fala em concorrência, pois sua atenção se volta para os negócios e as empresas. Eu diria o mesmo, porém considerando a hegemonia no uso dos meios telemáticos, a possibilidade de alteração na sua atual configuração aberta e democrática. Configuração esta que, no meu entender, se deve à falta de visão e previsão sobre as potencialidades e desdobramentos deste meio quando do seu início. Neste caso, um benefício que escapou por acidente de uma maior mercadorização e , nisso, devemos ser gratos. Não que não haja restrições e tentativas de fechamento e monopolização, basta que consideremos a privatização e cartelização das telecomunicações que são a base da transmissão de dados. Todavia, este é ainda um território aberto, e convém que nos conscientizemos da vital importância de mantê-lo sem cercas e fossos.

Afortunadamente, a história também se alimenta de paradoxos. Jamais o Pentágono suspeitou que a Internet, criada para programar o mundo como um grande campo de batalha, viria a ser utilizada na divulgação da palavra dos movimentos pacifistas, tradicionalmente condenados ao quase silêncio. (GALEANO, 2001, p. 300)
Voltando ao teletrabalho, na visão de De Masi (2000, p. 205), passa a ser natural e desejável a integração trabalho-vida:

Reduz-se a fratura entre o tempo de trabalho e o tempo de vida. A indústria pedia que eu fosse para a fábrica trabalhar e, depois, quando soava a sirene e a linha de montagem parava, eu voltava para casa, onde tentava esquecer completamente o trabalho. Hoje, se sou um publicitário, e estou tentando criar um slogan, quando saio do escritório e volto para casa, levo o trabalho comigo: na minha cabeça. A minha cabeça não para de pensar e às vezes acontece que posso achar a solução para o slogan em plena noite, ou debaixo do chuveiro, ou ainda naquele estágio intermediário entre o sono e o despertar.
Esta proposta traz um perigo potencial: o perigo de uma colonização maior da esfera privada e uma abolição progressiva da esfera pública. O lar como prisão, o trabalho como condenação do trabalhador e da família, a destruição final dos laços sociais, pois a mesma tecnologia que pode emancipar, pode prender e vigiar.


A Luta de Classes e os Movimentos Sociais

A observação despreocupada da realidade atual já nos permite visualizar uma fragmentação nas lutas sociais, uma descaracterização dos sindicatos e entidades de classe e até a possibilidade de estranhas alianças entre organizações de trabalhadores e entidades patronais.
De Masi aponta estas mesmas constatações na sua caracterização da sociedade pós-industrial e as atribui a uma nova conformação das classes em decorrência dos novos modos de trabalho e produção. Por outro lado, em vários momentos opta pela negação da luta de classes como reação à exploração e da própria sobrevivência classes na sociedade pós-industrial, enquanto em outros momentos caracteriza os fenômenos utilizando uma análise de classe. Esta postura ambígua e contraditória faz com que sua análise se torne inconsistente, sem credibilidade, deixando em aberto várias lacunas.

Ainda persiste a pergunta: que fim tiveram as classes? O que significa o termo 'classe'? Marx definiu o conceito, junto com a teoria do conflito que dele decorre, numa época em que países como a Inglaterra, mas também os Estados Unidos, a França e a Alemanha, eram caracterizados pela clara dicotomia entre poucos ricos e um número infinito de pobres. (DE MASI, 2000, p. 181)
E ainda:

Atualmente as agregações se dão mais sob forma de movimentos do que de instituições, como partidos ou sindicatos. A cada ocasião decidimos nos aliar a quem nos convém mais. Há tempos, pelo contrário, nos amarrávamos, da cabeça aos pés, permanecendo toda a vida ligados a uma das partes em luta. Que, aliás, era a luta de classes. (DE MASI, 2000, p.180)
Nestas passagens, De Masi se une àqueles que profetizam o fim das classes sociais e propõem o individualismo e o oportunismo como idéia de movimento social. Uma forma de luta que se conforma à forma do sistema. Não que a luta social tenha que assumir sempre uma forma institucional, mas a flutuação entre movimentos variados e circunstanciais dilui o poder dos movimentos como um todo. Além disso, atribui a Marx uma conceituação que ele não fez. Ao longo de sua obra, Marx tratou do tema da luta de classes sem definir as classes, ou melhor, vinculando um possível conceito de classe à sua relação na luta.

A noção de classe, segundo Marx não é redutível nem a um atributo de que seriam portadoras as unidades individuais que a compõem, nem a soma destas unidades. É algo diferente. Uma totalidade relacional e não uma simples soma (BENSAÏD, 1999, p. 147)
De Masi (2000, p. 182) continua, falando sobre a emergência da classe média como negação do dualismo proposto por Marx, pois a classe média não constitui uma classe, já que "não possui a completa coesão característica desta". E diz que este grupo, que cresce progressivamente, se movimenta entre os extremos anulando a divisão entre ricos e pobres.
O autor não considera que uma classe não se distingue apenas pelos seus atributos, mas pode se tornar visível por sinais de sua ação.
De Masi não crê na luta de classes mas a propõe como forma de resistência à exploração dos trabalhadores intelectuais.

O que é que fizeram os operários no início da era industrial? Tomaram consciência da exploração da qual eram vítimas, identificaram os seus opositores, se agregaram, realizaram alianças e lutaram com coragem e sacrifício. O trabalhador intelectual deveria fazer alguma coisa parecida, neste início de era pós-industrial. mas existem muitas dificuldades para que isso aconteça. Os trabalhadores intelectuais não pensam que pertencem a uma classe diferente da classe dos empregadores. (DE MASI, 2000, p. 250)
Nesta passagem, o autor não só reforça a permanência das classes, como aponta as dificuldades para a conscientização dos trabalhadores. Uma pena que ele não avance e reconheça a proletarização do mundo assim como os 'trabalhadores intelectuais' não se apercebem que a sua condição de assalariados os coloca na mesma situação dos operários da fábrica.
Ficam fora da análise, também, a grande massa dos despossuídos de tudo, até mesmo da exploração capitalista, os excluídos do mercado, que cada vez mais aumentam em número.
Por outro lado, o excedente das forças de trabalho faz ressurgir práticas de produção e trabalho supostamente extintas e que são alegremente incorporadas como estratégia de extração da mais-valia pelo capital 'flexível'.

O que talvez seja mais inesperado é o modo como as novas tecnologias e as novas formas coordenantes de organização permitiram o retorno de sistemas de trabalho doméstico, familiar e paternalista, que Marx tendia a supor que sairiam do negócio ou seriam reduzidos a condições de exploração cruel e de esforço desumanizante a ponto de se tornarem intoleráveis sob o capitalismo avançado. O retorno da superexploração em Nova Iorque e Los Angeles, do trabalho em casa e do 'teletransporte', bem como o enorme crescimento das práticas de trabalho do setor informal por todo o mundo capitalista avançado, representa de fato uma visão bem sombria da história supostamente progressista do capitalismo. (HARVEY, 2001, p. 175)
Este é um fator que debilita sobremaneira o poder de ação dos movimentos sociais que tem dificuldade de penetração nas organizações familiares e patronais, para não citar as 'mafiosas'.
De Masi se refere a uma divisão do trabalho entre máquinas e trabalhadores na sociedade pós-industrial e a uma reorganização do processo na forma de rede que une pequenas unidades, mesmo distantes, por meio da tecnologia.

Reduz-se o conflito de classes, que muda de sinal e se transforma de conflito entre instituições em conflito entre movimentos. (DE MASI, 2000, p. 205)
O autor se alinha com Touraine na "dupla dialética de classes":

[...] há uma classe hegemônica dirigente que olha para a frente e pensa no futuro. Há uma classe hegemônica dominante que se preocupa só em conservar os privilégios adquiridos. Do mesmo modo, há uma classe subalterna propositiva capaz de contrapor os próprios planos aos da classe hegemônica. E há uma classe subalterna defensiva, que se limita a proteger os próprios direitos adquiridos, que recusa a priori os planos da classe hegemônica, mas não é capaz de formular planos alternativos. (DE MASI, 2000, p. 134)
Para mim, estas subdivisões ocorrem no interior das classes que se aliam e compartilham uma determinada visão de mundo hegemônica ou não. Da mesma forma como ocorre com o senso comum e a religião, não existe apenas uma filosofia, existem diversas filosofias ou concepções de mundo e estas concepções de mundo correspondem a normas de comportamento. Segundo Gramsci (2001), escolher uma determinada filosofia é um fato complexo que envolve o intelecto e as ações práticas. Nem sempre a concepção de mundo teorizada e verbalizada é a mesma que se manifesta nas ações práticas. E isso não de deve, na maioria das vezes, à má fé. Explica-se pela adesão de grupos subordinados a filosofia de um grupo dominante, em certas épocas. Nesta situação o grupo subalterno acredita e verbaliza ser sua aquela concepção de mundo, ficando evidente a conexão entre filosofia e política.

A compreensão crítica de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de 'hegemonias' políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real. (GRAMSCI, 2001, p. 103)
A consciência política determina a unidade entre teoria e prática, num devir histórico que parte do sentimento de pertença a um grupo distinto até chegar numa concepção de mundo coerente e unitária.
A forma de luta que De Masi (2000, p. 90) propõe aos países pobres é a do seqüestro e a mercadorização da vida.

Na realidade territórios como a África Central ou a Amazônia que detém o patrimônio florestal, isto é, o oxigênio de todo o planeta, deveriam dizer aos outros países: 'Vocês querem oxigênio? Paguem por ele. Por cada árvore que produz oxigênio e que nós preservamos, vocês devem pagar uma determinada quantia'
O que não se consegue nem com tratados poderia ser conseguido com ameaças.

O desmatamento deveria ser usado como um arsenal, do mesmo modo como os países ricos ameaçam com suas bombas atômicas. (DE MASI, 2000, p. 91)
O fracasso da recente Rio +10 nos mostra a magnitude de nosso poder de negociação [7].
De Masi (2000, p. 91) propõe, também, uma espécie de conscientização televisiva onde: "O morador da favela que assiste a uma série americana descobre que existe um mundo feito de luxos bem diferente do dele. Confronta-se com isso e fica com raiva: é o início da tomada de consciência, que não pode brotar se não houver confronto, se o pobre não puder se comparar ao rico."

A esta concepção perversa de conscientização, que não pode ser creditada a ingenuidade ou alienação do autor, mas que trai uma filosofia da superioridade de uns sobre outros, podemos acrescentar a sua despreocupada previsão do futuro dos trabalhadores do terceiro mundo:

Para os pobres, a principal moeda de troca é a 'audiência'. Trata-se de uma tese que tomo de empréstimo de Echevarria. Até o momento, para se comprar patentes e bens de consumo, se pagava com matéria prima, com mão-de-obra, com bases militares, ou com subordinação política. A nova moeda poderá ser a quantidade de horas que passamos diante de um canal de televisão ou navegando na Internet. (DE MASI, 2000, p. 132)

O paradigma da sociedade espetáculo. Uma concepção de vida que já vem sendo ensinada no Brasil pelas novelas e os reality shows - a pedagogia da realidade alheia.

Os meios de comunicação refletem a realidade ou a moldam? O que vem do quê? O ovo ou a galinha? Como metáfora zoológica, não seria a da cobra que morde o rabo? Oferecemos às pessoas o que as pessoas querem, dizem os meios de comunicação, e assim se absolvem, mas tal oferta, que responde à demanda, gera cada vez mais demanda da mesma oferta: faz-se costume, cria a sua própria necessidade, transforma-se em soma. (GALEANO, 2001, p. 302)
De Masi também escreve o que as pessoas querem ler, e nos deixa sem saber se ele pensa ser o ovo ou a galinha...

Notas:
[7] O encerramento da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, na quarta-feira (04/09/02), foi marcado pela frustração. A conferência não avançou, em relação à Rio-92. Não foram definidos prazos, nem metas de implementação de acordos. Na maioria dos temas, a declaração final prevê vago compromisso dos Estados. (fonte: Boletim da agência de notícias Carta Maior, 22/8-04/9/2002, documento online)

Índice:

:: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial
:: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial
:: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais
:: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências.


[Domingo, Abril 25, 2004] [Su] [link] [ | ]

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[AS TRANSFORMAÇÕES NO MUNDO DO TRABALHO NA VIRADA DE SÉCULO - QUAL A EDUCAÇÃO PREDOMINANTE?]


Nair Casagrande
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação


Ao concordarmos com Saviani (2002:17), quando afirma não ser possível compreendermos radicalmente a história da sociedade contemporânea e a história da educação sem compreendermos o movimento do capital, optamos por privilegiar, na presente reflexão, um aprofundamento teórico na busca de entendermos as transformações do mundo do trabalho nesta virada de século de modo que isto nos permita termos elementos mais sólidos para a compreensão dos significado da educação e da qualificação profissional neste atual momento histórico.
Desta forma, destacaremos inicialmente o debate acerca da reestruturação produtiva no interior do modo de produção capitalista para, em seguida, analisarmos a realidade brasileira frente esta realidade de forma a demonstrar em que contexto se insere a educação e a qualificação profissional nesta virada de milênio e qual a finalidade que esta tem atendido.

Reestruturação Produtiva - a nova máscara do capital

Buscando evidenciar a realidade na qual desenvolvemos nosso estudo, optamos por inicialmente abordar algumas questões que envolvem as atuais transformações do modo de produção capitalista, no sentido de podermos captar suas particularidades e singularidades na realidade estudada.
Contudo, não intencionamos nos delongar em tal discussão, visto que este não constituí nosso objeto de estudo, porém torna-se imprescindível apreendermos as novas configurações que vêm se estabelecendo enquanto estratégias de reanimação do sistema capitalista, de forma a compreendermos o atual momento histórico, que por outro lado, também exige, e em alguns momentos tem evidenciado, possibilidades de reações da classe trabalhadora.
Resgatando o advento do capitalismo a partir do século XVI, parte-se de uma sociedade em que eliminava as formas de servidão existentes no feudalismo. Nesta nova sociedade, começava a emergir um tipo de homem que valoriza a si mesmo e não é valorizado devido ao seu sangue ou família (senhor feudal), mas agora por ter adquirido determinado poder econômico, começando também a adquirir poder político e prestígio social (burguês), valorizando o trabalho como uma unidade do corpo (natureza) e do espírito (vontade livre).
Aquele novo modo de produção que surgia, passava a ser constituído por homens considerados 'livres', onde alguns conseguiam atingir o status de proprietários privados dos meios de trabalho, enquanto outros, denominados trabalhadores livres passariam a vender sua força de trabalho de modo a manter sua subsistência e a de sua família. Estes últimos, despojados então das condições de servidão predominantes no feudalismo, passam então a ser despojados dos meios de trabalhar.
Conforme Marx (apud Chaui, 1994:14), estes eram considerados
Trabalhadores livres num duplo sentido, pois já não aparecem diretamente como meios de produção, como o eram o escravo e o servo, e também já não possuem seus próprios meios de produção, como o lavrador que trabalha na sua própria terra; livres e donos de si mesmos (...) O regime do capital pressupõe a separação entre o trabalhador e a propriedade das condições de realização de seu trabalho (...) Portanto, o processo que engendra o capitalismo só pode ser um: o processo de separação entre o trabalhador e a propriedade das condições de seu trabalho, processo que, por um lado, converte em capital os meios sociais de vida e de produção, enquanto, por outro lado converte os produtores diretos em assalariados.

O trabalho, nestas condições, caracteriza-se então enquanto uma das expressões privilegiadas do homem "livre" percebido como um ser natural e espiritual, atividade em que a sua vontade passa a subordinar o seu corpo para a obtenção de determinado fim. Com o avanço do desenvolvimento da maquinaria também adquiriu o sentido de relação entre a máquina corporal e a máquina sem vida. Assim, o lado livre e espiritual do trabalho ficou encarregado ao burguês sendo este quem determina a finalidade de todo o processo. Enquanto da parte mecânica e corpórea do trabalho, encarregava-se o trabalhador, tal como um simples meio para fins que lhe são estranhos.
Este novo modo de produção que vinha se gestando trazia algo intrínseco à sua existência. Ou seja, o capital não tem como se reproduzir e se acumular sem a exploração do trabalho e do trabalhador, expressando a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. Desta forma, encontrava-se em seu cerne a contradição enquanto categoria [1] intrínseca a este modo de produção.

Neste sentido, consideramos que a história "(...) não é sucessão de fatos no tempo, não é progresso das idéias, mas o modo como homens determinados em condições determinadas criam os meios e as formas de sua existência social, reproduzem ou transformam essa existência social que é econômica, política e cultural." (Chaui, 1994:20). Assim, o capitalismo, tal como outros modos de produção, atravessa fases distintas, não avançando ao longo de uma curva contínua à medida que amadurecem suas contradições internas, mas seguindo um caminho descontínuo, marcado por segmentos distintos.
Ao desenvolver as significativas transformações em suas bases produtivas e em suas relações de produção (esta últimas definidas no sentido estrito das relações de produção do processo de trabalho, quanto entendidas como o conjunto de relações sociais), à medida que o capitalismo evolui, intensificam-se as contradições a ele inerentes (podemos tomar como exemplo as transformações que se evidenciam entre forças produtivas e relações de produção).

Estas transformações, que afetam todo o espectro das relações sociais bem como o quadro institucional da sociedade em que se produzem, lançam bases para distintas possibilidades de reorganização social, podendo-se também levar a transformações mais profundas bem como à origem de um novo modo de produção. Tais possibilidades [2] , enquanto o vir a ser, poderão ser determinadas a partir do jogo de forças das pressões expressas na realidade, a partir da luta de classes enquanto motor da história.

Conforme Dias (1998), desde seu início, o capitalismo teve que, permanentemente, revolucionar-se sem cessar e expropriar os trabalhadores, não só em relação aos instrumentos de produção, mas também no que diz respeito ao conhecimento e à identidade; expropriando-os na sua própria condição de existência enquanto classe, confirmando assim que a história do sistema capitalista é a história da "reestruturação produtiva" (1998:46).
A partir da segunda metade do final do século XX, podemos perceber mais uma nova expressão do modo de produção vigente em que, segundo Netto (1995:69), apoiado na teoria mendeliana, a ordem do capital ao longo deste século,
(...) mostrou-se inepta para promover o crescimento econômico-social em escala ampla, (...); esta inépcia, no entanto, é parte de uma dinâmica em que as crises inerentes ao movimento do capital se operavam no marco de ondas longas de crescimento; tais ondas longas expansivas - segundo a análise mendeliana -, de que é exemplo o padrão de crescimento das economias centrais entre o imediato segundo pós-guerra e a década de sessenta, experimentam uma reversão neste último decênio: impõem-se ondas largas recessivas, onde os picos de crescimento tornam-se conjunturais (Mandel, 1982). As profundas projeções mandelianas, frise-se, apontam para um largo lapso histórico de vigência deste novo padrão de desenvolvimento.

Diversos estudiosos têm se debruçado, neste final de século, sobre as transformações no mundo do trabalho, bem como sobre as mudanças em seu campo ideológico. Entre estes podemos citar NETTO (1990,1995); TONET (1997); FORRESTER (1997); EVANGELISTA (1997); LESSA (1998); DIAS (1998); BRENNER (1999); ANTUNES (1998, 1999, 2000).

Estes estudos têm apontado que as principais mudanças ocorridas no mundo do trabalho são oriundas das profundas transformações na estrutura produtiva do capitalismo, em sua materialidade; bem como em seu campo mais subjetivo, político, ideológico, em seu ideário que orientam suas ações práticas e concretas; apresentando uma acentuação de sua lógica destrutiva. A crise predominante, fez com que o capital impusesse um largo processo de reestruturação em busca da recuperação de seu ciclo de reprodução, afetando fortemente o mundo do trabalho. Esta acentuação da lógica destrutiva, segundo Antunes (1999:19), pode ser reconhecida sob dois aspectos fundamentais:

1. "O padrão produtivo taylorista e fordista vem sendo crescentemente substituído ou alterado pelas formas produtivas flexibilizadas e desregulamentadas, das quais a chamada acumulação flexível e o modelo japonês ou toyotismo são exemplos; e
2. o modelo de regulação social democrático, que deu sustentação ao chamado estado de bem estar social, em vários países centrais, vem também sendo solapado pela (des)regulação neoliberal, privatizante e antisocial.

Neste sentido, buscando fazer frente à crise que se abateu nas últimas décadas do século que findou , o capitalismo articula esta dupla solução: a reestruturação produtiva e o neoliberalismo; ambas constituindo uma mesma processualidade. Assim,
O capitalismo, "superados" os principais obstáculos à sua continuidade, entre eles o desmonte objetivo dos estados "socialistas", coloca em questão o chamado bem estar social. Os capitalistas, "liberam-se" de todo e qualquer compromisso com a satisfação das necessidades reais da população e da ampliação da cidadania. Para tal, levaram a extremos as idéias de liberdade do mercado. Têm ainda uma vantagem adicional: os movimentos partidários, sindical e popular que se reivindicam dos trabalhadores estão, também eles, em uma brutal crise. (Dias, 1998:49).

As duas formas acentuadas de reação em busca de superação da crise, citadas por Antunes, por outro lado, desencadearam como conseqüências duas graves manifestações: a maior e mais intensa destruição e precarização da força humana que trabalha e ainda, a crescente degradação na relação metabólica entre o homem e a natureza, subproduto de uma lógica de funcionamento social que prioriza a produção de mercadorias à vida humana destruindo de maneira nefasta o meio ambiente [3].

Até então, o padrão de produção vigente taylorista/fordista que se impôs durante o século XX com o aperfeiçoamento do processo industrial, constituia-se com base na produção em massa, tendo unidades produtivas concentradas e verticalizadas, o controle rígido dos tempos e dos movimentos, desenvolvidos por um proletariado coletivo e de massa e com um grande controle fabril. Este padrão, no intuito de aumentar as taxas de lucro em seu processo de produção, veio incorporando, a partir da segunda metade do século em que surgiu, uma nova modalidade de gestão fabril, deixando então de ser o único modelo dominante no processo de produção fabril.

O novo modelo que surgia, ainda de acordo com Antunes (1996 e 1999), denominado toyotismo, que se origina no pós-guerra japonês, expressou a necessidade de destruir o sindicalismo de classe lá existente, caracterizando-se como uma forma particular de expansão do capitalismo monopolista no Japão. Assim, suas principais configurações são a produção flexível, a existência de grupos ou equipes de trabalho que se utilizam crescentemente da microeletrônica e da produção bastante heterogênea, mantém os estoques reduzidos havendo um grande processo de terceirização e precarização do trabalho.

Conforme Dias,
A experiência taylorista foi a forma da subsunção real do trabalho ao capital, de forma ainda mais completa praticada o início do século XX. O fordismo, como conjunto de medidas de contratendência, incorporou uma nova modalidade de gestão fabril. O taylorismo foi o instrumento da criação de uma disciplina operária através da perda da sua subjetividade classista: os trabalhadores deveriam abrir mão do controle que possuíam sobre a produção e passar a executar o trabalho a partir da objetividade do capital, centrada na reconstrução das lógicas operativas. À quebra dos sindicatos forçada pela coerção, pelos métodos policiais, se acrescentou a imposição de uma nova subjetividade. (1998:47).

Ao referir-se sobre a reestruturação do processo de produção, o mesmo autor ainda acrescenta que
A gestão do processo produtivo é a forma condensada da política dos dominantes. Condensada porque impõe, no processo de trabalho, a desigualdade real e a impossibilidade da cidadania na esfera do privado. (...) Tenta-se levar o trabalhador ao máximo da desqualificação. (...) Busca eliminar a possibilidade autônoma do trabalhador coletivo porque ela pode propiciar-lhe o seu recusar-se ao capitalismo. E até mesmo, a possibilidade da construção de um novo bloco histórico, de um novo padrão societário. (Dias: 1998:47).

Ainda, acerca destas transformações ocorridas, Antunes destaca que
Trata-se, portanto, de uma aguda destrutividade, que no fundo é a expressão mais profunda da crise estrutural que assola a (des)sociabilização contemporânea: destrói-se força humana que trabalha; destroçam-se os direitos sociais; brutalizam-se enormes contingentes de homens e mulheres que vivem do trabalho; torna-se predatória a relação produção/natureza, criando-se uma monumental sociedade do descartável, que joga fora tudo que serviu como embalagem para as mercadorias e o seu sistema, mantendo-se, entretanto, o circuito reprodutivo do capital.(1999:19).

Conforme Antunes (1999), são quatro elementos essenciais que explicam a crise atual do mundo do trabalho. Um destes fatores geradores se mostrou com a crise estrutural do capitalismo, especialmente a partir do início dos anos 70, que assolou o conjunto de economias capitalistas com uma intensidade bastante profunda, tendo levado o capital a desenvolver
"práticas materiais da destrutiva auto-reprodução ampliada do ponto em que se faz surgir o espectro da destruição global, em lugar de aceitar as requeridas restrições positivas no interior da produção para a satisfação das necessidades humanas" Mészáros, 1989:103 (in Antunes:1999:21).

Tal crise fez com que o capital buscasse implementar um vastíssimo processo de reestruturação visando a superação de seu ciclo de reprodução, com fortes conseqüências para o mundo do trabalho.
O segundo elemento relevante que provocou um encolhimento do movimento operário, é resultado do explosivo desmoronamento do Leste Europeu, bem como da quase totalidade dos países que tentaram uma transição socialista, com a ex-União Soviética à frente, provocando a falsa idéia do fim do socialismo no interior do mundo do trabalho.
Para Netto,
a crise do socialismo real tem uma inequívoca centralidade política, a que remetem os bloqueios do crescimento econômico: deriva da ausência de uma plena socialização do poder político (...) onde somente a implementação da democracia socialista, capaz de socializar efetivamente o poder político e rebater imediatamente no ordenamento econômico, com reais processos autogestionários aptos para otimizar (com a liquidação de traços e excrescência burocráticos) a alocação central de recursos, poderia garantir o desenvolvimento exitoso das experiências pós-revolucionárias.

Ele ainda acrescenta que
A crise do socialismo real, nesta ótica, apenas comprova que a superação positiva da ordem do capital reclama as radicais socialização do poder político e socialização da economia, sem as quais a alternativa comunista é impensável. É a crise de uma forma histórica precisa de transição, aquela que se processou localizadamente nas áreas em que as instituições próprias do mundo burguês mostravam-se de forma atrofiada. Não é, pois, a infirmação do projeto socialista revolucionário nem a negação da possibilidade da transição socialista. (...) a crise do socialismo real demonstra que a viabilidade da superação da ordem do capital é função de uma política - tão incompatível com os limites do movimento do capital quanto com as restrições de uma ditadura exercida, ainda que em seu nome, sobre os trabalhadores. (1995:72).

Com o fim do chamado bloco socialista, os direitos e as conquistas sociais dos trabalhadores têm sofrido forte ataque e rebaixamento nos países capitalistas centrais, já que, segundo o capital, dá-se a inexistência do perigo socialista.

Tal como um efeito dominó, soma-se a esta questão um terceiro elemento apontado por Antunes, que se caracteriza pelo desmoronamento da esquerda tradicional da era "stalinista". Segundo ele, a maior expressão deste aspecto deu-se com um agudo processo político e ideológico de socialdemocratização da esquerda e de sua conseqüente atuação subordinada à ordem do capital. Com isto, as esquerdas sindical e partidária foram fortemente atingidas pela opção socialdemocrática, repercutindo diretamente no interior da classe trabalhadora; bem como acentuando a institucionalização e burocratização do sindicalismo de esquerda.
Nesta mesma direção, o quarto elemento central da atual crise, dá-se com o processo de regressão da socialdemocracia que, com a expansão do neoliberalismo a partir dos anos 70 e a conseqüente crise do "Welfare State" [4], passou a atuar de maneira muito próxima da agenda neoliberal. Assim, o neoliberalismo passou a ditar, não o ideário, mas também os programas a serem implementados nos países capitalistas centrais, inicialmente, para em seguida se estenderem aos países capitalistas periféricos através da implementação e avanço da reestruturação produtiva, privatização acelerada, enxugamento do estado, e a submissão de políticas fiscais e monetárias sintonizadas com os organismos mundiais de hegemonia do capital tal como o Fundo Monetário Internacional.

Segundo Netto, o fundamento sócio-político objetivado com o "Welfare State", que veio a tona no pós Segunda Guerra Mundial e brilhou até a década de sessenta, consistia nos possíveis ganhos no marco da larga onda expansiva do capitalismo. Revertida esta onda, afirma que o arranjo capitalista se problematizou visceralmente onde
A crise do Estado de bem-estar social, (...) evidencia que a dinâmica crítica desta ordem alçou-se a um nível no interior do qual a sua reprodução tende a requisitar, progressivamente, a eliminação das garantias sociais e dos controles mínimos a que o capital foi obrigado naquele arranjo. Significa que o patamar de desenvolvimento atingido pela ordem do capital incompatibiliza cada vez mais o seu movimento com as instituições sócio-políticas que, por um decurso temporal limitado, tornaram-no aceitável para grande contingentes humanos. (1995:70).

Em relação a este contexto colocado para o final deste século, podemos então observar suas implicações sobre o mundo do trabalho, gerando mudanças específicas no processo de trabalho.

As inovações impostas pelo toyotismo, contrapondo-se ao taylorismo/fordismo, podem ser elencadas da seguinte forma: sua produção passa a ser muito vinculada à demanda dos produtos; fundamenta-se no trabalho operário em equipe, com multivariedade de funções; e tem como princípio o "just in time", buscando atingir o melhor aproveitamento possível do tempo de produção e funcionando segundo o sistema "kanban", que é formado por placas ou senhas de comando que permitem a reposição de peças e de estoque que, no toyotismo, devem ser mínimos. Se na fábrica fordista aproximadamente 75% de um dado produto era produzido em seu interior, agora somente cerca de 25% é internamente produzido, horizontalizando o processo produtivo e transferindo a terceiros grande parte do que anteriormente era produzido dentro dela.

Ainda, a falácia da qualidade total no processo produtivo passa a ter um importante papel controlador. O Controle de Qualidade Total (CQT) difere dos controles de qualidades tradicionais, pois este agora tem caráter sistêmico e requer a mobilização e envolvimento de todos. Este modelo, apesar de dizer-se interessado na qualidade do produto ou serviço buscando a satisfação do cliente; seu alvo essencial é
o controle do processo de trabalho através de formas requintadas de incorporação do saber dos trabalhadores, dadas pelo envolvimento incitado, cooptado e manipulatório de sua participação na gerência dos processos (Fidalgo, 1994: 07).

Assim, podemos observar que a nova forma flexibilizada de acumulação capitalista teve conseqüências enormes no mundo do trabalho e, em especial, ao que diz respeito à classe trabalhadora, dentre as quais levantamos aquelas apontadas por Antunes (1999:24):
1) há uma crescente redução do proletariado fabril estável, que se desenvolveu na vigência do binômio taylorismo/fordismo e que vem diminuindo com a reestruturação, flexibilização e desconcentração do espaço físico produtivo, típico da fase do toyotismo; 2) há um enorme incremento do novo proletariado, do subproletariado fabril e de serviços, o que tem sido denominado mundialmente de trabalho precarizado. São os terceirizados, subcontratados, 'part-time', entre tantas outras formas assemelhadas, que se expandem em inúmeras partes do mundo. (...); 3) vivencia-se um aumento significativo do trabalho feminino, que atinge mais de 40% da força de trabalho nos países avançados, e que tem sido preferencialmente absorvido pelo capital no universo do trabalho precarizado e desregulamentado; 4) há um incremento dos assalariados médios e de serviços, o que possibilitou um significativo incremento no sindicalismo destes setores, ainda que o setor de serviços já presencie também níveis de desemprego acentuados; 5) há exclusão dos jovens e pessoas de meia idade do mercado de trabalho dos países centrais (...); 6) há uma inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho, particularmente nos países asiáticos, latino-americanos, etc.; e 7) há uma expansão do que Marx (1978) chamou de trabalho social combinado, onde trabalhadores de diversas partes do mundo participam do processo de produção e de serviços. O que é evidente, não caminha no sentido da elimininação da classe trabalhadora, mas da sua precarização e utilização de maneira ainda mais intensificada. Em outras palavras: aumentam os níveis de exploração do trabalho.

Deste modo, evidencia-se uma fragmentação da classe trabalhadora, bem como uma maior complexificação e heterogeneização da mesma. Por um lado, em menor escala, criou-se o trabalhador polivalente e multifuncional da era informacional, com capacidade para operar máquinas mais sofisticadas, exercitando com maior intensidade sua dimensão intelectual. E por outro lado, origina-se uma massa de trabalhadores desqualificados, precarizados que hoje está se submetendo aos empregos temporários, parciais ("part time"), ou, ainda, vivenciando o desemprego estrutural.

Frente a tantos ataques, concordamos com Antunes quando afirma que
Ao contrário, entretanto, daqueles que defendem o fim do papel central da classe trabalhadora no mundo atual, o desafio maior da classe-que-vive-do-trabalho [5] , nesta transição do século XX para o XXI, é soldar os laços de pertencimento de classe existentes entre os diversos segmentos que compreendem o mundo do trabalho. E, desse modo, procurar articular desde aqueles segmentos que exercem um papel central no processo de criação de valores de troca, até aqueles segmentos que estão mais à margem do processo produtivo, mas que, pelas condições precárias em que se encontram, constituem contingentes sociais potencialmente rebeldes frente ao capital e suas formas de (des)sociabilização. (1999:25).

Neste sentido, continua o autor,
desregulamentação, flexibilização, terceirização, downsizing, empresa enxuta, bem como todo esse receituário que se esparrama pelo mundo empresarial, são expressões de uma lógica societal onde tem-se a prevalência do capital sobre a força humana de trabalho, que é considerada somente na exata medida em que é imprescindível para a reprodução deste mesmo capital. Isso porque o capital pode diminuir o trabalho vivo, mas não eliminá-lo. Pode intensificar sua utilização, pode precarizá-lo e mesmo desempregar parcelas imensas, mas não pode extingui-lo.(idem, p. 26)

Além disso,
Como criador de valores de uso, como trabalho útil, é o trabalho, por isso, uma condição de existência do homem, independente de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e, portanto, da vida humana. (Marx, 1988: 50).

Afirma-se, deste modo, que a tese do fim da classe trabalhadora, mesmo quando se restringe aos países centrais, é desprovida de fundamentação, tanto empírica quanto analiticamente, pois mesmo a simples sobrevivência da economia capitalista estaria comprometida com tal afirmação. Assim, confirma-se ainda, o equívoco da perspectiva de eliminação da classe-que-vive-do-trabalho, enquanto forem vigentes os pilares que mantêm o modo de produção capitalista.

E, por outro lado, enfatiza-se o sentido contemporâneo da classe trabalhadora (e do trabalho), compreendendo esta no seguinte sentido: 1) todos aqueles que vendem sua força de trabalho, incluindo tanto o trabalho produtivo quanto o improdutivo (no sentido dado por Marx); 2) inclui os assalariados do setor de serviços e também o proletariado rural; 3) inclui o proletariado precarizado, sem direitos e também os trabalhadores desempregados, que compreendem o exército industrial de reserva; 4) e exclui, naturalmente, os gestores e altos funcionários do capital, que recebem rendimentos elevados ou vivem de juros. (Antunes, 1999:27).

No quadro que se coloca, é preciso resgatarmos as alternativas possíveis em busca de uma nova lógica social porque
(...)mesmo que não estejam "maduras" as condições para a transição socialista, é o conjunto de lutas que a tenham como escopo que pode bloquear e reverter a dinâmica que hoje compele o movimento do capital a rumar para a barbárie. (Netto, 1995: 85).

E neste sentido, ainda Antunes nos aponta quatro aspectos fundamentais em torno das alternativas que podem ser resgatadas, destacando que:

1. "É preciso alterar a lógica da produção societal; a produção deve ser prioritariamente voltada para produzir valores de uso e não valores de troca. Sabe-se que a humanidade teria condições de se reproduzir socialmente, em escala mundial, se a produção destrutiva fosse eliminada e se a produção social fosse voltada não para a lógica do mercado, mas para a produção de coisas socialmente úteis. Trabalhando poucas horas do dia, o mundo poderia reproduzir-se de maneira não-destrutiva, instaurando um novo sistema de metabolismo societal;
2. A produção de coisas socialmente úteis deve ter como critério o tempo disponível e não o tempo excedente, que preside a sociedade contemporânea. (Mészaros: 1989). Com isso, o trabalho social, dotado de maior dimensão humana e societal, perderia seu caráter fetichizado e estranhado, tal como se manifesta hoje e, além de ganhar um sentido de auto-atividade, abriria possibilidades efetivas para um tempo livre cheio de sentido, além da esfera do trabalho, o que é uma impossibilidade na sociedade regida pela lógica do capital. Até porque não pode haver tempo verdadeiramente livre erigido sobre trabalho coisificado e estranhado. O tempo livre atualmente existente é tempo para consumir mercadorias, sejam elas materiais ou imateriais. O tempo fora do trabalho também está fortemente poluído pelo fetichismo da mercadoria.
3. É preciso empreender mudanças e resistências que, no plano imediato, incorporem as aspirações nascidas no interior da vida cotidiana da classe-que-vive-do-trabalho. Mas é fundamental que tenham, no seu sentido mais profundo, uma direção essencialmente contrária à lógica destrutiva do capital.
4. Reinventar um projeto socialista global, que resgate os valores mais essenciais da humanidade. O que confere uma enorme atualidade ao empreendimento socialista, por certo totalmente distinto da tragédia das experiências do século XX, que deformaram em quase tudo os mais profundos ideais de emancipação." (1999:29).

Sabemos que a realidade colocada, bem como os desafios que ela nos impõe, são bastante complexos. Contudo, o confronto da luta de classe frente à dinâmica da realidade, depende, neste momento histórico, da capacidade de reivenção de novas estratégias de superação da dominação. Neste viés, a classe trabalhadora já tem demonstrado historicamente sua potencialidade de recriação do novo.

Reestruturação Produtiva, Desemprego e Precarização - O caos brasileiro

A partir dos estudos do economista Jorge Mattoso (1999), dos quais nos utilizaremos aqui para caracterizar a atual situação brasileira, podemos perceber que a inserção do Brasil neste contexto da reestruturação capitalista no final do século XX, país localizado na periferia das grandes potências econômicas mundiais, expressa hoje, como nunca visto anteriormente, as mazelas de uma política econômica de submissão ao sistema capitalista e às relações de classe nele vigentes.

O conjunto de acontecimentos que demarcam a virada deste século para a humanidade, sob o modo de produção capitalista, impõe novos desafios a serem enfrentados pois, segundo Mattoso,
Na era da internacionalização e da financeirização do capital, os países que adotaram estratégias de inserção passivas e subordinadas no mercado mundial pagam um duplo preço. Submetem-se aos novos mecanismos por meio dos quais o grande capital busca maximizar a extração do excedente, ao mesmo tempo que debilitam a produção e o emprego nacional e colocam o trabalho - que nunca havia alcançado os níveis de integração dos países avançados - em condições de intensa desestruturação e anomia. (1999:19).

No Brasil, o processo de abertura comercial e financeira intensificado a partir do final da década de 80, jogou a economia na selva da competição internacional sem qualquer proteção e com medíocre crescimento da produção. Em tal dinâmica, as grandes empresas nacionais tornaram-se debilitadas frente aos seus concorrentes internacionais, do setor financeiro e do governo, submetendo-se ao predomínio da esfera financeira e dos credores, bem como à destruição da produção e do emprego nacional. Por outro lado,
(...) estas mesmas empresas se viram fortalecidas relativamente aos trabalhadores, cujo poder de barganha foi ainda mais depauperado pelo desemprego e pela precarização do trabalho. Em geral, quanto mais debilitadas e subservientes ao governo, às finanças e aos concorrentes são as empresas, mais tendem a exercer, de forma autoritária e unilateral o seu acrescido poder junto aos trabalhadores. (Mattoso,1999:19).

Conforme pode ser comprovado através dos indicadores sócio-econômicos, o estudioso nos aponta que
A economia não está apenas paralisada há vários anos, mas profundamente desarticulada, desestruturada e submetida aos desígnios de uma elite doméstica antinacional e do capital financeiro internacional. O Estado nacional foi desmontado a golpes de privatizações lesivas públicas. O desemprego atinge um em cada cinco habitantes das grandes cidades. A informalidade atinge outros dois em cada cinco. A pobreza alcança níveis até hoje desconhecidos. O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) considera que cerca de 57 milhões de brasileiros - o equivalente a 35% da população - estão atualmente abaixo da linha de pobreza e que entre 16 e 17 milhões de brasileiros vivem em condições de miséria absoluta. A violência tronou-se parte de um cotidiano que se assemelha a uma verdadeira guerra civil. Em um único fim de semana de 1999, os jornais noticiaram o assassinato de 59 pessoas em São Paulo. No mês de maio foram 415 assassinatos apenas em São Paulo. A sociedade brasileira, estruturalmente desigual, aparece agora fragmentada e contaminada por forte anomia, com uma acentuada desarticulação dos milhares de brasileiros sem teto, sem terra, sem salário, sem emprego e, sobretudo, sem esperança. (Mattoso, 1999:22).

Segundo este economista, apesar de o Brasil ter sido capaz de assegurar taxas de crescimento econômico mais elevadas e ter apresentado condições de gerar mais empregos que a maioria dos países do mundo no pós-Segunda Guerra mundial, isto não resultou em melhorias da distribuição da renda no país. Para tanto, aponta quatro fatores que podem nos fazer compreender melhor este processo, os quais são resultantes de uma sólida aliança conservadora entre os novos ricos oriundos da industrialização do campo e da cidade e os velhos ricos da grande propriedade fundiária.

Inicialmente, é preciso ser reconhecido que esta herança social vem de longe, do escravismo, de uma estrutura vigente de grande propriedade rural e da solução conservadora historicamente dada à questão agrária no país. Ou seja, a ausência de uma reforma agrária somente reforçou a concentração da propriedade e o atraso produtivo.

Assim, a partir dos anos 60, a combinação da ausência de reforma agrária com um processo de modernização agrícola levou à reprodução da pobreza, de baixos salários e à desintegração econômica e social dos pequenos produtores. Mesmo com o intenso processo de migração para as cidades, o imigrante rural encontrou espaços de inserção econômica nos grandes centros urbanos, inicialmente na construção civil e posteriormente na indústria e nos serviços. Porém, intensificou-se o "inchaço" das cidades, de forma precária, devido à intensa concorrência entre trabalhadores, em sua maioria pouco qualificados, resultante das pressões oriundas de um processo rápido de urbanização e de acentuados movimentos migratórios.

Um segundo aspecto apontado pelo autor, ressalta o lento processo de organização dos trabalhadores, bem como de maior pressão social em prol da democratização das condições e relações de trabalho e por uma melhor distribuição de renda, o que teria sido bloqueado pela repressão político-militar, após ter parecido se ampliar com as reformas de base propugnadas no final dos anos 50 e início dos anos 60. Esta conjuntura demonstrava que os mesmos setores conservadores, que historicamente impediram a transformação da estrutura agrária no país, buscaram o apoio militar para impedir que uma organização sindicalista e social pudesse impulsionar a distribuição da renda e a constituição de uma sociedade mais justa.

O terceiro fator responsável pela degradação das relações sociais no Brasil nesta virada de milênio, pode ser percebido no fato de que as políticas sociais também foram tardiamente desenvolvidas em formas pouco universalizantes e cidadãs, favorecendo assim a desigualdade no acesso as necessidades básicas de bem estar como a educação, saúde e a previdência ou assistência social.

Em quarto lugar, afetando diretamente a classe trabalhadora, o salário mínimo sofreu um rebaixamento bastante significativo desde os anos 60, promovendo-se assim uma acentuada diferenciação entre os salários e colocando o Brasil como vencedor de mais um dos índices indicadores da desigualdade social. Assim, o país se caracteriza hoje por ter um dos mais altos diferenciais entre os salários mais altos e os salários de base, demonstrando serem comuns diferenças salariais superiores a 1 para 100 no interior de uma mesma empresa. Com isso, esta maior desigualdade entre os assalariados apenas veio somar-se à já intensa desigualdade entre rendimentos e lucros ou entre proprietários e não-proprietários.

Conforme Mattoso (1999:39), desde os anos 60 houve um significativo rebaixamento do salário mínimo, sendo que hoje, o valor do salário mínimo é de cerca de U$75. Apesar de que desde 1995 se mantém estável em termos reais, não apresenta mudanças significativas em seu extremamente baixo patamar. Ainda, soma-se a este dado, o fato de que não são poucos os brasileiros que ainda recebem salário mínimo, apresentando-se o índice de 21 % dos trabalhadores ocupados recebendo até um salário mínimo; e 18,7% recebendo entre um e dois salários mínimos.

Desta forma, todo este conjunto de fatores contribuiu para dificultar a organização social, a estruturação mais favorável do mercado de trabalho urbano, bem como uma distribuição de renda de forma democrática, evidenciando-se naquele período, conforme os dados apresentados, o acirramento da concentração de renda no país (ver tabela abaixo).

Tabela 1: Distribuição de renda entre pessoas economicamente ativas com rendimento - Brasil - 1960/1990
Ano50% mais pobres10% mais ricos10% mais pobres
196017,7 39,71,2
19701546,51,2
198014,147,91,2
199011,948,70,8

Fonte: GONÇALVES, 1998 (apud MATTOSO, 1999, p.11).

O produto destas posturas políticas que se apresentaram naquele período e que têm sido hegemônicas na história brasileira, apresentou suas formas mais degradantes durante a década de 90, anos em que o crescimento econômico e a mobilidade social pareciam ter sucumbido à nossa realidade. Para Mattoso,
Depois dos anos 80, a "década perdida", parecia que nada poderia ser pior. No entanto, o desempenho econômico da década de 1990 não somente foi a metade do ocorrido nos anos 80 como foi o pior do século, e com ele se esvanece o sonho de uma melhor distribuição de renda e de uma sociedade mais justa. (1999:21).

Ao longo dos anos 90, intensificam-se o desemprego e a precarização das condições [6] e relações de trabalho [7], fenômenos de amplitude nacional que apresentam maior destaque no primeiro governo de FHC (1995-1998). Segundo Mattoso,
O Brasil nunca conviveu com um desemprego tão elevado. Tampouco com um grau crescente de deterioração das condições de trabalho, com o crescimento vertiginoso do trabalho temporário, por tempo determinado, sem renda fixa, em tempo parcial, enfim, os milhares de bicos que se espalharam pelo país.(1999:09).

O governo de Fernando Henrique Cardoso, que, como dito anteriormente, assumiu a presidência em 1995, teve como principais medidas a busca da estabilidade econômica e as reformas constitucionais necessárias para atrair investimentos estrangeiros para o país. Durante os anos de 1995-1997, consegue derrubar o monopólio em setores como petróleo, telecomunicações, gás canalizado e navegação de cabotagem, também privatizando grandes empresas estatais como a Companhia Vale do Rio Doce. Em 1997, seu governo investe toda sua força política para conseguir a aprovação da emenda que permite a reeleição dos ocupantes de cargos executivos, o que também permitiu sua reeleição em 1998.

Segundo Mattoso, este governo
(...) consolidou a abertura comercial e financeira indiscriminada, iniciada por Collor e Itamar Franco, dispensou a constituição de um projeto de desenvolvimento ou de políticas setoriais de defesa da produção e do emprego nacionais e caracterizou quaisquer políticas de defesa da produção e do emprego nacionais como "corporativas" ou "inflacionárias". (...) Essa política aventureira - baseada no tripé abertura econômica e financeira indiscriminada, sobrevalorização do real e juros elevados - teve por conseqüência um crescimento econômico medíocre e uma profunda desestruturação produtiva, cujas trágicas conseqüências sobre o mercado de trabalho nacional já observamos, além da ampliação dos desequilíbrios das contas públicas e das contas externas e do veloz desmonte do Estado. (1999:23).

Durante os anos 90 foram queimados cerca de 3,3 milhões de postos de trabalho formais da economia brasileira, sendo que após a entrada do governo de FHC, contabilizou-se uma queima de 1,8 milhão de empregos formais, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados (CAGED), do Ministério do Trabalho. (apud Mattoso, 1999:18). Assim, em dez anos, a taxa de desemprego no Brasil pulou de 3,4% em 1989 para 7,8% em 1999. (IBGE, in Mattoso, 1999), aumentando também o processo de precarização das relações e condições de trabalho, conforme pode ser visto nos índices a seguir.
Dezembro 1989 (%)
Assalariados com carteira 59,5
Assalariados sem carteira 18,4
Conta própria 17,7
Empregadores 4,4

Junho 1999 (%)
Assalariados com carteira 44,7
Assalariados sem carteira 26,9
Conta própria 23,5
Empregadores 4,9

Fonte: PME/IBGE (in MATTOSO, 1999: 15).

Já os dados de maio de 2002, ainda demonstram a continuidade do agravamento destes índices conforme podemos ver nos percentuais de desemprego de algumas das principais capitais brasileiras: Salvador (28,4%), Recife (21,7%), São Paulo (19,7%) e Porto Alegre (16,0%) [8].

O crescimento dos trabalhadores sem carteira de trabalho assinada e por conta própria demonstra uma redução do mercado formal de trabalho, ou seja, aquele regulamentado pelas leis trabalhistas, integrado aos mecanismos institucionais, que garante a proteção social ao trabalhador tais como a Previdência Social, seguro-desemprego, e Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

A partir das pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE), Mattoso afirma que
(...) hoje mais de 50% dos ocupados brasileiros das grandes cidades se encontram em algum tipo de informalidade, grande parte sem registro e garantias mínimas de saúde, aposentadoria, seguro-desemprego, FGTS. Ou seja, três, em cada cinco brasileiros ativos das grandes cidades estão ou desempregados (um em cinco) ou na informalidade (dois em cada cinco), sendo que destes últimos uma grande parcela apresenta evidente degradação das condições de trabalho e de seguridade social.", em que "seriam cerca de 24 milhões de brasileiros nessas condições, dos quais mais de 12 milhões trabalhariam sem registro em carteira porque se encontram desempregados e não conseguem outro tipo de trabalho. (1999:16).

A história de uma política sócio-econômica favorável apenas às classes dominantes que vem predominando no Brasil, tem demonstrado o brutal ataque que a classe trabalhadora vem enfrentando em âmbito mundial e que se expressa com suas particularidades em cada país.

Frigotto (1998:39), ao evidenciar que as dimensões mais cruciais dos limites do capital se demonstram através espectro da destruição de postos de trabalho, bem como da precarização deste e da abolição dos direitos sociais, num quadro de aumento do capital morto e diminuição do capital vivo, questiona se esta crise de final de século do modo de produção capitalista seria igual às anteriores. Ele mesmo nos responde que a continuidade desta lógica apenas se manterá sob o aumento cada vez maior da destruição do meio ambiente, destruição e esterilização do trabalho e o aumento da expropriação dos trabalhadores.

Ainda, este autor (1998:44), ressalta que novamente afirma-se que a inserção e o ajuste dos países 'não desenvolvidos' ou 'em desenvolvimento' no processo de globalização e reestruturação produtiva dependem da educação básica, bem como da qualificação e requalificação da formação profissional. Mas qual seria esta educação e formação?

Conforme as próprias palavras do autor,
Trata-se de uma educação e formação que desenvolvam habilidades básicas no plano do conhecimento, das atitudes e dos valores, produzindo competências para gestão da qualidade, para a produtividade e competitividade e, conseqüentemente, para a "empregabilidade". Todos estes parâmetros devem ser definidos no mundo produtivo, e portanto os intelectuais coletivos confiáveis deste novo conformismo são os organismos internacionais (Banco Mundial, OIT) e os organismos vinculados ao mundo produtivo de cada país. (1998:45)

Com certeza, não podemos negar as possibilidades contraditórias existentes na realidade de maneira que a educação possa permitir que o trabalhador adquira consciência de classe. Contudo, este ideário educacional predominante, dentro da atual realidade social do mundo do trabalho que acabamos de levantar, nos leva a crer que tem essencialmente visado à adequação do agravamento e intensificação da exploração do trabalho assalariado e das demais formas de trabalho subordinado ao capital com a finalidade do aumento das taxas de lucro.

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Notas:

[1] A categoria contradição, conforme Cheptulin (1982), "(...) é a unidade dos contrários e a luta de contrários que se excluem e se supõem mutuamente." onde "Os contrários, sendo aspectos diferentes de uma única e mesma essência, não apenas excluem-se uns aos outros, mas também coincidem entre si, e exprimem não apenas a diferença, mas também a identidade. (...) Assim, a identidade dos contrários é um momento da contradição, que é tão necessária, quanto sua diferença." (p. 288).
[2]A categoria possibilidade é entendida como "(...) as formações materiais, propriedades, estados, que não existem na realidade, mas que podem manifestar-se em decorrência da capacidade das coisas materiais (da matéria) de passar umas nas outras. A possibilidade, realizando-se, transforma-se em realidade, e é por isso que podemos definir a realidade como uma possibilidade já realizada e a possibilidade como realidade potencial." (Cheptulin:1982:338).
[3]Nos últimos cinqüenta anos do século XX, os Estados Unidos (liberando 186,1 bilhões de dólares), a União Européia (liberando 127,8 bilhões) e a Rússia (liberando 68,4 bilhões) bateram os recordes de emissão de gás carbônico - o principal responsável pelo aquecimento global que, tem provocado o derretimento das geleiras polares que pode aumentar o nível do mar em até 80 centímetros. Segundo previsão de especialistas, a continuar os altos índices de liberação de dióxido de carbono (em 2000 foram liberados 7 bilhões de tonelada na atmosfera) a temperatura média da Terra pode aumentar 5,8 graus celsius até 2100. Com o fenômeno, ainda viriam as secas prolongadas e agudas. Com isto, em 25 anos, também 5,4 bilhões de pessoas teriam de racionar água. Destacam-se nesta problemática, os retrocessos na busca de soluções. O maior país emissor de gases poluentes, com 25 % de todas as descargas de gases que aumentam a absorção de calor pela atmosfera, expressa através de seu atual presidente, Georg W. Bush, sua negação em cumprir os acordos internacionais de controle do efeito estufa. Outra problemática ambiental vivida na atualidade é que a humanidade despeja na natureza 30 bilhões de toneladas de lixo todos os anos, poluição que também afeta principalmente os recursos hídricos. Apesar de dois terços do planeta ser cobertos por água, apenas uma fração dela se mantém potável. Com isso, a falta aguda de água já atinge 1,3 bilhão de pessoas em todo o mundo. Quanto à questão das áreas de floresta, já dois terços das florestas nativas das Américas foram destruídas. No Brasil, 93% da Mata Atlântica, 50% do cerrado e 15% da Floresta Amazônica já foram perdidos. (Revista VEJA, 2001, Ano 34, No. 15).
[4]O "Welfare State" caracteriza-se por ser o estado de bem-estar social, ou intervencionista que surgiu após a Segunda Guerra Mundial, na Europa, garantindo mínimos direitos sociais, como saúde, educação, habitação, etc.
[5]Termo original de Ricardo Antunes.
[6]Entendemos o termo precarização das condições de trabalho caracterizando-se como o "Aumento do caráter precário das condições de trabalho, com a ampliação do trabalho assalariado sem carteira do trabalho independente (por conta própria). Esta precarização pode ser identificada pelo aumento do trabalho por tempo determinado, sem renda fixa, em tempo parcial, enfim, pelo que se costuma chamar de bico. Em geral, a precarização é identificada com a ausência de contribuição à Previdência Social e, portanto, sem direito à aposentadoria." (Mattoso, 1999:08).
[7]Acerca da precarização das relações de trabalho compreendemos esta como o "processo de deterioração das relações de trabalho, com a ampliação da desregulamentação. Dos contratos temporários, de falsas cooperativas de trabalho, de contratos por empresa ou mesmo unilaterais." (Mattoso, 1999:08).
[8]Fonte: Informe PED - Pesquisa de Emprego e Desemprego na região metropolitana de Porto Alegre, da Fundação de Economia e Estatística (FEE). Porto Alegre, Ano 11, no. 06, Junho/2002, p. 04.


[Segunda-feira, Abril 19, 2004] [Su] [link] [ | ]

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[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - II parte]


Suzana de Souza Gutierrez
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação


O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial

A tese central de De Masi (2000, p. 16) é a de que "estamos caminhando em direção à uma sociedade fundada não mais no trabalho, mas no tempo vago". Uma sociedade onde as pessoas trabalharão cada vez menos e, em trabalhando, farão cada vez mais atividades intelectuais e criativas e menos atividades manuais e repetitivas.

A principal característica da atividade criativa é a que ela praticamente não se distingue do jogo e do aprendizado, ficando cada vez mais difícil separar estas três dimensões que antes, em nossa vida, tinham sido separadas de uma maneira clara e artificial. Quando trabalho, estudo e jogo coincidem, estamos diante daquela síntese exaltante que eu chamo de "ócio criativo". (DE MASI, 2000, p. 16)
De Masi (2000) relaciona esta nova configuração das atividades humanas com a passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade pós-industrial. Estabelece, também, uma comparação com a antiguidade grega, onde os homens livres exerciam atividades 'ociosas', ou seja, dedicavam-se à política, à filosofia, ao estudo e aos esportes. O trabalho ficava por conta dos escravos. Hoje não temos mais escravos, mas temos as máquinas e o seu potencial de possibilitar a homens e mulheres exercer o ócio criativo. No meu entender, não fica claro ao longo do livro como isso pode ser concretizado numa sociedade onde as máquinas são propriedade de uns e usadas para substituir o trabalho humano, deixando cada vez mais pessoas com a impossibilidade de prover sua subsistência.

Em várias passagens, De Masi (2000) associa o trabalho à necessidade e à atividades tediosas e cansativas. Trabalho é sinônimo de suor, de trabalho manual e repetitivo, onde o trabalhador 'tradicional' é o operário. Um trabalho onde o indivíduo não cria e recria o mundo e a sociedade e, portanto, um trabalho que destitui a ação humana sobre a realidade objetiva e, assim, desumaniza, pois:

É precisamente na ação sobre o mundo objetivo que o homem se manifesta como verdadeiro ser genérico. Tal produção é sua vida genérica ativa. Através dela, a natureza surge como a sua obra e a sua realidade. Por conseguinte, o objeto do trabalho é a objetivação da vida genérica do homem: ao não se reproduzir apenas intelectualmente, como na consciência, mas ativamente, ele duplica-se de modo real e intui o seu próprio reflexo num mundo por ele criado (MARX, 1993, p. 165)


Na realidade, muitas atividades podem ser realizadas como trabalho ou como lazer, caso sejam movidas ou não pela necessidade de sobrevivência. Uma atividade que é realizada com a finalidade de manutenção da vida ou por coerção pode ser ou não ser agradável e prazeirosa, dependendo da subjetividade do indivíduo, mas é certamente um trabalho. Uma atividade executada como lazer ou como solidariedade é trabalho na medida em que modifica a realidade objetiva do mundo. Neste sentido, entendo que o ócio criativo, na definição de De Masi é trabalho humano. Entendo, também, que a questão central em relação ao trabalho, é a necessidade de vender a força de trabalho. Esta necessidade e todos os seus desdobramentos desfiguram a atuação humana na produção da sua vida e do seu mundo.

De Masi (2000, p. 51) fala do sentido do trabalho na sociedade industrial nos seguintes termos:

Para os católicos, o trabalho é uma sentença condenatória, como reafirmará a Rerum Novarum, em 1891. Para os liberais, é uma disputa mercantil. Para Marx, é a única possibilidade de redenção junto com a revolução, e por isso é um direito a ser conquistado. Somente Taylor, no plano prático, e Lafargue, no plano teórico, consideram o trabalho um mal que deve ser reduzido ao mínimo, ou evitado.
Com relação à Igreja católica, concordo com o autor, porém em relação aos liberais, penso que para eles o trabalho significa um dos itens a serem considerados na economia de mercado. Seu interesse circunscreve-se apenas a otimização da performance do trabalho. Para Marx , o trabalho tem um significado maior na vida humana, que não se limita a ser meio de prover a subsistência. Para Marx, o trabalho é ação objetiva que transforma o mundo, não como possibilidade redentora, como diz De Masi, mas como possibilidade de hominização.

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais. Não se trata aqui das formas instintivas, animais, de trabalho. Quando o trabalhador chega ao mercado para vender sua força de trabalho, é imensa a distância histórica que medeia entre sua condição e a do homem primitivo com sua forma ainda instintiva de trabalho. Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador. (MARX ; ENGELS, 2002b)
Quando De Masi (2000) fala em proletário, fala em trabalhadores manuais e operários da indústria, não incluindo todos os assalariados. Para Marx, proletário era o trabalhador assalariado:
Entende-se por burguesia a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social, que empregam o trabalho assalariado. Entende-se por proletário a classe dos operários assalariados modernos que, privados dos meios de produção próprios, se vêm obrigados a vender a sua força de trabalho para poderem subsistir. (Nota de Engels para a edição inglesa de 1888). (MARX ; ENGELS, 2002a)
Embora De Masi possa estar correto na sua afirmação de que o número de trabalhadores intelectuais tende a aumentar enquanto diminui o número de trabalhadores manuais e operários, ele incorre em erro quando associa ao pensamento de Marx apenas os trabalhadores manuais e operários da indústria.

Sobre o trabalho na sociedade pós-industrial, De Masi (2000) utiliza a teoria de Zsuzsa Hegedus sobre a distribuição internacional do trabalho. Segundo esta teoria, o ciclo econômico teria quatro fases: a ideação, onde os grandes laboratórios fariam pesquisa; a decisão, onde se determinaria em quais invenções investir; a produção propriamente dita; e o consumo, compreendendo a distribuição e o uso. De Masi (2000, p. 126) salienta a diferença na fase de produção "que era a mais importante na fase industrial e que agora vem sendo, progressivamente, deslocada para o terceiro mundo". E o consumo, segundo o autor, passaria pela colonização do mercado.

De Masi acrescenta, entre cada fase do esquema de Hegedus, o marketing e, após a fase de ideação, uma fase de pesquisa aplicada que visaria desenvolver todas as potencialidades da descoberta. Após a fase de decisão, novamente viria uma fase de pesquisa, desta vez com ênfase no desenvolvimento, onde máquinas, homens e capitais seriam preparados para a produção em série. Isso sem esquecer os aspectos legais do registro de patente. Para De Masi (2000, p. 129) o marketing agiria "dando ritmo a dança", orientando o processo pela pesquisa de mercado, pois hoje as empresas voltam-se para as exigências do mercado.

Eu questiono o quanto um mercado pode necessitar e detalhar um produto, serviço ou descoberta recente e ainda não muito divulgado. Basta abrir os armários de qualquer cozinha de classe média para encontrar alguns exemplos de necessidades criadas. A ação dos meios de comunicação de massa nos faz acreditar mais em mercados criados artificialmente do que em mercados formados a partir de necessidades.
Com a descentralização entre ideação, produção, circulação e consumo, De Masi caracteriza o modelo de acumulação flexível do atual capitalismo. A meu ver, a realidade atual mostra um quadro de relações que deriva ainda do modelo de ciência moderna e das transformações tecnológicas aliadas ao modo de produção capitalista. Neste sentido, assistimos nas últimas décadas o esgotamento do modelo fordista-keynesiano gerando mais uma crise no capitalismo. O período pós-guerra de considerável progresso, correspondente ao Estado de Bem Estar Social, dá lugar ao que Santos (2000) chama de "capitalismo desorganizado", o capitalismo neoliberal. Esta transformação associa-se a virada cultural para o que se nomeia pós-modernismo.
A acumulação flexível foi acompanhada na ponta do consumo, portanto, por uma atenção muito maior às modas fugazes e pela mobilização de todos os artifícios de indução de necessidades e de transformação cultural que isso implica. A estética relativamente estável do modernismo fordista cedeu lugar a todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias de uma estética pós-moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercadificação das formas culturais. (HARVEY, 2001 p.148)
Este sistema privilegia o individualismo nas relações de produção, enfraquecendo a organização dos trabalhadores e tirando o poder de negociação dos sindicatos.
Concordo com De Masi (2000, p.107) quando ele diz que, na sociedade atual, o trabalho repetitivo e pesado será a cada dia mais delegado às máquinas, mas acrescento: se isso for mais eficiente e lucrativo para o capital. Um certo ceticismo se deve ao fato do meu olhar partir de uma sociedade onde o tempo livre significa desemprego e desamparo.
Mesmo nos países centrais, e De Masi (2000, p. 96) cita estatísticas da Itália, cresce a economia e aumenta o desemprego, concentra-se a riqueza e aumenta a pobreza. Aqui localizo uma das várias contradições que permeiam o texto de De Masi. Ao mesmo tempo em que ele coloca que estamos numa sociedade pós-industrial, com progressivamente mais tempo livre, em atividades que tendem cada vez mais para o ócio criativo, conforme:
[...] ele, como eu, pensa que o trabalho de tipo tradicional continuará a diminuir cada vez mais e que, portanto teremos sempre mais tempo livre. (DE MASI, 2000, p. 84)
E, mais adiante:
Não há mais qualquer compatibilidade entre os modelos de trabalho e de vida industrial e pós-industriais. (DE MASI, 2000, p. 228)
Em outros lugares, porém, ele adverte sobre o aumento da jornada de trabalho e a manutenção de formas inadequadas de organização das atividades produtivas:
Em outros tempos, os pobres trabalhavam muito mais do que os ricos. Hoje um executivo ou um empresário trabalha muito mais do que um operário. (DE MASI, 2000, p. 233)
Sem considerar a contradição, De Masi atribui estas assimetrias à miopia dos empresários que não percebem que a diminuição das horas de trabalho trará lucro e à cultura judaico-cristã que contaminou a sociedade com uma idéia de que o destino do homem é trabalhar e que o ócio é companheiro de todos os vícios.
Enquanto o trabalho requeria esforço físico, as pessoas eram obrigadas a trabalhar, porque, se a escolha fosse delas, se absteriam. Uma das coerções era de tipo psicológico: consistia em enfatizar o preconceito de que gozar do ócio fosse um pecado. Quem é ocioso é ladrão, porque rouba o tempo de esforço no trabalho, seja do empregador, seja da sociedade. Quem goza do ócio peca e, até prova em contrário, se entrega aos vícios. (DE MASI, 2000, p. 232)
Em alguns trechos do livro, o autor se refere às encíclicas papais, que durante o final do século XIX e no século XX, pregavam a resignação à pobreza e ao trabalho duro e o direito natural e inquestionável de alguns à propriedade privada da terra e dos meios de produção. Deve-se considerar, todavia, que nesta mesma época coexistiam as idéias Iluministas de abandono da providência divina e de primado da razão humana.
O domínio científico da natureza prometia liberdade da escassez, da necessidade e da arbitrariedade das calamidades naturais. O desenvolvimento de formas racionais de pensamento prometia a libertação das irracionalidades do mito, da religião, da superstição, liberação do uso arbitrário do poder, bem como do lado sombrio da nossa própria natureza humana. Somente por meio de tal projeto poderiam as qualidades universais, eternas e imutáveis de toda a humanidade ser reveladas. (HARVEY, 2001, p. 23)
Na seqüência de seu texto, Harvey (2001, p. 24) coloca a contradição deste otimismo moderno frente às guerras do século XX e concordo com ele quando ele afirma que havia muitos problemas intrínsecos ao pensamento Iluminista. Entre estes problemas, o fato da não clareza das relações entre meios e fins que, muitas vezes se manifestava em planos que resultavam emancipadores para uns e opressores para outros.

Nessa perspectiva, eu compreendo o papel conservador da Igreja, diferente do papel também conservador da burguesia depois de sua ascensão. A dinâmica opressiva para certa parte da sociedade não mudou. O servo feudal seguiu sendo explorado, sob uma nova forma, sob um novo senhor. Quando intuo que este processo que determina exploradores e explorados continua hoje, apesar da ambigüidade que anula a dicotomia, pois são papéis simultâneos para muitos de nós, me vêm à mente as palavras de Rousseau:
O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: "Defendei-vos de ouvir este impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence à ninguém!" (ROUSSEAU, 1983, p.259)
Marx em uma passagem que, a meu ver, confere sentido a estas contradições, diz:
Além das misérias modernas, oprime-nos toda uma série de misérias herdadas, decorrentes do fato de continuarem vegetando entre nós formas de produção antigas e caducas que acarretam um conjunto de relações sociais e políticas anacrônicas. Não sofremos apenas por causa dos vivos, mas igualmente por causa dos mortos. (MARX, 19.., p. 8)
A esta visão do movimento histórico que entrelaça visões de mundo e modos de vida de forma que elas se interpenetram e se diferenciam ao mesmo tempo em que se contém, correspondem as palavras de Bensaïd (1999, p.45):
A história não conhece sentido único. Nem longitudinalmente, de acordo com a seqüência dos séculos. Nem em corte, quando um pensa a vida do outro enquanto o outro vive o pensamento do primeiro, sem que filosofia e história, economia e política jamais consigam reconciliar-se na harmonia calma da simples "correspondência". Pensado como "atraso", em relação a uma norma temporal imaginária, o anacronismo acaba por impor-se não como anomalia residual, mas como atributo essencial do presente.
Índice:

:: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial
:: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial
:: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais
:: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências.


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[Ócio Criativo: tempo livre na sociedade capitalista - I parte]


Suzana de Souza Gutierrez
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Educação


Resumo


O presente trabalho consiste na análise da obra O Ócio Criativo de Domenico de Masi. Parte de um projeto de grupo onde se pretende investigar o momento atual na perspectiva econômica, política, social e cultural, em especial as teorias que caracterizam a mudança da sociedade de um paradigma moderno para um pós-moderno. Acompanha de forma crítica a teoria de De Masi, onde ele fala sobre uma sociedade que se encaminha para uma diminuição progressiva do tempo de trabalho e um aumento do tempo livre, traçando um retrato da sociedade pós-industrial, estabelecendo uma análise histórica ligada ao desenvolvimento social, econômico, político e cultural, que abrange o trabalho, a ciência e a tecnologia, as transformações do modo de produção capitalista e intenta uma previsão dos desdobramentos que estas questões terão nos próximos anos. Este trabalho contém uma seleção de assuntos considerados centrais na obra de De Masi e elabora uma análise de cada um, problematizando, interpondo outras visões e procurando levantar questões importantes julgadas dignas de aprofundamento. Focaliza principalmente as características da sociedade pós-industrial em comparação com a sociedade industrial, localiza o trabalho e o trabalhador neste contexto, fala da tecnologia em sua relação com o desenvolvimento econômico e com o trabalho, aborda as relações de trabalho, a luta de classes e os movimentos sociais na sociedade atual, insere o tema central da obra que é o ócio criativo e procura situar a visão do autor em termos do ponto de partida da sua análise e da realidade social que seu olhar abrange.

palavras chaves: sociedade industrial, sociedade pós-industrial, trabalho, ócio criativo, tempo livre, De Masi.


Introdução

Hoje vivemos uma época de grandes transformações sociais e culturais. Uma vertiginosa aceleração se reflete em todos os aspectos da vida humana reconfigurando radicalmente a face de nosso mundo sensível e provocando mudanças profundas nas relações sociais. Especialmente em relação ao trabalho e nas práticas cotidianas estas alterações provocam a necessidade de reorganização e de novas abordagens.
A tecnologia está aí para facilitar e diminuir o nosso trabalho, porém nunca se trabalhou tanto e em tão inseguras condições como atualmente. Neste sentido, o desenvolvimento técnico-científico e todo o movimento em direção a uma sociedade global são ambivalentes e contraditórios.
Na obra O Ócio Criativo, Domenico De Masi se propõe a teorizar sobre o momento atual, a sua inserção histórica e re-lança o assunto da diminuição do tempo de trabalho e aumento do tempo livre sob uma abordagem e um contexto próprios. Nesta perspectiva, busca referências nas obras de Bertrand Russell [1] e Paul Lafargue [2] , somando autores como Alvin Toffler, Daniel Bell e Alain Touraine.
Analisar uma época não é olhar para uma linha de tempo e pontuar eventos de forma linear. Analisar uma época tem a ver com a humana condição destes tempos. Com o humano fazer e refazer da história na produção de sua vida. Para isso, é preciso manter uma idéia de humanidade que permeia e condiciona o que vai ser estudado. Que dirige e dá forma ao olhar que pretende captar e entender a teia das relações humanas. Um olhar do humano sobre o humano. Neste sentido, contraponho a minha visão de mundo e sociedade que dialoga com a visão do autor. Desta intertextualidade e buscando auxílio em Marx, Gramsci, Santos e Harvey, entre outros, procuro esclarecer e problematizar os pontos que achei centrais nesta leitura de De Masi. Uma leitura que não se esgota e abre espaço para a interação com outros textos e outras abordagens.

Sociedade Industrial - pós - Industrial

"'O problema do desemprego é um tema duro. Hoje nós podemos fazer o dobro de carros com o mesmo número de operários. Quando se fala em melhorar o nível educacional da população, como solução para o problema do desemprego, sempre digo que me preocupa a lembrança do que aconteceu na Alemanha: ali se promoveu a educação como remédio para o desemprego e o resultado foi a frustração de milhares de profissionais, que foram empurrados para o socialismo e para a rebelião. Me custa dizer, mas me pergunto se não seria melhor que os desempregados agissem com lucidez e fossem procurar trabalho direto no Mc Donald's" - excerto da conferência de Lee Iacocca na Argentina em 1993 (GALEANO, 2001 p. 175)

Desde os anos 60 que muitos autores (Lyotard, 1989 ; De Masi, 2000) sinalizam uma passagem histórica. Seus argumentos baseiam-se principalmente nas evidentes e grandes mudanças no panorama sócio-econômico-político e cultural da modernidade e o advento de um status diferente que a maioria chama de pós-modernidade. Outros autores (Harvey, 2001 ; Santos, 2000) consideram as transformações ocorridas, mas reconhecem nelas uma continuidade do projeto moderno ainda inacabado. A questão não é propriamente o nome que se dá a períodos históricos, mas se a passagem entre um e outro consiste numa ruptura total onde toda a organização social muda.
Domenico De Masi (2000, p. 71) se situa no primeiro grupo e diz que "o contexto no qual vivemos não pode ser considerado uma continuação da sociedade industrial. E que neste contexto não mudaram só alguns aspectos: mudou todo o conjunto". De Masi fundamenta suas afirmações baseando-se na coincidência da mudança de três fatores: fontes energéticas, divisão do trabalho e divisão do poder. Segundo o autor, esta mudança simultânea determinaria "um salto de época". (DE MASI, 2000, p.23)
Realmente, são fatores que determinam grandes alterações sociais, econômicas, políticas e culturais e vêm interligados, interferindo uns nos outros. Por exemplo, o desenvolvimento da agricultura fixou as pessoas ao lugar e isso ensejou alterações na organização social e política que, entre outras coisas, deram origem às cidades. Considero que as transformações se sobrepõem no tempo histórico e não se pode afirmar com exatidão em qual ponto ocorreu e o quê causou determinadas metamorfoses. Além disso, o novo se faz sobre o antigo e leva consigo, indissociáveis, traços que eventualmente emergem e se mostram.
De Masi (2000), ao contrário, aponta uma ruptura entre sociedade industrial e sociedade pós-industrial e descreve o nascimento desta citando Daniel Bell [3] , que localiza este momento no ano de 1956 quando, pela primeira vez o número de trabalhadores no setor de serviços superou a soma de trabalhadores nos setores industrial e agrícola. Uma dificuldade que vejo neste raciocínio diz respeito à vinculação de uma supremacia da indústria (ou não) ao número de trabalhadores que ela agrega e não a sua real importância nas economias nacionais. Harvey (2001, p. 149) apresenta uma tabela onde são comparados os percentuais de trabalhadores empregados no setor industrial, agrícola e de serviços, nos anos de 1960, 1973 e 1981, para diversos países. Nesta tabela, se pode observar o progressivo crescimento do percentual de trabalhadores empregados no setor de serviços e a diminuição do percentual nos setores agrícola e industrial. Ainda assim, resta a seguinte dúvida: quais seriam os resultados se comparássemos os percentuais do montante de capital movimentado em cada setor?
Para que se possa melhor entender as concepções onde De Masi apóia suas idéias, convém que apresentemos a sua construção teórica com relação à sociedade industrial e a sociedade pós-industrial. Para o autor, a sociedade industrial nasce com a Revolução Industrial dentro do período chamado modernidade, um salto de época no século XVIII. De Masi (2000) indica que as idéias do Iluminismo, como a confiança na razão humana para solução dos problemas, a crença num progresso ilimitado a partir da ciência, a descoberta da eletricidade e a criação da máquina a vapor foram os fatores determinantes para a virada.
De Masi (2000) não chega a nomear o modo de produção capitalista quando fala das características e mudanças econômicas correspondentes à sociedade industrial, mas localiza no colonialismo o primeiro processo de acumulação. Coloca, também, a emergência da classe burguesa como resultado das possibilidades abertas pelas revoluções americana e francesa.

Cada vez que uma revolução concede o acesso à "sala de controle" a novas classes sociais - classes estas que, até então, eram oprimidas e, num certo sentido "virgens" - , enormes potencialidades são liberadas. Foi o que aconteceu naquele tempo com o advento da burguesia. (DE MASI, 2000, p. 48)
Para De Masi (2000), estas transformações ocorridas no nascimento da modernidade só vieram a ser reconhecidas como globais por volta de 1850.
Do ponto de vista da sociedade ocidental eurocêntrica daquela época, pode-se falar em universalidade da mudança, mas devemos considerar que, mesmo hoje, em termos planetários convivemos com sociedades em diferentes estágios de desenvolvimento, com diferentes modos de produção, organização social, política e cultural. Dentro de um quadro de globalização unilateral baseado na expansão dos mercados e da exploração capitalista, convivem modos de produção quase feudais e artesanais até dentro da mesma sociedade. O próprio De Masi (2000, p. 87) fala sobre isto do ponto de vista do 'já foi pior', uma forma de expressão que é constante ao longo de todo o livro:

A questão é que as exigências dos países ricos mudaram: antes precisavam de matéria-prima, agora necessitam de mão-de-obra e mercado para suas exportações. É exploração? Sem dúvida. Mas, apesar disso, é uma exploração inferior à exploração colonial, na qual as grandes potências se apropriavam das matérias-primas e reduziam as populações nativas à escravidão. Representa, portanto, uma melhora, nem que seja pelo simples motivo de que o trabalho é de alguma forma remunerado. (DE MASI, 2000, p. 87)
A sociedade industrial tem como características a estandardização das mercadorias, a especialização das tarefas, a sincronização na produção e nos modos de vida, a maximização do ritmo produtivo, a centralização do poder e a concentração cada vez maior da forças produtivas: "Tudo isso resumido significa racionalização" (DE MASI, 2000, p.67)
De Masi (2000) fala destas características na forma de um relato, usando exemplos ligados a empresas. Embora discorra sobre a totalidade das transformações, não faz a necessária avaliação dos pontos comuns e derivações entre os âmbitos científicos, políticos, econômicos, sociais e culturais. Nisso podemos contrapor a visão de Boaventura de Sousa Santos que focaliza os desdobramentos da modernidade vinculando todos os âmbitos envolvidos e apontando a cooptação da ciência pelo capitalismo como catalisador de outras transformações.

[...] a ciência moderna, outrora vista como solução para todos os problemas das sociedades modernas, acabou por se tornar ela própria um problema. A transformação gradual da ciência em força produtiva neutralizou-lhe o potencial emancipatório e submeteu-a ao utopismo automático da tecnologia (SANTOS, 2000, p. 117)
Santos é um dos que propõe uma retomada do projeto sócio-cultural da modernidade através do desenvolvimento de seus potencias que permaneceram inacabados, que ele localiza nos princípio de comunidade e na racionalidade estético-expressiva.

Isso significa, antes de mais, que só a partir da modernidade é possível transcender a modernidade. Se é verdade que a modernidade não pode fornecer a solução para excessos e défices por que é responsável, não é menos verdade que só ela permite desejá-la. De facto, podemos encontrar na modernidade tudo o que é necessário para formular uma solução, tudo menos esta solução. Em meu entender, as representações que a modernidade deixou até agora mais inacabadas e abertas são, no domínio de regulação, o princípio da comunidade e, no domínio da emancipação, a racionalidade estético-expressiva. (SANTOS, 2000, p. 74-75)
Para caracterizar a sociedade pós-industrial, De Masi (2000) utiliza as concepções de Alvin Toffler [4] , de Alain Touraine [5] e de Daniel Bell. A partir de Toffler, cita o desenvolvimento histórico em 'ondas', cada onda correspondendo à agregação de uma série de condições, onde a mais influente é o desenvolvimento científico e tecnológico. Juntamente com Toffler, aponta o advento de uma maior subjetividade e acrescenta que esta provém das múltiplas possibilidades de escolha entre os produtos hiper-diferenciados criados pelos novos modelos produtivos. Restringe, assim, a liberdade a uma liberdade de escolha entre o que é oferecido e a subjetividade a uma subjetividade de consumo.

[...] a produção potencialmente infinita de objectos na sociedade de consumo encheu os sujeitos com objectos, mas, ao mesmo tempo, como Baudrillard e outros frisaram, conferiu subjectividade a estes objectos de forma a aumentar a eficácia do consumo. Hoje em dia, na fase posterior ao consumo massificado, caracterizada pela personalização e clientelização dos objectos, este processo é mais evidente do que nunca. Trata-se, evidentemente, de uma falsa subjectivação [...] (SANTOS, 2000, p. 83)
Concordando com Santos, vejo como característica dos tempos atuais esta pseudo-subjetivação baseada na posse de objetos que pretensamente identificariam o seu possuidor.
A partir de Touraine, De Masi (2000) diz que a sociedade pós-industrial se distingue pela "necessidade e capacidade de projetar o próprio futuro. É a primeira sociedade que não considera que o futuro dependa do acaso, da providência divina ou das circunstâncias." (DE MASI, 2000, p. 123) Ora, mas isso é moderno! Onde fica a tal ruptura entre modernidade e pós-modernidade? E De Masi (2000, p. 124) continua:

Eu coloco a criatividade no centro, onde ele coloca a programação. Se tivesse que definir a sociedade pós-industrial de outra maneira, eu a definiria como sociedade criativa. [...] Imagine a nossa sociedade como um único cérebro que projeta medicamentos, ferrovias, aeroportos e, em relação a cada um destes projetos, procura antecipar para onde vai o mundo nos próximos cinco, dez ou quinze anos. É esta a sociedade que cria. Depois, imagine todos os conselhos administrativos, os estrategistas, os grandes executivos das multinacionais e some ainda todos os governantes de todos os Estados: esta é a sociedade que programa
Em relação a esta capacidade de 'projetar', que implica em prever e programar, gostaria de contrapor o pensamento de Santos (2000) que alerta sobre os riscos de confiança num projeto que, em termos de economia, ciência, tecnologia, política e cultura acha-se colonizado por um sistema social.

A ciência e a tecnologia aumentaram a nossa capacidade de acção de uma forma sem precedentes, e, com isso, fizeram expandir a dimensão espácio-temporal dos nossos actos. Enquanto anteriormente os actos sociais partilhavam a mesma dimensão espácio-temporal das suas conseqüências, hoje em dia a intervenção tecnológica pode prolongar as conseqüências, no tempo e no espaço, muito mais além da dimensão do próprio acto através de nexos de causalidade cada vez mais complexos e opacos. A expansão da capacidade de acção ainda não se faz acompanhar de uma capacidade de previsão, e, por isso a previsão das conseqüências da ação científica é necessariamente muito menos científica do que a acção científica em si mesma. (SANTOS, 2000, p. 58) [6]
De Masi, no rastro de Touraine, opta por uma linearidade de causa e efeito e uma previsibilidade de evolução dos fenômenos, quase cartesiana, que vai contra a sua postura pós-moderna em outros assuntos.
Penso, juntamente com Santos (2000) que a complexidade do mundo e a própria ciência, que nos mostra a não linearidade da ciência, são razões suficientes para se por em questão a tranqüilidade de De Masi sobre a capacidade de projetar da sociedade atual.
Por último, conforme Bell teorizou na década de 60, De Masi (2000) caracteriza a sociedade pós-industrial por cinco fatores: a passagem da produção de bens para a produção de serviços, a progressiva superação em importância da classe operária pela classe de profissionais liberais, a centralidade do conhecimento em relação ao trabalho, a gestão da tecnologia que não pode mais ser feita por pessoas ou nações isoladas e o advento das máquinas inteligentes.
Entendo que a grande diferença entre a sociedade industrial e a pós-industrial é que nos novos modos de produção a ideologia de um certo modelo de sociedade está implícita na própria produção. A mercadoria condiciona atitudes, pensamentos, formas de ver o mundo, configura o tempo e o espaço de vida. Para explicitar melhor esta idéia, lanço mão das palavras de Marcuse:

O aparato produtivo e as mercadorias e serviços que ele produz 'vendem' ou impõem o sistema social como um todo. Os meios de transporte e comunicação em massa, as mercadorias casa, alimento e roupa, a produção irresistível da indústria de diversões e informação trazem consigo atitudes e hábitos prescritos, certas reações intelectuais e emocionais que prendem os consumidores mais ou menos agradavelmente aos produtores e através destes, ao todo. Os produtos doutrinam e manipulam; promovem uma falsa consciência que é imune a sua falsidade. (MARCUSE, 1982 , p. 32)
A meu ver, De Masi mistura características modernas e pós-modernas, industriais e pós-industriais contradizendo a sua proposição de uma mudança total entre fases históricas da sociedade. Por outro lado, quando ele fala em 'fim da indústria', pelo seu cada vez menor contingente de trabalhadores, isso não significa que o número de indústrias e o montante de produção reduziram-se. Ao contrário, a produção aumentou e diversificou-se, se considerarmos a totalidade do planeta. Igualmente cresceram o setor de serviços e o agrícola. A economia como um todo cresceu. O que mudou foi a geografia econômica e a configuração interna das atividades produtivas que hoje, pelo desenvolvimento tecnológico, necessita menos presença humana na produção. Porém, o que não mudou foi a lógica que perpassa todo o sistema: quem trabalha vende a sua força de trabalho, quer em atividades manuais repetitivas, quer em atividades intelectuais criativas. Os 'serviços' são mercadoria e cotados da mesma forma que os bens. O mesmo vale para o conhecimento e a cultura.

Notas:
[1] O Elogio ao Ócio - Bertrand Russell
[2] O Direito ao Ócio - Paul Lafargue
[3] The Coming of Postindustrial Society - Daniel Bell
[4] A Terceira Onda - Alvin Toffler
[5] La société post-industrielle; La production de la société; Pour la sociologie - Alain Touraine
[6] Optei por manter a citação na forma lingüística original

Índice:

:: I parte - Resumo, Introdução, Sociedade Industrial-pós-Industrial
:: II parte - O trabalho e o trabalhador na sociedade industrial e na sociedade pós-industrial
:: III parte - A tecnologia , o trabalho e o teletrabalho ; A Luta de Classes e os Movimentos Sociais
:: IV Parte - O ócio criativo e o tempo livre ; A guisa de conclusão ou para quem fala De Masi ; Referências.


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