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Sábado, Maio 15, 2004

[ Hegemonia e poder ]
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Profe Carmem e colegas:
Questão para aula de 3ª feira

Como o poder hegemônico da educação escolar se configura ( "reproduz') nas relações sociais. Que práticas escolares movem para que a hegemonia escolar se estabeleça como hegemonia social, ou melhor, como de modo dialético a hegemonia social se faz hegemonia escolar...... ( uma reflexão no sentido de entender mais como no jogo do poder as forças se articulam...)

Um abraço Hedi Maria





Segunda-feira, Maio 10, 2004
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Milton Santos
Como reverter a Globalização perversa
Revista Caros amigos Especial - Fórum Social Mundial - Março, 2001.

"...Sem dúvida, quando as reivindicações se multiplicam a ponto de parecerem pulverizadas há, paralelamente, o risco de um enfraquecimento quanto à busca do alvo principal, isto é, o elenco das causas mais profundas dos males que se deseja debelar isoladamente. Aliás, o risco é grande porque, às vezes, uma medida apresentada contra um aspecto da problemática pode encobrir o fortalecimento da situação sistêmica que, exatamente, se deseja superar. Nesse caso, se faz, com boa vontade, e mesmo com perfeição, a coisa errada. Essa, aliás, é a crítica que os intelectuais e pensadores com preocupações mais sistêmicas e totalizantes levantam frente às ações isoladas. Por sua vez, ativistas de toda ordem, impacientes por resultados, não raro consideram os pensadores como pessoas que se contentam com formulações abstratas, nem sempre praticamente utilizáveis. Esse dilema haverá sempre. O fato, porém, é que, se não se dominam as causas essenciais dos fenômenos tal como eles se apresentam, empiricamente, a luta pela mudança está condenada a menor eficácia e, mesmo, ao fracasso. Daí o papel insubstituível dos intelectuais..." (p.7).

GRAMSCI E MILTON SANTOS E A HISTÓRIA EM MOVIMENTO

Refletir sobre a problemática do desenvolvimento das concepções de mundo e os conseqüentes impasses historicamente resultantes desses diálogos entre autores no campo da filosofia, da política econômica e da cultura, traz consigo questões não menos importantes que as próprias discussões sobre o papel dos intelectuais nos processos de transformação da sociedade que, dialeticamente, revelam forças antagônicas em movimento ao longo da história. Que premissas são necessárias para que o processo de desvelamento da realidade se realize, não como mera aparência (no sentido de Croce), mas contra o dogmatismo, isto é, a afirmação da caducidade de todo um sistema ideológico hegemônico e opressor? Qual o papel dos intelectuais nesta tarefa? Quem são eles? Onde estão atualmente?
Antes de incorrer na tentativa de responder aos questionamentos aparentemente indispensáveis seria conveniente, na esteira das discussões realizadas em sala de aula e da própria contribuição de Gramsci em seu texto Maquiavel, a Política e o Estado Moderno, recobrar algumas idéias fundamentais que podem contribuir para uma análise crítica da realidade.
Uma delas se relacionada ao que Gramsci caracterizou como "inovação fundamental introduzida pela filosofia da práxis na ciência da política e da história", na qual rompe-se com a lógica do pensamento religioso e da transcendência, e, em contraposição, elege-se uma compreensão materialista do homem. Não existe uma "natureza humana" abstrata, fixa e imutável, mas sim um conjunto de relações sociais historicamente determinadas, factível de ser comprovado desde que criticamente interpretado.
Outra contribuição fundamental (que une à noção de "relações sociais") para a compreensão dos movimentos históricos no pensamento, na política e na vida coletiva, apóia-se na noção de "partido político", isto é, a demonstração do processo que impulsiona a formação dos partidos políticos. Entre outros pontos, Gramsci sistematiza três premissas indispensáveis para que as condições objetivas de desenvolvimento ulterior de um partido se verifiquem. 1) a presença de um elemento difuso, representada por uma massa de indivíduos comuns, médios, que sob centralização, organização e disciplina, constitui um elemento básico na formação dos partidos; 2) um fator de coesão principal que potencialize um conjunto de forças que de per se, dispersas, se pulverizariam, dotado de capacidade de convergência, organização e disciplina suficiente para justificar a coordenação das ações; 3) por último, um elemento médio que faça a ponte entre o primeiro e o segundo grupo, apresentando-se de uma forma física, mas também moral e intelectual.
Feitas estas considerações, a questão que se coloca é: como interpretar a realidade, tal como ela se apresenta nos dias de hoje sem cair no equívoco das paixões desprovidas de sólida análise das causas essenciais dos fenômenos, de um programa de mudança que leve em conta o presente e o passado, e, por que não, perspectivas de luta no futuro, visíveis nas preocupações de Milton Santos? Vale lembrar o trecho "previsão e perspectiva", em que Gramsci reforçando a teoria da "dupla perspectiva", trata de ressaltar a necessidade do rompimento com o pensamento linear, encontrando no movimento dialético, na união dos contrários, saídas mais elevadas e complexas.
Finalmente, deve-se por em foco o jogo de forças que no mundo faz sentir seus reflexos práticos, quer sejam políticos, culturais, mas, que sem dúvida, marcam possibilidades diferenciadas de acesso às condições de reprodução social para a maioria da população mundial. Trata-se, justificadamente, de identificar as relações entre estrutura e superestrutura para, a partir da justa análise da totalidade, poder-se distinguir no estudo da estrutura os movimentos orgânicos e os movimentos conjunturais, isto é, o conjunto de fatos que por sua aderência histórica permanecem "vivos" ao longo dos tempos, daqueles corriqueiros e sem significado no conjunto dos acontecimentos permanentes. Deve-se atentar, com isso, que no desenvolvimento da História observou-se, se não sempre, ao menos depois da Grande Revolução, longos períodos de espera que permitiram, novamente, a revelação e o amadurecimento de forças convergentes capazes de triunfar sobre os interesses e as formas sociais pretéritas, hegemônicas. Isto se dará no momento em que tais esforços, incessantes e perseverantes, conseguirem realizar a nova realidade, sem desconsiderar a possibilidade que, mais cedo ou mais tarde, novas polêmicas surgirão como manifestação das forças antagônicas ainda presentes como resquícios da antiga formação ou de alianças necessárias à composição do "bloco histórico". Todos recordam a aliança que elegeu Lula?

"A distinção entre "movimentos" e fatos orgânicos e movimentos e fatos de "conjuntura" ou ocasionais deve ser aplicada a todos os tipos de situação: não só àquelas em que se verifica um processo de regressivo ou de crise aguda, mas àquelas em que se verifica um desenvolvimento progressista ou de prosperidade e àquelas em que se verifica uma estagnação das forças produtivas. O nexo dialético entre as duas ordens de movimento e, portanto, de pesquisa, dificilmente pode ser estabelecido exatamente: se o erro é grave no que se refere à historiografia, mais grave ainda se torna na arte da política, quando se trata de não reconstruir a história passada, mas de construir a história presente e futura. Os próprios desejos e paixões deteriorantes e imediatos constituem a causa do erro na medida em que substituem a análise objetiva e imparcial". (Gramsci, p.47)


Na atual conjuntura econômica e política, mundial e brasileira, sentimentos de desilusão e fracasso amontoam-se frente às manobras políticas de acomodação de forças. A contemporaneidade trouxe consigo novas questões, mais complexas e disputadas, que, momentaneamente, impulsionadas pelas necessidades de expansão do capital internacional, pressionam o sistema econômico, político, cultural, militar e tecnológico em benefício próprio. Mostra-se essencial aos que pensam o mundo em seu desenvolvimento histórico, ou seja, ao conjunto da sociedade que no seu fazer diário intervêm na realidade, postarem-se criticamente em seus espaços de vida, individuais e coletivos, na direção consciente de seu ser-estar no mundo. Quem mais além dos partidos políticos, dos movimentos sociais se colocará a frente do processo como protagonista do novo Príncipe moderno?


Rafael





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Interessante esta idéia da Carmen de partir a turma em 3 grupos. O 1º escreveria mensagens sobre as leituras, o 2º comentaria e o 3º realizaria comentários sobre as opiniões do 2º grupo. Grupos coesos, unidos, nos quais os participantes possuem "autrodisciplina" conseguem. È um desafio para o nosso grupo.
Amigos, me auxiliem. Pela minha leitura, observo que Gramsci denomina o partido político de "moderno príncipe". O "moderno príncipe" é o fundamental agente da "consciência operosa da necessidade histórica". Além do partido lutar pela renovação política, econômica e social, deve lutar tb. por uma revolução cultural. É uma intenção imensa a de Gramsci, pois, deseja uma espécie de consenso nacional. O mais interessante é que o partido não pode ser um "mero executante", mas precisa conseguir democraticamente assegurar a circulação de idéias e fazer prevalecer a vontade coletiva. Vcs tb vêem assim?
[] Marcia





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Como também estava no final da aula no momento da combinação do trabalho a ser postado, estou me incluindo no primeiro grupo.
A reflexão trazida pela colega Jara tocou a todos nós, pois de uma forma ou outra, talvez com mais ou menos intensidade, sentimo-nos muitas vezes nessa solidão. Solidão pedagógica, solidão política, solidão afetiva, tantas outras solidões...cada um com a sua. Tudo isso me levou a tentar entender por que estamos passando por isso e o que nossos estudos sobre Gramsci tem a ver com o que sentimos com a reflexão inicial da aula do dia 4/5.
Tentando fazer relações, percebo que o ano iniciou com decepções sucessivas para nós, que acreditamos que uma outra ordem é possível. Os escândalos seriam corriqueiros no planalto se o governo fosse outro, mas não é. E isso deixa um mal estar em todos nós difícil de superar. A economia muito aquém do que gostaríamos, educação, saúde, empregos e a tão esperada reforma agrária idem. Nosso cinema continua não agradando aos gringos (será que é isso que queremos?) e Cidade de Deus não trouxe nenhum Oscar depois de termos criado enormes expectativas. A passividade com que o mundo todo assiste ao que está acontecendo no Iraque e com os povos palestinos e israelenses. O absurdo da Intervenção no Haiti, a irreversível proximidade da ALCA, entre outros acontecimentos. Outro motivo que levanto para todo esse sentimento aflorado e ó aniversário de 40 anos do Golpe de 64, que suscita tantas mágoas, por uma dívida que nunca foi paga. Golpistas, perseguidores, torturadores, financiadores, apoiadores e beneficiados com a ditadura, convivem conosco normalmente, possuem livre transito no governo e continuam tendo poder decisório em questões políticas. Não é questão de sermos rancorosos, mas de sermos coerentes, de não esquecermos que o que aconteceu reflete hoje na alienação de nossos estudantes diante da realidade( e isso significa uma marca indelével em várias gerações).
E pensar que o Lula não quer nem saber o que aconteceu de fato no Araguaia...o que é isso companheiro?
As professoras de História de minha escola comentam que ficam estarrecidas com o fato de que os alunos do 3º ano do Ensino Médio acham um tédio estudar o período da ditadura, não esboçam reação alguma ao ouvir os relatos sobre torturas e que só demonstram um certo interesse quando sabem que o golpe de 64 é matéria de vestibular. Como isso se justifica?
Participando de um encontro da faculdade de História da UPF nesta semana, entre tantos depoimentos e debates sobre o golpe de 64, algo que me impressionou muito foi o relato do Marcos Rolim sobre pesquisas feitas entre universitários do Rio de janeiro e de Belo Horizonte. Pasmem: mais de 60% trocaria a democracia pela ditadura se houvesse uma melhora econômica em suas vidas. Mais de 30% acham que os doentes mentais devem sair as ruas com uma identificação e a grande maioria concorda que em alguns casos a tortura pode e deve ser utilizada pela polícia. Que senso comum perverso é esse e como ele se enraizou? Que "Príncipe" é esse, que nos conduziu a tudo isso? Acredito que esse quadro que estamos vivendo contribui para o sentimento trazido a tona pela colega Jara, e que deixou todos nós com saudade de algo que ainda não aconteceu e que talvez ainda demore muito a acontecer.
Foi de muito boa acolhida a sugestão das colegas de irmos esmiuçando algumas categorias que não estavam tão claras, e que, com o entendimento destas, a leitura de Gramsci se torna mais fácil. Não que as dúvidas sobre elas tenham se esgotado, até por que isso seria subestimar a complexidade dos termos. Mas o debate inicial, com contribuição de muitos da sala, possibilitou que alguns conceitos fossem construídos, pois foi uma oportunidade de troca entre colegas. Das categorias que foram elencadas (já citadas pela Viviane), as mais discutidas nesse dia e relacionadas com o Príncipe Moderno foram estrutura e superestrutura, consciência em si, movimentos orgânicos e movimentos de conjuntura. Pergunto-me se nestes tempos de fim de identidade cultural, em que a mola mestra do mundo é a acumulação, a concentração e a centralização do capital, haverá ainda um movimento orgânico que contrarie tudo isso, invertendo a lógica e priorizando o humanismo? Um trecho do Príncipe Moderno nos ajuda a compreender que movimentos de conjuntura não serão suficientes para que isso venha a acontecer e que talvez as vozes do Fórum Social Mundial devam ser mais fortes: Todavia, deve-se distinguir no estudo de uma estrutura os movimentos orgânicos (relativamente permanentes ) dos elementos que podem ser denominados"de conjuntura"( que se apresentam como ocasionais, imediatos, quase acidentais). Também os fenômenos de conjuntura dependem, é claro, de movimentos orgânicos, mas seu significado não tem um amplo alcance histórico: eles dão lugar a uma crítica política miúda, do dia-a-dia, que investe os pequenos grupos dirigentes e as personalidades imediatamente responsáveis pelo poder. Os fenômenos orgânicos dão margem à crítica histórico-social, que investe os grandes agrupamentos, acima das pessoas imediatamente responsáveis e acima do pessoal dirigente.(Antônio Gramsci, Maquiavel, a Política e o Estado Moderno, pp45 e 46)
Até terça-feira, Rita Mônica Mombelli