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Relendo Clássicos é um projeto vinculado ao [zaptlogs] da ZAPT / UFRGS , Porto Alegre, RS, Brasil

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Quinta-feira, Junho 24, 2004
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CORRELAÇÃO DE FORÇAS E DESENVOLVIMENTO HUMANO

Humberto Cunha



Este ensaio evidencia a formação dos intelectuais e os papéis que desempenham na formulação do desenvolvimento social. Empresta de Gramsci as categorias de intelectual tradicional e intelectual orgânico para posicionar a construção das idéias de transformação social, sua organização em programa e a ação política nesta direção. Analisa a função do intelectual na produção, no Estado e no partido político e aponta que uma escola para o desenvolvimento humano não pode ser uma confraria de intelectuais tradicionais reproduzindo intelectuais tradicionais.


Quem diz desenvolvimento, postula uma modificação da sociedade no tempo. Como se dá essa modificação? O que a motiva? Como planejar, isto é, como prever e agir sobre esse processo?
Uma primeira abordagem do problema deve levar-nos a compreender que o desenvolvimento solicita idéias acerca de para onde e de como desenvolver-se, o que remete à pergunta: quem define tais questões, quem as propõe? Acerca da definição dos rumos do desenvolvimento, caberia uma discussão específica, o que pode ser assunto para outro ensaio. Quem as propõe, parece que podemos circunscrever com propriedade, se nos indagarmos sobre o papel da camada intelectual na reprodução social.
Antonio Gramsci (1978, p. 343-345) afirma a complexidade do papel do intelectual, em virtude de ter variado ao longo dos tempos o processo de formação das categorias intelectuais. Todavia, das diversas formas que o fenômeno tem tomado, ele destaca duas:
1. Orgânico a um grupo social: homogeneidade e consciência da própria função - intelectual orgânico;
2. Pré-existência em relação ao grupo social: tradição e adesão - intelectual tradicional.
Aqui, inicia-se uma segunda abordagem: na agenda capitalista, tempo vivido pelos modernos, cabe destacar os papéis, técnico e político, do dirigente intelectual, e o processo sistemático de sua formação. Em épocas históricas passadas, havia maior espaço para o espontaneísmo na formação do intelectual; hoje, esta se dá num sistema de ensino formal, que tem na escola o seu componente central.
Gramsci entende que "Todos os homens são intelectuais, [...] mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais" (Gramsci, 1978, p. 346). Os que a desempenham, não o fazem da mesma forma, mas em distintos graus de complexidade:
"A atividade intelectual deve distinguir-se em graus, mesmo do ponto de vista instrínseco; graus que nos momentos de extrema oposição indicam uma autêntica diferença qualitativa: no mais alto grau, devem pôr-se os criadores das várias ciências, da filosofia, da arte, etc.; no mais baixo, os 'administradores' e divulgadores mais modestos da riqueza intelectual já existente, tradicional, acumulada" (Gramsci, 1978, p. 349).

Gramsci parte do mundo da produção e chega à escola, para a compreensão da origem e do processo formador do intelectual moderno:
"No mundo moderno, a educação técnica, estreitamente ligada ao trabalho industrial, mesmo ao mais primitivo e desqualificado, deve formar a base do novo tipo de intelectual. [...] A escola é o instrumento para elaborar os intelectuais de diversos graus" (Gramsci, 1978, p. 346-347).

De que escola se trata? Quem são os seus professores?
Se o ator histórico age sob o influxo dos fatos que está vivendo, das recordações de cotidianos vividos e das expectativas do possível futuro, se planejar o desenvolvimento é propor a sistematização dessas expectativas e se cabe ao intelectual realizar tais proposições, então este, ao propor, irá fazê-lo considerando a evolução da condição atual da sociedade e as expectativas dos seus cidadãos, mas, também, impressionado pelos fenômenos do passado desta sociedade. Portanto, ao professor que o forma, cabe apreender os processos que se passam nesta linha de tempo e a melhor maneira de trabalhar com os educandos para que os compreendam.
Numa terceira abordagem, devemos nos propor a pensar que o desenvolvimento não é um processo expontâneo, nem se dá de modo linear. Sua condução é feita pelo Estado, que nasce da sociedade civil, expande-se em formas próprias, condicionadas pelos interesses dos seus agentes, e exerce efeito de retorno sobre a sociedade civil, controlando-a e dirigindo-a. Para exercer sua função dirigente, os agentes do Estado constituem-se em sociedade política e agem de modo distinto dos agentes da sociedade civil. Estes podem exercer sua função intelectual através de organismos privados, enquanto os agentes do Estado precisam recorrer a mecanismos públicos, dependentes do consenso da cidadania, somente possível por procedimentos que construam a hegemonia dos interesses codificados pelos intelectuais estatais sobre o todo social:
"Os intelectuais são os 'caixeiros' do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do consenso 'espontâneo' dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante, consenso que nasce 'historicamente' do prestígio (e portanto da confiança) que deriva, para o grupo dominante, da sua posição e de sua função no mundo da produção; 2) do aparato de coerção estatal, que assegura 'legalmente' a disciplina daqueles grupos que não 'consentem' nem ativa nem passivamente, mas é constituído por toda a sociedade em previsão dos momentos de crise no comando e na direção em que o consenso espontâneo vem a fazer falta." (Gramsci, 1978, p. 348).

A massa de intelectuais à disposição do Estado para o exercício da função hegemônica cumpre papéis burocráticos, alguns deles meramente manuais, correia de transmissão das decisões da cúpula de governo aos cidadãos. Apenas uma pequena porção exerce uma função intelectual plena, identificando-se com os mandatários, do mesmo modo que, no aparato produtivo industrial, a alta intelectualidade está identificada com o estado-maior industrial enquanto a massa de intelectuais assemelha-se aos oficiais subalternos, não elabora os planos de construção, limitando-se a articular o operariado com as ordens do empresário.
A elaboração dos intelectuais subalternos é reduzida à "execução imediata do plano de produção estabelecido pelo Estado-maior da indústria, controlando suas fases de trabalho elementares" (Gramsci, 1978, p. 349-350). Neste caso, os técnicos de fábrica perdem a condição de prestígio para exercer influência política sobre o operariado. Sob certas condições, como, por exemplo, nos momentos de crise, são os operários, ou, ao menos, os seus intelectuais orgânicos, que acabam por exercer influência política sobre os técnicos. Deste modo, criam-se contradições no interior do aparato, quer produtivo, quer estatal, que permitem a passagem de intelectuais, individualmente ou em pequenos grupos, de uma categoria intelectual a outra.
De modo especial, interessa aqui a migração dos intelectuais tradicionais para a categoria dos intelectuais orgânicos e a sua participação organizada no novo bloco histórico.
Este problema nos conduz a uma quarta abordagem, em que entra em foco o bloco histórico, categoria fundamental para o entendimento da perspectiva gramsciana acerca da mudança social. Para Gramsci (1981), a mudança social é o desenvolvimento da visão marxiana da luta pela sociedade sem classes, tomando empréstimos, também, da obra de Lenin. Ao arcabouço teórico assim construído, ele chama filosofia da práxis.
Sobre as articulações entre o modo de produção e o modo de vida, na sociedade sem classes, especialmente as categorias explicativas do mundo, refere que a passagem da necessidade para a liberdade ocorre na sociedade humana, não na natureza, embora possa ter conseqüências sobre a intuição da natureza, sobre as opiniões científicas etc. O marxismo pode tornar-se caduco em um mundo unificado, enquanto concepções idealistas, utópicas no capitalismo, poderão afirmar-se após a transição (Gramsci, 1981, p. 117).
No reino da necessidade, as coisas põem-se de outra forma: a sociedade humana constrói-se como Estado, que é sociedade civil e sociedade política, articuladas num bloco histórico. A sociedade política domina a sociedade civil, mas só o faz porque há uma dominação, no seio da sociedade civil, que alimenta, sustenta e suporta a dominação da sociedade política sobre o conjunto social.
Luciano Gruppi (1991) ressalta que o bloco histórico gramsciano não se confunde com o bloco político. O bloco histórico tem maior durabilidade e abrangência que o bloco político e sua superação só pode ocorrer quando a supremacia social muda de uma classe para outra . Reordenações no interior do bloco histórico são possíveis, com a modificação dos blocos políticos em aliança no exercício do poder. É o seu momento afirmativo, e, este, o significado das reformas políticas. A negativação de um bloco histórico é o momento da revolução social .
A concepção gramsciana de bloco histórico fundamenta-se na relação plurideterminada de três esferas: a reflexividade, a hegemonia e a transitoriedade . Secciono o bloco histórico, para o estudo das suas partes constituintes, embora as três esferas sejam indissociáveis, no seu acontecer.
Esfera nº 1: A reflexividade, esfera relacional da estrutura e da superestrutura, momento fundante do bloco histórico. A fórmula gramsciana não nos diz de uma estrutura e uma superestrutura indiferenciadamente reflexivas, mas, a soldagem e a reflexividade dos elementos superestruturais (subjetivos, individuais) e estruturais (objetivos, materiais, de massa) constituindo o bloco histórico. A reflexividade tem um ponto de partida, a estrutura: "o conjunto complexo - contraditório e discordante - das superestruturas é o reflexo do conjunto das relações sociais de produção" (Gramsci, 1981, p. 52). O trânsito faz-se pela catarsis . Colocando em debate a questão do homem e da natureza humana, fixa esta idéia de liberdade, associada à catarsis. Evidencia-se o processo de construção da liberdade .
Esfera nº 2: A hegemonia, como fato político, cultural, moral. Dizer hegemonia, significa dizer capacidade dirigente. A dominância econômica tem de inspirar uma escala de valores e, esta, estabelecer-se como aspiração coletiva de uma sociedade, para elevar-se à condição dirigente. Uma classe só exerce hegemonia social se tem seus intelectuais, seus quadros elaboradores, produtores de ideologias. Para o entendimento da hegemonia, avulta a necessidade do estudo da formação dos intelectuais. Examinando-se o conceito de ideologia , um primeiro problema é separar aqueles conjuntos de idéias atomizadas, mero repositório de vontades e construções idealizadas, que apenas criam polêmica, das ideologias necessárias, históricas. São as últimas as que interessam para a análise do papel dos intelectuais na construção da hegemonia de uma classe, pois estabelecem validade psicológica, organizam as massas na convicção dos interesses da classe dirigente como interesses sociais gerais.
Esfera nº 3: A transitoriedade do bloco histórico, isto é, a crise orgânica e sua superação, desagregação da hegemonia da classe dirigente e o nascimento de um novo bloco histórico. Um bloco histórico só tem estabilidade enquanto a classe dominante é, também, dirigente. A supremacia assim criada sustenta-se pela força moral que cria. A coerção do aparato estatal faz o seu papel, que é complementado pelo convencimento. O convencimento age, em certo sentido, como coerção, à medida que, existindo consenso na sociedade, os que pensam diferentemente e portam-se conforme o que pensam recebem reprimendas do seu próprio grupo social, dos membros da sua própria classe. O convencimento é tarefa da ideologia, a ideologia é tarefa dos intelectuais.
Os intelectuais, assim entendidos, são os intelectuais orgânicos, distintos dos intelectuais tradicionais. Intelectual orgânico é o tipo de intelectual que nasce das necessidades da classe dominante futura no seu processo de formação, isto é, quando ela ainda é classe dominada. Intelectual tradicional é o tipo de intelectual formado a partir das necessidades do domínio, nas condições das classes antigas.
O intelectual orgânico do proletariado é a consciência insurgente e antecipatória das possibilidades históricas do socialismo, instigador de novas circunstâncias, tendentes ao modo de produção e ao modo de vida comunistas. Ao pretender dizer e fazer a vida da cidade em nome do conjunto dos cidadãos, problematiza o cotidiano, investiga a realidade transformando-a e transforma a realidade investigando-a. Problematizar o cotidiano é realizar clivagens nas suas contingências, abrindo-o para as novas dimensões do desejo dos sujeitos sociais. O concreto-pensado a que se chega pela problematização supera a vivência do cotidiano como simples contingência, envolve-a com as outras dimensões do cotidiano, a informação, os sentimentos, a reflexão e a ação.
As guerras ditas de movimento ou de manobra, de cerco ou de posição, e subterrânea encontram correlação na luta política. A transitoriedade propicia o aparecer do novo bloco histórico, que se vai construindo ainda na vigência do bloco precedente. O cenário da disputa é dinâmico, o tecido do poder sofre o impacto das atividades moleculares da nova classe, criando interstícios por onde o poder da nova classe se infiltra e se assenta. A idéia de uma revolução que se estabelece de uma única vez, apenas pelo assalto repentino da guerra de movimento, não tem sustentação histórica no Ocidente moderno (Gramsci, 1978, p. 348).
A guerra de posição não pode ser identificada a uma revolução passiva. A luta da classe dominada para construir a sua hegemonia e tornar-se dominante apresenta-se, no plano concreto, como atividade de contra-hegemonia. A ação contra-hegemônica é, portanto, guerra de posição, guerra subterrânea e guerra de movimento, ao mesmo tempo, prevalecendo uma delas em cada situação:
Q"A resistência passiva de Gandhi é uma guerra de posição, que se torna guerra de movimento em certos momentos, e subterrânea, noutros: a boicotagem é guerra de posição, as greves são guerras de movimento, a preparação clandestina de armas e de elementos combativos de assalto é guerra subterrânea" (Gramsci, 1978, p. 207).
Procurando superar o caráter militarista que podem sugerir as categorias gramscianas das guerras, uma vez que o termo "guerra" está vinculado à idéia de conflito entre nações, opto pelo enfoque da luta de classes em seus momentos de recondicionamento, de deslocamento e de enfrentamento. O primeiro representa a participação minoritária do proletariado no poder burguês; o segundo, a supremacia política do proletariado; o terceiro, o confronto entre as ideologias e as forças materiais do proletariado e as da burguesia.
Para a discussão acerca do desenvolvimento humano, nas condições atuais do Brasil, deter-me-ei no recondicionamento, uma vez que, até onde me é possível perceber, não há, neste momento, massas operárias em vias de confronto com o poder burguês pelo controle do Estado, nem sequer supremacia política do proletariado, embora se evidenciem processos de participação em andamento.
Uma quinta abordagem faz-se necessária, na qual focamos o partido político, não apenas como organizador dos intelectuais nascidos no seu seio ou sob sua influência, mas, igualmente, daqueles que, oriundos do bloco histórico conservador, aderem ao bloco histórico que propõe a mudança social.
O partido político cumpre na sociedade civil o mesmo papel que o Estado na sociedade política, articula os intelectuais tradicionais com os intelectuais orgânicos da classe dominante. Nele, um intelectual tradicional que passa a fazer parte do grupo confunde-se com os intelectuais orgânicos que aí estão, de modo mais intenso e efetivo do que ocorre no Estado. O partido político é o intelectual coletivo de uma classe, tem função diretiva e organizativa, isto é, educativa, intelectual; é nele que os intelectuais superam os localismos e as parcialidades de classe para assumir papel nacional e internacional.
A classe dominante tem intelectuais em inúmeras casamatas e trincheiras, espalhadas na sociedade civil. Sua atividade consolida as idéias da classe dominante no seio da população, transformando-as em senso comum. O partido, mais que o Estado, é que, cumprindo a função de intelectual coletivo, produz a soldagem ideológica que garante a continuidade do bloco histórico atual (Gramsci, 1978, p. 351). A luta pela igualdade social com diversidade cultural exige um partido capaz de exercer, de modo coletivo e orgânico, a atividade intelectual.
Um partido coloca-se como necessidade histórica quando as condições do seu triunfo estão em vias de formação e pode-se prever a sua transformação em Estado. Existindo o partido, não há condições de destruí-lo pelos meios normalmente aceitos na sociedade, se ele tiver conseguido produzir três estratos fundamentais: um elemento difuso, disciplinado e fiel, mas de pouca criatividade e responsabilidade; um elemento coesivo (comparável a um grupo de capitães, capaz de reconstruir um exército, se ele é destruído); um elemento médio, que articula o primeiro com o segundo elemento. O elemento difuso propaga na sociedade civil as opiniões do partido, abalando e destruindo o senso comum e criando, no lugar, o seu senso comum. O elemento médio articula, física, intelectual e moralmente, o elemento coesivo e o elemento difuso. O bloco histórico atual tem o seu sistema de trincheiras e casamatas ideológicas dispersas no corpo social, facilitando-lhe a hegemonia. O bloco histórico em formação necessita criar o seu próprio sistema de trincheiras e casamatas, que lhe facilite a transição, a construção da nova hegemonia (Gramsci, 1978, p. 170-171).
O intelectual tradicional entra em crise quando o poder da sua classe de referência se abala. A classe em ascenso, que se vai formando como dominante, atrai parte da antiga intelectualidade, enquanto forma os seus intelectuais próprios, orgânicos. O partido que propõe a liberdade como modo de vida da sociedade necessita de operários que cumpram funções intelectuais e de intelectuais tradicionais que se disponham a integrar-se ao esforço operário de propor um projeto humano universal.
O operário não precisa de partido para ser operário, como o comerciante não precisa de entrar no partido para ser comerciante. O comerciante, o industrial, o fazendeiro, entram no seu partido político para gerarem políticas capazes de manter o seu bloco histórico. Os operários entram no seu partido para gerarem políticas capazes de desestabilizar o bloco histórico burguês e viabilizar a emergência do bloco histórico da mudança social. O trabalho de contra-hegemonia exige mais do que um esforço sindical (Gramsci, 1978, p. 167; Gramsci, 1978, p. 352).
Entra em questão o papel pedagógico do partido. Se todo intelectual é, em alguma medida, um educador, o intelectual coletivo é um educador coletivo. Representando uma classe dominada, trabalha no sentido de construir uma nova hegemonia, mas é como contra-hegemonia que o seu trabalho se põe. Sua primeira função educativa se volta para dentro, para os seus próprios quadros , preparando os seus militantes para reproduzir criativamente essa educação para amplas massas .
Uma sexta abordagem é solicitada, para analisar a relação entre a educação e o desenvolvimento.
Abordar os fundamentos compreensivos do fazer educação no pensamento gramsciano remete à obra de Marx (Manacorda, 1991, p. 146). A pedagogia marxiana imbui-se da liberdade como princípio geral, a construção do indivíduo integral na comunidade social e natural, constituindo-se, "coletivamente (e pela primeira vez) em sujeitos verdadeiros e livres" (Souza, 1992, p. 112) como meio de superação do homem subsumido, ora na natureza, ora na sociedade.
Sujeitos verdadeiros e livres são possíveis com a conquista do tempo livre. A propriedade individual dos meios coletivos de produção - no sentido marxiano da categoria propriedade, que não se confunde com o conceito jurídico de propriedade - permite a cada um definir o seu trabalho e horários e exercer várias atividades profissionais. Trabalhar na metalurgia, dar aulas de crochê, apresentar balé, plantar moranguinhos, conferenciar sobre física quântica, à sua vontade, representa a idéia da onilateralidade, proposta marxiana que se contrapõe à unilateralidade da produção e da sociedade capitalistas.
A pluriprofissionalidade não é uma obrigação, é um direito. Ela está, na coletividade dos produtores autônomos associados, como possibilidade, disponível a todos os indivíduos humanos . Assenhorear-se das condições para a abolição da divisão do trabalho significa conquistar as condições em que toda pessoa tenha acesso ao tempo livre e possa utilizá-lo, ao seu bel-prazer, para o descanso ou para a fruição, em quaisquer dos seus aspectos . Supera-se a vida unilateral .
O capital apropria-se "do saber, da habilidade, bem como de todas as forças produtivas gerais do cérebro social" (Marx, 1980, p. 40); apropria-se, também, do tempo livre criado pelo crescimento do capital, transformando-o em tempo de fruição para o capitalista e em tempo de sobretrabalho para o operário . Dispensa-se os operários, cresce o desemprego estrutural, o exército industrial de reserva. Cresce a mais-valia relativa, comprimindo a mais-valia absoluta . A massa de tempo de trabalho imediato não representa mais o fator decisivo da produção de riquezas, a produção baseada no valor de troca entra em cheque .
A eficiência tem por suporte a ciência aplicada à produção (Marx, 1980, p. 42-43). A agricultura torna-se uma simples aplicação da ciência "do metabolismo material da nutrição e o modo mais vantajoso da sua regulação para o conjunto do corpo social" (Marx, 1980, p. 50). A máquina (trabalho objetivado) cria tempo de não-trabalho. As individualidades podem desenvolver-se livremente, dedicar-se à formação artística, científica. O capital retoma-as para o sobretrabalho. A contradição intensifica-se a cada novo ciclo do capital .
Coloca-se para as massas operárias a oportunidade de apropriar-se do seu próprio sobretrabalho, cada indivíduo desenvolvendo todas as suas potencialidades. O tempo livre mede a riqueza, o desenvolvimento das forças produtivas mede-se pelo desenvolvimento integral da principal força produtiva, o homem, todos os indivíduos humanos: isto equivale a uma revolução .
O livre consumo do tempo livre, o desenvolvimento humano, a fruição, não reduzem a produção nem o desenvolvimento das forças produtivas. Pelo contrário, ampliam-nos, sem cessar. O desenvolvimento social dá-se em uma base não alienada. Produção, ciência e pedagogia caminham juntas (Marx, 1980, p. 50-60) .
Esta é a utopia da obra marxiana e gramsciana. É para onde tende a humanidade, na análise de ambos os autores. Não é a realidade com que nos deparamos hoje. A educação, na sua dimensão de práxis, emerge como auxiliar na formação do novo bloco histórico. Produz elementos de construção da nova hegemonia, que, nos momentos de fraco desenvolvimento da organicidade intelectual da classe operária, operam como contra-hegemonia, emperrando o exercício da supremacia da classe dominante. A revisita à obra gramsciana aponta uma razão educativa que enfrenta a razão de Estado e realiza-se como razão contra-hegemônica.
Numa situação de recondicionamento, é preciso estar atento à correlação de forças, evitando tanto o "ideologismo" quanto o "economicismo" (Gramsci, 1978, p. 188-190). Na ação pedagógica comprometida com a construção do novo bloco histórico, este é o seu limite e possibilidade. É necessário uma escola que forneça aos trabalhadores e aos seus filhos as condições de uma educação técnica para o desempenho profissional nas áreas de produção intensivas em tecnologia, ao mesmo tempo em que trabalhe para que eles possam desvendar os signos ideológicos, que representam a realidade de forma invertida. Assim, contribui-se para o desenvolvimento objetivo da situação social atual, enquanto se forja a perspectiva teórica da luta pelos interesses futuros da classe e da humanidade.
Aí, trabalham juntos intelectuais orgânicos e intelectuais tradicionais que se descolaram do seu bloco histórico. Todavia, é útil relembrar a advertência de Marx em carta circular de 17/18 de setembro de 1879: intelectuais tradicionais aderidos ao bloco histórico da transformação social só têm real utilidade para o proletariado se cumprirem duas condições; a primeira, que tragam elementos autênticos de cultura, a segunda, que se desfaçam dos seus preconceitos burgueses, pequeno-burgueses etc (Marx & Engels, 198_?b, p. 281). Uma escola para o desenvolvimento humano, que não seja simples reedição da opressão vivida historicamente pelos trabalhadores, deve escapar à armadilha de ser uma confraria de intelectuais tradicionais reproduzindo a formação de intelectuais tradicionais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. (Perspectivas do homem, 12).
___. Obras escolhidas. São Paulo: Martins Fontes, 1978. (Novas direções).
GRUPPI, Luciano. O conceito de hegemonia em Gramsci. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1991. (Biblioteca de ciências sociais, 1, Política).
MANACORDA, Mario Alighiero. Marx e a pedagogia moderna. São Paulo: Cortez:Autores Associados, 1991. (Biblioteca da Educação, 1 - Escola, 5).
___. O princípio educativo em Gramsci. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. (Educação, teoria e crítica).
MARX, Karl. Conseqüências sociais do avanço tecnológico. São Paulo: Edições Populares, 1980. (Ciências sociais, Materialismo histórico, 1).
___. O Capital: Volume I, Livro Primeiro, O processo de produção do capital, Tomo 1 (Prefácios e Capítulos I a XII). São Paulo: Abril Cultural, 1983a. (Os economistas).
___. O Capital: Volume I, Livro Primeiro, O processo de produção do capital, Tomo 2 (Capítulos XIII a XXV). São Paulo: Abril Cultural, 1983b. (Os economistas).
___. O Capital: Volume II, Livro Segundo, O processo de circulação do capital. São Paulo: Abril Cultural, 1983c. (Os economistas).
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas. V. 1. São Paulo: Alfa-Omega, 198_?a.
___. Obras Escolhidas. V. 3. São Paulo: Alfa-Omega, 198_?b.






Terça-feira, Junho 22, 2004
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PENSANDO BEM

de Luís Fernando Veríssimo

"Pensando bem, é difícil acreditar que estejamos vivos até hoje! Quando éramos pequenos, viajávamos de carro, sem cinto de segurança, sem ABS e sem air-bag!
Os vidros de remédio ou as garrafas de refrigerantes não tinham nenhum tipo de tampinha especial... Nem data de validade... E tinham também aquelas bolinhas de gude... Que vinham embaladas sem instrução de uso. A gente bebia água da chuva, da torneira e nem conhecia água engarrafada! Que horror!
A gente andava de bicicleta sem usar nenhum tipo de proteção... E passávamos nossas tardes construindo nossas pipas ou nossos carrinhos de rolimã.. A gente se jogava nas ladeiras e esquecia que não tinha freios até que não déssemos de cara com a calçada ou com uma árvore... E depois de muitos acidentes de percurso, aprendíamos a resolver o problema... SOZINHOS!
Nas férias, saíamos de casa de manhã e brincávamos o dia todo; nossos pais às vezes não sabiam exatamente onde estávamos, mas sabiam que não estávamos em perigo.
Não existiam os celulares! Incrível! A gente procurava encrenca. Quantos machucados, ossos quebrados e dentes moles dos tombos! Ninguém denunciava ninguém... Eram só "acidentes" de moleques: na verdade nunca encontrávamos um culpado.
Você lembra destes incidentes: janelas quebradas, jardins destruídos, as bolas que caíam no terreno do vizinho...???
Existiam as brigas e, às vezes, muitos pontos roxos... E mesmo que nos machucássemos e, tantas vezes, chorássemos, passava rápido; na maioria das vezes, nem mesmo nossos pais vinham a descobrir... A gente comia muito doce, pão com muita manteiga... Mas ninguém era obeso... No máximo, um gordinho saudável... Nem se falava em colesterol... A gente dividia uma garrafa de suco, refrigerante ou até uma cerveja escondida, em três ou quatro moleques, e ninguém morreu por causa de vermes! Não existia o Playstation, nem o Nintendo... no máximo um Atari ou Master System. Não tinha TV à cabo, nem DVD, nem Internet... Tínhamos, simplesmente, amigos!
A gente andava de bicicleta ou à pé. Íamos à casa dos amigos, tocávamos a campainha, entrávamos e conversávamos... Sozinhos, num mundo frio e cruel... Sem nenhum controle! Como sobrevivemos? Inventávamos jogos com pedras, feijões ou cartas... Brincávamos com pequenos monstros: lesmas, caramujos, e outros animaizinhos, mesmo se nossos pais nos dissessem para não fazer isso! Os nossos estômagos nunca se encheram de bichos estranhos!
No máximo, tomamos algum tipo de xarope contra vermes e outros monstros destruidores... aquele cara com um peixe nas costas...(um tal de óleo de
rícino). Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros, e tiveram que refazer a segunda série. Que horror! Não se mudavam as notas e
ninguém passava de ano, mesmo não passando. As professoras eram insuportáveis! Não davam moleza... Os maiores problemas na escola eram:
chegar atrasado, mastigar chicletes na classe ou mandar bilhetinhos falando mau da professora, correr demais no recreio ou matar aula só pra ficar jogando bola no campinho... Ninguém se escondia atrás do outro... Os nossos pais eram sempre do lado da lei quando transgredíamos a regras! Se nos comportávamos mal, nossos pais nos colocavam de castigo e, incrivelmente, nenhum deles foi preso por isso! Sabíamos que quando os pais diziam "NÃO", era "NÃO".
A gente ganhava brinquedos no Natal ou no aniversário, não todas as vezes que ia ao supermercado... Nossos pais nos davam presentes por amor, nunca por culpa... Por incrível que pareça, nossas vidas não se arruinaram porque não ganhamos tudo o que gostaríamos, que queríamos... Esta geração produziu muitos inventores, artistas, amantes do risco e ótimos "solucionadores" de problemas... Nos últimos 50 anos, houve uma desmedida explosão de inovações, tendências... Tínhamos liberdade, sucessos, algumas vezes problemas e desilusões, mas tínhamos muita responsabilidade... E não
é que aprendemos a resolver tudo!!! ...E sozinhos... Se você é um destes sobreviventes... PARABÉNS!!!
VOCÊ CURTIU OS ANOS MAIS FELIZES DA SUA VIDA..."

Pensando, bem, tomando de empréstimo o texto do Verísssimo e compartilhando com vocês, talvez nós, hoje, não precisemos resolver tudo tão sós, até porque os nossos desafios parecem ser cada vez mais coletivos. Precisamos mais de outro, de outra, ou nos plurais de outros e outras que nos acompanham, enfrentam, discordam. Mesmo que precisando de tecnologias educacionais informatizadas... Continuo sendo "idealista", sonhadora, querendo coisas diferentes e menos saudosistas. Antevendo o que se mostra possível, e o impossível também! Se conseguiram ler até aqui... Parabéns!!! Você vive os anos mais felizes da sua vida... ou não!

Carmen






Segunda-feira, Junho 21, 2004
#
Olá pessoal,
Desenvolvo meu trabalho sobre a preocupação com a formação docente, principalmente sobre decentes de uma nova licenciatura denominada Licenciatura em Computação. Discuto a necessidade de uma formação docente preocupada com as questões político-pedagógicas e sociais não apenas com questões técnicas e tecnológicas; e como Gramsci intervém para esta formação.

OK! Abraço a todos, Marcia.





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Olá pessoal,
Desenvolvo meu trabalho sobre a preocupação com a formação docente, principalmente sobre decentes de uma nova licenciatura denominada Licenciatura em Computação. Discuto a necessidade de uma formação docente preocupada com as questões político-pedagógicas e sociais não apenas com questões técnicas e tecnológicas; e como Gramsci intervém para esta formação.

OK! Abraço a todos, Marcia.





Segunda-feira, Junho 14, 2004
#
teste





Sábado, Junho 12, 2004
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Pessoal,
Li a fala do escritor uruguaio Eduardo Galeano, Elogio do senso-comum, feita na abertura do Fórum de Cultura de Barcelona, e chamou-me atenção a descrição do autor de como os circos domam os ursos. Não pude deixar de lembrar-me, também, do assunto que discutimos nas ultimas aulas: Americanismo, Taylorismo, Fordismo.
Vejam bem: para que os ursos dancem nos circos, o domador os adestra: ao ritmo da música, golpeia- lhes as ancas com um pau cravado de espinhos. Se dançam como devem, o domador deixa de golpeá-los, e lhes dá comida. Se não, continua o tormento, e de noite os devolve às jaulas sem nada para comer. Por medo, medo do castigo, medo da fome, os ursos dançam. Do ponto de vista do domador, isso é puro adestramento. E pelo ponto de vista do domado?

Com relação a Tiros em Columbine ( ótimo, com comentários!):
Eduardo Galeano sugere: numa era de barbárie, até os raciocínios ingênuos podem ser subversivos... Apresenta como exemplo os gastos militares. O mundo destina hoje 2,2 bilhões de dólares por dia à produção da morte. Ou seja: destina esta fortuna astronômica para promover caças onde o caçador e a presa são da mesma espécie, e onde tem mais êxito quem mais mata seus próximos. Nove dias de gastos militares seriam suficientes para dar comida, escola e remédios a todas as crianças que não os têm. À primeira vista, isso trai o senso comum. E à segunda vista? - pergunta Galeano que assim responde: a versão oficial justifica esse esbanjamento com a guerra ao terrorismo. Mas o senso comum nos diz que o terrorismo está por demais agradecido. E está claro que as guerras no Afeganistão e no Iraque oferecem ao terrorismo suas mais poderosas vitaminas. As guerras são atos de terrorismo de Estado, e o terrorismo de Estado e o terrorismo privado se alimentam mutuamente.
Nestes dias, continua Galeano, têm sido difundidas as cifras: a economia dos Estados Unidos está se recuperando e voltou a crescer em bom ritmo. Sem os gastos de guerra, cresceria muito menos, segundo os experts. Ou seja: a guerra do Iraque continua sendo uma boa notícia para a economia. E para os mortos? O senso comum fala pela boca das estatísticas econômicas? Ou se expressa pela boca deste pai doído, Julio Anguita, quando diz: "Maldita seja esta guerra e todas as guerras"?
Abraços, Regina.





Quarta-feira, Junho 09, 2004
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6/6/2004

A maldita herança liberal na AL

Nos últimos 20 anos, 91 milhões de pessoas se tornaram pobres na América Latina e 226 milhões vivem com menos de US$ 2 por dia. O que o povo rejeita nas pesquisas é esse sistema, e não a democracia.

Mais da metade dos 400 milhões de latino-americanos não conseguem satisfazer suas necessidades básicas. 102 milhões são indigentes, não conseguindo sequer dar o que comer a seus filhos. Esse é o balanço sintético da aplicação das políticas liberais no continente nas duas últimas décadas e meia.
Nos últimos 20 anos, quase 91 milhões de pessoas se tornaram pobres na América Latina. 226 milhões vivem com menos de dois dólares (seis reais) por dia. Aumentou o número de pobres e de indigentes. Há 40 milhões a mais de indigentes hoje do que há 20 anos.

Um dos aspectos novos é o surgimento dos “novos pobres”, setores de classe média que se proletarizaram – a Argentina é o caso mais dramático. Nos últimos seis anos, 23 milhões de latino-americanos deixaram de pertencer à classe média, para passarem à categoria de pobres.

Na Argentina, a taxa de pobreza duplicou entre 1999 e 2003, passando de 19,7% a 41,5%, enquanto a indigência se multiplicou quase por quatro, subindo de 4,8% a 18,6%. Cerca de 7 milhões de pessoas deixaram de ser da classe média para se transformarem em pobres.

Os dados estão no documento “Desigualdade na América Latina e o Caribe: ruptura com a história?”, redigido pelo Banco Mundial (BID). Como resultado das políticas liberais, o país mais eqüitativo da América Latina em termos de renda é mais desigual que o país mais injusto da Europa – incluída a Europa do leste, também assolada pelo liberalismo – e somente comparável com algumas zonas da África e com alguns países surgidos do desmembramento da União Soviética. Enquanto na Suíça a classe média representa a 60% da população, em vários países do nosso continente não chega a 20%.

Os setores mais vulneráveis nesse vendaval de miséria que o liberalismo promoveu no continente são os idosos, as mulheres, os indígenas e sobretudo as crianças. A precarização das relações de trabalho se estendeu a níveis sem precedentes, junto com o desemprego, que bateu seu recorde histórico no continente em 2003.

A concentração de renda, sob os efeitos da financeirização das suas economias, fez com que o segmento mais rico tenha renda 20 vezes superior ao que recebe os que estão entre os 40% mais pobres. A perspectiva é desalentadora, porque a desigualdade é muito alta. Sem programas econômicos centrados na distribuição de renda, e não na estabilidade monetária e no ajuste fiscal, essa situação assustadora tende a piorar. Segundo o BID, a proliferação da violência está associada ao aumento da miséria e da indigência no continente.

Uma de cada três crianças tem fome e 60% delas são pobres na América Latina, apesar da enorme capacidade de continente de produzir alimentos. A cada ano 190 mil crianças latino-americanas morre por males ligados à pobreza, que poderiam ser evitados. Atualmente cerca de 40 milhões de crianças vivem ou trabalham nas ruas da América Latina. Somente na América Central mais de dois milhões de crianças estão no mercado de trabalho. A cifra de crianças é igual à de adultos desempregados, o que significa que caso se evitasse que as crianças trabalhassem, esses adultos teriam acesso aos empregos. No entanto, os empregadores preferem as crianças, porque estas não gozam de direitos trabalhistas e acabam sendo remuneradas bem abaixo do que os mais velhos.

Somente na favelas brasileiras residem 6,5 milhões de pessoas, mais do que o dobro da população do Uruguai. Em Buenos Aires e nos seus subúrbios, as “vilas miséria” abrigam 1,3 milhão de habitantes.

Entre 1999 e 2002, a taxa de pobreza aumentou de 43% a 44% e a indigência chegou a 19,4%. Daí que a maioria da população latino-americana rejeita o sistema político, econômico e social existente, que os analistas confundem com rejeição da democracia. A pergunta das pesquisas não deveria ser se gostam da democracia, mas se gostam do tipo de sistema em que vivem: essa é a rejeição da maioria dos latino-americanos.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História







Terça-feira, Junho 01, 2004
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Compartilho com o Rafael a admiração por Michael Moore. Ainda não assisti ao filme, mas já li sobre...também estou empolgada para o dia 8. O cara é gênio...
Conheci sua crítica à hegemonia americana a alguns anos, pela Tecsat (no interior se a gente não quer assistir as notícias pelos olhos e boca do Lasier Martins, só com alguma tecnologia). Num de seus programas, o cara teve a brilhante idéia de alugar um posto de gasolina que vendia a dita por 60% do valor normal. Quando as pessoas chegavam para abastecer, o frentista -o próprio Michael Moore, explicava que era uma promoção e toda a arrecadação iria para as vítimas do embargo americano ao Iraque (crianças sem remédios e sem alimentos). Ele inclusive mostrava fotos. A primeira reação das pessoas era xingar e ir embora, movidos pelo nacionalismo. Todas porém, sem excessão, retornavam e enchiam o tanque, quando não levavam em galões para o outro dia. Não que estivessem sensibilizadas pela causa, de jeito nenhum. Mas o espírito do americanismo falava mais alto - o lucro a qualquer preço. A velha hipocrisia dos capitalistas: mandam às favas seus princípios para obter algum lucro. Coloco aqui um trecho do ótimo Stupid White Men - uma nação de idiotas, do Michael Moore, que nos traz uma definição das conseqüências do Americanismo, numa abordagem gramsciniana bem atual:
"Liberdade de escolha é uma coisa do passado. Fomos reduzidos a seis empresas de comunicação, seis empresas de transporte aéreo, duas e meia montadoras de carros e um conglomerado de rádio. Tudo que jamais precisaremos pode ser encontrado no WalMart. Podemos escolher entre dois partidos políticos que parecem iguais, votam da mesma forma e recebem fundos exatamente dos mesmos doadores ricos. Podemos escolher vestir roupas indefinidas em tom pastel e nos mantermos calados, ou podemos escolher usar uma camiseta com o Marilyn Manson e sermos expulsos da escola. Britney ou Christina, Warner Bros ou UPN, Flórida ou Texas - não existem diferenças, gente; é tudo igual, é tudo igual, é tudo igual..."(Michael Moore, 2001).
Até terça, Rita