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Terça-feira, Agosto 31, 2004
# Olá para todos! Posto a mensagem da Márcia...andava ansiosa mesmo para entrar aqui, mas o tempo anda corrido. Abraços e bons estudos. Rita Oi Rita! Não consigo instalar o bloggar, pf envia p. mim. a mens p. Julia e o texto que escolhi sobre meu autor. Pode ser? Agardeço imensamente. Retorna p. mcruz.sl@maristas.org.br [] Marcia Olá Júlia! Nossa turma iniciou o trabalho com muito ânimo. Dividimos grupos de trabalho por autores, fiquei com Moacir Gadotti. Vamos identificar o que há de Gramsci na teoria desenvolvida pelos autores. Vou enviar um pequeno texto - entrevista sobre meu autor. Espero que esteja aproveitando! [] Marcia PERGUNTAS E RESPOSTAS APÓS CONFERÊNCIA DO PROFESSOR MOACIR GADOTTI Válter Vicente Sales Filho - Coordenador Válter - Bom, eu tenho uma tarefa difícil, até uma missão impossível, porque as perguntas foram muitas. Então eu tentei, na medida em que eram recebidas, agrupá-las por tema. Acredito que será impossível responder bilhete por bilhete. Mas, talvez, blocos de temas. A gente tem um bloco que se refere à postura do educador: como é que ele, como pessoa, pode responder às exigências da educação. Um outro bloco que fala sobre políticas públicas, um bloco da ansiedade: o que fazer? O que fazer? Tem um bloco do eu te amo, nós te adoramos, você é essencial, bilhetinhos com elogios, algumas questões com experiências... Não sei por onde poderíamos começar... Mas o primeiro bloco se refere ao papel do educador, à participação pessoal do educador: o seu preparo, o seu envolvimento, o seu compromisso com a tarefa da educação. Moacir Gadotti - Eu acho que, na fala, insisti muito sobre o nosso papel. Se nós estamos aqui, acho que quase a totalidade é de professores, é porque, muitas vezes, na segunda-feira de manhã, a gente se pergunta: o que é que eu estou fazendo aqui? Que sentido tem? Eu estou gastando a minha vida aqui, tendo que pedir licença de saúde para poder agüentar, faltando alguns dias para poder voltar. Então, eu acho que essa pergunta é uma pergunta que todos nós fazemos. Às vezes, diante de uma classe difícil, indisciplinada, que não está querendo nada com nada. Nós não podemos voltar as costas a essa realidade. Nós temos que nos perguntar, e nos perguntar juntos. Eu não posso levar para casa essa pergunta. Eu tenho que resolvê-la lá dentro da instituição. E colocá-la. E colocar as minhas dificuldades. Toda vez que eu, como professor, me isolei, tentei resolver sozinho, não deu certo. Tem que ser companheiro, aquilo que o Paulo Freire falou. Eu acho que o companheirismo é fundamental. Companheiro vem do latim. Eu gosto muito de latim e grego - estudei oito anos de latim e oito de grego - porque tem muitas palavras que, buscando a origem, a gente entende. Companheiro vem de companis, vem de repartir o pão. É muito boa essa expressão, companheiro, companheira. Eu acho que o sentido ninguém constrói sozinho. A gente constrói sempre junto com o outro. Preciso ser sintético, senão os outros blocos vão perder. Válter - Nós temos muitas perguntas sobre a retórica da dominação. Em resumo: "Nós temos 500 anos de história, há 500 anos se fala em transformação e há 500 anos prevalece a exclusão, prevalece a dominação. Essa retórica foi muito questionada neste bloco de questões." Moacir Gadotti - Eu acho que há um discurso da transformação. Neste ano, vocês vão ver muita gente dizendo que a sua prioridade é a educação. Vai ter muita gente falando nisso. Acho que todos, sem exceção. O primeiro voto que eu dei foi em 1961. Desde essa época, desde que eu me conheço por gente, eu ouço esse discurso. Há uma retórica da transformação. Temos que examinar os atos: temos que examinar muito concretamente como é que isso se traduz nas práticas. O êxito ou fracasso dos partidos democráticos, das associações e sindicatos democráticos, se deve à coerência entre teoria e prática. Há muita gente que fala raivosamente de democracia. Se alguém tiver o livro Pedagogia da Autonomia, eu gostaria que lesse o último parágrafo, onde Paulo Freire falava disso. Se alguém tiver Pedagogia da Autonomia, pode jogar para mim que eu leio, para ver a resposta que o Paulo Freire daria a essa pergunta. Abra na última página, o último parágrafo. Eu disse que ia ler, mas numa voz feminina fica melhor. Leia você. "Estou convencido, porém, de que a rigorosidade, a séria disciplina intelectual, o exercício da curiosidade epistemológica, não me fazem necessariamente um ser mal-amado, arrogante, cheio de mim mesmo. Ou, em outras palavras, não é a minha arrogância intelectual que fala da minha rigorosidade científica. Nem a arrogância é sinal de competência, nem a competência é a causa de arrogância. Não nego a competência, por outro lado, de certos arrogantes, mas lamento neles a ausência de simplicidade que, não diminuindo em nada o seu saber, os faria gente melhor. Gente mais gente." Obrigado. Paulo Freire. Este país precisa de gente como o Paulo Freire - por isso é que eu coloquei a foto dele no último slide - que nos dá uma lição de vida fantástica. Uma lição de rigorosidade, mostrando que o intelectual - estou falando do intelectual progressista, crítico - tem que ser extremamente coerente. Não basta fazer um discurso da competência, um discurso da amorosidade. Eu acho que ele não consegue fazer, fica difícil - sobretudo o da liberdade e da igualdade - para quem não vive esses valores. O que impressiona em Paulo Freire é exatamente essa grande coerência entre a teoria e a prática. E é isso que faz dos freirianos gente muito fiel a essa questão da coerência. Válter - Temos várias questões sobre eco-pedagogia. "O que significa eco-pedagogia?" Moacir Gadotti - "Eco" vem de oîkos, que significa casa, a nossa casa, que se chama Terra. E eco-pedagogia é uma pedagogia da Terra, uma pedagogia da amorosidade para com a Terra. Inicialmente, foi confundida com pedagogia do desenvolvimento sustentável. Hoje ela é entendida como muito mais do que pedagogia do desenvolvimento sustentável: é da sustentabilidade da própria vida. Eu vi que houve uma oficina - parabéns a quem fez, eu gostaria até de conhecer - sobre eco-pedagogia. A sustentabilidade é um dos eixos, um dos pilares da educação do futuro. Portanto, a eco-pedagogia tem tudo a trabalhar nessa direção. Quem quiser ler um pouco mais, pode ler o meu livro Pedagogia da Terra ou o livro do Francisco Gutiérrez, Eco-Pedagogia e Cidadania Planetária. É uma corrente nova de pensamento e de práticas, de ação, que não se confunde com a educação ambiental. Mas tem muito a ver com a educação ambiental no sentido não só de preservação da natureza, mas da própria transformação do ser humano, que recupera essa relação com a natureza. Eu acho que a pedagogia tradicional distancia o ser humano da natureza. A pedagogia nova reaproxima o ser humano da natureza. Como diz o Guimarães Rosa, "eu estou renascendo em cada ipê". Eu acho isso maravilhoso: é uma declaração eco-pedagógica: estou renascendo em cada ipê. É essa integração com a natureza que a eco-pedagogia trabalha. Além do saneamento básico, que tem que ser feito lá fora, a eco-pedagogia insiste que é preciso fazer um saneamento básico aqui dentro, para melhorar também a nossa forma de existir no planeta. "De um lado a sociedade exclui e de outro a lei tenta proteger. O que o senhor acha do sistema de cotas?" Moacir Gadotti - Nos Estados Unidos, eu vi a implantação do sistema de cotas como um passo provisório para se chegar a uma equalização social, a uma igualdade de diretos na sociedade. Portanto, neste momento, eu sou a favor, como medida de discriminação positiva, porque não basta proclamar a igualdade, é preciso procurar mecanismos e um dos mecanismos é a inclusão de setores que foram sempre excluídos. Eu nunca esqueço quando o Bispo Desmond Tutu chegou à nossa universidade, a USP, a alguns anos atrás, na época mais hedionda do apartheid social na África do Sul. Ele olhou para a nossa platéia e ficou espantado. E disse o seguinte: há mais negros nas universidades brancas do meu país, que é a África do Sul, do que nesta universidade. Por isso eu sou a favor das cotas. Válter - Temos algumas questões sobre responsabilidade social e terceiro setor. "Como é que isso pode atuar na transformação?" Moacir Gadotti - Vocês já tiveram o debate com o Merege, com o Ladislau e com mais gente. Eu ficaria a tarde toda aqui, a noite toda, discutindo essa questão. A escola pública pode ser ajudada. Os amigos da escola são, sobretudo, aqueles que vão lá em Brasília defender 10% do orçamento. Esses são os primeiros amigos. Não adianta dar uma esmolinha para a escola, para pintar as paredes talvez, e lá no Congresso defender seis, cinco, quatro por cento do orçamento para a educação. Os bons amigos da escola são aqueles que vão lá defender os 10%. Eu aceito também que a empresa tenha responsabilidade, sou favorável a isso. Só que a empresa não pode dar o dinheiro. Ela tem que ir lá ver a escola, tem que ir lá e trabalhar, ver o projeto pedagógico, se inserir na luta. Não é doando coisas que vai melhorar a escola pública, mas interferindo nas políticas do Estado, pagando impostos, para que tenhamos mais recursos para a educação. Ou seja: a responsabilidade social da empresa tem que ser realçada. Eu acho fantástico esse grupo de empresários do Ethos e outros empresários do chamado Terceiro Setor, que vêm ajudando esses empresários a terem sensibilidade social. Mas é preciso ir além da pura doação e, sobretudo, do puro marketing. Que não usem a educação para o marketing. Fazer marketing social, tudo bem: que façam. Mas que façam algo mais do que o puro marketing e não usem a educação só para fazer marketing. É pouco, é muito pouco, o marketing social. Nós precisamos juntar forças, Estado e sociedade. Está na constituição: a educação é dever do Estado e responsabilidade da sociedade. Então, os empresários não estão fazendo nada mais do que assumir a sua responsabilidade, a parte deles. Que o façam de forma cooperativa, que se juntem a secretarias, que discutam os projetos pedagógicos, que entendam de educação. Não é só dar dinheiro para a educação. Podem dar dinheiro, precisamos de muito dinheiro. Educação precisa de muito dinheiro, de muito mais do que estamos recebendo. Precisamos de salários melhores para os professores, precisamos de condições de trabalho. Que se associem a nós nessa luta, no Congresso, para que não haja um veto ao Plano Nacional de Educação. Por que não assinam em baixo? Por que não vão lá e retiram os vetos ao Plano Nacional de Educação? Ainda dá tempo. Nós precisaríamos de 10% de nosso PIB para enfrentar a enorme defasagem. Até o Ministério apoiou essa proposta. Mas, na hora "h", os congressistas chegaram à conclusão de que não deviam dar mais recursos para a educação. Então, amigos da escola, sou a favor de todos os amigos da escola, mas é preciso saber quem são os verdadeiros amigos |