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Segunda-feira, Abril 24, 2006
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AS CLASSES SOCIAIS NA SOCIEDADE GLOBALIZADA: RELAÇÕES DE FORÇA, HEGEMONIA E BLOCO HISTÓRICO
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#Marion Machado Cunha Existe uma intensa produção teórica que considera que a atual sociedade, em sua organização social, econômica e cultural, está rompendo ou rompeu com modelos de racionalidade, de centralidade do sujeito e de metanarrativas. Essa tendência teórica é denominada de pós-moderna, que se avoluma como concepções e práticas, incide no campo de diversas áreas das ciências humanas, orientando várias produções científicas no âmbito da academia. Defendemos a tese que é necessário nos situar nessa discussão, não para amparar esse modelo, mas, antes, localizá-lo no contexto da sociedade mercantilizada mundialmente para apreender seu fetiche. Mobilizamos para essa reflexão os conceitos de relações de força, hegemonia e bloco histórico forjados por Gramsci. Dessa forma, propomos discutir dois textos que são expressões no meio acadêmico dessas vertentes, sabendo que eles não representam a totalidade desse novo universo teórico, mas o constituem, a saber, "A identidade cultural na pós-modernidade" e "Um discurso sobre as ciências". O primeiro é de autoria de Stuart Hall e o segundo de Boaventura de Sousa Santos. Primeiramente, queremos destacar a concepção de Hall. Para o autor, toda a transformação pela qual passa a sociedade é explicada (Hall, 1999) pelo fenômeno da globalização. Nessa perspectiva, Hall aponta para o seguinte problema: Outro efeito desse processo foi o de ter provocado um alargamento do campo das identidades e uma proliferação de novas posições-de identidade, juntamente com um aumento de polarização entre elas. Esses processos constituem a segunda e a terceira conseqüência da globalização, anteriormente referida - a possibilidade de que a globalização possa levar a um fortalecimento de identidades locais ou à produção de novas identidades. (1999, p. 84). A base analítica de Hall sustenta-se no fenômeno globalização, apresentado-o como "um complexo de processos e forças de mudança" (1999, p. 67). Ou seja, a globalização é caracterizada como um "complexo jogo", impulsionado por "forças de mudanças", o qual se desloca constantemente e ininterruptamente entre o global e o local: "ao invés de pensar no global como substituindo o local seria mais acurado pensar numa nova articulação entre o global e o local. (...) É mais provável que ela vá produzir, simultaneamente, novas identificações globais e novas identificações locais." (Hall, 1999, p. 78). A sociedade, para o autor, está compelida por uma força imanente, a globalização, que, por sua própria força, empreende novas configurações sociais e a formulação de novas identidades, que desloca o indivíduo entre o local e global. Essa tautologia, não é desconhecida. Marx já expôs esse fenômeno do jogo das aparências quando tratou da mercadoria e seu valor na economia política burguesa. Para Marx, em o Capital, na primeira parte destinada a explicitar a relação mercadoria e dinheiro, o valor da mercadoria revela-se não por sua forma equivalente de outra mercadoria, mas, antes de mais nada, pelo trabalho abstrato, quantificado como tempo de trabalho. E nas relações de troca entre os produtores individuais é ocultada "a igualdade dos trabalhos humanos sob a forma da igualdade dos produtos do trabalho como valores." (1980, p.80). Em outras palavras, o fetiche se realiza por dissimular na troca da mercadoria o trabalho humano. Esse fenômeno é caracterizado como relações de valores: uma relação social de mercadoria. A mesma forma de fetiche emerge na formulação de Hall, em que a globalização só se realiza por sua própria força. A questão é: que força é essa? Nossa obrigação é de expor esse fetiche! Como já apontamos, outro expoente da literatura pós-moderna é o Boaventura de Sousa Santos. A partir de uma breve incursão em seu pensamento, presente em seu livro Um discurso sobre a ciência[1] (2004), escrito na década de 1980, podemos visualizar a posição de "novas referências" produzidas quanto a essa forma da nova sociedade em construção, atormentada pelo passado, insegura no presente e temerosa do futuro[2]. Entre suas argumentações, o autor fala da emergência de um novo paradigma científico, com base nas descobertas científicas das ciências naturais (da Física, da Química e da Biologia), em pleno século XX. No campo da Física se refere à teoria da relatividade de Einstein e à teoria quântica de Heisenberg e Bohr. Da primeira, destaca a "relatividade da simultaneidade" e, da segunda, "a incerteza" do conhecimento, pois, para essa teoria, tudo o que se pode conhecer é apenas probabilidade. No campo físico-químico o autor apresenta a teoria de Ilya Prigogine, o qual descobre a lógica da "auto-organização" e as "flutuações de energia". Dessas formulações conceituais, Sousa Santos afirma que é necessário apreender uma "nova concepção de matéria e da natureza", a partir das quais se deve realizar outra interpretação da história: "a história; em vez do determinismo, a imprevisibilidade; em vez dos mecanismos, a interpenetração, a espontaneidade, a irreversibilidade e evolução; em vez da ordem, a desordem; em vez da necessidade, a criatividade e o acidente (2004, p. 47-48). Ainda nessa exposição, o autor aponta para quatro teses emergentes do novo ?paradigma pós-moderno": "todo conhecimento científico-natural é científico-social, todo conhecimento é local e total, todo o conhecimento é autoconhecimento, todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum". Sousa Santos no campo de suas proposições acaba, mais do que indagar, apresentar eixos epistemológicos para campo das experiências humanas concretas que devem ser reformuladas. Em outras palavras, o sentido da história dos homens e das relações sociais são substituídas pela emergência do poder do conhecimento, como manifestação primeira. Parece haver uma coincidência entre as perspectivas tautológica de Hall, quando acena para a fragmentação do indivíduo, no seu deslocamento entre o global e o local, e a epistemologia "suprema" de Sousa Santos em relação à história e às relações sociais. Figuram em seus discursos "a urgência de entender" esse "novo homem" e suas novas formas de conhecer, de saber o papel que lhe compete e a sua posição nesse mundo atravessado e alvejado por uma globalização e por um plano epistemológico pós-moderno. Para situar a reflexão que vislumbramos, é necessário recorrer a Gramsci a partir de seus conceitos de relações de força, hegemonia e bloco histórico. Gramsci destaca que é necessário conhecer diversos momentos ou graus das relações de força: a) a relação de "força ligada à estrutura objetiva" que é forjada pelo "grau de desenvolvimento das forças materiais de produção" (campo da estrutura de produção e das forças produtivas); b) a relação de "força política" que é elaborada no conjunto da "avaliação do grau de homogeneidade, de autoconsciência e de organização alcançado pelos vários grupos sociais" (campo da superestrutura, sob a dinâmica da política) e as relações de "força militares". (1980, p. 48-51). As relações de força são históricas e constituem o campo da luta de classes. Disso decorre que as forças sociais no campo da política assumem graus e momentos diversos na história, na dinâmica entre governadores e governados, dominantes e dominados e dirigentes e dirigidos. A sociedade não é algo estático e as relações de forças se caracterizam pelo potencial das classes sociais em mobilizar suas existências coletivo-individuais quanto às instâncias ideológico-cultural, filosófico-científico, prático e ético-moral e, por fim, político-econômico. Sobre essa compreensão Gruppi afirma: As classes sociais, dominadas ou subalternas - como diz Gramsci - participam de uma concepção do mundo que lhes é imposta pelas classes dominantes. Essa ideologia das classes dominantes corresponde à função histórica delas, e não aos interesses e à função histórica - ainda inconscientes - das classes subalternas (1991, p 67-68). A classe dominante só é capaz de exercer sua função histórica, como classe, porque se articula em todas as instâncias superestrutural e estrutural. Dessa forma, as relações de força são estratégias explícitas ou tácitas na arregimentação da sociedade, conforme o potencial de enfrentamento das classes sociais no campo da luta de classes. Essas estratégias perpassam por ordens diversas no campo da política. Gramsci afirma que "nas análises histórico-políticas, freqüentemente incorre-se no erro de saber encontrar a justa relação entre o que é orgânico e o que é ocasional." (1980, p. 46). Quanto ao que apontamos nos discursos de uma nova ordem social e epistemológica, a exemplo de Hall e Sousa Santos, em que o indivíduo se vê pulverizado, sem referência, como em um plano de forças invisíveis, divorciado da história e de si mesmo, não estão aí caracterizadas as relações de força de uma classe social? Essa estratégia representa, nas palavras de Gramsci, o grau de homogeneidade, de autoconsciência e de organização que a burguesia possui no atual estágio produtivo do mercado mundializado. Dieterich afirma que A subordinação real do planeta ao Capital acontece quando este estende seus interesses produtivos (extrativos e, posteriormente, industrial) a todo o planeta, integrando-o num sistema internacional de divisão e apropriação do trabalho, cujo corolário é a globalização da sociedade burguesa em todas as suas facetas. (...) A relação entre o Estado-nação e a crescente autonomia do mercado mundial; as implicações da desproporção entre capital produtivo e especulativo; as conseqüências ainda nebulosas dos novos sistemas de multimídia - isto é, a convergência das tecnologias da televisão, telefone, cinema e computador numa só tecnologia - e o significado de um desemprego mundial de 30 % da população economicamente ativa, são alguns dos parâmetros da nascente sociedade global (1999, p. 90-91). A acumulação flexível do Capital, diante da crise dos modelos fordista e taylorista como causa do desemprego estrutural, que atinge os trabalhadores, os quais se vêem expulsos do processo produtivo também pelo emprego de novas tecnologias de produção (informatização e automação da produção), é uma estratégia de mercado para o mercado. Evidentemente que as investidas do Capital estão na sua própria ampliação e nas leis mercado, concatenadas com processo de acumulação. Os trabalhadores só existem para o Capital como força produtiva, em função de serem forças de trabalho. Não é sob essa condição de mercadoria que a força de trabalho faz do trabalhador um indivíduo fragmentado entre o global e o local? Para entender essa nebulosa compreensão pós-moderna de Hall e Sousa Santos, na qual tempo e espaço são múltiplos e incertos, podemos nos apoiar no conceito de hegemonia. É possível apreender que o conceito de hegemonia, em Gramsci, expressa uma totalidade de dominação e direção que são fundamentais em uma sociedade. Nenhuma classe social pode se colocar no exercício concreto de dominação e direção se não desenvolver a capacidade de hegemonia: "a capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo, mas sim marcado por profundas contradições.' (Gruppi, 1991, p. 70). Evidentemente que a hegemonia não pode se desenvolver se as relações de forças não forem orgânicas. Ainda é necessário estabelecer uma visão de mundo como prioritária para garantir a coesão entre as diferentes classes sociais. Obviamente que Gramsci não tem no conceito de hegemonia uma justificativa para o papel da burguesia na história, antes, através do estudo do fenômeno político e cultural, os homens trabalhadores, pertencentes à classe sujeitada pela estrutura econômica: "o fato da hegemonia pressupõe indubitavelmente que se deve levar em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será exercida" (Gramsci, 1980, p. 33). A hegemonia de Gramsci nos expõe o campo em que as classes podem ser dirigentes e/ou coercitivas, comprimindo e/ou expandindo a luta de classes. Se por um lado, se amplia a luta de classe em função da estrutura de produção - por submeter o trabalhador à ferocidade do mercado e impulsionando-o a necessidade de uma organização da classe social para a defesa do emprego e a manutenção de sua existência - , por outro lado, procura-se contê-la em todas as instâncias políticas, culturais e ideológicas. Há uma estratégia científica e cultural para imprimir uma legitimidade da direção burguesa para a sociedade. Sua supremacia no plano superestrutural, calcada na forma econômica de produção capitalista flexível, mobiliza diversos níveis da vida político-cultural (sentido amplo) da sociedade, fazendo ver e crer - validar - um mundo globalizado. O fetiche da globalização, de seu autogoverno, segundo Hall, faz a essência da estrutura de mercado manifestar-se de forma misteriosa, como diria Marx (1989). Aí a epistemologia pós-moderna procura "colar" seus "bordados" da probabilidade (Sousa Santos) de uma vida fragmentada e de um dinamismo local e global para transfigurar a dureza do mercado e a exclusão de um contingente de trabalhadores do setor produtivo. Os trabalhadores, com a única propriedade possível, a força de trabalho, e antagônicos, precisam ser deslocados de uma leitura histórica para uma metafísica de força estranha, que se resume como uma impossibilidade da certeza. Diante de uma história indeterminada, como diria Hall (1990), os trabalhadores não se constituiriam mais como classe social, mas indivíduos em "posições-de-identidade" e descentrados. Nessa direção, diria Sousa Santos que "a ciência do paradigma emergente é mais contemplativa do que ativa. A qualidade do conhecimento afere-se menos pelo que controla ou faz funcionar no mundo exterior do que pela satisfação pessoal que dá a quem a ele acede e o partilha." (2004, p. 86). Para melhor entender essa posição, precisamos do conceito de bloco histórico. Portelli (1990) apresenta o conceito bloco histórico formulado por Gramsci como sendo: a) a articulação entre a sociedade política e a sociedade civil; vínculo orgânico entre a estrutura e superestrutura e b; a edificação da hegemonia para sustentar e dirigir o bloco histórico. Para o autor a sociedade cível, segundo Gramsci, se constitui como "um conjunto de organismos, vulgarmente ditos privados, que correspondem à função da hegemonia que o grupo dominante exerce em toda a sociedade" (1990, p.29). Ainda o autor aponta para um campo do "domínio da ideologia". Nessa direção, a sociedade civil constitui-se como um palco privilegiado da ideologia da classe dominante em todas as suas atividades. E a sociedade política se refere ao aparelho coercitivo que assegura legalmente a disciplina para reprodução sócio-econômica. Portelli ainda destaca que essa divisão "deve situar-se nos quadros de uma unidade dialética em que consenso [sociedade civil] e coerção [sociedade política] são utilizados alternadamente." (1990, p. 32). A condição necessária para o modelo atual do processo capitalista depende das compreensões injetadas na sociedade atual. Como não entender dessa forma a sociedade civil com sua função primordial de produção ideológica para garantir o consenso e assim dirigir um todo social não homogêneo? A ideologia classista burguesa através de mecanismos de produção ideológica procura imbuir os espíritos de consenso e legitimidade da reprodução flexível do Capital, mantendo o bloco histórico sob sua hegemonia. O "canto da sereia" é realmente sedutor, mas é, ao mesmo tempo, hipnotizador e entorpecente. Obviamente que o bloco histórico no e do Capital expressa um deslocamento voraz das formas de conhecimentos. Entretanto, devemos entender que o que está em jogo é a própria reprodução do Capital. Ainda no "canto da sereia" , a burguesia em sua fase de mercado globalizado, faz transfigurar sua existência para outros territórios que assume várias facetas: o indivíduo com identidades fragmentadas, deslocado entre global e local, do mundo globalizado ou epistemológico. É bastante evidente que a contradição Capital e Trabalho está no eixo da sociedade capitalista. Embora se deseje que vejamos esse processo de forma transfigurada, as existências das classes sociais estão definidas por contradições e conflitos. As concepções apresentadas sobre a globalização de Hall e a epistemologia de Sousa Santos são produzidas nesse espaço e não fora dele, como querem fazer ver e crer. BIBLIOGRAFIA DIETERICH, Heiz. Globalização, educação e democracia. In: _____; CHOMSKY Noam. A sociedade global. Blumenau: FURB, 1999. GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a política e o Estado Moderno. 4. ed. Rio de Janeiro, 1980. pp. 03-102. GRUPPI, Luciano. O conceito de hegemonia em Gramsci. 3. ed. Rio de Janeiro: Grall. 1991. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 3. ed. Rio de Janeiro, 1999. MARX, Karl. O Capital. 13. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989 [1890]. v. 1. l. 1 PORTELLI, Hugres. Gramsci e o Bloco Histórico. 5. ed.Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1990. SOUSA SANTOS, Boaventura. Um discurso sobre a Ciência. 2.ed. São Paulo, 2004. ______ (org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: ?um discurso sobre as ciências? revisitado. São Paulo: Cortez, 2004.
[1] Tendo como base as reflexões, as análises e as argumentações contidas nesse pequeno ensaio, Boaventura de Sousa Santos publica "Conhecimento prudente para uma vida decente", sendo que dessa obra ele é o organizador. Esse livro é constituído de vários ensaios, com a combinação de intelectuais convidados de diversas áreas e nacionalidades, impresso no Brasil em 2004, pela editora Vozes. [2] Essa afirmação pode ser verificada na introdução de seu livro, quando escreve que o tempo presente da sociedade está em um "cruzamento de sombras" (Sousa Santos, 2004, p. 13). |