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Domingo, Maio 28, 2006

[ Educação e socialismo sob o olhar de Gramsci ]
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EDUCAÇÃO E SOCIALISMO SOB O OLHAR DE GRAMSCI

Liane Bernardi Helo[1]

Um dos elementos que destacar-se-á para refletir a concepção de educação em Gramsci (2004) é a recuperação da sua afirmação de que todos são filósofos, ainda que a seu modo e inconscientemente. Para ele a filosofia está na própria linguagem, que é um conjunto de noções e de conceitos determinados e não, simplesmente, de palavras geralmente vazias de conteúdo; 2) no consenso comum e no bom senso; 3) na religião popular e, conseqüentemente, em todo o sistema de crenças, superstições, opiniões, modos de ver e agir que se manifestam naquilo que geralmente se conhece por folclore (GRAMSCI, 2004,p.93).

Após desconstruir o preconceito de que a filosofia é própria apenas para alguns cientistas ou profissionais especializados, para Gramsci o que importa é avançar para o segundo momento: o da crítica ou da consciência. Para ele o relevante é elaborar a própria concepção de mundo de uma maneira consciente, escolhendo a ?própria esfera de atividade e participando ativamente na produção da história? (Ibid,p.94).
O autor afirma que pela própria concepção de mundo, pertencemos a um determinado grupo, compartilhando um modo de pensar e agir e somos, em alguma medida, conformistas. A questão central é de que tipo de conformismo? Quando a concepção de mundo não é crítica, somos uma multiplicidade de homens massa agregadores de elementos diversos das fases históricas já vividas, de preconceitos, de princípios institucionalizados. Portanto fazer a crítica à própria concepção de mundo significa também criticar a influência da filosofia existente. É preciso um conhecer a si mesmo como produto histórico, desenvolvido até então, sob a influência de traços acolhidos sem crítica. Existem várias concepções e fazemos escolhas entre elas.
Gramsci avança nesta elaboração ao afirmar que ?não se pode separar a filosofia da história da filosofia, nem a cultura da história da cultura ?( Ibid p.95). Para ele não se pode se pode ser filósofo sem ter a consciência da própria historicidade e do fato de que toda concepção de mundo está em contradição com outras concepções. A possibilidade de criar uma nova cultura, uma nova concepção, não significa apenas fazer uma descoberta original; significa sobretudo socializá-la para que passe a ser base de ações.

O fato de que uma multidão de homens seja conduzida a pensar coerentemente e de maneira unitária a realidade presente é um fato filosófico mais importante e original do que a descoberta , por parte de um gênio filosófico , de uma nova verdade que permaneça como patrimônio de pequenos grupos intelectuais (GRAMSCI,2004,p.96).

O desafio está em elaborar uma filosofia, que ligada à vida prática, ?se torne um senso comum renovado com a coerência e o vigor das filosofias individuais?(ibid,p.100). Uma filosofia da práxis, portanto só pode apresentar-se em atitude crítica e polêmica do mundo elaborado até então. Mas a compreensão crítica de si mesmo só é alcançada através de uma luta de ?hegemonias políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política e finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real? (ibid,p.103).
Toda essa elaboração, embasa a reflexão sobre as concepções de escola e de educação que o autor defende. Para ele a escola tem um conceito muito amplo, que reconhece as formas educativas organizadas, com programa orgânico, mas também refere-se a espaços fora da instituição tradicional.
Respeitados todos os diversos momentos da obra de Gramsci, um dos elementos que perpassam todas as fases é a defesa da escola como devendo ser classista e desinteressada, com o sentido de que não deve apenas satisfazer a um grupo ou a alguns grupos, mas a toda a coletividade, estando acima das classes. Concorda-se com o autor, quando se interpreta esta questão sob o olhar do conhecimento universal, historicamente acumulado, e de que todos devam ter acesso a ele. Mas ao refletir sobre a questão da ?escola desinteressada? também se percebe que esta é uma questão paradoxal em relação à escola classista. Se a escola é apropriada pelas classes, há um interesse de classe em disputa. Cada uma esta interessada em que conhecimento e que ponto de vista deste conhecimento ganha ênfase na escola.
Outro elemento, pautado pelo autor é a absorção da concepção de trabalho, especialmente do trabalho industrial, como formador de uma nova sociedade, que modela o homem ?desde criança, determinando seus brinquedos, seus hábitos, habilidades, até a idade adulta? ( NOSELA, 1989,p.7). Nosela ao analisar o principio educativo em Gramsci afirma que o moderno princípio educativo do trabalho industrial transformou a instituição escolar tradicional.
Nosela resgata que Gramsci descreve o perfil de professor para esta escola do trabalho: o professor deve ter consciência do seu dever e do conteúdo filosófico deste dever. Aponta que a possibilidade de uma vanguarda que acredita estar longe de acontecer. Mas propõe que o verdadeiro mestre é aquele que não sonega ao aluno (proletário) as grandes fontes genuínas da cultura; é aquele que coloca o aluno em contato direto com as fontes clássicas do pensamento e não se interpõe como um intermediário que impede a comunicação entre os grandes e os pequenos filósofos.
Ao pensar sobre este aspecto do papel do professor, não se pode deixar de trazer para a reflexão o fato de que nas ultimas décadas ocorreu um aumento significativo do atendimento da demanda de escolarização das classes populares. O ensino fundamental praticamente universalizou o atendimento. Essa chegada da classe popular à escola, colocou em discussão que tipo de escola seria ofertada. Alguns defendem que o aumento de vagas na escola já significou uma qualificação sem precedentes, já que o parâmetro anterior era a não existência da escola e do ensino para estas pessoas. Outros afirmam que o que se estabeleceu foi uma escola de pobres para a classe trabalhadora e que a qualificação da mesma é ainda um campo em disputa. Nesta escola o que estaria oferecido seria apenas informação e a preparação para a mão de obra no capitalismo.
Outro elemento paradoxal é que nesta escola popular o professor ainda estaria distante da consciência de classe operária e estaria reproduzindo suas escolhas, seus anseios e sua visão de mundo, sem refletir onde, para que e para quem ensina.
Gramsci afirma que o primeiro passo para romper este processo seria o ?estabelecimento da relação de posse da escola por parte da classe trabalhadora? (NOSELA, 2000,p.10). Para ele, do ponto de vista teórico, seria preciso unificar definitivamente o mundo do trabalho com o mundo da cultura, a ciência produtiva com a ciência humanista ( Ibid,p.11) e isso se daria a partir do partido, da história, do socialismo, da escola... ou seja, a partir do chão do novo.[3]
A escola para Gramsci devia ser unitária, considerando a relação de trabalho numa concepção socialista, ou seja, ?esta escola não pode pertencer ao mundo vago do trabalho que confunde capital com trabalhador, e sim só pode ser gerida pela classe trabalhadora que, a partir de sua prática transformadora, molda um novo currículo educacional?( Ibid, p. 14). Ela contrapõe a ?duplicação entre a escola cientifica, profissionalizante, técnica de um lado e escola humanista formativa de outro lado?.( Ibid, p.15) Mas esta escola unitária pressupõe relações sociais gerais unitárias, também. Retomando o conceito de escola ela deveria ser unitária, formativa, de cultura geral, humanista, do trabalho (não imediatamente profissional).
Mas transportando essa proposta para os dias atuais onde a maioria dos jovens tem que buscar a sobrevivência, se coloca uma questão crucial: Se os alunos desde cedo estão entrando no mundo do trabalho formal e informal, não haveria necessidade de uma formação profissional às crianças e adolescentes? Gramsci defende que a saída não seria renunciar aos princípios da escola unitária, mas colocar a direção desta escola nas mãos dos trabalhadores. Entende-se aqui que este processo se consolidaria por dois caminhos: primeiro, ofertando a escola para todos, ampliando a oferta de vagas em todos os níveis; segundo, trazendo a população para discutir e construir uma escola que atenda aos seus interesses.
Quando se implanta a gestão democrática nas escolas públicas, brasileiras, inicia-se um processo de abertura à participação da comunidade escolar[4] , sob a forma de democracia representativa (escolha de representantes para compor conselhos, escolha de dirigentes) e sob a forma de democracia direta (participação em reuniões, assembléias, planejamentos coletivos, etc). Mas são inúmeras as dificuldades para implantar e consolidar essas políticas. A sociedade patrimonialista, que sempre utilizou o espaço público para mando e submissão, não recebe bem essa partilha de espaços de poder com o conjunto da sociedade, de forma que este processo que precisa ser realizado na prática, encontrará muitos limites para se efetivar.
Este processo é relativamente recente, nascido junto ao processo de redemocratização da sociedade nos anos de 1980 e 1990. Embalada pela abertura política e pela retomada das eleições diretas, o discurso da democratização da educação foi afirmado na legislação, com a intensa participação do movimento educacional organizado. Mas as estruturas verticais, de supremacia dos profissionais da educação foram mantidas dentro da escola e os limites para a implantação de outras relações, mais participativas e democráticas desafiam desde então educadores de todo o país, comprometidos com a construção de uma nova sociedade.
Antônio Gramsci já alertava para as dificuldades de estabelecer qualquer nova concepção de mundo, e por conseguinte de qualquer mudança nas instituições tradicionais. Para ele as novas convicções são extremamente débeis, ?notadamente quando estas convicções estão em contato com as convicções ortodoxas, socialmente conformistas com os interesses das classes dominantes? (GRAMSCI, 1995, p.27). Mas, apesar disto, reafirma em sua obra a crença na possibilidade de construção de novas concepções a partir da socialização das informações e da escolarização da classe trabalhadora.
O desafio que se coloca, exige que para a efetivação das políticas de gestão não apenas o discurso democrático seja assumido, mas que práticas sejam estimuladas e nesse sentido ? a escola deve ser um espaço permanente de experiências e práticas democráticas, onde todos os segmentos participam ativamente nos espaços de decisão?( HELO, 2001, p.502).
Ao confrontarmosa proposta gramsciana de educação com os escritos de Décio Saes (2000) percebe-se que este último apresenta uma proposta educacional que retoma alguns dos princípio apontados por Gramsci[5]. Para o autor

Caberá, portanto, a sociedade socialista proletarizar a educação escolar. Mas atenção, ?proletarização? não significa, aqui, a substituição do estoque de conhecimentos científicos e dos elementos culturais, historicamente acumulados, por uma suposta cultura popular, alternativa à cultura de todas as classes dominantes do passado. A proletarização da educação escolar no socialismo consiste em fazer que o conjunto da sociedade- isto é, as massas trabalhadoras- tenham de fato acesso `a ciência e à cultura, rompendo assim o monopólio exercido pela classe média sobre ambas (SAES, 2000,P.76).


Para este autor o rompimento da ideologia burguesa está no método, na possibilidade de vincular pesquisa científica e prática social, ou seja, reconhecer que são as questões práticas que levam ao desenvolvimento da teoria. Outro elemento a ser retomado é o reconhecimento por parte do educador da utilidade social do conhecimento científico e das construções sociais, ou seja reconhecer que a teoria tem utilidade prática.
O autor avança na proposta de superação do sistema escolar capitalista ao propor que a sociedade socialista tem que propor a superação do padrão de oferta da educação escolar. O ensino público, gratuito e obrigatório não deve estar apenas na legislação (e para ele uma ilusão), mas deve ser assumido por toda a sociedade, especialmente pelos trabalhadores que deverão colocá-lo acima das necessidades de reprodução material. Para Décio Saes os trabalhadores se sentem desestimulados porque percebem que a escola ?não foi feita para eles? e sim para um aluno ideal, com perfil de classe média. Na sua avaliação este é um dos principais motivos das altas taxas de evasão escolar.
Saes também defende que se deve buscar incentivar à educação não-escolar ?a ser implementada em vários domínios da vida social, como nas fábricas, os campos, os escritórios, os partidos políticos,etc?(Ibid,p.77). S e apropria, portanto, do conceito de escola em sentido amplo que Gramsci defendia e aqui já referenciado.
Décio Saes também descreve, que a educação obrigatória tem dois objetivos: um imediato , que consiste em transmitir conhecimento científico, cultura, formação política para que os trabalhadores possam assumir de fato a gestão do aparelho econômico ( produção e distribuição) , bem como participar da gestão do Estado; O outro objetivo é de longo prazo e consiste em criar as condições intelectuais e culturais para o pleno desenvolvimento das potencialidades individuais e `a superação das estratégias capitalistas de afunilamento da formação dos indivíduos ( quantos começam a estudar e passam de um grau a outro de ensino?).
A educação escolar socialista objetiva em última instância a ? criação de um novo homem?( ibid,p. 80) permanentemente político, que faz uso da política não de forma ocasional, mas de forma orgânica, sistemática, em todos os campos da ação social . Para este novo homem a participação ?não é um direito individual da cidadania, que pode ser usado ou deixar de ser usado; e sim a condição essencial para o funcionamento da democracia? ( Ibid,p.81).
Entende-se que a participação é a força que movimenta a democracia e que esta é uma experiência complexa e contraditória, construída historicamente e que revela modalidades distintas de participação. O que esta em disputa na sociedade é quão real é participação, qual o grau de decisão que envolve esta participação. Para Evaldo Vieira ( 2002) a sociedade democrática é aquela que garante participação nos mecanismos de controle de decisão e, também, nos rendimentos da produção, o que esta longe de acontecer na sociedade capitalista.
Reconhece-se, novamente, uma aproximação com as concepções de Gramsci quando Saes afirma que, a diferença entre a educação capitalista que visa à formação do ?trabalhador competente? esta no fato de que a educação socialista visa à criação do ?trabalhador consciente?, capaz de assumir a direção do processo de produção, ou seja assumir a direção do capital. Para ele ?a educação escolar socialista deve, portanto, tornar possível que um operário fabril, ainda que bastante avançado numa carreira profissional específica, converta-se em professor de filosofia? ( SAES, 2000, p.83).
Esses autores nos desafiam a pensar que educação temos e fazemos e que educação podemos ter e fazer. Nossos discursos democratizantes e socialistas encontram resistências e limites que precisam ser superados e como nos disse Gramsci ( 1992) este é um processo que precisa ser orgânico, estruturado desde as formas mais simples até as mais complexas na sociedade. Como nos ensina Gramsci, é preciso reconhecer a educação como um ato de cultura e portanto a escola como sendo um espaço privilegiado para a construção de uma nova cultura democrática.


Referências Bibliográficas:
GRAMSCI, Antônio. Concepção dialética da História. 10ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, ,1995.
______. Cadernos do Cárcere. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
HELO, Liane Bernardi e outros. O planejamento como Instrumento de transformação. In AZEVEDO, José Clóvis de Azevedo (Org) Utopia e democracia na Escola Cidadã. Porto Alegre, Ed UFRGS/SMED, 2000
NOSELA, Paolo. O trabalho como princípio educativo em Gramsci. Porto Alegre. Revista Educação e Realidade, 1989.
SAES, Décio Azevedo Marques de. Educação e socialismo. São Paulo, Critica Marxista, 2000.
VIEIRA, Evaldo. Democracia e política social. São Paulo, Cortez, 1992.

[1] Mestranda em educação da UFRGS, na linha de pesquisa de políticas públicas e gestão, cujo projeto dedica-se a estudar a efetivação da política de Conselhos Escolares nas escolas. Este texto é uma reflexão proposta pela disciplina: Relendo Clássicos: Gramsci; da professora Carmen Lucia Bezerra Machado.
[2] Homem massa definido por Gramsci( 2002, p.259) como aquelas pessoas dominadas por interesses imediatos, ou tomadas pela paixão suscitada pelas impressões momentâneas, transmitidas acriticamente.
[3] Gramsci acreditava no potencial dos Conselhos de fábrica para a criação de novas concepções de mundo.
[4] Aqui definida como aquela que envolve todos os segmentos de pais, alunos, professores, funcionários bem como a comunidade que vive em seu entorno (vizinhos, parentes, outras instituições localizadas próximas a escola, etc).
[5] Embora Décio Saes não cite Gramsci ao elaborar sua proposta.





Sábado, Maio 13, 2006

[ O Trabalho como princípio educativo em Gramsci ]
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Colegas,consegui visualizar o que havia escrito,então vou continuar.
Este título está em um artigo da Revista "Educação e Realidade" e é de Paolo Nosella, um dos intérpretes de Gramsci. Tenho tido muitas dificuldades em entender os conceitos de Gramsci sobre a educação e compreendi um pouco daquilo que Nosella interpreta.Permitam que eu transcreva alguns trechos que penso entendi.( estou interessada em saber,opinar a respeito da escola que o Brasil atual precisa ). Nosella diz que para Gramsci é o proletariado industrial,organizado em partido(isto é,os quadros em volta de Ordine Nuovo) a se constituir no protótipo de intelectual orgânico das massas italianas.Na pg.5 nº4 diz que o trabalho industrial é o princípio educativo universal de toda a sociedade moderna.
Nosella lembra que Gramsci nega o trabalho que não gera sobretrabalho;isto é, aquele trabalho que gera apenas a sobrevivência individualizada sem jamais produzir riqueza universal.Esta é a base objetiva e necessária para a construção do novo homem culturalmente desenvolvido e potencialmente socialista.É por isso que ele defende radicalmente o trabalho industrial,como a forma moderna de atividade produtiva e princípio educativo do homem moderno. Há muito mais neste art. de Nosella.
Na pg. 06 da Revista Educação e realidade Nosella diz que Gramsci aponta com clarezao novo trabalho industrial (não americano),socialista:o equilibrio psico-físico do trabalhador e sua produção em vez de ser exterior e mecânico poderá tornar-se um processo interior se o mesmo for proposto pelo próprio trabalhador e não imposto de fora,formando assim uma nova forma de sociedade:interioridade da disciplina,autonomia e originalidade operária. Justificando o que faz o trabalho capitalista,diz no ítem 5 pg.7 " O trabalho industrial,como novo demiurgo modela o homem integralmente,desde criança determinando seus brinquedos,seus hábitos e suas habilidades,até a idade adulta;forja suas necessidades,seu físico e seus músculos,seus princípios e seus sonhos. O mesmo se vê nas mudanças na área das moradias,mudança na economia doméstica,espaços públicos e privados,enfim,o trabalho industrial modifica radicalmente o estado geral das coisas,isto é,o próprio estado,o nível de suas relações de poder e de suas concepções histórico-políticas."
Sobre Escolas-ainda Nosella: Gramsci utiliza um conceito de escola muito amplo,quando fala deve-se prestar atenção,porque muitas vezes está a referir-se a escola como círculos culturais:Rotary Clubes,escolas de grandes jornais,das fábricas,do comércio etc.Para ele isto é natural.Gramsci não é um professor,nem um especialista educacional,é um jornalista e chefe de partido. O trabalho educativo-escolar que efetivamente desenvolve se dá na "escola de Ordine Nuovo",do Partido Comunista,que justamente é uma escola no sentido amplo.
O autor dá algumas informações gerais sobre o momento histórico político e aponta para as ´idéias principais de Gramsci sobre o trabalho como princípio educativo daquele momento.
Para Gramsci o exemplo da revolução russa era imperativo; queria o mesmo para a Itália.Seu interesse para as questões culturais-formativas era orientado pela objetiva preocupação que tinha de preparar os quadros dirigentes que haveriam de governar o novo Estado Proletário. Pensava numa cultura "desinteressada",escola e formação "desinteressada";isto é, que interessa objetivamente não apenas a indivíduos ou a pequenos grupos,mas a coletividade e até a humanidade inteira.Para ele junto está o trabalho,isto é, a cultura,a escola e a formação devem ser classistas,proletárias,do partido do trabalho.
"A escola do trabalho e a escola vai à fábrica" talvez os 1º textos importantes que abordam a complexa relação entre a formação humanista e formação profissional.Gramsci denuncia a mesquinhez do Estado que se interessa pela profissionalização a partir de uma "interesseira" situação conjuntual:trata-se de acelerada e febril necessidade que o Estado vive de aumentar a produção industrial de material consumido pela guerra.
Nosella sugere alguns textos clássicos de Gramsci sobre trabalho e cultura:
"Homens ou máquinas"
"A universidade popular"
"Para uma associação de cultura"
"Cultura e luta de classes" Neles ele reage violentamente as tentativas de se oferecer à classe trabalhadora uma cultura e uma escola pobre,vulgar,sem vida,sem história,enfim,uma indigesta sopa de informações que mantém o operariado eternamente de chapéu na mão e boca fechada e o fixam,como máquina,à política econômica do capitalista.
Escritos do após guerra (1919 a 1921 ) Gramsci precisava estabelecer um sério programa de trabalho,para,teórica e praticamente,estruturar um verdadeiro estado proletário alternativo que desse forma política às forças revolucionárias Italianas _ Essa foi a linha de trabalho de seu grupo nos anos após guerra. Teóricamente a 1ª questão era unificar definitivamente o mundo do trabalho com o mundo da cultura; a ciência produtiva com a ciência humanista;a escola profissionalizante com a escola desinteressada. Para Ordine Nuovo,convidava os operários dos conselhos de fábricas,alunos sim,mas sobretudo mestres naquela escola,que o próprio Aquelli,dono da FIAT,tentou comprar,fascinado,mas sobretudo preocupado,por aquela experiência educacional.
Nosella sugere ainda mais alguns textos em que Gramsci fala sobre relação de trabalho-educação.
"O instrumento do trabalho"-estabelece a primazia política dos conselhos de fábrica sobre o próprio sindicato e partido.
"Operário de fábrica"-refere-se ao processo educativo de um novo tipo de humanidade ( a classe trabalhadora ).
"A escola da cultura"- Em 4§ nos dá um projeto de escola que, sem ser a tradicional não deixa de constituir-se numa verdadeira escola de "educação direta",orgânicamente ligada a sua matriz pedagógica,a própria fábrica.
"O programa de Ordine Nuovo"-onde explica com detalhes sua linha política e educacional.
"Superstição e realidade"-escrito pós a greve fracassada de 1920.Diz ele:"será preciso recomeçar do princípio".
ESCRITOS DURANTE A ASCENSÃO DO FASCISMO- O processo de ascensão do fascismo é a resposta do capital à nova e incontrolavel esperança revolucionária mundial desencadeada com o fato e o sucesso da revolução russa.A Itália não consegue reprimir os movimentos revolucionários. O Governo e a Igreja apóiam Mussolini e este sem o apoio de Gramsci e seu partido inicia uma repressão violentíssima,e resolve calar de vez a voz de Gramsci o que mandou fazer pela força em 1926.
ESCRITOS DO CÁRCERE_ Pode-se dizer que Gramsci no cárcere,ao reorganizar sua reflexão,reafirma a tese de que a base da cultura,da educação e da escola é a prática produtivo-política do mundo do trabalho industrial. A escola unitária não pode pertencer ao vago mundo do trabalho que confunde capital com trabalhador,apenas pode ser gerida pela classe trabalhadora que, a partir da sua prática transformadora,molda um novo currículo educacional.
Pg.14 3º§ me fez entender que,para Gramsci a escola unitária e "desinteressada",isto é,formativa;não determina o jovem e sim objetiva sua formação para que se torne um homem de visão geral e superior enquanto que a escola profissionalizante que se segue a unitária,sem deixar sua função formativa-desinteressada,deve objetivar também o treino educação interessada do jovem para que possa exercer a curto prazo uma função intelectual ou prática imediata. Sugere até mesmo um plano educacional.
No ítem 6 do artigo de Nosella sobre os escritos de Gramsci ele aborda a questão do 2º grau e da politecnia.A questão do 2º grau vem sendo muito debatida e por isso Nosella deu certa relevância,ele faz uma relação com a escola unitária.Existe um sentimento difuso de que o 2º grau sofre da falta de identidade pedagógica;geralmente é posto no limbo confuso da iniciação ao trabalho.Nosella se questiona 2º grau faz parte da escola unitária? Ninguém duvida que a escola unitária é o 1º grau.A luz da teoria Gramsciana,a unitariedade da escola se contrapõe à duplicação entre a escola científica,profissionalizante,técnica de um lado e escola humanista,formativa de outro. A separação rompe o princípio da unitariedade.Para Gramsci não há dúvida,a escola unitária abrange tanto o 1º quanto o 2º grau. Na escola unitária o 2º grau é a última fase deve ser concebida e articulada como a fase decisiva na qual se visa desenvolver os valores fundamentais do "humanismo"...para posterior especialização,seja de caráter científico (estudos universitários) seja de caráter imediatamente prático-produtivo. Para Gramsci entre 1º e 2º grau a diferença está no método didático.
A discussão ou a definição do estatuto pedagógico-didático do 2º grau é uma questão polêmica,não apenas no Brasil.
Para Nosella a escola unitária não deve renunciar a sua dimensão formativa desinteressada para exercer treinos profissionalizantes.Ele pensa que é preciso colocar sobre a direção do trabalhador essas escolas ou cursos.
Na pg. 17 Nosella fala sobre a chamada formação politécnica. Manocorda sugere o termo tecnologia,acontece que estes termos não são sinônimos. Marx fala de "instrução tecnológica teórica e prática e deixa para os burgueses o termo politecnia.
Krupskaya defende a instrução politécnica não contrapondo a tecnológica e sim a instrução profissional ou seja, de fato a direção de seu pensamento aponta para um afastamento do polo profissionalizante.
Diz Nosella que sabe que muitos educadores brasileiros quando sugerem a "instrução politécnica" de fato não entendem sugerir a pluriprofissionalização no sentido que o termo "politecnia" sugere etimologicamente e no sentido que a burguesia quer.
Gramsci e sem dúvida Makarenko elimina qualquer dúvida sobre o fato do ensino politécnico ser burguês:para ele de fato a escola unitária deve, mantendo as características culturais do Renascimento,estudar a prática do trabalho da sociedade moderna (o mundo da politecnia) a luz da ciência trabalho (tecnologia) e da história-trabalho-humanismo.

Foi o que achei de mais interessante no artigo para postar mas é claro que há muito mais.
Um abraço
ARITA





Sexta-feira, Maio 12, 2006
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Sou a Arita, não sei se vou coseguir mandar à voces o que quero.