OS CONCEITOS DE GRAMSCI EM FRIGOTTO

 

 

 

Elisabete Kasper

Mara Nibia da Silva

 

 

Apresentação:

O seminário "Relendo Gramsci e os autores brasileiros, propõe o estudo das idéias de autores brasileiros nas interfaces teóricas e metodológicas com o pensamento de Antônio Gramsci, que retomam a centralidade do trabalho e a educação, para ler o movimento do real, nas contradições existentes, como ideologia e como práticas políticas, no mundo do trabalho e no da educação, enquanto produção histórica resultante da práxis social".

Partindo desta proposta, elegemos Gaudêncio Frigotto como o autor brasileiro sobre cujas obras debruçaremos nosso olhar buscando o ponto de encontro com Gramsci.

Como nos dizem Frigotto e Ciavatta, " para aqueles que buscam a compreensão da realidade numa perspectiva dialético histórica, a crise teórica, que é efetiva e profunda, não é outra coisa senão o reflexo, no plano do pensamento, da abstração , da crise da sociedade.

O risco aqui é de confundir as dificuldades objetivas de uma determinada concepção teórica para dar conta de problemas que se configuram complexos, com a superação da própria teoria. Parece-nos que esta é a compreensão tanto do viés neoliberal, quanto, ainda que de modo diverso, de grande parte das análises que se denominam pós modernas". (Teoria e Educação no labirinto do capital, p.13) .

Nossa escolha de Frigotto deve-se a clareza de sua interpretação e posição ante a atualidade da teoria marxista como instrumento de leitura da realidade e da permanência da centralidade da categoria trabalho, bem como do não fim da história e das classes sociais. Na leitura de suas obras, constata-se a insistência na articulação "trabalho e educação" .

Na busca da concretização deste objetivo, selecionamos 07 (sete) trabalhos de Frigotto e os apresentamos brevemente utilizando as próprias palavras do autor seja retiradas, vez que outra da introdução do texto e até mesmo do próprio conteúdo. A partir daí levantamos em cada obra os conceitos de Gramsci, os agrupamos e finalmente buscamos desenvolver alguns deles.

 

 

 

Trabalhos de Frigotto

Antes de apresentarmos suas obras, achamos importante referenciar o autor: Gaudêncio Frigotto nasceu em Antônio Prado, RS, em 1947 e reside na cidade do Rio de Janeiro desde 1974. É formado em Filosofia (1970) e Pedagogia (1971) pela FIDENE, atual Universidade de Ijuí (UNIJUI RS), mestre em Educação pela Fundação Getúlio Vargas, doutor em Educação (1983) pela PUC/SP, professor da disciplina Economia política da educação da Universidade Federal Fluminense – UFF/RJ, ministrando, também, as disciplinas de Epistemologia da Educação e Teoria da Educação no Programa de Pós-Graduação (mestrado e doutorado) em Educação.

Coordena, desde 1987, a linha de pesquisa sobre Trabalho e Educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFF. Autor, co-autor e organizador de vários livros e mais de 30 artigos em revistas. Destacam-se os livros: A produtividade da escola improdutiva (São Paulo, Cortez, 1993, 4ª ed.); (org.). Trabalho e conhecimento: dilemas na educação do trabalhador (São Paulo, Cortez,1995, 3ªed.); e as coletâneas: Silva, T.T. da (org.). Trabalho, Educação e prática social (Porto Alegre, Artes Médicas,1991); Gentilli, P.& Silva, T.T. da (org.). Neoliberalismo, qualidade total e educação: visões críticas (Rio de Janeiro, Vozes, 1995, 2ªed.).

Orientou, até 1998, mais de 80 dissertações de mestrado e teses de doutorado, e participou em aproximadamente 200 bancas examinadoras de dissertações de mestrado, teses de doutorado e concursos públicos.

 

 

1987

FRIGOTTO, Gaudêncio. Trabalho, Conhecimento, Consciência e a Educação do Trabalhador: Impasses Teóricos e Práticos. In: GOMES, Carlos Minayo. Trabalho e conhecimento: dilemas na educação do trabalhador. São Paulo: Cortez, 1989. P. 13-26

Neste texto o autor nos aponta que o exame de como se vem tratando, na prática, a questão da relação trabalho e educação, especialmente ao nível do sistema educacional e de instituições de formação profissional, bem como no interior da educação sindical e dos movimentos sociais, assinala uma crise de aprofundamento teórico. Assim, propõe trabalhar, de forma esquemática, três dimensões-

A homogeneização na superfície do discurso crítico da relação trabalho e educação; Inversão metodológica da apreensão trabalho-educação; A não historicização da categoria valor-trabalho, capital-trabalho - articuladas daquilo que denomina crise do aprofundamento teórico na análise e nas propostas de trabalho e educação, bem como levantar algumas questões que possam orientar o debate e uma análise conseqüente desta temática.

Conceitos: luta hegemônica, classes fundamentais, aparelhos de hegemonia, relação de força, sociedade política, sociedade civil, praxis, classes subalternas, relação intelectual-massa, intelectual-trabalhador.

 

 

 

1994

FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e formação humana: Ajuste no conservador e alternativa democrática. In GENTILLI, Pablo & SILVA, Tomaz T. Neo-liberalismo, qualidade total e educação. Petrópolis: Vozes, 2002. P. 31-92

Este texto está contido no livro "Educação e crise do capitalismo real" Neste texto o autor discute questões vinculas à especificidade da crise do capitalismo no final do século XX e que se traduz na mudança dos "homens de negócio" face a educação e formação humana .

Inicialmente aborda a perspectiva básica dos homens de negocio no campo educativo e de formação humana face a crise do modelo fordista de organização e gestão do trabalho e , portanto, face as novas bases que a reconversão tecnológica e redefinição do padrão capitalista demandam na reprodução da fora de trabalho.

No plano teórico histórico, interessa-se em expor o significado das teses da sociedade do conhecimento, qualidade total, formação flexível, polivalente e educação geral abstrata e sua (des) articulação com a perspectiva do estado mínimo. Busca discutir o significado e pertinência teórica e histórica da concepção de educação politécnica e formação humana omnilateral, no plano da luta hegemônica que se articula aos interesses da classe trabalhadora, e a defesa e ampliação da esfera pública como condição de possibilidade do seu efetivo desenvolvimento.

Conceitos: correlação de força; controle hegemônico; escola alargada (organização cultural para a formação de intelectuais) escola unitária, político organizativo; industrialismo de novo tipo, consciência de classe.

 

 

1995

FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e crise do capitalismo real. 5 ed. São Paulo: Cortez, 2003. 231p.

Este livro é estruturado em 4 capítulos. O primeiro capitulo demarca, inicialmente, a concepção de educação como pratica social que se define, nos múltiplos espaços da sociedade, na articulação com os interesse econômicos, políticos e culturais dos grupos ou classe sociais. A educação é, pois, compreendida como elemento constituído e constituinte crucial de luta hegemônica.

.Frigotto se detém sobretudo na apreensão da crítica às concepções de educação dominantes na década de 7o no Brasil e no movimento de inversão, resultante dos embates da década de oitenta (80), tendo como um dos eixos centrais de análise a categoria trabalho. Por fim demarca duas ordens de questões teórica e político prática que se colocam para aqueles que buscam entender as relações sociais e os processo educativos tendo o trabalho humano como categoria central.

No segundo capitulo trata da natureza estrutural da crise do capitalismo, dos traços conjunturais específicos que a mesma assume a partir dos anos 70, das alternativas políticos sociais de enfrentamento da crise e dos custos humanos diferenciados da mesma.

A tese do fim da historia, que parte da dedução da crise do socialismo real como prova definitiva da impossibilidade de substituir o livre mercado capitalista por qualquer outro tipo de relação social, apenas encobre a crise desta forma de organização social, mas anão a suprime, nem a minimiza.

A concepção dialética de realidade humano-social, enquanto uma teoria da historia, parece, a despeito das profecias de seu fim constituir-se no horizonte política e humanamente mais pertinente. Por certo não sem desafios, limites e riscos.

O terceiro capítulo discute a tese do fim da sociedade do trabalho, face a restruturação econômico social e política dentro de uma nova base técnica e as derivações que se extraem desta sobre o trabalho enquanto categoria sociológica de analise, e o fim das classes sociais (ele analisa os trabalhos de Offe, de Schaff e de Kurz), realçando os argumentos básicos destes autores sobre a crise da sociedade do trabalho e a não centralidade do trabalho enquanto categoria explicativa das relações sociais, depois debate criticamente idéias pontuais dos mesmos e mostra que estas analises com diferentes nuances acabam reforçando a tese do fim da historia.

No quarto capitulo debate as bases conceituais e políticas da perspectiva neoliberal ou neo conservadora de educação para ajusta-la ao processo de redefinição do novo padrão de acumulação e há alternativa democrática

Na conclusão demarca algumas questões centrais do trabalho no seu conjunto reiterando que a problemática explicitada pelos "homens de negócios", pelos "apologetas da sociedade do conhecimento" ou pelos "críticos da sociedade do trabalho", por tratar-se de formas específicas e diferenciadas de compreender a crise do capitalismo do final de século (XX), em seus limites também de forma diferenciada, explicitam contradições que ajudam a qualificar, tanto o debate teórico, quanto as alternativas políticas, numa perspectiva democrática.

O limite destas analises está, sobretudo, no puro e simples ocultamento das relações de poder e exclusão social no primeiro caso, ou mediante a supressão das classes e grupos sociais no embate contra hegemônico, no segundo caso. Neste ultimo caso, também o trabalho, de categoria histórico ontológica, fica reduzido a sua forma fenomênica ou as determinações das relações sociais.

Conceitos: ideologia, trabalho como princípio educativo, luta hegemônica, intelectuais, a escola unitária, educação e formação humana omnilateral, tecnológica ou politécnica, a questão da sociedade civil, contra hegemonia, correlação de forças, formação e adestramento, a questão do conformismo, senso comum, emancipação humana, momento econômico corporativo e ético político, aparelhos de hegemonia, partidos ideológicos, ação política, sociedade política, inventário histórico crítico.

 

FRIGOTTO, Gaudêncio. A interdisciplinaridade como necessidade e como problema nas ciências sociais. In JANTSCH, Ari Paulo, BIANCHETTI, Lucídio. Interdisciplinaridade: para além da filosofia do sujeito. Petrópolis: Vozes, 2001. 25-50

Neste ensaio marca alguns aspectos que julga necessário enfatizar ao abordar-se a questão da interdisciplinaridade. Busca apreender a interdisciplinaridade como uma necessidade, algo que historicamente se impõe como imperativo, e como problema, algo que se impõe como desafio a ser decifrado.

Aponta que a interdisciplinaridade, ao contrário do que tem sido enfatizado, especialmente no campo educacional, não é sobretudo uma questão de método de investigação e nem técnica didática, ainda que se manifeste enfaticamente neste plano. Sustenta que a questão da interdisciplinaridade se impõe como necessidade e como problema fundamentalmente no plano material histórico-cultural e no plano epistemológico.

Inicialmente expõe a dimensão do caráter necessário do trabalho interdisciplinar nas ciências sociais. A seguir busca explicitar por que a prática efetiva de um trabalho interdisciplinar se explicita como problema sobretudo no plano material, histórico e cultural e no plano epistemológico.

Por fim, firmada e explicitada a necessidade e postos seus limites, busca demarcar algumas implicações práticas ao nível da investigação e do trabalho docente no campo educacional.

Conceitos: inventário crítico, conformismo, práxis, dominante, dominado, grupos sociais subalternos, filosofia da práxis, hegemônico, contra-hegemônico.

 

 

1996

FRIGOTTO, Gaudêncio. A formação e a profissionalização do educador: novos desafios. In SILVA, Tomaz Tadeu e GENTILLI, Pablo. Escola S. A. Brasília: CNTE, 1996. P. 75-105

Neste texto, o autor aponta que o tema da formação e qualificação, tanto em sentido geral quanto especificamente, do educador, não pode ser tratado adequadamente sem referi-lo à trama das relações sociais e aos embates que se travam no plano estrutural e conjuntural da sociedade e pontua que na última década do século XX uma onda de "síndrome do fim" toma corpo. Síndrome este que toma o fim de um determinado período histórico, marcado pela queda do Muro de Berlim e colapso do socialismo realmente existente, como o fim da história e das classes sociais servindo soberbamente aos interesses do capital.

O autor analisa as estratégias de recomposição do capitalismo no contexto da crise do final do século XX, apontando que esta recomposição implica no plano sócio-econômico, o ajustamento de nossas sociedades à globalização excludente; no plano cultural, ideológico e ético-político a naturalização da exclusão ou a exclusão sem culpa e a idéia de que não há outra alternativa possível que não seja a refuncionalização do capitalismo; no âmbito teórico, a crise da razão e emergência do pós-modernismo; e finalmente, no plano pedagógico, a reiteração do dualismo e fragmentação, uma qualidade para poucos, e a metamorfose do direito à educação em mercadoria ou serviço que se compra.

A seguir, Frigotto busca pensar quais são os desafios na formação e profissionalização do educador, hoje, numa perspectiva de construção de relações sociais alternativas - democráticas, solidárias ou socialistas - e o papel da educação nesta construção. Enfatiza que, para responder a esses desafios, a formação e profissionalização do educador implicará dimensões ético-políticas, teóricas e político-organizativas.

Conceitos: hegemonia, contra-hegemonia, formação subordinada à lógica da produção, aparelho de hegemonia, partidos político-ideológicos, ampliação da esfera pública.

 

 

1998

FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação, crise do trabalho assalariado e do desenvolvimento: teorias em conflito. In. FRIGOTTO, Gaudêncio (org.). Educação e crise do trabalho: perspectivas de final de século. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2000.p. 25-54.