<?xml version='1.0' encoding='ISO-8859-1'?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/'><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514</id><updated>2007-03-16T15:46:57.510-03:00</updated><title type='text'>classicos/textos</title><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/index.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default'></link><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/atom.xml'></link><author><name>Su</name><uri>http://www.gutierrez.pro.br/</uri></author><generator version='7.00' uri='http://www2.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>14</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-8672309030040327817</id><published>2007-03-16T15:39:00.000-03:00</published><updated>2007-03-16T15:46:57.612-03:00</updated><title type='text'>Seminário 2007/1</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;strong&gt;S A - RELENDO CLÁSSICOS: DIÁLOGOS POSSÍVEIS ENTRE GRAMSCI, WOOD E BENSAID&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Professora: Carmen Lucia Bezerra Machado&lt;br /&gt;Horário da disciplina: 3ª feira&lt;br /&gt;Horário: 14 as 18 h&lt;br /&gt;Carga-horária: 60 h/a&lt;br /&gt;Créditos: 4&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Súmula/ementa: &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;O Seminário estuda as idéias de autores (Ellen Wood e Daniel Bensaid) nas interfaces teóricas e metodológicas com o pensamento de Antonio Gramsci buscando as permanências e as possibilidades, que retomam a centralidade do trabalho e a educação, para ler o movimento do real, nas contradições existentes, como ideologia e como práticas políticas, no mundo do trabalho e no da educação, enquanto produção histórica resultante da práxis social.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Objetivos:&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;a) REFLETIR, COMPREENDER E "CONSTRUIR O TEXTO" como construção de sujeitos coletivos:&lt;br /&gt;b) As permanências e as possibilidades frente às ideologias, na correlação de forças, na obra de autores citados, frente ao mundo do trabalho e à educação no Brasil;&lt;br /&gt;c) A produção/construção do conhecimento que, historicamente, amparam a formulação de teorias e sua potencialidade para ler / estar no mundo do trabalho e da educação, e rastrear as questões que se constroem, como esboço e como possibilidade teórico-prática, na aparência e na expressão histórica das contradições da sociedade e da educação entre os modos infinitos e as coisas singulares; entre as necessidades históricas e a emancipação humana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Programa:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;CONCEITOS OU PREMISSAS&lt;br /&gt;Entre a hegemonia e a contra-hegemonia o que são permanências e possibilidades;&lt;br /&gt;O caminho que se faz ao caminhar, o processo histórico e a identidade de educadores e educadoras ou da história ao trabalho que constituem identidades na educação brasileira.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;OS DESAFIOS: ENTRE O PENSAR DE AUTORES&lt;br /&gt;Dialéticas entre permanências e possibilidades para pensar as categorias gramscianas e as de WOOD e BENSAID:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Trabalho: Produtivo, abstrato, valor físico e social. Trabalho livre?&lt;br /&gt;Hegemonia: necessidades históricas e suas possibilidades econômicas- políticos e sociais. Permanências?&lt;br /&gt;Ciência: crítica e suas permanências. Quais lógicas?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;OS DIÁLOGOS CONTEMPORÂNEOS&lt;br /&gt;As divisões, distinções, divergências e controvérsias, entre as aparências e o real ou as realidades.&lt;br /&gt;As permanências e as possibilidades do trabalho e da educação.&lt;br /&gt;As identidades, atividade intelectual, a correlação de forças e a constituição das identidades e da emancipação humana na educação. Quais identidades?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Método de trabalho:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Leitura de textos, filmes, "mundo", de cada um dos autores como leitura obrigatória para todos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os demais artigos e livros são considerados leitura complementar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Seminário com apresentações a cada semana, preparados por um responsável, conforme distribuição prévia, seguido de discussão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Debate sistemático em rede utilizando o endereço: &lt;a href="http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/"&gt;http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Procedimentos e/ou critérios de avaliação:&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Participação oral e escrita durante o semestre e produção textual de artigo com vistas à publicação e participação em eventos da área.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os critérios de avaliação incluem o diálogo, a consistência e coerência dos argumentos, bem como a clareza e correção da linguagem utilizados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Bibliografia recomendada:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;BENSAID, Daniel. Marx o intempestivo: grandezas e misérias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.&lt;br /&gt;GRAMSCI, Antonio. Cadernos de Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. Vol. 1 a 6.&lt;br /&gt;GRAMSCI, Antonio. Cartas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.&lt;br /&gt;MARX, Karl. O Capital. (Crítica da Economia Política). O processo de produção do capital. Livros 1 e 2. v. 1 e 2. 8. ed. São Paulo: Difel, 1982. (Ou qualquer outra edição.)&lt;br /&gt;WOOD, Ellen Meiksins. Democracia contra capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2003. &lt;/div&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2007/03/seminrio-20071.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/8672309030040327817'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/8672309030040327817'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-111587029844587255</id><published>2005-05-12T00:58:00.000-03:00</published><updated>2006-09-07T01:35:48.536-03:00</updated><title type='text'>DIRETRIZES PARA O ENSINO MÉDICO NA REDE BÁSICA DE SAÚDE</title><content type='html'>&lt;span&gt;&lt;/span&gt;ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO MÉDICA - ABEM&lt;br /&gt;DIRETRIZES PARA O ENSINO MÉDICO NA REDE BÁSICA DE SAÚDE&lt;br /&gt;Documento preliminar - abril de 2005.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prof. Dr. Gastão Wagner de Sousa Campos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pretendemos neste documento apontar algumas diretrizes para o ensino médico na rede de atenção primária à saúde.&lt;br /&gt;§ Funções da rede básica no sistema de saúde e a busca da universalidade, eqüidade e integralidade.&lt;br /&gt;A rede básica de atenção à saúde deveria se constituir em uma das principais portas de entrada para o sistema de saúde (não a única, o que implicaria em burocratização intolerável, o Pronto-socorro é outra porta possível e necessária, por exemplo). Porém espera-se dela muito mais do que isso. Afirma-se que na ABS deveriam ser resolvidos 80% dos problemas de saúde da população, assume-se com isso que, nas configurações que o SUS vem adquirindo colocam-se para a ABS pelo menos três funções importantes:&lt;br /&gt;o Acolhimento à demanda e busca ativa com avaliação de vulnerabilidade: os pacientes precisam ser acolhidos no momento em que demandam. Sem isso a ABS nunca se constituirá em verdadeira porta do sistema. A dimensão do acolhimento pressupõe a disposição, organização e preparação da equipe para receber, em momentos e horários variáveis, grande variedade de demandas e avaliar os riscos implicados assegurando seu atendimento, visando à máxima resolutividade possível. Ao mesmo tempo, por meio do recurso da visita domiciliar, adscrição de clientela e análise das condições de saúde da comunidade e do território espera-se uma postura que vincule pessoas, famílias e a comunidade às Equipes de ABS e identifique o risco e vulnerabilidade desses indivíduos, famílias e setores da comunidade.&lt;br /&gt;o Clínica ampliada: a clínica realizada na rede básica de saúde tem uma série de especificidades, o que a torna diferente da realizada em grandes centros hospitalares ou ambulatórios de especialidades. Contrário ao que se costuma pensar há grande complexidade nas intervenções na rede básica. O complexo se define em termos de número de variáveis envolvidas em um dado processo, nesse sentido é necessário intervir sobre a dimensão biológica ou orgânica de riscos ou doenças, mas será também necessário encarar os riscos subjetivos e sociais. Essas dimensões estarão presentes em qualquer trabalho em saúde, no entanto na rede básica atingem uma expressão maior, sendo necessário não somente considerar esses aspectos no momento do diagnóstico, mas também lograr ações que incidam sobre estas três diferentes dimensões. A proximidade com as redes familiares e sociais dos pacientes facilita essas intervenções, porém sem eliminar sua complexidade.&lt;br /&gt;Ainda, a possibilidade de se construir vínculos duradouros com os pacientes é condição para o aumento de eficácia das intervenções clínicas, sejam essas diagnósticas, terapêuticas ou de reabilitação. A construção do caso clínico pode ser efetivada em vários encontros ao longo do tempo, com isso, ao mesmo tempo, aumentar-se-á a confiança entre profissionais e usuários. Assim, a clínica deverá ser ampliada, partindo de seu núcleo biomédico para os aspectos subjetivos e sociais de cada sujeito, respeitando a característica singular de cada caso - 'cada caso é um caso' - sem abrir mão de critérios técnicos previamente definidos (diretrizes clínicas, programas, etc).&lt;br /&gt;o Saúde Coletiva: ainda será necessário que a rede básica realize procedimentos de cunho preventivo e de promoção à saúde no seu território. Busca ativa de doentes, vacinas, educação, medidas para melhorar a qualidade de vida, projetos intersetoriais, tudo isso vêm sendo recomendado amplamente pela bibliografia da área e contribui com certeza para a resolução e prevenção de inúmeros problemas de saúde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observa-se que, na prática, essas funções se entrelaçam, a integralidade e a efetividade do cuidado dependerão da possibilidade e da capacidade de cada Equipe combinar modos de intervenção de cada um desses campos na proporção exigida pelo caso.&lt;br /&gt;A composição dessas três funções não é uma tarefa simples. É freqüente se observar desvios que diminuem a capacidade da rede, em alguns casos há redes que se voltam somente para a prevenção de riscos e ações comunitárias deixando toda a resolutividade clínica para a rede de urgência e hospitalar. Em outros, observa-se uma ABS transformada em pronto atendimento clínico de baixa qualidade. Nenhuma dessas alternativas garante o papel resolutivo que a ABS deve sustentar. A capacidade de a rede básica resolver 80% dos problemas de saúde dependerá tanto de investimentos, quanto da adoção de um modelo organizacional adequado e que permita o cumprimento dessas três funções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Modelo Organizacional para a ABS:&lt;br /&gt;Para atingir-se essa capacidade de resolver problemas de saúde, há hoje um reconhecimento de que a ABS deverá ordenar-se segundo algumas diretrizes:&lt;br /&gt;- Trabalho em Equipe Interdisciplinar: sabe-se que nenhum profissional conseguiria ter um acúmulo de conhecimentos e habilidades práticas suficiente para cumprir simultaneamente essas três funções. Por outro lado, a fragmentação da atenção básica em diversas especialidades ou profissões, que não buscam formas integradas para a atuação, tem se demonstrando como sendo um modelo inadequado. No Brasil, o Ministério da Saúde, a partir de 1994, apoiando-se em experiências municipais, adotou um desenho para a composição básica dessa Equipe com base na lógica da Saúde da Família: médico, enfermeiro, dentista, técnicos ou auxiliares de enfermagem e odontologia, todos com formação e função de generalistas, e os agentes de saúde, uma nova profissão, em que trabalhadores recrutados na comunidade fazem ligação da equipe com família e com a comunidade.&lt;br /&gt;Em algumas localidades há experiências que incorporam outros profissionais à ABS, ainda que procurem manter sempre a Equipe de Saúde da Família como núcleo central para ordenar a atenção. Com a idéia de constituírem-se redes de Apoio Matricial, agregam-se Equipe de Saúde Mental, Reabilitação, Nutrição, Saúde Coletiva e Desenvolvimento Social, Saúde da Mulher e da Criança, entre outras, que trabalham articuladas com várias Equipes de Saúde da Família em um determinado território. Algumas cidades têm experimentado deslocar especialistas em áreas com grande demanda para também atuarem na atenção básica.&lt;br /&gt;- Responsabilidade Sanitária por um Território e Construção de Vínculo entre Equipe e Usuários: com objetivo de definir-se a responsabilidade sanitária de modo claro, recomenda-se que cada Equipe de Saúde da Família bem como outras com função de Apoio Matricial tenham a seu encargo o cuidado à saúde de um conjunto de pessoas que vivem em um mesmo território. A Equipe deve conhecer os condicionantes de saúde dessa região, bem como identificar risco e vulnerabilidade de grupos, famílias e pessoas, desenvolvendo projetos singulares de intervenção. A construção de vínculo depende desse desenho organizacional e também da ligação longitudinal - horizontal ao longo do tempo - entre Equipe e usuários.&lt;br /&gt;- Abordagem do Sujeito, da Família e do seu Contexto, a busca da Integralidade em ABS: que depende do exercício combinado das três funções acima explicitadas. Dentro dos limites da ABS, cada Equipe deve contar com meios para resolver problemas de saúde valendo-se de ações clínicas, de promoção e prevenção e, até mesmo, de reabilitação e alívio do sofrimento. Espera-se que as Equipes consigam tanto apoiar a comunidade e outros setores para a intervenção sobre determinantes do processo saúde/doença, quanto garantir atenção singular aos casos com maior vulnerabilidade.&lt;br /&gt;- Reformulação do saber e da prática tradicional em saúde: Recomenda-se uma reformulação e ampliação do saber clínico, com a incorporação de conceitos e de ferramentas originários da saúde coletiva, saúde mental, ciências sociais e de outros campos do conhecimento que permitam aos trabalhadores de saúde lidar com a complexidade do processo saúde e doença, incorporando o social e o subjetivo, bem como fazer a gestão do trabalho em equipe e em sistemas de rede.&lt;br /&gt;Para isso é fundamental a instituição de programas de educação permanente, com cursos e discussão de casos, de consensos clínicos, que tornem possível esse trajeto.&lt;br /&gt;Migrar o ensino para a ABS não significa automaticamente migrar o ensino para um paradigma novo. Freqüentemente a ABS reproduz, em condições limitadas, o mesmo modelo de atenção à saúde dos serviços especializados. A Abordagem Integral depende da reformulação do paradigma tradicional denominado de biomédico. Para isso recomenda-se tomar o sujeito em sua família e em seu contexto econômico, social e cultural, bem como envolver os usuários tanto na gestão do sistema de saúde, quanto na construção de sua própria saúde.&lt;br /&gt;- Articular a ABS em uma rede de serviços de saúde que assegure apoio e amplie a capacidade de resolver problemas de saúde. A ABS necessita de uma ligação dinâmica e de apoio com outras redes, a saber, de urgência, hospitalar, de centros especializados, de saúde coletiva, de desenvolvimento social, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ABS realmente existente:&lt;br /&gt;De fato, onde existiria essa ABS idealizada em recomendações e textos teóricos? Em nenhum lugar, com certeza. Como está acontecendo com o SUS em geral, também a implantação da rede de ABS no Brasil está ocorrendo de maneira bastante heterogênea. O que se resumiu acima são recomendações genéricas, que alguns gestores e profissionais procuram transformar em realidade.&lt;br /&gt;Em tese teríamos quase 100 milhões de brasileiros vinculados a distintos programas na ABS. No entanto, a qualidade e a capacidade resolutiva desses serviços é muito desigual. Temos desde cidades com baixa cobertura, até outras que alcançaram setenta por cento de famílias vinculadas à ABS. O apoio ao exercício de uma clínica eficaz é igualmente heterogêneo, o mesmo se pode dizer sobre a integração da ABS ao sistema hospitalar e de especialidades. Além disso, há problemas sérios com a política de pessoal, desde o sistema precário de contratação até a quase inexistência de oportunidade tanto para a formação especializada quanto para acesso a processos de educação permanente. A maioria absoluta dos médicos, enfermeiros e dentistas não tem formação especializada em saúde da família, ou saúde coletiva ou para o exercício de uma clínica ampliada de cunho generalista, nem contam tampouco com apoio técnico ou institucional.&lt;br /&gt;Concluindo pode-se observar que, apesar da mudança de cenário, a ABS tende, na prática, a reproduzir o modelo biomédico dominante, sendo necessários esforços continuados e sistemáticos para reformular esse tipo de prática e de saber.&lt;br /&gt;Nesse sentido, as Escolas Médicas deverão colocar-se como parceiras dos sistemas locais de saúde objetivando um esforço articulado para a efetiva organização da ABS.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;§ Por que o ensino na rede básica de saúde?&lt;br /&gt;Há uma recomendação curricular genérica de que a formação médica busque uma variação de cenários para o ensino prático. Na mesma linha recomenda-se a inserção precoce do aluno em atividades práticas. Além disso, se na rede básica se espera sejam resolvidos 80% dos problemas de saúde da população, se aceitamos que as intervenções no território são de grande complexidade, e se ainda acrescentamos a isso que grande parte da população brasileira vive na pobreza, teremos claras evidencias técnicas e éticas de que nossas escolas médicas devem formar um profissional competente para intervir nessa realidade. Nesse sentido, a rede básica é um campo de práticas potencial e necessário, no qual os vários cursos de formação de profissionais de saúde deverão inserir seus alunos.&lt;br /&gt;Em medicina, cursos que combinem teoria e prática voltada para o campo da Saúde Coletiva podem ser desenvolvidos desde o primeiro ano. O ensino de metodologia sobre educação em saúde, visita domiciliar, epidemiologia aplicada a serviços, política e gestão em saúde, projetos comunitários e intersetoriais, tudo isto e muito mais pode fazer parte de módulos com estágios em ABS desde o primeiro ano.&lt;br /&gt;Além do mais, se observa que, progressivamente, com a implantação do SUS, grande parte dos casos que antes demandava atendimento em hospitais e serviços de urgência, busca atenção na ABS. Assim o próprio ensino da clínica necessita de novos cenários. Além do mais, na ABS o aluno seria ensinado a fazer uma abordagem ampliada e singular de cada caso, o que qualificaria a formação teórica sobre diretrizes. Entrar em contacto com essa complexidade, com a obrigação de trabalhar em equipe e de fazer um seguimento longitudinal possibilita que o aluno se aproprie de competências essenciais para o exercício da profissão.&lt;br /&gt;Valorizar o ensino na rede básica visa atender uma demanda social inelutável de nosso país, bem como ampliar os cenários para práticas tanto de clínica quanto de saúde coletiva, e também honrar a promessa de bem formar nossos alunos. Ainda, pressupõe aceitar que a prática é fundante da formação e que há experiências que nenhum livro pode fornecer.&lt;br /&gt;Por último, implica reconhecer que os problemas que o SUS deve resolver são problemas também para as Escolas Médicas. Nesse sentido, não estamos formando médicos com competência e habilidade para o exercício dessa função essencial ao sistema e à saúde dos brasileiros. A ABS não logrará efetivar-se se não contar com milhares de médicos capazes para trabalhar em equipe, exercer uma clínica ampliada, participar de projetos coletivos e que estejam abertos para continuar aprendendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;§ Necessidades pedagógicas colocadas pela relação ensino - serviços na ABS.&lt;br /&gt;- O aluno de graduação precisa de uma estrutura de estágio que permita e facilite o trânsito entre teoria e prática. Os docentes - como mediadores fundamentais dessa relação - deveriam, necessariamente, ser capacitados para esse novo tipo de ensino.&lt;br /&gt;O vínculo com o docente é um grande facilitador, assim o contato prolongado, horizontal, com um mesmo professor deveria ser estimulado. Isso ainda permitiria um cuidado adicional com os alunos que, muitas vezes, sentem-se desorientados nessa etapa de sua formação e sofrem o impacto da realidade que lhes é apresentada.&lt;br /&gt;As atividades planejadas deveriam estimular a busca de informação, leituras, reflexões e permitir que a partir das questões que a prática coloca se descubram e estudem novos conteúdos.&lt;br /&gt;No caso, a grade curricular deverá ser ordenada de maneira a permitir cursos mais longos, com estágios no mesmo serviço, de modo que o aluno possa acompanhar casos clínicos ou sanitários por um período longo.&lt;br /&gt;- O estágio na rede básica precisa ser ordenado, tanto por razões pedagógicas quanto de funcionamento dos serviços, em pequenos grupos de alunos, com supervisão e acompanhamento de professores e de tutores ou colaboradores escolhidos entre Equipes da ABS. Nos primeiros anos, os estágios na rede básica se voltam para o campo da saúde coletiva, e seriam coordenados por professores e profissionais com formação especializada ou que se apropriaram de conhecimentos sobre clínica ampliada e saúde pública.&lt;br /&gt;A partir do quarto ano e no internato, contudo, recomendam-se estágios clínicos na rede básica. O ensino de pediatria, ginecologia, obstetrícia, clínica médica, psiquiatria, infectologia, entre outras disciplinas, depende cada vez mais da prática que acontece fora do hospital universitário, na ABS ou em Centros de Referência. Nessa situação é importante que os professores especialistas se articulem com as Equipes de generalistas em saúde da família, buscando articular o ensino prático com a lógica de funcionamento do modelo de atenção da rede básica. Operando com os agentes de saúde, fazendo discussão de caso em Equipe, visita domiciliar, educação em saúde, elaboração de projeto terapêutico e de intervenção sobre o território, etc.&lt;br /&gt;O ensino na ABS não pode ser responsabilidade apenas dos docentes de Saúde Coletiva ou de Saúde da Família, necessita do envolvimento de outras especialidades conforme descrito acima. Depende ainda da possibilidade de se recrutar na rede de ABS monitores ou tutores que dêem viabilidade a necessária descentralização e multiplicação dos campos de prática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;§ Como operacionalizar as relações ensino -serviço?&lt;br /&gt;o Contratação clara de responsabilidades com a rede pública (projetos de integração, contratos e convênios, etc.). Em geral, os Hospitais Universitários estão sob gestão da própria Universidade, o mesmo não acontece com as redes de atenção básica. No Brasil, 97% da rede básica encontram-se sob direção municipal, nesse caso a descentralização se realizou quase completamente. Recomenda-se que as Escolas elaborem projetos de integração docente-assistencial com as Secretarias Municipais, definindo com clareza os vários componentes dessa relação. Por um lado, é importante assegurar espaço para os alunos: definição de distritos, serviços e equipes onde ocorrerão os estágios; por outro, é fundamental assegurar reciprocidade; ou seja, compromisso da Escola, representada por alunos e docentes, com o respeito às diretrizes políticas sanitárias adotadas, bem como com a qualidade da atenção.&lt;br /&gt;o Investimento para assegurar infra-estrutura básica para o ensino em ABS: Os locais onde trabalham as Equipes não necessariamente estão preparados para receber um grupo, ainda que pequeno, de alunos; é importante que a Universidade, em parceria com o Ministério e Secretarias de Estado, elabore projetos para adaptação desses espaços também para o ensino. Algum apoio ao transporte de alunos e professores é importante, com a descentralização dos espaços de prática fica complicado o deslocamento de alunos e docentes, sendo conveniente assegurar-se formas que facilitem esses deslocamentos. Apoio em informática é fundamental para o ensino a distância e a utilização de recursos da tele-medicina pelos alunos, docentes e Equipes. Projetos de acesso fácil à biblioteca e consulta especializada qualificam esses estágios bem como o próprio funcionamento da rede básica.&lt;br /&gt;o Parceria estreita com gerencia local e Equipe (reuniões, discussões, planejamento conjunto, etc.) em todos os locais onde ocorra estágio. Além do contrato geral com o gestor municipal, é importante que cada docente com seus alunos realizem um contrato - explicitação do projeto de ensino e assunção de compromissos compartilhados - com o dirigente e com a Equipe junto aos quais ocorrerá o estágio prático.&lt;br /&gt;o Desenho de estágios que valorizem o contato horizontal propiciando a construção de vínculos, tanto com usuários (visando a ampliação da clínica) quanto com a equipe (favorecendo a construção de uma identidade profissional apta para esse tipo de trabalho).&lt;br /&gt;o Elaboração de uma rede de cooperação entre Hospital Universitário e rede básica, respeitando-se as diretrizes de regionalização porventura existentes, mas facilitando o apoio de especialistas às Equipes de Saúde da Família.&lt;br /&gt;o Montagem de dispositivos de Desenvolvimento Docente com apoio institucional, objetivando educação continuada dos docentes, contratados e tutores por meio de discussão de temas teóricos, de casos e problemas originários da própria experiência e também de outras experiências análogas.&lt;br /&gt;o Definição de um Corpo Docente para cada um desses módulos, composto por professores, profissionais contratados e tutores recrutados entre o próprio pessoal da rede básica. Ainda que os papéis e responsabilidades sejam distintos, recomenda-se o funcionamento do Corpo Docente em lógica de equipe com colegiado de gestão. Ainda que haja polêmica sobre o tema, seria conveniente remunerar a dedicação docente dos tutores.&lt;br /&gt;o Apoiar docentes e alunos para que a rede básica se constitua em um campo de investigação e produção de conhecimento, sempre que possível e conveniente envolvendo parceiros do sistema de saúde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/05/diretrizes-para-o-ensino-mde.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111587029844587255'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111587029844587255'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-112506783076057870</id><published>2005-08-26T11:50:00.000-03:00</published><updated>2005-08-26T11:54:55.403-03:00</updated><title type='text'>"O Silêncio dos Intelectuais": o depoimento de Francisco de Oliveira</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sa&amp;iacute;das para o PT: separar "petismo" de "lulismo" e afastar dirigentes respons&amp;aacute;veis por crise&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Luiz Fernando Vianna&lt;/b&gt; escreve de Belo Horizonte para "Folha de SP":&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dissociar o "petismo" do "lulismo" e afastar do comando do partido os dirigentes respons&amp;aacute;veis pela crise atual s&amp;atilde;o as &amp;uacute;nicas sa&amp;iacute;das para o PT continuar existindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o que afirmou o soci&amp;oacute;logo Francisco de Oliveira nesta quarta-feira em palestra, em Belo Horizonte, dentro do semin&amp;aacute;rio "O Sil&amp;ecirc;ncio dos Intelectuais".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oliveira, que rompeu ruidosamente com o PT em 2003, ainda no in&amp;iacute;cio do governo Lula, disse que a legenda corre o risco de se transformar em um "partido de gangues".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"&amp;Eacute; a gangue do ex-tesoureiro, do ex-secret&amp;aacute;rio-geral, dos publicit&amp;aacute;rios. Seria uma trag&amp;eacute;dia se isso acontecesse", disse ele, acrescentando que, "no limite, o PT pode at&amp;eacute; desaparecer".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"N&amp;atilde;o &amp;eacute; o meu desejo, mas, se continuar com esse tipo de conduta, corre risco de desaparecer."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o soci&amp;oacute;logo, um p&amp;eacute;ssimo futuro para o PT seria repetir o que houve com o peronismo na Argentina. "Morreu o l&amp;iacute;der carism&amp;aacute;tico, a c&amp;uacute;pula se desligou das bases e virou um vale-tudo. O PT j&amp;aacute; parece uma luta de vale-tudo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ressaltou que n&amp;atilde;o espera um expurgo do grupo de Jos&amp;eacute; Dirceu, pois &amp;eacute; "coisa medieval", mas que os militantes mudem o comando do partido nas pr&amp;oacute;ximas elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es internas, programadas para o m&amp;ecirc;s que vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oliveira foi ir&amp;ocirc;nico ao falar sobre a responsabilidade de Lula nos casos de corrup&amp;ccedil;&amp;atilde;o no governo. "S&amp;oacute; ele n&amp;atilde;o sabia que membros do PT roubavam? Muita gente sabia e ele n&amp;atilde;o? Ah, n&amp;atilde;o vai dar uma de Ad&amp;atilde;o: "foi Eva"."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo Oliveira, j&amp;aacute; est&amp;aacute; na hora de os intelectuais deixarem de ser complacentes com Lula por causa de sua origem oper&amp;aacute;ria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Os &amp;uacute;nicos erros permitidos em raz&amp;atilde;o dessa origem s&amp;atilde;o os de portugu&amp;ecirc;s. Ele &amp;eacute; um homem de Estado, tem 25 anos de PT, n&amp;atilde;o pode dar uma de inocente", declarou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse coment&amp;aacute;rio sucedeu &amp;agrave; cr&amp;iacute;tica que Oliveira fez &amp;agrave; fil&amp;oacute;sofa Marilena Chaui, expoente da intelectualidade do PT que, na abertura do semin&amp;aacute;rio, segunda-feira, no Rio, disse que h&amp;aacute; momentos em que o sil&amp;ecirc;ncio &amp;eacute; o dever de um intelectual, para que n&amp;atilde;o seja irrespons&amp;aacute;vel e leviano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Ele [o intelectual] n&amp;atilde;o tem o direito de se calar. N&amp;atilde;o pode ser inocente &amp;uacute;til. N&amp;atilde;o pode desconsiderar a pesada d&amp;iacute;vida do s&amp;eacute;culo 20. N&amp;atilde;o estou dizendo que este governo poder&amp;aacute; produzir um desastre semelhante ao que outros produziram, mas a tarefa do intelectual &amp;eacute; p&amp;ocirc;r o dedo na ferida", disse Oliveira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ele, a "Carta ao Povo Brasileiro", produzida pela campanha de Lula em junho de 2002, j&amp;aacute; era um aviso de que o PT viraria um "partido da iniq&amp;uuml;idade".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"N&amp;atilde;o &amp;eacute; poss&amp;iacute;vel pagar o que se paga de juros da d&amp;iacute;vida p&amp;uacute;blica e da d&amp;iacute;vida externa", afirmou, referindo-se a duas promessas da carta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oliveira disse que foi o PT quem levantou a bandeira da &amp;eacute;tica na pol&amp;iacute;tica e seria "uma grande perda" se isso fosse derrotado pela crise.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele acredita ser poss&amp;iacute;vel o contr&amp;aacute;rio: "Talvez algo de bom seja a retomada do clamor popular pela &amp;eacute;tica na pol&amp;iacute;tica."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo o soci&amp;oacute;logo, seu ex-amigo Fernando Henrique Cardoso &amp;eacute; o grande vitorioso" da pol&amp;iacute;tica brasileira nos &amp;uacute;ltimos anos, j&amp;aacute; que "o PT adotou como suas as teses do cardosismo das quais era cr&amp;iacute;tico tenaz".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo ressaltando que &amp;eacute; o "movimento social mais importante do pa&amp;iacute;s", Oliveira ainda declarou que o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) n&amp;atilde;o tem futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A reforma agr&amp;aacute;ria n&amp;atilde;o vai mudar o sistema. N&amp;atilde;o haver&amp;aacute; uma re-ruraliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o do pa&amp;iacute;s. Isso &amp;eacute; imposs&amp;iacute;vel e at&amp;eacute; indesej&amp;aacute;vel. Os dirigentes do MST sabem disso, o que eles buscam &amp;eacute; uma interlocu&amp;ccedil;&amp;atilde;o com movimentos sociais urbanos. Vejo chance nesse di&amp;aacute;logo."&lt;br /&gt;(Folha de SP, 25/8)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chico Oliveira: "O intelectual n&amp;atilde;o pode ser otimista, ele &amp;eacute; por defini&amp;ccedil;&amp;atilde;o um pessimista"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Do jeito que est&amp;aacute; hoje, o PT &amp;eacute; uma legenda como outra qualquer"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sueli Cotta escreve de Belo horizonte para "O Globo":&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os intelectuais brasileiros t&amp;ecirc;m obriga&amp;ccedil;&amp;atilde;o de falar, de fazer uma cr&amp;iacute;tica permanente. O intelectual n&amp;atilde;o tem outro papel na sociedade. A posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; do soci&amp;oacute;logo Francisco de Oliveira, que participou da funda&amp;ccedil;&amp;atilde;o do PT e se tornou seu mais incisivo dissidente no meio intelectual. Essa posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; oposta, segundo ele mesmo, &amp;agrave; apresentada pela fil&amp;oacute;sofa Marilena Chau&amp;iacute;, que decidiu se calar diante da crise pol&amp;iacute;tica do governo Lula e do PT.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afastado do partido desde 2003, Oliveira disse em Belo Horizonte, onde participou do semin&amp;aacute;rio &amp;#8220;O sil&amp;ecirc;ncio dos intelectuais&amp;#8221;, que o intelectual n&amp;atilde;o pode ser complacente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O intelectual n&amp;atilde;o tem o direito de se calar. Ao contr&amp;aacute;rio, ele n&amp;atilde;o pode ser otimista, ele &amp;eacute; por defini&amp;ccedil;&amp;atilde;o um pessimista", disse o soci&amp;oacute;logo, conhecido como Chico Oliveira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande erro da c&amp;uacute;pula do PT foi o de promover, segundo Oliveira, o que ele chama de virada &amp;agrave; direita e ter se descolado das bases, da milit&amp;acirc;ncia do partido. Um erro fatal, segundo ele, em qualquer partido de esquerda porque ganha-se autonomia e faz-se &amp;#8220;o que d&amp;aacute; na telha&amp;#8221;, como aconteceu. O PT adotou a tese do advers&amp;aacute;rio, lamentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Do ponto de vista do partido, foi um grande erro. Do ponto de vista do governo foi maior ainda, porque em nome da governabilidade ampliou suas alian&amp;ccedil;as a ponto de descaracterizar-se", disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desgaste deixa o PT sem ter o que dizer ao eleitor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele concorda com o ex-ministro Tarso Genro, quando ele diz que n&amp;atilde;o sabe o que dizer ao eleitor para votar no PT. Usando como exemplo o que aconteceu com o Partido Comunista no Leste Europeu, Oliveira disse que ningu&amp;eacute;m l&amp;aacute; tem coragem de pedir para se votar atualmente no Partido Comunista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o esc&amp;acirc;ndalo envolvendo a c&amp;uacute;pula do partido, Oliveira questiona com que cara os dirigentes ir&amp;atilde;o se dirigir ao eleitor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A queda-de-bra&amp;ccedil;o entre o deputado Jos&amp;eacute; Dirceu (PT-SP) e Tarso Genro no partido pode piorar a situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o do partido, analisa Oliveira, que v&amp;ecirc; na disputa uma coisa mort&amp;iacute;fera por n&amp;atilde;o se tratar de uma luta de id&amp;eacute;ias, mas uma briga de fac&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Isto, na avalia&amp;ccedil;&amp;atilde;o dele, torna o partido invi&amp;aacute;vel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O partido n&amp;atilde;o &amp;eacute; feito de anjos, tinha muitos patifes que nem sab&amp;iacute;amos que t&amp;iacute;nhamos. O partido como um todo se equivocou. O PT entrou pensando que era capaz de controlar os outros partidos, as outras personalidades, e isto &amp;eacute; hist&amp;oacute;ria de aprendiz de feiticeiro. Do jeito que est&amp;aacute; hoje, o PT &amp;eacute; uma legenda como outra qualquer."&lt;br /&gt;(O Globo, 25/8)&lt;br /&gt;publicado pelo &lt;a href="http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=30873" target="_blank"&gt;Jornal da Ci&amp;ecirc;ncia&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/08/o-silncio-dos-intelectuais-o.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/112506783076057870'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/112506783076057870'></link><author><name>Su</name><uri>http://www.gutierrez.pro.br/</uri></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-112143120203412492</id><published>2005-07-15T09:40:00.000-03:00</published><updated>2005-07-15T09:40:02.043-03:00</updated><title type='text'>Todo mundo vai virar suco</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;b&gt;Carlos Alberto D&amp;oacute;ria&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tese examina como a teoria econ&amp;ocirc;mica transformou o conhecimento em capital e a pessoa, em empresa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&amp;#8220;O capital intelectual &amp;eacute; a mat&amp;eacute;ria-prima da qual s&amp;atilde;o feitos os resultados financeiros&amp;#8221; (Thomas Stewart)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ganhar dinheiro na bolsa, converter os lucros no carro do ano, realizar viagens internacionais tamb&amp;eacute;m todo ano -uma passagem obrigat&amp;oacute;ria por Nova York ou conhecer lugares ex&amp;oacute;ticos do Oriente-, comer ao menos uma vez nos restaurantes dos grandes chefs franceses da nouvelle cuisine, colecionar quadros de artistas emergentes, qui&amp;ccedil;&amp;aacute; ouvir &amp;oacute;peras no festival anual de Salzburg. Esta era a parte do ideal da vida dos &amp;#8220;colarinhos brancos&amp;#8221; que ganhavam dinheiro na d&amp;eacute;cada de 70 -os yuppies. Uma escada-rolante ascendente, que levava ao para&amp;iacute;so do consumo, seria a melhor met&amp;aacute;fora para descrever sua percep&amp;ccedil;&amp;atilde;o da vida naqueles anos j&amp;aacute; distantes do s&amp;eacute;culo passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trinta anos depois, o personagem que est&amp;aacute; na posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o daquele yuppie -o executivo de uma empresa transnacional- pinta em novas cores o seu mundo: &amp;#8220;A din&amp;acirc;mica hoje do mercado &amp;eacute; uma escada rolante que desce. &amp;Eacute; para a empresa dessa forma, em rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o ao mercado, e para a pessoa com rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; empresa. &amp;Eacute; tudo uma cadeia&amp;#8221;. Agora, j&amp;aacute; n&amp;atilde;o &amp;eacute; empregado, mas &amp;#8220;associado&amp;#8221; ou &amp;#8220;colaborador&amp;#8221; da transnacional. &amp;#8220;Terceirizado&amp;#8221;, como dizemos caboclamente. Tem l&amp;aacute; o contrato entre a sua &amp;#8220;pessoa jur&amp;iacute;dica&amp;#8221; e a transnacional, mas o v&amp;iacute;nculo &amp;eacute; t&amp;ecirc;nue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O executivo tamb&amp;eacute;m fala sobre a pr&amp;oacute;pria fam&amp;iacute;lia como uma mini- &amp;#8220;empresa&amp;#8221; e conclui, diante do risco permanente em que vive: &amp;#8220;Eu assumo responsabilidades aqui, mas n&amp;atilde;o consigo demitir minha mulher, demitir meu filho, e do outro lado o que a sociedade me oferece, o qu&amp;ecirc;?&amp;#8221;1. J&amp;aacute; se tornou normal -na publicidade sobre um curso ou uma palestra que pode ser sobre vinhos, filosofia antiga ou &amp;#8220;buraco negro&amp;#8221; e outras maravilhas da f&amp;iacute;sica- aparecer no lugar tradicional do pre&amp;ccedil;o ou custo, uma nova palavra: &amp;#8220;investimento&amp;#8221;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenhamos presente que aquele executivo costuma fazer este tipo de curso. Mas est&amp;aacute;vamos acostumados a associar &amp;#8220;investimento&amp;#8221; ao capital, n&amp;atilde;o ao consumo. Ningu&amp;eacute;m &amp;#8220;investe&amp;#8221; numa barra de chocolate, numa geladeira, num carro ou numa viagem ao deserto de Atacama. Mas consumir qualquer coisa considerada &amp;#8220;cultura&amp;#8221; ou &amp;#8220;conhecimento&amp;#8221; significa, hoje, fazer um &amp;#8220;investimento&amp;#8221;. Assim como conhecer as pessoas certas e os lugares certos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o indiv&amp;iacute;duo se considera uma &amp;#8220;empresa&amp;#8221;, como se fosse uma unidade de capital, trata-se de um investimento em si pr&amp;oacute;prio. Finalmente surgiu o &amp;#8220;voc&amp;ecirc; S/A&amp;#8221;. Fomos mesmo convertidos em unidades de capital, a julgar pela tese de doutorado que o soci&amp;oacute;logo argentino Osvaldo Javier L&amp;oacute;pez-Ruiz acaba de defender, em que mostra o novo modo como os executivos se inserem no mundo do trabalho e como transformam as suas pr&amp;oacute;prias vidas a partir dessa novidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo ele, tudo come&amp;ccedil;ou no j&amp;aacute; distante ano de 1960, quando o economista Theodore Schultz, da Universidade de Chicago, escreveu um pequeno artigo, intitulado &amp;#8220;Investimento em Capital Humano&amp;#8221;, que produziu uma grande pol&amp;ecirc;mica entre economistas. Quarenta anos depois, as id&amp;eacute;ias de Schultz acabaram se espraiando por toda a sociedade e resumem o que se pensa modernamente sobre o papel do trabalho no capitalismo ultramoderno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que Schultz queria entender era o porqu&amp;ecirc; de sociedades afluentes, como os Estados Unidos, terem crescido muito al&amp;eacute;m dos &amp;iacute;ndices que normalmente expressam o crescimento (investimentos, disp&amp;ecirc;ndios em sal&amp;aacute;rios etc.). Ele chegou &amp;agrave; conclus&amp;atilde;o de que &amp;#8220;os modelos de crescimento econ&amp;ocirc;mico que tratam as altera&amp;ccedil;&amp;otilde;es na for&amp;ccedil;a de trabalho contando o n&amp;uacute;mero de oper&amp;aacute;rios&amp;#8221;, as estruturas f&amp;iacute;sicas, os equipamentos, as mercadorias, j&amp;aacute; n&amp;atilde;o explicavam o essencial. &amp;Eacute; fundamental, dizia, considerar a heterogeneidade do trabalho, n&amp;atilde;o mais tomado como uma &amp;#8220;for&amp;ccedil;a&amp;#8221; uniforme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Schultz destruiu a no&amp;ccedil;&amp;atilde;o cl&amp;aacute;ssica de &amp;#8220;for&amp;ccedil;a de trabalho&amp;#8221; e colocou em seu lugar as habilidades inatas ou adquiridas -habilidades que n&amp;atilde;o contribu&amp;iacute;am da mesma maneira para a &amp;#8220;riqueza da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;#8221;. Desapareceu, assim, a categoria &amp;#8220;recursos humanos&amp;#8221; das empresas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que parecia uma conversa enfadonha entre economistas era, na verdade, uma revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o na economia pol&amp;iacute;tica desde os seus fundadores: o capital deixava de ser visto como homog&amp;ecirc;neo, e o trabalho, que era a categoria oposta, passava a ser considerado capital ou, mais precisamente, &amp;#8220;capital humano&amp;#8221;, que se materializa quando o capital &amp;#8220;pega esse talento e consegue bot&amp;aacute;-lo na corpora&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;#8221;2 .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o conceitual do &amp;#8220;capital humano&amp;#8221; demorou d&amp;eacute;cadas para conquistar o mundo dos neg&amp;oacute;cios, at&amp;eacute; que as teorias de administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o, as empresas de consultoria, as revistas t&amp;eacute;cnicas e tudo o que possa &amp;#8220;fazer a cabe&amp;ccedil;a&amp;#8221; dos executivos se curvassem diante dela. Agora que ela se vulgarizou, a nova teoria faz com que os indiv&amp;iacute;duos se comportem como &amp;#8220;capitalistas de si pr&amp;oacute;prios&amp;#8221; e, portanto, o consumo que signifique qualifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o, diferencia&amp;ccedil;&amp;atilde;o, sofistica&amp;ccedil;&amp;atilde;o cultural, ser&amp;aacute; considerado &amp;#8220;investimento&amp;#8221;. &amp;Eacute; um novo modo de se ver e de ser visto pelo mercado. A &amp;#8220;mudan&amp;ccedil;a&amp;#8221; permanente, o aperfei&amp;ccedil;oamento pessoal, o elogio dessa atitude, virou o mantra do nosso tempo, conforme L&amp;oacute;pez-Ruiz. Em outras palavras, &amp;#8220;voc&amp;ecirc; &amp;eacute; o seu projeto&amp;#8221;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas n&amp;atilde;o se trata apenas de uma mudan&amp;ccedil;a subjetiva. Este novo &amp;#8220;ethos&amp;#8221;, no qual o antigo trabalhador passa a se comportar como um &amp;aacute;tomo de &amp;#8220;capital humano&amp;#8221;, fundamenta uma nova cultura empresarial, uma nova forma de explora&amp;ccedil;&amp;atilde;o do trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro grande passo foi a elimina&amp;ccedil;&amp;atilde;o do &amp;#8220;emprego&amp;#8221;. Os antigos executivos foram transformados em &amp;#8220;s&amp;oacute;cios&amp;#8221; das grandes corpora&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Como diz um capitalista, &amp;#8220;os acionistas investem dinheiro em nossas empresas, os empregados investem tempo, energia e intelig&amp;ecirc;ncia&amp;#8221;3. Junto com as participa&amp;ccedil;&amp;otilde;es nos ganhos do capital, foram socializados tamb&amp;eacute;m os riscos da atividade capitalista. Eles j&amp;aacute; n&amp;atilde;o ganham &amp;#8220;altos sal&amp;aacute;rios&amp;#8221;, mas parcelas do lucro quando este resulta da sua atividade. &amp;Agrave;s vezes -como nos Estados Unidos, no esc&amp;acirc;ndalo do caso Eron ou, na It&amp;aacute;lia, no caso Parmalat- falsificam lucros para ganhar mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os que trilham o trabalho honesto, v&amp;ecirc;-se uma corrida fren&amp;eacute;tica para se qualificar sempre mais e mais. O que antes era acesso &amp;agrave; educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o se transformou em &amp;#8220;capacita&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;#8221; para o trabalho ultracompetitivo do dia-a-dia. A pr&amp;oacute;pria vida privada &amp;eacute; administrada como se fosse uma &amp;#8220;empresa&amp;#8221; que se integra &amp;agrave; corpora&amp;ccedil;&amp;atilde;o na busca do lucro. Ir a um concerto, conhecer novas pessoas, saber discorrer sobre vinhos -tudo faz parte do bom desempenho dessa &amp;#8220;empresa&amp;#8221; nova, que s&amp;oacute; &amp;eacute; competitiva se apresenta uma alta dose de &amp;#8220;capital humano&amp;#8221;, isto &amp;eacute;, conhecimentos e habilidades de &amp;#8220;ganhadores&amp;#8221;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, tudo isso acaba. Jovens mais &amp;#8220;competitivos&amp;#8221; aparecem por todos os poros do mercado para deslocar os mais velhos. Mas o que se segue n&amp;atilde;o &amp;eacute; o &amp;#8220;desemprego&amp;#8221;, pois j&amp;aacute; n&amp;atilde;o havia o &amp;#8220;emprego&amp;#8221;. &amp;Eacute; apenas uma sociedade entre capitais que se desfaz. E, a&amp;iacute;, mediante uma s&amp;eacute;rie de tentativas e erros, o trabalhador das corpora&amp;ccedil;&amp;otilde;es busca inaugurar a sua &amp;#8220;segunda carreira&amp;#8221;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A met&amp;aacute;fora desta &amp;#8220;segunda carreira&amp;#8221; &amp;eacute; o famoso caso do in&amp;iacute;cio dos anos 80 do s&amp;eacute;culo passado, quando um engenheiro desempregado abriu uma lanchonete na avenida Paulista, em S&amp;atilde;o Paulo, e a batizou com a frase que resumia a sua vida: &amp;#8220;O engenheiro que virou suco&amp;#8221;, definindo assim um personagem que foi explorado pelo filme &amp;#8220;O homem que virou suco&amp;#8221;, de Jo&amp;atilde;o Batista de Andrade. Mas, antes de &amp;#8220;virar suco&amp;#8221; o trabalhador tentar&amp;aacute; virar consultor, escrever livros, enfim, fazer &amp;#8220;render&amp;#8221; aquelas suas velhas habilidades que o mercado acabou de lhe dizer que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o valem nada. Como &amp;#8220;terceirizado&amp;#8221;, tem uma empresa que &amp;eacute; contratada para servi&amp;ccedil;os espec&amp;iacute;ficos. &amp;Eacute; remunerado pelo &amp;#8220;tempo total&amp;#8221; trabalhado e s&amp;oacute; por ele, sem qualquer um dos velhos custos trabalhistas (previd&amp;ecirc;ncia, seguro sa&amp;uacute;de, vale-refei&amp;ccedil;&amp;atilde;o etc.).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estudo de Osvaldo Javier L&amp;oacute;pez-Ruiz n&amp;atilde;o nos diz quantos viraram ou virar&amp;atilde;o suco, mas sim como se vira suco. &amp;Eacute; um estudo qualitativo. E mostra que o executivo n&amp;atilde;o vira suco no espremedor de laranjas do designer Philippe Starck que ele geralmente tem na sua cozinha muito bem equipada. A coisa &amp;eacute; bem mais cruel, como na imagem da escada rolante que desce, e o sujeito que, em sentido contr&amp;aacute;rio, se esfor&amp;ccedil;a para n&amp;atilde;o sair do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A met&amp;aacute;fora revela uma classe m&amp;eacute;dia que, antes, fazia a sua poupan&amp;ccedil;a e se educava para garantir a ascens&amp;atilde;o social, mas que hoje transformou a &amp;#8220;poupan&amp;ccedil;a&amp;#8221; em consumo (&amp;#8220;investimento em si&amp;#8221;), que reduziu a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; capacita&amp;ccedil;&amp;atilde;o para competir e que, no lugar da mobilidade social ascendente, luta para n&amp;atilde;o decair4. Na medida em que esse segmento &amp;eacute; &amp;#8220;formador de opini&amp;atilde;o&amp;#8221;, esse modo de pensar passa a ser o &amp;#8220;ethos&amp;#8221; de toda a sociedade. Mondo cane, mondovino, mundo cruel, &amp;eacute; tudo uma coisa s&amp;oacute;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um mundo onde o produto &amp;eacute; a pessoa e o mercado, a vida, onde o curriculum vitae n&amp;atilde;o &amp;eacute; mais uma hist&amp;oacute;ria, mas uma pe&amp;ccedil;a de marketing que resume as habilidades utiliz&amp;aacute;veis (&amp;#8220;Voc&amp;ecirc; tem um produto para vender, e esse produto &amp;eacute; voc&amp;ecirc; mesmo&amp;#8221;, diz um dos entrevistados por L&amp;oacute;pez-Ruiz).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o autor mostra que o novo &amp;#8220;ethos&amp;#8221; n&amp;atilde;o se limita a mais uma &amp;#8220;teoria da administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;#8221; -como tantas outras que se sucedem entre executivos, definindo o perfil do &amp;#8220;executiv&amp;atilde;o&amp;#8221; de multinacionais, fundamentando a &amp;#8220;reengenharia&amp;#8221; dos processos de trabalho, a &amp;#8220;desintermedia&amp;ccedil;&amp;atilde;o&amp;#8221; ou outras panac&amp;eacute;ias da administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o do capital. Ao contr&amp;aacute;rio, com o fim do emprego, a dissolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o do operariado, o fim do &amp;#8220;ch&amp;atilde;o de f&amp;aacute;brica&amp;#8221;, a pr&amp;oacute;pria categoria trabalho, como valor que o capital suga em troca de um &amp;#8220;sal&amp;aacute;rio&amp;#8221;, desapareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desaparecimento do trabalho enquanto tempo, ou for&amp;ccedil;a e energia aplicadas numa atividade seriada, governada por m&amp;aacute;quinas, equipamentos e rotinas, converteu o trabalhador numa parcela do pr&amp;oacute;prio capital que se acumula em novos conhecimentos e capacidades. Esta &amp;eacute; a base objetiva para que se desenvolvam novas formas de rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais, resumidas no &amp;#8220;ethos do executivo das transnacionais&amp;#8221;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o &amp;#8220;trabalhador&amp;#8221; era antes o fruto de uma s&amp;eacute;rie de lutas hist&amp;oacute;ricas, uma categoria concreta da sociedade que resumia um feixe de direitos garantidos pelo Estado e vigiados pelos sindicatos, agora j&amp;aacute; n&amp;atilde;o &amp;eacute; mais esta coisa jur&amp;iacute;dica, resumindo-se &amp;agrave; atividade no mercado. O indiv&amp;iacute;duo &amp;eacute; o empreendedor de si mesmo, o seu pr&amp;oacute;prio capital, e n&amp;atilde;o algu&amp;eacute;m que realizava uma troca de tempo de trabalho por sal&amp;aacute;rio numa condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o jur&amp;iacute;dica &amp;#8220;trabalhista&amp;#8221;. Suas a&amp;ccedil;&amp;otilde;es passam a ser pensadas isoladamente em termos de custo/benef&amp;iacute;cio, isto &amp;eacute;, segundo a sua racionalidade interna, e n&amp;atilde;o mais como um processo que se desdobra no tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O seu sal&amp;aacute;rio, que antes era o pre&amp;ccedil;o da sua for&amp;ccedil;a de trabalho obtido pelo enfrentamento entre trabalhadores assemelhados, agora assume a forma de uma &amp;#8220;renda&amp;#8221;, rendimento do seu &amp;#8220;capital humano&amp;#8221;. Ao agir como uma &amp;#8220;empresa&amp;#8221;, o trabalhador passa a ser o encapsulamento da subjetividade do capital. Sua &amp;#8220;alma&amp;#8221; &amp;eacute; a alma do capital. Ele levou a si pr&amp;oacute;prio para o cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o da empresa ou, nas palavras de um executivo, &amp;#8220;os acionistas p&amp;otilde;em a grana ; eu ponho miolos&amp;#8221;, e toda a sua subjetividade ser&amp;aacute; moldada a partir do novo enquadramento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novas categorias de an&amp;aacute;lise deste admir&amp;aacute;vel mundo v&amp;atilde;o povoando os textos de economistas e executivos de organismos multilaterais, como o Banco Mundial e a OCDE (Organiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o para a Coopera&amp;ccedil;&amp;atilde;o e o Desenvolvimento Econ&amp;ocirc;mico). Em suas m&amp;atilde;os, o &amp;#8220;capital humano&amp;#8221; de Schultz vai se refinando e se convertendo em &amp;#8220;capital intelectual&amp;#8221; (o ativo da empresa, a maior parte do seu valor real), ou &amp;#8220;capital social&amp;#8221; e, ainda, &amp;#8220;capital territorial&amp;#8221; -diferen&amp;ccedil;as sutis que t&amp;ecirc;m em comum o fato de transformar algo intang&amp;iacute;vel em fator de acumula&amp;ccedil;&amp;atilde;o, seja a sua unidade uma pessoa, uma cultura ou um conjunto de recursos institucionais referidos a um territ&amp;oacute;rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessas suas metamorfoses se descortina uma sociedade onde o capital pode se apropriar de todos os conhecimentos como forma de valorizar a si pr&amp;oacute;prio, deixando claro que ele &amp;eacute; uma rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o social, n&amp;atilde;o coisas palp&amp;aacute;veis. Em outras palavras, agora a ci&amp;ecirc;ncia, a t&amp;eacute;cnica e a &amp;#8220;cultura&amp;#8221; s&amp;atilde;o tomadas como for&amp;ccedil;as produtivas, e este conhecimento &amp;uacute;til em nova embalagem se revela quando &amp;eacute; poss&amp;iacute;vel conectar pessoas, alavancando o que elas sabem para gerar ganhos no mercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com base nessa nova realidade de mercado d&amp;aacute;-se o espet&amp;aacute;culo de crescimento econ&amp;ocirc;mico, de costas para o Estado e para o espa&amp;ccedil;o p&amp;uacute;blico, cujos desdobramentos muita gente, dentro e fora das academias, quebra a cabe&amp;ccedil;a para entender -como nesse trabalho iluminado de Osvaldo Javier L&amp;oacute;pez-Ruiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por enquanto, apenas uma certeza: no m&amp;eacute;dio prazo todos viraremos suco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Carlos Alberto D&amp;oacute;ria&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&amp;Eacute; soci&amp;oacute;logo e ensa&amp;iacute;sta, autor, entre outros livros, de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e o rec&amp;eacute;m-lan&amp;ccedil;ado "Os Federais da Cultura" (ed. Biruta).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 - Osvaldo Javier L&amp;oacute;pez-Ruiz, &amp;#8220;O ethos dos executivos das transnacionais e o esp&amp;iacute;rito do capitalismo&amp;#8221;, tese de doutorado, IFCH-Unicamp, 2004, p&amp;aacute;g. 300.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 - Palavras do dirigente de uma transnacional, conforme Osvaldo Javier L&amp;oacute;pez-Ruiz, op. cit., p&amp;aacute;g. 305.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3 - Cf. Osvaldo Javier L&amp;oacute;pez-Ruiz, op. cit., p&amp;aacute;g. 244.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4 - A literatura sobre o desaparecimento da classe m&amp;eacute;dia j&amp;aacute; come&amp;ccedil;a a ser not&amp;aacute;vel. Ver sua resenha no artigo de Robert Kurtz, &amp;#8220;O Decl&amp;iacute;nio da Classe M&amp;eacute;dia&amp;#8221;, "Folha de S. Paulo", 19/09/2004.&lt;/div&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/07/todo-mundo-vai-virar-suco.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/112143120203412492'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/112143120203412492'></link><author><name>Su</name><uri>http://www.gutierrez.pro.br/</uri></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-112000731896315278</id><published>2005-06-28T22:08:00.000-03:00</published><updated>2005-06-28T22:09:01.433-03:00</updated><title type='text'>Maquiavel e o Iapar</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;Am&amp;eacute;lio Dall'Agnol*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;	 &lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;blockquote&gt;Eu tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o acredito que Maquiavel morreu. Ele est&amp;aacute; vivo. Tem 536 anos e vive escondido em algum lugar de Bras&amp;iacute;lia, onde oferece consultoria &amp;agrave; turma do mensal&amp;atilde;o, sobre como promover uma pol&amp;iacute;tica de resultados&lt;/i&gt;&lt;/blockquote&gt;* Am&amp;eacute;lio Dall'agnol &amp;eacute; engenheiro agr&amp;ocirc;nomo e pesquisador em Londrina. Artigo publicado na &amp;#8220;Folha de Londrina&amp;#8221;;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nicol&amp;oacute; Machiavelli era italiano. Pol&amp;iacute;tico, historiador e escritor, viveu em Floren&amp;ccedil;a de 1469 a 1527. Foi uma das figuras mais brilhantes do Renascentismo europeu. Foi conselheiro e colaborador dos Medici.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como escritor, notabilizou-se pela publica&amp;ccedil;&amp;atilde;o de ''O Pr&amp;iacute;ncipe'', obra prima de ast&amp;uacute;cia e mal&amp;iacute;cia pol&amp;iacute;ticas, inspirado na figura de C&amp;eacute;sar Borgia, um governante corrupto e imoral da &amp;eacute;poca. O livro ensina como governar, separando a pol&amp;iacute;tica da moral, no entendimento de que os fins justificam os meios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vivo fosse, Maquiavel daria o seguinte conselho aos governantes de plant&amp;atilde;o: &amp;#8220;N&amp;atilde;o desperdice dinheiro com Ci&amp;ecirc;ncia e Tecnologia (C&amp;T). Seus resultados demoram muito a aparecer e quando aparecerem, voc&amp;ecirc; n&amp;atilde;o estar&amp;aacute; mais no poder. Usufrua dos desenvolvimentos tecnol&amp;oacute;gicos gerados pelos governantes anteriores, cujos benef&amp;iacute;cios perdurar&amp;atilde;o por um longo per&amp;iacute;odo ainda. C&amp;T &amp;eacute; como um trem: uma vez desligada a locomotiva, ele continuar&amp;aacute; a deslizar pelos trilhos, parando muitos quil&amp;ocirc;metros depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ningu&amp;eacute;m saber&amp;aacute; quando e onde foi desligado. Cancele todos os projetos de pesquisa e utilize esse dinheiro para fazer asfalto, comprar ambul&amp;acirc;ncias, construir casas populares. Coisas que o povo possa ver e apreciar. Assim voc&amp;ecirc; aparecer&amp;aacute; e agradar&amp;aacute; ao povo, que te recompensar&amp;aacute; com um segundo mandato. Pense na pr&amp;oacute;xima elei&amp;ccedil;&amp;atilde;o e n&amp;atilde;o na pr&amp;oacute;xima gera&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os efeitos perniciosos da falta de investimentos em C&amp;T come&amp;ccedil;arem a aparecer, voc&amp;ecirc; estar&amp;aacute; concluindo teu segundo mandato. O desgaste ser&amp;aacute; do governante seguinte, quem ter&amp;aacute; que investir muito para p&amp;ocirc;r novamente a m&amp;aacute;quina a funcionar e n&amp;atilde;o ter&amp;aacute; dinheiro para realizar obras mais vis&amp;iacute;veis. Fique tranq&amp;uuml;ilo, voc&amp;ecirc; ser&amp;aacute; eleito para um terceiro mandato.&amp;#8221;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fala-se insistentemente no descaso a que est&amp;aacute; relegado o Iapar, a mais importante institui&amp;ccedil;&amp;atilde;o de C&amp;T agr&amp;iacute;cola do Estado. Orgulho de Londrina, nossa cidade n&amp;atilde;o pode fazer de conta que n&amp;atilde;o v&amp;ecirc; e n&amp;atilde;o sabe o que est&amp;aacute; acontecendo. Mais importante que trazer uma nova atividade econ&amp;ocirc;mica para Londrina, &amp;eacute; n&amp;atilde;o deixar que o que existe seja desmontado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;N&amp;atilde;o sei quem possa ser o respons&amp;aacute;vel pela delicada situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o em que se encontra a Institui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, mas uma coisa &amp;eacute; certa: n&amp;atilde;o &amp;eacute; culpa apenas do atual governo. Se o trem est&amp;aacute; parando agora, &amp;eacute; porque a m&amp;aacute;quina foi desligada muitos anos atr&amp;aacute;s. No governo Lerner ou, at&amp;eacute;, antes dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prop&amp;oacute;sito, tem gente que ainda cr&amp;ecirc; na possibilidade de o presidente John Kennedy estar vivo, apesar de ter visto o seu c&amp;eacute;rebro jogado sobre o cap&amp;ocirc; da limusine que o conduzia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o acredito que Maquiavel morreu. Ele est&amp;aacute; vivo. Tem 536 anos e vive escondido em algum lugar de Bras&amp;iacute;lia, onde oferece consultoria &amp;agrave; turma do mensal&amp;atilde;o, sobre como promover uma pol&amp;iacute;tica de resultados.&lt;br /&gt;(Folha de Londrina, 27/6)&lt;/div&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/06/maquiavel-e-o-iapar.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/112000731896315278'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/112000731896315278'></link><author><name>Su</name><uri>http://www.gutierrez.pro.br/</uri></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-111741820568407773</id><published>2005-05-29T22:56:00.000-03:00</published><updated>2005-05-29T22:56:45.683-03:00</updated><title type='text'>....</title><content type='html'>....</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/05/blog-post.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111741820568407773'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111741820568407773'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-111739895513739605</id><published>2005-05-29T17:35:00.000-03:00</published><updated>2005-05-29T22:56:20.770-03:00</updated><title type='text'>Um espelho na sala de aula: refletindo sobre a biografia de Karl Marx por Francis Wheen</title><content type='html'>&lt;b&gt;Um espelho na sala de aula: refletindo sobre a biografia de Karl Marx por Francis Wheen (1)&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;					&lt;br /&gt;						Cleusa Helena Guaita Peralta Castell&lt;br /&gt;					&lt;br /&gt;	&lt;br /&gt;	&lt;div align="justify"&gt;Dez minutos de reflex&amp;atilde;o escrita sobre o estudo da biografia estudada: a Mestra o solicita como um exerc&amp;iacute;cio em sala de aula. Neste momento, inicio um memorial instant&amp;acirc;neo. Lembro de um espelho na sala de aula, o que &amp;eacute; um tanto raro numa universidade p&amp;uacute;blica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Do outro lado do espelho, minha Mestra observa um senhor de negros cabelos e id&amp;eacute;ias ferrenhas, que, por sua vez me observa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Exercito sob esses dois olhares o que sobrevive desse anti-her&amp;oacute;i revolucion&amp;aacute;rio em minha pr&amp;oacute;pria hist&amp;oacute;ria de vida: minhas contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es, meu m&amp;eacute;todo de perceber o campo de pesquisa que se abre atr&amp;aacute;s do espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Outros companheiros na roda comigo, observo, entrecruzam suas pernas e seus sapatos no nosso c&amp;iacute;rculo de curiosas propostas sobre como dialetizar e concretizar as nossas utopias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Entre as reflex&amp;otilde;es sobre as categorias estudadas, encontram guarida as falas explicitadas na materialidade vivida de cada um de n&amp;oacute;s: no movimento dos sem-terra e a feira agroecol&amp;oacute;gica, nos assentamentos do INCRA, na ONG da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o popular, na Associa&amp;ccedil;&amp;atilde;o agroecol&amp;oacute;gica, na forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o n&amp;atilde;o-alienada dos professores. Enquanto nossas id&amp;eacute;ias se entrela&amp;ccedil;am no tempo, nossos sapatos se percebem muito pesados no ch&amp;atilde;o, com medo de serem arremessados no espa&amp;ccedil;o, no qual "tudo o que &amp;eacute; s&amp;oacute;lido se desmancha no ar" (p. 117).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Do outro lado do espelho, nossos mestres se diferenciam entre si: Ela sorrindo com tranq&amp;uuml;ila aceita&amp;ccedil;&amp;atilde;o de seus educandos, em suas contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es, sabendo a partir de sua pr&amp;oacute;pria vida como &amp;eacute; dif&amp;iacute;cil manter os sapatos presos no ch&amp;atilde;o neste terceiro mil&amp;ecirc;nio, como somos estranhos nesse grupo chamado cl&amp;aacute;ssico, enquanto o capitalismo progride na p&amp;oacute;s-modernidade e no final dos tempos anunciados; Ele, o temido Mouro, ao contr&amp;aacute;rio, com ruidosa e j&amp;aacute; esperada vocifera&amp;ccedil;&amp;atilde;o dispara: " Que hist&amp;oacute;ria &amp;eacute; essa de terceiro setor? Economia solid&amp;aacute;ria? Organiza&amp;ccedil;&amp;otilde;es da sociedade civil, algu&amp;eacute;m pode me explicar como voc&amp;ecirc;s esperam conseguir transformar isso tudo numa Comuna que tenha uma materialidade cient&amp;iacute;fica? Como j&amp;aacute; expliquei "N&amp;atilde;o &amp;eacute; uma quest&amp;atilde;o te&amp;oacute;rica, mas pr&amp;aacute;tica.  O importante n&amp;atilde;o &amp;eacute; interpretar o mundo, mas mud&amp;aacute;-lo" (p. 96), entenderam? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Meu colega ao lado se recomp&amp;otilde;e, ouvindo tamb&amp;eacute;m a voz, que parecia sair inusitadamente detr&amp;aacute;s do espelho da sala de aula, e tenta, respirando pausadamente, refletir sobre o estudado (esse colega sempre fala pausadamente para dar um tom de seriedade no assunto tratado, mas no final, sempre vem uma anedota picante): Todas essas alternativas, que o grupo est&amp;aacute; buscando, engajados que estamos em nosso trabalho de base, t&amp;ecirc;m uma origem comum: a ambi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Marx, a proposta de emancipa&amp;ccedil;&amp;atilde;o das classes trabalhadoras.  Sobre isso, outro colega lembrou da biografia estudada, o epis&amp;oacute;dio dos tecel&amp;otilde;es silesianos, que "haviam destro&amp;ccedil;ado as m&amp;aacute;quinas que lhes amea&amp;ccedil;avam o ganha-p&amp;atilde;o". No debate com seu oponente Arnold Ruge, que abordava o fato como inconseq&amp;uuml;ente, "j&amp;aacute; que faltava &amp;agrave; Alemanha a 'consci&amp;ecirc;ncia pol&amp;iacute;tica', Marx os teria aprovado apesar de se caracterizar como um fato isolado, destacando que: "O fertilizante das revolu&amp;ccedil;&amp;otilde;es n&amp;atilde;o era a 'consci&amp;ecirc;ncia pol&amp;iacute;tica', mas a 'consci&amp;ecirc;ncia de classe" que os tecel&amp;otilde;es tinham de sobra (p. 69).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Ponderamos sobre isso, lembrando que em nossas atividades junto aos nossos sujeitos de pesquisa, poucos de n&amp;oacute;s j&amp;aacute; tinham se deparado com grupos visivelmente identificados com sua consci&amp;ecirc;ncia de classe, como &amp;eacute; o caso do MST. Apenas o colega da feira agroecol&amp;oacute;gica tinha convivido nesses assentamentos com os produtores e especialmente com as mulheres que sabiam tudo sobre plantas medicinais. Da&amp;iacute; o conhecimento dele, a quem sempre recorremos em busca de receitas de ervas para nossos males. Esse conhecimento &amp;eacute; valorizado e extremamente respeitado por todos n&amp;oacute;s, o que &amp;eacute; raro nas comunidades agr&amp;iacute;colas. Ponderamos ainda, que no caso do importante trabalho de base sobre os assentamentos, associa&amp;ccedil;&amp;otilde;es e cooperativismo, temos encontrado no seio de diversos grupos, em seu trabalho inicial, os mesmos problemas encontrados nas rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es de poder piramidais das empresas capitalistas, como o individualismo, a hierarquia das lideran&amp;ccedil;as, a dificuldade em equiparar investimento financeiro e trabalho criativo, sendo o primeiro sempre supervalorizado em detrimento do segundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Quem trabalha e tem a sabedoria, tanto na agricultura, como na pesca ou no artesanato, vale menos do que o capitalista que investiu no projeto, que &amp;eacute; endeusado em seu assistencialismo. Por vezes, o pr&amp;oacute;prio Estado como provedor, em parceria com multinacionais que despejam recursos em projetos compensat&amp;oacute;rios pelos danos ao ambiente (como &amp;eacute; o caso da Petrobr&amp;aacute;s) &amp;eacute; visto como o benfeitor dos cooperativados, sem qualquer rejei&amp;ccedil;&amp;atilde;o, acostumados que est&amp;atilde;o com sua condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o subalterna, alienados de sua consci&amp;ecirc;ncia de classe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Nesse ponto do debate, outro colega cujos sapatos estavam, h&amp;aacute; algum tempo, saltitando ind&amp;oacute;ceis no ch&amp;atilde;o, com voz professoral declarou (em tom bem compassado, embora um tanto nervoso, se dirigindo frontalmente ao espelho): O cooperativismo, portanto, como uma alternativa contra-hegem&amp;ocirc;nica n&amp;atilde;o pode prescindir de um trabalho de base que explicite os conflitos entre o Estado a servi&amp;ccedil;o da burguesia e os trabalhadores cooperativados!  &amp;Eacute; preciso garimpar a consci&amp;ecirc;ncia de classe, esteja ela onde estiver!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Ficamos um tempo em sil&amp;ecirc;ncio, aguardando uma resposta, um coment&amp;aacute;rio ou at&amp;eacute; uma reprimenda...Nada aconteceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Nos sentimos um pouco desanimados, pois hav&amp;iacute;amos chegado a um ponto da reflex&amp;atilde;o meio sem sa&amp;iacute;da e parecia que &amp;iacute;amos nos dissolver no ar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Entretanto, nossa Mestra resolve dar uma saidinha do espelho e refletir, escrevendo na lousa, e o que diz &amp;eacute; fundamental. Fala de uma garrafa de &amp;aacute;gua mineral: "N&amp;atilde;o estou pagando pela &amp;aacute;gua, mas pelo petr&amp;oacute;leo que se transforma em PET - n&amp;atilde;o se v&amp;ecirc; a explora&amp;ccedil;&amp;atilde;o que est&amp;aacute; embutida nesta garrafa. Isto n&amp;atilde;o aparece como explora&amp;ccedil;&amp;atilde;o no capitalismo. Eis o ocultamento da explora&amp;ccedil;&amp;atilde;o no coletivo". Discute com todos o conceito de ideologia em Marx: como "falsa consci&amp;ecirc;ncia" ou "realidade invertida" pela burguesia (a partir de A Ideologia Alem&amp;atilde;); Ideologia &amp;eacute;, ainda, aquilo que impede que se veja a realidade tal qual ela &amp;eacute;... depende das condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es materiais da exist&amp;ecirc;ncia" (aula Relendo os cl&amp;aacute;ssicos, dia 19 de abril de 2005).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; 	Parecendo acordar subitamente, o Mouro concorda, um tanto surpreso com o fato de encontrar uma mulher t&amp;atilde;o preparada no meio acad&amp;ecirc;mico, uma vez que mulheres n&amp;atilde;o costumavam freq&amp;uuml;entar ambientes t&amp;atilde;o revolucion&amp;aacute;rios no seu tempo.  A prop&amp;oacute;sito, pergunta: Esse tal de Ween n&amp;atilde;o falou na minha biografia sobre a aliena&amp;ccedil;&amp;atilde;o do trabalho? Tem tudo a ver com o que voc&amp;ecirc;s est&amp;atilde;o falando. Imaginem um parto, n&amp;atilde;o o parto em si, mas a separa&amp;ccedil;&amp;atilde;o do beb&amp;ecirc; rec&amp;eacute;m-nascido da m&amp;atilde;e. A mesma coisa acontece com o produto do trabalho do trabalhador, que sempre lhe &amp;eacute; subtra&amp;iacute;do de sua autoria ou maternidade, produzindo a aliena&amp;ccedil;&amp;atilde;o (p. 73). Logo, assim como h&amp;aacute; uma ideologia que oculta a explora&amp;ccedil;&amp;atilde;o do cooperativado, como explicou a professora, tamb&amp;eacute;m temos uma hist&amp;oacute;ria inteira de explora&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a partir da qual o trabalhador se acostumou a ser m&amp;atilde;o de obra barata, sem ver o produto de seu trabalho como sua propriedade, fruto de seu conhecimento. Na Europa muita coisa se fez pela consci&amp;ecirc;ncia de classe, muita m&amp;aacute;quina foi quebrada, voc&amp;ecirc;s lembram? E aqui nessas tais cooperativas, nesses tais grupamentos, como vai ser? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Finalmente me animo a responder: A sa&amp;iacute;da aqui &amp;eacute; pela educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, Mestre! Assim como estamos imersos na pedagogia da viol&amp;ecirc;ncia, como fala a amada Professora do Estado e Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, tamb&amp;eacute;m estamos na luta pela pedagogia da liberta&amp;ccedil;&amp;atilde;o, da mudan&amp;ccedil;a, da autonomia e da emancipa&amp;ccedil;&amp;atilde;o...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	O Mouro zomba, dizendo: Ainda? Eu j&amp;aacute; gastei o meu latim com o Weitling. Eu disse a ele: "promover o levante dos trabalhadores sem lhes oferecer id&amp;eacute;ias cient&amp;iacute;ficas ou uma doutrina construtiva 'equivale a um jogo de prega&amp;ccedil;&amp;atilde;o desonesto e f&amp;uacute;til, que presume um profeta inspirado, de um lado, e de outro, apenas asnos boquiabertos"[...] a ignor&amp;acirc;ncia nunca ajudou ningu&amp;eacute;m at&amp;eacute; hoje!" (p. 102).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Reunindo toda a minha coragem, respondo: O senhor n&amp;atilde;o sabe o que &amp;eacute; conviver l&amp;aacute; no campo com a aliena&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos produtores, sabe? O senhor poderia sair da sua biblioteca e vir aqui nos ajudar? De id&amp;eacute;ias ci-em-t&amp;iacute;-fi-cas eles est&amp;atilde;o cansados, o senhor sabia? A universidade p&amp;uacute;blica cobra caro pela an&amp;aacute;lise da &amp;aacute;gua deles e eles est&amp;atilde;o contaminando a &amp;aacute;gua que eles bebem com os agrot&amp;oacute;xicos! O senhor sabe o que &amp;eacute; um agrot&amp;oacute;xico? O senhor sabe que as escolas t&amp;eacute;cnicas agr&amp;iacute;colas apenas ensinam a usar os defensivos qu&amp;iacute;micos? O senhor sabe a servi&amp;ccedil;o de quem as escolas est&amp;atilde;o? O senhor sabe quem &amp;eacute; a Monsanto, que diz que vai aplacar a fome do mundo com as sementes transg&amp;ecirc;nicas? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	O Mouro parece um tanto tonto com esta tagarelice de mulher. Volta ao seu canto do espelho, resmungando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Meus colegas debatem sem parar a crise do governo atual, se &amp;eacute; que h&amp;aacute; crise. Um deles, o das piadas, fala que o problema &amp;eacute; que o governo, embora de esquerda, n&amp;atilde;o aprendeu a li&amp;ccedil;&amp;atilde;o marxista do exerc&amp;iacute;cio dial&amp;eacute;tico. Exemplo disso &amp;eacute; a falta de tato para lidar com os partid&amp;aacute;rios que, descontentes, se retiraram do Partido dos Trabalhadores. Na opini&amp;atilde;o dele o governo deveria valorizar as posi&amp;ccedil;&amp;otilde;es contr&amp;aacute;rias e fazer a autocr&amp;iacute;tica, percebendo melhor o seu contradit&amp;oacute;rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Nossos sapatos v&amp;atilde;o, aos poucos, tomando o rumo para fora daquele ambiente caloroso de debate, j&amp;aacute; com saudade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	&amp;Agrave; porta de sa&amp;iacute;da, nossa Mestra pergunta sobre o meu costume de criar met&amp;aacute;foras, compreendendo a minha forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o em artes visuais e a obsess&amp;atilde;o por imagens. Respondo a ela que eu estava pensando em fazer um texto, criando a met&amp;aacute;fora de um espelho na sala de aula para trazer o Mouro para o nosso debate. Isso poderia me proporcionar um momento de reflex&amp;atilde;o trazendo a hist&amp;oacute;ria original de Marx para o nosso cotidiano, ao mesmo tempo em que poderia arriscar escrever parodiando o autor da biografia, o Ween, como singela homenagem &amp;agrave; leitura t&amp;atilde;o impressionantemente humana da vida de nosso (anti) her&amp;oacute;i.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Ao chegar em casa, em frente ao espelho do sagu&amp;atilde;o, sem o Mouro e sem a Mestra, reflito: Ser&amp;aacute; que ainda h&amp;aacute; espa&amp;ccedil;o no nosso cotidiano e em nossa luta pol&amp;iacute;tica, especialmente no campo, para esse contradit&amp;oacute;rio? Estaremos sabendo lidar dialeticamente com as contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es nas quais estamos envolvidos no campo, na cidade e na universidade? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	De minha parte, na luta pela emancipa&amp;ccedil;&amp;atilde;o no campo, busco a arte como ferramenta social. Na biografia o autor tangencia superficialmente o que Marx pensava sobre ser um Rafael numa sociedade comunista: "numa sociedade comunista n&amp;atilde;o existem pintores, mas apenas pessoas que se dedicam a pintar, entre outras atividades" (p. 96). Entretanto, o que aconteceria se nossa capacidade criadora n&amp;atilde;o fosse sistematicamente mutilada pela escola e pela m&amp;iacute;dia? Como seria uma sociedade na qual pud&amp;eacute;ssemos afinar diversos instrumentos de nossa express&amp;atilde;o criadora, a partir de uma educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o est&amp;eacute;tica para o coletivo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meu projeto (2), por exemplo, a linguagem do teatro interativo, ser&amp;aacute; de grande relev&amp;acirc;ncia como ferramenta metodol&amp;oacute;gica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              Junto aos meus colegas, tenho estudado os referenciais da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o popular e da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o no campo. H&amp;aacute; pouco, comentamos: Miguel Arroyo (1997) faz uma cr&amp;iacute;tica &amp;agrave; pedagogia criativa, que se restringe &amp;agrave;s classes mais abastadas, afirmando que esta pedagogia n&amp;atilde;o chegou &amp;agrave;s escolas dos pobres, onde n&amp;atilde;o h&amp;aacute; espa&amp;ccedil;o nem tempo para o criativo. Entretanto, poucos conhecem a verdadeira hist&amp;oacute;ria do ensino da arte nas escolas. A disciplina educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o art&amp;iacute;stica foi implantada tecnicistamente nas escolas (LDB 5692/71) durante o regime militar e, obviamente, at&amp;eacute; hoje sofre as seq&amp;uuml;elas do projeto alienador do governo, que n&amp;atilde;o deu espa&amp;ccedil;o nem forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o adequada aos profissionais de arte para cumprir o seu papel cr&amp;iacute;tico e libertador (3). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Mesmo aqueles que desconhecem a import&amp;acirc;ncia da arte na educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o popular, concordam que Paulo Freire (1979) relaciona a sua educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o libertadora com um ato criativo por excel&amp;ecirc;ncia. &amp;Eacute; nessa linha de pensamento que as linguagens art&amp;iacute;sticas estar&amp;atilde;o presentes em meu trabalho. A participa&amp;ccedil;&amp;atilde;o do grupo de teatro interativo  junto aos produtores ser&amp;aacute; fundamental para promover a cr&amp;iacute;tica e tratar dos assuntos mais pol&amp;ecirc;micos e emergenciais como a contamina&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos agricultores com os agrot&amp;oacute;xicos e sua total depend&amp;ecirc;ncia do sistema capitalista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Em minha metodologia de pesquisa irei analisar as narrativas dos pequenos produtores rurais, refletindo sobre os processos de desvendamento dos antagonismos e das contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais e suas poss&amp;iacute;veis respostas, a partir do debate sobre as problem&amp;aacute;ticas do campo junto &amp;agrave;s comunidades de pesquisa, mediados pela linguagem do teatro interativo (4) como ferramenta social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;	Lembrando da met&amp;aacute;fora do espelho na sala de aula, posso imaginar o Francis Ween observando tudo o que narrei, os di&amp;aacute;logos com o Mouro e a Mestra e o pessoal em c&amp;iacute;rculo, entrela&amp;ccedil;ando os sapatos. Como seria interessante pesquisar sobre o teatro na &amp;eacute;poca de Marx e refletir sobre isso. O que sei &amp;eacute; que mais tarde, o dramaturgo alem&amp;atilde;o Bertolt Brecht (1898-1956) uniu o expressionismo &amp;agrave; s&amp;aacute;tira da pol&amp;iacute;tica capitalista, ampliando a tem&amp;aacute;tica marxista para o teatro, mas isto &amp;eacute; uma longa hist&amp;oacute;ria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como afirma Augusto Boal (1982), o fato de fazer teatro com e para as classes populares &amp;eacute;, por si s&amp;oacute;, um ato revolucion&amp;aacute;rio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Notas:&lt;br /&gt; &lt;div align="justify"&gt;(1)  WHEEN, 2001: todas as cita&amp;ccedil;&amp;otilde;es literais dessa obra est&amp;atilde;o grafadas em it&amp;aacute;lico, com o n&amp;uacute;mero da p&amp;aacute;gina citada; as cita&amp;ccedil;&amp;otilde;es indiretas de outros autores est&amp;atilde;o no modo normal autor-data; os demais di&amp;aacute;logos presentes no texto s&amp;atilde;o de minha autoria, baseados nas reflex&amp;otilde;es coletivas em sala de aula.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(2) Projeto de tese: Hist&amp;oacute;rias do campo, contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es e esperan&amp;ccedil;as - A emancipa&amp;ccedil;&amp;atilde;o como possibilidade para as comunidades rurais do munic&amp;iacute;pio de Rio Grande.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(3) Por press&amp;atilde;o dos arte-educadores, organizados pela Federa&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos Arte-educadores do Brasil - FAEB, os Par&amp;acirc;metros Curriculares Nacionais - PCNs - inclu&amp;iacute;ram a arte interdisciplinarmente nos anos iniciais do fundamental. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(4) Grupo ClownDestino, do Centro de Forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o e Orienta&amp;ccedil;&amp;atilde;o Pedag&amp;oacute;gica da FURG, Rio Grande, com forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o em Teatro do Oprimido de Boal, Teatro F&amp;oacute;rum e Clowning (de Jean-Pierre Besnard, diretor do Caravane Theatre de Toulouse, Fran&amp;ccedil;a).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Refer&amp;ecirc;ncias bibliogr&amp;aacute;ficas:&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;ARROYO, Miguel (org.). Da escola carente &amp;agrave; escola poss&amp;iacute;vel. S&amp;atilde;o Paulo: Loyola, 1997.&lt;br /&gt;BOAL, Augusto. 200 exerc&amp;iacute;cios e jogos para o ator e n&amp;atilde;o-ator com vontade de dizer algo atrav&amp;eacute;s do teatro. Rio de Janeiro: Civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o Brasileira, 1982.&lt;br /&gt;FREIRE, Paulo. Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e mudan&amp;ccedil;a. S&amp;atilde;o Paulo: Paz e Terra, 1979.&lt;br /&gt;WHEEN, Francis. Karl Marx. Tradu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, S&amp;atilde;o Paulo: Record, 2001.  &lt;br /&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/05/um-espelho-na-sala-de-aula-refletindo.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111739895513739605'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111739895513739605'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-111586971982960036</id><published>2005-05-12T00:48:00.000-03:00</published><updated>2005-05-12T00:48:39.846-03:00</updated><title type='text'>PARTICIPAÇÃO OUTORGADA E DEMOCRACIA</title><content type='html'>PARTICIPA&amp;Ccedil;&amp;Atilde;O OUTORGADA E DEMOCRACIA&lt;br /&gt;Humberto Cunha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O recente livro de Alejandro SERRANO CALDERA (2005), Raz&amp;atilde;o, direito e poder, estimulou-me a retomar a discuss&amp;atilde;o sobre algumas quest&amp;otilde;es que dizem respeito &amp;agrave; natureza do poder, num enfoque a partir de Marx. &lt;br /&gt;O livro trabalha sete teses sobre a democracia:&lt;br /&gt;1. Os fundamentos filos&amp;oacute;ficos da democracia se v&amp;ecirc;em abandonados pela pr&amp;aacute;tica (o sistema pol&amp;iacute;tico atual &amp;eacute; usado totalmente diferente das id&amp;eacute;ias que lhe deram forma te&amp;oacute;rica e conceitual).&lt;br /&gt;2. A caracter&amp;iacute;stica dominante do contexto atual em que a democracia opera &amp;eacute; a do cons&amp;oacute;rcio entre o Estado militar hegem&amp;ocirc;nico e o mercado total.&lt;br /&gt;3. A hist&amp;oacute;ria universal tem sido uma luta constante entre a decis&amp;atilde;o de impor a uniformidade pela for&amp;ccedil;a da cultura ou pela for&amp;ccedil;a das armas, bem como o esfor&amp;ccedil;o constante de encontrar os pontos de coincid&amp;ecirc;ncia que permitam conciliar as diferen&amp;ccedil;as, mantendo as identidades.&lt;br /&gt;4. H&amp;aacute; um paradoxo entre a tend&amp;ecirc;ncia para a globaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o e a tend&amp;ecirc;ncia para a fragmenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o (macrossociedade e microssociedade; uniformidade geral e as etnias e as culturas particulares; mercado, religi&amp;atilde;o e poder militar sobressaem como as formas dominantes).&lt;br /&gt;5. O Estado foi, em sua origem, ao menos em teoria, a express&amp;atilde;o da sociedade jur&amp;iacute;dica e politicamente organizada; atualmente, &amp;eacute; o bra&amp;ccedil;o armado e coativo do mercado.&lt;br /&gt;6. Surge uma vontade de reden&amp;ccedil;&amp;atilde;o da democracia, acompanhada da vontade de recupera&amp;ccedil;&amp;atilde;o do Estado (no meio da disjuntiva poder local versus poder global, mercado mundial versus munic&amp;iacute;pio).&lt;br /&gt;7. A realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da democracia em cada na&amp;ccedil;&amp;atilde;o suporta a exist&amp;ecirc;ncia da democracia nas rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es internacionais (mesmo sistema de princ&amp;iacute;pios e normas jur&amp;iacute;dicas no nacional e no internacional).&lt;br /&gt;Em especial, interessa-me destacar a Tese 6, pelos seus v&amp;iacute;nculos com duas categorias te&amp;oacute;ricas que venho formulando: Estado Mundial e participa&amp;ccedil;&amp;atilde;o outogarda.&lt;br /&gt;A primeira delas, Estado Mundial, eu utilizei pela primeira vez num debate na Universidade Federal do Par&amp;aacute;, em 1993, mas s&amp;oacute; em 1994 comecei a coloc&amp;aacute;-la por escrito, para clarear posicionamentos no Movimento Nacional de Direitos Humanos, do qual eu era conselheiro. Em 1996, apresentei trabalho numa disciplina do Mestrado em Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Universidade Federal de Santa Maria, o qual foi posteriormente publicado pela Universidade Federal do Par&amp;aacute; (CUNHA, 199.&lt;br /&gt;Naquele texto, eu parti das categorias de ponte dos tempos e cotidiano, para debater as rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es poss&amp;iacute;veis na seq&amp;uuml;&amp;ecirc;ncia foi-&amp;eacute;-ser&amp;aacute;. Nem cronologia linear nem teleologia: a vida acontece segundo ciclos em que se alternam perman&amp;ecirc;ncias e mudan&amp;ccedil;as. O tempo &amp;eacute; categoria te&amp;oacute;rica, tanto quanto o espa&amp;ccedil;o. S&amp;atilde;o cria&amp;ccedil;&amp;otilde;es humanas e, para quem pensa transforma&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais, &amp;eacute; importante levar isto em considera&amp;ccedil;&amp;otilde;es:&lt;br /&gt;O humano, sujeito observador-participante do fen&amp;ocirc;meno, pode sequenciar os acontecimentos e, no limite do seu alcance como indiv&amp;iacute;duo e como esp&amp;eacute;cie, pode remeter-se aos momentos anteriores e pensar altera&amp;ccedil;&amp;otilde;es futuras nesta realidade. A subjetividade cria um &amp;#8220;n&amp;atilde;o-&lt;br /&gt;Humberto Cunha | 05.03.05 - 3:16 pm | # &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;-&lt;br /&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/05/participao-outorgada-e-democracia.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111586971982960036'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111586971982960036'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-111439146965725382</id><published>2005-04-24T22:11:00.000-03:00</published><updated>2005-04-24T22:20:41.776-03:00</updated><title type='text'>O 18 Brumário de Luís Bonaparte</title><content type='html'>&lt;b&gt;&lt;div align="center"&gt;UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL&lt;br /&gt;FACULDADE DE EDUCAC&amp;Atilde;O&lt;br /&gt;Programa de P&amp;oacute;s-Gradua&amp;ccedil;&amp;atilde;o em Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semin&amp;aacute;rio te&amp;oacute;rico-pr&amp;aacute;tico 2004/2&lt;br /&gt;Bases te&amp;oacute;rico-metodol&amp;oacute;gicas do desenvolvimento de um projeto de pesquisa II &lt;br /&gt;Professor Dr. Augusto Nibaldo Silva Trivi&amp;ntilde;os&lt;br /&gt;Aluno: Paulo Ricardo Santos Nunes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;b&gt;O 18 BRUM&amp;Aacute;RIO DE LUIS BONAPARTE&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ao estudar esta obra me percebo trabalhando encima e por cima de nada novo, pois as similitudes da obra com os movimentos e tempos no espa&amp;ccedil;o atual nos confunde aos personagens hist&amp;oacute;ricos passados como os cen&amp;aacute;rios e personagens da conturbada ordem social contempor&amp;acirc;nea, portanto fazer este resumo me remete a reviver a hist&amp;oacute;ria do momento atrav&amp;eacute;s das lutas do passado.&lt;br /&gt;Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande import&amp;acirc;ncia na hist&amp;oacute;ria do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como trag&amp;eacute;dia, a segunda como farsa. Os homens fazem sua pr&amp;oacute;pria hist&amp;oacute;ria, mas n&amp;atilde;o a fazem como querem; n&amp;atilde;o a fazem sob circunst&amp;acirc;ncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de todas as gera&amp;ccedil;&amp;otilde;es mortas oprime como um pesadelo o c&amp;eacute;rebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e &amp;agrave;s coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses per&amp;iacute;odos de crise revolucion&amp;aacute;ria, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os esp&amp;iacute;ritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada.&lt;br /&gt;	A ressurrei&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos mortos nessas revolu&amp;ccedil;&amp;otilde;es tinha, portanto, a finalidade de glorificar as novas lutas e n&amp;atilde;o a de parodiar as passadas; de engrandecer na imagina&amp;ccedil;&amp;atilde;o a tarefa a cumprir, e n&amp;atilde;o de fugir de sua solu&amp;ccedil;&amp;atilde;o na realidade; de encontrar novamente o esp&amp;iacute;rito da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o e n&amp;atilde;o de fazer o seu espectro caminhar outra vez.&lt;br /&gt;	De 1848 a 1851 o fantasma da velha revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o anda em todos os cantos: desde Marrast, o r&amp;eacute;publicain en gants jaunes, que se disfar&amp;ccedil;a no velho Bailly, at&amp;eacute; o aventureiro de aspecto vulgar e repulsivo que se oculta sob a f&amp;eacute;rrea m&amp;aacute;scara mortu&amp;aacute;ria de Napole&amp;atilde;o. Todo um povo que pensava ter comunicado a si pr&amp;oacute;prio um forte impulso para diante, por meio da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o, se encontra de repente trasladado a uma &amp;eacute;poca morta, e para que n&amp;atilde;o possa haver sombra de d&amp;uacute;vida quanto ao retrocesso, surgem novamente as velhas datas, o velho calend&amp;aacute;rio, os velhos nomes, os velhos &amp;eacute;ditos que j&amp;aacute; se haviam tornado assunto de erudi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de antiqu&amp;aacute;rio, e os velhos esbirros da lei que h&amp;aacute; muito pareciam defeitos na poeira dos tempos.&lt;br /&gt;	A na&amp;ccedil;&amp;atilde;o se sente como aquele ingl&amp;ecirc;s louco de Bedlam vivendo na &amp;eacute;poca dos antigos fara&amp;oacute;s: "E me impuseram tudo isto" - suspira o louco - "a mim, um cidad&amp;atilde;o ingl&amp;ecirc;s livre, para que produza ouro para os fara&amp;oacute;s!" "Para que pague as d&amp;iacute;vidas da fam&amp;iacute;lia Bonaparte" - suspira a na&amp;ccedil;&amp;atilde;o francesa. O ingl&amp;ecirc;s, enquanto esteve em seu ju&amp;iacute;zo perfeito, n&amp;atilde;o podia livrar-se da id&amp;eacute;ia fixa de conseguir ouro. Os franceses, enquanto estiveram empenhados em uma revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o podiam livrar-se da mem&amp;oacute;ria de Napole&amp;atilde;o, como provaram as elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es de 10 de dezembro.&lt;br /&gt;	A Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro foi um ataque de surpresa, apanhando desprevenida a velha sociedade, e o povo proclamou esse golpe inesperado como um feito de import&amp;acirc;ncia mundial que introduzia uma nova &amp;eacute;poca. A 2 de dezembro, a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro &amp;eacute; escamoteada pelo truque de um trapaceiro, e o que parece ter sido derrubado j&amp;aacute; n&amp;atilde;o &amp;eacute; a monarquia e sim as concess&amp;otilde;es liberais que lhe foram arrancadas atrav&amp;eacute;s de s&amp;eacute;culos de luta. Longe de ser a pr&amp;oacute;pria sociedade que conquista para si mesma um novo conte&amp;uacute;do, &amp;eacute; o Estado que parece voltar &amp;agrave; sua forma mais antiga, ao dom&amp;iacute;nio desavergonhadamente simples do sabre e da sotaina.&lt;br /&gt;	O intervalo de tempo, por&amp;eacute;m, n&amp;atilde;o passou sem proveito. Entre os anos de 1848 e 1851 a sociedade francesa supriu - e por um m&amp;eacute;todo abreviado, por ser revolucion&amp;aacute;rio - estudos e conhecimentos que em um desenvolvimento regular, de li&amp;ccedil;&amp;atilde;o em li&amp;ccedil;&amp;atilde;o, por assim dizer, teriam tido que preceder a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro se esta devesse constituir mais do que um estremecimento da superf&amp;iacute;cie. A sociedade parece ter agora retrocedido para antes do seu ponto de partida; na realidade, somente hoje ela cria o seu ponto de partida revolucion&amp;aacute;rio, isto &amp;eacute;, a situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, as rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es, as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es sem as quais a revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o moderna n&amp;atilde;o adquire um car&amp;aacute;ter s&amp;eacute;rio.&lt;br /&gt;	A Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a Assembl&amp;eacute;ia Nacional, os partidos din&amp;aacute;sticos, os republicanos azuis e vermelhos, os her&amp;oacute;is da &amp;Aacute;frica, o trov&amp;atilde;o vibrado da tribuna, a cortina de rel&amp;acirc;mpagos da imprensa di&amp;aacute;ria, toda a literatura, os pol&amp;iacute;ticos de renome e os intelectuais de prest&amp;iacute;gio, o c&amp;oacute;digo civil e o c&amp;oacute;digo penal, a liberte, &amp;eacute;galit&amp;eacute;, fraternit&amp;eacute; e o segundo domingo de maio de 1852 - tudo desaparecera como uma fantasmagoria diante da magia de um homem no qual nem seus inimigos reconhecem um m&amp;aacute;gico. O sufr&amp;aacute;gio universal parece ter sobrevivido apenas por um momento, a fim de fazer, de pr&amp;oacute;prio punho, o seu &amp;uacute;ltimo testamento perante os olhos do mundo inteiro e declarar em nome do pr&amp;oacute;prio povo: Tudo o que existe merece perecer.&lt;br /&gt;	O primeiro per&amp;iacute;odo, de 24 de fevereiro - data da queda de Lu&amp;iacute;s Filipe - at&amp;eacute; 4 de maio de 1848 - data da instala&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Assembl&amp;eacute;ia Constituinte ou seja, o per&amp;iacute;odo de fevereiro propriamente dito, pode ser chamado o pr&amp;oacute;logo da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Seu car&amp;aacute;ter foi oficialmente expressado pelo fato de que o governo por ele improvisado apresentou-se como um governo provis&amp;oacute;rio e, assim como o governo, tudo que era proposto, tentado ou enunciado durante esse per&amp;iacute;odo era proclamado apenas provis&amp;oacute;rio. Nada e ningu&amp;eacute;m se atrevia a reclamar para si o direito de exist&amp;ecirc;ncia ou de a&amp;ccedil;&amp;atilde;o real. Todos os elementos que haviam preparado ou feito a revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o - a oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o din&amp;aacute;stica, a burguesia republicana, a pequena burguesia democr&amp;aacute;tico-republicana e os trabalhadores social-democratas - encontram provisoriamente seu lugar no governo de fevereiro.&lt;br /&gt;	N&amp;atilde;o podia ser de outra maneira. O objetivo inicial das jornadas de fevereiro era uma reforma eleitoral, pela qual seria alargado o c&amp;iacute;rculo dos elementos politicamente privilegiados da pr&amp;oacute;pria classe possuidora e derrubado o dom&amp;iacute;nio exclusivo da aristocracia financeira. Quando estalou o conflito de verdade, por&amp;eacute;m, quando o povo levantou as barricadas, a Guarda Nacional manteve uma atitude passiva, o ex&amp;eacute;rcito n&amp;atilde;o ofereceu nenhuma resist&amp;ecirc;ncia s&amp;eacute;ria e a monarquia fugiu, a rep&amp;uacute;blica pareceu ser a seq&amp;uuml;&amp;ecirc;ncia l&amp;oacute;gica. Cada partido a interpretava a seu modo. Tendo-a conquistado de armas na m&amp;atilde;o, o proletariado imprimiu-lhe sua chancela e proclamou-a uma rep&amp;uacute;blica social. Indicava-se, assim, o conte&amp;uacute;do geral da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o moderna, conte&amp;uacute;do esse que estava na mais singular contradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o com tudo que, com o material dispon&amp;iacute;vel, com o grau de educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o atingido pelas massas, dadas as circunst&amp;acirc;ncias e condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es existentes, podia ser imediatamente realizado na pr&amp;aacute;tica.&lt;br /&gt;	Enquanto o proletariado de Paris deleitava-se ainda ante a vis&amp;atilde;o das amplas perspectivas que se abriam diante de si e se entregava a discuss&amp;otilde;es s&amp;eacute;rias sobre os problemas sociais, as velhas for&amp;ccedil;as da sociedade se haviam agrupado, reunido, concertado e encontrado o apoio inesperado da massa da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o: os camponeses e a pequena burguesia, que se precipitaram de golpe sobre a cena pol&amp;iacute;tica depois que as barreiras da monarquia de julho ca&amp;iacute;ram por terra.&lt;br /&gt;	O segundo per&amp;iacute;odo, de 4 de maio de 1848 at&amp;eacute; fins de maio de 1849, &amp;eacute; o per&amp;iacute;odo da constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, da funda&amp;ccedil;&amp;atilde;o da rep&amp;uacute;blica burguesa. Imediatamente ap&amp;oacute;s as jornadas de fevereiro n&amp;atilde;o s&amp;oacute; viu-se a oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o din&amp;aacute;stica surpreendida pelos republicanos, e estes pelos socialistas, como toda a Fran&amp;ccedil;a foi surpreendida por Paris. A Assembl&amp;eacute;ia Nacional, que se reunira a 4 de maio de 1848, sendo o resultado de elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es nacionais, representava a na&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Era um protesto vivo contra as presun&amp;ccedil;osas pretens&amp;otilde;es das jornadas de fevereiro e devia reduzir os resultados da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; escala burguesa. O proletariado de Paris, que compreendeu imediatamente o car&amp;aacute;ter dessa Assembl&amp;eacute;ia Nacional, tentou em v&amp;atilde;o, a 15 de maio, poucos dias depois de sua instala&amp;ccedil;&amp;atilde;o, anular pela for&amp;ccedil;a a sua exist&amp;ecirc;ncia, dissolv&amp;ecirc;-la, desintegrar novamente em suas partes componentes, o organismo por meio do qual o amea&amp;ccedil;ava o esp&amp;iacute;rito reacion&amp;aacute;rio da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Como se sabe, o 15 de Maio n&amp;atilde;o teve outro resultado sen&amp;atilde;o o de afastar Bianqui e seus camaradas, isto &amp;eacute;, os verdadeiros dirigentes do partido prolet&amp;aacute;rio da cena p&amp;uacute;blica durante todo o ciclo que estamos considerando. &amp;Agrave; monarquia burguesa de Lu&amp;iacute;s Filipe s&amp;oacute; pode suceder uma rep&amp;uacute;blica burguesa, ou seja, enquanto um setor limitado da burguesia governou em nome do rei, toda a burguesia governar&amp;aacute; agora em nome do povo.&lt;br /&gt;	As reivindica&amp;ccedil;&amp;otilde;es do proletariado de Paris s&amp;atilde;o devaneios ut&amp;oacute;picos, a que se deve por um paradeiro. A essa declara&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Assembl&amp;eacute;ia Nacional Constituinte o proletariado de Paris respondeu com a Insurrei&amp;ccedil;&amp;atilde;o de junho, o acontecimento de maior envergadura na hist&amp;oacute;ria das guerras civis da Europa. A rep&amp;uacute;blica burguesa triunfou. A seu lado alinhavam-se a aristocracia financeira, a burguesia industrial, a classe m&amp;eacute;dia, a pequena burguesia, o ex&amp;eacute;rcito, o l&amp;uacute;mpen proletariado organizado em Guarda M&amp;oacute;vel, os intelectuais de prest&amp;iacute;gio, o clero e a popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o rural. Do lado do proletariado de Paris n&amp;atilde;o havia sen&amp;atilde;o ele pr&amp;oacute;prio. Mais de tr&amp;ecirc;s mil insurretos foram massacrados depois da vit&amp;oacute;ria e quinze mil foram deportados sem julgamento. Com essa derrota o proletariado passa para o fundo da cena revolucion&amp;aacute;ria. Tenta readquirir o terreno perdido em todas as oportunidades que se apresentam, sempre que o movimento parece ganhar novo impulso, mas com uma energia cada vez menor e com resultados sempre menores. Sempre que uma das camadas sociais superiores entra em efervesc&amp;ecirc;ncia revolucion&amp;aacute;ria o proletariado alia-se a ela e, consequentemente, participa de todas as derrotas sofridas pelos diversos partidos, umas depois das outras. Mas esses golpes sucessivos perdem sua intensidade &amp;agrave; medida que aumenta a superf&amp;iacute;cie da sociedade sobre a qual s&amp;atilde;o distribu&amp;iacute;dos. Os dirigentes mais importantes do proletariado na Assembl&amp;eacute;ia e na imprensa caem sucessivamente, v&amp;iacute;tima dos tribunais, e figuras cada vez mais equ&amp;iacute;vocas assumem a sua dire&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Lan&amp;ccedil;a-se em parte a experi&amp;ecirc;ncias doutrin&amp;aacute;rias, bancos de interc&amp;acirc;mbio e associa&amp;ccedil;&amp;otilde;es oper&amp;aacute;rias, ou seja, a um movimento no qual renuncia a revolucionar o velho mundo com ajuda dos grandes recursos que lhe s&amp;atilde;o pr&amp;oacute;prios, e tenta, pelo contr&amp;aacute;rio, alcan&amp;ccedil;ar sua reden&amp;ccedil;&amp;atilde;o independentemente da sociedade, de maneira privada, dentro de suas condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es limitadas de exist&amp;ecirc;ncia, e, portanto, tem por for&amp;ccedil;a que fracassar. Parece incapaz de descobrir novamente em si a grandeza revolucion&amp;aacute;ria ou de retirar novas energias no v&amp;iacute;nculos que criou, at&amp;eacute; que todas as classes contra as quais lutou em junho est&amp;atilde;o, elas pr&amp;oacute;prias, prostradas ao seu lado. Mas pelo menos sucumbe com as honras de uma grande luta hist&amp;oacute;rico-universal; n&amp;atilde;o s&amp;oacute; a Fran&amp;ccedil;a mas toda a Europa treme diante do terremoto de junho, ao passo que as sucessivas derrotas das classes mais altas custam t&amp;atilde;o pouco que s&amp;oacute; o exagero descarado do partido vitorioso pode faz&amp;ecirc;-las passar por acontecimentos, e s&amp;atilde;o tanto mais ignominiosas quanto mais longe do proletariado est&amp;aacute; o partido derrotado.&lt;br /&gt;	A derrota dos insurretos de junho preparara e aplainara, indubitavelmente, o terreno sobre a qual a rep&amp;uacute;blica burguesa podia ser fundada e edificada, mas demonstrara ao mesmo tempo que na Europa as quest&amp;otilde;es em foco n&amp;atilde;o eram apenas de "rep&amp;uacute;blica ou monarquia". Revelara que aqui rep&amp;uacute;blica burguesa significava o despotismo ilimitado de uma classe sobre as outras. Provara que em pa&amp;iacute;ses de velha civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, com uma estrutura de classes desenvolvida, com condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es modernas de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o, e com uma consci&amp;ecirc;ncia intelectual na qual todas as id&amp;eacute;ias tradicionais se dissolveram pelo trabalho de s&amp;eacute;culos - a rep&amp;uacute;blica significava geralmente apenas a forma pol&amp;iacute;tica da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o da sociedade burguesa e n&amp;atilde;o sua forma conservadora de vida, como por exemplo nos Estados Unidos da Am&amp;eacute;rica, onde, embora j&amp;aacute; existam classes, estas ainda n&amp;atilde;o se fixaram, trocando ou permutando continuamente os elementos que as constituem em um fluxo cont&amp;iacute;nuo, onde os modernos meios de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o, em vez de coincidir com uma superpopula&amp;ccedil;&amp;atilde;o cr&amp;ocirc;nica, compensam, pelo contr&amp;aacute;rio, a relativa escassez de cabe&amp;ccedil;as e de bra&amp;ccedil;os, e onde, finalmente, o febril movimento juvenil da produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o material, que tem um novo mundo para conquistar, n&amp;atilde;o deixou nem tempo nem oportunidade de abolir a velha ordem de coisas.&lt;br /&gt;	A hist&amp;oacute;ria da Assembl&amp;eacute;ia Nacional Constituinte a partir das jornadas de junho &amp;eacute; a hist&amp;oacute;ria do dom&amp;iacute;nio e da desagrega&amp;ccedil;&amp;atilde;o da fra&amp;ccedil;&amp;atilde;o republicana da burguesia, da fra&amp;ccedil;&amp;atilde;o conhecida pelos nomes de republicanos tricolores, republicanos puros, republicanos pol&amp;iacute;ticos, republicanos formalistas etc.&lt;br /&gt;	A fra&amp;ccedil;&amp;atilde;o republicano-burguesa, que h&amp;aacute; muito se considerava a herdeira leg&amp;iacute;tima da monarquia de julho, viu assim excedidas suas mais caras esperan&amp;ccedil;as; alcan&amp;ccedil;ou o poder, n&amp;atilde;o, por&amp;eacute;m, como sonhara, sob o governo de Lu&amp;iacute;s Filipe, atrav&amp;eacute;s de uma revolta liberal da burguesia contra o trono, e sim atrav&amp;eacute;s de um levante do proletariado contra o capital, levante esse que foi sufocado a tiros de canh&amp;atilde;o. O que imaginara como o acontecimento mais contra-revolucion&amp;aacute;rio. O fruto caiu-lhe nas m&amp;atilde;os, mas ca&amp;iacute;do da &amp;aacute;rvore do conhecimento e n&amp;atilde;o da &amp;aacute;rvore da vida.&lt;br /&gt;	A nova Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o era, no fundo, apenas a reedi&amp;ccedil;&amp;atilde;o, em forma republicana, da Carta constitucional de 1830. O limitado cadastro eleitoral da monarquia de julho, que exclu&amp;iacute;a do dom&amp;iacute;nio pol&amp;iacute;tico mesmo uma grande parte da burguesia, era incompat&amp;iacute;vel com a exist&amp;ecirc;ncia da rep&amp;uacute;blica burguesa. Em vez dessas restri&amp;ccedil;&amp;otilde;es, a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro proclamara imediatamente o sufr&amp;aacute;gio universal e direto. Os republicanos burgueses n&amp;atilde;o puderam desfazer esse ato. Tiveram que contentar-se com acrescentar uma cl&amp;aacute;usula instituindo a obrigatoriedade de pelo menos seis meses de resid&amp;ecirc;ncia no distrito eleitoral. A velha organiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o, do sistema municipal, do sistema jur&amp;iacute;dico, militar etc., permaneceu intacta ou, onde foi modificada pela Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a modifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o atingia o r&amp;oacute;tulo, n&amp;atilde;o o conte&amp;uacute;do, o nome, n&amp;atilde;o a coisa em si.&lt;br /&gt;	"Os cidad&amp;atilde;os gozam do direito de associa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, de reunir-se pacificamente e desarmados, de formular peti&amp;ccedil;&amp;otilde;es e de expressar suas opini&amp;otilde;es, quer pela imprensa ou por qualquer outro modo. O gozo desses direitos n&amp;atilde;o sofre qualquer restri&amp;ccedil;&amp;atilde;o, salvo as impostas pelos direitos iguais dos outros e pela seguran&amp;ccedil;a p&amp;uacute;blica. (Cap&amp;iacute;tulo II, &amp;sect; 8, da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o Francesa.) "O ensino &amp;eacute; livre. A liberdade de ensino ser&amp;aacute; exercida dentro das condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es estabelecidas pela lei e sob o supremo controle do Estado." (Ibidem, &amp;sect; 9.) "O domic&amp;iacute;lio de todos os cidad&amp;atilde;os &amp;eacute; inviol&amp;aacute;vel, exceto nas condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es prescritas na lei." (Cap&amp;iacute;tulo II, &amp;sect; 3.) Etc. etc. A Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, por conseguinte, refere-se constantemente a futuras leis org&amp;acirc;nicas que dever&amp;atilde;o p&amp;ocirc;r em pr&amp;aacute;tica aquelas restri&amp;ccedil;&amp;otilde;es e regular o gozo dessas liberdades irrestritas de maneira que n&amp;atilde;o colidam nem entre si nem com a seguran&amp;ccedil;a p&amp;uacute;blica. E mais tarde essas leis org&amp;acirc;nicas foram promulgadas pelos amigos da ordem e todas aquelas liberdades foram regulamentadas de tal maneira que a burguesia no gozo delas, se encontra livre de interfer&amp;ecirc;ncia por parte dos direitos iguais das outras classes. Onde s&amp;atilde;o vedadas inteiramente essas liberdades "aos outros" ou permitido o seu gozo sob condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es que n&amp;atilde;o passam de armadilhas policiais, isto &amp;eacute; feito sempre apenas no interesse da "seguran&amp;ccedil;a p&amp;uacute;blica", isto &amp;eacute;, da seguran&amp;ccedil;a da burguesia, como prescreve a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Como resultado, ambos os lados invocam devidamente, e com pleno direito, a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o: os amigos da ordem, que ab-rogam todas essas liberdades, e os democratas, que as reivindicam. Pois cada par&amp;aacute;grafo da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o encerra sua pr&amp;oacute;pria ant&amp;iacute;tese, sua pr&amp;oacute;pria C&amp;acirc;mara Alta e C&amp;acirc;mara Baixa, isto &amp;eacute;, liberdade na frase geral, ab-roga&amp;ccedil;&amp;atilde;o da liberdade na nota &amp;agrave; margem. Assim, desde que o nome da liberdade seja respeitado c impedida apenas a sua realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o efetiva - de acordo com a lei, naturalmente - a exist&amp;ecirc;ncia constitucional da liberdade permanece intacta, inviolada, por mais mortais que sejam os golpes assestados contra sua exist&amp;ecirc;ncia na vida real.&lt;br /&gt;	Esta Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, tornada inviol&amp;aacute;vel de maneira t&amp;atilde;o engenhosa, era, contudo, como Aquiles, vulner&amp;aacute;vel em uni ponto; n&amp;atilde;o no calcanhar, mas na cabe&amp;ccedil;a, ou por outra, nas duas cabe&amp;ccedil;as em que se constituiu: de um lado, a Assembl&amp;eacute;ia Legislativa, de outro, o Presidente. Ela mesma provoca, portanto, a sua violenta destrui&amp;ccedil;&amp;atilde;o. N&amp;atilde;o s&amp;oacute; consagra a divis&amp;atilde;o dos poderes, tal como a Carta de 1830, como a amplia a ponto de transform&amp;aacute;-la em uma contradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o insustent&amp;aacute;vel.&lt;br /&gt;	Finalmente a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, em um par&amp;aacute;grafo melodram&amp;aacute;tico, se confia "&amp;agrave; vigil&amp;acirc;ncia e ao patriotismo de todo o povo franc&amp;ecirc;s e de cada cidad&amp;atilde;o franc&amp;ecirc;s", depois de ter anteriormente confiado os "vigilantes" e "patriotas", em um outro par&amp;aacute;grafo, aos cuidados mais ternos e dedicados da Alta Corte de justi&amp;ccedil;a, a Haute Court, expressamente criada para isso.&lt;br /&gt;Esta era a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o de 1848, que a 2 de dezembro de 1851 n&amp;atilde;o foi derrubada por uma cabe&amp;ccedil;a, mas caiu por terra ao contato de um simples chap&amp;eacute;u; esse chap&amp;eacute;u, evidentemente, era um tric&amp;oacute;rnio napole&amp;ocirc;nico&lt;br /&gt;	Vimos que o minist&amp;eacute;rio nomeado por Bonaparte, no dia de sua ascens&amp;atilde;o, 20 de dezembro de 1848, era um minist&amp;eacute;rio do partido da ordem, da coliga&amp;ccedil;&amp;atilde;o legimitista e orleanista. Esse minist&amp;eacute;rio Barrot-Falloux sobrevivera &amp;agrave; Assembl&amp;eacute;ia Constituinte republicana, cujo termo de vida cortara de um modo mais ou menos violento, e encontrava-se ainda ao leme. Changarnier, o general dos monarquistas coligados, continuou a reunir em sua pessoa o comando geral da Primeira Divis&amp;atilde;o do Ex&amp;eacute;rcito e da Guarda Nacional de Paris. Finalmente, as elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es gerais haviam assegurado ao partido da ordem uma ampla maioria na Assembl&amp;eacute;ia Nacional. Os deputados e pares de Lu&amp;iacute;s Filipe defrontaram-se aqui com uma hoste sagrada de legitimistas, para os quais muitos dos votos da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o haviam-se transformado em cart&amp;otilde;es de ingresso para o teatro pol&amp;iacute;tico. A representa&amp;ccedil;&amp;atilde;o bonapartista era por demais escassa para poder formar um partido parlamentar independente. O partido da ordem encontrava-se, assim, de posse do poder governamental, do ex&amp;eacute;rcito e do Poder Legislativo, em suma, de todo o poder estatal; fora moralmente fortalecido pelas elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es gerais, que fizeram aparecer o seu dom&amp;iacute;nio como sendo a express&amp;atilde;o da vontade do povo, e pelo simult&amp;acirc;neo triunfo da contra-revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o em todo o continente europeu.&lt;br /&gt;	O grande partido da oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o, entretanto, era constitu&amp;iacute;do pela Montanha, o partido social-deomocrata adotara no Parlamento este nome de batismo. Comandava mais de 200 dos 750 votos da Assembl&amp;eacute;ia Nacional e era, por conseguinte, pelo menos t&amp;atilde;o poderoso quanto qualquer das tr&amp;ecirc;s fra&amp;ccedil;&amp;otilde;es partido da ordem tomadas isoladamente. Sua inferioridade num&amp;eacute;rica em compara&amp;ccedil;&amp;atilde;o com toda a coliga&amp;ccedil;&amp;atilde;o monarquista parecia estar compensada por circunst&amp;acirc;ncias especiais. N&amp;atilde;o s&amp;oacute; as elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es departamentais demonstraram que ele havia conquistado um n&amp;uacute;mero consider&amp;aacute;vel de partid&amp;aacute;rios entre a popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o rural como contava em suas fileiras com quase todos os deputados eleitos por Paris; o ex&amp;eacute;rcito fizera profiss&amp;atilde;o de f&amp;eacute; democr&amp;aacute;tica elegendo tr&amp;ecirc;s suboficiais, e o l&amp;iacute;der da Montanha, Ledru-Rollin, em contraste com todos os representantes do partido da ordem, fora elevado &amp;agrave; nobreza parlamentar por cinco departamentos, que haviam concentrado nele a sua vota&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Em vista dos inevit&amp;aacute;veis choques entre os monarquistas e de todo o partido da ordem com Bonaparte, a 28 de maio de 1849 a Montanha parecia ter diante de si todos os elementos de &amp;ecirc;xito. Quinze dias depois perdia tudo, inclusive a honra.&lt;br /&gt;	Aos olhos dos democratas, o per&amp;iacute;odo da Assembl&amp;eacute;ia Legislativa Nacional caracterizava-se pelo mesmo problema vivido durante a Assembl&amp;eacute;ia Constituinte: a simples luta entre republicanos e monarquistas. E, certamente, &amp;agrave; primeira vista, o partido da ordem revela um emaranhado de diferentes fac&amp;ccedil;&amp;otilde;es monarquistas, que n&amp;atilde;o s&amp;oacute; intrigam uma contra a outra, cada qual tentando elevar ao trono o seu pr&amp;oacute;prio pretendente e excluir o da fac&amp;ccedil;&amp;atilde;o contr&amp;aacute;ria, como se unem todas no &amp;oacute;dio comum e nas investidas comuns contra a "rep&amp;uacute;blica". Em contraste com essa conspira&amp;ccedil;&amp;atilde;o monarquista, a Montanha, por seu lado, aparece como representante da "rep&amp;uacute;blica". O partido da ordem parece estar perpetuamente empenhado em uma "rea&amp;ccedil;&amp;atilde;o", dirigida contra a imprensa, o direito de associa&amp;ccedil;&amp;otilde;es e coisas semelhantes, uma rea&amp;ccedil;&amp;atilde;o nem mais nem menos como a que sucedeu na Pr&amp;uacute;ssia, e que, com na Pr&amp;uacute;ssia, &amp;eacute; exercida na forma de brutal interfer&amp;ecirc;ncia policial por parte da burocracia, da gendarmaria e dos tribunais. A Montanha, por sua vez, est&amp;aacute; igualmente ocupada em aparar esses golpes, defendendo assim os "eternos direitos do homem", como todos os partidos supostamente populares v&amp;ecirc;m fazendo, mais ou menos, h&amp;aacute; um s&amp;eacute;culo e meio. Quando, por&amp;eacute;m, se examina mais de perto &amp;agrave; situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e os partidos, desaparece essa apar&amp;ecirc;ncia superficial que dissimula a luta de classes e a fisionomia peculiar da &amp;eacute;poca.&lt;br /&gt;	Trazer da hist&amp;oacute;ria fragmentos que a desnudem nos convoca a sermos mais cautelosos e menos impressionistas, portanto o que vimos at&amp;eacute; o momento &amp;eacute; um recordar hist&amp;oacute;rico/presente que nos confronta com nossas forma&amp;ccedil;&amp;otilde;es hist&amp;oacute;ricas pol&amp;iacute;tica e implica-nos a refletir sobre a hist&amp;oacute;ria do indiv&amp;iacute;duo e do coletivo gerando contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es e suspirando conflitos de uma tend&amp;ecirc;ncia marcadamente prescrita pela conspira&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;	A monarquia legitimista foi apenas a express&amp;atilde;o pol&amp;iacute;tica do dom&amp;iacute;nio heredit&amp;aacute;rio dos senhores de terra, como a monarquia de julho fora apenas a express&amp;atilde;o pol&amp;iacute;tica do usurpado dom&amp;iacute;nio dos burgueses arrivistas. O que separava as duas fac&amp;ccedil;&amp;otilde;es, portanto, n&amp;atilde;o era nenhuma quest&amp;atilde;o de princ&amp;iacute;pios, eram suas condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es materiais de exist&amp;ecirc;ncia, duas diferentes esp&amp;eacute;cies de propriedade, era o velho contraste entre a cidade e o campo, a rivalidade entre o capital e o latif&amp;uacute;ndio. Que havia, ao mesmo tempo, velhas recorda&amp;ccedil;&amp;otilde;es, inimizades pessoais, temores e esperan&amp;ccedil;as, preconceitos e ilus&amp;otilde;es, simpatias e antipatias, convic&amp;ccedil;&amp;otilde;es, quest&amp;otilde;es de f&amp;eacute; e de princ&amp;iacute;pio que as mantinham ligadas a uma ou a outra casa real - quem o nega? Sobre as diferentes formas de propriedade, sobre as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais, maneiras de pensar e concep&amp;ccedil;&amp;otilde;es de vida distintas e peculiarmente constitu&amp;iacute;das.&lt;br /&gt;	Embora orleanistas e legitimistas, embora cada fac&amp;ccedil;&amp;atilde;o se esfor&amp;ccedil;asse por convencer-se e convencer os outros de que o que as separava era sua lealdade &amp;agrave;s duas casa reais, os atos provaram mais tarde que o que impedia a uni&amp;atilde;o de ambas era mais a diverg&amp;ecirc;ncia de seus interesses. E assim como na vida privada se diferencia o que um homem pensa e diz de si mesmo do que ele realmente &amp;eacute; e faz, nas lutas hist&amp;oacute;ricas deve-se distinguir mais ainda as frases e as fantasias dos partidos de sua forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o real e de seus interesses reais, o conceito que fazem de si do que s&amp;atilde;o na realidade. Orleanistas e legitimistas encontram-se lado a lado na rep&amp;uacute;blica, com pretens&amp;otilde;es id&amp;ecirc;nticas. Se cada lado desejava levar a cabo a restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o de sua pr&amp;oacute;pria casa real, contra a outra, isto significava apenas que cada um dos dois grandes interesses em que se divide a burguesia - o latif&amp;uacute;ndio e o capital - procurava restaurar sua pr&amp;oacute;pria supremacia e suplantar o outro.&lt;br /&gt;	Contra a burguesia coligada fora formada uma coaliz&amp;atilde;o de pequenos burgueses e oper&amp;aacute;rios, o chamado partido social democrata. A pequena burguesia percebeu que tinha sido mal recompensada depois das jornada e junho de 1848. A Montanha, posta &amp;agrave; margem durante a ditadura dos republicanos burgueses, reconquistara na segunda metade do per&amp;iacute;odo da Assembl&amp;eacute;ia Constituinte sua popularidade perdida com a luta contra Bonaparte e os ministros monarquistas. Conclu&amp;iacute;ra uma alian&amp;ccedil;a com os dirigentes socialistas. Em fevereiro de 1849 a reconcilia&amp;ccedil;&amp;atilde;o foi comemorada com banquetes. Quebrou-se o aspecto revolucion&amp;aacute;rio das reivindica&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais do proletariado e deu-se a elas uma fei&amp;ccedil;&amp;atilde;o democr&amp;aacute;tica; despiu-se a forma puramente pol&amp;iacute;tica das reivindica&amp;ccedil;&amp;otilde;es democr&amp;aacute;ticas da pequena burguesia e ressaltou-se seu aspecto socialista. Assim surgiu a social-democracia.&lt;br /&gt;	O car&amp;aacute;ter peculiar da social-democracia resume-se no fato de exigir institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es democr&amp;aacute;tico-republicanas como meio n&amp;atilde;o de acabar com dois extremos, capital e trabalho assalariado, mas de enfraquecer seu antagonismo e transform&amp;aacute;-lo em harmonia. Por mais diferentes que sejam as medidas propostas para alcan&amp;ccedil;ar esse objetivo, por mais que sejam enfeitadas com concep&amp;ccedil;&amp;otilde;es mais ou menos revolucion&amp;aacute;rias, o conte&amp;uacute;do permanece o mesmo. Esse conte&amp;uacute;do &amp;eacute; a transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o da sociedade por um processo democr&amp;aacute;tico, por&amp;eacute;m uma transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o dentro dos limites da pequena burguesia. S&amp;oacute; que n&amp;atilde;o se deve formar a concep&amp;ccedil;&amp;atilde;o estreita de que a pequena burguesia, por princ&amp;iacute;pio, visa a impor um interesse de classe ego&amp;iacute;sta. Ela acredita, pelo contr&amp;aacute;rio, que as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es especiais para sua emancipa&amp;ccedil;&amp;atilde;o s&amp;atilde;o as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es gerais sem as quais a sociedade moderna n&amp;atilde;o pode ser salva nem evitada a luta de classes.&lt;br /&gt;	A 13 de junho o partido da ordem n&amp;atilde;o tinha apenas destro&amp;ccedil;ado a Montanha: tinha efetuado a subordina&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave;s decis&amp;otilde;es majorit&amp;aacute;rias da Assembl&amp;eacute;ia Nacional. E compreendia a rep&amp;uacute;blica da seguinte maneira: que a burguesia governa aqui sob formas parlamentares, sem encontrar, como na monarquia, quaisquer barreiras tais como o veto do Poder Executivo ou o direito de dissolver o Parlamento.&lt;br /&gt;	O 13 de junho tem ainda outro significado. A Montanha havia querido for&amp;ccedil;ar o impeachment de Bonaparte. Sua derrota foi, portanto, uma vit&amp;oacute;ria direta de Bonaparte, seu triunfo pessoal sobre seus inimigos democratas. O partido da ordem conquistou a vit&amp;oacute;ria; Bonaparte tinha apenas que embols&amp;aacute;-la. Foi o que fez. A 14 de junho podia ler-se nos muros de Paris uma proclama&amp;ccedil;&amp;atilde;o em que o presidente, relutantemente, como que a contragosto, compelido pela simples for&amp;ccedil;a dos acontecimentos, emerge de seu isolamento claustral e, afetando virtude ofendida, queixa-se das cal&amp;uacute;nias de seus advers&amp;aacute;rios e, embora pare&amp;ccedil;a identificar sua pessoa com a causa da ordem, antes identifica a causa da ordem com sua pessoa. Al&amp;eacute;m disso, a Assembl&amp;eacute;ia Nacional havia, &amp;eacute; bem verdade, aprovado subseq&amp;uuml;entemente a expedi&amp;ccedil;&amp;atilde;o contra Roma, mas Bonaparte assumira a iniciativa da quest&amp;atilde;o. Depois de reinstalar o pont&amp;iacute;fice Samuel no Vaticano, podia esperar entrar nas Tulherias como novo rei David. Conquistara o apoio dos padres.&lt;br /&gt;	Em meados de outubro de 1849 a Assembl&amp;eacute;ia Nacional reuniu-se uma vez mais. A lo. de novembro Bonaparte surpreendeu-a com uma mensagem em que anunciava a demiss&amp;atilde;o do minist&amp;eacute;rio Barrot-Falloux e a forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o de um novo minist&amp;eacute;rio. Jamais algu&amp;eacute;m demitiu lacaios com tanta sem-cerim&amp;ocirc;nia como Bonaparte a seus ministros. Os pontap&amp;eacute;s destinados &amp;agrave; Assembl&amp;eacute;ia Nacional foram, no momento, dados em Barrot e companhia. O minist&amp;eacute;rio Barrot, como vimos, fora composto de legitimistas e orleanistas, um minist&amp;eacute;rio do partido da ordem.&lt;br /&gt;	O novo minist&amp;eacute;rio chamava-se minist&amp;eacute;rio d'Hautpoul. N&amp;atilde;o no sentido de que o general d'Hautpoul tivesse recebido o cargo de primeiro-ministro. Simultaneamente com a destitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Barrot, Bonaparte abolira essa dignidade que, &amp;eacute; bem verdade, condenava o presidente da Rep&amp;uacute;blica &amp;agrave; situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de nulidade legal de um monarca constitucional, p0r&amp;eacute;m um monarca constitucional sem trono nem coroa, sem cetro nem espada, sem direito &amp;agrave; irresponsabilidade, sem a posse imprescrit&amp;iacute;vel da mais alta dignidade do Estado e, pior que tudo, sem Lista Civil.&lt;br /&gt;	"Acima de tudo, a Fran&amp;ccedil;a exige tranq&amp;uuml;ilidade". Bonaparte exigia, portanto, que o deixassem em paz para agir como lhe aprouvesse, e o partido parlamentar estava paralisado por um duplo medo, pelo medo de despertar novamente a intranq&amp;uuml;ilidade revolucion&amp;aacute;ria e pelo medo de aparecer ele pr&amp;oacute;prio, aos olhos de sua pr&amp;oacute;pria classe, aos olhos da burguesia, como o instigador da intranq&amp;uuml;ilidade.&lt;br /&gt;	Por volta de fins de dezembro, come&amp;ccedil;aram as guerrilhas sobre uma s&amp;eacute;rie de prerrogativas parlamentares. O movimento limitava-se &amp;agrave;s disputas mesquinhas sobre as prerrogativas dos dois poderes, uma vez que a burguesia liquidara temporariamente a luta de classes, ao abolir o sufr&amp;aacute;gio universal.&lt;br /&gt;	SE ao lermos atentarmos para as converg&amp;ecirc;ncias hist&amp;oacute;ricas, podemos citar: O interesse dos bonapartistas na revis&amp;atilde;o era simples. Para eles tratava-se, sobretudo, de abolir o artigo 45, que proibia a reelei&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Bonaparte e a prorroga&amp;ccedil;&amp;atilde;o de seus poderes. A posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos republicanos n&amp;atilde;o parecia menos simples.Queriam uma reforma parcial que "Uma reforma apenas parcial, que prorrogasse a autoridade do presidente, prepararia o caminho para a usurpa&amp;ccedil;&amp;atilde;o imperial", pois uma revis&amp;atilde;o" revis&amp;atilde;o geral que encurtasse a vida da rep&amp;uacute;blica lan&amp;ccedil;aria as pretens&amp;otilde;es d&amp;iacute;n&amp;aacute;sticas em inevit&amp;aacute;vel conflito, pois as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es de restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos Bourbons e dos orleanistas eram n&amp;atilde;o s&amp;oacute; diferentes, como se exclu&amp;iacute;am mutuamente".&lt;br /&gt;No umbral da Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro, a rep&amp;uacute;blica social apareceu como uma frase, como uma profecia. Nas jornadas de junho de 1848 foi afogada no sangue do proletariado de Paris, mas ronda os subseq&amp;uuml;entes atos da pe&amp;ccedil;a como um fantasma. A rep&amp;uacute;blica democr&amp;aacute;tica anuncia o seu advento. A 13 de junho de 1849 &amp;eacute; dispersada juntamente com sua pequena burguesia, que se p&amp;ocirc;s em fuga, mas que na corrida se vangloria com redobrada arrog&amp;acirc;ncia. A rep&amp;uacute;blica parlamentar, juntamente com a burguesia, apossa-se de todo o cen&amp;aacute;rio; goza a vida em toda a sua plenitude, mas o 2 de dezembro de 1851 a enterra sob o acompanhamento do grito de agonia dos monarquistas coligados: "Viva a Rep&amp;uacute;blica!"&lt;br /&gt;A burguesia francesa rebelou-se contra o dom&amp;iacute;nio do proletariado trabalhador; levou ao poder o l&amp;uacute;mpen proletariado tendo &amp;agrave; frente o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro. A burguesia conservava a Fran&amp;ccedil;a resfolegando de pavor ante os futuros terrores da anarquia vermelha; Bonaparte descontou para ela esse futuro quando, a 4 de dezembro, fez com que o ex&amp;eacute;rcito da ordem, inspirado pela aguardente, fuzilasse em suas janelas os eminentes burgueses do Bulevar Montmartre e do Bulevar des Italiens.&lt;br /&gt;Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es semelhantes mas sem estabelecerem rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es multiformes entre si. Seu modo de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o os isola uns dos outros, em vez de criar entre eles um interc&amp;acirc;mbio m&amp;uacute;tuo. Esse isolamento &amp;eacute; agravado pelo mau sistema de comunica&amp;ccedil;&amp;otilde;es existente na Fran&amp;ccedil;a e pela pobreza dos camponeses. Seu campo de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a pequena propriedade, n&amp;atilde;o permite qualquer divis&amp;atilde;o do trabalho para o cultivo, nenhuma aplica&amp;ccedil;&amp;atilde;o de m&amp;eacute;todos cient&amp;iacute;ficos e, portanto, nenhuma diversidade de desenvolvimento, nenhuma variedade de talento, nenhuma riqueza de rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais. Cada fam&amp;iacute;lia camponesa &amp;eacute; quase auto-suficiente; ela pr&amp;oacute;pria produz inteiramente a maior parte do que consome, adquirindo assim os meios de subsist&amp;ecirc;ncia mais atrav&amp;eacute;s de trocas com a natureza do que do interc&amp;acirc;mbio com a sociedade. Mas na medida em que existe entre os pequenos camponeses apenas uma liga&amp;ccedil;&amp;atilde;o local e em que a similitude de seus interesses n&amp;atilde;o cria entre eles comunidade alguma, liga&amp;ccedil;&amp;atilde;o nacional alguma, nem organiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o pol&amp;iacute;tica, nessa exata medida n&amp;atilde;o constituem uma classe. S&amp;atilde;o, consequentemente, incapazes de fazer valer seu interesse de classe em seu pr&amp;oacute;prio nome, quer atrav&amp;eacute;s de um Parlamento, quer atrav&amp;eacute;s de uma Conven&amp;ccedil;&amp;atilde;o. N&amp;atilde;o podem representar-se, t&amp;ecirc;m que ser representados. Seu representante tem, ao mesmo tempo, que aparecer como seu senhor, como autoridade sobre eles, como um poder governamental ilimitado que os protege das demais classes e que do alto lhes manda o sol ou a chuva. A influ&amp;ecirc;ncia pol&amp;iacute;tica dos pequenos camponeses, portanto, encontra sua express&amp;atilde;o final no fato de que o Poder Executivo submete ao seu dom&amp;iacute;nio a sociedade.&lt;br /&gt;&amp;Eacute; preciso que fique bem claro. A dinastia de Bonaparte representa n&amp;atilde;o o campon&amp;ecirc;s revolucion&amp;aacute;rio, mas o conservador; n&amp;atilde;o o campon&amp;ecirc;s que luta para escapar &amp;agrave;s condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es de sua exist&amp;ecirc;ncia social, a pequena propriedade, mas antes o campon&amp;ecirc;s que quer consolidar sua propriedade; n&amp;atilde;o a popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o rural que, ligada &amp;agrave; das cidades, quer derrubar a velha ordem de coisas por meio de seus pr&amp;oacute;prios esfor&amp;ccedil;os, mas, pelo contr&amp;aacute;rio, aqueles que, presos por essa velha ordem em um isolamento embrutecedor, querem ver-se a si pr&amp;oacute;prios e suas propriedades salvos e beneficiados pelo fantasma do Imp&amp;eacute;rio. Bonaparte representa n&amp;atilde;o o esclarecimento, mas a supersti&amp;ccedil;&amp;atilde;o do campon&amp;ecirc;s; n&amp;atilde;o o seu bom-senso, mas o seu preconceito; n&amp;atilde;o o seu futuro, mas o seu passado; n&amp;atilde;o a sua moderna Cev&amp;egrave;nnes, mas a sua moderna Vend&amp;eacute;e.&lt;br /&gt;Nos levantes ocorridos depois do golpe de Estado parte dos camponeses franceses protestou de armas na m&amp;atilde;o contra o resultado de seu pr&amp;oacute;prio voto a 10 de dezembro de 1848. A experi&amp;ecirc;ncia adquirida desde aquela data abrira-lhes os olhos. Mas tinham entregado a alma &amp;agrave;s for&amp;ccedil;as infernais da hist&amp;oacute;ria; a hist&amp;oacute;ria obrigou-os a manter a palavra empenhada, e a maioria estava ainda t&amp;atilde;o cheia de preconceitos que justamente nos Departamentos mais vermelhos a popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o camponesa votou abertamente em favor de Bonaparte. Em sua opini&amp;atilde;o a Assembl&amp;eacute;ia Nacional impedira a marcha de Bonaparte. Este limitara-se agora a romper as cadeias que as cidades haviam imposto &amp;agrave; vontade do campo. Em algumas localidades os camponeses chegaram a abrigar a id&amp;eacute;ia rid&amp;iacute;cula de uma Conven&amp;ccedil;&amp;atilde;o lado a lado com Napole&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;A situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos camponeses franceses nos fornece a resposta ao enigma das elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es de 20 e 21 de dezembro, que levaram o segundo Bonaparte ao topo do Monte Sinai, n&amp;atilde;o para receber leis mas para dit&amp;aacute;-las. Bonaparte gostaria de aparecer como o benfeitor patriarcal de todas as classes. Mas n&amp;atilde;o pode dar a uma classe sem tirar de outra. Essa tarefa contradit&amp;oacute;ria do homem explica as contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es do seu governo, esse confuso tatear que ora procura conquistar, ora humilhar, primeiro uma classe depois outra e alinha todas elas uniformemente contra ele, essa inseguran&amp;ccedil;a pr&amp;aacute;tica constitui um contraste altamente c&amp;ocirc;mico com o estilo imperioso e categ&amp;oacute;rico de seus decretos governamentais, estilo copiado fielmente do tio. A ind&amp;uacute;stria e o com&amp;eacute;rcio, e, portanto, os neg&amp;oacute;cios da classe m&amp;eacute;dia, dever&amp;atilde;o prosperar em estilo de estufa sob o governo forte. S&amp;atilde;o feitas in&amp;uacute;meras concess&amp;otilde;es ferrovi&amp;aacute;rias. Mas o l&amp;uacute;mpen proletariado bonapartista tem que enriquecer.&lt;br /&gt;Este &amp;eacute; um flash da hist&amp;oacute;ria que nos diz sobre como podemos fazer diferente, por&amp;eacute;m o peso das negocia&amp;ccedil;&amp;otilde;es, ou melhor, em falas atual, as articula&amp;ccedil;&amp;otilde;es para a garantia da sustentabilidade de governo remete os nossos "pequenos agricultores" "os miser&amp;aacute;veis de rua" as for&amp;ccedil;as prolet&amp;aacute;rias em geral a continuarem a luz da "ilus&amp;atilde;o neoliberalista" mantendo em seus postos diversos BONAPARTES para garantirem suas esperan&amp;ccedil;as sem luta, embora acredito que a maior luta esteja acontecendo cotidianamente na busca da SOBREVIV&amp;Ecirc;NCIA. 	&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bibliografia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl. O 18 Brum&amp;aacute;rio de Lu&amp;iacute;s Bonaparte. In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Textos. Vol. III. S&amp;atilde;o Paulo: Edi&amp;ccedil;&amp;otilde;es Sociais, 1977. &lt;br /&gt;Site: http://orbita.starmedia.com/~novosdebates/marx/marx01.htm  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/04/o-18-brums-bonaparte.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111439146965725382'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111439146965725382'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-111370765275040888</id><published>2005-04-17T00:14:00.000-03:00</published><updated>2005-04-17T00:14:12.750-03:00</updated><title type='text'>O 18 Brumário de Luis Bonaparte (Marx)</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;div align="center"&gt;Universidade Federal do Rio Grande do Sul&lt;br /&gt;Faculdade de Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o&lt;br /&gt;Programa de P&amp;oacute;s- Gradua&amp;ccedil;&amp;atilde;o em Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;&lt;div align="justify"&gt;Resumo elaborado para o Semin&amp;aacute;rio te&amp;oacute;rico-pr&amp;aacute;tico Bases te&amp;oacute;rico-metodol&amp;oacute;gicas do desenvolvimento de um projeto de pesquisa II, 2004/2, ministrado pelo professor Dr. Augusto Nibaldo Silva Trivi&amp;ntilde;os.&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Esclarecimento: O it&amp;aacute;lico deve-se ao uso literal do texto de Marx (Textos, 1977)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;b&gt;O 18 Brum&amp;aacute;rio de Luis Bonaparte&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;&lt;div align="right"&gt;Mara Nibia da Silva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Conforme Engels, no pref&amp;aacute;cio da 3&amp;ordf; edi&amp;ccedil;&amp;atilde;o alem&amp;atilde; de 1885 do 18 Brum&amp;aacute;rio de Luis Bonaparte, Marx aplicando a lei do processo de desenvolvimento da hist&amp;oacute;ria, por ele pr&amp;oacute;prio descoberta, segundo a qual  todas as lutas hist&amp;oacute;ricas, quer se processem no dom&amp;iacute;nio pol&amp;iacute;tico, religioso, filos&amp;oacute;fico ou qualquer outro campo ideol&amp;oacute;gico, s&amp;atilde;o na realidade apenas a express&amp;atilde;o mais ou menos clara de lutas entre classes sociais, e que a exist&amp;ecirc;ncia e os conflitos entre essas classes s&amp;atilde;o condicionados pelo grau de desenvolvimento de sua situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o econ&amp;ocirc;mica, pelo seu modo de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o e pelo seu modo de troca, este determinado pelo precedente, p&amp;otilde;e a descoberto, em sua concatena&amp;ccedil;&amp;atilde;o interna, todo o curso da Segunda Rep&amp;uacute;blica Francesa.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Esse processo, nos evidencia a precis&amp;atilde;o da afirma&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Marx de que os homens fazem sua pr&amp;oacute;pria hist&amp;oacute;ria, mas n&amp;atilde;o a fazem como querem; n&amp;atilde;o a fazem sob circunst&amp;acirc;ncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. Assim, as lutas de classes bem como os "her&amp;oacute;is" que delas emergem se realizam em dadas condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhar Marx em seu 18 Brum&amp;aacute;rio, &amp;eacute; deparar-nos com nossa realidade, guardado o contexto e as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es materiais dadas. Com um Brasil de coliga&amp;ccedil;&amp;otilde;es question&amp;aacute;veis, com um Brasil onde a classe trabalhadora, nos trilhos do capitalismo mundial, vive aquilo que Francisco de Oliveira chama a anula&amp;ccedil;&amp;atilde;o da fala. &amp;Eacute; deparar-nos com os nossos "Collors".  Mas, voltemos &amp;agrave; Fran&amp;ccedil;a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Em 1789 dadas uma s&amp;eacute;rie de condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es -  mis&amp;eacute;ria no campo, na cidade, pesados impostos que sustentavam uma elite privilegiada, os interesses da burguesia de ter acesso ao poder que lhe permitissem expandir seus neg&amp;oacute;cios - desenvolve-se a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o Francesa. Nascia a "democracia" moderna. O antes s&amp;uacute;dito, se torna um cidad&amp;atilde;o em uma sociedade em que as leis n&amp;atilde;o estabeleciam distin&amp;ccedil;&amp;otilde;es tendo por base o nascimento. A burguesia assume o controle do Estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dez anos depois, em 9 de novembro de 1799, temendo que a crise interna que assolava a Fran&amp;ccedil;a se agravasse, colocando em risco o poder conquistado, os girondinos, partido que representava a alta burguesia financeira e comercial e que tinha como principal interesse defender a propriedade privada e a liberdade econ&amp;ocirc;mica, se aliaram ao general Napole&amp;atilde;o Bonaparte, cuja lideran&amp;ccedil;a militar deu-lhe fama e prest&amp;iacute;gio popular, e lhe entregaram o comando do Estado, julgando poder control&amp;aacute;-lo. Era golpe de Estado, conhecido como 18 Brum&amp;aacute;rio. O poder ficou concentrado nas m&amp;atilde;os de Napole&amp;atilde;o, que agiu no sentido de garantir a manuten&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos privil&amp;eacute;gios burgueses. Em 1804, Bonaparte tornou-se imperador da Fran&amp;ccedil;a. Em 1815, chega ao fim seu imp&amp;eacute;rio. O poder dos Bourbons foi restaurado, na pessoa de Luis XVIII, que morre em 1824. O sucede seu irm&amp;atilde;o Carlos X, que &amp;eacute; deposto em 1830. A coroa passa para o duque de Orl&amp;eacute;ans, Luis Filipe, que institui um regime sustentado na burguesia financeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Os her&amp;oacute;is, os partidos e as massas da velha Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o Francesa, desempenharam a tarefa de sua &amp;eacute;poca, a tarefa de libertar e instaurar a moderna sociedade burguesa. Reduziram a peda&amp;ccedil;os a base feudal e deceparam as cabe&amp;ccedil;as feudais que sobre ela haviam crescido. Napole&amp;atilde;o criou na Fran&amp;ccedil;a as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es sem as quais n&amp;atilde;o seria poss&amp;iacute;vel desenvolver a livre concorr&amp;ecirc;ncia, explorar a propriedade territorial dividida e utilizar as for&amp;ccedil;as produtivas industriais da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o que tinham sido libertadas. Ele varreu por toda parte as institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es feudais, na medida em que isto era necess&amp;aacute;rio para dar &amp;agrave; sociedade burguesa da Fran&amp;ccedil;a um ambiente adequado e atual no continente europeu. &lt;br /&gt;A Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro foi um ataque de surpresa, apanhando desprevenida a velha sociedade. &amp;Agrave; 2 de dezembro, a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro &amp;eacute; escamoteada e o que parece ter sido derrubado j&amp;aacute; n&amp;atilde;o &amp;eacute; a monarquia e sim as concess&amp;otilde;es liberais que lhe foram arrancadas atrav&amp;eacute;s de s&amp;eacute;culos de luta. Longe de ser a pr&amp;oacute;pria sociedade que conquista para si mesma um novo conte&amp;uacute;do, &amp;eacute; o Estado que parece voltar &amp;agrave; sua forma mais antiga. A sociedade parece ter agora retrocedido para antes do seu ponto de partida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro per&amp;iacute;odo da Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro, vai de 24 de fevereiro, data da queda de Lu&amp;iacute;s Filipe, at&amp;eacute; 4 de maio de 1848 data da instala&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Assembl&amp;eacute;ia Constituinte, pode ser chamado o pr&amp;oacute;logo da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o. O objetivo inicial das jornadas de fevereiro era uma reforma eleitoral, pela qual seria alargado o c&amp;iacute;rculo dos elementos politicamente privilegiados da pr&amp;oacute;pria classe possuidora e derrubado o dom&amp;iacute;nio exclusivo da aristocracia financeira. Quando estalou o conflito de verdade, quando o povo levantou as barricadas, a Guarda Nacional manteve uma atitude passiva, o ex&amp;eacute;rcito n&amp;atilde;o ofereceu nenhuma resist&amp;ecirc;ncia s&amp;eacute;ria e a monarquia fugiu. A Rep&amp;uacute;blica pareceu ser a seq&amp;uuml;&amp;ecirc;ncia l&amp;oacute;gica. Enquanto o proletariado de Paris deleitava-se ante a vis&amp;atilde;o das amplas perspectivas que se abriam diante de si e se entregava a discuss&amp;otilde;es s&amp;eacute;rias sobre os problemas sociais, as velhas for&amp;ccedil;as da sociedade se haviam agrupado, e encontrado o apoio  da massa da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o: os camponeses e a pequena burguesia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo per&amp;iacute;odo, de 4 de maio de 1848 at&amp;eacute; fins de maio de 1849, &amp;eacute; o per&amp;iacute;odo da constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o da rep&amp;uacute;blica burguesa e da Assembl&amp;eacute;ia Nacional Constituinte.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Assembl&amp;eacute;ia Nacional, que se reunira a 4 de maio de 1848, sendo o resultado de elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es nacionais, representava a na&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Era um protesto vivo contra as presun&amp;ccedil;osas pretens&amp;otilde;es das jornadas de fevereiro e devia reduzir os resultados da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; escala burguesa. O proletariado de Paris, que compreendeu imediatamente seu car&amp;aacute;ter, tentou em v&amp;atilde;o, a 15 de maio, anular pela for&amp;ccedil;a a sua exist&amp;ecirc;ncia, mas isso n&amp;atilde;o teve outro resultado sen&amp;atilde;o o de afastar os verdadeiros dirigentes do partido prolet&amp;aacute;rio da cena p&amp;uacute;blica. Assim, enquanto um setor limitado da burguesia governou em nome do rei, toda a burguesia governar&amp;aacute; agora em nome do povo. O proletariado de Paris respondeu com a insurrei&amp;ccedil;&amp;atilde;o de junho. Mas, a rep&amp;uacute;blica burguesa triunfou e a seu lado alinhavam-se a aristocracia financeira, a burguesia industrial, a classe m&amp;eacute;dia, a pequena burguesia, o ex&amp;eacute;rcito, o l&amp;uacute;mpen proletariado organizado em Guarda M&amp;oacute;vel, os intelectuais de prest&amp;iacute;gio, o clero e a popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o rural. Do lado do proletariado de Paris n&amp;atilde;o havia sen&amp;atilde;o ele pr&amp;oacute;prio. Com essa derrota o proletariado passa para o fundo da cena revolucion&amp;aacute;ria. Os dirigentes mais importantes do proletariado na Assembl&amp;eacute;ia e na imprensa caem sucessivamente, v&amp;iacute;tima dos tribunais, e figuras cada vez mais equ&amp;iacute;vocas assumem a sua dire&amp;ccedil;&amp;atilde;o. A derrota dos insurretos de junho revelara que aqui rep&amp;uacute;blica burguesa significava o despotismo ilimitado de uma classe sobre as outras. Durante as jornadas de junho todas as classes e partidos se haviam congregado no partido da ordem, contra a classe prolet&amp;aacute;ria, considerada como o partido da anarquia, do socialismo, do comunismo.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A hist&amp;oacute;ria da Assembl&amp;eacute;ia Nacional Constituinte a partir das jornadas de junho &amp;eacute; a hist&amp;oacute;ria do dom&amp;iacute;nio e da desagrega&amp;ccedil;&amp;atilde;o da fra&amp;ccedil;&amp;atilde;o republicana da burguesia. Sob a monarquia burguesa de Lu&amp;iacute;s Filipe essa fra&amp;ccedil;&amp;atilde;o formara a oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o republicana oficial. N&amp;atilde;o era uma fra&amp;ccedil;&amp;atilde;o da burguesia unida por grandes interesses comuns e destacadas das outras por condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es espec&amp;iacute;ficas de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Era um grupo puramente republicano, ou seja, exigia que a domina&amp;ccedil;&amp;atilde;o burguesa adotasse formas republicanas ao inv&amp;eacute;s de mon&amp;aacute;rquicas. Relativamente &amp;agrave;s condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es dessa transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o n&amp;atilde;o tinha um plano claro de a&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Quando irrompeu a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro, seus representantes mais conhecidos foram apontados para postos no Governo Provis&amp;oacute;rio. Desde o in&amp;iacute;cio contavam,  com o apoio da burguesia e com a maioria na Assembl&amp;eacute;ia Nacional Constituinte. Elementos socialistas do Governo Provis&amp;oacute;rio foram imediatamente exclu&amp;iacute;dos da Comiss&amp;atilde;o Executiva formada pela Assembl&amp;eacute;ia Nacional por ocasi&amp;atilde;o de sua instala&amp;ccedil;&amp;atilde;o, e o partido do National aproveitou a deflagra&amp;ccedil;&amp;atilde;o da insurrei&amp;ccedil;&amp;atilde;o de junho para dissolver tamb&amp;eacute;m a Comiss&amp;atilde;o Executiva, e livrar-se assim de seus rivais mais pr&amp;oacute;ximos, os republicanos pequenos burgueses ou republicanos democratas.  &lt;br /&gt;O dom&amp;iacute;nio exclusivo dos republicanos burgueses durou apenas de 24 de junho a 10 de dezembro de 1848 e resumiu-se na elabora&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o republicana e na proclama&amp;ccedil;&amp;atilde;o do estado de s&amp;iacute;tio de Paris. A nova Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o era a reedi&amp;ccedil;&amp;atilde;o republicana da carta constitucional de 1830 e era incompat&amp;iacute;vel com a exist&amp;ecirc;ncia da Rep&amp;uacute;blica burguesa. Em vez da manuten&amp;ccedil;&amp;atilde;o das restri&amp;ccedil;&amp;otilde;es, a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro proclamara imediatamente o sufr&amp;aacute;gio universal e direto. Os republicanos burgueses n&amp;atilde;o puderam desfazer esse ato. Tiveram que contentar-se com acrescentar uma cl&amp;aacute;usula instituindo a obrigatoriedade de pelo menos seis meses de resid&amp;ecirc;ncia no distrito eleitoral. A velha organiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o, do sistema municipal, do sistema jur&amp;iacute;dico, militar, permaneceu intacta ou, onde foi modificada pela Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a modifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o atingia o r&amp;oacute;tulo, n&amp;atilde;o o conte&amp;uacute;do, o nome, n&amp;atilde;o a coisa em si. As liberdades de 1848, receberam um uniforme constitucional que as fez invulner&amp;aacute;veis. Cada uma dessas liberdades &amp;eacute; proclamada como direito absoluto do cidad&amp;atilde;o franc&amp;ecirc;s, mas sempre acompanhada da restri&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; margem. Assim, desde que o nome da liberdade seja respeitado e impedida apenas sua realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o efetiva, a exist&amp;ecirc;ncia constitucional da liberdade permanece intacta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os par&amp;aacute;grafos 45 e 70 da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o acham-se redigidos de tal maneira que A Assembl&amp;eacute;ia Nacional tem poderes constitucionais para afastar o Presidente, ao passo que este s&amp;oacute; inconstitucionalmente pode dissolver a Assembl&amp;eacute;ia Nacional, suprimindo a pr&amp;oacute;pria Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o. A Assembl&amp;eacute;ia Nacional exibe realmente, em seus representantes individuais, os m&amp;uacute;ltiplos aspectos do esp&amp;iacute;rito nacional, enquanto no Presidente esse esp&amp;iacute;rito nacional encontra a sua encarna&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Em compara&amp;ccedil;&amp;atilde;o com a Assembl&amp;eacute;ia ele possui uma esp&amp;eacute;cie de direito divino; &amp;eacute; Presidente pela gra&amp;ccedil;a do povo. Enquanto os republicanos burgueses se entretinham, na Assembl&amp;eacute;ia, em criar, discutir e votar essa Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, fora da Assembl&amp;eacute;ia era mantido o estado de s&amp;iacute;tio em Paris. A elei&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Lu&amp;iacute;s Bonaparte como presidente em 10 de dezembro de 1848, p&amp;ocirc;s fim &amp;agrave; Assembl&amp;eacute;ia Constituinte e foi uma rea&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos camponeses, que tinham tido que pagar as custas da Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Fevereiro, contra as demais classes da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o, uma rea&amp;ccedil;&amp;atilde;o do campo contra a cidade. Esta rea&amp;ccedil;&amp;atilde;o encontrou grande apoio no ex&amp;eacute;rcito, entre a alta burguesia, que saudou Bonaparte como uma ponte para a monarquia, entre os prolet&amp;aacute;rios e pequenos burgueses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ap&amp;oacute;s terem fundado uma rep&amp;uacute;blica para a burguesia, expulsado do campo de luta o proletariado revolucion&amp;aacute;rio e reduzindo momentaneamente ao sil&amp;ecirc;ncio a pequena burguesia democr&amp;aacute;tica, s&amp;atilde;o eles mesmos, republicanos burgueses, postos de lado pela massa da burguesia. Essa massa era, por&amp;eacute;m, mon&amp;aacute;rquica. Parte dela, latifundi&amp;aacute;rios, dominara durante a Restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o e era, portanto, legitimista. A outra parte, os aristocratas da finan&amp;ccedil;a e os grandes industriais, havia dominado durante a monarquia de julho e era, consequentemente, orleanista. Aqui, na rep&amp;uacute;blica burguesa, que n&amp;atilde;o ostentava nem o nome de Bourbon nem o nome de Orl&amp;eacute;ans, e sim o nome de Capital, haviam encontrado a forma de governo na qual podiam governar conjuntamente. A insurrei&amp;ccedil;&amp;atilde;o de junho j&amp;aacute; os unira no "partido da ordem". Era agora necess&amp;aacute;rio, em primeiro lugar, afastar o n&amp;uacute;cleo de republicanos burgueses que ocupavam ainda as cadeiras da Assembl&amp;eacute;ia Nacional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ascender &amp;agrave; presid&amp;ecirc;ncia Bonaparte formou imediatamente um minist&amp;eacute;rio com base no partido da ordem, sendo que o chefe do minist&amp;eacute;rio tinha a tarefa de liquidar um Parlamento  e como aliado de seus piores inimigos, os jesu&amp;iacute;tas e os legitimistas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em agosto a Assembl&amp;eacute;ia Constituinte decidira s&amp;oacute; dissolver-se depois de ter elaborado e promulgado toda uma s&amp;eacute;rie de leis org&amp;acirc;nicas que deveriam complementar a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o. A 6 de janeiro de 1849 o partido da ordem fez com que um deputado apresentasse mo&amp;ccedil;&amp;atilde;o propondo que a Assembl&amp;eacute;ia interrompesse a discuss&amp;atilde;o das leis org&amp;acirc;nicas e decidisse sobre sua pr&amp;oacute;pria dissolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o. N&amp;atilde;o s&amp;oacute; o minist&amp;eacute;rio, mas todos os membros monarquistas da Assembl&amp;eacute;ia Nacional, indicaram nesse momento, em termos imperiosos, que a dissolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o era necess&amp;aacute;ria para a restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o do cr&amp;eacute;dito, para a consolida&amp;ccedil;&amp;atilde;o da ordem, para p&amp;ocirc;r fim aos indefinidos arranjos provis&amp;oacute;rios e estabelecer uma situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o definitiva e que a Assembl&amp;eacute;ia impedia a atua&amp;ccedil;&amp;atilde;o do novo governo.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O minist&amp;eacute;rio e o partido da ordem foram mais longe. Fizeram com que de toda a Fran&amp;ccedil;a fossem dirigidas peti&amp;ccedil;&amp;otilde;es &amp;agrave; Assembl&amp;eacute;ia Nacional, nas quais se requeria que dissolvessem. Levaram, as massas desorganizadas do povo &amp;agrave; luta contra a Assembl&amp;eacute;ia Nacional, express&amp;atilde;o constitucionalmente organizada do povo. A 29 de janeiro de 1849, chegou o dia no qual a Assembl&amp;eacute;ia Constituinte deveria decidir sua pr&amp;oacute;pria dissolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na primeira Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o Francesa o dom&amp;iacute;nio dos constitucionalistas &amp;eacute; seguido do dom&amp;iacute;nio dos girondinos e o dom&amp;iacute;nio dos girondinos pelo dos jacobinos. Cada um desses partidos se apoia no mais avan&amp;ccedil;ado. Assim que impulsiona a revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o o suficiente para se tornar incapaz de lev&amp;aacute;-la mais al&amp;eacute;m, e muito menos de marchar &amp;agrave; sua frente, &amp;eacute; posto de lado pelo aliado mais audaz que vem atr&amp;aacute;s. A revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o move-se, assim, ao longo de uma linha ascensional. &lt;br /&gt;Com a Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de 1848 d&amp;aacute;-se o inverso. O partido prolet&amp;aacute;rio aparece como um ap&amp;ecirc;ndice do partido pequeno-burgu&amp;ecirc;s democr&amp;aacute;tico. &amp;Eacute; tra&amp;iacute;do e abandonado por esse a 16 de abril, a 15 de maio e nas jornadas de junho. O partido democrata, por sua vez, se apoia no partido republicano burgu&amp;ecirc;s. Assim que consideram firmada a sua posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o os republicanos burgueses desvencilham-se do companheiro inoportuno e apoiam-se sobre os ombros do partido da ordem. O partido da ordem ergue os ombros fazendo cair aos trambolh&amp;otilde;es os republicanos burgueses e atira-se, por sua vez, nos ombros das for&amp;ccedil;as armadas. Cada partido ataca par tr&amp;aacute;s &amp;agrave;quele que procura empurr&amp;aacute;-lo para a frente e apoia-se pela frente naquele que o empurra para tr&amp;aacute;s. A revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o move-se, assim, em linha descendente. Encontra-se nesse estado de movimento regressivo antes mesmo de ser derrubada a &amp;uacute;ltima barricada de fevereiro e constitu&amp;iacute;do o primeiro &amp;oacute;rg&amp;atilde;o revolucion&amp;aacute;rio  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro  per&amp;iacute;odo da Segunda Rep&amp;uacute;blica Francesa, vai de 28 de maio de 1849 a 2 de dezembro de 1851. &amp;Eacute; o per&amp;iacute;odo da Rep&amp;uacute;blica Constitucional e da Assembl&amp;eacute;ia Legislativa Nacional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O minist&amp;eacute;rio nomeado por Bonaparte, no dia de sua ascens&amp;atilde;o, 20 de dezembro de 1848, era um minist&amp;eacute;rio do partido da ordem, da coliga&amp;ccedil;&amp;atilde;o legimitista e orleanista. As elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es gerais haviam assegurado ao partido da ordem uma ampla maioria na Assembl&amp;eacute;ia Nacional. A representa&amp;ccedil;&amp;atilde;o bonapartista era por demais escassa para poder formar um partido parlamentar independente. O partido da ordem encontrava-se, assim, de posse do poder governamental, do ex&amp;eacute;rcito e do Poder Legislativo, em suma, de todo o poder estatal e fora moralmente fortalecido pelas elei&amp;ccedil;&amp;otilde;es gerais, que fizeram aparecer o seu dom&amp;iacute;nio como sendo a express&amp;atilde;o da vontade do povo, e pelo simult&amp;acirc;neo triunfo da contra-revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o em todo o continente europeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os republicanos puros estavam em n&amp;uacute;mero reduzido na Assembl&amp;eacute;ia Legislativa Nacional e o grande partido da oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o era constitu&amp;iacute;do pela Montanha, o partido social-deomocrata. Aos olhos dos democratas, o per&amp;iacute;odo da Assembl&amp;eacute;ia Legislativa Nacional caracterizava-se pelo mesmo problema vivido durante a Assembl&amp;eacute;ia Constituinte: a simples luta entre republicanos e monarquistas. Os legitimistas e os orleanistas, formavam as duas grandes fac&amp;ccedil;&amp;otilde;es do partido da ordem. Sob os Bourbons governara a grande propriedade territorial; sob os Orl&amp;eacute;ans, a alta finan&amp;ccedil;a, a grande ind&amp;uacute;stria, o alto com&amp;eacute;rcio, ou seja, o capital. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que separava as duas fac&amp;ccedil;&amp;otilde;es, n&amp;atilde;o era nenhuma quest&amp;atilde;o de princ&amp;iacute;pios, eram suas condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es materiais de exist&amp;ecirc;ncia, duas diferentes esp&amp;eacute;cies de propriedade, era o velho contraste entre a cidade e o campo, a rivalidade entre o capital e o latif&amp;uacute;ndio. Sobre as diferentes formas de propriedade, sobre as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais, maneiras de pensar e concep&amp;ccedil;&amp;otilde;es de vida distintas e peculiarmente constitu&amp;iacute;das. A classe inteira os cria e os forma sobre a base de suas condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es materiais e das rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais correspondentes. Orleanistas e legitimistas encontram-se lado a lado na rep&amp;uacute;blica, com pretens&amp;otilde;es id&amp;ecirc;nticas. Se cada lado desejava levar a cabo a restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o de sua pr&amp;oacute;pria casa real, contra a outra, isto significava apenas que cada um dos dois grandes interesses em que se divide a burguesia - o latif&amp;uacute;ndio e o capital - procurava restaurar sua pr&amp;oacute;pria supremacia e suplantar o outro. Mas diante do p&amp;uacute;blico, em suas grande representa&amp;ccedil;&amp;otilde;es de Estado, como grande partido parlamentar, exercem suas verdadeiras atividades como partido da ordem, ou seja, sob um r&amp;oacute;tulo social, e n&amp;atilde;o sob um r&amp;oacute;tulo pol&amp;iacute;tico; como representantes do regime burgu&amp;ecirc;s, como classe-burguesa contra as outras classes e n&amp;atilde;o como monarquistas contra republicanos. E como partido da ordem exerciam um poder mais amplo e severo sobre as demais classes da sociedade do que jamais haviam exercido, um poder que, de maneira geral, s&amp;oacute; era poss&amp;iacute;vel sob a forma de rep&amp;uacute;blica parlamentar, pois apenas sob esta forma podiam os dois grandes setores da burguesia francesa unir-se e, assim, p&amp;ocirc;r na ordem do dia o dom&amp;iacute;nio de sua classe, em vez do regime de uma fac&amp;ccedil;&amp;atilde;o privilegiada desta classe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O instinto ensinava-lhes que a rep&amp;uacute;blica, &amp;eacute; bem verdade, torna completo seu dom&amp;iacute;nio pol&amp;iacute;tico, mas ao mesmo tempo solapa suas funda&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais, uma vez que t&amp;ecirc;m agora de se defrontar com as classes subjugadas e lutar com elas sem qualquer media&amp;ccedil;&amp;atilde;o, sem poderem esconder-se atr&amp;aacute;s da coroa, sem poderem desviar o interesse da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o com as lutas secund&amp;aacute;rias que sustentavam entre si e contra a monarquia. Por outro lado, cada vez que julgam sua onipot&amp;ecirc;ncia parlamentar amea&amp;ccedil;ada pelo Poder Executivo, cada vez, portanto, que t&amp;ecirc;m que exibir o t&amp;iacute;tulo pol&amp;iacute;tico de seu dom&amp;iacute;nio, apresentam-se como republicanos e n&amp;atilde;o como monarquistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contra a burguesia coligada fora formada uma coaliz&amp;atilde;o de pequenos burgueses e oper&amp;aacute;rios, o chamado partido social democrata. A pequena burguesia percebeu que seus interesses materiais corriam perigo e que as garantias democr&amp;aacute;ticas que deviam assegurar a efetiva&amp;ccedil;&amp;atilde;o desses interesses estavam sendo questionadas pela contra-revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Em vista disto aliou-se aos oper&amp;aacute;rios. Por outro lado, sua representa&amp;ccedil;&amp;atilde;o parlamentar, a Montanha, conclu&amp;iacute;ra uma alian&amp;ccedil;a com os dirigentes socialistas. Quebrou-se o aspecto revolucion&amp;aacute;rio das reivindica&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais do proletariado e deu-se a elas uma fei&amp;ccedil;&amp;atilde;o democr&amp;aacute;tica; despiu-se a forma puramente pol&amp;iacute;tica das reivindica&amp;ccedil;&amp;otilde;es democr&amp;aacute;ticas da pequena burguesia e ressaltou-se seu aspecto socialista. Assim surgiu a social-democracia. O car&amp;aacute;ter peculiar da social-democracia resume-se no fato de exigir institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es democr&amp;aacute;tico-republicanas como meio n&amp;atilde;o de acabar com dois extremos, capital e trabalho assalariado, mas de enfraquecer seu antagonismo e transform&amp;aacute;-lo em harmonia. Por mais diferentes que sejam as medidas propostas para alcan&amp;ccedil;ar esse objetivo, por mais que sejam enfeitadas com concep&amp;ccedil;&amp;otilde;es mais ou menos revolucion&amp;aacute;rias, o conte&amp;uacute;do permanece o mesmo. Esse conte&amp;uacute;do &amp;eacute; a transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o da sociedade por um processo democr&amp;aacute;tico, por&amp;eacute;m uma transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o dentro dos limites da pequena burguesia. A Montanha lutava continuamente contra o partido da ordem em prol da rep&amp;uacute;blica e dos chamados direitos do homem, embora nem a rep&amp;uacute;blica nem os direitos do homem constitu&amp;iacute;am seu objetivo final.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A burguesia sentia agora a necessidade de acabar com a pequena burguesia democr&amp;aacute;tica, assim como h&amp;aacute; um ano atr&amp;aacute;s compreendera a necessidade de ajustar contas com o proletariado revolucion&amp;aacute;rio. Apenas a situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o do advers&amp;aacute;rio era diferente. A for&amp;ccedil;a do partido prolet&amp;aacute;rio estava nas ruas, ao passo que a da pequena burguesia estava na pr&amp;oacute;pria Assembl&amp;eacute;ia Nacional. Tratava-se, pois de atra&amp;iacute;-los para fora da Assembl&amp;eacute;ia Nacional, para as ruas, e fazer com que eles mesmos destro&amp;ccedil;assem sua for&amp;ccedil;a parlamentar antes que o tempo e as circunst&amp;acirc;ncias pudessem consolid&amp;aacute;-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bombardeio de Roma pelas tropas francesas violava o artigo 5 da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, que proibia qualquer declara&amp;ccedil;&amp;atilde;o de guerra por parte do Poder Executivo sem o assentimento da Assembl&amp;eacute;ia Legislativa Nacional, e em resolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de 8 de maio a Assembl&amp;eacute;ia Constituinte expressara sua desaprova&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; expedi&amp;ccedil;&amp;atilde;o romana. Baseado nisso, a 11 de junho de 1849 Ledru-Rollin apresentou um projeto de impeachment contra Bonaparte e seus ministros e deixou-se arrastar ao ponto de amea&amp;ccedil;ar defender a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o por todos os meios, inclusive de armas na m&amp;atilde;o. A Montanha levantou-se como um s&amp;oacute; homem e repetiu esse apelo &amp;agrave;s armas. A 12 de junho a Assembl&amp;eacute;ia Nacional rejeitou o projeto de impeachment e a Montanha deixou o Parlamento. Os acontecimentos de 13 de junho s&amp;atilde;o conhecidos: a proclama&amp;ccedil;&amp;atilde;o lan&amp;ccedil;ada por uma ala da Montanha declarando Bonaparte e seus ministros "fora da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o"; O estado de s&amp;iacute;tio foi novamente declarado em Paris e a ala democr&amp;aacute;tica da Guarda Nacional dissolvida. Quebrou-se, assim, a influ&amp;ecirc;ncia da Montanha no Parlamento e a for&amp;ccedil;a da pequena burguesia em Paris. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 13 de junho o partido da ordem n&amp;atilde;o tinha apenas destro&amp;ccedil;ado a Montanha: tinha efetuado a subordina&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave;s decis&amp;otilde;es majorit&amp;aacute;rias da Assembl&amp;eacute;ia Legislativa Nacional. E compreendia a rep&amp;uacute;blica da seguinte maneira: que a burguesia governa aqui sob formas parlamentares, sem encontrar, como na monarquia, quaisquer barreiras tais como o veto do Poder Executivo ou o direito de dissolver o Parlamento. Denunciando uma insurrei&amp;ccedil;&amp;atilde;o em defesa da carta constitucional como um ato de anarquia visando &amp;agrave; subvers&amp;atilde;o do regime, vedou a si pr&amp;oacute;pria a possibilidade de recorrer &amp;agrave; insurrei&amp;ccedil;&amp;atilde;o no caso de o Poder Executivo violar contra ela a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Montanha havia querido for&amp;ccedil;ar o impeachment de Bonaparte. Sua derrota foi, portanto, uma vit&amp;oacute;ria direta de Bonaparte, seu triunfo pessoal sobre seus inimigos democratas. O partido da ordem conquistou a vit&amp;oacute;ria. Nas jornadas de junho de 1848 a burguesia e a pequena burguesia, na qualidade de Guarda Nacional, se tinham unido ao ex&amp;eacute;rcito contra o proletariado; a 13 de junho de 1849 a burguesia fez dispersar a Guarda Nacional pequeno-burguesa pelo ex&amp;eacute;rcito; a 2 de dezembro de 1851 desapareceu a pr&amp;oacute;pria Guarda Nacional burguesa. A burguesia destruiu assim sua derradeira arma contra o ex&amp;eacute;rcito, mas teve de faz&amp;ecirc;-lo em um momento no qual a pequena burguesia n&amp;atilde;o mais a seguia como vassalo e sim levantava-se diante dela como rebelde, como de maneira geral teria for&amp;ccedil;osamente que destruir com suas pr&amp;oacute;prias m&amp;atilde;os todos os seus meios de defesa contra o absolutismo, t&amp;atilde;o logo se tornasse ela pr&amp;oacute;pria absolutista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O partido da ordem celebrava a reconquista do poder e celebrava-a por meio de invectivas contra a Rep&amp;uacute;blica e a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, com maldi&amp;ccedil;&amp;otilde;es contra todas as revolu&amp;ccedil;&amp;otilde;es. A Assembl&amp;eacute;ia Nacional suspendeu seus trabalhos, depois de ter nomeado uma comiss&amp;atilde;o permanente para represent&amp;aacute;-la durante o per&amp;iacute;odo de recesso, agiu impoliticamente desaparecendo de cena durante longos intervalos e deixando que aparecesse &amp;agrave; frente da Rep&amp;uacute;blica a figura de Lu&amp;iacute;s Bonaparte, enquanto o partido da ordem fragmentava-se em seus componentes monarquistas e entregava-se &amp;agrave;s suas diverg&amp;ecirc;ncias internas sobre a Restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o mon&amp;aacute;rquica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meados de outubro de 1849 a Assembl&amp;eacute;ia Nacional reuniu-se uma vez mais. A l.&amp;ordm; de novembro Bonaparte surpreendeu-a com uma mensagem em que anunciava a demiss&amp;atilde;o do minist&amp;eacute;rio que como vimos fora composto de legitimistas e orleanistas, um minist&amp;eacute;rio do partido da ordem. Bonaparte nomeara o minist&amp;eacute;rio  com o objetivo de quebrar a Assembl&amp;eacute;ia Nacional em nome do partido da ordem; destituiu-o a fim de declarar-se independente da Assembl&amp;eacute;ia Nacional do partido da ordem. Ao mesmo tempo em que nomeia um novo minist&amp;eacute;rio, Bonaparte declara fidelidade &amp;agrave; assembl&amp;eacute;ia Nacional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A burguesia tinha urna no&amp;ccedil;&amp;atilde;o exata do fato de que todas as armas que forjara contra o feudalismo voltavam seu gume contra ela, que todos os meios de cultura que criara rebelavam-se contra sua pr&amp;oacute;pria civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Compreendia que todas as chamadas liberdades burguesas e &amp;oacute;rg&amp;atilde;os e progresso atacavam e amea&amp;ccedil;avam seu dom&amp;iacute;nio de classe, e tinham, portanto, se convertido em "socialistas". Enquanto o dom&amp;iacute;nio da classe burguesa n&amp;atilde;o se tivesse organizado completamente, enquanto n&amp;atilde;o tivesse adquirido sua pura express&amp;atilde;o pol&amp;iacute;tica, o antagonismo das outras classes n&amp;atilde;o podia, igualmente, mostrar-se em sua forma pura, e onde aparecia n&amp;atilde;o podia assumir o aspecto perigoso que converte toda luta contra o poder do Estado em uma luta contra o capital. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, denunciando agora como "socialista" tudo o que anteriormente exaltara como "liberal", a burguesia reconhece que seu pr&amp;oacute;prio interesse lhe ordena subtrair-se aos perigos do autogoverno;  que, a fim de restaurar a calma no pa&amp;iacute;s, &amp;eacute; preciso antes de tudo restabelecer a calma no seu Parlamento burgu&amp;ecirc;s.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 8 de maio foi apresentada lei segundo a qual seria abolido o sufr&amp;aacute;gio universal, sendo aprovada em 31 de maio. O ano de 1850 foi um dos anos mais espl&amp;ecirc;ndidos de prosperidade industrial e comercial. O proletariado de Paris atravessa, assim, uma fase de pleno emprego. A lei eleitoral de 31 de maio de 1850, abolindo o sufr&amp;aacute;gio universal, por&amp;eacute;m, o excluiu de qualquer participa&amp;ccedil;&amp;atilde;o no poder pol&amp;iacute;tico. Deixando-se dirigir pelos democratas e esquecendo os interesses revolucion&amp;aacute;rios de sua classe por um bem-estar moment&amp;acirc;neo, os oper&amp;aacute;rios renunciaram &amp;agrave; se tomarem uma for&amp;ccedil;a vencedora. A lei de 31 de maio de 1850 era o golpe de Estado da burguesia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lei de 31 de maio era, portanto, uma das necessidades da luta de classes, fez tudo para retirar a elei&amp;ccedil;&amp;atilde;o do presidente das m&amp;atilde;os do povo e entreg&amp;aacute;-la nas m&amp;atilde;os da Assembl&amp;eacute;ia Nacional. Assim, atrav&amp;eacute;s dessa lei eleitoral, o partido da ordem parecia ter tornado seu dom&amp;iacute;nio duplamente garantido, entregando a elei&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Assembl&amp;eacute;ia Nacional e do presidente da Rep&amp;uacute;blica ao setor mais estacion&amp;aacute;rio da sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez superada a crise revolucion&amp;aacute;ria e abolido o sufr&amp;aacute;gio universal, irrompeu novamente a luta entre a Assembl&amp;eacute;ia Nacional e Bonaparte. A Assembl&amp;eacute;ia Nacional violara a soberania do povo com sua ajuda e aquiesc&amp;ecirc;ncia e ele amea&amp;ccedil;ava denunciar esse crime ao tribunal do povo a menos recebesse por isso. A Assembl&amp;eacute;ia Nacional sem poder romper com o presidente Rep&amp;uacute;blica em um momento em que rompera definitivamente, no fundamental, com a massa da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o, faz concess&amp;otilde;es. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 12 de novembro Bonaparte enviou &amp;agrave; Assembl&amp;eacute;ia Nacional uma mensagem, onde de passagem observava que segundo as disposi&amp;ccedil;&amp;otilde;es da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o s&amp;oacute; o Presidente podia dispor do ex&amp;eacute;rcito. " Acima de tudo a Fran&amp;ccedil;a exige tranq&amp;uuml;ilidade... No que me diz respeito, tendo sido eleito pelo povo e devendo o meu poder exclusivamente a ele, inclinar-me-ei sempre &amp;agrave; sua vontade. No caso de decidirdes, nessa sess&amp;atilde;o, pela revis&amp;atilde;o da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, uma Assembl&amp;eacute;ia constituinte regulamentar&amp;aacute; a situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o do poder executivo. Em caso contr&amp;aacute;rio, ent&amp;atilde;o o povo pronunciar&amp;aacute; solenemente a sua decis&amp;atilde;o em 1852". A lei eleitoral era a esfera de chumbo acorrentada aos p&amp;eacute;s do partido da ordem, que o impedia de andar. Assim, o pr&amp;oacute;prio partido da ordem procurava ansiosamente evitar, mitigar, atenuar qualquer conflito decisivo com o Poder Executivo. O partido parlamentar estava paralisado por um duplo medo, pelo medo de despertar novamente a intranq&amp;uuml;ilidade revolucion&amp;aacute;ria e pelo medo de aparecer ele pr&amp;oacute;prio, aos olhos de sua pr&amp;oacute;pria classe, aos olhos da burguesia, como o instigador da intranq&amp;uuml;ilidade. A passagem do poder militar para as m&amp;atilde;os de Bonaparte encerra o per&amp;iacute;odo da luta entre o partido da ordem e o Poder Executivo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o pretexto de que nenhum partido parlamentar dispunha j&amp;aacute; de maioria, e enquanto esta n&amp;atilde;o se constitu&amp;iacute;a, Bonaparte nomeou, a 12 de janeiro, um minist&amp;eacute;rio dito de transi&amp;ccedil;&amp;atilde;o, Quanto mais inexpressivo fossem os seus ministros, mais manifestamente Bonaparte concentrava em sua pessoa todo o Poder Executivo e maior margem tinha para explor&amp;aacute;-lo para seus pr&amp;oacute;prios interesses. Bonaparte cansou e ludibriou a Assembl&amp;eacute;ia Nacional com constantes reformas ministeriais. Enquanto mantinha assim a tens&amp;atilde;o entre as diferentes fac&amp;ccedil;&amp;otilde;es do partido da ordem, alarmando-as todas com a perspectiva de um minist&amp;eacute;rio republicano e a conseq&amp;uuml;ente restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o inevit&amp;aacute;vel do sufr&amp;aacute;gio universal, instilava ao mesmo tempo na burguesia a convic&amp;ccedil;&amp;atilde;o de que seus esfor&amp;ccedil;os sinceros para formar um minist&amp;eacute;rio parlamentar estavam sendo frustrados pela incapacidade de reconcilia&amp;ccedil;&amp;atilde;o existente entre as fac&amp;ccedil;&amp;otilde;es monarquistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A burguesia, entretanto, clamava ainda mais alto por um "governo forte"; achava tanto mais imperdo&amp;aacute;vel deixar a Fran&amp;ccedil;a "sem administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o" quanto mais parecia agora iminente uma crise comercial geral, que conquistava recrutas para o socialismo nas cidades da mesma forma que o pre&amp;ccedil;o ruinoso do trigo o fazia no campo. Em novembro de 1849 Bonaparte contentara-se com um minist&amp;eacute;rio n&amp;atilde;o-parlamentar, em janeiro de 1851 com um minist&amp;eacute;rio extra parlamentar, e a 11 de abril sentiu-se suficientemente forte para constituir um minist&amp;eacute;rio antiparlamentar, que combinava harmoniosamente em si os votos de censura das duas Assembl&amp;eacute;ias, a Constituinte e a Legislativa, a republicana e a realista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O partido da ordem tinha agora que decidir-se ou a manter inalterada a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o ou a reform&amp;aacute;-la. O partido da ordem era um combinado de subst&amp;acirc;ncias sociais heterog&amp;ecirc;neas e a quest&amp;atilde;o da revis&amp;atilde;o gerou urna temperatura pol&amp;iacute;tica na qual ele voltou a se decompor em seus elementos primitivos. O interesse dos bonapartistas na revis&amp;atilde;o era simples. Para eles tratava-se, sobretudo, de abolir o artigo 45, que proibia a reelei&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Bonaparte e a prorroga&amp;ccedil;&amp;atilde;o de seus poderes. A posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos republicanos n&amp;atilde;o parecia menos simples. Rejeitavam incondicionalmente qualquer revis&amp;atilde;o. Viam nela uma conspira&amp;ccedil;&amp;atilde;o universal contra a rep&amp;uacute;blica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de posi&amp;ccedil;&amp;otilde;es t&amp;atilde;o definidas o partido da ordem via-se preso em contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es inextric&amp;aacute;veis. Se rejeitasse a reforma estaria pondo em perigo o status quo, uma vez que teria deixado a Bonaparte apenas uma sa&amp;iacute;da, pela for&amp;ccedil;a, e no segundo domingo de maio de 1852, na hora decisiva, estaria entregando a Fran&amp;ccedil;a &amp;agrave; anarquia revolucion&amp;aacute;ria, com um presidente que perdera a autoridade, com um Parlamento que a muito n&amp;atilde;o a possu&amp;iacute;a, e com um povo que se mostrava disposto a reconquist&amp;aacute;-la. Se votasse a favor da reforma constitucional, sabia que votava em v&amp;atilde;o e que teria for&amp;ccedil;osamente que fracassar inconstitucionalmente, se declarasse v&amp;aacute;lida a simples maioria de votos, s&amp;oacute; poderia ent&amp;atilde;o esperar dominar a revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o submetendo-se incondicionalmente ao Poder Executivo, o que tornaria Bonaparte dono da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, da reforma e do pr&amp;oacute;prio partido. Uma reforma apenas parcial, que prorrogasse a autoridade do presidente, prepararia o caminho para a usurpa&amp;ccedil;&amp;atilde;o imperial. Uma revis&amp;atilde;o geral que encurtasse a vida da Rep&amp;uacute;blica lan&amp;ccedil;aria as pretens&amp;otilde;es din&amp;aacute;sticas em inevit&amp;aacute;vel conflito, pois as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es de restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos Bourbons e dos orleanistas eram n&amp;atilde;o s&amp;oacute; diferentes, como se exclu&amp;iacute;am mutuamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdadeira fus&amp;atilde;o da Restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o e da monarquia de julho, foi a rep&amp;uacute;blica parlamentar, na qual se amalgamaram as cores orleanista e legitimista e desapareceram as v&amp;aacute;rias esp&amp;eacute;cies de burgueses, dando lugar ao burgu&amp;ecirc;s propriamente dito, &amp;agrave; esp&amp;eacute;cie burguesa. A tentativa de realizar uma fus&amp;atilde;o de orleanistas e legitimistas,  n&amp;atilde;o s&amp;oacute; fracassara como destru&amp;iacute;ra sua fus&amp;atilde;o parlamentar, sua forma comum republicana, e fragmentara o partido da ordem em seus elementos componentes. Cada uma das duas alas principais, por sua vez, experimentou novo processo de decomposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A reforma da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o n&amp;atilde;o significava sen&amp;atilde;o a manuten&amp;ccedil;&amp;atilde;o do poder presidencial, da mesma forma que a manuten&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o significava apenas a deposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Bonaparte. O Parlamento manifestava-se favor&amp;aacute;vel a ele, mas a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o declarava-se contra o Parlamento. Ele, portanto, agiu de acordo com o Parlamento quando rasgou a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, e de acordo com a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o quando dissolveu o Parlamento. O Parlamento declarara a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, e com ela seu pr&amp;oacute;prio poder, "acima da maioria". Mediante seus votos ab rogara a Constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o e prorrogara o poder presidencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O partido parlamentar n&amp;atilde;o s&amp;oacute; se desdobrara em suas duas grandes fac&amp;ccedil;&amp;otilde;es, cada uma dessas n&amp;atilde;o s&amp;oacute; se subdividiram por sua vez, mas o partido da ordem de dentro do Parlamento se desarticulara do partido da ordem de fora do Parlamento. Os ide&amp;oacute;logos da burguesia, e a pr&amp;oacute;pria burguesia, os representantes e os representados, enfrentavam-se com hostilidade e n&amp;atilde;o mais se compreendiam. A aristocracia financeira tornara-se bonapartista, condenava a luta parlamentar do partido da ordem contra o Poder Executivo como uma perturba&amp;ccedil;&amp;atilde;o da ordem, e comemorava cada vit&amp;oacute;ria do presidente sobre os supostos representantes dela como vit&amp;oacute;rias da ordem. A burguesia industrial irritava-se com as disputas em que o partido da ordem se empenhava no parlamento com o Poder Executivo. Outro setor da burguesia desejava, tendo em vista que Bonaparte j&amp;aacute; se encontrava na presid&amp;ecirc;ncia, que continuasse no posto, a fim de que tudo pudesse prosseguir na mesma rotina de sempre. Os Conselhos Gerais dos Departamentos, aqueles organismos provinciais que representavam a alta burguesia  manifestaram-se quase que por unanimidade pela reforma, e, por conseguinte, contra o Parlamento e a favor de Bonaparte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 10 de outubro, Bonaparte comunicou a seus ministros sua decis&amp;atilde;o de restaurar o sufr&amp;aacute;gio universal. A 16, estes apresentaram sua ren&amp;uacute;ncia. A 4 de novembro, a Assembl&amp;eacute;ia Nacional reiniciou suas sess&amp;otilde;es. No mesmo dia de sua reabertura a Assembl&amp;eacute;ia Nacional recebeu a mensagem de Bonaparte na qual ele exigia a restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o do sufr&amp;aacute;gio universal e a revoga&amp;ccedil;&amp;atilde;o da lei de 31 de maio de 1850. A Assembl&amp;eacute;ia Nacional rejeitou imediatamente o pedido de urg&amp;ecirc;ncia do minist&amp;eacute;rio, e a 13 de novembro, rejeitou o projeto de lei. Rasgou, assim, seu mandato uma vez mais; uma vez mais confirmou o fato de que se transformara, de corpo de representantes livremente eleitos pelo povo, em Parlamento usurpador de uma classe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a derrocada da Rep&amp;uacute;blica parlamentar encerra em si o germe da vit&amp;oacute;ria da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o prolet&amp;aacute;ria, seu resultado imediato e palp&amp;aacute;vel foi a vit&amp;oacute;ria de Bonaparte sobre o Parlamento, do Poder Executivo sobre o Poder Legislativo. No Parlamento a na&amp;ccedil;&amp;atilde;o tornou lei a sua vontade geral, isto &amp;eacute;, tornou sua vontade geral a lei da classe dominante. Renuncia, agora, ante o Poder Executivo, a toda vontade pr&amp;oacute;pria e submete-se aos ditames superiores de uma vontade estranha, curva-se diante da autoridade. O Poder Executivo, em contraste com o Poder Legislativo, expressa a heteronomia de uma na&amp;ccedil;&amp;atilde;o, em contraste com sua autonomia. A Fran&amp;ccedil;a, portanto, parece ter escapado ao despotismo de uma classe apenas para cair sob o despotismo de um indiv&amp;iacute;duo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; profunda. Primeiro aperfei&amp;ccedil;oou o poder do Parlamento, a fim de poder derrub&amp;aacute;-lo. Uma vez conseguido isso, aperfei&amp;ccedil;oa o Poder Executivo, o reduz a sua express&amp;atilde;o mais pura, isola-o, lan&amp;ccedil;a-o contra si pr&amp;oacute;prio como o &amp;uacute;nico alvo, a fim de concentrar todas as suas for&amp;ccedil;as de destrui&amp;ccedil;&amp;atilde;o contra ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o Francesa, em sua tarefa de quebrar todos os poderes independentes - locais, territoriais, urbanos e provinciais - a fim de estabelecer a unifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o civil da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o, tinha for&amp;ccedil;osamente que desenvolver o que a monarquia absoluta come&amp;ccedil;ara: a centraliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, mas ao mesmo tempo o &amp;acirc;mbito, os atributos e os agentes do poder governamental. Napole&amp;atilde;o aperfei&amp;ccedil;oara essa m&amp;aacute;quina estatal. A monarquia legitimista e a monarquia de julho nada mais fizeram do que acrescentar maior divis&amp;atilde;o do trabalho, que crescia na mesma propor&amp;ccedil;&amp;atilde;o em que a divis&amp;atilde;o do trabalho dentro da sociedade burguesa criava novos grupos de interesses e, por conseguinte, novo material para a administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o do Estado. Em sua luta contra a revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a Rep&amp;uacute;blica parlamentar viu-se for&amp;ccedil;ada a consolidar, juntamente com as medidas repressivas, os recursos e a centraliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o do poder governamental. Mas sob a monarquia absoluta, durante a primeira Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o, sob Napole&amp;atilde;o, a burocracia era apenas o meio de preparar o dom&amp;iacute;nio de classe da burguesia. Sob a Restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o, sob Lu&amp;iacute;s Filipe, sob a Rep&amp;uacute;blica parlamentar, era o instrumento da classe dominante, por muito que lutasse por estabelecer seu pr&amp;oacute;prio dom&amp;iacute;nio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Unicamente sob o segundo Bonaparte o Estado parece tornar-se completamente aut&amp;ocirc;nomo. A m&amp;aacute;quina do Estado consolidou a sua posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o em face da sociedade civil. Bonaparte representa uma classe, e justamente a classe mais numerosa da sociedade francesa, os pequenos (Parzellen) camponeses. Assim como os Bourbons representavam a grande propriedade territorial e os Orl&amp;eacute;ans a dinastia do dinheiro, os Bonapartes s&amp;atilde;o a dinastia dos camponeses, ou seja, da massa do povo franc&amp;ecirc;s. O eleito do campesinato n&amp;atilde;o &amp;eacute; o Bonaparte que se curvou ao Parlamento burgu&amp;ecirc;s, mas o Bonaparte que o dissolveu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos membros vivem em condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es semelhantes mas sem estabelecerem rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es multiformes entre si. Na medida em que milh&amp;otilde;es de fam&amp;iacute;lias camponesas vivem em condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es econ&amp;ocirc;micas que as separam umas das outras, e op&amp;otilde;em o seu modo de vida, os seus interesses e sua cultura aos das outras classes da sociedade, estes milh&amp;otilde;es constituem uma classe. Mas na medida em que existe entre os pequenos camponeses apenas uma liga&amp;ccedil;&amp;atilde;o local e em que a similitude de seus interesses n&amp;atilde;o cria entre eles comunidade alguma, liga&amp;ccedil;&amp;atilde;o nacional alguma, nem organiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o pol&amp;iacute;tica, nessa exata medida n&amp;atilde;o constituem uma classe. S&amp;atilde;o, consequentemente, incapazes de fazer valer seu interesse de classe em seu pr&amp;oacute;prio nome, quer atrav&amp;eacute;s de um Parlamento, quer atrav&amp;eacute;s de uma Conven&amp;ccedil;&amp;atilde;o. N&amp;atilde;o podem representar-se, t&amp;ecirc;m que ser representados. Seu representante tem, ao mesmo tempo, que aparecer como seu senhor, como autoridade sobre eles, como um poder governamental ilimitado que os protege das demais classes. A influ&amp;ecirc;ncia pol&amp;iacute;tica dos pequenos camponeses, portanto, encontra sua express&amp;atilde;o final no fato de que o Poder Executivo submete ao seu dom&amp;iacute;nio a sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dinastia de Bonaparte representa n&amp;atilde;o o campon&amp;ecirc;s revolucion&amp;aacute;rio, mas o conservador. Sob a rep&amp;uacute;blica parlamentar a consci&amp;ecirc;ncia moderna e a consci&amp;ecirc;ncia tradicional do campon&amp;ecirc;s franc&amp;ecirc;s disputaram a supremacia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que, agora, provoca a ru&amp;iacute;na do campon&amp;ecirc;s franc&amp;ecirc;s &amp;eacute; precisamente a pr&amp;oacute;pria pequena propriedade, a divis&amp;atilde;o da terra, a forma de propriedade que Napole&amp;atilde;o consolidou na Fran&amp;ccedil;a. Justamente as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es materiais que transformaram o campon&amp;ecirc;s feudal em campon&amp;ecirc;s propriet&amp;aacute;rio, e Napole&amp;atilde;o em imperador. Duas gera&amp;ccedil;&amp;otilde;es bastaram para produzir o resultado inevit&amp;aacute;vel: o arruinamento progressivo da agricultura, o endividamento progressivo do agricultor. A forma "napole&amp;ocirc;nica" de propriedade, que no princ&amp;iacute;pio do s&amp;eacute;culo XIX constitu&amp;iacute;a a condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o para liberta&amp;ccedil;&amp;atilde;o e enriquecimento do campon&amp;ecirc;s franc&amp;ecirc;s, desenvolveu-se no decorrer desse s&amp;eacute;culo na lei da sua escraviza&amp;ccedil;&amp;atilde;o e pauperiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desenvolvimento econ&amp;ocirc;mico da pequena propriedade modificou radicalmente a rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos camponeses para com as demais classes da sociedade. As ra&amp;iacute;zes que a pequena propriedade estabeleceu no solo franc&amp;ecirc;s privaram o feudalismo de qualquer meio de subsist&amp;ecirc;ncia. Mas no decorrer do s&amp;eacute;culo XIX, os senhores feudais foram substitu&amp;iacute;dos pelos usur&amp;aacute;rios urbanos; o imposto feudal referente &amp;agrave; terra foi substitu&amp;iacute;do pela hipoteca; a aristocr&amp;aacute;tica propriedade territorial foi substitu&amp;iacute;da pelo capital burgu&amp;ecirc;s. A pequena propriedade do campon&amp;ecirc;s &amp;eacute; agora o &amp;uacute;nico pretexto que permite ao capitalista retirar lucros, juros e renda do solo, ao mesmo tempo que deixa ao pr&amp;oacute;prio lavrador o cuidado de obter o pr&amp;oacute;prio sal&amp;aacute;rio como puder. Os interesses dos camponeses, portanto, j&amp;aacute; n&amp;atilde;o est&amp;atilde;o mais, em conson&amp;acirc;ncia, mas sim em oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o com os interesses da burguesia, do capital. Por isso os camponeses encontram seu aliado e dirigente natural no proletariado urbano, cuja tarefa &amp;eacute; derrubar o regime burgu&amp;ecirc;s. Mas o governo forte e absoluto &amp;eacute; chamado a defender pela for&amp;ccedil;a essa ordem "material".  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A par&amp;oacute;dia do imp&amp;eacute;rio era necess&amp;aacute;ria para libertar a massa da na&amp;ccedil;&amp;atilde;o francesa do peso da tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o e para desenvolver em forma pura a oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o entre o poder do Estado e a sociedade. Com a ru&amp;iacute;na progressiva da pequena propriedade, desmorona-se a estrutura do Estado erigida sobre ela. A centraliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o do Estado, de que necessita a sociedade moderna, s&amp;oacute; surge das ru&amp;iacute;nas da maquina governamental burocr&amp;aacute;tico-militar forjada em oposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o ao feudalismo. Evidentemente a burguesia n&amp;atilde;o tinha agora outro jeito sen&amp;atilde;o eleger Bonaparte. Como autoridade executiva que se tornou um poder independente, Bonaparte considera sua miss&amp;atilde;o salvaguardar "a ordem burguesa". Mas a for&amp;ccedil;a dessa ordem burguesa est&amp;aacute; na classe m&amp;eacute;dia. Ele se afirma, portanto, como representante da classe m&amp;eacute;dia, e promulga decretos nesse sentido. N&amp;atilde;o obstante, ele s&amp;oacute; &amp;eacute; algu&amp;eacute;m devido ao fato de ter quebrado o poder pol&amp;iacute;tico dessa classe m&amp;eacute;dia e de quebr&amp;aacute;-lo novamente todos os dias. Consequentemente, afirma-se como o advers&amp;aacute;rio do poder pol&amp;iacute;tico e liter&amp;aacute;rio da classe m&amp;eacute;dia. Mas ao proteger seu poder material, gera novamente o seu poder pol&amp;iacute;tico. A causa deve, portanto, ser mantida viva; o efeito, por&amp;eacute;m, onde se manifesta, tem que ser liquidado. Mas isso n&amp;atilde;o pode se dar sem ligeiras confus&amp;otilde;es de causa e efeito, pois em sua m&amp;uacute;tua influ&amp;ecirc;ncia ambos perdem suas caracter&amp;iacute;sticas distintivas. Da&amp;iacute;, novos decretos que apagam a linha divis&amp;oacute;ria. Diante da burguesia Bonaparte se considera ao mesmo tempo representante dos camponeses e do povo em geral, que deseja tornar as classes mais baixas do povo felizes dentro da estrutura da sociedade burguesa. Bonaparte gostaria de aparecer como o benfeitor patriarcal de todas as classes. Mas n&amp;atilde;o pode dar a uma classe sem tirar de outra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impelido pelas exig&amp;ecirc;ncias contradit&amp;oacute;rias de sua situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, Bonaparte lan&amp;ccedil;a a confus&amp;atilde;o em toda a economia burguesa, viola tudo que parecia inviol&amp;aacute;vel &amp;agrave; Revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o de 1848, torna alguns tolerantes em face da revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o, outros desejosos de revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o, e produz uma verdadeira anarquia em nome da ordem. &lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Bibliografia:&lt;br /&gt;MARX, Karl. O 18 Brum&amp;aacute;rio de Lu&amp;iacute;s Bonaparte. In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Textos. Vol. III. S&amp;atilde;o Paulo: Edi&amp;ccedil;&amp;otilde;es Sociais, 1977. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/04/o-18-brumrio-de-luis-bonaparte-marx.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111370765275040888'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111370765275040888'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-111176422468274556</id><published>2005-03-25T12:23:00.000-03:00</published><updated>2005-03-25T12:23:44.683-03:00</updated><title type='text'>(Des)estruturando o público nas políticas de trabalho-educação-saúde</title><content type='html'>&lt;b&gt;UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL&lt;br /&gt;FACULDADE DE EDUCA&amp;Ccedil;&amp;Atilde;O&lt;br /&gt;PROGRAMA DE P&amp;Oacute;S-GRADUA&amp;Ccedil;&amp;Atilde;O EM EDUCA&amp;Ccedil;&amp;Atilde;O&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Linha de pesquisa: Trabalho, Movimentos Sociais e Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;C&amp;oacute;digo da disciplina: EDP53-442		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;T&amp;iacute;tulo da disciplina: S.A.: (Des)estruturando o p&amp;uacute;blico nas pol&amp;iacute;ticas de trabalho-educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o-sa&amp;uacute;de 		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Professor/a Respons&amp;aacute;vel: Carmen Lucia Bezerra Machado		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disciplina aberta: &lt;br /&gt;( ) Alunos Regulares &lt;br /&gt;( x ) Alunos de Outros PPGs /UFRGS &lt;br /&gt;( ) Alunos PEC &lt;br /&gt;N&amp;ordm; total de vagas na disciplina(*):&lt;br /&gt;(*) n&amp;uacute;mero de vagas entre alunos regulares, outros PPGs e PEC		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disciplina restrita (*): &lt;br /&gt;(*) identificar alunos autorizados a efetuarem matr&amp;iacute;cula&lt;br /&gt;Alunos da turma de Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e Sa&amp;uacute;de, vinculados a os Programas de P&amp;oacute;s Gradua&amp;ccedil;&amp;atilde;o da FAMED e orientandos.&lt;br /&gt;N&amp;ordm; alunos: ______		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se solicitar entrevista para candidatos PEC: &lt;br /&gt;(Data/Hor&amp;aacute;rio): N&amp;atilde;o s&amp;atilde;o previstas vagas PEC &lt;br /&gt;E-mail para contato: _______________________		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hor&amp;aacute;rio da disciplina: segundas feiras das 13h30 as 17h30&lt;br /&gt;Um encontro mensal aos s&amp;aacute;bados pela manh&amp;atilde;.	Carga-hor&amp;aacute;ria:&lt;br /&gt;45	Cr&amp;eacute;ditos: &lt;br /&gt;3&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;S&amp;uacute;mula / ementa: &lt;br /&gt;Analisar as pol&amp;iacute;ticas p&amp;uacute;blicas que envolvem trabalho-educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o-sa&amp;uacute;de em suas implica&amp;ccedil;&amp;otilde;es te&amp;oacute;rico-pol&amp;iacute;ticas para a forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o de profissionais ligados &amp;aacute; educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e sa&amp;uacute;de, problematizando os conceitos de cuidado, de integralidade, e de democratiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da sa&amp;uacute;de.		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Objetivos: &lt;br /&gt;¨Atendendo &amp;agrave;s necessidades dos orientando que desenvolvem suas disserta&amp;ccedil;&amp;otilde;es e teses na &amp;aacute;rea de conhecimento da sa&amp;uacute;de, promover o debate instrumentalizado das pol&amp;iacute;ticas p&amp;uacute;blicas que envolvem a conex&amp;atilde;o entre as tr&amp;ecirc;s &amp;aacute;reas: trabalho, educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e sa&amp;uacute;de. &lt;br /&gt;¨Criar um espa&amp;ccedil;o de di&amp;aacute;logo entre profissionais da &amp;aacute;rea da sa&amp;uacute;de contribuindo para a produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o de novos conhecimentos.&lt;br /&gt;		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Programa (conte&amp;uacute;do):&lt;br /&gt;¨Examinar os processos de forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o no campo da sa&amp;uacute;de, no cotidiano de suas institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es, envolvido com a gest&amp;atilde;o ou planejamento de processos educativos. Conhecer alguns dos principais pensadores e atores dos modernos processos de transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o educacional em sa&amp;uacute;de no Brasil, que constituem a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o superior em sa&amp;uacute;de. &lt;br /&gt;¨Refletir sobre os resultantes das a&amp;ccedil;&amp;otilde;es educacionais de importantes institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es de n&amp;iacute;vel superior no pa&amp;iacute;s. Examinar a l&amp;oacute;gica da racionalidade cient&amp;iacute;fica e, em especial, da raz&amp;atilde;o m&amp;eacute;dica como respons&amp;aacute;veis pelo estilha&amp;ccedil;amento tamb&amp;eacute;m do sujeito que produz conhecimento, na responsabilidade de resgatarmos sentidos, valores e significados da humanidade do homem.&lt;br /&gt;¨Refletir sobre os esfor&amp;ccedil;os de um grupo de pesquisadores do campo da sa&amp;uacute;de coletiva que, nos &amp;uacute;ltimos quatro anos, em suas tarefas de ensino e pesquisa, tem-se dedicado a discutir o tema "integralidade" e, ao mesmo tempo, proporcionar subs&amp;iacute;dios para novas abordagens cr&amp;iacute;ticas sobre a constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o de saberes e pr&amp;aacute;ticas em sa&amp;uacute;de relacionados &amp;agrave; integralidade e, agora, com suas fronteiras: o cuidado . 		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;M&amp;eacute;todo de trabalho (principais atividades):&lt;br /&gt;Semin&amp;aacute;rios e aulas expositivo-dialogadas. 		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procedimentos e/ou crit&amp;eacute;rios de avalia&amp;ccedil;&amp;atilde;o:&lt;br /&gt;¨Observa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e acompanhamento sistem&amp;aacute;tico das leituras e participa&amp;ccedil;&amp;otilde;es nos semin&amp;aacute;rios;&lt;br /&gt;¨Produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o textual de artigo com vistas &amp;agrave; publica&amp;ccedil;&amp;atilde;o;&lt;br /&gt;¨Di&amp;aacute;logo avaliativo da disciplina com o grupo de alunos.		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bibliografia recomendada: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BRASIL. Minist&amp;eacute;rio de Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Doc 2003/2004.&lt;br /&gt;BRASIL. Minist&amp;eacute;rio de Sa&amp;uacute;de. Doc 2003/2004.&lt;br /&gt;BRASIL. Minist&amp;eacute;rio de Trabalho. Doc 2003/2004.&lt;br /&gt;LUZ, Madel T. Natural, Racional, Social: raz&amp;atilde;o m&amp;eacute;dica e racionalidade cient&amp;iacute;fica moderna. S&amp;atilde;o Paulo: HUCITEC, 2004. 209pp&lt;br /&gt;MACHADO, Carmen L. B. MANFROI, Waldomiro. A pr&amp;aacute;tica educativa. Porto Alegre: Da Casa/ PROMED/FAMED, 2005.&lt;br /&gt;MARINS, Jo&amp;atilde;o Jos&amp;eacute; Neves et al. Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o M&amp;eacute;dica em Transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o: instrumentos para a constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o de novas realidades. S&amp;atilde;o Paulo: HUCITEC, 2004. 390pp&lt;br /&gt;PINHEIRO, Roseni; MATTOS, Ruben Araujo de (org) Cuidado: as Fronteiras da Integralidade S&amp;atilde;o Paulo: HUCITEC, 2004. 319pp.&lt;br /&gt;		&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/03/desestruturando-o-pde.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111176422468274556'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/111176422468274556'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-110825598652214587</id><published>2005-02-12T22:53:00.000-02:00</published><updated>2005-02-12T22:57:56.113-02:00</updated><title type='text'>Disciplina 2005/1</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL&lt;br /&gt;FACULDADE DE EDUCA&amp;Ccedil;&amp;Atilde;O&lt;br /&gt;PROGRAMA DE P&amp;Oacute;S-GRADUA&amp;Ccedil;&amp;Atilde;O EM EDUCA&amp;Ccedil;&amp;Atilde;O&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Linha de pesquisa&lt;/b&gt;: Trabalho, Movimentos Sociais e Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o &lt;br /&gt;&lt;b&gt;C&amp;oacute;digo da disciplina&lt;/b&gt;: EDP53-443&lt;br /&gt;&lt;b&gt;T&amp;iacute;tulo da disciplina&lt;/b&gt;: S.A.:Relendo cl&amp;aacute;ssicos: entre os mitos e o humano, Marx, Engels e Gramsci&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Professora Respons&amp;aacute;ve&lt;/b&gt;l: Carmen Lucia Bezerra Machado&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Hor&amp;aacute;rio da disciplina&lt;/b&gt;: ter&amp;ccedil;as feiras da 14 as 18 horas    &lt;b&gt;Carga-hor&amp;aacute;ria&lt;/b&gt;: 60 h-a   &lt;b&gt;Cr&amp;eacute;ditos:&lt;/b&gt; 4&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;S&amp;uacute;mula/ementa&lt;/b&gt;: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o de conceitos sustentada numa vis&amp;atilde;o materialista hist&amp;oacute;rico-dial&amp;eacute;tica da rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o trabalho e capital, em algumas &amp;aacute;reas do conhecimento como: pol&amp;iacute;tica, hist&amp;oacute;ria, ci&amp;ecirc;ncia, educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, m&amp;eacute;todo, a partir da leitura e debate de algumas obras de Marx e Engels e de Gramsci, dialogando com seus int&amp;eacute;rpretes, na busca de superar os mitos e reconhecer o humano que neles vive.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt; &lt;br /&gt;&lt;b&gt;Plano de Trabalho&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;Justificativa &lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A disciplina Relendo cl&amp;aacute;ssicos: entre os mitos e o humano, Marx, Engels e Gramsci, d&amp;aacute; continuidade a estudos que v&amp;ecirc;m sendo desenvolvidos pelos professores vinculados ao TRAMSE no PPGEDU, e, corresponde a uma demanda de orientandos de mestrado e doutorado deste programa de p&amp;oacute;s-gradua&amp;ccedil;&amp;atilde;o, que constr&amp;oacute;em a base te&amp;oacute;rico-metodol&amp;oacute;gica dos seus projetos de pesquisa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Objetivo Geral&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;div align="justify"&gt;Oportunizar a mestrandos e doutorandos a leitura de algumas obras de Marx e Engels e de Gramsci que permitam a constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o de conceitos, acerca da rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o trabalho e capital, em algumas &amp;aacute;reas como: pol&amp;iacute;tica, hist&amp;oacute;ria, ci&amp;ecirc;ncia, educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e m&amp;eacute;todo que coloque de lado os mitos para redescobrir o humano em cada um dos autores.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt; &lt;br /&gt;&lt;b&gt;Programa (conte&amp;uacute;do):&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O processo de transforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o do campon&amp;ecirc;s medieval em oper&amp;aacute;rio fabril: a expropria&amp;ccedil;&amp;atilde;o da terra e a explora&amp;ccedil;&amp;atilde;o do trabalho pelo capital; constitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o e movimento das classes sociais; conceitos de trabalho, aliena&amp;ccedil;&amp;atilde;o e hist&amp;oacute;ria; o trabalho como princ&amp;iacute;pio educativo; o papel do intelectual; sal&amp;aacute;rio; subsun&amp;ccedil;&amp;atilde;o formal e real ao capital; a mercadoria; coopera&amp;ccedil;&amp;atilde;o, manufatura, maquinaria e industria moderna; ci&amp;ecirc;ncia e tecnologia; quantidade e qualidade; jornada de trabalho; m&amp;eacute;todo da economia pol&amp;iacute;tica. Rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos conte&amp;uacute;dos com processos educativos formais e n&amp;atilde;o-formais, com processos sociais de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o de cultura e pol&amp;iacute;tica como trabalho no tempo da constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o humana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt; &lt;br /&gt;&lt;b&gt;M&amp;eacute;todo de trabalho&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A disciplina ser&amp;aacute; ministrada sob forma de Semin&amp;aacute;rio. As leituras ser&amp;atilde;o agendadas e a cada semana dois alunos ser&amp;atilde;o respons&amp;aacute;veis pela apresenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o de breve s&amp;iacute;ntese e ser&amp;atilde;o sorteados tr&amp;ecirc;s alunos para problematizarem a apresenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o e as id&amp;eacute;ias dos autores. Sempre que se fizer necess&amp;aacute;rio momentos de aulas expositivas e de di&amp;aacute;logo com alunos, sobre o conte&amp;uacute;do discriminado no cronograma, ser&amp;atilde;o utilizadas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Procedimentos e/ou crit&amp;eacute;rios de avalia&amp;ccedil;&amp;atilde;o&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;div align="justify"&gt;A avalia&amp;ccedil;&amp;atilde;o da disciplina ser&amp;aacute; realizada utilizando como instrumentos a observa&amp;ccedil;&amp;atilde;o: da participa&amp;ccedil;&amp;atilde;o do/a aluno/a, a partir da leitura pr&amp;eacute;via das obras recomendadas e, atrav&amp;eacute;s da reda&amp;ccedil;&amp;atilde;o de texto em que sejam definidos os principais conceitos, trabalhados durante a disciplina e que possam ser usados, como suporte anal&amp;iacute;tico, nas pesquisas para a realiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o da disserta&amp;ccedil;&amp;atilde;o ou da tese.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Bibliografia recomendada&lt;/b&gt;: &lt;br /&gt;GRAMSCI, Antonio. Cadernos de C&amp;aacute;rcere. Rio de Janeiro: Civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o Brasileira, 2001. Vol. 1 a 6.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GRAMSCI, Antonio. Cartas. Rio de Janeiro: Civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o Brasileira, 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl. O Capital. (Cr&amp;iacute;tica da Economia Pol&amp;iacute;tica). O processo de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o do capital. Livros 1 e 2. v. 1 e 2. 8. ed. S&amp;atilde;o Paulo: Difel, 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl. O Capital &amp;#8211; Cr&amp;iacute;tica da Economia Pol&amp;iacute;tica. O processo global de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o capitalista. Livro 3. v. IV. S&amp;atilde;o Paulo: Difel, 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl. O Capital. (Cr&amp;iacute;tica da Economia Pol&amp;iacute;tica). O processo global de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o capitalista.  Livro 3. v. 6. 3. ed. Rio de Janeiro: Civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o Brasileira, 1981.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl. Cap&amp;iacute;tulo VI In&amp;eacute;dito de O Capital. Resultados do processo de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o imediata. S&amp;atilde;o Paulo: Moraes, 1985.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl. O Dezoito Brum&amp;aacute;rio e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl. As lutas de classe em Fran&amp;ccedil;a. Lisboa: Editorial Avante, 1982.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl. Manuscritos Econ&amp;ocirc;mico-Filos&amp;oacute;ficos. Lisboa: Edi&amp;ccedil;&amp;otilde;es 70, 1993.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl. Contribui&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave; Cr&amp;iacute;tica da Economia Pol&amp;iacute;tica. 2. ed. S&amp;atilde;o Paulo: Martins Fontes, 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl &amp; ENGELS, Friedrich. Obras Escolhidas. vol. 1 e 2. S&amp;atilde;o Paulo: Martins Fontes, s/d.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl &amp; ENGELS, Friedrich. Textos sobre Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e Ensino. S&amp;atilde;o Paulo: Moraes, 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl &amp; ENGELS, Friedrich. Hist&amp;oacute;ria. Textos selecionados organizados pot Florestan Fernandes. S&amp;atilde;o Paulo: &amp;Aacute;tica, 1989.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARX, Karl &amp; ENGELS, Friedrich. Cr&amp;iacute;tica da Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e do Ensino. Lisboa: Moraes, 1978.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;WHEEN, Francis. Karl Marx. Rio de Janeiro: Record, 2001. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2005/02/disciplina-20051.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/110825598652214587'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/110825598652214587'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-110187704400664374</id><published>2004-12-01T02:57:00.000-02:00</published><updated>2004-12-01T02:57:24.006-02:00</updated><title type='text'>COMPETÊNCIA PARA SER FELIZ UMA ABORDAGEM CRÍTICA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA</title><content type='html'>Humberto Cunha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aplica&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Inform&amp;aacute;tica &amp;agrave; produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o pede que a escola forme indiv&amp;iacute;duos de grande cultura geral, criativos e &amp;aacute;geis para localizar a informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o onde ela estiver; a especializa&amp;ccedil;&amp;atilde;o nos detalhes faz-se no interior da empresa. Livrando-se do mito de que educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; "ensinamento", a escola pode ajudar o aluno a formar valores e a aprender como aprender, para que ele construa e reconstrua o conhecimento ao longo da vida. Com isto, a escola rep&amp;otilde;e sua necessidade e contorna a tend&amp;ecirc;ncia de ser substitu&amp;iacute;da pelos sistemas de comunica&amp;ccedil;&amp;atilde;o social e informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e pelos servi&amp;ccedil;os de treinamento das empresas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;He application of the Computation to the production, requires a school wich prepares people with general culture, creativity and agility to localize the information where it was; the specialization in the details is made inside the enterprise. If the school could be free of the myth what the education is only to teach, it can helps the students to form values and to learn how learn, in order to construct and reconstruct the knowledge during their lives. In this case, the school can evidence its own necessity and surround the tendence of its substitution by the social communication and information systems and by the corporation training services.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;EDUCA&amp;Ccedil;&amp;Atilde;O PARA A COMPET&amp;Ecirc;NCIA E A GLOBALIZA&amp;Ccedil;&amp;Atilde;O&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Reflex&amp;atilde;o acerca da globaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o e da emerg&amp;ecirc;ncia da Sociedade do Conhecimento e da Informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o nos questiona sobre a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o brasileira. Desde a incorpora&amp;ccedil;&amp;atilde;o da Ci&amp;ecirc;ncia &amp;agrave; produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o, no s&amp;eacute;culo passado, n&amp;atilde;o v&amp;iacute;amos uma altera&amp;ccedil;&amp;atilde;o t&amp;atilde;o radical das bases da vida social quanto o surgimento da Inform&amp;aacute;tica e ci&amp;ecirc;ncias correlatas e a sua aplica&amp;ccedil;&amp;atilde;o pr&amp;aacute;tica &amp;agrave; ind&amp;uacute;stria, &amp;agrave; agricultura, &amp;agrave; arquivologia e a tantos campos quantos s&amp;atilde;o os ramos da produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o e as formas da vida social, no parecer de Jorge Gerdau Johannpeter em entrevista com Lurdete Ertel (1995, p. 45-47).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As formas tradicionais de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o do conhecimento, onde avulta o mundo do trabalho, s&amp;atilde;o agora capitalizadas pela Universidade, transformada em usina do conhecer. Os conhecimentos s&amp;atilde;o sistematizados como informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e locados no ciberespa&amp;ccedil;o, acess&amp;iacute;vel, em tese, a quem tenha um computador &amp;agrave; disposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &amp;Agrave; medida que acelera o processo de constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o do conhecimento e a sua informatiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, devemos refletir que o tipo de profissional que ser&amp;aacute; mais procurado pelas empresas no in&amp;iacute;cio do s&amp;eacute;culo XXI ser&amp;aacute; o "Navegador de Internet". Cabe a pergunta: num sistema educacional que diz formar profissionais para o mercado, que escolas est&amp;atilde;o, seriamente, preparando cibernautas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As empresas necessitam que a escola forme indiv&amp;iacute;duos de grande cultura geral, criativos e &amp;aacute;geis para localizar a informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o onde ela estiver, de prefer&amp;ecirc;ncia antes dos concorrentes. A tend&amp;ecirc;ncia mundial &amp;eacute; que a especializa&amp;ccedil;&amp;atilde;o nos detalhes se fa&amp;ccedil;a no interior da empresa, conforme os empres&amp;aacute;rios Gerdau Johannpeter e Luiz Carlos Mandelli:&lt;br /&gt;Da&amp;iacute; a necessidade emergente de investimentos em educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Ao Estado cabe propiciar uma educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o b&amp;aacute;sica de qualidade, para que as pessoas possam ter acesso ao processo econ&amp;ocirc;mico. Agora, dali para adiante, a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o passa a ser uma quest&amp;atilde;o de investimento individual, em que cada um tem que fazer suas op&amp;ccedil;&amp;otilde;es. O Estado tem que promover financiamentos e linhas de cr&amp;eacute;dito, mas quem tem de fazer um ajuste permanente &amp;agrave;s condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es din&amp;acirc;micas da evolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o do mercado &amp;eacute; o indiv&amp;iacute;duo ou empres&amp;aacute;rio. As estruturas de educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o tamb&amp;eacute;m precisam ser modificadas, porque as estruturas convencionais j&amp;aacute; n&amp;atilde;o se ajustam &amp;agrave;s novas exig&amp;ecirc;ncias do mercado e dos consumidores (JOHANNPETER, 1995, p. 49).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro deste contexto, as empresas no futuro, em todas as &amp;aacute;reas, v&amp;atilde;o se transformar no que os americanos chamam de learning organizations - organiza&amp;ccedil;&amp;otilde;es de aprendizagem. Empresas que ensinam a toda sua cadeia os detalhes de sua opera&amp;ccedil;&amp;atilde;o e trazem a especializa&amp;ccedil;&amp;atilde;o naquilo que fazem. As empresas que j&amp;aacute; praticam esse car&amp;aacute;ter did&amp;aacute;tico na sua atividade t&amp;ecirc;m colhido excelentes resultados. Vejo como algo constante na vida das empresas no futuro o treinamento e o ensino a seus funcion&amp;aacute;rios de detalhes inerentes &amp;agrave; sua pr&amp;oacute;pria opera&amp;ccedil;&amp;atilde;o (MANDELLI, 1995, p. 62-63).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reflitamos sobre a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e o cotidiano em Porto Alegre. Se pararmos alguns minutos na Avenida Prot&amp;aacute;sio Alves, ao lado do Hospital de Cl&amp;iacute;nicas, veremos algumas pessoas tr&amp;ocirc;pegas ou convalescentes apanhando t&amp;aacute;xis ou lota&amp;ccedil;&amp;otilde;es, enquanto irados motoristas de autos particulares estar&amp;atilde;o buzinando atr&amp;aacute;s dos t&amp;aacute;xis e fazendo gestos de impertin&amp;ecirc;ncia face &amp;agrave; demora dos doentes. Eles n&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m no&amp;ccedil;&amp;atilde;o de &amp;eacute;tica, de solidariedade social? Certamente, todos eles passaram por bancos escolares. Talvez, em tempos recentes, talvez, antes. N&amp;atilde;o aprenderam as normas da conviv&amp;ecirc;ncia? Mas, era para ensinar? Isto n&amp;atilde;o &amp;eacute; fun&amp;ccedil;&amp;atilde;o da fam&amp;iacute;lia? Retoma-se a velha disputa entre as leis do oik&amp;oacute;s e as leis da p&amp;oacute;lis. Esta disputa, nem Ant&amp;iacute;gona resolveu (SILVA, 1995). Nem Ant&amp;iacute;gona, nem a nova LDB, diga-se, a t&amp;iacute;tulo de registro.&lt;br /&gt;O fato de por-se como sistema de "ensino", informativo, j&amp;aacute; &amp;eacute; question&amp;aacute;vel (DEMO, 1997). Estando a informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o dispon&amp;iacute;vel nas nets computadorizadas ou televisivas ou em CD-ROM's, parte da antiga tarefa da escola foi absorvida pelos computadores. Resta saber qual a fun&amp;ccedil;&amp;atilde;o da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o atual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;Eacute; preciso questionar n&amp;atilde;o s&amp;oacute; como se est&amp;aacute; fazendo educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, mas, especialmente, qual o conte&amp;uacute;do da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o que se realiza. Por qu&amp;ecirc; n&amp;atilde;o pensar em constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o de valores, em sistemas de forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o, abertos &amp;agrave; constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o de uma permanente aprendizagem da aprendizagem? Livrando-se do mito de que a escola pode ensinar o que o aluno precisa aprender para a vida; ajudando-o a aprender como aprender, para que ele fa&amp;ccedil;a e refa&amp;ccedil;a a aprendizagem daquilo que necessita ao longo da vida, a escola esquiva-se do sucateamento e da substitui&amp;ccedil;&amp;atilde;o in totum pelos departamentos de ensino das empresas e pelos sistemas de comunica&amp;ccedil;&amp;atilde;o social e informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que o nosso problema, que subjaz &amp;agrave;s quest&amp;otilde;es visualizadas, diz respeito ao ordenamento dos sistemas educacionais enquanto formadores das compet&amp;ecirc;ncias e das incompet&amp;ecirc;ncias socialmente desejadas. Dizer compet&amp;ecirc;ncia significa dizer "compet&amp;ecirc;ncia para". A compet&amp;ecirc;ncia &amp;eacute; a capacidade de responder a expectativas estabelecidas. N&amp;atilde;o faz sentido falar em "compet&amp;ecirc;ncia em si" ou em "compet&amp;ecirc;ncia para si". Os sistemas escolares ser&amp;atilde;o competentes para (e se) realizarem a&amp;ccedil;&amp;otilde;es de refor&amp;ccedil;o aos sistemas econ&amp;ocirc;micos, &amp;agrave;s suas classes dirigentes. Preparar as incompet&amp;ecirc;ncias (isto &amp;eacute;, as semi-compet&amp;ecirc;ncias) para funcionar como "ex&amp;eacute;rcito de reserva" do mundo do trabalho pode ser um efeito desejado pelas classes dominantes (FREITAG, 1980, p.118).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo da hist&amp;oacute;ria, a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; um fazer contingenciado (MANACORDA, 1992), nunca se fez "a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o pela Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o". No Egito Antigo, o sistema escolar mais antigo da linha geneal&amp;oacute;gica da cultura do Ocidente, a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o limita-se a "ensinar a nadar com os filhos do Rei". Numa sociedade &amp;agrave; beira de um grande rio, que pro&amp;iacute;be ao seu povo aprender a nata&amp;ccedil;&amp;atilde;o, s&amp;oacute; quem sabe nadar pode dizer a Palavra e a Palavra &amp;eacute; fonte de Poder. Quem nada com os filhos do Rei torna-se filho do Rei e diz a Palavra ordenadora da produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o e da vida social. A compet&amp;ecirc;ncia que se espera do pedagogo &amp;eacute; que ensine aos filhos do Rei, de modo que eles saibam e possam sobre uma maioria que n&amp;atilde;o sabe e n&amp;atilde;o pode.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A compet&amp;ecirc;ncia, sendo "compet&amp;ecirc;ncia para", pode produzir reservas de entendimento. Se fosse poss&amp;iacute;vel colocarmos frente a frente, em debate, dois pedagogos de momentos distintos do mesmo Egito Antigo, diria o mais antigo: "A compet&amp;ecirc;ncia &amp;eacute; nadar com os filhos do Rei, cumprir fielmente as determina&amp;ccedil;&amp;otilde;es do Pai e realizar as tarefas do Pal&amp;aacute;cio"; responderia o menos antigo: "Engano. A compet&amp;ecirc;ncia &amp;eacute; dominar os algoritmos da escrita, relatar tudo o que v&amp;ecirc;, sem tirar nem por. A excel&amp;ecirc;ncia &amp;eacute; o of&amp;iacute;cio do escriba, que deve, por isto, ser chamado o Of&amp;iacute;cio dos of&amp;iacute;cios".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisamos refletir acerca do papel do educador al&amp;eacute;m da compet&amp;ecirc;ncia e da produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o de compet&amp;ecirc;ncias. A compet&amp;ecirc;ncia n&amp;atilde;o livra do equ&amp;iacute;voco o profissional competente. O europeu branco, ao imbuir-se da excel&amp;ecirc;ncia da sua f&amp;eacute; e da compet&amp;ecirc;ncia da tecnologia da p&amp;oacute;lvora, que ele domina, destr&amp;oacute;i nas Am&amp;eacute;ricas uma cultura mais avan&amp;ccedil;ada que a sua, que, todavia, n&amp;atilde;o conhece a p&amp;oacute;lvora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Europa feudal, nem todos s&amp;atilde;o cavaleiros. A educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o limita-se a alguns ensinamentos para a maioria do povo. Os camponeses s&amp;atilde;o servos da terra e aprendem com os pais alguns tratos seculares, qui&amp;ccedil;&amp;aacute; milenares, para a produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o de culturas de interesse do senhor. Os filhos dos oper&amp;aacute;rios, e algumas outras crian&amp;ccedil;as talentosas, moram na casa do seu mestre artes&amp;atilde;o, com quem aprendem o saber corporativo. Em ambos os casos, &amp;eacute; de largo uso a "pedagogia do chicote".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os filhos dos nobres preparam-se para a vida de cavaleiros, e, por isto, t&amp;ecirc;m de dominar as t&amp;eacute;cnicas do combate e do debate. Precisam ser criativos, e a sua educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o comp&amp;otilde;e-se de ensino e forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &amp;Eacute;-lhes exigido que aprendam a esgrima, a equita&amp;ccedil;&amp;atilde;o, as t&amp;eacute;cnicas do combate corpo-a-corpo e as t&amp;eacute;cnicas e artes da guerra, para que possam obter o m&amp;aacute;ximo rendimento dos diversos segmentos de um ex&amp;eacute;rcito e do seu conjunto. Se perdem ou se ganham a guerra, t&amp;ecirc;m de agir como embaixadores, redigindo cl&amp;aacute;usulas e assinando armist&amp;iacute;cios. Tudo embalado por toques de valsa e festivais de dan&amp;ccedil;a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os saberes da Idade M&amp;eacute;dia, na Europa, j&amp;aacute; s&amp;atilde;o saberes diferenciados. Cavaleiros e alde&amp;otilde;es possuem diferentes compet&amp;ecirc;ncias e, portanto, exige-se compet&amp;ecirc;ncias diversas dos diversos pedagogos.&lt;br /&gt;Por motivos causais e outros casuais, o panorama europeu no final da Idade M&amp;eacute;dia est&amp;aacute; assim: 1) a Pen&amp;iacute;nsula Ib&amp;eacute;rica est&amp;aacute; adiantada nas t&amp;eacute;cnicas da navega&amp;ccedil;&amp;atilde;o; 2) a Inglaterra amealha tecnologias e capitais para a implanta&amp;ccedil;&amp;atilde;o das suas f&amp;aacute;bricas; 2) enquanto a Fran&amp;ccedil;a &amp;eacute; uma f&amp;aacute;brica de ideologias e pr&amp;aacute;ticas pol&amp;iacute;ticas inovadoras. Essa "divis&amp;atilde;o do trabalho" historicamente estabelecida cria as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es para o surgimento de um novo modo de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o e de um novo modo de vida: o Capitalismo e a Modernidade haurem suas ra&amp;iacute;zes na apropria&amp;ccedil;&amp;atilde;o da prata, do ouro e de bens culturais da popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o das col&amp;ocirc;nias dos diversos continentes, acrescida da n&amp;oacute;doa hist&amp;oacute;rica, indel&amp;eacute;vel e irremov&amp;iacute;vel da escravid&amp;atilde;o negra. &amp;Eacute; no contexto desta divis&amp;atilde;o que os ib&amp;eacute;ricos singram os mares, trazendo as contradi&amp;ccedil;&amp;otilde;es do Velho Continente para o outro lado dos Oceanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nosso "descobrimento", a efetiva&amp;ccedil;&amp;atilde;o de uma Col&amp;ocirc;nia lusitana em terras do Brasil, d&amp;aacute;-se pela mais monumental "grilagem" de terra de que a Hist&amp;oacute;ria tem not&amp;iacute;cia, da qual, todos os conflitos que a nossa sociedade passa a viver nos s&amp;eacute;culos posteriores &amp;eacute; decorr&amp;ecirc;ncia. A a&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos estabelecimentos educacionais da Col&amp;ocirc;nia &amp;eacute; realizada atrav&amp;eacute;s da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o jesu&amp;iacute;tica, conformista para os povos aut&amp;oacute;ctones, formadora de quadros para a Administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o Colonial. Portugal administra a rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o Europa-Metr&amp;oacute;pole-Col&amp;ocirc;nia de modo a n&amp;atilde;o permitir o surgimento de ind&amp;uacute;stria ou com&amp;eacute;rcio local. Pelo sistema do Exclusivo Colonial, os comerciantes portugueses realizam todo o interc&amp;acirc;mbio, restando &amp;agrave; popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o residente, junto com as demais col&amp;ocirc;nias nos v&amp;aacute;rios continentes, participar da acumula&amp;ccedil;&amp;atilde;o primitiva do Capital como simples contribuintes, fornecedores da base monet&amp;aacute;ria do Capital inicial (MARX, 1974, 1981). A compet&amp;ecirc;ncia do sistema educacional, nestas condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es, &amp;eacute; "amansar" o &amp;iacute;ndio e bacharelar a elite dirigente para executar os planos da Metr&amp;oacute;pole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa tribo ind&amp;iacute;gena, todos s&amp;atilde;o competentes. As crian&amp;ccedil;as s&amp;atilde;o competentes para certas coisas, os adultos s&amp;atilde;o competentes para outras coisas. Se um indiv&amp;iacute;duo cresce cronologicamente, mas n&amp;atilde;o atinge compet&amp;ecirc;ncias adultas, permanece crian&amp;ccedil;a e &amp;eacute; competente com as crian&amp;ccedil;as, nos misteres de crian&amp;ccedil;a. A civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o fragmenta o ser humano: ou se &amp;eacute; burgu&amp;ecirc;s, ou oper&amp;aacute;rio; ou propriet&amp;aacute;rio, ou sem-terra; ou morador, ou sem-teto. Ou urbano, ou selvagem: a&amp;iacute; se funda uma educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o preconceituosa, em que "a lei da selva" &amp;eacute; apresentada como o ruim e a "cidade" o bom1.&lt;br /&gt;Entretanto, &amp;eacute; essa civiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o que cria o estupro, os gulags, os Holocaustos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A exig&amp;ecirc;ncia dessa compet&amp;ecirc;ncia para servir interesses alien&amp;iacute;genas tem sido a marca da vida social e do sistema educacional brasileiros. Somente nos &amp;uacute;ltimos sessenta anos colocam-se as condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es hist&amp;oacute;ricas de uma disputa para a busca de novas expectativas de uma outra compet&amp;ecirc;ncia (Freitag, 1980).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De 1930 para c&amp;aacute;, navegamos atrav&amp;eacute;s de duas ditaduras, uma Guerra Mundial e um pouquinho de democracia. Trata-se de um tempo de "moderniza&amp;ccedil;&amp;atilde;o conservadora", no qual se forma uma elite retardat&amp;aacute;ria e s&amp;oacute;cia minorit&amp;aacute;ria do Capital mundial. Vivemos ainda um modo de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o que faz largo uso de processos produtivos baseados em mais-valia absoluta. Enquanto isto, os pa&amp;iacute;ses do Centro do sistema apoiam-se especialmente na cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o de mais-valia relativa e esta forma de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o tende a globalizar-se e a influir na distribui&amp;ccedil;&amp;atilde;o social do usufruto da renda, como se pode observar nesta reflex&amp;atilde;o de Tarso Genro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O valor trabalho, tomado no seu sentido tradicional, ser&amp;aacute; cada vez mais relativizado nas sociedades altamente desenvolvidas e em algumas atividades o pr&amp;oacute;prio tempo livre ser&amp;aacute; cada vez maior. &amp;Eacute; certo, tamb&amp;eacute;m, que o trabalho "produtivo" ser&amp;aacute; cada vez menor e mais repartido entre os vendedores da for&amp;ccedil;a de trabalho. Isso exige pensar que n&amp;atilde;o seja justo, portanto, que somente o trabalho, isoladamente, seja a medida absoluta para responder &amp;agrave;s necessidades de cada sujeito prestador (GENRO, 1995, p. 113).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste sentido, estamos repetindo os esquemas de sempre: nossa elite &amp;eacute; caudat&amp;aacute;ria e as benesses econ&amp;ocirc;micas chegam atrasadas e para poucos, enquanto se espera do sistema educacional que prepare as compet&amp;ecirc;ncias locais para ir mudando um pouco, de modo a deixar tudo como est&amp;aacute;. Assim est&amp;aacute; sendo com a nova LDB que, neste aspecto, repete a anterior, do in&amp;iacute;cio da d&amp;eacute;cada de sessenta, em que o sentido da Lei &amp;eacute; dado por Lacerda e os complementos por Mariani (Freitag, 1980:58-59).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torna-se tarefa dif&amp;iacute;cil a a&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos educadores para realizar uma educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o para a inova&amp;ccedil;&amp;atilde;o social pela via daquilo que se convencionou chamar as "brechas" da Lei. Trata-se mais de arrombar portas do que de saltar janelas, j&amp;aacute; que a LDB est&amp;aacute; a&amp;iacute; para travar iniciativas. Buscar formas de fazer educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o para a felicidade e n&amp;atilde;o s&amp;oacute; para a compet&amp;ecirc;ncia profissional, em presen&amp;ccedil;a da LDB, &amp;eacute; como uma extenuante tarefa de S&amp;iacute;sifo.&lt;br /&gt;No entanto, "&amp;eacute; preciso imaginar S&amp;iacute;sifo feliz", na fala de Camus (1991). Se a pedra rola encosta abaixo, S&amp;iacute;sifo desce sem empurr&amp;aacute;-la. Neste momento, ele &amp;eacute; livre e pode ser feliz. Por qu&amp;ecirc; apressar-se para descer? Melhor ser&amp;aacute; parar para cumprimentar os pastores de cabra e apreciar o seu folclore. No seio de um sistema de adestramento de m&amp;atilde;o-de-obra, o "professor" pode oportunizar a felicidade pr&amp;oacute;pria e a dos seus "alunos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;COMPET&amp;Ecirc;NCIA PARA SER FELIZ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A minha argumenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o at&amp;eacute; aqui pode induzir a que se possa pensar que estou defendendo a desinforma&amp;ccedil;&amp;atilde;o ou a forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o de incompet&amp;ecirc;ncias no sistema educacional. O que defendo &amp;eacute; o oposto. A educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o brasileira se especializa desde os seus prim&amp;oacute;rdios num sistema dual de forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o de compet&amp;ecirc;ncias (os filhos da elite) e de incompet&amp;ecirc;ncias e semi-compet&amp;ecirc;ncias (os filhos das classes baixa e m&amp;eacute;dia baixa). &amp;Eacute; chegada a hora dos educadores romperem com este papel funcional que a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o exerce at&amp;eacute; aqui e "ensinar a nadar aos que n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o filhos do Rei". Estatui-se uma nova compet&amp;ecirc;ncia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha proposta &amp;eacute; a busca de uma nova compet&amp;ecirc;ncia, em que a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o se proponha &amp;agrave; forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o, &amp;agrave; cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o de novos valores de solidariedade, de compreens&amp;atilde;o, de criatividade. N&amp;atilde;o se trata de abandonar o ensino, mas, de que ele se combine &amp;agrave; forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Trata-se de transformar os "estabelecimentos de ensino" propostos pela LDB em estabelecimentos de educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Trata-se, em primeira e &amp;uacute;ltima inst&amp;acirc;ncias, de transformar o "sistema de ensino" da proposta governamental em sistema educacional. A nova compet&amp;ecirc;ncia deve ensinar muito mais do que a antiga. Trata-se de saber se o que queremos com este ensino &amp;eacute; a reprodu&amp;ccedil;&amp;atilde;o do conhecimento, sua reprodu&amp;ccedil;&amp;atilde;o cr&amp;iacute;tica ou a cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o de conhecimento novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certamente, queremos as tr&amp;ecirc;s. Mas, diferentemente do ancestral eg&amp;iacute;pcio que pretendia que "educar &amp;eacute; ensinar algor&amp;iacute;timos", devemos dizer que "educar &amp;eacute; oportunizar criatividade e iniciativa". A cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o de conhecimento novo tem de ser o objeto da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Se, para isto, &amp;eacute; necess&amp;aacute;rio alguma reprodu&amp;ccedil;&amp;atilde;o do conhecimento antigo (e &amp;eacute;), que ela seja feita, na medida necess&amp;aacute;ria. H&amp;aacute; um ac&amp;uacute;mulo de conhecimento, patrim&amp;ocirc;nio da humanidade, que precisa ser colocado &amp;agrave; disposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o do educando.O problema &amp;eacute; como coloc&amp;aacute;-lo: h&amp;aacute; a&amp;iacute; uma quest&amp;atilde;o de filosofia, de m&amp;eacute;todo e de administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o educacionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De filosofia, porque, se continua importante que o educando saiba da exist&amp;ecirc;ncia do acervo antigo, n&amp;atilde;o &amp;eacute; mais poss&amp;iacute;vel transmitir-lhe todos os detalhes. Se f&amp;ocirc;ssemos tentados a faz&amp;ecirc;-lo, mesmo os duzentos dias letivos da nova LDB seriam insuficientes e n&amp;atilde;o sobraria tempo ao "aluno" para a cr&amp;iacute;tica do conhecimento e a cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o de conhecimento novo. &amp;Eacute; necess&amp;aacute;rio, ent&amp;atilde;o, que se reflita o que &amp;eacute; fundamento e o que &amp;eacute; norma ou decorr&amp;ecirc;ncia. Um rigoroso trabalho filos&amp;oacute;fico deve ser feito pelos educadores, buscando definir o fundamental a ser ensinado, em cada faixa et&amp;aacute;ria. Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; isto e: muita fantasia, muita imagina&amp;ccedil;&amp;atilde;o, muita criatividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De m&amp;eacute;todo, porque, definida a filosofia, entramos no "como", propriamente dito. Talvez possamos dividir esse momento em duas partes. Na primeira, a id&amp;eacute;ia de algor&amp;iacute;timo poderia ser reapropriada, recriada. N&amp;atilde;o seriam mais "algor&amp;iacute;timos para saber" como tem sido a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o nos &amp;uacute;ltimos milhares de anos, isto &amp;eacute;, desde a sua inven&amp;ccedil;&amp;atilde;o at&amp;eacute; hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As contratend&amp;ecirc;ncias educacionais que se afirmam perante a humanidade, em diversos momentos destes anos todos, nos autorizam a pensar em outras possibilidades. Podemos pensar em "algor&amp;iacute;timos para aprender a aprender". Na segunda parte, a quest&amp;atilde;o se torna administrativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o, pois, sabidos "o qu&amp;ecirc;" e "o como do qu&amp;ecirc;", &amp;eacute; preciso investigar e definir "o como do como". A id&amp;eacute;ia de algor&amp;iacute;timos para aprender a aprender n&amp;atilde;o &amp;eacute; um descompromisso com o ensino e a informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o do educando, mas tem que significar a sua plena viabiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Se nos colocamos no ponto-de-vista de "ir ao futuro" para de l&amp;aacute; olharmos o presente e pensarmos a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, podemos ver que a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o brasileira n&amp;atilde;o est&amp;aacute; preparando nem compet&amp;ecirc;ncia profissional nem cidadania para o s&amp;eacute;culo XXI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vulgariza&amp;ccedil;&amp;atilde;o de uma id&amp;eacute;ia a pretexto de defend&amp;ecirc;-la &amp;eacute; o pior ataque. No passado recente, houve quem pensasse que ser cr&amp;iacute;tico em pedagogia &amp;eacute; s&amp;oacute; colocar os educandos em c&amp;iacute;rculo e n&amp;atilde;o falar em uva para menino pobre, porque os pais n&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m dinheiro para compr&amp;aacute;-la. Isto n&amp;atilde;o &amp;eacute; "m&amp;eacute;todo Paulo Freire" e nunca foi. Quem tentou ser freirista assim e depois desistiu, tentou e desistiu sem nunca ter entendido Paulo Freire.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomemos um exemplo de falso freirismo: 1) eu sou professor e chego em sala de aula com um pol&amp;iacute;grafo ou apostila ou xerox do pref&amp;aacute;cio de algum livro que fale sobre inform&amp;aacute;tica e conhecimento; 2) coloco os alunos em c&amp;iacute;rculo e os fa&amp;ccedil;o debater o que est&amp;aacute; escrito ali; 2) penso que o meu trabalho e o da escola est&amp;atilde;o conclu&amp;iacute;dos: "agora, que est&amp;atilde;o todos algoritimados para aprender a aprender, j&amp;aacute; posso descansar". Nem Paulo Freire nem a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m nada a ver com a atitude desse professor. Pois, de fato, o trabalho educativo estaria sendo come&amp;ccedil;ado e n&amp;atilde;o terminado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o escolar n&amp;atilde;o deve ser um corpo estranho &amp;agrave; coletividade da escola, que s&amp;oacute; serve para cortar verbas, clamar por efici&amp;ecirc;ncia e reclamar do desperd&amp;iacute;cio. Uma educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o como a que estou propondo s&amp;oacute; pode ter sentido se a biblioteca da escola for farta e atualizada; se a "CD-ROMteca" contiver as enciclop&amp;eacute;dias, os dicion&amp;aacute;rios, as revistas e os jornais; se a "arquivo.doc-teca" contiver os trabalhos dos educandos de turmas anteriores, os dos pr&amp;oacute;prios&lt;br /&gt;professores e a possibilidade de, em tempo real, obter os trabalhos dos pesquisadores de outras institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es, participar de confer&amp;ecirc;ncias nacionais e internacionais. Idem para laborat&amp;oacute;rios, instrumentos, equipamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma administra&amp;ccedil;&amp;atilde;o escolar consciente deste seu novo papel dar&amp;aacute; grande import&amp;acirc;ncia ao Conselho Escolar e &amp;agrave;s formas de organiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o espec&amp;iacute;ficas do exerc&amp;iacute;cio da cidadania no cotidiano escolar. N&amp;atilde;o apenas assimilar&amp;aacute;, mas, procurar&amp;aacute;, conv&amp;ecirc;nios com entidades estatais e da sociedade civil com as quais os estudantes intercambiar&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha proposta parte de Paulo Freire, Giroux, Boaventura, Apple, Frei Betto, Brand&amp;atilde;o, Gadotti, Saviani e de outros autores na linha de uma pedagogia cr&amp;iacute;tica. O que proponho &amp;eacute; que a educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o permita aos indiv&amp;iacute;duos a busca da felicidade, da auto-estima. Indiv&amp;iacute;duos felizes, capazes de iniciativa e de inova&amp;ccedil;&amp;atilde;o social, saber&amp;atilde;o trabalhar os saberes espec&amp;iacute;ficos para o bom desempenho na vida profissional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta &amp;oacute;tica, educar &amp;eacute; o permanente reconstruir do conhecimento do mundo. A nova compet&amp;ecirc;ncia educacional ser&amp;aacute;, ent&amp;atilde;o, o agir do pedagogo na rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o com o educando, o estabelecimento de interfaces educacionais onde se fa&amp;ccedil;a a desconstru&amp;ccedil;&amp;atilde;o-reconstru&amp;ccedil;&amp;atilde;o do conhecimento. "Professor" e "aluno" recriam sua cosmovis&amp;atilde;o de acordo com os objetivos que as suas subjetividades reconhecerem como adequados para o existir da vida individual no coletivo da vida em sociedade: &amp;eacute; ler nos livros e na vida para a constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o de uma &amp;eacute;tica e de um agir-no-mundo de acordo com esta &amp;eacute;tica constru&amp;iacute;da.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz-se necess&amp;aacute;rio o estudo das rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es entre o processo educativo e as media&amp;ccedil;&amp;otilde;es culturais na cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o de linguagens contra a exclus&amp;atilde;o social. Falamos de educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o para a cidadania, da cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o de compet&amp;ecirc;ncia para ser feliz e s&amp;oacute; para os individualistas possessivos a cidadania e a felicidade podem acontecer em presen&amp;ccedil;a da exclus&amp;atilde;o (Tucker, 1983)2. Mas, isto ser&amp;aacute; cidadania e felicidade ou mero solipsismo?&lt;br /&gt;Este &amp;eacute; um campo lacunar, que s&amp;oacute; recentemente vem atraindo a aten&amp;ccedil;&amp;atilde;o da pedagogia. A expans&amp;atilde;o da dial&amp;eacute;tica a outras &amp;aacute;reas do conhecimento humano al&amp;eacute;m da Filosofia e da Economia Pol&amp;iacute;tica propicia um entendimento qualificado dos processos sociais que formam os sujeitos da Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, mas provoca, &amp;agrave;s vezes, um reducionismo na compreens&amp;atilde;o da experi&amp;ecirc;ncia humana e de suas conex&amp;otilde;es com as atitudes educacionais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A busca dos "por qu&amp;ecirc;" do modo de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o e de sua estrutura de classes subsume os indiv&amp;iacute;duos das classes populares na massa da pr&amp;oacute;pria classe, descuidando-se, o pesquisador e o pol&amp;iacute;tico, da apreens&amp;atilde;o dos "como": como as subjetividades atingidas pelo fazer do educador se comunicam com o processo de aprendizagem, criando rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es intersubjetivas nas situa&amp;ccedil;&amp;otilde;es classistas e policlassistas e nas situa&amp;ccedil;&amp;otilde;es de educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o; como a cultura do educando interage com as culturas dos demais educandos e do educador; como se produz linguagens de interesse popular no processo educativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A id&amp;eacute;ia de media&amp;ccedil;&amp;atilde;o cultural no processo tem sido um tanto esquecida, nos primeiros momentos do estudo das rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es entre revolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o e educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Cria-se uma "dial&amp;eacute;tica metaf&amp;iacute;sica", uma escol&amp;aacute;stica em nome de Marx ou de Gramsci ou de quem seja, que tem servido mais para contraposi&amp;ccedil;&amp;otilde;es manique&amp;iacute;stas entre distintas linhas educacionais do que para a apreens&amp;atilde;o dos significados da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o nos seus contextos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;MEDIA&amp;Ccedil;&amp;Otilde;ES CULTURAIS NO PROCESSO EDUCACIONAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o de linguagens contra a exclus&amp;atilde;o, capazes de sustentar a&amp;ccedil;&amp;otilde;es de emancipa&amp;ccedil;&amp;atilde;o social, s&amp;oacute; pode ser obra dos exclu&amp;iacute;dos, sabedores dos seus desejos. Cabe &amp;agrave; educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o oportunizar aos educandos oriundos das classes populares, que s&amp;atilde;o a maioria, conhecimentos acerca do real, dos modos de produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o antigos e atuais, dos modos de vida de ontem e de hoje e das perspectivas de futuro, facultando-lhes construir linguagens que galvanizem milhares, milh&amp;otilde;es, de pessoas. A utopia destas linguagens tem de falar dos desejos dos seus construtores e das possibilidades de constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o do sonho. assim os seres humanos concretamente existentes poder&amp;atilde;o acreditar na utopia e engajar-se nela, em n&amp;uacute;mero suficiente para produzir inova&amp;ccedil;&amp;otilde;es sociais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tais linguagens s&amp;atilde;o constru&amp;iacute;das por indiv&amp;iacute;duos pertencentes &amp;agrave; humanidade e a determinadas classes, exploradas, oprimidas, exclu&amp;iacute;das, convencionalmente chamadas classes populares. Cada indiv&amp;iacute;duo traz consigo uma "mem&amp;oacute;ria perigosa" da sua cultura de classe e de povo e uma cultura afirmada, europ&amp;eacute;ia, globalizada. A a&amp;ccedil;&amp;atilde;o intersubjetiva oportuniza e requer media&amp;ccedil;&amp;otilde;es culturais. Nos procedimentos da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, as media&amp;ccedil;&amp;otilde;es entre as culturas de classe do educador e do educando cumprem um papel na produ&amp;ccedil;&amp;atilde;o das linguagens contra a exclus&amp;atilde;o, para al&amp;eacute;m dos limites das pedagogias gerais e dos m&amp;eacute;todos utilizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falar em rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es intersubjetivas implica em reconhecer a dimens&amp;atilde;o subjetiva das pessoas que participam da classe, como instituinte da "subjetividade coletiva". Os desejos, h&amp;aacute;bitos, costumes, valores, participam da cultura dos grupos sociais. Um povo, uma classe, um segmento social, t&amp;ecirc;m cultura. Os indiv&amp;iacute;duos que participam de tais grupos constr&amp;oacute;em suas idiossincrasias culturais e s&amp;atilde;o essas idiossincrasias que interagem nos momentos do coletivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O "aluno" em sala de aula traz consigo tra&amp;ccedil;os da "subjetividade da sua classe", da "subjetividade do seu povo", da "subjetividade do seu grupo", ao mesmo tempo que a sua subjetividade de indiv&amp;iacute;duo. Cabe ao "professor" faz&amp;ecirc;-las emergir. Amplia-se, neste tempo, o campo conceitual da subjetividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os processos de constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos projetos comuns, dos desejos coletivos, n&amp;atilde;o elidem os projetos e os desejos dos indiv&amp;iacute;duos, &amp;agrave;s vezes alimentados por uma "mem&amp;oacute;ria perigosa" de um tempo de autonomia cultural. Um av&amp;ocirc; na rede, relatando a hist&amp;oacute;ria do seu povo ao neto, um pai sentado na esteira, com o filho no colo, mostrando os s&amp;iacute;mbolos da fam&amp;iacute;lia: esta rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o semiotiza a vida do indiv&amp;iacute;duo na sociedade abrangente (SALES, 1994; MELI&amp;Agrave;, 1996). O &amp;iacute;ndio &amp;eacute; &amp;iacute;ndio com uma filmadora num shoping center.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coloniza&amp;ccedil;&amp;atilde;o nos "europeiza" a todos, mas a apropria&amp;ccedil;&amp;atilde;o do europe&amp;iacute;smo se faz de modo diferenciado nos diversos segmentos sociais. S&amp;atilde;o essas culturas diferenciadas que interagem no processo educacional. As linguagens contra a exclus&amp;atilde;o, produzidas no contexto, dizem respeito ao m&amp;eacute;todo educacional trazido pelo "professor", mas, tamb&amp;eacute;m, &amp;agrave;s media&amp;ccedil;&amp;otilde;es culturais que a&amp;iacute; ocorrem. O educador deve estar atento &amp;agrave;s rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es entre um e outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O educador tem de construir a "ponte dos tempos" como pedagogia. Ele tem de estar no futuro, para trabalhar proficuamente o cotidiano do educando. Talvez seja produtivo fazermos uma interlocu&amp;ccedil;&amp;atilde;o com Cornelius Castoriadis para um melhor entendimento do processo de constru&amp;ccedil;&amp;atilde;o desse "futuro do presente":&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre foi pensando/supondo/criando um tipo de ente que os fil&amp;oacute;sofos, cada vez, pensaram alguma coisa do ser. Foi fazendo uma figura que fizeram ser um horizonte. E isso &amp;eacute; ainda uma faca de dois gumes. Criando/supondo outro sentido de: ser, prenderam-no &amp;agrave; pr&amp;oacute;pria figura que acabavam de criar/supor. De que outra forma poderia ser? (Castoriadis, 1987:23).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o faz-se como deisc&amp;ecirc;ncia em que figura e fundo, cada um pelo outro e na sua rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o com o outro, v&amp;ecirc;m a ser ao mesmo tempo. A figura hist&amp;oacute;rica e seu horizonte s&amp;atilde;o criados juntos.&lt;br /&gt;Esta cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o sempre se relaciona com o que j&amp;aacute; &amp;eacute; - rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o que depende do que &amp;eacute; criado. A cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o do pensamento torna poss&amp;iacute;vel o que n&amp;atilde;o o era, ou n&amp;atilde;o desta forma. Ela faz ser: ser como pens&amp;aacute;vel o que... O qu&amp;ecirc;? O que sem ela n&amp;atilde;o seria pens&amp;aacute;vel? Ou o que sem ela n&amp;atilde;o seria? Cada uma dessas duas vias reconduz &amp;agrave; outra. (CASTORIADIS, 1987, P. 24).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estudo das media&amp;ccedil;&amp;otilde;es culturais nas experi&amp;ecirc;ncias educacionais espec&amp;iacute;ficas pode trazer aportes &amp;agrave; nova educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o que se prop&amp;otilde;e. N&amp;atilde;o se trata, apenas, de fazer etnografia ou de fazer hist&amp;oacute;ria. O que se quer &amp;eacute; partir da etnografia e da hist&amp;oacute;ria das experi&amp;ecirc;ncias e submet&amp;ecirc;-las &amp;agrave; cr&amp;iacute;tica filos&amp;oacute;fica para a formula&amp;ccedil;&amp;atilde;o de novas refer&amp;ecirc;ncias para uma educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o que quer viabilizar a liberta&amp;ccedil;&amp;atilde;o humana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;REFER&amp;Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&amp;Aacute;FICAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAMUS, Albert. Le mythe de Sisyphe. Saint Amand-France: Gallimard, 1991.&lt;br /&gt;CASTORIADIS, Cornelius. As encruzilhadas do Labirinto I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. (Rumos da cultura moderna, 53).&lt;br /&gt;DEMO, Pedro. A nova LDB: ran&amp;ccedil;os e avan&amp;ccedil;os. 2. ed. S&amp;atilde;o Paulo: Papirus, 1997.&lt;br /&gt;FREITAG, B&amp;aacute;rbara. Escola, Estado e Sociedade. 4. ed. revista. S&amp;atilde;o Paulo: Moraes, 1980. (Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o Universit&amp;aacute;ria).&lt;br /&gt;GENRO, Tarso. In: BRITTO, Ant&amp;ocirc;nio et al. Os construtores do futuro: Entrevistas com Lurdete Ertel. Porto Alegre: Artes e Of&amp;iacute;cios, 1995.&lt;br /&gt;Johannpeter, Jorge Gerdau. In: BRITTO, Ant&amp;ocirc;nio et al. Os construtores do futuro: Entrevistas com Lurdete Ertel. Porto Alegre: Artes e Of&amp;iacute;cios, 1995.&lt;br /&gt;MANDELLI, Luiz Carlos. In: BRITTO, Ant&amp;ocirc;nio et al. Os construtores do futuro: Entrevistas com Lurdete Ertel. Porto Alegre: Artes e Of&amp;iacute;cios, 1995.&lt;br /&gt;MANACORDA, Mario Alighiero. Hist&amp;oacute;ria da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o: da antig&amp;uuml;idade aos nossos dias. 3. ed. S&amp;atilde;o Paulo: Cortez:Autores Associados, 1992.&lt;br /&gt;MARX, Karl. A acumula&amp;ccedil;&amp;atilde;o primitiva do Capital. Porto: Escorpi&amp;atilde;o, 1974. (O homem e a sociedade, 12).&lt;br /&gt;______. A origem do Capital: a acumula&amp;ccedil;&amp;atilde;o primitiva. 4. ed. S&amp;atilde;o Paulo: Global, 1981.&lt;br /&gt;MELI&amp;Agrave;, Bartolomeu. Mito e Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Estudos Leopoldenses, v. 32, n. 150, p. 93-100, nov-dez 1996.&lt;br /&gt;SALES, No&amp;ecirc;mia Pires de. Os Temb&amp;eacute; no Alto Rio Guam&amp;aacute;: reelabora&amp;ccedil;&amp;otilde;es &amp;eacute;tnicas - identidade e territ&amp;oacute;rio. Bel&amp;eacute;m, 1994. (Relat&amp;oacute;rio de pesquisa, vers&amp;atilde;oreliminar).&lt;br /&gt;SILVA, Maritza Maffei da. Ant&amp;iacute;gona e S&amp;oacute;crates - A Filosofia no banco dos r&amp;eacute;us: uma busca jus-filos&amp;oacute;fica de desmistifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o das leis. Santa Maria: UFSM, 1995. (Disserta&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Mestrado, Filosofia).&lt;br /&gt;TUCKER, D. F. B. Marxismo e individualismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 Para isto, deturpa-se o conhecimento, instilando nas crian&amp;ccedil;as a ideologia de que a "lei das selvas" &amp;eacute; a "lei do mais forte". Na natureza e nas sociedades vinculadas fortemente a ela, o que vigora &amp;eacute; a "lei do mais apto". Se vigorasse a "do mais forte", um fungo n&amp;atilde;o mataria um elefante.&lt;br /&gt;2 Tucker identifica tr&amp;ecirc;s teorias sobre o individualismo: o possessivo (Locke, Nozick), o liberal (Rawls) e o radical (Macpherson). Da discuss&amp;atilde;o das tr&amp;ecirc;s, mas, apoiando-se especialmente em Macpherson, Tucker elabora sua proposta de democracia radical.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2004/12/competo-brasileira.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/110187704400664374'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/110187704400664374'></link><author><name>Mara</name></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9066514.post-109992265324401202</id><published>2004-11-08T13:03:00.000-02:00</published><updated>2004-11-08T17:41:52.756-02:00</updated><title type='text'>CONHECIMENTO E COMPETÊNCIAS NO TRABALHO E NA ESCOLA</title><content type='html'>* Acacia Zeneida Kuenzer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;1. INTRODUÇÃO. No contexto das políticas educacionais formuladas a partir da nova LDB, o conceito de competências, embora não seja novo, assume papel central; mesmo apenas anunciado sem se fazer presente nas diretrizes e parâmetros curriculares do ensino fundamental, aparece como categoria central nas diretrizes curriculares para o ensino médio, para a educação profissional e para a formação de professores. Sua adoção, sem o suporte da democrática discussão com os profissionais da educação e com suas entidades representativas, constitui-se em posição de Governo, a partir do que os professores das escolas foram instados a rever e mudar suas práticas para ajustar-se a esta nova concepção. No contexto do trabalho, a certificação de competências tem estado presente desde os anos 70, a partir da discussão que se desenrolou na OIT , embora no âmbito do taylorismo/fordismo , o que lhe confere significado próprio a partir deste modo de organizar e gerir a vida social e produtiva. Determinado por uma modalidade peculiar de divisão social e técnica do trabalho, fundamentada na parcelarização, a competência assume o significado de um saber fazer de natureza psicofísica, antes derivado da experiência do que de atividades intelectuais que articulem conhecimento científico e formas de fazer. Neste sentido, o conceito de competência se aproxima do conceito de saber tácito, síntese de conhecimentos esparsos e práticas laborais vividas ao logo de trajetórias que se diferenciam a partir das diferentes oportunidades e subjetividades dos trabalhadores. Estes saberes não se ensinam e não são passíveis de explicação, da mesma forma que não se sistematizam e não identificam suas possíveis relações com o conhecimento teórico. As mudanças ocorridas no mundo do trabalho, com a progressiva perda de hegemonia do taylorismos/fordismo e de suas formas de fragmentação a partir da mediação da microeletrônica, tornam insuficiente este tipo de competência para os trabalhos que não se precarizaram e que se constituem no núcleo estável do trabalhador coletivo, ainda com direitos e condições razoáveis de vida e de trabalho, apesar da tendência à intensificação; para poucos, portanto, já aqui se configurando uma das dimensões ideológicas da proposta da "pedagogia das competências", apresentada como universal. A análise do mundo trabalho e de sua realidade de exclusão evidencia o distanciamento desta proposta das alternativas reais de trabalho da maioria, submetida à informalidade e à precarização, não incluída inclusive pelas formas tayloristas/fordistas que permanecem, as quais ainda supõe direitos e alguma racionalidade. No contexto das novas formas de organização e gestão do trabalho, influenciadas pelo toyotismo em maior ou menor escala, o conceito de competência passa a supor domínio do conhecimento científico-tecnológico e sócio-histórico em face da complexificação dos processos de trabalho, com impactos nas formas de vida social. Embora a tendência dos processos mediados pela microeletrônica, exatamente em face de sua complexidade, suponham uma relação do trabalhador com o conhecimento materializado nas máquinas e equipamentos como "usuário", demandam o desenvolvimento de capacidades cognitivas complexas, em particular as relativas a todas as formas de comunicação, ao domínio de diferentes linguagens e ao desenvolvimento do raciocínio lógico-formal, competências estas desenvolvidas através de relações sistematizadas com o conhecimento 03/04** através de processos especificamente pedagógicos disponibilizados por escolas ou por cursos de educação profissional. Embora se saiba que, na classe burguesa estas competências se desenvolvam desde as relações sociais e familiares que viabilizam o desenvolvimento das linguagens, do raciocínio e o acesso à produção cultural, mesmo assim não se prescinde da educação escolar. Já para os que vivem das diferentes formas de trabalho, onde a precarização econômica dificulta o acesso à produção cultural dominante, a escola passa a ser espaço fundamental para a aquisição dos conhecimentos que permitam o desenvolvimento das competências requeridas para a inclusão na vida social e produtiva. Há, pois, uma nova dimensão que confere um novo significado ao conceito de competência a partir das mudanças ocorridas no mundo do trabalho, ao se pretender a inclusão: o domínio do conhecimento articulado ao desenvolvimento das capacidades cognitivas complexas, ou seja, das competências relativas ao domínio teórico. Esta nova exigência para a inclusão é que torna relevante o estudo do novo conceito de competência a partir dos interesses dos que vivem do trabalho, embora esta categoria tenha sido reconstruída a partir das demandas do processo de reprodução ampliada do capital no regime de acumulação flexível. E é por esta razão que as grandes centrais sindicais têm chamado a si esta discussão, incluindo em seus programas a certificação de competências, como uma forma de reconhecimento e validação dos saberes desenvolvidos ao longo das trajetórias laborais. Da mesma forma, no campo do capital, autores como Zarifian têm se dedicado, a partir de experiências empíricas em empresas reestruturadas, a desenvolver modelos de gestão e de desenvolvimento que conduzam, através de novas formas de disciplinamento, à conformação de novas subjetividades, flexíveis, polivalentes e permanentemente educáveis como forma de resposta à instabilidade derivada do caráter dinâmico, e mesmo revolucionário, da produção do conhecimento na contemporaneidade, sem perder o controle sobre as formas de reprodução ampliada do capital, onde a extração de mais-valia, embora não mais predominantemente derivada da exploração do trabalho concreto, continua determinante. Enfim, adentramos no campo movediço das ideologias, onde a concepção de competência fundada no trabalho concreto vai se tornando anacrônica do ponto de vista da produção do valor, passando a assumir um novo significado a partir da ampliação do trabalho abstrato e do trabalho não material, embora a lógica da reestruturação produtiva no regime de acumulação flexível repouse sobre a integração de todas as formas de trabalho, das mais precárias às mais qualificadas, nas cadeias produtivas, do que depende a competitividade. Reforça-se, por este argumento, a afirmação feita acima, sobre o caráter parcial do novo conceito de competência, uma vez que, embora apresentado como universal, inclusive no discurso pedagógico oficial, refere-se a uma modalidade específica de trabalho: o reestruturado, que demanda forte articulação entre as dimensões psicomotora, cognitiva e afetiva ( fazer, saber e ser ), para o que o domínio dos conhecimentos científico-tecnológicos e sócio-históricos, adquirido através de extensa, continuada e bem qualificada escolaridade é fundamental. É este caráter ideológico do significado que tem sido atribuído à categoria competência, tal como concebido no regime de acumulação flexível e incorporado pelo Estado nas políticas educacionais, que precisa ser adequadamente discutido, através do estudo minucioso desta categoria em suas relações com o mundo do trabalho. Esta necessidade se reforça pela ambiguidade, típica das ideologias, que tem revestido esta discussão no campo da educação; há os que negam a categoria pura e simplesmente, fechando os olhos para a nova realidade do trabalho; há os que comemoram seu caráter emancipatório, sem aprofundar as contradições inerentes ao trabalho no capitalismo; e há os que simplesmente aderem. Por sedutor o novo discurso, que em algumas dimensões chega a se aproximar da pedagogia socialista, ou apenas por conveniência, intelectuais que historicamente vinham atuado no campo do trabalho têm difundido o novo significado da competência, com o que o professor vai ficando sem referências para participar do debate e para refletir sobre suas práticas. Criar este emanharado de concepções pouco claras e lacunares, de modo a não explicitar o real movimento de exploração capiltalista, é uma das finalidades da ideologia. É tarefa, pois, dos cientistas críticos da educação ultrapassar o reino das aparências para estabelecer as verdadeiras relações que conferem uma nova materialidade ao discurso da pedagogia das competências. Com este artigo, não se tem esta pretensão, posto que esta tarefa exige o desenvolvimento de um amplo projeto coletivo de investigação, que se debruce cuidadosamente sobre as práticas do trabalho e da escola, ultrapassando a análise meramente escolástica, que permanece na discussão apenas teórica contrapondo sistemas de idéias, para apreender o concreto movimento entre a realidade do trabalho e dos 04/05 processos de educação dos trabalhadores, escolares e não escolares, a partir da nova lógica da acumulação, buscando compreender como a categoria competência se faz presente nas práticas pedagógicas concretas. E, quais são as possibilidades de emancipação dos trabalhadores que esta categoria, por contradição, encerra, se devidamente apropriada pelos que vivem do trabalho. Neste artigo, a pretensão é bem delimitada: apresentar para a discussão uma forma de compreender a relação entre conhecimento e competências, a partir da pesquisa de campo que vem sendo realizada na Refinaria Presidente Getúlio Vargas - REPAR, da Petrobras , iniciada em agosto de 2001, envolvendo operadores, técnicos, supervisores e gerentes, a partir da exigência corporativa de certificação de competências no nível operacional. E, a partir desta discussão, questionar as possibilidades do espaço escolar no desenvolvimento de competências, tal como o proposto nas políticas educacionais vigentes. 2. CONHECIMENTO E COMPETÊNCIAS: UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA. "Afinal: vai-se à escola para adquirir conhecimentos, ou para desenvolver competências?" Com esta indagação, Perrenoud , já na introdução de um dos seus livros, aponta para um dos dilemas que sempre esteve posto para os processos educativos, e que agora, em face da mediação das novas tecnologias que tornam o trabalho cada vez mais abstrato no atual regime de acumulação, assume novas dimensões. Este autor, dos mais referenciados pelos que propõe uma pedagogia escolar centrada nas competências, delineia adequadamente a questão, mas não a trata satisfatoriamente, no meu entender porque não toma as categorias de análise que permitem compreender as relações entre trabalho e educação, atendo-se ao mundo da escola. Torna-se necessário, em primeiro lugar, explicitar a concepção de conhecimento que dá suporte à análise feita pelo autor, e como ela se relaciona com o conceito de competência, para que se possa analisá-lo e, se for o caso, apresentar outra forma de compreensão. Para o autor, há um mal entendido ao acreditar que, ao centrar-se os processos educativos no desenvolvimento de competências, desiste-se de transmitir conhecimentos, pois quase todas as ações humanas exigem algum tipo de conhecimento, "as vezes superficial, outras vezes aprofundado, oriundo da experiência pessoal, do senso comum, da cultura partilhada em um círculo de especialistas ou da pesquisa tecnológica ou científica. Quanto mais complexas, abstratas, mediatizadas por tecnologias...mais conhecimentos aprofundados, avançados, organizados e confiáveis elas ( as ações ) exigem" . A partir desta compreensão, o autor afirma que a construção de competências exige tempo, sendo este o dilema da escola. Como se vê, o autor não diferencia o conhecimento tácito, derivado da articulação entre saberes diversos e experiência, ou conhecimento de senso comum, onde ciência e ideologia se mesclam, de conhecimento teórico; daí o dilema: é preciso tempo para que esta articulação se dê; ele não questiona, contudo, se o tempo de permanência na escola, e mesmo se o espaço da escola, permite esta articulação. Ao conceituar competência como " uma capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiada em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles", o autor explicita de forma precisa a integração entre competência e conhecimento; as competências, diz o autor, mobilizam conhecimentos, põem os conhecimentos em relação, e em ação, pode-se complementar. Contudo, o autor não esclarece que, ao atuar respondendo a determinadas situações, os trabalhadores mobilizam distintos tipos de conhecimento, que não são equivalentes. Ao entrevistar operadores, engenheiros e gerentes na REPAR, é recorrente a compreensão que, em situações de risco previstas e não previstas, nem sempre é aquele que detém o conhecimento teórico que atua com mais rapidez e eficiência, no sentido de voltar o sistema à situação de normalidade com segurança e confiabilidade, protegendo vidas humanas, 05/06 o ambiente e os equipamentos. Nestes casos, vale mais a experiência adquirida ao longo da trajetória laboral, nem sempre sustentada por sólida formação teórica na área do refino, mas sustentada por conhecimentos tácitos. É corrente entre eles, também, a clareza que a formação teórica é necessária, por que, em tese, melhora as condições de atuação; contudo, há outros fatores que intervém na capacidade de enfrentar situações de risco, que extrapolam a dimensão cognitiva, tais como a disposição para atuar, a estabilidade emocional, a capacidade de atuar em situações de stress, o comprometimento com o coletivo, e assim por diante. E ainda, mantendo-se a discussão no domínio cognitivo, está presente a capacidade para articular a situação a ser enfrentada com outras situações que contiveram elementos similares, bem como a capacidade para articular conhecimentos teóricos a conhecimentos práticos, reafirmando a compreensão de que a simples existência de conhecimentos, sejam tácitos ou sejam teóricos, não é suficiente para desencadear ações competentes. E estas competências estarão tão mais presentes quanto mais ricas forem as experiências vividas, os conhecimentos adquiridos, o acesso a informações, e assim por diante.. Entram em jogo as capacidades para mobilizar e transferir conhecimentos tácitos e teóricos, o que depende apenas em parte do domínio cognitivo, adentrando-se na esfera do domínio afetivo ou comportamental, expressão esta preferida pelos teóricos contemporâneos para fugir de uma suposta abordagem psicologista da questão. Embora esta preocupação proceda, a observação, no campo, da atuação de operadores considerados competentes pelo grupo, evidencia a articulação de fatores de ordem cognitiva, comportamental e psicomotora ( não há como secundarizar as habilidades psicofísicas ), que se constroem nas relações sociais e produtivas, mostrando que não é possível tratar estas dimensões separadamente ou através simplesmente de cursos, sejam eles teóricos ou comportamentais, estes muito ao gosto de muitos gerentes e das empresas de consultoria. A compreensão que conhecimentos e competências são processos que se articulam mas não se identificam esteve claramente explicitada ao se discutir com os operadores a possibilidade de avaliar competências através de provas de conhecimento. Dos entrevistados na primeira etapa ( 60 operadores; as entrevistas abrangerão 144 operadores, além dos técnicos e supervisores ), um terço dos entrevistados sugere que a avaliação de competências seja teórica e prática, combinando características de uma avaliação convencional com técnicas on-line, com a execução de prática de atividades na planta. Outro terço sugere um tipo de avaliação mais próxima ao modelo que vem sendo desenvolvido pelo Comitê de Certificação, composto por operadores de cada uma das quatro áreas, completamente realizado a partir da prática, mas envolvendo o domínio dos conhecimentos teóricos sobre o processo de trabalho incluindo segurança , mobilizados e transferidos na ação a ser executada ou simulada no momento da avaliação. Já o recurso à prova escrita convencional foi bastante criticado nas entrevistas, havendo uma única escolha em 60 entrevistados. Os entrevistados têm claro que se sair bem em uma prova de conhecimentos não é evidência de competência, e ainda argumentam que o ideal seria um acompanhamento no dia a dia. " O trabalho foi ensinado aos operadores na prática, então este é o melhor meio de avaliar. Na prática eles terão melhores condições de mostrarem o que sabem. Tem pessoas que não são boas de prova e conhecem bem a unidade, principalmente os mais antigos" "Prova escrita depois de 19 anos colocando esta unidade para funcionar seria constrangedor. Eu não sou bom de escrita mas mas todo dia ponho isto para funcionar direitinho." A concepção dos operadores não exclui a posse do saber teórico, que chamam de teoria do processo, dada a complexidade e risco da atividades de refino, cujo processo de trabalho combina procedimentos eletromecânicos com controles automatizados, integrando atividades de campo e console. Todos os operadores atuam nestas duas situações, o que demanda sólido domínio teórico, das linguagens e da informática; isto fica comprovado pelo requisito de ingresso: antes da extinção do ensino técnico, este era o requisito mínimo; ainda é o caso da maioria dos entrevistados. Neste ano, o ingresso exigiu ensino médio. Contudo, a análise dos dados relativos ao nível de escolaridade mostra um corpo coletivo de trabalho atuando na operação, bastante qualificado, inclusive no domínio teórico: 39 dos entrevistados têm superior incompleto ou completo; deste 39, 10 têm superior completo. A partir deste dados, Invernizzi afirma que, tal como alguns estudos da indústria petroquímica brasileira têm mostrado, os funcionários deste ramo constituem uma elite em relação ao restante dos assalariados industriais. Se esta característica, segundo a autora, gera expectativas elevadas, também evidencia um domínio da teoria maior do que os demais trabalhadores; não é a ausência, portando, de conhecimento teórico, que justifica a restrição à avaliação através de provas, embora isto esteja presente entre os mais antigos que mostram seu receio em relação à prova porque há muito tempo já não se dedicam à prática teórica. O que os operadores questionam é a capacidade de uma prática teórica evidenciar competência. O que explica esta posição é o conceito que os operadores têm de competência; na sua percepção, a primeira qualidade que define um operador competente é o conhecimento teórico-prático da planta, 06/07 com 33 respostas; a segunda é responsabilidade para com a produção e com a segurança, com 19 respostas( mais de uma resposta era possível) Em outra questão com alternativas fechadas, a alternativa mais freqüente foi " traduzir conhecimentos teóricos em ações práticas", com 41 escolhas; nesta questão, as escolhas seguintes foram capacidade de decisão, com 26 respostas, e responsabilidade, com 25 escolhas. De novo, aparecem, mesmo no senso comum, a articulação entre teoria e prática como conceito de competência, permitindo identificar, no discurso dos operadores, a constatação que trabalho intelectual e atividade são dimensões relacionadas, mas não equivalentes. Em conversas informais, afirmam que tem muita gente boa na teoria mas que não consegue por a área para funcionar; e tem muita gente com formação teórica menos ampliada e já mais distante no tempo, que domina todos os procedimentos com confiabilidade e segurança, inclusive em situações de emergência. Embora aqui haja uma referência mais direta ao saber tácito, é preciso considerar que nas atividades do refino, mesmo este saber repousa sobre o domínio teórico. Para os fins deste texto, é importante destacar que os operadores apontam para um conceito de competência como práxis, que articula conhecimento teórico e capacidade de atuar. E que, embora articulem estes dois domínios, entendem que eles não se identificam, contendo especificidades. E ainda, que apenas a capacidade de articular teoria e prática não faz um bom operador, que precisa ter vontade para atuar, responsabilidade com o trabalho, capacidade para decidir, estabilidade emocional para atuar em situações de risco, e assim por diante, mostrando a articulação permanente entre o domínio cognitivo e o comportamental. As entrevistas não permitem supor uma separação entre estas duas dimensões da competência, que se integram ao domínio psicofísico; esta afirmação se reforça quando os operadores, nas conversas informais, criticam a excessiva ênfase aos cursos comportamentais; nas entrevistas estruturadas, ao sugerir mudanças no programa de treinamento, destacam duas dimensões: mais tempo para o treinamento, com 17 respostas, em resposta às estratégias de autodesenvolvimento que vêm sendo implementadas, e melhor relacionamento entre teoria e prática nos cursos, com 10 respostas. Fica explicitado o entendimento da necessidade de cursos com projetos pedagógicos intencionais e sistematizados, como espaços de aquisição do conhecimento teórico, a serem ministrados por pessoas que conheçam os processo produtivos referentes ao refino, o que asseguraria a relação entre teoria e práxis; eles rejeitam, também, cursos ditos teóricos, ministrados por profissionais que não conhecem praxicamente o trabalho no refino. Nas inúmeras reuniões de grupo que têm sido realizadas com os operadores, eles não rejeitam a proposta de avaliação, desenvolvimento e certificação de competências que está sendo construída na REPAR e afirmam acreditar que trará benefícios para os operadores ( 40 respostas ), desde que os resultados não sejam usados para outras finalidades que não o desenvolvimento. Com relação a esta questão, as entrevistas e reuniões de grupo identificaram séria crise de credibilidade, em face de procedimentos anteriores e da descontinuidade de programas ao longo da história. O maior temor refere-se ao uso da avaliação para discriminar os menos competentes e até vir a ser usada como critério para demissões: " Se fizerem como foi dito, não trará prejuízos para os trabalhadores, se não for usado para punir. Vivemos em um mundo muito inseguro, a isso se deve o temor ( manifestado) na reunião ( de apresentação do programa). A gente já viu muita coisa começar e não terminar. A empresa tem que mudar esta imagem" Mesmo com o receio manifestado, identificou-se crença nas possibilidades do programa, principalmente como forma de atender forte demanda por processos de desenvolvimento que articulem teoria e prática. O modo como se pronunciam os operadores permite concluir que o processo central de um modelo de desenvolvimento de competências são os processos educativos sistematizados e intencionais, integrados ao processo de trabalho. Assim, concordam em submeter-se a processos avaliativos para identificar necessidades de desenvolvimento, desde que se façam a partir das ações articuladas a conhecimentos teóricos, e não através de provas e entendem ser a certificação uma conseqüência deste processo, e não sua motivação central. Entendem, também, que a certificação traz ganhos para os operadores. Destacou-se, também, nas reuniões em grupo, que os operadores confiam na Universidade como mediadora entre a empresa e os trabalhadores no processo de construção do programa. Os dados obtidos até aqui com a pesquisa de campo mostram que os operadores, embora sem domínio teórico das categorias do materialismo histórico, portanto com o seu saber tácito, percebem a dimensão práxica do conceito de competência, e em decorrência, as relações que ocorrem no seu trabalho, entre teoria e prática, apontando ao mesmo tempo, sua articulação e as especificidades destas duas dimensões; conhecimento teórico não é competência; da mesma forma, 07/08 agir simplesmente também não é, embora muitas vezes assim se resolva o problema que está posto. 3. A COMPETÊNCIA COMO PRÁXIS: O LUGAR DA ESCOLA E O LUGAR DO TRABALHO NO SEU DESENVOLVIMENTO. A pesquisa que vem sendo realizada permite compreender o conceito de competência como a capacidade de agir, em situações previstas e não previstas, com rapidez e eficiência, articulando conhecimentos tácitos e científicos a experiências de vida e laborais vivenciadas ao longo das histórias de vida. Ele tem sido vinculado à idéia de solucionar problemas, mobilizando conhecimentos de forma transdisciplinar a comportamentos e habilidades psicofísicas, e transferindo-os para novas situações; supõe, portanto, a capacidade de atuar mobilizando conhecimentos. Ë possível concluir, portanto, que embora os conhecimentos estejam integrados às competências, com elas não se confundem. Há, portanto, que diferenciar articulando, estes que se constituem nos dois momentos que, dialeticamente, se relacionam no conceito de práxis: a teoria e a ação. E, a partir desta diferenciação, compreender a especificidade do trabalho educativo escolar para que se possa verificar a possibilidade de desenvolver competências a partir da escola. Há, pois, para elucidar esta confusão teórico-metodológica que se estabeleceu a partir da adoção do conceito de competência como central nos processos educativos pelo discurso oficial, partir do conceito de praxis. Nas Teses sobre Feuerbach e na Ideologia Alemã vamos encontrar a formulação através da qual Marx coloca a atividade prática, transformadora do mundo, no centro das relações produtivas e sociais, com profundos impactos nas formas de conceber os processos de produção do conhecimento. Assim é que, na Tese I, vai criticar o materialismo tradicional por só captar o objeto, a realidade sob a forma de contemplação, através da qual o sujeito se limita a receber ou refletir uma realidade, assumindo um papel passivo. E, ao mesmo tempo, vai mostrar as limitações do idealismo, ao mesmo tempo que reconhece seus méritos ao conceber que o sujeito só conhece um objeto que ele mesmo produz, apontando os limites decorrentes da compreensão que esta relação ocorre exclusivamente no plano da consciência. Contrapondo-se, portanto, ao mesmo tempo, ao materialismo tradicional e ao idealismo, Marx e Engels formulam a concepção do objeto como produto da atividade objetiva, entendida não abstratamente, mas como atividade real, objetiva, material. Na Ideologia Alemã, Marx e Engels vão mostrar que o homem só conhece aquilo que é objeto de sua atividade, e conhece porque atua praticamente. A praxis, portanto, é compreendida como atividade material, transformadora e orientada para a consecução de finalidades. Se o homem só conhece aquilo que é objeto de sua atividade, e conhece porque atua praticamente, a produção ou apreensão do conhecimento produzido não pode se resolver teoricamente através do confronto dos diversos pensamentos. Para mostrar sua verdade, o conhecimento tem que adquirir corpo na própria realidade, sob a forma de atividade prática, e transformá-la. A partir desta afirmação, há duas dimensões a considerar. A realidade, as coisas, os processos, são conhecidos somente na medida em que são "criados", reproduzidos no pensamento e adquirem significado; esta re-criação da realidade no pensamento é um dos muitos modos de relação sujeito/objeto, cuja dimensão mais essencial é a compreensão da realidade enquanto relação humano/social. Em segundo lugar, é preciso considerar que a prática não fala por si mesma; os fatos práticos, ou fenômenos, têm que ser identificados, contados, analisados, interpretados, já que a realidade não se deixa revelar através da observação imediata; é preciso ver além da imediaticidade para compreender as relações, as conexões, as estruturas internas, as formas de organização, as relações entre parte e totalidade, as finalidades, que não se deixam conhecer no primeiro momento, quando se percebem apenas os fatos superficiais, aparentes, que ainda não se constituem em conhecimento. Ou seja, o ato de conhecer não prescinde do trabalho intelectual, teórico, que se dá no pensamento que se debruça sobre a realidade a ser conhecida; é neste movimento do pensamento que parte das primeiras e imprecisas percepções para relacionar-se com a dimensão empírica da realidade que se deixa parcialmente perceber, que, por aproximações sucessivas, cada vez mais específicas e ao mesmo tempo mais amplas, são construídos os significados. Ao colocar a praxis como fundamento do conhecimento, rechaçando ao mesmo tempo a possibilidade de conhecer pela contemplação ou pela mera ação do pensamento, Marx vai mostrar que "conhecer é conhecer é conhecer objetos que se integram na relação entre o homem e o mundo, ou entre o homem e a natureza, relação esta que se estabelece graças à atividade prática humana. Se não se trata de reproduzir a realidade como ela se apresenta ao homem e tão pouco apenas pensar sobre ela, o que está em jogo é a sua transformação a partir da atividade crítico-prática. A XI Tese apresenta esta proposição: à filosofia cabe não apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo, compreendendo-se o mundo em dois sentidos: como objeto de interpretação e como objeto de atividade prática. Ou seja, cabe transformar com base em uma interpretação, 08/09 que, tanto quanto possível, deve ser uma interpretação respaldada no conhecimento científico. Além desta dimensão transformadora, os autores destacam o caráter teleológico da práxis: a ação transformadora, sustentada pela interpretação, ocorre a partir de finalidades derivadas de necessidades de sobrevivência, que só existem como produtos da consciência. As finalidades se constituem na busca pelo que não está dado, pelo que ainda não existe, e portanto supõe uma certa consciência e atitudes em frente à realidade. É a dimensão teleológica que determina o caráter transformador da práxis, porquanto refere-se a uma realidade futura que estimula à ação. Já a dimensão cognitiva presente na concepção de praxis refere-se à realidade presente, que não implica necessariamente em uma exigência de ação efetiva, embora não se conheça por conhecer, mas a serviço de uma finalidade, que pode ter como ponto de partida o conhecimento; contudo, é preciso ter claro que informação não é conhecimento, é prática teórica; conhecimento é práxis. O conhecimento do presente, contudo, permite antecipar o futuro, como expressão de necessidades humanas e também como desejo, como o que não está dado e queremos que se realize. No conceito de praxis inclui-se, portanto, além da dimensão cognitiva da ação humana, a dimensão afetiva, ambas confluindo para os fazeres humanos, sem o que não se materializam, e não transformam. A partir desta concepção, há que aprofundar a compreensão das dimensões constituintes da praxis, em suas relações: a teórica, que se mantém no plano da reflexão, e a prática, que se mantém no plano dos fazeres, e como podem ser desenvolvidas através dos processos de formação humana. Ao discutir os conceitos de atividade e de praxis, Vázquez se apoia na I Tese para afirmar que "toda a praxis é atividade, mas nem já toda atividade é praxis" . O que é, então, atividade, e a que se refere o conceito de competência: à atividade ou à praxis? Atividade, entendida como sinônimo de ação, é o ato ou conjunto de atos através dos quais o sujeito modifica uma matéria prima, independente de qual seja a sua natureza, seja pelo trabalho material, seja pelo trabalho não-material. Este ato, ou conjunto de atos, se traduzem em resultados ou produtos, materiais ou não materiais; portanto, são orientados por finalidades e culminam com resultados, que em princípio, se pretendia alcançar, desde que as ações sejam eficientes e eficazes. O que caracteriza a atividade é seu caráter real, sua materialidade. Não há, contudo, atividade humana que não esteja respaldada por algum tipo de atividade cognitiva, e portanto, em alguma atividade teórica. A atividade teórica, com suas dimensões ideológicas ou científicas, só existe a partir e em relação com a prática; não há pensamento fora da praxis humana, pois a consciência e as concepções se formulam através do movimento que se debruça sobre o mundo das ações e das relações que elas geram. Contudo, por se configurar como um movimento no pensamento, por mais que a atividade teórica se aproxime da prática, com ela não se confunde, guardando especificidades que se resumem na produção de idéias e representações e conceitos, atendo-se ao plano do conhecimento. E, em decorrência de ser um processo de apropriação da realidade pelo pensamento, não transforma a realidade, não podendo ser confundida com a praxis. Ainda que a atividade teórica mude concepções, transforme representações, produza teorias, em nenhum destes casos transforma, de per si, a realidade. O que não significa dizer que não seja fundamental a atividade teórica para a transformação da realidade; contudo, só a posse da teoria, só o pensamento sobre as transformações não asseguram a sua efetivação, ou seja, a transformação da realidade. "A finalidade imediata da atividade teórica é elaborar ou transformar idealmente, e não realmente, para obter como produtos teorias que expliquem uma realidade presente ou modelos que prefigurem uma realidade futura. A atividade teórica proporciona um conhecimento indispensável para transformar a realidade...mas não transformam em si a realidade, a não ser quando apropriadas pela consciência individual e coletiva, 09/10 e então se transformem as idéias em ações." Marx, nas Teses III e XI, ao contrapor contemplação e praxis, não admite a teoria como uma forma de praxis, distinguindo claramente o conceito real do conceito pensado, apresentando a atividade cognitiva como um processo que ocorre no pensamento, que ascende do abstrato ao concreto, passando pelo empírico. Este processo, que consiste na reprodução espiritual do objeto real sob a forma do concreto pensado, se trata de uma atividade que não produz nada diretamente, não podendo ser identificado com o conceito de praxis por lhe faltar a transformação objetiva de uma matéria através do sujeito, cujos resultados subsistem independentemente de sua atividade. Interpretar não é transformar, afirma; a teoria em si, ou os discursos, não transformam o mundo a não ser que passem do plano das idéias e se façam materialidade. E, entre a teoria e a praxis, como mostra o autor na III Tese, insere-se uma mediação: o trabalho educativo, que se dá como resultado da interação entre consciências e circunstância, entre pensamento e bases materiais de produção, entre superestruturas e infraestruturas. Sobre esta forma de compreender, Vázquez mostra que "uma teoria é prática na medida em que se materializa, através de uma série de mediações, o que antes só existia idealmente como conhecimento da realidade ou antecipação ideal de sua transformação". A análise levada a efeito permite compreender que, embora se articulem para compor o conceito de praxis, há especificidades que permitem distinguir as atividades teóricas das atividades práticas e seus respectivos espaços de desenvolvimento e de realização; e que atividade teórica não é praxis, e que a educação é mediação entre os processos de aquisição do conhecimento e a sua materialização em ações transformadoras da realidade. Assim, os processos educativos escolares, sejam de educação geral, profissional ou ambas, se configuram como espaços de articulação com o conhecimento socialmente produzido, enquanto produtos, e como espaços de apreensão das categorias de produção deste conhecimento, enquanto processos metodológicos. São, por excelência, espaços da produção teórica, do trabalho intelectual, sempre que possível articulado à praxis, mas sempre incapaz de reproduzi-la em seu movimento e em sua complexidade. Não são, portanto, espaços de desenvolvimento de competências ,o que só poderá ocorrer através dos processos sociais e produtivos. Não que a pratica teórica, e o desenvolvimento das competências cognitivas superiores não sejam de fundamental importância para o desenvolvimento de competências; mas por si sós, são insuficientes. A importância do trabalho teórico para o desenvolvimento de competências torna-se mais evidente quanto mais mediados por ciência e tecnologia sejam os processos sociais e produtivos, tomando o saber tácito um novo significado que precisa ser melhor pesquisado função das mudanças ocorridas no mundo do trabalho. Mesmo assim, sua posse não é suficiente para produzir transformações na realidade. Mostram muito bem os operadores a necessidade do desenvolvimento de atitudes como disposição para responder, comprometimento com o coletivo e capacidade para enfrentar o stress sem perder a lucidez e o rumo das mudanças sociais que se fazem necessárias. Ao contrário dos cursos que pretendem em 8 horas, desenvolver a auto-estima, a liderança e a motivação para o trabalho, e que acabam por ser ridicularizados pelos trabalhadores, que sentem na carne os efeitos da exploração capitalista, com suas características de distribuição cada vez mais desigual dos produtos, dos serviços, da cultura e do poder, como as verdadeiras causas da perda de auto-estima, da falta de disposição para responder, do crescente stress, da falta de competência para liderar e enfrentar a vida e o trabalho. No entanto, os trabalhadores, mais do que resistem, buscam alternativas para a emancipação humana; neste sentido, tomam a competência como praxis, a ser desenvolvida através de processos que articulem trabalho e educação Desconsiderar que o espaço para o desenvolvimento de competências é a prática social e produtiva, atribuindo à escola esta responsabilidade, como propugnam as políticas deste Governo, é prestar um desserviço aos trabalhadores, por se constituir em uma tarefa que não é da sua natureza. Em texto anterior, quando ainda não se havia iniciado a pesquisa na REPAR, já se tinha a percepção da confusão que a propalada pedagogia das competências faz entre as dimensões específicamente pedagógicas e as amplamente pedagógicas que compõem os processos de formação humana, confundindo os processos intencionais e sistematizados das práticas escolares, e as dimensões amplamente educativas que ocorrem nas relações sociais e produtivas, instâncias que foram diferenciadas na Pedagogia da Fábrica, tese resultante de pesquisa de campo em uma indústria automobilística na Região Metropolitana de Curitiba : ... se entendemos competência como síntese de múltiplas dimensões, cognitivas, afetivas, sociais e psicomotoras, elas são históricas, e portanto extrapolam o espaço e o tempo escolar, e só se evidenciam em situações concretas da prática social. A sua mensuração nos tempos e espaços escolares exige reduções que certamente esvaziarão o processo de ensino do seu significado. Há não muito tempo passamos por experiência semelhante, embora mais restrita à dimensão cognitiva: a pedagogia sistêmica, com sua relação entre insumos, processos e 10/11 produtos, a exigir definição operacional de objetivos, processos pedagógicos controláveis, como a instrução programada, e avaliação por objetivos. Já fizemos a crítica ao reducionismo presente naquela tentativa de racionalização sistêmica da pedagogia, e rapidamente a superamos, posto que a maioria dos professores, apesar das "reciclagens", continuaram a usar o bom senso e esta proposta não chegou a se enraizar na sala de aula. A diferença da nova tentativa de racionalização pedagógica é a sua ampliação para a totalidade das ações que compõe a práxis humana. Desta ampliação resulta um novo dilema: a pedagogia das competências oscilará entre o reducionismo e a generalidade, agora com mais intensidade do que nas antigas tentativas. A escola é o lugar de aprender a interpretar o mundo para poder transformá-lo, a partir do domínio das categorias de método e de conteúdo que inspirem e que se transformem em práticas de emancipação humana em uma sociedade cada vez mais mediada pelo conhecimento. O lugar de desenvolver competências, que por sua vez mobilizam conhecimentos mas que com eles não se confundem, é a prática social e produtiva. Confundir estes dois espaços, proclamando a escola como responsável pelo desenvolvimento de competências, resulta em mais uma forma, sutil, mas extremamente perversa, de exclusão dos que vivem do trabalho, uma vez que os filhos da burguesia desenvolvem suas capacidades apesar da escola, que para muitos passa a ser apenas uma instituição certificadora; para os trabalhadores, a escola se constitui no único espaço de relação intencional e sistematizada com o conhecimento. Cabe às escolas, portanto, desempenharem com qualidade seu papel na criação de situações de aprendizagem que permitam ao aluno desenvolver as capacidades cognitivas, afetivas e psicomotoras relativas ao trabalho intelectual, sempre articulado, mas não reduzido, ao mundo do trabalho e das relações sociais, com o que certamente estarão dando a sua melhor contribuição para o desenvolvimento de competências na prática social e produtiva. Atribuir à escola a função de desenvolver competências é desconhecer sua natureza e especificidade enquanto espaço de apropriação do conhecimento socialmente produzido, e portanto, de trabalho intelectual com referência à prática social, com o que, mais uma vez, se busca esvaziar sua finalidade, com particular prejuízo para os que vivem do trabalho. &lt;/div&gt;</content><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/textos/2004/11/conhecimento-e-competncias-no-trabalho.htm'></link><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/109992265324401202'></link><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9066514/posts/default/109992265324401202'></link><author><name>Su</name><uri>http://www.gutierrez.pro.br/</uri></author></entry></feed>
