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[ Seminário 2007/1 ]
S A - RELENDO CLÁSSICOS: DIÁLOGOS POSSÍVEIS ENTRE GRAMSCI, WOOD E BENSAID

Professora: Carmen Lucia Bezerra Machado
Horário da disciplina: 3ª feira
Horário: 14 as 18 h
Carga-horária: 60 h/a
Créditos: 4


Súmula/ementa:

O Seminário estuda as idéias de autores (Ellen Wood e Daniel Bensaid) nas interfaces teóricas e metodológicas com o pensamento de Antonio Gramsci buscando as permanências e as possibilidades, que retomam a centralidade do trabalho e a educação, para ler o movimento do real, nas contradições existentes, como ideologia e como práticas políticas, no mundo do trabalho e no da educação, enquanto produção histórica resultante da práxis social.
Objetivos:
a) REFLETIR, COMPREENDER E "CONSTRUIR O TEXTO" como construção de sujeitos coletivos:
b) As permanências e as possibilidades frente às ideologias, na correlação de forças, na obra de autores citados, frente ao mundo do trabalho e à educação no Brasil;
c) A produção/construção do conhecimento que, historicamente, amparam a formulação de teorias e sua potencialidade para ler / estar no mundo do trabalho e da educação, e rastrear as questões que se constroem, como esboço e como possibilidade teórico-prática, na aparência e na expressão histórica das contradições da sociedade e da educação entre os modos infinitos e as coisas singulares; entre as necessidades históricas e a emancipação humana.
Programa:
CONCEITOS OU PREMISSAS
Entre a hegemonia e a contra-hegemonia o que são permanências e possibilidades;
O caminho que se faz ao caminhar, o processo histórico e a identidade de educadores e educadoras ou da história ao trabalho que constituem identidades na educação brasileira.
OS DESAFIOS: ENTRE O PENSAR DE AUTORES
Dialéticas entre permanências e possibilidades para pensar as categorias gramscianas e as de WOOD e BENSAID:
Trabalho: Produtivo, abstrato, valor físico e social. Trabalho livre?
Hegemonia: necessidades históricas e suas possibilidades econômicas- políticos e sociais. Permanências?
Ciência: crítica e suas permanências. Quais lógicas?
OS DIÁLOGOS CONTEMPORÂNEOS
As divisões, distinções, divergências e controvérsias, entre as aparências e o real ou as realidades.
As permanências e as possibilidades do trabalho e da educação.
As identidades, atividade intelectual, a correlação de forças e a constituição das identidades e da emancipação humana na educação. Quais identidades?
Método de trabalho:
Leitura de textos, filmes, "mundo", de cada um dos autores como leitura obrigatória para todos.
Os demais artigos e livros são considerados leitura complementar.
Seminário com apresentações a cada semana, preparados por um responsável, conforme distribuição prévia, seguido de discussão.
Debate sistemático em rede utilizando o endereço: http://www.ufrgs.br/tramse/classicos/
Procedimentos e/ou critérios de avaliação:
Participação oral e escrita durante o semestre e produção textual de artigo com vistas à publicação e participação em eventos da área.
Os critérios de avaliação incluem o diálogo, a consistência e coerência dos argumentos, bem como a clareza e correção da linguagem utilizados.
Bibliografia recomendada:
BENSAID, Daniel. Marx o intempestivo: grandezas e misérias. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos de Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. Vol. 1 a 6.
GRAMSCI, Antonio. Cartas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
MARX, Karl. O Capital. (Crítica da Economia Política). O processo de produção do capital. Livros 1 e 2. v. 1 e 2. 8. ed. São Paulo: Difel, 1982. (Ou qualquer outra edição.)
WOOD, Ellen Meiksins. Democracia contra capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2003.

postado por Mara em 16.3.07 -   

[ "O Silêncio dos Intelectuais": o depoimento de Francisco de Oliveira ]
Saídas para o PT: separar "petismo" de "lulismo" e afastar dirigentes responsáveis por crise

Luiz Fernando Vianna escreve de Belo Horizonte para "Folha de SP":

Dissociar o "petismo" do "lulismo" e afastar do comando do partido os dirigentes responsáveis pela crise atual são as únicas saídas para o PT continuar existindo.

Foi o que afirmou o sociólogo Francisco de Oliveira nesta quarta-feira em palestra, em Belo Horizonte, dentro do seminário "O Silêncio dos Intelectuais".

Oliveira, que rompeu ruidosamente com o PT em 2003, ainda no início do governo Lula, disse que a legenda corre o risco de se transformar em um "partido de gangues".

"É a gangue do ex-tesoureiro, do ex-secretário-geral, dos publicitários. Seria uma tragédia se isso acontecesse", disse ele, acrescentando que, "no limite, o PT pode até desaparecer".

"Não é o meu desejo, mas, se continuar com esse tipo de conduta, corre risco de desaparecer."

Para o sociólogo, um péssimo futuro para o PT seria repetir o que houve com o peronismo na Argentina. "Morreu o líder carismático, a cúpula se desligou das bases e virou um vale-tudo. O PT já parece uma luta de vale-tudo."

Ele ressaltou que não espera um expurgo do grupo de José Dirceu, pois é "coisa medieval", mas que os militantes mudem o comando do partido nas próximas eleições internas, programadas para o mês que vem.

Oliveira foi irônico ao falar sobre a responsabilidade de Lula nos casos de corrupção no governo. "Só ele não sabia que membros do PT roubavam? Muita gente sabia e ele não? Ah, não vai dar uma de Adão: "foi Eva"."

Segundo Oliveira, já está na hora de os intelectuais deixarem de ser complacentes com Lula por causa de sua origem operária.

"Os únicos erros permitidos em razão dessa origem são os de português. Ele é um homem de Estado, tem 25 anos de PT, não pode dar uma de inocente", declarou.

Esse comentário sucedeu à crítica que Oliveira fez à filósofa Marilena Chaui, expoente da intelectualidade do PT que, na abertura do seminário, segunda-feira, no Rio, disse que há momentos em que o silêncio é o dever de um intelectual, para que não seja irresponsável e leviano.

"Ele [o intelectual] não tem o direito de se calar. Não pode ser inocente útil. Não pode desconsiderar a pesada dívida do século 20. Não estou dizendo que este governo poderá produzir um desastre semelhante ao que outros produziram, mas a tarefa do intelectual é pôr o dedo na ferida", disse Oliveira.

Para ele, a "Carta ao Povo Brasileiro", produzida pela campanha de Lula em junho de 2002, já era um aviso de que o PT viraria um "partido da iniqüidade".

"Não é possível pagar o que se paga de juros da dívida pública e da dívida externa", afirmou, referindo-se a duas promessas da carta.

Oliveira disse que foi o PT quem levantou a bandeira da ética na política e seria "uma grande perda" se isso fosse derrotado pela crise.

Mas ele acredita ser possível o contrário: "Talvez algo de bom seja a retomada do clamor popular pela ética na política."

Segundo o sociólogo, seu ex-amigo Fernando Henrique Cardoso é o grande vitorioso" da política brasileira nos últimos anos, já que "o PT adotou como suas as teses do cardosismo das quais era crítico tenaz".

Mesmo ressaltando que é o "movimento social mais importante do país", Oliveira ainda declarou que o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) não tem futuro.

"A reforma agrária não vai mudar o sistema. Não haverá uma re-ruralização do país. Isso é impossível e até indesejável. Os dirigentes do MST sabem disso, o que eles buscam é uma interlocução com movimentos sociais urbanos. Vejo chance nesse diálogo."
(Folha de SP, 25/8)

Chico Oliveira: "O intelectual não pode ser otimista, ele é por definição um pessimista"

"Do jeito que está hoje, o PT é uma legenda como outra qualquer"

Sueli Cotta escreve de Belo horizonte para "O Globo":

Os intelectuais brasileiros têm obrigação de falar, de fazer uma crítica permanente. O intelectual não tem outro papel na sociedade. A posição é do sociólogo Francisco de Oliveira, que participou da fundação do PT e se tornou seu mais incisivo dissidente no meio intelectual. Essa posição é oposta, segundo ele mesmo, à apresentada pela filósofa Marilena Chauí, que decidiu se calar diante da crise política do governo Lula e do PT.

Afastado do partido desde 2003, Oliveira disse em Belo Horizonte, onde participou do seminário “O silêncio dos intelectuais”, que o intelectual não pode ser complacente:

"O intelectual não tem o direito de se calar. Ao contrário, ele não pode ser otimista, ele é por definição um pessimista", disse o sociólogo, conhecido como Chico Oliveira.

O grande erro da cúpula do PT foi o de promover, segundo Oliveira, o que ele chama de virada à direita e ter se descolado das bases, da militância do partido. Um erro fatal, segundo ele, em qualquer partido de esquerda porque ganha-se autonomia e faz-se “o que dá na telha”, como aconteceu. O PT adotou a tese do adversário, lamentou.

"Do ponto de vista do partido, foi um grande erro. Do ponto de vista do governo foi maior ainda, porque em nome da governabilidade ampliou suas alianças a ponto de descaracterizar-se", disse.

Desgaste deixa o PT sem ter o que dizer ao eleitor

Ele concorda com o ex-ministro Tarso Genro, quando ele diz que não sabe o que dizer ao eleitor para votar no PT. Usando como exemplo o que aconteceu com o Partido Comunista no Leste Europeu, Oliveira disse que ninguém lá tem coragem de pedir para se votar atualmente no Partido Comunista.

Com o escândalo envolvendo a cúpula do partido, Oliveira questiona com que cara os dirigentes irão se dirigir ao eleitor.

A queda-de-braço entre o deputado José Dirceu (PT-SP) e Tarso Genro no partido pode piorar a situação do partido, analisa Oliveira, que vê na disputa uma coisa mortífera por não se tratar de uma luta de idéias, mas uma briga de facções. Isto, na avaliação dele, torna o partido inviável.

"O partido não é feito de anjos, tinha muitos patifes que nem sabíamos que tínhamos. O partido como um todo se equivocou. O PT entrou pensando que era capaz de controlar os outros partidos, as outras personalidades, e isto é história de aprendiz de feiticeiro. Do jeito que está hoje, o PT é uma legenda como outra qualquer."
(O Globo, 25/8)
publicado pelo Jornal da Ciência

postado por Su em 26.8.05 -   

[ Todo mundo vai virar suco ]
Carlos Alberto Dória


Tese examina como a teoria econômica transformou o conhecimento em capital e a pessoa, em empresa

“O capital intelectual é a matéria-prima da qual são feitos os resultados financeiros” (Thomas Stewart)

Ganhar dinheiro na bolsa, converter os lucros no carro do ano, realizar viagens internacionais também todo ano -uma passagem obrigatória por Nova York ou conhecer lugares exóticos do Oriente-, comer ao menos uma vez nos restaurantes dos grandes chefs franceses da nouvelle cuisine, colecionar quadros de artistas emergentes, quiçá ouvir óperas no festival anual de Salzburg. Esta era a parte do ideal da vida dos “colarinhos brancos” que ganhavam dinheiro na década de 70 -os yuppies. Uma escada-rolante ascendente, que levava ao paraíso do consumo, seria a melhor metáfora para descrever sua percepção da vida naqueles anos já distantes do século passado.

Trinta anos depois, o personagem que está na posição daquele yuppie -o executivo de uma empresa transnacional- pinta em novas cores o seu mundo: “A dinâmica hoje do mercado é uma escada rolante que desce. É para a empresa dessa forma, em relação ao mercado, e para a pessoa com relação à empresa. É tudo uma cadeia”. Agora, já não é empregado, mas “associado” ou “colaborador” da transnacional. “Terceirizado”, como dizemos caboclamente. Tem lá o contrato entre a sua “pessoa jurídica” e a transnacional, mas o vínculo é tênue.

O executivo também fala sobre a própria família como uma mini- “empresa” e conclui, diante do risco permanente em que vive: “Eu assumo responsabilidades aqui, mas não consigo demitir minha mulher, demitir meu filho, e do outro lado o que a sociedade me oferece, o quê?”1. Já se tornou normal -na publicidade sobre um curso ou uma palestra que pode ser sobre vinhos, filosofia antiga ou “buraco negro” e outras maravilhas da física- aparecer no lugar tradicional do preço ou custo, uma nova palavra: “investimento”.

Tenhamos presente que aquele executivo costuma fazer este tipo de curso. Mas estávamos acostumados a associar “investimento” ao capital, não ao consumo. Ninguém “investe” numa barra de chocolate, numa geladeira, num carro ou numa viagem ao deserto de Atacama. Mas consumir qualquer coisa considerada “cultura” ou “conhecimento” significa, hoje, fazer um “investimento”. Assim como conhecer as pessoas certas e os lugares certos.

Se o indivíduo se considera uma “empresa”, como se fosse uma unidade de capital, trata-se de um investimento em si próprio. Finalmente surgiu o “você S/A”. Fomos mesmo convertidos em unidades de capital, a julgar pela tese de doutorado que o sociólogo argentino Osvaldo Javier López-Ruiz acaba de defender, em que mostra o novo modo como os executivos se inserem no mundo do trabalho e como transformam as suas próprias vidas a partir dessa novidade.

Segundo ele, tudo começou no já distante ano de 1960, quando o economista Theodore Schultz, da Universidade de Chicago, escreveu um pequeno artigo, intitulado “Investimento em Capital Humano”, que produziu uma grande polêmica entre economistas. Quarenta anos depois, as idéias de Schultz acabaram se espraiando por toda a sociedade e resumem o que se pensa modernamente sobre o papel do trabalho no capitalismo ultramoderno.

O que Schultz queria entender era o porquê de sociedades afluentes, como os Estados Unidos, terem crescido muito além dos índices que normalmente expressam o crescimento (investimentos, dispêndios em salários etc.). Ele chegou à conclusão de que “os modelos de crescimento econômico que tratam as alterações na força de trabalho contando o número de operários”, as estruturas físicas, os equipamentos, as mercadorias, já não explicavam o essencial. É fundamental, dizia, considerar a heterogeneidade do trabalho, não mais tomado como uma “força” uniforme.

Schultz destruiu a noção clássica de “força de trabalho” e colocou em seu lugar as habilidades inatas ou adquiridas -habilidades que não contribuíam da mesma maneira para a “riqueza da nação”. Desapareceu, assim, a categoria “recursos humanos” das empresas.

O que parecia uma conversa enfadonha entre economistas era, na verdade, uma revolução na economia política desde os seus fundadores: o capital deixava de ser visto como homogêneo, e o trabalho, que era a categoria oposta, passava a ser considerado capital ou, mais precisamente, “capital humano”, que se materializa quando o capital “pega esse talento e consegue botá-lo na corporação”2 .

A revolução conceitual do “capital humano” demorou décadas para conquistar o mundo dos negócios, até que as teorias de administração, as empresas de consultoria, as revistas técnicas e tudo o que possa “fazer a cabeça” dos executivos se curvassem diante dela. Agora que ela se vulgarizou, a nova teoria faz com que os indivíduos se comportem como “capitalistas de si próprios” e, portanto, o consumo que signifique qualificação, diferenciação, sofisticação cultural, será considerado “investimento”. É um novo modo de se ver e de ser visto pelo mercado. A “mudança” permanente, o aperfeiçoamento pessoal, o elogio dessa atitude, virou o mantra do nosso tempo, conforme López-Ruiz. Em outras palavras, “você é o seu projeto”.

Mas não se trata apenas de uma mudança subjetiva. Este novo “ethos”, no qual o antigo trabalhador passa a se comportar como um átomo de “capital humano”, fundamenta uma nova cultura empresarial, uma nova forma de exploração do trabalho.

O primeiro grande passo foi a eliminação do “emprego”. Os antigos executivos foram transformados em “sócios” das grandes corporações. Como diz um capitalista, “os acionistas investem dinheiro em nossas empresas, os empregados investem tempo, energia e inteligência”3. Junto com as participações nos ganhos do capital, foram socializados também os riscos da atividade capitalista. Eles já não ganham “altos salários”, mas parcelas do lucro quando este resulta da sua atividade. Às vezes -como nos Estados Unidos, no escândalo do caso Eron ou, na Itália, no caso Parmalat- falsificam lucros para ganhar mais.

Entre os que trilham o trabalho honesto, vê-se uma corrida frenética para se qualificar sempre mais e mais. O que antes era acesso à educação se transformou em “capacitação” para o trabalho ultracompetitivo do dia-a-dia. A própria vida privada é administrada como se fosse uma “empresa” que se integra à corporação na busca do lucro. Ir a um concerto, conhecer novas pessoas, saber discorrer sobre vinhos -tudo faz parte do bom desempenho dessa “empresa” nova, que só é competitiva se apresenta uma alta dose de “capital humano”, isto é, conhecimentos e habilidades de “ganhadores”.

Um dia, tudo isso acaba. Jovens mais “competitivos” aparecem por todos os poros do mercado para deslocar os mais velhos. Mas o que se segue não é o “desemprego”, pois já não havia o “emprego”. É apenas uma sociedade entre capitais que se desfaz. E, aí, mediante uma série de tentativas e erros, o trabalhador das corporações busca inaugurar a sua “segunda carreira”.

A metáfora desta “segunda carreira” é o famoso caso do início dos anos 80 do século passado, quando um engenheiro desempregado abriu uma lanchonete na avenida Paulista, em São Paulo, e a batizou com a frase que resumia a sua vida: “O engenheiro que virou suco”, definindo assim um personagem que foi explorado pelo filme “O homem que virou suco”, de João Batista de Andrade. Mas, antes de “virar suco” o trabalhador tentará virar consultor, escrever livros, enfim, fazer “render” aquelas suas velhas habilidades que o mercado acabou de lhe dizer que já não valem nada. Como “terceirizado”, tem uma empresa que é contratada para serviços específicos. É remunerado pelo “tempo total” trabalhado e só por ele, sem qualquer um dos velhos custos trabalhistas (previdência, seguro saúde, vale-refeição etc.).

O estudo de Osvaldo Javier López-Ruiz não nos diz quantos viraram ou virarão suco, mas sim como se vira suco. É um estudo qualitativo. E mostra que o executivo não vira suco no espremedor de laranjas do designer Philippe Starck que ele geralmente tem na sua cozinha muito bem equipada. A coisa é bem mais cruel, como na imagem da escada rolante que desce, e o sujeito que, em sentido contrário, se esforça para não sair do lugar.

A metáfora revela uma classe média que, antes, fazia a sua poupança e se educava para garantir a ascensão social, mas que hoje transformou a “poupança” em consumo (“investimento em si”), que reduziu a educação à capacitação para competir e que, no lugar da mobilidade social ascendente, luta para não decair4. Na medida em que esse segmento é “formador de opinião”, esse modo de pensar passa a ser o “ethos” de toda a sociedade. Mondo cane, mondovino, mundo cruel, é tudo uma coisa só.

Um mundo onde o produto é a pessoa e o mercado, a vida, onde o curriculum vitae não é mais uma história, mas uma peça de marketing que resume as habilidades utilizáveis (“Você tem um produto para vender, e esse produto é você mesmo”, diz um dos entrevistados por López-Ruiz).

E o autor mostra que o novo “ethos” não se limita a mais uma “teoria da administração” -como tantas outras que se sucedem entre executivos, definindo o perfil do “executivão” de multinacionais, fundamentando a “reengenharia” dos processos de trabalho, a “desintermediação” ou outras panacéias da administração do capital. Ao contrário, com o fim do emprego, a dissolução do operariado, o fim do “chão de fábrica”, a própria categoria trabalho, como valor que o capital suga em troca de um “salário”, desapareceu.

O desaparecimento do trabalho enquanto tempo, ou força e energia aplicadas numa atividade seriada, governada por máquinas, equipamentos e rotinas, converteu o trabalhador numa parcela do próprio capital que se acumula em novos conhecimentos e capacidades. Esta é a base objetiva para que se desenvolvam novas formas de relações sociais, resumidas no “ethos do executivo das transnacionais”.

Se o “trabalhador” era antes o fruto de uma série de lutas históricas, uma categoria concreta da sociedade que resumia um feixe de direitos garantidos pelo Estado e vigiados pelos sindicatos, agora já não é mais esta coisa jurídica, resumindo-se à atividade no mercado. O indivíduo é o empreendedor de si mesmo, o seu próprio capital, e não alguém que realizava uma troca de tempo de trabalho por salário numa condição jurídica “trabalhista”. Suas ações passam a ser pensadas isoladamente em termos de custo/benefício, isto é, segundo a sua racionalidade interna, e não mais como um processo que se desdobra no tempo.

O seu salário, que antes era o preço da sua força de trabalho obtido pelo enfrentamento entre trabalhadores assemelhados, agora assume a forma de uma “renda”, rendimento do seu “capital humano”. Ao agir como uma “empresa”, o trabalhador passa a ser o encapsulamento da subjetividade do capital. Sua “alma” é a alma do capital. Ele levou a si próprio para o coração da empresa ou, nas palavras de um executivo, “os acionistas põem a grana ; eu ponho miolos”, e toda a sua subjetividade será moldada a partir do novo enquadramento.

Novas categorias de análise deste admirável mundo vão povoando os textos de economistas e executivos de organismos multilaterais, como o Banco Mundial e a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico). Em suas mãos, o “capital humano” de Schultz vai se refinando e se convertendo em “capital intelectual” (o ativo da empresa, a maior parte do seu valor real), ou “capital social” e, ainda, “capital territorial” -diferenças sutis que têm em comum o fato de transformar algo intangível em fator de acumulação, seja a sua unidade uma pessoa, uma cultura ou um conjunto de recursos institucionais referidos a um território.

Nessas suas metamorfoses se descortina uma sociedade onde o capital pode se apropriar de todos os conhecimentos como forma de valorizar a si próprio, deixando claro que ele é uma relação social, não coisas palpáveis. Em outras palavras, agora a ciência, a técnica e a “cultura” são tomadas como forças produtivas, e este conhecimento útil em nova embalagem se revela quando é possível conectar pessoas, alavancando o que elas sabem para gerar ganhos no mercado.

Com base nessa nova realidade de mercado dá-se o espetáculo de crescimento econômico, de costas para o Estado e para o espaço público, cujos desdobramentos muita gente, dentro e fora das academias, quebra a cabeça para entender -como nesse trabalho iluminado de Osvaldo Javier López-Ruiz.

Por enquanto, apenas uma certeza: no médio prazo todos viraremos suco.

Carlos Alberto Dória
É sociólogo e ensaísta, autor, entre outros livros, de "Ensaios Enveredados", "Bordado da Fama" e o recém-lançado "Os Federais da Cultura" (ed. Biruta).

1 - Osvaldo Javier López-Ruiz, “O ethos dos executivos das transnacionais e o espírito do capitalismo”, tese de doutorado, IFCH-Unicamp, 2004, pág. 300.

2 - Palavras do dirigente de uma transnacional, conforme Osvaldo Javier López-Ruiz, op. cit., pág. 305.

3 - Cf. Osvaldo Javier López-Ruiz, op. cit., pág. 244.

4 - A literatura sobre o desaparecimento da classe média já começa a ser notável. Ver sua resenha no artigo de Robert Kurtz, “O Declínio da Classe Média”, "Folha de S. Paulo", 19/09/2004.

postado por Su em 15.7.05 -   

[ Maquiavel e o Iapar ]
Amélio Dall'Agnol*


Eu também não acredito que Maquiavel morreu. Ele está vivo. Tem 536 anos e vive escondido em algum lugar de Brasília, onde oferece consultoria à turma do mensalão, sobre como promover uma política de resultados
* Amélio Dall'agnol é engenheiro agrônomo e pesquisador em Londrina. Artigo publicado na “Folha de Londrina”;

Nicoló Machiavelli era italiano. Político, historiador e escritor, viveu em Florença de 1469 a 1527. Foi uma das figuras mais brilhantes do Renascentismo europeu. Foi conselheiro e colaborador dos Medici.

Como escritor, notabilizou-se pela publicação de ''O Príncipe'', obra prima de astúcia e malícia políticas, inspirado na figura de César Borgia, um governante corrupto e imoral da época. O livro ensina como governar, separando a política da moral, no entendimento de que os fins justificam os meios.

Se vivo fosse, Maquiavel daria o seguinte conselho aos governantes de plantão: “Não desperdice dinheiro com Ciência e Tecnologia (C&T). Seus resultados demoram muito a aparecer e quando aparecerem, você não estará mais no poder. Usufrua dos desenvolvimentos tecnológicos gerados pelos governantes anteriores, cujos benefícios perdurarão por um longo período ainda. C&T é como um trem: uma vez desligada a locomotiva, ele continuará a deslizar pelos trilhos, parando muitos quilômetros depois.

Ninguém saberá quando e onde foi desligado. Cancele todos os projetos de pesquisa e utilize esse dinheiro para fazer asfalto, comprar ambulâncias, construir casas populares. Coisas que o povo possa ver e apreciar. Assim você aparecerá e agradará ao povo, que te recompensará com um segundo mandato. Pense na próxima eleição e não na próxima geração.

Quando os efeitos perniciosos da falta de investimentos em C&T começarem a aparecer, você estará concluindo teu segundo mandato. O desgaste será do governante seguinte, quem terá que investir muito para pôr novamente a máquina a funcionar e não terá dinheiro para realizar obras mais visíveis. Fique tranqüilo, você será eleito para um terceiro mandato.”

Fala-se insistentemente no descaso a que está relegado o Iapar, a mais importante instituição de C&T agrícola do Estado. Orgulho de Londrina, nossa cidade não pode fazer de conta que não vê e não sabe o que está acontecendo. Mais importante que trazer uma nova atividade econômica para Londrina, é não deixar que o que existe seja desmontado.

Não sei quem possa ser o responsável pela delicada situação em que se encontra a Instituição, mas uma coisa é certa: não é culpa apenas do atual governo. Se o trem está parando agora, é porque a máquina foi desligada muitos anos atrás. No governo Lerner ou, até, antes dele.

A propósito, tem gente que ainda crê na possibilidade de o presidente John Kennedy estar vivo, apesar de ter visto o seu cérebro jogado sobre o capô da limusine que o conduzia.

Eu também não acredito que Maquiavel morreu. Ele está vivo. Tem 536 anos e vive escondido em algum lugar de Brasília, onde oferece consultoria à turma do mensalão, sobre como promover uma política de resultados.
(Folha de Londrina, 27/6)

postado por Su em 28.6.05 -   

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postado por Mara em 29.5.05 -   

[ Um espelho na sala de aula: refletindo sobre a biografia de Karl Marx por Francis Wheen ]
Um espelho na sala de aula: refletindo sobre a biografia de Karl Marx por Francis Wheen (1)

Cleusa Helena Guaita Peralta Castell


Dez minutos de reflexão escrita sobre o estudo da biografia estudada: a Mestra o solicita como um exercício em sala de aula. Neste momento, inicio um memorial instantâneo. Lembro de um espelho na sala de aula, o que é um tanto raro numa universidade pública.

Do outro lado do espelho, minha Mestra observa um senhor de negros cabelos e idéias ferrenhas, que, por sua vez me observa.

Exercito sob esses dois olhares o que sobrevive desse anti-herói revolucionário em minha própria história de vida: minhas contradições, meu método de perceber o campo de pesquisa que se abre atrás do espelho.

Outros companheiros na roda comigo, observo, entrecruzam suas pernas e seus sapatos no nosso círculo de curiosas propostas sobre como dialetizar e concretizar as nossas utopias.

Entre as reflexões sobre as categorias estudadas, encontram guarida as falas explicitadas na materialidade vivida de cada um de nós: no movimento dos sem-terra e a feira agroecológica, nos assentamentos do INCRA, na ONG da educação popular, na Associação agroecológica, na formação não-alienada dos professores. Enquanto nossas idéias se entrelaçam no tempo, nossos sapatos se percebem muito pesados no chão, com medo de serem arremessados no espaço, no qual "tudo o que é sólido se desmancha no ar" (p. 117).

Do outro lado do espelho, nossos mestres se diferenciam entre si: Ela sorrindo com tranqüila aceitação de seus educandos, em suas contradições, sabendo a partir de sua própria vida como é difícil manter os sapatos presos no chão neste terceiro milênio, como somos estranhos nesse grupo chamado clássico, enquanto o capitalismo progride na pós-modernidade e no final dos tempos anunciados; Ele, o temido Mouro, ao contrário, com ruidosa e já esperada vociferação dispara: " Que história é essa de terceiro setor? Economia solidária? Organizações da sociedade civil, alguém pode me explicar como vocês esperam conseguir transformar isso tudo numa Comuna que tenha uma materialidade científica? Como já expliquei "Não é uma questão teórica, mas prática. O importante não é interpretar o mundo, mas mudá-lo" (p. 96), entenderam?

Meu colega ao lado se recompõe, ouvindo também a voz, que parecia sair inusitadamente detrás do espelho da sala de aula, e tenta, respirando pausadamente, refletir sobre o estudado (esse colega sempre fala pausadamente para dar um tom de seriedade no assunto tratado, mas no final, sempre vem uma anedota picante): Todas essas alternativas, que o grupo está buscando, engajados que estamos em nosso trabalho de base, têm uma origem comum: a ambição de transformação de Marx, a proposta de emancipação das classes trabalhadoras. Sobre isso, outro colega lembrou da biografia estudada, o episódio dos tecelões silesianos, que "haviam destroçado as máquinas que lhes ameaçavam o ganha-pão". No debate com seu oponente Arnold Ruge, que abordava o fato como inconseqüente, "já que faltava à Alemanha a 'consciência política', Marx os teria aprovado apesar de se caracterizar como um fato isolado, destacando que: "O fertilizante das revoluções não era a 'consciência política', mas a 'consciência de classe" que os tecelões tinham de sobra (p. 69).

Ponderamos sobre isso, lembrando que em nossas atividades junto aos nossos sujeitos de pesquisa, poucos de nós já tinham se deparado com grupos visivelmente identificados com sua consciência de classe, como é o caso do MST. Apenas o colega da feira agroecológica tinha convivido nesses assentamentos com os produtores e especialmente com as mulheres que sabiam tudo sobre plantas medicinais. Daí o conhecimento dele, a quem sempre recorremos em busca de receitas de ervas para nossos males. Esse conhecimento é valorizado e extremamente respeitado por todos nós, o que é raro nas comunidades agrícolas. Ponderamos ainda, que no caso do importante trabalho de base sobre os assentamentos, associações e cooperativismo, temos encontrado no seio de diversos grupos, em seu trabalho inicial, os mesmos problemas encontrados nas relações de poder piramidais das empresas capitalistas, como o individualismo, a hierarquia das lideranças, a dificuldade em equiparar investimento financeiro e trabalho criativo, sendo o primeiro sempre supervalorizado em detrimento do segundo.

Quem trabalha e tem a sabedoria, tanto na agricultura, como na pesca ou no artesanato, vale menos do que o capitalista que investiu no projeto, que é endeusado em seu assistencialismo. Por vezes, o próprio Estado como provedor, em parceria com multinacionais que despejam recursos em projetos compensatórios pelos danos ao ambiente (como é o caso da Petrobrás) é visto como o benfeitor dos cooperativados, sem qualquer rejeição, acostumados que estão com sua condição subalterna, alienados de sua consciência de classe.

Nesse ponto do debate, outro colega cujos sapatos estavam, há algum tempo, saltitando indóceis no chão, com voz professoral declarou (em tom bem compassado, embora um tanto nervoso, se dirigindo frontalmente ao espelho): O cooperativismo, portanto, como uma alternativa contra-hegemônica não pode prescindir de um trabalho de base que explicite os conflitos entre o Estado a serviço da burguesia e os trabalhadores cooperativados! É preciso garimpar a consciência de classe, esteja ela onde estiver!

Ficamos um tempo em silêncio, aguardando uma resposta, um comentário ou até uma reprimenda...Nada aconteceu.

Nos sentimos um pouco desanimados, pois havíamos chegado a um ponto da reflexão meio sem saída e parecia que íamos nos dissolver no ar.

Entretanto, nossa Mestra resolve dar uma saidinha do espelho e refletir, escrevendo na lousa, e o que diz é fundamental. Fala de uma garrafa de água mineral: "Não estou pagando pela água, mas pelo petróleo que se transforma em PET - não se vê a exploração que está embutida nesta garrafa. Isto não aparece como exploração no capitalismo. Eis o ocultamento da exploração no coletivo". Discute com todos o conceito de ideologia em Marx: como "falsa consciência" ou "realidade invertida" pela burguesia (a partir de A Ideologia Alemã); Ideologia é, ainda, aquilo que impede que se veja a realidade tal qual ela é... depende das condições materiais da existência" (aula Relendo os clássicos, dia 19 de abril de 2005).

Parecendo acordar subitamente, o Mouro concorda, um tanto surpreso com o fato de encontrar uma mulher tão preparada no meio acadêmico, uma vez que mulheres não costumavam freqüentar ambientes tão revolucionários no seu tempo. A propósito, pergunta: Esse tal de Ween não falou na minha biografia sobre a alienação do trabalho? Tem tudo a ver com o que vocês estão falando. Imaginem um parto, não o parto em si, mas a separação do bebê recém-nascido da mãe. A mesma coisa acontece com o produto do trabalho do trabalhador, que sempre lhe é subtraído de sua autoria ou maternidade, produzindo a alienação (p. 73). Logo, assim como há uma ideologia que oculta a exploração do cooperativado, como explicou a professora, também temos uma história inteira de exploração, a partir da qual o trabalhador se acostumou a ser mão de obra barata, sem ver o produto de seu trabalho como sua propriedade, fruto de seu conhecimento. Na Europa muita coisa se fez pela consciência de classe, muita máquina foi quebrada, vocês lembram? E aqui nessas tais cooperativas, nesses tais grupamentos, como vai ser?

Finalmente me animo a responder: A saída aqui é pela educação, Mestre! Assim como estamos imersos na pedagogia da violência, como fala a amada Professora do Estado e Educação, também estamos na luta pela pedagogia da libertação, da mudança, da autonomia e da emancipação...

O Mouro zomba, dizendo: Ainda? Eu já gastei o meu latim com o Weitling. Eu disse a ele: "promover o levante dos trabalhadores sem lhes oferecer idéias científicas ou uma doutrina construtiva 'equivale a um jogo de pregação desonesto e fútil, que presume um profeta inspirado, de um lado, e de outro, apenas asnos boquiabertos"[...] a ignorância nunca ajudou ninguém até hoje!" (p. 102).

Reunindo toda a minha coragem, respondo: O senhor não sabe o que é conviver lá no campo com a alienação dos produtores, sabe? O senhor poderia sair da sua biblioteca e vir aqui nos ajudar? De idéias ci-em-tí-fi-cas eles estão cansados, o senhor sabia? A universidade pública cobra caro pela análise da água deles e eles estão contaminando a água que eles bebem com os agrotóxicos! O senhor sabe o que é um agrotóxico? O senhor sabe que as escolas técnicas agrícolas apenas ensinam a usar os defensivos químicos? O senhor sabe a serviço de quem as escolas estão? O senhor sabe quem é a Monsanto, que diz que vai aplacar a fome do mundo com as sementes transgênicas?

O Mouro parece um tanto tonto com esta tagarelice de mulher. Volta ao seu canto do espelho, resmungando.

Meus colegas debatem sem parar a crise do governo atual, se é que há crise. Um deles, o das piadas, fala que o problema é que o governo, embora de esquerda, não aprendeu a lição marxista do exercício dialético. Exemplo disso é a falta de tato para lidar com os partidários que, descontentes, se retiraram do Partido dos Trabalhadores. Na opinião dele o governo deveria valorizar as posições contrárias e fazer a autocrítica, percebendo melhor o seu contraditório.

Nossos sapatos vão, aos poucos, tomando o rumo para fora daquele ambiente caloroso de debate, já com saudade.

À porta de saída, nossa Mestra pergunta sobre o meu costume de criar metáforas, compreendendo a minha formação em artes visuais e a obsessão por imagens. Respondo a ela que eu estava pensando em fazer um texto, criando a metáfora de um espelho na sala de aula para trazer o Mouro para o nosso debate. Isso poderia me proporcionar um momento de reflexão trazendo a história original de Marx para o nosso cotidiano, ao mesmo tempo em que poderia arriscar escrever parodiando o autor da biografia, o Ween, como singela homenagem à leitura tão impressionantemente humana da vida de nosso (anti) herói.

Ao chegar em casa, em frente ao espelho do saguão, sem o Mouro e sem a Mestra, reflito: Será que ainda há espaço no nosso cotidiano e em nossa luta política, especialmente no campo, para esse contraditório? Estaremos sabendo lidar dialeticamente com as contradições nas quais estamos envolvidos no campo, na cidade e na universidade?

De minha parte, na luta pela emancipação no campo, busco a arte como ferramenta social. Na biografia o autor tangencia superficialmente o que Marx pensava sobre ser um Rafael numa sociedade comunista: "numa sociedade comunista não existem pintores, mas apenas pessoas que se dedicam a pintar, entre outras atividades" (p. 96). Entretanto, o que aconteceria se nossa capacidade criadora não fosse sistematicamente mutilada pela escola e pela mídia? Como seria uma sociedade na qual pudéssemos afinar diversos instrumentos de nossa expressão criadora, a partir de uma educação estética para o coletivo?

Em meu projeto (2), por exemplo, a linguagem do teatro interativo, será de grande relevância como ferramenta metodológica.

Junto aos meus colegas, tenho estudado os referenciais da educação popular e da educação no campo. Há pouco, comentamos: Miguel Arroyo (1997) faz uma crítica à pedagogia criativa, que se restringe às classes mais abastadas, afirmando que esta pedagogia não chegou às escolas dos pobres, onde não há espaço nem tempo para o criativo. Entretanto, poucos conhecem a verdadeira história do ensino da arte nas escolas. A disciplina educação artística foi implantada tecnicistamente nas escolas (LDB 5692/71) durante o regime militar e, obviamente, até hoje sofre as seqüelas do projeto alienador do governo, que não deu espaço nem formação adequada aos profissionais de arte para cumprir o seu papel crítico e libertador (3).

Mesmo aqueles que desconhecem a importância da arte na educação popular, concordam que Paulo Freire (1979) relaciona a sua educação libertadora com um ato criativo por excelência. É nessa linha de pensamento que as linguagens artísticas estarão presentes em meu trabalho. A participação do grupo de teatro interativo junto aos produtores será fundamental para promover a crítica e tratar dos assuntos mais polêmicos e emergenciais como a contaminação dos agricultores com os agrotóxicos e sua total dependência do sistema capitalista.

Em minha metodologia de pesquisa irei analisar as narrativas dos pequenos produtores rurais, refletindo sobre os processos de desvendamento dos antagonismos e das contradições sociais e suas possíveis respostas, a partir do debate sobre as problemáticas do campo junto às comunidades de pesquisa, mediados pela linguagem do teatro interativo (4) como ferramenta social.

Lembrando da metáfora do espelho na sala de aula, posso imaginar o Francis Ween observando tudo o que narrei, os diálogos com o Mouro e a Mestra e o pessoal em círculo, entrelaçando os sapatos. Como seria interessante pesquisar sobre o teatro na época de Marx e refletir sobre isso. O que sei é que mais tarde, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) uniu o expressionismo à sátira da política capitalista, ampliando a temática marxista para o teatro, mas isto é uma longa história.

Como afirma Augusto Boal (1982), o fato de fazer teatro com e para as classes populares é, por si só, um ato revolucionário.

Notas:
(1) WHEEN, 2001: todas as citações literais dessa obra estão grafadas em itálico, com o número da página citada; as citações indiretas de outros autores estão no modo normal autor-data; os demais diálogos presentes no texto são de minha autoria, baseados nas reflexões coletivas em sala de aula.
(2) Projeto de tese: Histórias do campo, contradições e esperanças - A emancipação como possibilidade para as comunidades rurais do município de Rio Grande.
(3) Por pressão dos arte-educadores, organizados pela Federação dos Arte-educadores do Brasil - FAEB, os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs - incluíram a arte interdisciplinarmente nos anos iniciais do fundamental.
(4) Grupo ClownDestino, do Centro de Formação e Orientação Pedagógica da FURG, Rio Grande, com formação em Teatro do Oprimido de Boal, Teatro Fórum e Clowning (de Jean-Pierre Besnard, diretor do Caravane Theatre de Toulouse, França).

Referências bibliográficas:

ARROYO, Miguel (org.). Da escola carente à escola possível. São Paulo: Loyola, 1997.
BOAL, Augusto. 200 exercícios e jogos para o ator e não-ator com vontade de dizer algo através do teatro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
FREIRE, Paulo. Educação e mudança. São Paulo: Paz e Terra, 1979.
WHEEN, Francis. Karl Marx. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2001.

postado por Mara em 29.5.05 -   

[ DIRETRIZES PARA O ENSINO MÉDICO NA REDE BÁSICA DE SAÚDE ]
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO MÉDICA - ABEM
DIRETRIZES PARA O ENSINO MÉDICO NA REDE BÁSICA DE SAÚDE
Documento preliminar - abril de 2005.

Prof. Dr. Gastão Wagner de Sousa Campos

Pretendemos neste documento apontar algumas diretrizes para o ensino médico na rede de atenção primária à saúde.
§ Funções da rede básica no sistema de saúde e a busca da universalidade, eqüidade e integralidade.
A rede básica de atenção à saúde deveria se constituir em uma das principais portas de entrada para o sistema de saúde (não a única, o que implicaria em burocratização intolerável, o Pronto-socorro é outra porta possível e necessária, por exemplo). Porém espera-se dela muito mais do que isso. Afirma-se que na ABS deveriam ser resolvidos 80% dos problemas de saúde da população, assume-se com isso que, nas configurações que o SUS vem adquirindo colocam-se para a ABS pelo menos três funções importantes:
o Acolhimento à demanda e busca ativa com avaliação de vulnerabilidade: os pacientes precisam ser acolhidos no momento em que demandam. Sem isso a ABS nunca se constituirá em verdadeira porta do sistema. A dimensão do acolhimento pressupõe a disposição, organização e preparação da equipe para receber, em momentos e horários variáveis, grande variedade de demandas e avaliar os riscos implicados assegurando seu atendimento, visando à máxima resolutividade possível. Ao mesmo tempo, por meio do recurso da visita domiciliar, adscrição de clientela e análise das condições de saúde da comunidade e do território espera-se uma postura que vincule pessoas, famílias e a comunidade às Equipes de ABS e identifique o risco e vulnerabilidade desses indivíduos, famílias e setores da comunidade.
o Clínica ampliada: a clínica realizada na rede básica de saúde tem uma série de especificidades, o que a torna diferente da realizada em grandes centros hospitalares ou ambulatórios de especialidades. Contrário ao que se costuma pensar há grande complexidade nas intervenções na rede básica. O complexo se define em termos de número de variáveis envolvidas em um dado processo, nesse sentido é necessário intervir sobre a dimensão biológica ou orgânica de riscos ou doenças, mas será também necessário encarar os riscos subjetivos e sociais. Essas dimensões estarão presentes em qualquer trabalho em saúde, no entanto na rede básica atingem uma expressão maior, sendo necessário não somente considerar esses aspectos no momento do diagnóstico, mas também lograr ações que incidam sobre estas três diferentes dimensões. A proximidade com as redes familiares e sociais dos pacientes facilita essas intervenções, porém sem eliminar sua complexidade.
Ainda, a possibilidade de se construir vínculos duradouros com os pacientes é condição para o aumento de eficácia das intervenções clínicas, sejam essas diagnósticas, terapêuticas ou de reabilitação. A construção do caso clínico pode ser efetivada em vários encontros ao longo do tempo, com isso, ao mesmo tempo, aumentar-se-á a confiança entre profissionais e usuários. Assim, a clínica deverá ser ampliada, partindo de seu núcleo biomédico para os aspectos subjetivos e sociais de cada sujeito, respeitando a característica singular de cada caso - 'cada caso é um caso' - sem abrir mão de critérios técnicos previamente definidos (diretrizes clínicas, programas, etc).
o Saúde Coletiva: ainda será necessário que a rede básica realize procedimentos de cunho preventivo e de promoção à saúde no seu território. Busca ativa de doentes, vacinas, educação, medidas para melhorar a qualidade de vida, projetos intersetoriais, tudo isso vêm sendo recomendado amplamente pela bibliografia da área e contribui com certeza para a resolução e prevenção de inúmeros problemas de saúde.

Observa-se que, na prática, essas funções se entrelaçam, a integralidade e a efetividade do cuidado dependerão da possibilidade e da capacidade de cada Equipe combinar modos de intervenção de cada um desses campos na proporção exigida pelo caso.
A composição dessas três funções não é uma tarefa simples. É freqüente se observar desvios que diminuem a capacidade da rede, em alguns casos há redes que se voltam somente para a prevenção de riscos e ações comunitárias deixando toda a resolutividade clínica para a rede de urgência e hospitalar. Em outros, observa-se uma ABS transformada em pronto atendimento clínico de baixa qualidade. Nenhuma dessas alternativas garante o papel resolutivo que a ABS deve sustentar. A capacidade de a rede básica resolver 80% dos problemas de saúde dependerá tanto de investimentos, quanto da adoção de um modelo organizacional adequado e que permita o cumprimento dessas três funções.

Modelo Organizacional para a ABS:
Para atingir-se essa capacidade de resolver problemas de saúde, há hoje um reconhecimento de que a ABS deverá ordenar-se segundo algumas diretrizes:
- Trabalho em Equipe Interdisciplinar: sabe-se que nenhum profissional conseguiria ter um acúmulo de conhecimentos e habilidades práticas suficiente para cumprir simultaneamente essas três funções. Por outro lado, a fragmentação da atenção básica em diversas especialidades ou profissões, que não buscam formas integradas para a atuação, tem se demonstrando como sendo um modelo inadequado. No Brasil, o Ministério da Saúde, a partir de 1994, apoiando-se em experiências municipais, adotou um desenho para a composição básica dessa Equipe com base na lógica da Saúde da Família: médico, enfermeiro, dentista, técnicos ou auxiliares de enfermagem e odontologia, todos com formação e função de generalistas, e os agentes de saúde, uma nova profissão, em que trabalhadores recrutados na comunidade fazem ligação da equipe com família e com a comunidade.
Em algumas localidades há experiências que incorporam outros profissionais à ABS, ainda que procurem manter sempre a Equipe de Saúde da Família como núcleo central para ordenar a atenção. Com a idéia de constituírem-se redes de Apoio Matricial, agregam-se Equipe de Saúde Mental, Reabilitação, Nutrição, Saúde Coletiva e Desenvolvimento Social, Saúde da Mulher e da Criança, entre outras, que trabalham articuladas com várias Equipes de Saúde da Família em um determinado território. Algumas cidades têm experimentado deslocar especialistas em áreas com grande demanda para também atuarem na atenção básica.
- Responsabilidade Sanitária por um Território e Construção de Vínculo entre Equipe e Usuários: com objetivo de definir-se a responsabilidade sanitária de modo claro, recomenda-se que cada Equipe de Saúde da Família bem como outras com função de Apoio Matricial tenham a seu encargo o cuidado à saúde de um conjunto de pessoas que vivem em um mesmo território. A Equipe deve conhecer os condicionantes de saúde dessa região, bem como identificar risco e vulnerabilidade de grupos, famílias e pessoas, desenvolvendo projetos singulares de intervenção. A construção de vínculo depende desse desenho organizacional e também da ligação longitudinal - horizontal ao longo do tempo - entre Equipe e usuários.
- Abordagem do Sujeito, da Família e do seu Contexto, a busca da Integralidade em ABS: que depende do exercício combinado das três funções acima explicitadas. Dentro dos limites da ABS, cada Equipe deve contar com meios para resolver problemas de saúde valendo-se de ações clínicas, de promoção e prevenção e, até mesmo, de reabilitação e alívio do sofrimento. Espera-se que as Equipes consigam tanto apoiar a comunidade e outros setores para a intervenção sobre determinantes do processo saúde/doença, quanto garantir atenção singular aos casos com maior vulnerabilidade.
- Reformulação do saber e da prática tradicional em saúde: Recomenda-se uma reformulação e ampliação do saber clínico, com a incorporação de conceitos e de ferramentas originários da saúde coletiva, saúde mental, ciências sociais e de outros campos do conhecimento que permitam aos trabalhadores de saúde lidar com a complexidade do processo saúde e doença, incorporando o social e o subjetivo, bem como fazer a gestão do trabalho em equipe e em sistemas de rede.
Para isso é fundamental a instituição de programas de educação permanente, com cursos e discussão de casos, de consensos clínicos, que tornem possível esse trajeto.
Migrar o ensino para a ABS não significa automaticamente migrar o ensino para um paradigma novo. Freqüentemente a ABS reproduz, em condições limitadas, o mesmo modelo de atenção à saúde dos serviços especializados. A Abordagem Integral depende da reformulação do paradigma tradicional denominado de biomédico. Para isso recomenda-se tomar o sujeito em sua família e em seu contexto econômico, social e cultural, bem como envolver os usuários tanto na gestão do sistema de saúde, quanto na construção de sua própria saúde.
- Articular a ABS em uma rede de serviços de saúde que assegure apoio e amplie a capacidade de resolver problemas de saúde. A ABS necessita de uma ligação dinâmica e de apoio com outras redes, a saber, de urgência, hospitalar, de centros especializados, de saúde coletiva, de desenvolvimento social, etc.

A ABS realmente existente:
De fato, onde existiria essa ABS idealizada em recomendações e textos teóricos? Em nenhum lugar, com certeza. Como está acontecendo com o SUS em geral, também a implantação da rede de ABS no Brasil está ocorrendo de maneira bastante heterogênea. O que se resumiu acima são recomendações genéricas, que alguns gestores e profissionais procuram transformar em realidade.
Em tese teríamos quase 100 milhões de brasileiros vinculados a distintos programas na ABS. No entanto, a qualidade e a capacidade resolutiva desses serviços é muito desigual. Temos desde cidades com baixa cobertura, até outras que alcançaram setenta por cento de famílias vinculadas à ABS. O apoio ao exercício de uma clínica eficaz é igualmente heterogêneo, o mesmo se pode dizer sobre a integração da ABS ao sistema hospitalar e de especialidades. Além disso, há problemas sérios com a política de pessoal, desde o sistema precário de contratação até a quase inexistência de oportunidade tanto para a formação especializada quanto para acesso a processos de educação permanente. A maioria absoluta dos médicos, enfermeiros e dentistas não tem formação especializada em saúde da família, ou saúde coletiva ou para o exercício de uma clínica ampliada de cunho generalista, nem contam tampouco com apoio técnico ou institucional.
Concluindo pode-se observar que, apesar da mudança de cenário, a ABS tende, na prática, a reproduzir o modelo biomédico dominante, sendo necessários esforços continuados e sistemáticos para reformular esse tipo de prática e de saber.
Nesse sentido, as Escolas Médicas deverão colocar-se como parceiras dos sistemas locais de saúde objetivando um esforço articulado para a efetiva organização da ABS.

§ Por que o ensino na rede básica de saúde?
Há uma recomendação curricular genérica de que a formação médica busque uma variação de cenários para o ensino prático. Na mesma linha recomenda-se a inserção precoce do aluno em atividades práticas. Além disso, se na rede básica se espera sejam resolvidos 80% dos problemas de saúde da população, se aceitamos que as intervenções no território são de grande complexidade, e se ainda acrescentamos a isso que grande parte da população brasileira vive na pobreza, teremos claras evidencias técnicas e éticas de que nossas escolas médicas devem formar um profissional competente para intervir nessa realidade. Nesse sentido, a rede básica é um campo de práticas potencial e necessário, no qual os vários cursos de formação de profissionais de saúde deverão inserir seus alunos.
Em medicina, cursos que combinem teoria e prática voltada para o campo da Saúde Coletiva podem ser desenvolvidos desde o primeiro ano. O ensino de metodologia sobre educação em saúde, visita domiciliar, epidemiologia aplicada a serviços, política e gestão em saúde, projetos comunitários e intersetoriais, tudo isto e muito mais pode fazer parte de módulos com estágios em ABS desde o primeiro ano.
Além do mais, se observa que, progressivamente, com a implantação do SUS, grande parte dos casos que antes demandava atendimento em hospitais e serviços de urgência, busca atenção na ABS. Assim o próprio ensino da clínica necessita de novos cenários. Além do mais, na ABS o aluno seria ensinado a fazer uma abordagem ampliada e singular de cada caso, o que qualificaria a formação teórica sobre diretrizes. Entrar em contacto com essa complexidade, com a obrigação de trabalhar em equipe e de fazer um seguimento longitudinal possibilita que o aluno se aproprie de competências essenciais para o exercício da profissão.
Valorizar o ensino na rede básica visa atender uma demanda social inelutável de nosso país, bem como ampliar os cenários para práticas tanto de clínica quanto de saúde coletiva, e também honrar a promessa de bem formar nossos alunos. Ainda, pressupõe aceitar que a prática é fundante da formação e que há experiências que nenhum livro pode fornecer.
Por último, implica reconhecer que os problemas que o SUS deve resolver são problemas também para as Escolas Médicas. Nesse sentido, não estamos formando médicos com competência e habilidade para o exercício dessa função essencial ao sistema e à saúde dos brasileiros. A ABS não logrará efetivar-se se não contar com milhares de médicos capazes para trabalhar em equipe, exercer uma clínica ampliada, participar de projetos coletivos e que estejam abertos para continuar aprendendo.


§ Necessidades pedagógicas colocadas pela relação ensino - serviços na ABS.
- O aluno de graduação precisa de uma estrutura de estágio que permita e facilite o trânsito entre teoria e prática. Os docentes - como mediadores fundamentais dessa relação - deveriam, necessariamente, ser capacitados para esse novo tipo de ensino.
O vínculo com o docente é um grande facilitador, assim o contato prolongado, horizontal, com um mesmo professor deveria ser estimulado. Isso ainda permitiria um cuidado adicional com os alunos que, muitas vezes, sentem-se desorientados nessa etapa de sua formação e sofrem o impacto da realidade que lhes é apresentada.
As atividades planejadas deveriam estimular a busca de informação, leituras, reflexões e permitir que a partir das questões que a prática coloca se descubram e estudem novos conteúdos.
No caso, a grade curricular deverá ser ordenada de maneira a permitir cursos mais longos, com estágios no mesmo serviço, de modo que o aluno possa acompanhar casos clínicos ou sanitários por um período longo.
- O estágio na rede básica precisa ser ordenado, tanto por razões pedagógicas quanto de funcionamento dos serviços, em pequenos grupos de alunos, com supervisão e acompanhamento de professores e de tutores ou colaboradores escolhidos entre Equipes da ABS. Nos primeiros anos, os estágios na rede básica se voltam para o campo da saúde coletiva, e seriam coordenados por professores e profissionais com formação especializada ou que se apropriaram de conhecimentos sobre clínica ampliada e saúde pública.
A partir do quarto ano e no internato, contudo, recomendam-se estágios clínicos na rede básica. O ensino de pediatria, ginecologia, obstetrícia, clínica médica, psiquiatria, infectologia, entre outras disciplinas, depende cada vez mais da prática que acontece fora do hospital universitário, na ABS ou em Centros de Referência. Nessa situação é importante que os professores especialistas se articulem com as Equipes de generalistas em saúde da família, buscando articular o ensino prático com a lógica de funcionamento do modelo de atenção da rede básica. Operando com os agentes de saúde, fazendo discussão de caso em Equipe, visita domiciliar, educação em saúde, elaboração de projeto terapêutico e de intervenção sobre o território, etc.
O ensino na ABS não pode ser responsabilidade apenas dos docentes de Saúde Coletiva ou de Saúde da Família, necessita do envolvimento de outras especialidades conforme descrito acima. Depende ainda da possibilidade de se recrutar na rede de ABS monitores ou tutores que dêem viabilidade a necessária descentralização e multiplicação dos campos de prática.

§ Como operacionalizar as relações ensino -serviço?
o Contratação clara de responsabilidades com a rede pública (projetos de integração, contratos e convênios, etc.). Em geral, os Hospitais Universitários estão sob gestão da própria Universidade, o mesmo não acontece com as redes de atenção básica. No Brasil, 97% da rede básica encontram-se sob direção municipal, nesse caso a descentralização se realizou quase completamente. Recomenda-se que as Escolas elaborem projetos de integração docente-assistencial com as Secretarias Municipais, definindo com clareza os vários componentes dessa relação. Por um lado, é importante assegurar espaço para os alunos: definição de distritos, serviços e equipes onde ocorrerão os estágios; por outro, é fundamental assegurar reciprocidade; ou seja, compromisso da Escola, representada por alunos e docentes, com o respeito às diretrizes políticas sanitárias adotadas, bem como com a qualidade da atenção.
o Investimento para assegurar infra-estrutura básica para o ensino em ABS: Os locais onde trabalham as Equipes não necessariamente estão preparados para receber um grupo, ainda que pequeno, de alunos; é importante que a Universidade, em parceria com o Ministério e Secretarias de Estado, elabore projetos para adaptação desses espaços também para o ensino. Algum apoio ao transporte de alunos e professores é importante, com a descentralização dos espaços de prática fica complicado o deslocamento de alunos e docentes, sendo conveniente assegurar-se formas que facilitem esses deslocamentos. Apoio em informática é fundamental para o ensino a distância e a utilização de recursos da tele-medicina pelos alunos, docentes e Equipes. Projetos de acesso fácil à biblioteca e consulta especializada qualificam esses estágios bem como o próprio funcionamento da rede básica.
o Parceria estreita com gerencia local e Equipe (reuniões, discussões, planejamento conjunto, etc.) em todos os locais onde ocorra estágio. Além do contrato geral com o gestor municipal, é importante que cada docente com seus alunos realizem um contrato - explicitação do projeto de ensino e assunção de compromissos compartilhados - com o dirigente e com a Equipe junto aos quais ocorrerá o estágio prático.
o Desenho de estágios que valorizem o contato horizontal propiciando a construção de vínculos, tanto com usuários (visando a ampliação da clínica) quanto com a equipe (favorecendo a construção de uma identidade profissional apta para esse tipo de trabalho).
o Elaboração de uma rede de cooperação entre Hospital Universitário e rede básica, respeitando-se as diretrizes de regionalização porventura existentes, mas facilitando o apoio de especialistas às Equipes de Saúde da Família.
o Montagem de dispositivos de Desenvolvimento Docente com apoio institucional, objetivando educação continuada dos docentes, contratados e tutores por meio de discussão de temas teóricos, de casos e problemas originários da própria experiência e também de outras experiências análogas.
o Definição de um Corpo Docente para cada um desses módulos, composto por professores, profissionais contratados e tutores recrutados entre o próprio pessoal da rede básica. Ainda que os papéis e responsabilidades sejam distintos, recomenda-se o funcionamento do Corpo Docente em lógica de equipe com colegiado de gestão. Ainda que haja polêmica sobre o tema, seria conveniente remunerar a dedicação docente dos tutores.
o Apoiar docentes e alunos para que a rede básica se constitua em um campo de investigação e produção de conhecimento, sempre que possível e conveniente envolvendo parceiros do sistema de saúde.

postado por Mara em 12.5.05 -   

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