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Quarta-feira, Junho 30, 2004
Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas: Pediatria - UFRGS
Disciplina de Prática Educativa em Medicina
Conhece-te a ti mesmo, ensina-te a ti mesmo
Cristina Dornelles
Bióloga no Centro de Otite Média do Brasil, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestranda do Programa de Pós Graduação em Medicina: Pediatria da UFRGS
Endereço para Correspondência:
Rua Cangussu, 1343 - Porto Alegre - RS - 90830-010 - (51) 32492275
cristinadornelles@yahoo.com.br
Resumo
Neste artigo, a autora disserta sobre o tema avaliação, desde a primeira proposição de que se tem conhecimento, com a máxima de Sócrates "conhece-te a ti mesmo", até informações atuais. Faz uma abordagem de sua definição, passa pelos objetivos e apresenta noções básicas sobre seus métodos. Apresenta argumentos a respeito do processo avaliar/ensinar. Para finalizar, apresenta algumas considerações sobre os sistemas as mudanças necessárias, no sistema educacional, para a verdadeira avaliação formativa.
Palavras-chave:
Avaliação, Prática Educativa
Avaliar por quê? Para quê?
O processo de avaliação é uma constante, em múltiplas instâncias, em diversas dimensões, por inumeráveis metodologias. Em termos individuais, nascemos e morremos acompanhados de um instrumento de avaliação, o Apgar e o Atestado de Óbito, respectivamente, e o intervalo temporal compreendido entre estes dois marcos da existência é constantemente avaliado, reavaliado, autoavaliado, através de incontáveis maneiras e diferentes contextos.
Historicamente, o primeiro sistema avaliativo foi proposto pelo filósofo grego Sócrates através de seu famoso lema "conhece-te a ti mesmo", sua instrução formou-se, sobretudo, através da reflexão pessoal. A filosofia socrática não impunha o conhecimento ao discípulo, mas auxiliava-o a trazê-lo à tona, através da formação autônoma da pessoa, baseado, fundamentalmente, no autoconhecimento.
Os processos avaliativos não podem ter como meta, ou estarem balizados, apenas em detectar que os avaliados estão tecnicamente capazes, mas deve, sobretudo, conseguir identificar se possuem uma visão social crítica e criadora, não é mais possível que os estudantes sejam submetidos a verdadeiras maratonas e massacres psicológicos em nome de avaliações que conseguem, na melhor das hipóteses, quantificar informações retidas num momento específico. Para tanto, são necessárias mudanças conceituais e estruturais profundas, a avaliação necessita de ser entendida como um processo amplo, complexo, interativo e de formação.
Devemos ter em mente que a avaliação é um elemento integrante e regulador das práticas pedagógicas, constitui-se em um certificador da aprendizagem, em um direcionador de decisões para o planejamento e como um avaliador do sistema educacional.
As concepções e práticas de avaliação envolvem interpretação, reflexão, informação e decisão sobre os processos de ensino e aprendizagem, e devem ter como principal função promover a formação do educando, para tanto o currículo, o planejamento, a prática educativa e os instrumentos avaliativos devem constituir-se como elementos integrados de um mesmo sistema.
Esta integração não tem qualquer possibilidade de existir se os testes usuais forem instrumentos exclusivos ou considerados como mais importantes. Aqui apresenta-se o principal conflito do programa de avaliação, pois é necessário que sejamos muito criteriosos, tendo o cuidado de não complicar demasiadamente, a ponto de torná-lo pesado e burocrático, mas também não simplificá-lo de maneira a constituí-lo num mero quantificador de lembranças.
A utilização de uma variedade de métodos e instrumentos de avaliação, adequados à diversidade e à natureza das aprendizagens que se pretende promover, permite a apreciação de uma evolução global dos alunos.
Objetivos da Avaliação
As questões acerca do por que, para que, o que, como e quando avaliar nos remetem, imediatamente, ao por que, para que, o que e como ensinar, ou seja, a avaliação só poderá ser formativa quando o currículo também o é, e vice-versa. Nossa realidade acadêmica concebe o conhecimento como algo acabado, simples, externo, linear e compartimentado, onde o objetivo é a acumulação de conceitos descontextualizados e, para tanto, não necessitam de avaliações que ultrapassem os limites de controles periódicos, os quais apenas medem a capacidade de reprodução, em um tempo e espaço limitados, dos conhecimentos compartimentalizados.
Luísa Afonso, parafraseando um ditado bíblico, ao escrever "diz-me como avalias, di-ter-ei quem és", sumarizou uma profunda reflexão sobre a educação.
Um ensino construtivo requer avaliação contínua, formativa, diferenciada e multidimensional, ou seja, a educação formadora deve ser alicerçada em diretrizes uníssonas desde sua concepção através dos currículo, programa, prática educativa e avaliação.
A avaliação é parte de um processo contínuo, no qual o professor pode perceber o desenvolvimento do aluno como um todo.
Segundo Luckesi, a avaliação não pode ser utilizada só como função classificatória, mas como um instrumento de compreensão do estágio de aprendizagem em que se encontra o aluno. Segundo Maria Celina Melchior, o processo avaliativo não tem finalidade em si mesmo, não pretende uma melhora só na aprendizagem, mas da racionalidade e da justiça na práticas educativas. Se avalia não só para cumprir com uma das funções do professor, de manter atualizado o currículo do aluno mas, fundamentalmente, se faz avaliação para conseguir a melhora do processo educativo como um todo.
Avaliar não é reprovar, mas sim compreender e promover a cada momento, o desenvolvimento pleno da criança, do jovem, ou de qualquer indivíduo ou grupo social que se submeta ao processo de alfabetização e de aprendizagem em geral.
Avaliar implica em observação, através de um conjunto de instrumentos, que permitam identificar o desenvolvimento, parcial ou geral, das aprendizagens realizadas e dos resultados obtidos. Para tanto, todos os sujeitos devem participar da construção deste processo e, terem noção, de que todos os elementos constituem a avaliação e também são objetos desta. Ao avaliarmos um aluno estamos avaliando todo o sistema educacional, a instituição, as competências docentes e a metodologia; é necessário ser muito ingênuo para acreditar que toda esta complexidade pode estar refletida em uma simples prova de conhecimentos.
As atividades de avaliação ocupam uma grande parte do tempos e do esforço de alunos e de professores, dependendo do que é valorizado no currículo e, portanto, alvo de avaliação, haverá mudanças na motivação, auto-conceito, hábitos de estudo e estilos de aprendizagens.
Tipos
A avaliação passa pela formulação de juízos de valor (Simons, 1993), para a formulação deste são necessários os dados de base, sendo estes, descritivos e quantitativos, que conferem concretude às interpretações e aos julgamentos qualitativos(Dias Sobrinho, 2000).
Através do processo avaliativo é possível determinar até que ponto os objetivos educacionais foram realmente alcançados (Ralph Tyler, 1950), o qual possibilita que se determine o mérito, a importância, ou o valor das coisas (Michael Scriven, 1991), devendo ser permanente e constituir-se em instrumento de aprendizagem organizacional (Sandra Trice Gray, 1998) que tem por função alterar e iluminar a busca de objetivos programáticos (Robert Floden et al., 1983).
Didaticamente, podemos classificar os tipos de avaliação como: Diagnóstica, Somativa, Formativa e Emancipadora.
Como o próprio nome já declara, a avaliação diagnóstica tem como propósito realizar um levantamento dos conhecimentos prévios, com o objetivo de fornecer, ao professor, elementos que lhe permitam adequar o planejamento à prática educativa. É um ponto de partida para a concepção e desenvolvimento de qualquer projeto curricular e de planejamento, constituindo-se em instrumento útil mas, ao mesmo tempo, perigoso, pois se não for visto como um sistema de caracterização do nível a partir do qual deve-se iniciar o processo de ensino, poderá provocar rotulações, estigmatizando alunos. Caso clássico disto é o do professor de Bethoven, ao emitir seu parecer de uma avaliação diagnóstica "Nunca aprendeu nada, nunca aprenderá nada, como compositor é um caso perdido", se o aluno tivesse seguido a orientação deste professor o mundo não conheceria algumas das melhores composições já executadas.
A avaliação somativa é a conhecida como clássica, tem por objetivo refletir os resultados obtidos em momentos específicos, traduzindo, de forma breve, codificada, o quanto de uma meta foi atingido. Caracteriza-se por controle, padronização e classificação por atribuição de graus ou notas.
Já a avaliação formativa tem como ponto central a obtenção de dados para a reorganização do processo de ensino-aprendizagem, Cortesão e Torres (1993) descrevem este tipo como sendo uma "bússola orientadora" que ajuda educandos e educadores a reorientar o seu trabalho, apontando falhas, objetivos ainda não atingidos e aspectos a melhorar, levando em conta aspectos cognitivos, psicomotores e sócio-afetivos, não é relatada através de notas mas, sim, por meio de apreciações e comentários. Assume caráter contínuo e sistemático, visando a regulação do ensino e da aprendizagem. Este tipo de avaliação tenta contribuir para o sucesso dos alunos e o desenvolvimento possível das suas competências, além de valorizar a responsabilidade do sistema, da instituição e do docente nos resultados obtidos pelo corpo discente.
São pré-requisitos básicos da avaliação emancipadora a análise, a crítica e a transformação. Têm por propósito a modificação e a melhora contínua. Ela é vista como um instrumento educativo da emancipação do aluno, do seu senso de autocrítica e autodesenvolvimento.
Parlett e Hamilton, já na década de 1970, defendiam a prática de uma "avaliação iluminativa" como uma alternativa ao modelo clássico, a qual levasse em conta o processo educativo como um todo, que o iluminasse, de maneira a permitir a compreensão da complexidade das situações.
Instrumentos
É necessário percebermos que o sentido e o sistema de avaliação definem o currículo de fato, quais são as qualidades e as realizações são valorizadas e recompensadas pelo sistema. São vários os instrumentos disponíveis para avaliação, independentes do tipo a ser utilizado, por exemplo num processo diagnóstico podemos utilizar o pré-teste, a observação; já na somativa temos a prova, o questionário; no caso de uma avaliação formativa utilizamos acompanhamento, discussão em grupo, relatório, fichas de avaliação de problemas, finalmente, numa avaliação emancipadora podemos utilizar a figura do tutor como relator do processo evolutivo, a auto-avaliação e discussões com os pares.
É curioso perceber, através do relato de Stiggins e Bridgeford (1985), que, nas décadas de 1940 a 1980, 90% dos trabalhos publicados nos estados Unidos da América do Norte versavam sobre construção e utilização de testes. Este fato evidência uma ideologia educativa fortemente voltada à competição e não à formação, pois este sistema transforma a avaliação num mero medidor de resultados, pois só uma pequena parte da aprendizagem é avaliada, é estanque, e tem por objetivo único a obtenção de uma classificação discriminatório entre os considerados mais ou menos aptos ao mercado.
Não questiono, aqui, a utilidade dos testes, mas eles nunca deverão ser o único ou o mais importante sistema de avaliação, porém, devem ser utilizados, se bem construídos, como um instrumento para a melhoria da capacidade de atenção dos alunos, para auxiliar na retenção dos conteúdos e na consolidação das aprendizagens.
Ao diversificarmos os métodos utilizados permite-se que os alunos apliquem os conhecimentos que vão adquirindo, exercitem e controlem suas aprendizagens e competências a desenvolver, necessitando, para isto, receberem um feedback constante, que deve ser descritivo, específico, relevante, periódico e encorajador.
Dentro de uma perspectiva de educação construtivista, devemos dar especial atenção à avaliação formativa, que é um ato avaliativo com intenção de intervir na própria aprendizagem, é atemporal e tende a ser mais significativa para o aluno, pode ocorrer por meio distintos, sendo eles relatório e discussões entre alunos e professos, pela co-avaliação entre os pares e pela auto-avaliação.
A co-avaliação entre os pares é um processo, simultaneamente, externo e interno. Os alunos são colocados em situações de confronto, de troca, de interação, de decisão, que os levem a explicar, justificar, argumentar, expor idéias, dar ou receber informações para tomar decisões, planejar e dividir tarefas, ou seja, é um processo que induz ao apoio mútuo.
Também como um método de avaliação formativo temos que considerar a auto-avaliação regulada como a via primordial para regular as aprendizagens, cabendo ao professor construir contextos favoráveis para que tal aconteça. Segundo Hadji, 1997, é a atividade de auto controle reflexivo das ações e comportamentos do sujeito que aprende. Deve ser o olhar crítico conscientes sobre o que se faz, enquanto se faz. Para que este processo tenha êxito é necessário que o educando compreenda o seu erro para ter condições de ultrapassá-lo, constituindo-se, assim, a realização da aprendizagem. O docente deve comportar-se como um orientador, formulando hipótese explicativas para o raciocínio do aluno, não apontando os erros nem corrigindo-os, mas, sim, questionando e apresentando pistas para a auto-identificação e auto-correção.
Perrenoud (1999) enfatiza que devemos caminhar para a situação em que o aluno tenha, de tal modo, desenvolvido a sua auto-avaliação que a intervenção do professor, neste processo, não seja mais necessária.
"Toda a ação educativa só pode estimular o autodesenvolvimento, a autoaprendizagem, a autoregulação de um sujeito, modificando o seu meio, entrando em interação com ele. Não se pode apostar, afinal de contas, senão na autoregulação."
Critérios
Noizet e Caverni (1983) afirmam que o insucesso escolar pode ser originado pelos procedimentos de avaliação, já Pacheco (1998) afirma que não sucesso do aluno é explicado, em grande parte, por uma débil prática de construção ou pelos critérios de avaliação do desempenho.
Os critérios são utilizados para julgar, apreciar e comparar, devem estar baseados nos métodos de coleta, no tratamento e na comunicação dos dados, para tanto, a formulação destes critérios exige colaboração, trabalho conjunto, discussão, problematização e contextualização, levando-se em consideração de que a avaliação deve ser um processo de responsabilidade e com utilidade educativa e social.
Numa avaliação integrada, a coleta de dados é feita a partir de diversas fontes, com diferentes instrumentos.
Neste contexto, devem ser estabelecidos a periodicidade das avaliações, que recolherá os dados, como estes serão coletados, qual a função desta avaliação e quais serão os métodos de comunicação dos resultados. Hadgi (1997) afirma que o avaliador não é um instrumento de medida, mas, sim, o ator de uma comunicação social.
Apesar do estabelecimento de critérios objetivos, o corpo docente deve ter em mente de que a atribuição de conceitos é uma operação subjetiva, necessitando de um verdadeiro código de postura e ética.
A apropriação dos critérios de avaliação é condição necessária para a auto-regulação, questões como: "Que aspectos se têm de verificar para considerar que um trabalho é bom?", "O que é indispensável que o aluno aprenda?", "O que não deve acontecer?", "Quais são considerados os erros graves?". Todos estes elementos devem ser partilhados com os alunos com o objetivo de desenvolver um processo de negociação, assim, a avaliação não é estática, de simples análise de resultado, mas torna-se um processo.
Resultados da Avaliação
O alcance dos objetivos, por parte dos alunos, é uma meta que exige conhecer os resultados da avaliação, bem como é necessário o conhecimentos da avaliação da intervenção pedagógica para poder melhorar a qualidade do ensino.
Os resultados do processo avaliativo não podem ser apenas quantitativos e classificatórios, necessitam ser indicativo de renovação, modificação, mudança, transformação, ampliação, todos indicativos de aprendizagem.
A avaliação deve ser um espelho de todo o processo de ensino/aprendizagem, deste a elaboração curricular, elaboração de planos de ensino, prática educativa, capacitação dos docentes e desenvolvimento dos discentes. É por si um indicador de restrições e necessidades de melhoria de recursos humanos, físicos, financeiros.
Considerações Finais
Após esta breve descrição e reflexão sobre o processo de avaliação não resta-nos outra consideração se não a de que há uma profunda necessidade de transformação de todo sistema educativo, das instituições, da preparação docente, das estruturas curriculares e, sobre tudo, dos objetivos educacionais.
Vivemos um momento de revolução de idéias, onde os indivíduos, mesmo que não tenham conhecimentos teóricos, apresentam conhecimento sobre os requisitos da transformação social. É premente que mudemos os rumos da escolha de prioridades, temos que "desmercantilizar" para humanizar.
Segundo Paulo Freire: "Os sistemas de avaliação pedagógica de alunos e professores vêm se assumindo, cada vez mais, como discursos verticais, de cima para baixo, mas insistindo em passar por democráticos. A questão que se coloca a nós, enquanto professores e alunos críticos e amorosos da liberdade, não é, naturalmente, ficar contra a avaliação, mas resistir aos métodos silenciadores com que ela vem sendo, às vezes, realizada. A questão que se coloca a nós é lutar em favor da compreensão e da prática de avaliação enquanto instrumento de apreciação do que-fazer de sujeitos críticos a serviço, por isso mesmo, da libertação e não da domesticação. Avaliação em que se estimule o falar a como caminho do falar com."
A educação de resultados não tem mais espaço, as necessidades do mundo e, até, do próprio mercado exigem profissionais mais humanizados e humanizadores, que tenha uma visão crítica do mundo, que possam enfrentar desafios constantes, que sejam criativos. Como muito apropriadamente disse Gramsi "todo o homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um 'filósofo', um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção de mundo ... todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então; mas nem todos desempenham, na sociedade, a função de intelectuais."
Se temos esta idéia da capacidade humana, a educação deve partir do princípio de que todos são capazes de aprender e ter como objetivo a formação de cidadãos, nesta circunstâncias não poderemos utilizar, jamais, o processo de avaliação como um instrumento de medição. Porém, este tipo de educação/avaliação só é possível em ambientes com turmas pequenas, onde haja proximidade entre os atores do processo, que possibilite o conhecimento pessoal das partes. Mais do que nunca a sensibilidade é um requisito para o êxito. A paixão por educar é absolutamente indispensável, pois não são as condições que farão os bons educadores, mas, sim, os bons educadores fornecem as condições necessárias para a aprendizagem, ou seja, a comunicação e a cooperação, O processo de avaliação refletirá, sempre, a teoria e a prática educativa do educador e do sistema. Temos que lutar muito e sempre, para a qualificação de nossos educadores, pois são eles que terão a força para mudar o sistema e, assim, o poder de socializar a informação, construir cidadãos. Conforme as palavras de Gayle Fields: "Os escaladores, tal como os professores e os estudantes, estão constantemente a receber ajudas para atingirem os seus objetivos; tal como a corda de segurança liga os vários escaladores, os laços de aceitação e compreensão unem o professor e seus alunos. O excitante, o divertido é que a aventura nunca para; mudando, insistindo, desafiando à medida que cada passo é dado, tal qual como acontece na sala de aula. Cada etapa da escalada é uma mini aventura e um desafio, requerendo diferentes técnicas, diferentes competências e interajudas."
Referências
1. Abrantes, P.; Afonso, L.; Peralta, M.H.; Cortesão, L.; Leite, C.; Pacheco, J.A.; Fernandes, M.; Santos, L. Reorganização Curricular do Ensino Básico: Avaliação das Aprendizagens. Ministério da Educação, Lisboa, 2002.
2. Franco, L. A. C. A escola do trabalho e o trabalho da escola. São Paulo, Cortez: Autores Associados, 1988.
3. Freire, P. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo. Paz e Terra, 1996.
4. Hadji, C. A avaliação, regras do jogo. Editora Porto, 1994.
5. Noizet, G. e Caverni, J. Les procédures d'evaluation ont-elles leur part de responsabilité dans l'échec scolaire? Revue Française de Pédagogie, 62, 7-14. 1983.
6. Hadji, C. L'évaluation démystifiée. Editora ESF. 1997.
7. Perrenoud, P. Avaliação. Da excelência à regulação das aprendizagens. Entre duas lógicas. ARTMED, 1998.
8. Zabala, A. A prática educativa. Como ensinar. ARTMED, 1998.
Disciplina de Prática Educativa em Medicina
Conhece-te a ti mesmo, ensina-te a ti mesmo
Cristina Dornelles
Bióloga no Centro de Otite Média do Brasil, Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestranda do Programa de Pós Graduação em Medicina: Pediatria da UFRGS
Endereço para Correspondência:
Rua Cangussu, 1343 - Porto Alegre - RS - 90830-010 - (51) 32492275
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Resumo
Neste artigo, a autora disserta sobre o tema avaliação, desde a primeira proposição de que se tem conhecimento, com a máxima de Sócrates "conhece-te a ti mesmo", até informações atuais. Faz uma abordagem de sua definição, passa pelos objetivos e apresenta noções básicas sobre seus métodos. Apresenta argumentos a respeito do processo avaliar/ensinar. Para finalizar, apresenta algumas considerações sobre os sistemas as mudanças necessárias, no sistema educacional, para a verdadeira avaliação formativa.
Palavras-chave:
Avaliação, Prática Educativa
Avaliar por quê? Para quê?
O processo de avaliação é uma constante, em múltiplas instâncias, em diversas dimensões, por inumeráveis metodologias. Em termos individuais, nascemos e morremos acompanhados de um instrumento de avaliação, o Apgar e o Atestado de Óbito, respectivamente, e o intervalo temporal compreendido entre estes dois marcos da existência é constantemente avaliado, reavaliado, autoavaliado, através de incontáveis maneiras e diferentes contextos.
Historicamente, o primeiro sistema avaliativo foi proposto pelo filósofo grego Sócrates através de seu famoso lema "conhece-te a ti mesmo", sua instrução formou-se, sobretudo, através da reflexão pessoal. A filosofia socrática não impunha o conhecimento ao discípulo, mas auxiliava-o a trazê-lo à tona, através da formação autônoma da pessoa, baseado, fundamentalmente, no autoconhecimento.
Os processos avaliativos não podem ter como meta, ou estarem balizados, apenas em detectar que os avaliados estão tecnicamente capazes, mas deve, sobretudo, conseguir identificar se possuem uma visão social crítica e criadora, não é mais possível que os estudantes sejam submetidos a verdadeiras maratonas e massacres psicológicos em nome de avaliações que conseguem, na melhor das hipóteses, quantificar informações retidas num momento específico. Para tanto, são necessárias mudanças conceituais e estruturais profundas, a avaliação necessita de ser entendida como um processo amplo, complexo, interativo e de formação.
Devemos ter em mente que a avaliação é um elemento integrante e regulador das práticas pedagógicas, constitui-se em um certificador da aprendizagem, em um direcionador de decisões para o planejamento e como um avaliador do sistema educacional.
As concepções e práticas de avaliação envolvem interpretação, reflexão, informação e decisão sobre os processos de ensino e aprendizagem, e devem ter como principal função promover a formação do educando, para tanto o currículo, o planejamento, a prática educativa e os instrumentos avaliativos devem constituir-se como elementos integrados de um mesmo sistema.
Esta integração não tem qualquer possibilidade de existir se os testes usuais forem instrumentos exclusivos ou considerados como mais importantes. Aqui apresenta-se o principal conflito do programa de avaliação, pois é necessário que sejamos muito criteriosos, tendo o cuidado de não complicar demasiadamente, a ponto de torná-lo pesado e burocrático, mas também não simplificá-lo de maneira a constituí-lo num mero quantificador de lembranças.
A utilização de uma variedade de métodos e instrumentos de avaliação, adequados à diversidade e à natureza das aprendizagens que se pretende promover, permite a apreciação de uma evolução global dos alunos.
Objetivos da Avaliação
As questões acerca do por que, para que, o que, como e quando avaliar nos remetem, imediatamente, ao por que, para que, o que e como ensinar, ou seja, a avaliação só poderá ser formativa quando o currículo também o é, e vice-versa. Nossa realidade acadêmica concebe o conhecimento como algo acabado, simples, externo, linear e compartimentado, onde o objetivo é a acumulação de conceitos descontextualizados e, para tanto, não necessitam de avaliações que ultrapassem os limites de controles periódicos, os quais apenas medem a capacidade de reprodução, em um tempo e espaço limitados, dos conhecimentos compartimentalizados.
Luísa Afonso, parafraseando um ditado bíblico, ao escrever "diz-me como avalias, di-ter-ei quem és", sumarizou uma profunda reflexão sobre a educação.
Um ensino construtivo requer avaliação contínua, formativa, diferenciada e multidimensional, ou seja, a educação formadora deve ser alicerçada em diretrizes uníssonas desde sua concepção através dos currículo, programa, prática educativa e avaliação.
A avaliação é parte de um processo contínuo, no qual o professor pode perceber o desenvolvimento do aluno como um todo.
Segundo Luckesi, a avaliação não pode ser utilizada só como função classificatória, mas como um instrumento de compreensão do estágio de aprendizagem em que se encontra o aluno. Segundo Maria Celina Melchior, o processo avaliativo não tem finalidade em si mesmo, não pretende uma melhora só na aprendizagem, mas da racionalidade e da justiça na práticas educativas. Se avalia não só para cumprir com uma das funções do professor, de manter atualizado o currículo do aluno mas, fundamentalmente, se faz avaliação para conseguir a melhora do processo educativo como um todo.
Avaliar não é reprovar, mas sim compreender e promover a cada momento, o desenvolvimento pleno da criança, do jovem, ou de qualquer indivíduo ou grupo social que se submeta ao processo de alfabetização e de aprendizagem em geral.
Avaliar implica em observação, através de um conjunto de instrumentos, que permitam identificar o desenvolvimento, parcial ou geral, das aprendizagens realizadas e dos resultados obtidos. Para tanto, todos os sujeitos devem participar da construção deste processo e, terem noção, de que todos os elementos constituem a avaliação e também são objetos desta. Ao avaliarmos um aluno estamos avaliando todo o sistema educacional, a instituição, as competências docentes e a metodologia; é necessário ser muito ingênuo para acreditar que toda esta complexidade pode estar refletida em uma simples prova de conhecimentos.
As atividades de avaliação ocupam uma grande parte do tempos e do esforço de alunos e de professores, dependendo do que é valorizado no currículo e, portanto, alvo de avaliação, haverá mudanças na motivação, auto-conceito, hábitos de estudo e estilos de aprendizagens.
Tipos
A avaliação passa pela formulação de juízos de valor (Simons, 1993), para a formulação deste são necessários os dados de base, sendo estes, descritivos e quantitativos, que conferem concretude às interpretações e aos julgamentos qualitativos(Dias Sobrinho, 2000).
Através do processo avaliativo é possível determinar até que ponto os objetivos educacionais foram realmente alcançados (Ralph Tyler, 1950), o qual possibilita que se determine o mérito, a importância, ou o valor das coisas (Michael Scriven, 1991), devendo ser permanente e constituir-se em instrumento de aprendizagem organizacional (Sandra Trice Gray, 1998) que tem por função alterar e iluminar a busca de objetivos programáticos (Robert Floden et al., 1983).
Didaticamente, podemos classificar os tipos de avaliação como: Diagnóstica, Somativa, Formativa e Emancipadora.
Como o próprio nome já declara, a avaliação diagnóstica tem como propósito realizar um levantamento dos conhecimentos prévios, com o objetivo de fornecer, ao professor, elementos que lhe permitam adequar o planejamento à prática educativa. É um ponto de partida para a concepção e desenvolvimento de qualquer projeto curricular e de planejamento, constituindo-se em instrumento útil mas, ao mesmo tempo, perigoso, pois se não for visto como um sistema de caracterização do nível a partir do qual deve-se iniciar o processo de ensino, poderá provocar rotulações, estigmatizando alunos. Caso clássico disto é o do professor de Bethoven, ao emitir seu parecer de uma avaliação diagnóstica "Nunca aprendeu nada, nunca aprenderá nada, como compositor é um caso perdido", se o aluno tivesse seguido a orientação deste professor o mundo não conheceria algumas das melhores composições já executadas.
A avaliação somativa é a conhecida como clássica, tem por objetivo refletir os resultados obtidos em momentos específicos, traduzindo, de forma breve, codificada, o quanto de uma meta foi atingido. Caracteriza-se por controle, padronização e classificação por atribuição de graus ou notas.
Já a avaliação formativa tem como ponto central a obtenção de dados para a reorganização do processo de ensino-aprendizagem, Cortesão e Torres (1993) descrevem este tipo como sendo uma "bússola orientadora" que ajuda educandos e educadores a reorientar o seu trabalho, apontando falhas, objetivos ainda não atingidos e aspectos a melhorar, levando em conta aspectos cognitivos, psicomotores e sócio-afetivos, não é relatada através de notas mas, sim, por meio de apreciações e comentários. Assume caráter contínuo e sistemático, visando a regulação do ensino e da aprendizagem. Este tipo de avaliação tenta contribuir para o sucesso dos alunos e o desenvolvimento possível das suas competências, além de valorizar a responsabilidade do sistema, da instituição e do docente nos resultados obtidos pelo corpo discente.
São pré-requisitos básicos da avaliação emancipadora a análise, a crítica e a transformação. Têm por propósito a modificação e a melhora contínua. Ela é vista como um instrumento educativo da emancipação do aluno, do seu senso de autocrítica e autodesenvolvimento.
Parlett e Hamilton, já na década de 1970, defendiam a prática de uma "avaliação iluminativa" como uma alternativa ao modelo clássico, a qual levasse em conta o processo educativo como um todo, que o iluminasse, de maneira a permitir a compreensão da complexidade das situações.
Instrumentos
É necessário percebermos que o sentido e o sistema de avaliação definem o currículo de fato, quais são as qualidades e as realizações são valorizadas e recompensadas pelo sistema. São vários os instrumentos disponíveis para avaliação, independentes do tipo a ser utilizado, por exemplo num processo diagnóstico podemos utilizar o pré-teste, a observação; já na somativa temos a prova, o questionário; no caso de uma avaliação formativa utilizamos acompanhamento, discussão em grupo, relatório, fichas de avaliação de problemas, finalmente, numa avaliação emancipadora podemos utilizar a figura do tutor como relator do processo evolutivo, a auto-avaliação e discussões com os pares.
É curioso perceber, através do relato de Stiggins e Bridgeford (1985), que, nas décadas de 1940 a 1980, 90% dos trabalhos publicados nos estados Unidos da América do Norte versavam sobre construção e utilização de testes. Este fato evidência uma ideologia educativa fortemente voltada à competição e não à formação, pois este sistema transforma a avaliação num mero medidor de resultados, pois só uma pequena parte da aprendizagem é avaliada, é estanque, e tem por objetivo único a obtenção de uma classificação discriminatório entre os considerados mais ou menos aptos ao mercado.
Não questiono, aqui, a utilidade dos testes, mas eles nunca deverão ser o único ou o mais importante sistema de avaliação, porém, devem ser utilizados, se bem construídos, como um instrumento para a melhoria da capacidade de atenção dos alunos, para auxiliar na retenção dos conteúdos e na consolidação das aprendizagens.
Ao diversificarmos os métodos utilizados permite-se que os alunos apliquem os conhecimentos que vão adquirindo, exercitem e controlem suas aprendizagens e competências a desenvolver, necessitando, para isto, receberem um feedback constante, que deve ser descritivo, específico, relevante, periódico e encorajador.
Dentro de uma perspectiva de educação construtivista, devemos dar especial atenção à avaliação formativa, que é um ato avaliativo com intenção de intervir na própria aprendizagem, é atemporal e tende a ser mais significativa para o aluno, pode ocorrer por meio distintos, sendo eles relatório e discussões entre alunos e professos, pela co-avaliação entre os pares e pela auto-avaliação.
A co-avaliação entre os pares é um processo, simultaneamente, externo e interno. Os alunos são colocados em situações de confronto, de troca, de interação, de decisão, que os levem a explicar, justificar, argumentar, expor idéias, dar ou receber informações para tomar decisões, planejar e dividir tarefas, ou seja, é um processo que induz ao apoio mútuo.
Também como um método de avaliação formativo temos que considerar a auto-avaliação regulada como a via primordial para regular as aprendizagens, cabendo ao professor construir contextos favoráveis para que tal aconteça. Segundo Hadji, 1997, é a atividade de auto controle reflexivo das ações e comportamentos do sujeito que aprende. Deve ser o olhar crítico conscientes sobre o que se faz, enquanto se faz. Para que este processo tenha êxito é necessário que o educando compreenda o seu erro para ter condições de ultrapassá-lo, constituindo-se, assim, a realização da aprendizagem. O docente deve comportar-se como um orientador, formulando hipótese explicativas para o raciocínio do aluno, não apontando os erros nem corrigindo-os, mas, sim, questionando e apresentando pistas para a auto-identificação e auto-correção.
Perrenoud (1999) enfatiza que devemos caminhar para a situação em que o aluno tenha, de tal modo, desenvolvido a sua auto-avaliação que a intervenção do professor, neste processo, não seja mais necessária.
"Toda a ação educativa só pode estimular o autodesenvolvimento, a autoaprendizagem, a autoregulação de um sujeito, modificando o seu meio, entrando em interação com ele. Não se pode apostar, afinal de contas, senão na autoregulação."
Critérios
Noizet e Caverni (1983) afirmam que o insucesso escolar pode ser originado pelos procedimentos de avaliação, já Pacheco (1998) afirma que não sucesso do aluno é explicado, em grande parte, por uma débil prática de construção ou pelos critérios de avaliação do desempenho.
Os critérios são utilizados para julgar, apreciar e comparar, devem estar baseados nos métodos de coleta, no tratamento e na comunicação dos dados, para tanto, a formulação destes critérios exige colaboração, trabalho conjunto, discussão, problematização e contextualização, levando-se em consideração de que a avaliação deve ser um processo de responsabilidade e com utilidade educativa e social.
Numa avaliação integrada, a coleta de dados é feita a partir de diversas fontes, com diferentes instrumentos.
Neste contexto, devem ser estabelecidos a periodicidade das avaliações, que recolherá os dados, como estes serão coletados, qual a função desta avaliação e quais serão os métodos de comunicação dos resultados. Hadgi (1997) afirma que o avaliador não é um instrumento de medida, mas, sim, o ator de uma comunicação social.
Apesar do estabelecimento de critérios objetivos, o corpo docente deve ter em mente de que a atribuição de conceitos é uma operação subjetiva, necessitando de um verdadeiro código de postura e ética.
A apropriação dos critérios de avaliação é condição necessária para a auto-regulação, questões como: "Que aspectos se têm de verificar para considerar que um trabalho é bom?", "O que é indispensável que o aluno aprenda?", "O que não deve acontecer?", "Quais são considerados os erros graves?". Todos estes elementos devem ser partilhados com os alunos com o objetivo de desenvolver um processo de negociação, assim, a avaliação não é estática, de simples análise de resultado, mas torna-se um processo.
Resultados da Avaliação
O alcance dos objetivos, por parte dos alunos, é uma meta que exige conhecer os resultados da avaliação, bem como é necessário o conhecimentos da avaliação da intervenção pedagógica para poder melhorar a qualidade do ensino.
Os resultados do processo avaliativo não podem ser apenas quantitativos e classificatórios, necessitam ser indicativo de renovação, modificação, mudança, transformação, ampliação, todos indicativos de aprendizagem.
A avaliação deve ser um espelho de todo o processo de ensino/aprendizagem, deste a elaboração curricular, elaboração de planos de ensino, prática educativa, capacitação dos docentes e desenvolvimento dos discentes. É por si um indicador de restrições e necessidades de melhoria de recursos humanos, físicos, financeiros.
Considerações Finais
Após esta breve descrição e reflexão sobre o processo de avaliação não resta-nos outra consideração se não a de que há uma profunda necessidade de transformação de todo sistema educativo, das instituições, da preparação docente, das estruturas curriculares e, sobre tudo, dos objetivos educacionais.
Vivemos um momento de revolução de idéias, onde os indivíduos, mesmo que não tenham conhecimentos teóricos, apresentam conhecimento sobre os requisitos da transformação social. É premente que mudemos os rumos da escolha de prioridades, temos que "desmercantilizar" para humanizar.
Segundo Paulo Freire: "Os sistemas de avaliação pedagógica de alunos e professores vêm se assumindo, cada vez mais, como discursos verticais, de cima para baixo, mas insistindo em passar por democráticos. A questão que se coloca a nós, enquanto professores e alunos críticos e amorosos da liberdade, não é, naturalmente, ficar contra a avaliação, mas resistir aos métodos silenciadores com que ela vem sendo, às vezes, realizada. A questão que se coloca a nós é lutar em favor da compreensão e da prática de avaliação enquanto instrumento de apreciação do que-fazer de sujeitos críticos a serviço, por isso mesmo, da libertação e não da domesticação. Avaliação em que se estimule o falar a como caminho do falar com."
A educação de resultados não tem mais espaço, as necessidades do mundo e, até, do próprio mercado exigem profissionais mais humanizados e humanizadores, que tenha uma visão crítica do mundo, que possam enfrentar desafios constantes, que sejam criativos. Como muito apropriadamente disse Gramsi "todo o homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um 'filósofo', um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção de mundo ... todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então; mas nem todos desempenham, na sociedade, a função de intelectuais."
Se temos esta idéia da capacidade humana, a educação deve partir do princípio de que todos são capazes de aprender e ter como objetivo a formação de cidadãos, nesta circunstâncias não poderemos utilizar, jamais, o processo de avaliação como um instrumento de medição. Porém, este tipo de educação/avaliação só é possível em ambientes com turmas pequenas, onde haja proximidade entre os atores do processo, que possibilite o conhecimento pessoal das partes. Mais do que nunca a sensibilidade é um requisito para o êxito. A paixão por educar é absolutamente indispensável, pois não são as condições que farão os bons educadores, mas, sim, os bons educadores fornecem as condições necessárias para a aprendizagem, ou seja, a comunicação e a cooperação, O processo de avaliação refletirá, sempre, a teoria e a prática educativa do educador e do sistema. Temos que lutar muito e sempre, para a qualificação de nossos educadores, pois são eles que terão a força para mudar o sistema e, assim, o poder de socializar a informação, construir cidadãos. Conforme as palavras de Gayle Fields: "Os escaladores, tal como os professores e os estudantes, estão constantemente a receber ajudas para atingirem os seus objetivos; tal como a corda de segurança liga os vários escaladores, os laços de aceitação e compreensão unem o professor e seus alunos. O excitante, o divertido é que a aventura nunca para; mudando, insistindo, desafiando à medida que cada passo é dado, tal qual como acontece na sala de aula. Cada etapa da escalada é uma mini aventura e um desafio, requerendo diferentes técnicas, diferentes competências e interajudas."
Referências
1. Abrantes, P.; Afonso, L.; Peralta, M.H.; Cortesão, L.; Leite, C.; Pacheco, J.A.; Fernandes, M.; Santos, L. Reorganização Curricular do Ensino Básico: Avaliação das Aprendizagens. Ministério da Educação, Lisboa, 2002.
2. Franco, L. A. C. A escola do trabalho e o trabalho da escola. São Paulo, Cortez: Autores Associados, 1988.
3. Freire, P. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo. Paz e Terra, 1996.
4. Hadji, C. A avaliação, regras do jogo. Editora Porto, 1994.
5. Noizet, G. e Caverni, J. Les procédures d'evaluation ont-elles leur part de responsabilité dans l'échec scolaire? Revue Française de Pédagogie, 62, 7-14. 1983.
6. Hadji, C. L'évaluation démystifiée. Editora ESF. 1997.
7. Perrenoud, P. Avaliação. Da excelência à regulação das aprendizagens. Entre duas lógicas. ARTMED, 1998.
8. Zabala, A. A prática educativa. Como ensinar. ARTMED, 1998.
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