.:: Esse blog visa dar continuidade as discussões e reflexões sobre educação em saúde realizadas na disciplina Prática Educativa em Medicina do Programa de Pós-Graduação da FAMED/UFRGS.

Quarta-feira, Abril 13, 2005


Re lendo um texto lido em conjunto!
Ele é de Amin Maalouf - As cruzadas vistas pelo Árabes - editado pela Brasiliense que trouxe para um grupo de professores, indicado pela Simone Valdete dos Santos (a dona do livro), mas que falando do século XII nos remete a pensar o séc. XXI e nossas pretensas mudanças, transformações, saberes e conhecimentos. Mais do que isto, nos provoca!
"A opinião do emir sírio a respeito dos "bárbaros" não se modifica quando ele evoca o seu saber. Os franj no século XII se mostram muito atrasados em relação aos árabes em todos os domínios científicos e técnicos, mas é sobretudo na medicina que o afastamento entre o Oriente desenvolvido e o Ocidente primitivo é maior. Ussama observa a distância.

  • "Um dia", ele conta, " o governador franco de Muneitra, no monte Líbano, escreveu a meu tio Sultan, emir de Chayzar, para lhe pedir que lhe enviasse um médico para cuidar de alguns casos urgentes. Meu tio escolheu um médico cristão de nosso país chamado Thabet. Este se ausentou apenas por poucos dias, depois voltou. Todos estávamos bastante curiosos para saber como ele tinha podido assim tão rapidamente obter a cura dos doentes, e o crivamos de perguntas. Thabet respondeu: 'Fizeram vir à minha presença um cavaleiro que tinha um abcesso na perna e uma mulher desnutrida e definhada. Coloquei um emplastro no cavaleiro, o tumor abriu e melhorou. Para a mulher, prescrevi uma dieta para refrescar-lhe o temperamento'. Mas um médico franco chegou e então disse: ' O que você prefere, viver com uma sóperna ou morrer com as duas?'. O paciente tendo respondido que preferia viver com uma só perna, o médico ordenou: "Tragam-me um cavaleiro forte com um machado bem afiado'. Logo vi chegar o cavaleiro e o machado. O médico franco colocou a perna do paciente num cepo e disse ao recém-chegado: 'Dê uma boa machadada para cortá-la de uma sóvez!' . Sob meus olhos, o homem descarregou um primeiro golpe na perna, depois, como ela continuasse presa, bateu uma Segunda vez. O tutano da perna esguichou e o ferido morreu no mesmo instante. Quanto à mulher, o médico franco a examinou e disse: 'Ela tem na cabeça um demônio que está apaixonado por ela. Cortem-lhe os cabelos!'. Eles foram cortados. A mulher então recomeçou a comer seu alimento com alho e mostarda, o que agravou o definhamento. 'Foi o diabo que lhe entrou na cabeça', afirmou o médico. E, pegando uma navalha, fez-lhe uma incisão em forma de cruz, deixando aparecer o osso da cabeça', que ele esfregou com sal. A mulher morreu imediatamente. Então perguntei: 'Vocês ainda precisam de mim?'. Disseram-me que não, e eu retornei, depois de Ter aprendido muitas coisas que ignorava a respeito da medicina dos franj''."

.... Quanto mais aprende por conta própria, mais Ussama faz uma idéia mesquinha a respeito dos ocidentais. Neles, só admira as qualidades guerreiras. Compreende-se, assim, porque, no dia em um dos "amigos" que fez entre eles, um cavaleiro do exército do rei Fulque, lhe propôs levar seu jovem filho à Europa para o iniciar das regras da cavalria, o emir declina polidamente o convite, dizendo para si mesmo que prefere ver seu filho ir "para a prisão do que ao país dos franj". (MAALOUF, 1988, p. 126-
127)."