.:: Esse blog visa dar continuidade as discussões e reflexões sobre educação em saúde realizadas na disciplina Prática Educativa em Medicina do Programa de Pós-Graduação da FAMED/UFRGS.

Segunda-feira, Maio 01, 2006


Curriculo - corpo docente - reportagem zero hora
Durante a aula discutimos as diretrizes curriculares nas diferentes áreas da saúde, pode-se observar que todos os curriculos tem um corpo básico semelhante. Neste corpo discute-se a necessidade de um profissiona\l ético, generalista, que saiba um pouco de tudo. As orientações são todas válidas mas sem uma implementação efetiva deste curriculo através da capacitação adequada do corpo docente as mudanças serão apenas "letras bonitas" no papel e não acarretarão em mudanças significativas no aprendizado do aluno e em sua formação como um todo.
Todos os currículos ressaltam a importância de uma intercomunicação entre as diferentes disciplinas e ressaltam a necessidade de trabalho em equipe. Com certeza a participação de profissionais de diversas áreas é benéfica e enriquecedora para o atendimento mais amplo dos pacientes. Entretanto o que é trabalho em equipe? Cada profissional é responsável por sua tarefa?
Corrreto. A realização desta tarefa deve ser supervisionada por outras pessoas? Quem deve verificar se as tarefas necessárias para realização do procedimento foram feitas corretamente? Por exemplo - para realização de uma cirurgia o paciente deve consultar o médico, este decidirá a necessidade de realizar o procedimento, ligará ao bloco cirúrgico e agendará o procedimento com a pessoa responsável, esta pessoa escreverá as cirugias a serem realizadas em cada sala cirurgica. No dia da cirurgia o paciente chega, conversa com o anestesista, é colocado e preparado para cirurgia, anestesiado, realizado o procedimento, material retirado encaminhado ao anatomo-patológico, paciente encaminhado a recuperação após procedimento.
Pegando o exemplo da zero hora - podemos observar que houve um erro gravissimo, ao invés de ser realizada uma fistulectomia foi realizada uma histerectomia. Quem errou? A enfermeira que anotou o nome do procedimento errado na folha das cirurgias a serem realizadas no dia? com certeza. O médico? Com certeza, o paciente tentou lhe comunicar que não tinha feito ecografia mas ninguém lhe deu atenção. Suponhamos que a situação fosse diferente, o cirurgião chegou, se lavou e enquanto isso a paciente foi anestesiada. Deveria ter conferido no prontuário da paciente a cirurgia por ele agendada? Sim, infelizmente em muitos serviços quando da realização de cirurgia o prontuário não sobe com a paciente. Não estando disponível, deveria confiar na anotação da enfermeira ?sim, afinal se estamos trabalhando em equipe pressupoe-se que cada um realizará sua tarefa adequadamente ou não, deveria se negar a realizar procedimentos caso o prontuário não estivesse disponível. Deveria exigir melhores condições de trabalho..
Vamos pensar uma situação diferente- cirurgião opera um paciente por uma massa abdominal -suspeita de câncer. Após cirugia solicita no computador o anatomo-patológico. O material será levado pela pessoal do bloco cirurgico responsável por isso. Perde-se o material. O cirurgião também é culpado?
O ocorrido com esta paciente foi um erro grave e irreparável. Parece ter havido diversos erros em todo o sistema. Como resolver isso? Cirugião conferir cada um dos passos realizados antes de iniciar a cirurgia? Muito díficil, otempo necessário para fazer isso seria demasiado e perderia-se totalmente o propósito de trabalho em equipe. Atendimento mais personalizado (menos pacientes dias) e mais próximo do cirurgião (mais que uma ou duas consultas) para aproximar o médico do paciente? com certeza, mas para isso é necessário uma reformulação do sistema (em especial o público), onde muitas vezes o profissional atende um número 3 a 4 x superior do que o recomendado, em um período 2 a 3 x menor do que o desejado, o paciente passa a ser um número, uma doença, e não mais a Dona fulana que tem determinada doença.
Resumindo, acredito que apenas mudanças no curríulo não resolverão o principal problema. Uma melhor formação do corpo docente preparando os alunos para a "vida real", bem como, exigência por parte dos profissionais de saúde de uma mudança radical no sistema de saúde com melhores condições de trabalho e uma maior humanização nos atendimentos são estes sim, pontos fundamentais.
Vanessa Zen