.:: Esse blog visa dar continuidade as discussões e reflexões sobre educação em saúde realizadas na disciplina Prática Educativa em Medicina do Programa de Pós-Graduação da FAMED/UFRGS.

Sexta-feira, Setembro 29, 2006


A questão respeito pelo ser aluno e à sua autonomia é colocada como um imperativo ético para a prática educativa. Pensando nisso por mais de dois dias, me dou conta que muito raramente vivenciei este tipo de respeito na minha vida como eterna aluna. Não porque tive só ?maus mestres?, mas porque acho difícil, dificílimo ensinar sem transgredir nessa questão. Os alunos em geral são muitos e singulares nas suas características e necessidades. O professor é um só, com a tarefa imensa de sintonizar com cada um em particular e com o todo da classe, na difícil arte de compartilhar saberes, instigar, nos fazer curiosos, pensantes e interessados. O trabalho educativo então se transforma numa prática de reflexão constante, onde o professor ?lê? os sinais que vem da classe como um todo, de cada um em particular e de si mesmo, e daí vai formatando e reformatando seu ensinar. Isso requer um enorme auto-conhecimento e domínio técnico da arte de ensinar.
Bom, para complicar um pouco mais as coisas agora me vejo tendo aula à distância, tendo que lidar com programas de computador, postar em blogs que não consigo fazer funcionar.....Isso me instiga e me inquieta, pois refleti que se eu fosse uma criatura totalmente avessa à tecnologia, ou talvez sem acesso a ela, estaria em maus lençóis. Por outro lado, o fato de estar em casa, de pantufas, ouvindo uma música agradável enquanto faço a minha tarefa, no meu ritmo, escrevendo e reescrevendo, me proporciona uma liberdade incrível. Liberdade de pensar, e ao mesmo tempo me sentir conectada comigo mesma e com a turma, e com o tema proposto para hoje. Liberdade e autonomia, pois estou cá com meus pensamentos, sem interferências que eu não possa controlar, sem colegas a me observar, sem maior preocupação que não seja dar sentido ao texto proposto e aos meus sentimentos. Pensando bem, a tecnologia, quando for de acesso universal, pode facilitar muito e em vários níveis a tarefa de ensinar-aprender. Mas eu não prescindiria jamais de aulas/encontros presenciais com o professor. A figura do mestre, seu modo de falar, seus gestos, seu ser inteiro fazem parte da minha experiência de aprender e do que fica apreendido na minha memória. Cada conteúdo está lá, nos meus arquivos mentais, indelevelmente conectados à alguma característica de quem o transmitiu. Assim como agora meu imaginário está povoado de lembranças dos colegas, da professora Carmen, da Sônia, da turma sentada em círculo na sala 401. Essa experiência pela qual passo agora também terá a sua marca própria, sua trilha sonora, seu ?clima?.
Finalizando, percebo que aluno E professor são seres inacabados e autônomos, em processo constante de aprender a apreender, assim mesmo, com dois Es. Se apreendemos o outro, se o percebemos como ser único e particular, abrimos as portas para um relacionamento de respeito e de mútuo aprendizado. Esse aprendizado, povoado de dificuldades, ocorre necessariamente em duas vias, de aluno para professor e de professor para aluno. É sobre esta base que o conteúdo, até aqui esquecido por mim, terá as melhores chances de vingar.
Gabriela Baldisserotto