Bem, pessoal, estamos apenas começando a Disciplina Prática Educativa, mas já deu para perceber que teremos um grupo de garra. Tenho certeza que vamos ter bons momentos juntos. Mesmo que bastante ocupado, hoje tirei uma folga para pôr em dia vinha vida literária. Como a editora que publicou em segunda edição meu primeiro romance, Tempo de viver, e o disponibilizou blog, toma a liberdade de mandar para vocês a apresenação do livro.Mesmo que publicado em 1992, contem todas as questões de mudança de paradigma do ensino, da assistência e da pesquisa na Área da Saúde. Se alguém tiver interesse em conhecer melhor:www.temposdeviver24x7blogspot.com
Apresentação
Uma obra literária pode ser analisada sob diferentes aspectos - seu estilo, sua forma, seu conteúdo ou sua mensagem, entre muitos outros. O estilo e a forma caracterizam de tal forma o autor que não é fácil modificá-los. O conteúdo e a mensagem variam de obra para obra e todos esses fatores, em conjunto ou isoladamente, agradam a uns, desagradam a outros e dificilmente contentam a todos.
Essa característica fundamental do trabalho criativo e o risco ao qual se expõe todo aquele que se expressa através das mais variadas formas de comunicação, implicitamente, submetendo à apreciação de outros suas idéias, seu trabalho, em resumo, aquilo que criou. ( Veja, set. 1987).
Tempo de viver é um convite à ?parada? e à ?reflexão?. A natureza da temática faz supor que seu autor fala de um personagem que tenha chegado aos ?50?, e sua mensagem parece ser dirigida em especial aos quarentões. Todos concordam que essa seria a hora obrigatória da ?parada?, mas sabem também que é principalmente a hora da ?fuga?, pois pensar, refletir, reavaliar, reexaminar e modificar não é fácil e na maioria das vezes penoso.
Possivelmente baseado em suas vivências, o autor escolheu com muita propriedade um momento em que todos são obrigados a parar e pensar - a doença e a dor, em especial o infarto do miocárdio e as dores típicas que o precedem e o acompanham.
Não tendo identidade definida, o personagem central ajusta-se - com as necessárias adaptações - a todos os que lerem o livro.
Para dar vida a esse personagem polivalente e quase onipresente, sem precisar épocas, o autor idealiza uma tela de projeção, na qual, a comando próprio ou por determinação de terceiros, são projetadas cenas da infância, adolescência e vida adulta do personagem, figura central de todo o enredo, e através de cujas vivências reais ou imaginárias é analisado o sentido e os valores de uma vida.
Muitos fatos, situações, pessoas, grupos, críticos, juizes... não são perfeitamente definidos ou caracterizados, sendo provável que na imaginação do autor se tenham todos fundido em um único personagem. Seriam, talvez, projeções de uma experiência psicanalítica vivida pelo personagem-paciente, na qual obrigatoriamente existe um juiz, um grupo... a própria família... uma Corte de Justiça, bem como poderia ser uma alusão à existência de seres superiores, espíritos evoluídos e purificados por outras encarnações... extraterrenos vindos de naves espaciais. A natureza específica deles parece, entretanto, ser deixada à conveniência e ao critério dos leitores.
O primeiro enfoque é dado á infância e á pré-adolescência do personagem. Época triste, marcada por tragédias, perdas, solidão, incomunicabilidade, medo, culpa, fantasias marcantes e inaceitação de fatos e situações que nem ele consegue definir.
O registro de fatos traduz os moldes da educação típica de uma época em que a criança não tinha vez, e a maldição e o castigo de Deus a ninguém poupava, como prova o fato da excomunhão aplicada pelo diretor de um colégio religioso a uma criança de onze anos, sanção que pela permanente ameaça de acarretar desgraças e castigos tinha a capacidade de marcar suas vítimas por toda uma vida. Obviamente, a pré-adolescência e adolescência - tão difíceis em condições de normalidade - só poderiam ter sido também difíceis, confusas e transcorridas à base de medos e culpas trazidos de uma infância tão conturbada. O simples registro desses fatos dirige o leitor a temas atuais de educação, como a influência e a participação de fatores genéticos e ambientais no desenvolvimento, formação e atuação do indivíduo na sociedade.
Se o detalhamento da vida universitária não é tão especifico, indiretamente deixa supor um jovem buscando desesperadamente ?respostas nos livros? - possivelmente sem as encontrar - e criando mecanismos de projeção para encobrir e disfarçar o medo e as culpas que sob as mais variadas formas certamente não teriam deixado de acompanhá-lo.
A análise das razoes que o teriam levado o autor a continuar inconformado com o sistema, tanto em sua condição de universitário como de médico, professor universitário; suas andanças por outros países e continentes observando, ouvindo, perguntando, comparando, certamente terão seu embasamento na inaceitação da tristeza e o sofrimento direta ou indiretamente a ele propostos como substitutos obrigatórios da alegria e do prazer, e da imposição de culpas e responsabilização por fatos alheios à sua vontade, dos quais progressivamente consegue libertar-se. Não esconde o valor que atribui à liberdade em seu sentido mais amplo, passa a gostar mais de si próprio, a valorizar seu corpo, encontra formas de fazer seu reencontro com a natureza e a vida, não escondendo seu repúdio pela violência e pela repressão. A capacidade de aceitar - mesmo sem entender - a impossibilidade da existência de grupos consensuais torna possível um convívio social e familiar menos tenso e sofrido.
Dos poucos personagens que especifica e identifica, inclui Antônio e sua vida obstinada de ?executivo?, paradigma de uma sociedade louca, registrando as dificuldades paralelas que enfrenta um paciente necessitando de internação hospitalar e cuidados médicos; constata a forma pela qual muitos médicos e serviços, confundidos com a enormidade de recursos terapêuticos que a tecnologia atual colocou a seu serviço, tornam-se incapazes de entender que um paciente é capaz de chegar à loucura como resultado do que pretendido ser o que lhe é mais adequado como tratamento. Enfatiza a necessidade e a inviabilidade de um tratamento médico individualizado, mostrando os efeitos, sempre eficientes, do devotamento, da persistência e da simplicidade terapêutica quando tudo parece estar perdido.
Ao ?vestir-se? de Dr. Alfredo e atender ocasionalmente o casal Alberto Schimith, retrata a negação habitual e obstinada do homem em face à realidade da doença; espelha a simplificação com a qual são tratados os problemas médicos, sem deixar de chamar atenção para os fatores sociais que contribuíram para o inferno de Alberto. Na pessoa do ?senhor Schimith pai?, retrata o ridículo e as desgraças provocadas por um pai castrador, acoitado pela figura típica do burro ilustre, representada pelo ignorante e incapaz Dr. Joaquim, profissional de sucesso e elevado conceito nas mais significativas camadas sociais da comunidade.
Ao descrever ?seu Fritz e sua mulher?, veranistas tradicionais de uma praia qualquer, parece admitir a influência da chatice, da mediocridade, da alienação e da integração no ?sistema? sem questionamentos, como formas coadjuvantes de evitar o enfarto do miocárdio em si próprio, bem como a grande possibilidade de causá-los ou precipitá-los em outros, caso ?não os interrompam? como fez o personagem.
Mas onde pretendeu chegar o autor?
Entendo que cada um chegará até o ponto de suas possibilidades de captação e de entendimento, mas principalmente de sua vontade de entender.
Se o tema central de todo o texto é a morte, o personagem a enfrenta com dignidade e coragem... e de tal forma o faz que sua angústia, revolta e inconformismo desaparecem progressivamente à medida que se esgotam suas cinco horas de espera. Habilidades em torná-las mais amenas não lhe faltaram; pois em um grande percentual desse tempo, mesmo enfrentando uma situação indesejável, encontrou forças para deixar claro que no futuro sempre foi um poeta, uma mente boa e simples, que as circunstâncias e as pessoas complicaram e tornaram temporariamente infeliz.
Terá ele morrido no sentido estrito da palavra? O fato não é afirmado explicitamente. O que há de concreto é que, ao término do texto, faz uma profissão de fé em tudo o que acredita, deseja e valoriza.
Terá recebido ?alta? de um tratamento psicanalítico? Terá sido resgatado por seres extraterrenos? Terá iniciado a vida eterna como preconizam os cristãos? Terá temporariamente desencarnado, como acreditam os espíritas, para num futuro remoto retornar e dar início a nova etapa de purificação? Ou será que algum médico recém-formado, inspirado nos resultados obtidos pelo colega que tratou o executivo Antônio, obstinadamente tenha resolvido tratá-lo até sua recuperação?
Romance-ficção, autobiografia?
Não creio que seja importante descobrir. Se o leitor entendeu a mensagem e decidiu que deverá reavaliar sua forma de vida e seus valores, o tempo que dispendeu na leitura terá sido válido.