Jean Roche - olhar estrangeiro e definitivo
Morto no último dia 11, o professor francês Jean Roche deixa um legado de obras fundamentais sobre a história e a literatura do Rio Grande do Sul
Os oito anos em que viveu em Porto Alegre foram suficientes para que o professor Jean Roche, morto no último dia 11, aos 92 anos, desse uma contribuição definitiva para a historiografia e para a crítica literária gaúcha. Mais que definitiva, sua contribuição foi pioneira, na medida em que explorou um novo campo tanto numa área quanto na outra. Como historiador, realizou um raio-X da colonização alemã no Estado como nunca havia sido feita. Como estudioso da literatura brasileira, escreveu um dos primeiros ensaios apresentando uma visão panorâmica da obra de Erico Verissimo - um dos melhores amigos de monsieur Roche em seus anos de Porto Alegre, entre 1945 e 1953. A facilidade com que se integrou à intelectualidade local fez com que Roche rapidamente se tornasse um dos nomes mais conhecidos nas rodas de discussão política e literária da Capital. Participou, entre outros momentos, da comitiva que recepcionou o escritor Albert Camus em Porto Alegre, em 1949. Ao partir da França rumo ao Brasil, o professor tinha como objetivo mais do que simplesmente acompanhar a mulher Nancy, designada pelo governo francês para fundar a Aliança Francesa de Porto Alegre. Roche já planejava executar aqui o seu trabalho de doutorado. Foi também deste grupo de intelectuais que freqüentava que Roche ouviu a sugestão de que se dedicasse a pesquisar a colonização alemã no Rio Grande do Sul - projeto que daria origem a sua obra mais conhecida, A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul. Dividindo-se entre as aulas que ministrava na UFRGS e na PUCRS, Roche desbravava o Interior para esmiuçar a cultura alemã no Estado, não sem alguma dificuldade. - Nos primeiros anos, o acompanhei para servir de intérprete, já que ele ainda não falava tão bem português. Entrávamos com muito cuidado nas colônias para realizar as entrevistas - lembra o dentista gaúcho Edy Sá Carneiro, amigo de Roche. O resultado foi um trabalho que só seria concluído em 1962, já na França, sendo aprovado com louvor pela Universidade de Paris V, Sorbonne. A edição em português, em versão reduzida, seria lançada apenas em 1969, pela Editora Globo. A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul se insere no contexto da produção de análises sobre o Brasil realizadas por estudiosos franceses nos anos 50, como Claude Lévi-Strauss, que estudou a Amazônia. Dentro da historiografia rio-grandense, a obra pode ser classificada como a primeira a apresentar uma retrato amplo da presença germânica no Estado. Até sua publicação, a obra mais relevante havia sido O Trabalho Alemão no Rio Grande do Sul, de Aurélio Porto, publicada em 1934, sem apresentar maior profundidade. - Este era um assunto empapado de emoção. As pessoas viam a contribuição alemã e a imigração sob uma ótica muito apaixonada. Roche contribui para canalizar o assunto para uma visão rigorosamente científica - avalia Flávio Loureiro Chaves, coordenador do curso de pós-graduação em Letras da Universidade de Caxias do Sul. Elucidando aspectos sociais, políticos e geográficos, A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul é considerada até hoje uma obra definitiva sobre o assunto, embora não esteja isenta de falhas e interpretações hoje consideradas equivocadas. - Ele é um clássico, alguém fundamental, que pode estar superado em algum aspecto, mas de quem você não pode prescindir. A parte da obra de Roche sobre a história social e da ocupação do espaço pelos alemães ninguém pode deixar de ler. A parte que trata do comportamento político já está ultrapassada. A visão que ele apresenta do interesse escasso dos imigrantes na política local já foi confrontada com estudos mais recentes, que mostram o contrário - analisa o historiador René Gertz, professor da PUCRS e da UFRGS. A produção como crítico literário foi exercida por Roche até seus últimos dias, vividos na cidade de Cavaliere sur Mer, às margens do Mar Mediterrâneo. O interesse pela obra do amigo Erico Verissimo o acompanhou depois que partiu de Porto Alegre para ministrar aulas de Estudos Portugueses e Brasileiros, na Universidade de Toulouse, na França. - Ele apresenta as primeiras leituras globais, quando a crítica sobre Erico nos anos 1960 era muito rarefeita. É uma das primeiras vezes em que o Rio Grande do Sul é lido de fora para dentro e à luz da modernidade - afirma Loureiro Chaves, que aponta como exemplo dessa análise moderna a união do critério estético e valorativo com a abordagem sociológica, presente nos ensaios de Roche sobre O Tempo e o Vento. Monsieur Roche retornou diversas vezes ao Brasil, principalmente para receber títulos de Professor Honoris Causa em universidades gaúchas e baianas - isso porque a obra de Jorge Amado também foi estudada pelo pesquisador. Se a marca deixada por Roche na sociedade do Rio Grande do Sul foi grande, a paixão pelo Brasil foi a lembrança levada por ele. - Fui visitá-lo em sua casa em Cavaliere sur Mer e fiquei emocionado com o carinho com que ele e Nancy lembravam Porto Alegre e os amigos que tinham aqui. A casa tinha o nome de Beija-Flor, em homenagem ao Brasil - conta o escritor Luis Fernando Verissimo.
Os oito anos em que viveu em Porto Alegre foram suficientes para que o professor Jean Roche, morto no último dia 11, aos 92 anos, desse uma contribuição definitiva para a historiografia e para a crítica literária gaúcha. Mais que definitiva, sua contribuição foi pioneira, na medida em que explorou um novo campo tanto numa área quanto na outra. Como historiador, realizou um raio-X da colonização alemã no Estado como nunca havia sido feita. Como estudioso da literatura brasileira, escreveu um dos primeiros ensaios apresentando uma visão panorâmica da obra de Erico Verissimo - um dos melhores amigos de monsieur Roche em seus anos de Porto Alegre, entre 1945 e 1953. A facilidade com que se integrou à intelectualidade local fez com que Roche rapidamente se tornasse um dos nomes mais conhecidos nas rodas de discussão política e literária da Capital. Participou, entre outros momentos, da comitiva que recepcionou o escritor Albert Camus em Porto Alegre, em 1949. Ao partir da França rumo ao Brasil, o professor tinha como objetivo mais do que simplesmente acompanhar a mulher Nancy, designada pelo governo francês para fundar a Aliança Francesa de Porto Alegre. Roche já planejava executar aqui o seu trabalho de doutorado. Foi também deste grupo de intelectuais que freqüentava que Roche ouviu a sugestão de que se dedicasse a pesquisar a colonização alemã no Rio Grande do Sul - projeto que daria origem a sua obra mais conhecida, A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul. Dividindo-se entre as aulas que ministrava na UFRGS e na PUCRS, Roche desbravava o Interior para esmiuçar a cultura alemã no Estado, não sem alguma dificuldade. - Nos primeiros anos, o acompanhei para servir de intérprete, já que ele ainda não falava tão bem português. Entrávamos com muito cuidado nas colônias para realizar as entrevistas - lembra o dentista gaúcho Edy Sá Carneiro, amigo de Roche. O resultado foi um trabalho que só seria concluído em 1962, já na França, sendo aprovado com louvor pela Universidade de Paris V, Sorbonne. A edição em português, em versão reduzida, seria lançada apenas em 1969, pela Editora Globo. A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul se insere no contexto da produção de análises sobre o Brasil realizadas por estudiosos franceses nos anos 50, como Claude Lévi-Strauss, que estudou a Amazônia. Dentro da historiografia rio-grandense, a obra pode ser classificada como a primeira a apresentar uma retrato amplo da presença germânica no Estado. Até sua publicação, a obra mais relevante havia sido O Trabalho Alemão no Rio Grande do Sul, de Aurélio Porto, publicada em 1934, sem apresentar maior profundidade. - Este era um assunto empapado de emoção. As pessoas viam a contribuição alemã e a imigração sob uma ótica muito apaixonada. Roche contribui para canalizar o assunto para uma visão rigorosamente científica - avalia Flávio Loureiro Chaves, coordenador do curso de pós-graduação em Letras da Universidade de Caxias do Sul. Elucidando aspectos sociais, políticos e geográficos, A Colonização Alemã e o Rio Grande do Sul é considerada até hoje uma obra definitiva sobre o assunto, embora não esteja isenta de falhas e interpretações hoje consideradas equivocadas. - Ele é um clássico, alguém fundamental, que pode estar superado em algum aspecto, mas de quem você não pode prescindir. A parte da obra de Roche sobre a história social e da ocupação do espaço pelos alemães ninguém pode deixar de ler. A parte que trata do comportamento político já está ultrapassada. A visão que ele apresenta do interesse escasso dos imigrantes na política local já foi confrontada com estudos mais recentes, que mostram o contrário - analisa o historiador René Gertz, professor da PUCRS e da UFRGS. A produção como crítico literário foi exercida por Roche até seus últimos dias, vividos na cidade de Cavaliere sur Mer, às margens do Mar Mediterrâneo. O interesse pela obra do amigo Erico Verissimo o acompanhou depois que partiu de Porto Alegre para ministrar aulas de Estudos Portugueses e Brasileiros, na Universidade de Toulouse, na França. - Ele apresenta as primeiras leituras globais, quando a crítica sobre Erico nos anos 1960 era muito rarefeita. É uma das primeiras vezes em que o Rio Grande do Sul é lido de fora para dentro e à luz da modernidade - afirma Loureiro Chaves, que aponta como exemplo dessa análise moderna a união do critério estético e valorativo com a abordagem sociológica, presente nos ensaios de Roche sobre O Tempo e o Vento. Monsieur Roche retornou diversas vezes ao Brasil, principalmente para receber títulos de Professor Honoris Causa em universidades gaúchas e baianas - isso porque a obra de Jorge Amado também foi estudada pelo pesquisador. Se a marca deixada por Roche na sociedade do Rio Grande do Sul foi grande, a paixão pelo Brasil foi a lembrança levada por ele. - Fui visitá-lo em sua casa em Cavaliere sur Mer e fiquei emocionado com o carinho com que ele e Nancy lembravam Porto Alegre e os amigos que tinham aqui. A casa tinha o nome de Beija-Flor, em homenagem ao Brasil - conta o escritor Luis Fernando Verissimo.
Friday, September 08, 2006 9:04 AM
e-asphe

2 Comentários:
É encantador saber que alguém que morava às margens do mediterrâneo tinha o Rio Grande do Sul/Porto Alegre em tão grande apreço.
Eu fiquei a imaginá-lo enquanto visitava as colônias alemãs para que pudesse publicar esta importante obra para nós gaúchos por retratar a vida dos imigrantes alemães que tanto contribuiram para a culrura e o progresso do RS.
Mara Braum
Nosso estado o Rio Grande do Sul ser estudado e pesquisado com tanto carinho e dedicação de alguém que elevou nosso nome é realmente um previlégio.O estudo de nossas raízes, principalmente os imigrantes alemães traz a este estado a sua história, como este lugar surgiu e faz com que todos possam valorizar nossas tradições.
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