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Equipamento de oxigenação por membrana extracorpórea é usado no tratamento da covid-19 pelo Hospital de Clínicas

Equipe multidisciplinar tem acompanhado pacientes com síndrome respiratória aguda
07/04/2021 15:31

Uma tecnologia para tratamento de doentes em condições críticas vem ganhando os noticiários do país: trata-se do ECMO – sigla em inglês para Extracorporeal membrane oxygenation, oxigenação por membrana extracorpórea –, equipamento que realiza o trabalho dos pulmões em pacientes com quadro grave de infecção respiratória decorrente da covid-19.

O Hospital de Clínicas (HCPA), instituição pública do Rio Grande do Sul que mais realiza atendimentos com a tecnologia, dispõe dessas máquinas, cuja operação demanda uma equipe multidisciplinar de especialistas. De abril a outubro do ano passado, 50 infectados com covid foram avaliados para uso do ECMO, sendo 11 deles submetidos ao tratamento com o equipamento. Desse total, oito chegaram a ser extubados, dos quais seis sobreviveram. Os dados desse estudo foram publicados em um artigo da edição de março da revista científica Perfusion.

O professor da Faculdade de Medicina da UFRGS e diretor adjunto do ECMO Center do HCPA Maurício Saueressig participou dessa pesquisa e explica que o uso da máquina requer o trabalho de cirurgiões torácicos, intensivistas, enfermeiros e perfusionistas (técnicos especialistas na regulagem e na montagem dos insumos para o correto funcionamento do dispositivo). "Além do aspecto sistêmico da alocação de recursos limitados, é preciso considerar individualmente cada caso, para selecionar os candidatos que mais podem se beneficiar com o tratamento. Nisso, a expertise da equipe faz muita diferença", enfatiza. Ele observa que o ECMO não pode ser usado de forma indiscriminada e, tampouco, representa uma alternativa ao uso dos respiradores convencionais. “Por isso, dizemos que é uma tecnologia de resgate para doentes em condições críticas, desde que atendidos critérios de seleção estabelecidos por um protocolo internacional. Não se trata, portanto, de um tratamento alternativo.”

Maurício, que também chefia o Serviço de Cirurgia Torácica do HCPA, conta que alguns doentes com covid desenvolvem uma tempestade de citoquinas (grupo de glicoproteínas que atua na resposta imune, unindo-se aos receptores nas membranas celulares para transmitir informações) que estimula a inflamação dos pulmões. “O paciente não consegue respirar e precisa ir para o ventilador mecânico. Porém há casos em que esse aparelho não fornece oxigenação adequada e segura, podendo provocar mais dano aos pulmões”, detalha o médico, acrescentando que a indicação de uso do ECMO deve atender a um protocolo internacional criado pela Organização de Suporte de Vida Extracorpóreo (ELSO, da sigla em inglês).

Dentre os critérios para a adoção da tecnologia estão a idade do paciente e o curto tempo de ventilação mecânica – preferentemente menor que sete dias. Isso porque doentes intubados por longo período tendem a desenvolver fibrose pulmonar. Além disso, o paciente não pode estar apresentando disfunções em muitos órgãos. No caso dos infectados por covid atendidos no ECMO Center do Hospital de Clínicas, a média de idade dos selecionados foi de 40 anos – tendo o mais jovem paciente 19 anos; e o mais velho, 59.

 

Como funciona

O dispositivo de oxigenação por membrana extracorpórea é conectado ao doente por meio de duas cânulas, usualmente instaladas nas veias femoral da perna direita e jugular direita do pescoço. Maurício esclarece que a cânula precisa ser inserida o mais reta possível até a entrada do átrio direito, uma vez que, no lado esquerdo, ficaria mais difícil e, tecnicamente, ofereceria maior risco de laceração e complicações.

O sangue é retirado para fora do corpo pela cânula conectada à veia femoral e bombeado através de uma membrana, que transfere oxigênio e elimina o dióxido de carbono, assumindo assim a função do pulmão. Na sequência, o sangue é reinjetado no corpo do paciente, através da cânula ligada à veia jugular, devidamente oxigenado e livre de dióxido de carbono. Desse modo, a máquina permite que esse órgão vital fique em repouso a fim de acelerar sua plena recuperação.


 

Recursos limitados

Conforme Maurício, a utilização do ECMO não é novidade, tendo sido reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina desde 2017. Antes da pandemia, o dispositivo era empregado principalmente em casos de transplante de pulmão, Síndrome da Angústia Respiratória do Adulto (SARA) secundária à pneumonia, e casos de falência do miocárdio. Em agosto de 2020, o HCPA dispunha de seis desses equipamentos, cedidos em regime de comodato. Atualmente, são apenas três consoles, dos quais dois estão em uso.

No entanto, o aparato não é pago pelo SUS, embora todos os pacientes que receberam o tratamento no Hospital de Clínicas tenham sido atendidos pelo sistema público de saúde brasileiro. “Os insumos (oxigenador e cânulas) custam em média 26 mil reais para cada doente. Esse material foi custeado inicialmente por verbas recebidas do Ministério da Saúde e por recursos obtidos através de parceria com o Hospital Moinhos de Vento, que encaminhou projeto para Qualificação do Uso de Dispositivos de Assistência Circulatória no SUS (DACs) junto ao Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS) do Ministério da Saúde”, relata.

Para o professor, a falta desse financiamento é mais um fator a exigir uma avaliação bastante cuidadosa na adoção do ECMO. “Do contrário, ofereceríamos o recurso a pessoas que não aproveitariam o benefício. Quanto mais o hospital está ocupado por pacientes, mais criteriosos temos de ser. É preciso calcular muito bem porque o procedimento também tem riscos, pois há complicações inerentes.”

Até o último dia 28 de março, 85 pacientes de covid-19 haviam sido avaliados, e 20 passaram por ECMO. Maurício destaca que a taxa de sucesso costuma ser um pouco maior que 50%. “Anteriormente, utilizávamos o dispositivo em pneumonias bacterianas, mas as pessoas com covid desenvolvem um fenômeno tromboembólico, ou seja, coagulam demais, e isso obstrui o oxigenador. Esses doentes ficam em média 21 dias conectados ao ECMO, e tivemos casos de pacientes que necessitaram do aparelho por quase 90 dias. Muitas vezes, durante esse tempo é preciso trocar o oxigenador”, detalha.

Atualmente, dois pacientes com covid-19 estão recebendo o tratamento no Hospital de Clínicas.

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