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Microplásticos assumem “identidade divina” e estão onipresentes no meio ambiente

Pesquisa é pioneira no estado nesta área e identificou a presença predominante de dois polímeros na água do Guaíba: polipropileno (55%) e o polietileno (43%). Existe uma influência direta da densidade populacional da região sobre a concentração de microplásticos
06/08/2020 10:54

Ao observar pelo microscópio as cores, as formas e as texturas desses pequenos fragmentos, eles parecem dançar em meio à água. Reluzem como pedras preciosas sob um facho de luz e, para um leigo, podem parecer diamantes, rubis, esmeraldas, turquesas, ágatas. Os microplásticos presentes no Lago Guaíba são abundantes e preocupantes. Para os olhos treinados dos pesquisadores do Laboratório de Processos Ambientais e Contaminantes Emergentes (Lapace), vinculado ao Instituto de Química da UFRGS, esse material pode até parecer bonito, mas é um sinal de alerta de sua interferência negativa no ecossistema.

Presentes no ar, na água e até no sal, os microplásticos são pequenas partículas de plásticos que poluem o meio ambiente e podem medir de 0,001 mm a 5 mm. Eles são categorizados em duas fontes: de origem primária, em que há a produção intencional pela indústria; de origem secundária, quando a produção é não intencional e provocada, geralmente, pelos processos de intemperismo no meio ambiente, como degradação pela luz solar, por exemplo. “Os primários são aqueles confeccionados como microplásticos na origem, tais como microesferas presentes em sabonetes esfoliantes. Eles saem da indústria dessa maneira e chegam na natureza assim ou, ainda, transformam-se em nanoplásticos. Já os de fonte secundária são aqueles que chegam ao meio ambiente em um tamanho maior e, por ação solar e movimentação das águas, são fragmentados ao ponto de se transformarem em microplásticos”, explica Andreia Neves Fernandes, professora da UFRGS e coordenadora do Lapace.

Os estudos sobre a presença de microplásticos no ecossistema são recentes, iniciados no mundo nos anos 2000. O primeiro artigo publicado no Brasil sobre o assunto é de 2009, e, em Porto Alegre, a UFRGS é pioneira em tratar o tema de maneira científica. Em uma revisão de literatura realizada pelo Laboratório, foram encontradas apenas 81 publicações sobre microplásticos no país. Isso é alarmante, dado que o Brasil é o quarto produtor de plástico no mundo e recicla apenas 2% dele. Com uma coleta seletiva precária e alta produção do material, o grande volume de plástico acaba chegando aos rios e, consequentemente, aos oceanos.

A produção de plástico – comercializado desde a década de 1920 – teve um crescimento exponencial a partir da Segunda Guerra Mundial. Hoje, as imagens de animais morrendo em decorrência da presença desse material nas águas são corriqueiras, porém chocantes. Uma estimativa estatística recente, com base em informações da indústria, aponta que entre 1950 e 2015 foram produzidas 8,3 bilhões de toneladas de plásticos primário (virgem) e secundário (de material reciclado) no mundo. O plástico sozinho, porém, não é o vilão.

Guilherme Tavares Nunes, professor do Departamento Interdisciplinar no Campus do Litoral Norte da UFRGS e pesquisador no Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), avalia a contaminação de aves marinhas e costeiras por microplásticos no litoral do Rio Grande do Sul. Para ele, é importante não demonizar esse material, uma vez que está presente em quase todos os utensílios do nosso dia a dia. “Não podemos colocar esse grupo de materiais como o grande vilão da história, porque, ao fazer isso, acabamos transferindo uma responsabilidade que na verdade é nossa, enquanto espécie humana. O plástico sozinho não é o vilão, mas sim os nossos hábitos, atitudes e o destino que damos a esse material”, afirma o professor.

As estimativas apontam que 60% do plástico produzido no mundo até o momento foi descartado de forma inadequada na natureza. Boa parte dele é considerado de uso único: usado e jogado fora, como as sacolinhas de supermercado ou os copos descartáveis. “Eu diria que essa é a fatia mais importante de contaminação do meio ambiente”, frisa Guilherme.

Uma das linhas de pesquisa do Lapace busca, justamente, verificar a presença desse material no Lago Guaíba. A primeira coleta de microplásticos foi realizada em agosto de 2018, em que se observaram 9.519 partículas presentes na água. Desse montante, 82% eram fragmentos; 15%, fibras; e 3%, microesferas. Quanto às cores: 31,4% do material coletado era branco-transparente; 25,5%, vermelho; 15,8%, amarelo; e 15,6%, azul. Na amostra, havia também partículas verdes (9,4%) e pretas (2,4%). “Quando olhamos no microscópio, os microplásticos são lindos, reluzem, mas a realidade é bem diferente”, desabafa Crislaine Fabiana Bertoldi, doutoranda em Química e coordenadora desse estudo.

A tese de doutorado de Crislaine visa determinar a presença de microplásticos na água do principal manancial de abastecimento de Porto Alegre: o Lago Guaíba. O interesse pelo assunto é recente, tal qual os estudos sobre microplásticos no país: foi em 2017, em um congresso, que a doutoranda soube mais sobre esse intruso onipresente. Da primeira coleta pode-se dizer ainda que o padrão de material encontrado é o esperado. “Os polímeros predominantes na água do Guaíba são o polipropileno (55%) e o polietileno (43%), encontrados em praticamente tudo o que é plástico: sacolas de supermercado, frascos de xampu, celulares, computadores, sacos, canetas. Também confirmamos a presença de poliamida (um polímero utilizado na produção de roupas) e poliuretano (usado na espuma do colchão, por exemplo)”, enumera a pesquisadora.

Segundo Andreia, os achados do estudo corroboram a hipótese formulada pelas pesquisadoras: os microplásticos existem no Guaíba, “mas o que não imaginávamos é que teríamos uma alta concentração desse material logo na primeira amostragem. Os microplásticos são onipresentes, estão em tudo e têm uma dinâmica muito grande, podendo ser levados pelo ambiente atmosférico, pela drenagem fluvial. Outro ponto interessante dos nossos achados é que, em regiões com maior influência humana, há mais quantidade de microplásticos, ou seja, o humano é o principal fator de origem desse resíduo no Guaíba”, salienta ela.

Confira a reportagem completa na página do UFRGS Ciência: https://www.ufrgs.br/ciencia/microplasticos-assumem-identidade-divina-e-estao-onipresentes-no-meio-ambiente/.

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