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Pesquisadores alertam para necessidade de discutir mudanças climáticas como aspecto social

Professores de Geociências, Sociologia e Economia debateram o tema nesta quarta-feira na primeira edição do projeto "Esquinas - Ciclo de Debates"
11/09/2019 18:12

Em tempos de ascensão do negacionismo, tratar as mudanças climáticas como um aspecto social é uma das urgências do debate atualmente, conforme especialistas no tema. Reunidos no Centro Cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os professores da instituição Jefferson Cardia Simões, dos programas de pós-graduação em Geociências e Geografia, Lorena Fleury, do programa de pós-graduação em Sociologia, e Edson Talamini, da Faculdade de Ciências Econômicas e dos programas de pós-graduação em Agronegócios e Desenvolvimento Rural, debateram o tema por cerca de duas horas com uma plateia de 160 pessoas.

Participante de 19 expedições polares, coordenador de projetos do Programa Antártico Brasileiro (Proantar) e criador do Centro Polar e Climático da UFRGS, Simões afirmou que "vivemos em um tempo de negação das próprias ciências", não apenas das mudanças no clima. À primeira vista, segundo o professor, pode-se pensar que é "só movimento econômico, do capital", mas é algo muito mais complexo do que isso. "O negacionismo vai muito além das ciências da natureza. Passa, inclusive, pelo fato da mídia não diferenciar clima de tempo meteorológico. Mudanças do clima são processos de décadas, mas os negacionistas dizem que hoje 'o tempo está assim, amanhã muda'. Há uma questão de ideologia, inclusive religiosa. Mas não é uma visão do grupo A ou B, a ideia de dominação da natureza aparece em diferentes ideologias", afirma.

Sobre os veículos de comunicação, o pesquisador ressaltou também que muitos colocam ciência e opinião no mesmo patamar, caindo no “mito do contraditório”. “Como não acham nenhum cientista com o contraditório, pegam qualquer opinião. E, hoje, em um tempo de algoritmos, isso entra como fake news. Confundem ciência com opinião”, comenta o pesquisador. Simões disse ainda que a sociedade precisa entender que o “crescimento econômico perpétuo é algo irreal em um planeta finito”.

Pesquisadora das relações entre sociedade e natureza, com ênfase no estudo de conflitos ambientais e projetos de desenvolvimento, Fleury afirmou que, embora os indicadores de mudanças climáticas sejam de áreas mais duras, “quando a gente começa a acompanhar o debate, vem junto todo esse pacote de transformações sociais como mudanças nos fluxos migratórios, distribuição de safras, aberturas de novos canais de comercialização, entre muitos outros fatores”. Para ela, tratar de mudanças climáticas também é tratar de como a sociedade organiza-se.

“O que as mudanças climáticas nos colocam é a necessidade de reordenamento social. Quais as relações que interessam entre pessoas, atmosferas, geleiras e demais elementos do que chamamos de natureza? Precisamos parar de ver a natureza como algo exterior e começar a tratá-la como algo interno, que faz parte da sociedade”, complementa.

Citando o exemplo da ativista ambiental Greta Thunberg, de 16 anos, que iniciou um movimento de greve pelo clima na Europa, a pesquisadora disse ainda que é preciso engajamento quanto às mudanças ambientais. “Se queremos construir novas relações com a natureza, precisamos construir novos modelos para o futuro, mais coletivos”, enfatiza. A professora também ressaltou que é preciso planejar políticas públicas que levem em conta as mudanças climáticas.

Especialista em bioeconomia, economia ecológica, biocombustíveis e agroecologia, Talamini afirmou que a bioeconomia é uma “economia da vida”. “Existem várias áreas de bioeconomia, como bioeconomia dos sistemas marinhos, bioeconomia termodinâmica, bioeconomia da biomassa e dos biocombustíveis e bioeconomia baseada no conhecimento, que é a que eu acredito. Para mim, o que vai predominar é o desenvolvimento que tem a ver com preservação da biodiversidade”, comenta. Exemplos desse tipo de bioeconomia baseada no conhecimento, segundo o pesquisador, são as startups que trabalham com sustentabilidade.

Sobre o papel da academia, Fleury ressaltou que as pesquisas são relevantes para desmentir afirmações populares como a de que “as mudanças climáticas atingem todo mundo da mesma forma”. “Há várias demonstrações de que não é bem assim, temos desigualdades ambientais. Um dos casos mais emblemáticos foi o do Furacão Katrina, nos Estados Unidos. Quem arcou com as consequências do desastre foram os mais pobres e as pessoas negras. Parte do nosso papel enquanto universidade é mostrar essas desigualdades e discuti-las coletivamente”, afirma.

Já sobre o papel das pessoas, Talamini espera que a sociedade consuma menos e use meios menos agressivos ambientalmente. Quanto aos governos, o professor afirmou que é preciso investimento em inovação, para incentivar a criação de modelos mais sustentáveis e duradouros.

O evento representou a primeira edição do projeto “Esquinas – Ciclo de debates”, realizado pelo Jornal da Universidade e pelo Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA), ambos da UFRGS, com parceria do Centro Cultural da instituição.

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