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Seis anos após o rompimento da barragem de Mariana, ecossistema marinho continua sofrendo os impactos do desastre

Ecologia | Estudo aponta que três espécies de aves marinhas que vivem a centenas de quilômetros do local do rompimento seguem se alimentando de presas contaminadas por metais, o que indica um ciclo de contaminação
16/12/2021 10:27

A data é 5 de novembro de 2015. Por volta das 15h30, a barragem do Fundão, de propriedade da Samarco Mineração S/A – empresa da Vale e da anglo-australiana BHP –, localizada no interior de Mariana (MG), se rompe e provoca o maior desastre ambiental do Brasil. Com o rompimento, 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério são imediatamente despejados no meio ambiente. Os efeitos: 19 pessoas mortas, centenas de desalojados, 41 cidades e 3 reservas indígenas atingidas.

Sobre os impactos ambientais, mesmo já se sabendo muito, ainda existem inúmeras perguntas sem resposta. Reunidos na Rede Rio Doce Mar (RRDM), um grupo de mais de 550 pesquisadores de 27 instituições de pesquisa tenta elucidar essas questões – dentre elas, o impacto em aves que vivem na foz do Rio Doce e nas águas marinhas próximas. Um artigo publicado no começo de novembro no periódico Science of The Total Environment, concluiu que as espécies Phaethon aethereus (rabo-de-palha-de-bico-vermelho), Sula leucogaster (atobá-pardo) e Pterodroma arminjoniana (grazina-de-trindade) seguem se alimentando nos mesmos lugares e dos mesmos recursos alimentares – só que essas presas agora estão contaminadas pelos rejeitos da barragem. A partir da análise de tecidos dessas aves e da comparação com dados de antes do desastre, o estudo apontou que os animais estão contaminados por metais pesados, como arsênio e cádmio.

“O que eu ingenuamente esperava, antes de ir a campo após o rompimento da barragem, seria que talvez isso tivesse afetado a disponibilidade de alimento para as aves, e elas teriam buscado novas áreas de alimentação”, conta Guilherme Tavares Nunes, professor do Campus Litoral Norte da UFRGS e pesquisador do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar) que integra o estudo. A partir da análise de três aspectos – distribuição das aves no mar, dieta e concentração de contaminantes nos tecidos das aves –, os pesquisadores perceberam que a hipótese não procedia, o que revela que essas espécies estão se contaminando pela alimentação.

“Imagina que tu vais sempre te alimentar no mesmo restaurante. Tu te serves basicamente da mesma coisa todo dia, até que chega um momento em que ou o restaurante fecha – e tu vais ter de procurar outro lugar pra comer – ou ele segue aberto e servindo a mesma comida, agora envenenada. Esse veneno é incolor e inodoro, tu não sentes nada ao comer, mas ele vai te trazer uma série de problemas a médio e longo prazos, tanto no âmbito individual como também no populacional.”

Guilherme Tavares Nunes

Guilherme explica que o estudo utilizou dados de dois períodos: antes do rompimento, que os pesquisadores haviam coletado entre 2007 e 2015, e depois, com informações de 2018 a 2020. Assim, foi possível obter uma comparação entre ambos os períodos. “O problema, na verdade, acaba sendo muito pior [do que o esperado], porque a gente viu que essas aves seguem comendo as mesmas coisas e nos mesmos lugares, mas esse alimento agora está contaminado”, afirma. É o que se chama de armadilha ecológica: quando mudanças ambientais ocorrem de forma abrupta e, por conta disso, as espécies preferem viver em habitats de baixa qualidade.

Os dados apontam que o volume de rejeitos que chegou à área de alimentação dessas aves marinhas não foi suficiente para eliminar completamente as presas que essas espécies ingerem. “Só que a região marinha adjacente à foz do Rio Doce, comumente utilizada como área de alimentação por dezenas de espécies de aves marinhas e costeiras, foi totalmente contaminada com esses metais, e, obviamente, as presas também acabam ingerindo. Ou as presas das presas, ou as presas das presas das presas. E as aves marinhas comem e se contaminam também”, observa. Nos tecidos das aves, foi constatado um aumento na concentração de metais potencialmente tóxicos, como arsênio e cádmio, e uma diminuição de elementos essenciais ao metabolismo das aves, como manganês e zinco.

Confira a matéria completa – e outras reportagens sobre as pesquisas desenvolvidas na UFRGS – no JU Ciência.

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