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Setembro Amarelo chama atenção para a prevenção do suicídio

Site da UFRGS entrevistou a coordenadora do PPG Psiq Clarissa Gama para abordar a prevenção do suicídio. Atividades realizadas na Universidade despertam para a necessidade de falar sobre o tema
03/09/2018 09:19

Falar abertamente sobre o suicídio é o primeiro passo para prevenção. Com base nesse princípio, foi criado no Brasil o Setembro Amarelo, uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em referência ao 10 de setembro, dia mundial da prevenção ao suicídio.

“Suicídio é uma das maiores causas de mortalidade na sociedade contemporânea. Em adultos jovens, é maior que doenças infectocontagiosas. A maioria das tentativas, quando a pessoa fala, se consegue evitar; depois, tem que tratar o problema. Para alguém que está pensando em tirar a própria vida, falar alivia”, explica a professora e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciência do Comportamento, Clarissa Gama. A professora concedeu entrevista para o site da UFRGS e explicou o motivo do Setembro Amarelo, dando informações sobre o que cuidar em pessoas próximas para evitar as tentativas de suicídio.

 

Gama realizou ações sobre o Setembro Amarelo nos anos anteriores - Foto: Captura

UFRGS_Notícias: Como surgiu a ideia de realizar o “Setembro Amarelo” no Brasil? Qual o objetivo dessa campanha?

Clarissa Gama: A ideia é uma adaptação de um programa dos EUA chamado Yellow Ribbon, inspirado numa ação comunitária motivada por um caso de suicídio. Os americanos difundiram isso, junto com a OMS, para falar sobre o tema, que tem muito tabu.

Suicídio é uma das maiores causas de mortalidade na sociedade contemporânea. Em adultos jovens, é maior que doenças infectocontagiosas. A maioria das tentativas, quanto a pessoa fala, se consegue evitar; depois, tem que tratar o problema. Para alguém que está pensando em tirar a própria vida, falar alivia.

O tema do suicídio é tratado como tabu. O estímulo para conversar sobre o tema tem gerado uma melhora? Temos dados sobre isso?

CG: No Brasil não há dado sobre a efetividade da campanha, mas materiais da OMS mostram que a comunicação consegue trazer alívio para as pessoas e tem impacto na redução de mortes. O que acontece é que, na maioria das vezes, só entra em contato com o tema quando sabe que alguém próximo tirou a própria vida. Uma boa parte é evitável.

Os índices no Brasil são maiores que no resto do mundo?

CG: No Brasil, o número é levemente maior comparado a outros países da América Latina. Uma das coisas que interfere muito nos problemas de saúde mental é o estresse. Como tem muita violência, a gente convive com o estresse, com um nível constante de alerta. Isso é uma coisa que faz com que tenha mais sintomas de ansiedade e depressão. Transtornos que afetam o humor, como depressão e transtorno bipolar, são os que estão mais relacionados ao suicídio. Outros fatores importantes são o abuso de substâncias psicoativas, alcoolismo e drogas, e os transtornos de personalidade. Mas o suicídio pode acontecer a partir de uma crise aguda. Todo mundo já bebeu, o álcool diminui o medo, então o freio é cortado.

Nos anos anteriores o PPG em Psiquiatria e Ciências do Comportamento, o qual a senhora coordena, promoveu ações no Setembro Amarelo, incluindo inserções no Parque da Redenção e nas redes sociais. Como foi essa experiência?

CG: Muito legal, fomos muito bem recebidos pelas pessoas. Um ano fizemos no domingo e no outro no feriado de 20 de setembro, dias ensolarados. As pessoas gostam de conversar sobre o assunto e, apesar de um estranhamento inicial, os esclarecimentos são muito bem recebidos.

Quais os cuidados que devem ser tomados quando se aborda o suicídio em matérias jornalísticas e campanhas de conscientização? Como falar sobre esse tema?

CG: O principal é que é completamente desnecessário descrever a tentativa em si, o fulano fez isso, fez aquilo, detalhes mórbidos. A imprensa pode comunicar, mas não precisa ficar dizendo informações desnecessárias. A palavra suicídio, às vezes, tem que ter cuidado na comunicação, porque tem o estigma. Nesse caso, é melhor falar em ‘tirou a própria vida’. E é importante também chamar atenção para a promoção da vida. Falar sobre o suicídio não estimula sua ocorrência, o que estimula é a descrição de métodos, para as pessoas que estão pensando em fazer isso.

As pessoas dão sinais antes de cometer suicídio? O que observar?

CG: São sinais de desesperança, de ficar reclamando muito, de mostrar diminuição da energia nas atividades cotidianas. Verbalmente, relatar que está sem perspectiva, se acontece junto com um problema identificável, que pode ser a causa e a pessoa não ter jeito para resolver aquilo, merece atenção. Uma medida possível é perguntar o que está acontecendo.

Como tu sabes que uma pessoa quer fazer isso?

CG: O jeito de saber se uma pessoa quer se matar é perguntar diretamente sobre o assunto: ‘tu tá pensando em alguma coisa, tá com planos para o futuro’.

O que as pessoas podem fazer quando se notam comportamentos com essas características com alguém próximo?

CG: No contexto de assistência em saúde, tem que perguntar diretamente. No cotidiano, tem que ter um jeito mais reservado, observar que, por exemplo, por uma semana a pessoa só reclama, está precisando de alguma coisa. A conversa ajuda, pois a desesperança, normalmente, está associada a um transtorno de humor, que é uma doença, tem que ser tratada. Mas o falar ajuda porque muitas das coisas têm junto sintomas de ansiedade, que podem ser aliviados com uma conversa. Temos também o Centro de Valorização da Vida (CVV), que pode ser acionado pelo telefone 188 (gratuito) para casos mais agudos. A função principal do CVV é essa, porque suicídio é impulsivo, a pessoa não quer se matar, mas isso aparece como a única alternativa para a catástrofe, que aliviando abre a janela para aceitar um tratamento.

Onde é possível procurar ajuda para falar e prevenir o suicídio?

CG: O CVV 188 é um recurso para a hora aguda, para evitar a tentativa. O atendimento para quem tem uma tentativa efetiva, pelo SUS, em Porto Alegre, tem em dois locais 24h: o posto do IAPI para quem mora na Zona Norte; e, na Zona Sul, o PACS da Vila Cruzeiro do Sul. Se há risco de vida, após tentativa, o procedimento é procurar o pronto socorro. Quando não é SUS, para casos emergenciais, tem vários locais. Depois, algumas pessoas precisam internar, para não ficar recorrentemente tentando. Uma única coisa nos diz objetivamente se tem ou não o risco de tentar: é o número de tentativas. A pessoa que já tentou tem a chance maior em um ano de tentar novamente; quem tem mais tentativas prévias tem mais chances.

Nos últimos anos, tem surgido com força a questão da saúde mental no ambiente universitário, tanto na graduação e pós-graduação. Que ambiente estamos construindo que gera esse tipo de problema? Quais ações concretas podem ajudar a promover a saúde mental?

CG: É uma tendência que não é exatamente do ambiente universitário, mas sim da sociedade como um todo. Vivemos sempre com um nível alto de alerta, que gera estresse. O estresse é não conseguir relaxar, pois não tem segurança, é difícil ver uma perspectiva, tem problemas econômicos, sociais, sempre assim... A gente não se dá conta porque está incorporado socialmente. Isso é interessante porque no Brasil teve aumento de problemas relacionados a ansiedade e depressão comparado com países com nível de violência menor.

 

Programação para o Setembro Amarelo na UFRGS

Na Universidade, várias ações estão programadas para ocorrerem durante o mês. Para chamar atenção para a necessidade de falar sobre o tema, as contas da Universidade nas redes sociais (Twitter e Facebook) farão uma campanha de prevenção. O objetivo é fortalecer a possibilidade de criação de redes de apoio que possam ajudar pessoas com o pensamento suicida.

O Departamento de Atenção à Saúde (DAS) promove no dia 26, das 8h30 às 12h30, a capacitação “Conversando sobre saúde mental - ansiedade, depressão e primeiros socorros”. A ação é voltada para servidores, que podem realizar a inscrição pelo Portal do Servidor.

O projeto de extensão Pega Leve, vinculado à Faculdade de Medicina, promove a semana da Saúde Mental, entre os dias 10 e 15 de setembro. Haverá pelo menos duas ações, dia 10 de setembro, às 17h, na Sala 115 da Faculdade de Medicina (Prédio 21.112 - Rua Ramiro Barcelos, 2.400 – Campus Saúde) a professora Ana Fonseca da UFCSPA, palestra sobre “A Maldição do Lattes” (mais informações); dia 12, na sala 605 da Famed, ocorre uma palestra “Pega Leve – Saúde Mental do Estudante Universitário” (mais informações). As atividades contribuirão com dados e experiências baseadas em evidências científicas de como é a estrutura institucional da educação acadêmica, quais os estressores envolvidos, como identificar sinais de adoecimento psíquico, estratégias de como lidar com o estresse e locais onde se pode buscar ajuda com valores mais acessíveis.

O Centro Interdisciplinar de Pesquisa e Atenção à Saúde (CIPAS) e o Grupo de Trabalho de Saúde Mental do Discente promovem neste mês duas rodas de conversa sobre saúde mental na graduação. As atividades ocorrem no dia 17 (no DAS) e 27 de setembro (no Anexo I do Campus Saúde (Rua Ramiro Barcelos, 2777 - Prédio 22.202), ambas das 17h às 19h. As inscrições são realizadas por meio de formulário eletrônico (informação atualizada às 16h45). Mais informações pelo telefone (51) 3308.5453.

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