Apanhador Só: rock gaúcho com mais de um sotaque

Cultura, Música, Viés — By on 18 de novembro de 2010 3:47

Conheci a Apanhador Só em 2007, incentivado por um amigo fã de Los Hermanos. Ensaiávamos algumas canções em violão quando ele apareceu com aquele encarte de papelão com um fio de barbante que se enroscava para garantir que o CD ficaria bem guardado. Já era uma boa banda, e se fez um largo hiato de preguiça e adiamento até que eu fosse prestar atenção neles outra vez. E então fui ao site da Apanhador Só baixar um arquivo que vem com álbum completo e em boa qualidade (320 kbps), encarte digitalizado e letras. Pacote completo para a felicidade.

Antecipo o veredicto: a Apanhador Só é o que há de melhor no rock brasileiro na atualidade. Chutando para longe o blasé-babaca tão apreciado pelas bandas anglófilas gaúchas, o quarteto formado por Alexandre Kumpinski (guitarra e vocais principais), Felipe Zancanaro (guitarra), Fernão Agra (baixo) e Martin Estevez (bateria) oferece um amálgama de influências sonoras latino-americanas e composições que sabem tirar poesia do português – coisa que cada vez mais parece oxigênio no alto do Everest.

Ao vivo, os caras são animais, e fiquei completamente de cara ao ver a naturalidade com que Martin dava uma aula de bateria para os embasbacados fãs que foram vê-los no Verde Club. Se perdem parte da complexidade dos arranjos gravados no álbum, as canções ganham força e se tornam vivas, de fato, no palco.

Em entrevista ao site de jornalismo cultural Nonada (vale a leitura na íntegra), Alexandre comentou que por algum tempo não prestava atenção em arranjos, já que as composições da Apanhador Só costumam engatinhar em violão e voz. De fato, a melodia e a letra são os eixos gravitacionais da música da Apanhador, mas a primeira coisa que salta aos ouvidos numa primeira conferida no álbum é o experimentalismo e a inventividade dos arranjos, também garantidos pela produção caprichosa de Marcelo Fruet. 

O discoUm Rei e o Zé é a primeira canção do CD, e ela começa com Alexandre flertando com acordes dissonantes e Felipe brincando de percorrer a escala da guitarra com efeitos malucos. No show, consegui distinguir entre os pedais de Felipe um “Chorus/Flanger” da Ibañez, o que explica seus passeios sonoros mais ousados. Enquanto isso, Alexandre mandava brasa na sua Stratocaster verde e cantava: “O rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre”, canta um Zé que não nasceu para conversar com reis: “E eu, que andava assim tão Zé / Deixei que tudo fosse, decidi olhar pra frente / mas não vi nada”. Sopros aparecem e dão pitadas de jazz para o insólito diálogo entre o monarca filósofo e o humilde Zé.

Em Pouco importa aparecem os cacarecos percussivos que fizeram a fama da banda, como uma roda de bicicleta, uma grade de forno e um ralador de legumes. A balada é bonita pela simplicidade e por uma ingenuidade nostálgica que parece percorrer todo o trabalho da Apanhador. Os solos de guitarra são dóceis, limpos, não chegam rasgando a música ao meio, mas fazem parte da canção tanto quanto a letra.

Na animada Prédio, que teve videoclipe recentemente lançado (confira abaixo), há um walk the bass dos mais finos e arranjos de bateria dignos de aplauso. De fato, Fernão e Martin estão concluindo graduação em Música, e a técnica dos caras – de todos eles -  não esconde uma erudição que só se conquista com doses monstras de estudo, prática e talento. Ainda assim, nada grita na Apanhador Só. Tudo conspira em favor da música como ela inevitavelmente – é o que parece ao ouvi-los – deve ser.

Maria Augusta já reverberava pelo Youtube há muito, e a gravação final é prova da preocupação em explorar o que de melhor as composições podem oferecer. Enxuta em letra, a canção é como a passagem de um circo pela cidade, uma quimera festiva, um camaleão com lapsos de tensão e mistério que termina com cara de rock. Aqui já fica clara uma característica da Apanhador Só, que são os muitos humores e andamentos de cada canção.

Entre os temas preferidos de Alexandre está a deterioração das relações amorosas, como na divertida e  belíssima (no caso deles, esses adjetivos não são contraditórios) Peixeiro, em que o cantor lamenta: “O nosso amor era uma posta de fugu / Mas tá bem mais pra lambari / Ouve minha voz no discman / Fica encucada / Não sabe se eu falo sério ou palhaçada / Não sabe se solta muxoxo ou gargalhada / E vai teimando assim de ai em ai em hahahahaha / O nosso amor é uma garrafa de vinho / Virando vinagre devagarinho”.

Bem-me-leve é a comovente entrega de uma menina que não desistiu de um amor já distante:  “Perfume atrás da orelha / vestido bem vestido / um sorriso no rosto, um punhado de amigos / que é pra se acaso eu te encontrar um dia / tu ver como eu ainda tô bonita / ou mais ainda, mais ainda / ou mais, ainda mais bonita”. A melodia cantada por Alexandre é acompanhada pela guitarra de Felipe, que fecha com um baita solo uma das mais bonitas faixas do CD.

O início neurótico de Nescafé dá o tom da agonia do homem que vê o amor pela companheira vencido pelo tempo e a rotina. É provavelmente o maior êxito poético de todo o álbum: “Almoço minha angústia e tu ri com a cara na TV / eu tomo um conhaque e tu fala em ter bebê / remenda o meu sorriso e, sorrindo, / me costura mais uma ruga / desfaz a casa que casa com meu botão / Me esqueço em pensamentos e tu cobra um pouco de colchão / resmungo qualquer coisa e tu solta a minha mão / Coloca o teu calor na estante, vem se deitar tranquila e dorme / Em que sonho eu sonho meu sonho igual ao teu? / Em que tronco encontro talhado o meu nome e o teu?”.

Porta-retrato, Balão-de-vira-mundo e Jesus, o padeiro e o coveiro alternam experimentações e doideiras nas guitarras e no baixo. Passagens de inconfundível tango se enfiam entre influências heterogêneas como mpb e pós-rock. Na sequência, a simpática Origames over remete ao melhor do “rock rural” brasileiro dos 1970 e transita do folk a uma pegada bastante portenha. Vila do meio-dia é, sem dúvidas, a faixa mais sorridente do CD. A Apanhador Só constrói sua nostálgica vila com tijolos buscados na cultura popular e na música africana. Não se pode mais brincar na rua, não se pode pendurar cachaça, ninguém mais brinca de rolimã, não há roupa no varal, o quintal já não dá uva, maracujá nem limão, mas o lamento, desta vez, vem colorido: “A coisa tá ficando preta / O céu já vai perdendo azul / Vai lá, destampa essa panela / e passa a tranca na janela / hoje eu não quero me arriscar”.

E se não der encerra com faíscas de blues e, de novo, diferentes humores, o melhor álbum de rock brasileiro do ano, e não se trata de falta de concorrência – basta conferir o que o Nordeste tem produzido de bom. Reconhecida pela MTV como uma das revelações de 2010, a Apanhador Só já perscrutou profundezas do mainstream costumeiramente inacessíveis a projetos experimentais e desafiadores. Bom auspício. Mas destampo panelas e iço velas, que hoje não quero me arriscar.


3 Comments

  1. Jonathan Gomes disse:

    Puta banda boa do caralho!

  2. Lusa disse:

    Meu Deus!!! Há muito que não me arrepiava.Hoje, ao ler algo tão bom, escrito sobre a Apanhador So, que é melhor ainda, isso aconteceu. Meninos, voces merecem tudo isso e muito, muito mais.

  3. Gabriela Estorti disse:

    Adorei e concordo plenamente. E ainda acrescentaria mais elogios e mais trechos legais das órimas músicas.

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