{"id":22,"date":"2019-05-02T15:26:15","date_gmt":"2019-05-02T18:26:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/?page_id=22"},"modified":"2019-11-03T13:33:02","modified_gmt":"2019-11-03T16:33:02","slug":"tema","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/","title":{"rendered":"Tema do col\u00f3quio"},"content":{"rendered":"<p>O <strong>VIII Col\u00f3quio Sul de Literatura Comparada 2019 \u2014 Po\u00e9ticas (d)e Internacionaliza\u00e7\u00e3o<\/strong>, a ser realizado nos dias 23, 24 e 25 de outubro de 2019, em Porto Alegre, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, prop\u00f5e buscar na reflex\u00e3o sobre o liter\u00e1rio novas formas de descrever e pensar o fen\u00f4meno da mundializa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da t\u00e9cnica e o do utilitarismo. A literatura desempenhou importante papel tanto na constru\u00e7\u00e3o da ideia de na\u00e7\u00e3o quanto da ideia de um mundo sem fronteiras. As po\u00e9ticas associadas a esses movimentos podem nos servir como guias, no sentido de imaginar e propor um mundo no qual o papel da universidade, da cultura e da comunidade internacional contribuam para uma maior integra\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o entre seus diversos elementos e grupos.<\/p>\n<p>Historicamente, a palavra-chave \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d assume diversos significados e implica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e ideol\u00f3gicas em diferentes contextos. Do ponto de vista estritamente t\u00e9cnico, ela tem sido usada como \u00edndice de uma s\u00e9rie de pol\u00edticas governamentais, visando uma maior integra\u00e7\u00e3o entre as institui\u00e7\u00f5es de ensino superior brasileiras e as de outros pa\u00edses. Essas pol\u00edticas e metas se manifestam de diversas formas, como a promo\u00e7\u00e3o do ensino de l\u00ednguas estrangeiras, a mobilidade acad\u00eamica, o oferecimento de disciplinas em outras l\u00ednguas, a organiza\u00e7\u00e3o de eventos internacionais, o acolhimento de estudantes de outros pa\u00edses, o envio de estudantes e professores para estudo em institui\u00e7\u00f5es fora do Brasil, parcerias interinstitucionais na forma de termos de coopera\u00e7\u00e3o ou conv\u00eanios acad\u00eamicos e t\u00e9cnico-cient\u00edficos, dentre outras.<\/p>\n<p>No entanto, o termo \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d transcende essa defini\u00e7\u00e3o institucional. Ele pertence a um campo sem\u00e2ntico mais diversificado e, dependendo da narrativa em que se insere, pode ter associa\u00e7\u00f5es bem mais abrangentes. As palavras-chave relacionadas \u00e0 mesma tem\u00e1tica \u2014 entre outras, cosmopolitismo, pacifismo, integra\u00e7\u00e3o, interdepend\u00eancia, transarealidade, transnacionalismo, globaliza\u00e7\u00e3o, mundializa\u00e7\u00e3o, \u201crep\u00fablica mundial das letras\u201d, \u201cpaz perp\u00e9tua\u201d, \u201csem fronteiras\u201d, etc. \u2014 refletem diferentes \u00eanfases e interesses. O termo \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d, por exemplo, \u00e9 muitas vezes utilizado para descrever \u201co processo de aumento do fluxo de pessoas, culturas, ideias, valores, conhecimento, tecnologia e riqueza entre fronteiras, resultando em um mundo mais interconectado e interdependente\u201d (KNIGHT, 2008, p. x).<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o, como fen\u00f4meno, amea\u00e7a, ou <em>desiderata, <\/em>dependendo de quem a aborda, adquire especial urg\u00eancia em nosso momento hist\u00f3rico, no qual a alteridade se torna \u201ccada vez mais presente\u201d, segundo Palumbo-Liu, para quem \u201cesse influxo caudaloso de alteridade, novo tanto quantitativa como qualitativamente, \u00e9 uma caracter\u00edstica especial do final do s\u00e9culo XX e do in\u00edcio do XXI \u2014 a era da globaliza\u00e7\u00e3o\u201d (2012, p. 2). A literatura estaria bem equipada para nos indicar meios e propostas frente ao fluxo intensificado de outros e de diferen\u00e7as; e caberia \u00e0 Literatura Comparada a miss\u00e3o de elencar, enxergar, visibilizar e traduzir essas novas presen\u00e7as e fun\u00e7\u00f5es do liter\u00e1rio. Mais que nunca, est\u00e1 exposta a contradi\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca a esse estado de coisas (ou a esse projeto):<\/p>\n<blockquote>\n<p>Como \u00e9 que, ao mesmo tempo, n\u00f3s facilitamos a transfer\u00eancia e mobiliza\u00e7\u00e3o de corpos [&#8230;] para al\u00e9m de nossas fronteiras (para satisfazer nossas necessidades de m\u00e3o-de-obra [&#8230;], e mesmo para assegurar nossa sobreviv\u00eancia), e criamos muros e barreiras para impedir fluxos aut\u00f4nomos de corpos atrav\u00e9s dessas mesmas fronteiras? (PALUMBO-LIU, 2012, p. 5)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 vista, em \u00e1reas como a Economia, por exemplo, como algo ben\u00e9fico; em outras, como a dos estudos p\u00f3s-colonialistas, \u00e9 frequente a den\u00fancia da globaliza\u00e7\u00e3o como um instrumento atualizado do imperialismo das grandes pot\u00eancias. Nesse sentido, a \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d das institui\u00e7\u00f5es superiores pode ser vista como uma medida reativa \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sociais que est\u00e3o postas \u2014 uma tentativa de adaptar a universidade aos novos tempos globalizados.<\/p>\n<p>Por outro lado, a \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o das universidades\u201d pode mesmo ser vista como uma express\u00e3o redundante. A pr\u00f3pria ideia de \u201cuniversidade\u201d, tida como uma comunidade de produ\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de conhecimento, \u00e9, na sua origem, uma concep\u00e7\u00e3o transnacionalista e globalizada, seja em sua vers\u00e3o europeia medieval, seja nas primeiras universidades do mundo \u00e1rabe, ou ainda nas \u201cgrandes escolas\u201d da esfera civilizacional de matriz chinesa (que inclui a Coreia e o Jap\u00e3o). O fluxo de pessoas, textos e saberes nunca se ateve a fronteiras nacionais \u2014 e, inclusive, antecede a pr\u00f3pria ideia de \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d. As primeiras institui\u00e7\u00f5es de ensino superior j\u00e1 faziam uso de mecanismos tidos como \u201ccontempor\u00e2neos\u201d, como o interc\u00e2mbio de estudantes, professores e pesquisadores; o uso de \u201cl\u00ednguas francas\u201d; o compartilhamento interinstitucional de textos, m\u00e9todos e inst\u00e2ncias associativas; e a cren\u00e7a em uma tradi\u00e7\u00e3o comum, em uma base de conhecimento compartilhada, e numa produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u201csem fronteiras\u201d.<\/p>\n<p>Da mesma forma, muitas literaturas t\u00eam car\u00e1ter supranacional. Na Europa, o grego cl\u00e1ssico, e em seguida o latim, eram os ve\u00edculos de produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias que n\u00e3o conheciam fronteiras. As culturas sem\u00edticas possuem livros sagrados e seculares escritos em l\u00ednguas estudadas para al\u00e9m do grupo que as utilizava. O mundo \u00e1rabe, a civiliza\u00e7\u00e3o persa, o Imp\u00e9rio Otomano e a cultura eslava s\u00e3o tamb\u00e9m exemplos de comunidades de escrita que incluem falantes de muitos idiomas. O subcontinente indiano tem obras liter\u00e1rias can\u00f4nicas que s\u00e3o lidas em diferentes comunidades lingu\u00edsticas. A esfera civilizacional chinesa se baseia em uma escrita compartilhada que \u00e9 compreendida e utilizada mesmo por autores que n\u00e3o falam a l\u00edngua que os ideogramas inicialmente representavam. Essa escrita possui um repert\u00f3rio de poesia e de prosa que \u00e9 lido e apreciado para al\u00e9m do c\u00edrculo de regi\u00f5es de fala chinesa.<\/p>\n<p>Tanto as universidades como a literatura passaram, em concomit\u00e2ncia com a ascens\u00e3o do estado-na\u00e7\u00e3o, por processos de nacionaliza\u00e7\u00e3o, que afastaram a ideia de um conhecimento e de uma po\u00e9tica compartilhados por diferentes comunidades. A ideia de na\u00e7\u00e3o \u00e9, paradoxalmente, uma forma de globaliza\u00e7\u00e3o, pois pressup\u00f5e que todas as comunidades devem possuir um determinado n\u00famero de elementos comuns e semelhantemente formatados: l\u00edngua, hist\u00f3ria, mito de origem, folclore, ordenamento jur\u00eddico, marinha, ex\u00e9rcito, pr\u00f3ceres, parlamento, representa\u00e7\u00e3o consular, moeda, bandeira, hino, divis\u00e3o em subunidades administrativas, sistema educacional, jornais, universidades, etc. A ideologia do nacionalismo torna indispens\u00e1vel a descri\u00e7\u00e3o de uma \u201ccultura nacional\u201d, que sirva como diferenciador de uma determinada comunidade em contraste a outras comunidades, e essa cultura inclui uma ideia de literatura nacional, em congru\u00eancia com um territ\u00f3rio (cujas caracter\u00edsticas internas s\u00e3o consideradas como homog\u00eaneas) e uma l\u00edngua nacional, cujos c\u00e2nones descritivos e normativos s\u00e3o preservados e transmitidos por um sistema de ensino e de universidades nacionais.<\/p>\n<p>Acreditava-se que o conjunto das na\u00e7\u00f5es, ou, para usar um termo t\u00e9cnico do Direito, a \u201ccomunidade internacional\u201d, seria uma forma de assegurar a paz \u2014 internamente, nos diferentes territ\u00f3rios nacionais, e, em seguida, em um n\u00edvel mundial (ou ao menos multirregional). No entanto, o s\u00e9culo XIX mais uma vez desmentiu essas expectativas, criando um sistema an\u00e1rquico no qual os mais fortes anexaram os mais fracos, e as alian\u00e7as se revelaram inst\u00e1veis e destrutivas. \u00c9 nesse contexto que os estudos de Literatura Comparada e de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais surgiram como disciplinas acad\u00eamicas \u2014 entre o final do s\u00e9culo XIX e o fim da Primeira Grande Guerra \u2014, como tentativas de sistematizar o conhecimento humano sobre quest\u00f5es culturais e pol\u00edticas relacionadas ao mundo \u2014 em oposi\u00e7\u00e3o aos estudos, muito mais desenvolvidos \u00e0 \u00e9poca, de quest\u00f5es culturais e pol\u00edticas relacionadas a na\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Ainda que imperfeitas e subordinadas a vis\u00f5es de mundo euroc\u00eantricas e limitadas, essas disciplinas representavam, em seu primeiro est\u00e1gio de forma\u00e7\u00e3o, um grande avan\u00e7o, pois sugeriam haver tra\u00e7os em comum \u00e0s literaturas do mundo (do lado da Literatura Comparada) e uma especificidade \u00e0 maneira como os atores pol\u00edticos se comportavam na esfera mundial (do lado das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais). No entanto, essas disciplinas n\u00e3o surgiram de um v\u00e1cuo \u2014 elas s\u00e3o, na verdade, a consolida\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de estudos e obras liter\u00e1rias e anal\u00edticas que buscaram, ao longo dos s\u00e9culos, compreender a experi\u00eancia humana como um sistema n\u00e3o limitado a fronteiras civilizacionais ou culturais, e sempre em intera\u00e7\u00e3o com outras unidades sociais mais ou menos distantes. As duas disciplinas se desenvolveram independentemente, mas guardam entre si muitas semelhan\u00e7as e trajet\u00f3rias te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas comuns.<\/p>\n<p>O paradigma do \u201cnacional \u2014 que \u00e9 uma l\u00edngua \u2014 que \u00e9 uma literatura\u201d \u00e9 o mesmo, tanto para a pol\u00edtica como para os estudos liter\u00e1rios mais ortodoxos. As tentativas te\u00f3ricas de relativiza\u00e7\u00e3o, cr\u00edtica e transcend\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o ao modelo das unidades nacionais t\u00eam diversos pontos em comum nas duas disciplinas, com arcabou\u00e7os te\u00f3rico-cr\u00edticos como o p\u00f3s-estruturalismo e o feminismo fazendo apari\u00e7\u00f5es importantes em ambos os campos acad\u00eamicos.<\/p>\n<p>Neste in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, em que as teorias mais distanciadas de uma no\u00e7\u00e3o de \u201cnacional\u201d convivem com uma volta a c\u00e2nones e fronteiras fechados em torno dessa mesma ideia, a Literatura Comparada apresenta-se como um lugar te\u00f3rico (e uma pr\u00e1xis) onde as identidades atreladas a comunidades lingu\u00edsticas, territoriais, hist\u00f3ricas e \u00e9tnicas s\u00e3o ao mesmo tempo reconhecidas e questionadas. O comparatismo apresenta, em seu DNA, uma atitude de abertura ao mundo e de expans\u00e3o epistemol\u00f3gica e metodol\u00f3gica, promovendo intera\u00e7\u00f5es disciplinares necess\u00e1rias para a redefini\u00e7\u00e3o do que venha a ser o \u201cnacional\u201d e o \u201cliter\u00e1rio\u201d \u2014 ousando mesmo perguntar se essa nomenclatura deve ser mantida, ou substitu\u00edda por outros conceitos, an\u00e1logos, por\u00e9m renovadores. O presente col\u00f3quio prop\u00f5e um di\u00e1logo com outras disciplinas e concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de \u201cmundo\u201d, visando \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de novos marcos reflexivos e interpoliniza\u00e7\u00f5es, com o objetivo de refletir sobre o conceito de \u201cinternacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d e sobre as po\u00e9ticas a ele associadas.<\/p>\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AMORIM, Gabriel Brito; FINARDI, Kyria Rebeca. 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