{"id":226,"date":"2019-08-30T18:52:20","date_gmt":"2019-08-30T21:52:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/?page_id=226"},"modified":"2019-10-12T18:18:55","modified_gmt":"2019-10-12T21:18:55","slug":"eixo-1","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/2019coloquiosul\/eixo-1\/","title":{"rendered":"Eixo 1"},"content":{"rendered":"\n<h2>LITERATURA, DIPLOMACIA E RELA\u00c7\u00d5ES INTERNACIONAIS<\/h2>\n\n\n\n<p><em>Elizamari Becker, Ian Alexander, Gabriel Adam e Andrei Cunha <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tanto a literatura comparada quanto o estudo das rela\u00e7\u00f5es internacionais pressup\u00f5em uma geografia, um mosaico ou uma rede de for\u00e7as em intera\u00e7\u00e3o. O modelo, digamos, \u201ccompetitivo\u201d das literaturas nacionais e de suas intera\u00e7\u00f5es proposto por Casanova (2002), por exemplo, teria muito a ganhar em complexidade e pot\u00eancia explanat\u00f3ria se adotasse em maior escala os conceitos e racioc\u00ednios pr\u00f3prios \u00e0s disciplinas que se dedicam ao estudo da geopol\u00edtica internacional (ver KEOHANE, 1986). As duas disciplinas descrevem o mundo a partir de uma perspectiva hist\u00f3rica. Essa talvez seja a interface mais simples de ser demonstrada, pois o panorama diacr\u00f4nico das na\u00e7\u00f5es e das literaturas \u00e9 (obviamente) concomitante e dialogante. Frequentemente, a mera exist\u00eancia de um pa\u00eds no plano pol\u00edtico \u00e9 vista como motivo suficiente para falar na exist\u00eancia de \u201cuma na\u00e7\u00e3o\u201d e de \u201cuma literatura\u201d no plano da sociedade e da cultura. Esse paradigma do \u201cnacional \u2014 que \u00e9 uma l\u00edngua \u2014 que \u00e9 uma literatura\u201d \u00e9 o mesmo, tanto para a pol\u00edtica tradicional como para os estudos liter\u00e1rios mais ortodoxos, mas quanto menor e menos hegem\u00f4nico o pa\u00eds, menos adequado o paradigma como ferramenta anal\u00edtica. O pr\u00eamio Nobel do poeta Derek Walcott deveria ser creditado \u00e0 literatura de Santa L\u00facia? Ou da antiga federa\u00e7\u00e3o do Caribe angl\u00f3fono? Ou do Caribe como um todo, pluril\u00edngue? Ou da Am\u00e9rica da experi\u00eancia negra? Ou da \u00c1frica e da sua di\u00e1spora? Mesmo entre os pa\u00edses mais centrais, as tentativas te\u00f3ricas de relativiza\u00e7\u00e3o, cr\u00edtica e transcend\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o ao modelo das unidades nacionais tem diversos pontos em comum nas duas disciplinas, com arcabou\u00e7os te\u00f3rico-cr\u00edticos como o p\u00f3s-estruturalismo e o feminismo fazendo apari\u00e7\u00f5es importantes em ambos os campos acad\u00eamicos. No inextric\u00e1vel escopo das rela\u00e7\u00f5es internacionais, a literatura \u2014 e, sobretudo, a literatura traduzida \u2014 sempre desempenhou papel de relev\u00e2ncia na concretiza\u00e7\u00e3o dos interc\u00e2mbios culturais e na articula\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas para intera\u00e7\u00f5es supranacionais pautadas pela diversidade, pela extraterritorialidade e pelo desenvolvimento sustent\u00e1vel. Trata-se de uma forma de&nbsp;<em>soft power<\/em> (NYE, 2004): a internacionaliza\u00e7\u00e3o da literatura \u2014 e, na contrapartida, a literatura da internacionaliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que se trata de um processo de m\u00e3o dupla \u2014 n\u00e3o raras vezes conta com agentes diplom\u00e1ticos comissionados para a representa\u00e7\u00e3o de suas na\u00e7\u00f5es, culturas e literaturas bastante peculiares: os escritores-embaixadores. Alguns desses escritores fazem carreiras diplom\u00e1ticas por investidura junto a embaixadas e consulados; outros atuam como agregados de embaixadas ou lega\u00e7\u00f5es de um pa\u00eds, em miss\u00f5es de interc\u00e2mbio ou internacionaliza\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso dos adidos culturais, comerciais e de imprensa. O Brasil possui um rol significativo desses escritores-embaixadores: Alu\u00edsio de Azevedo, Guimar\u00e3es Rosa, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes, dentre outros. Atuando como representantes culturais do Brasil, ainda que fora da carreira diplom\u00e1tica, encontramos Jorge Amado e Erico Verissimo. No entanto, esse fen\u00f4meno n\u00e3o se limita ao Brasil: Carlos Fuentes, Paul Claudel, Gabriela Mistral e Gi\u00f3rgos Sef\u00e9ris s\u00e3o alguns de muitos exemplos internacionais. Este eixo tem\u00e1tico receber\u00e1 trabalhos (1) que versem e investiguem sobre os frutos da experi\u00eancia diplom\u00e1tica no fazer liter\u00e1rio dos escritores-embaixadores; (2) que proponham perspectivas sobre a interface Rela\u00e7\u00f5es Internacionais \/ Literatura Comparada; (3) que discutam fatos liter\u00e1rios a partir de ferramentas te\u00f3ricas da diplomacia e das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais; (4) que indiquem exemplos de sinergia entre o liter\u00e1rio e o pol\u00edtico, no plano transnacional; (5) que proponham ou discutam sistemas e interfaces entre o geopol\u00edtico e o cultural; (6) que investiguem a produ\u00e7\u00e3o ou recep\u00e7\u00e3o da literatura em locais em que as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es (universidades, moedas, times esportivos) j\u00e1 s\u00e3o transnacionais.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>CASANOVA, P. <strong>A rep\u00fablica mundial das letras<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Marina Appenzeller. S\u00e3o Paulo: Esta\u00e7\u00e3o Liberdade, 2002.<\/li><li>NYE, J. <em><strong>Soft<\/strong> <strong>power<\/strong>: the means to success in World Politics<\/em>. Cambridge: Public Affairs, 2004.<\/li><li>KEOHANE, R. <em><strong>Neorealism and its critics<\/strong><\/em>. Nova Iorque: Columbia University, 1986.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<h2>EIXO 1 \u2014 DATA E ORDEM DAS COMUNICA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n\n\n\n<h3><strong>23 de outubro (quarta)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Local: Pr\u00e9dio da FACED, sala 402.  <\/p>\n\n\n\n<p>1 <strong>Cartografias liter\u00e1rias, mobilidades culturais e alteridades<\/strong>, Luciana Wrege Rassier<\/p>\n\n\n\n<p>2 <strong>As viagens do gato preto<\/strong>, N\u00edcollas Cayann<\/p>\n\n\n\n<p>3 <em><strong>O senhor embaixador:<\/strong><\/em><strong> o intelectual engajado em contexto internacional<\/strong>, Mariana Figueir\u00f3 Klafke<\/p>\n\n\n\n<p>4<strong> As marcas da carreira diplom\u00e1tica de Monteiro Lobato em sua escritura<\/strong>: vamos perguntar a Mister Slang, Elizamari Rodrigues Becker<\/p>\n\n\n\n<p>5 <strong>Dinah Silveira de Queiroz<\/strong>: vida liter\u00e1ria e diplomacia, Ana Cristina Steffen<\/p>\n\n\n\n<p>6 <strong>Rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas em&nbsp;<\/strong><em><strong>Olga<\/strong><\/em>, narrativa de Fernando Morais, e&nbsp;reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, M\u00e1rcia Rohr Welter e Juracy Assmann Saraiva <\/p>\n\n\n\n<h3><strong>24 de outubro (quinta)<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>\n\nLocal: Pr\u00e9dio da FACED, sala 402.  \n\n<\/p>\n\n\n\n<p>7 <strong>Do que estamos falando quando falamos da literatura de l\u00edngua inglesa?<\/strong>, Ian Alexander<\/p>\n\n\n\n<p>8 <strong>Vest\u00edgios de ordens<\/strong>: Kazuo Ishiguro e a quest\u00e3o do internacional, Andrei Dos Santos Cunha<\/p>\n\n\n\n<p> 9 <strong>Emiss\u00e1rios entre(-)lugares, mensagens entre tempos e os cris\u00e2ntemos do imperador<\/strong>: pr\u00eamios liter\u00e1rios e ideologias pol\u00edtico-lingu\u00edsticas em Yoko Tawada, Marianna Ilgenfritz Daudt<\/p>\n\n\n\n<p>10 <strong>A literatura sovi\u00e9tica como instrumento de <\/strong><em><strong>soft power<\/strong><\/em>, Gabriel Pessin Adam<\/p>\n\n\n\n<p>11 <strong>Carlos Lacerda, operador do <\/strong><em><strong>soft power<\/strong><\/em><strong> norte-americano<\/strong>, Andrea Cristiane Kahmann<\/p>\n\n\n\n<p>12 <em><strong>Catch-22<\/strong><\/em><strong> e o discurso pol\u00edtico<\/strong>: uma leitura de narrativas n\u00e3o-confi\u00e1veis, Rafael Conter<\/p>\n\n\n\n<h2>EIXO 1 \u2014 RESUMOS DAS COMUNICA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n\n\n\n<h4>1 Cartografias liter\u00e1rias, mobilidades culturais e alteridades<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Luciana Wrege Rassier<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A Funda\u00e7\u00e3o Oriente \u2014 criada em 1988 e sediada em Lisboa, com\ndelega\u00e7\u00f5es na Regi\u00e3o Administrativa Especial de Macau, na \u00cdndia e em\nTimor-Leste \u2013 privilegia, em suas publica\u00e7\u00f5es, a edi\u00e7\u00e3o de fontes in\u00e9ditas ou\nde acesso dif\u00edcil que sejam significativas para a an\u00e1lise das rela\u00e7\u00f5es\nhist\u00f3ricas e culturais entre Portugal e os pa\u00edses asi\u00e1ticos, mas tamb\u00e9m publica\nensaios e textos liter\u00e1rios com tem\u00e1tica oriental. A \u201cS\u00e9rie Oriental Viagens\u201d \u00e9\numa cole\u00e7\u00e3o publicada em parceria com a Editora Cotovia, entre 2000 e 2003, que\nengloba narrativas de viagem resultantes de estadas de dois a tr\u00eas meses feitas\npelos autores em um local \u00e0 sua escolha no Oriente, gra\u00e7as a uma bolsa da\nFunda\u00e7\u00e3o. Os quatro autores contemplados s\u00e3o de l\u00edngua portuguesa \u2013 o angolano\nJos\u00e9 Eduardo Agualusa, os portugueses Jacinto Lucas Pires e Paulo Jos\u00e9 Miranda\ne o brasileiro Bernardo Carvalho \u2013 e localizaram suas narrativas\nrespectivamente em Goa, no Jap\u00e3o, em Macau e na Mong\u00f3lia. O presente trabalho\ninteressa-se pelo primeiro e pelo \u00faltimo volumes da cole\u00e7\u00e3o,&nbsp;<strong>Um\nestranho em Goa<\/strong>&nbsp;(2000) e&nbsp;<strong>Mong\u00f3lia<\/strong>&nbsp;(2003). Na obra de\nAgualusa, o narrador \u00e9 um jornalista que vai a Goa em busca de um personagem\ncom atua\u00e7\u00e3o controversa na luta pela independ\u00eancia de Angola, um agente\ninfiltrado. Na obra de Carvalho, o narrador principal \u00e9 um ex-embaixador\nbrasileiro na China, que reconstitui, a partir de di\u00e1rios, a viagem na Mong\u00f3lia\nfeita por um diplomata em busca de um fot\u00f3grafo brasileiro desaparecido. Tamb\u00e9m\no diplomata baseia-se nos di\u00e1rios do fot\u00f3grafo para reconstituir seu\nitiner\u00e1rio. Prop\u00f5e-se em um primeiro momento refletir sobre a literatura como\ninstrumento de diplomacia cultural relacionado ao conceito de&nbsp;<em>soft<\/em>&nbsp;<em>power<\/em>&nbsp;proposto\npor Joseph Nye (2004). A seguir, analisa-se<strong>&nbsp;Um estranho em Goa<\/strong>&nbsp;(2000)\ne&nbsp;<strong>Mong\u00f3lia<\/strong>&nbsp;(2003) buscando identificar em que medida se filiam\nao g\u00eanero da narrativa de viagens e que tratamento d\u00e3o a quest\u00f5es como exotismo\n(SEGALEN, 1978) e orientalismo (SAID, 2007).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>AGUALUSA, Jos\u00e9 Eduardo.&nbsp;<strong>Um estranho em Goa.<\/strong>&nbsp;Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Oriente\/Editora Cotovia, 2000.<\/li><li>CARVALHO, Bernardo.&nbsp;<strong>Mong\u00f3lia<\/strong>. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Oriente\/editoria Cotovia, 2003.<\/li><li>NYE, Joseph.&nbsp;<strong>Soft power: the means to success in World Politics<\/strong>. Cambridge: Public Affairs, 2004.<\/li><li>SAID, Edward.&nbsp;<strong>Orientalismo<\/strong>: o Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2007.<\/li><li>SEGALEN, Victor.&nbsp;<strong><em>Essai sur l&#8217;exotisme<\/em><\/strong>. Paris: Fata Morgana, 1978.<\/li><li>Palavras-chave: literatura e rela\u00e7\u00f5es internacionais; literatura e identidades; narrativas de viagem; Jos\u00e9 Eduardo Agualusa; Bernardo Carvalho.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<h4>2 As viagens do\ngato preto<\/h4>\n\n\n\n<p><em>N\u00edcollas Cayann<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Alicer\u00e7ado\nmajoritariamente na teoria de literatura de viagem, o trabalho analisa <em>Gato\npreto em campo de neve <\/em>(1941) de Erico Verissimo em compara\u00e7\u00e3o com outros\ndois de seus livros de viagem:<em> A volta do gato preto <\/em>(1944) e <em>M\u00e9xico <\/em>(1957).\nO trabalho busca verificar a rela\u00e7\u00e3o que o autor brasileiro (e\nlatino-americano) estabelece ao narrar o norte-americano e o latino-americano\n(mexicano), questionando desse modo as fronteiras e litorais da ideia de\nAm\u00e9rica Latina naquilo que tange identidade e alteridade, principalmente no\ncaso brasileiro. Um dos principais insumos na composi\u00e7\u00e3o da literatura de\nviagem \u00e9 aquilo que se chama de \u201cmonstro da alteridade\u201d (RUBIES, 2000, p. 8).\nNeste sentido, entende-se a literatura de viagem como um g\u00eanero que se nutre do\nato de representar o outro. A literatura de viagem \u00e9 feita de condi\u00e7\u00f5es\nliter\u00e1rias, aspectos geogr\u00e1ficos e hist\u00f3ricos, e de muitos outros fatores; \u00e9\numa composi\u00e7\u00e3o ampla, na qual a alteridade tem um papel significativo. \u00c9 no\nexerc\u00edcio de ultrapassar limites, transpassar fronteiras e desembarcar em\nlitorais que se compreende a ideia de literatura de viagem. Este trabalho busca\nestabelecer, tamb\u00e9m, uma liga\u00e7\u00e3o entre as \u00e1reas da Literatura Comparada e das\nRela\u00e7\u00f5es Internacionais; para tanto, se baseia na proposta de que a literatura\nde viagem \u00e9 um instrumento, inegavelmente, pertencente a ambas. Coloca-se em\ndebate tamb\u00e9m as defini\u00e7\u00f5es de escritor\/diplomata, visto que Erico Verissimo\nn\u00e3o \u00e9 diplomata, embaixador ou chanceler de carreira, mas sim um diplomata\ncultural (adido cultural), deste modo flexibilizando a categoria no intuito de\ncompreend\u00ea-la como \u201cescritor\/internacionalista\u201d.&nbsp; No panorama atual, uma\ngrande crise migrat\u00f3ria, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e identit\u00e1ria se estabelece em\npropor\u00e7\u00f5es globais e, em meio a este cen\u00e1rio, o presidente de uma (outrora) das\nmaiores pot\u00eancias da Am\u00e9rica Latina trata o estrangeiro com o descaso de um <em>tweet<\/em>.\nN\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel ignorar estes aspectos do \u00e2mbito pol\u00edtico, internacional,\ngeogr\u00e1fico e hist\u00f3rico que tamb\u00e9m s\u00e3o parte da constru\u00e7\u00e3o da historiografia\nliter\u00e1ria (HASSAN, 2018). Deste modo, o trabalho proposto, no uso de uma\nabordagem qualitativa, dados secund\u00e1rios, an\u00e1lise documental e revis\u00e3o\nbibliogr\u00e1fica, busca entender qual o uso que este escritor\/internacionalista,\nlatino-americano e brasileiro faz do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>HASSAN, Wa\u00efl S. <em>A geopol\u00edtica e os paradigmas da literatura comparada americana<\/em>. Revista Brasileira de Literatura Comparada, n. 35, 2018. <\/li><li>RUBI\u00c9S, Joan Pau. <em>Travel Writing as a Genre: facts, ficstions and the invention of scientific discourse in early modern Europe<\/em>. Journeys Journals, p. 6-35, 2000. <\/li><li>VERISSIMO, Erico. <em>Gato Preto em Campo de Neve<\/em>. Porto Alegre: Globo, 1957 [1941].<\/li><li>VERISSIMO, Erico. <em>A volta do gato preto<\/em>. 1\u00aa ed Rio de Janeiro: Globo, 1969 [1944].<\/li><li>VERISSIMO, Erico. <em>M\u00e9xico. <\/em>11 ed. Porto Alegre: Globo, 1957.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave: <\/strong>Erico Verissimo; Literatura de viagem; Alteridade; Rela\u00e7\u00f5es Internacionais; Escritor\/diplomata<strong>.\ufeff<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h4>3 <em>O senhor\nembaixador:<\/em> o intelectual engajado em contexto internacional<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Mariana Figueir\u00f3 Klafke<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na obra de Erico Verissimo, o tema do engajamento do intelectual em uma revolu\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter violento \u00e9 recorrente: al\u00e9m de&nbsp;<em>O senhor embaixador<\/em>&nbsp;(1965), o tema aparece em&nbsp;<em>Saga<\/em>&nbsp;(1940),&nbsp;<em>O arquip\u00e9lago<\/em>&nbsp;(1961) e&nbsp;<em>O prisioneiro<\/em>&nbsp;(1967). A figura do homem de pensamento que se torna homem de a\u00e7\u00e3o, entretanto, se fortalece muito no imagin\u00e1rio do escritor na segunda metade da d\u00e9cada de 1960.&nbsp;De acordo com o autor,&nbsp;<em>O senhor embaixador<\/em>&nbsp;seria sua oportunidade de estudar a estrutura pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social das rep\u00fablicas latino-americanas, bem como suas rela\u00e7\u00f5es com os EUA, al\u00e9m&nbsp;de \u201cmexer com um problema que sempre me preocupou: a participa\u00e7\u00e3o do intelectual na pol\u00edtica militante e, mais especificamente, numa revolu\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter violento\u201d (VERISSIMO, 1976, p. 55). Uma motiva\u00e7\u00e3o essencial para a escrita de&nbsp;<em>O senhor embaixador&nbsp;<\/em>certamente foi a experi\u00eancia de Erico Verissimo com a diplomacia de Washington, que parece ter levado o escritor a rever sua vis\u00e3o sobre os Estados Unidos da Am\u00e9rica. Em seus livros de viagem&nbsp;<em>Gato preto em campo de neve&nbsp;<\/em>(1941) e&nbsp;<em>A volta do gato preto&nbsp;<\/em>(1947)<em>,&nbsp;<\/em>Verissimo manifestava simpatia pelos EUA:&nbsp;<em>\u201c<\/em>o que ele vira fora a mobiliza\u00e7\u00e3o dos norte-americanos na defesa da liberdade e os benef\u00edcios que a civiliza\u00e7\u00e3o da alta tecnologia, da livre imprensa e da justi\u00e7a para todos trouxera \u00e0quela na\u00e7\u00e3o sob Roosevelt\u201d (BORDINI, 2014, 27). Sua experi\u00eancia posterior como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da OEA propiciou outro ponto de vista. Ao visitar diversos pa\u00edses latino-americanos, Verissimo teve oportunidade de observar a\u00e7\u00f5es imperialistas por parte do \u201cgrande irm\u00e3o do norte\u201d, que, durante a Guerra Fria, tinha em curso uma forte pol\u00edtica de \u201cconten\u00e7\u00e3o\u201d do avan\u00e7o comunista na Am\u00e9rica.&nbsp;Minchillo (2014) chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que a Am\u00e9rica Latina aparece desde cedo nos romances de Erico Verissimo, mas a partir de um determinado momento de sua obra surge um elemento de coes\u00e3o entre as na\u00e7\u00f5es latino-americanas que \u00e9 comum a muitos outros artistas e intelectuais: a contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica anglo-sax\u00e3, ou seja, pensar a condi\u00e7\u00e3o de latinidade passa pelo questionamento da hegemonia norte-americana, cuja interfer\u00eancia nos demais pa\u00edses da Am\u00e9rica \u00e9 constante.&nbsp;Bordini (2014) defende que a partir de&nbsp;<em>O Arquip\u00e9lago<\/em>&nbsp;(1961), quando Erico Verissimo entra em uma fase mais decididamente pol\u00edtica de sua produ\u00e7\u00e3o, as discuss\u00f5es ideol\u00f3gicas entre os personagens ganham import\u00e2ncia muito maior do que antes tinham na obra do autor.&nbsp;Algo muito importante que Bordini prop\u00f5e \u00e9 que nesta fase mais pol\u00edtica Erico Verissimo n\u00e3o constr\u00f3i mais perspectivas privilegiadas, ainda que n\u00e3o deixe de manifestar seu pr\u00f3prio ponto de vista e esquema de valores atrav\u00e9s de determinados personagens. A quest\u00e3o \u00e9 que esse ponto de vista n\u00e3o impregna&nbsp;todo&nbsp;o romance, de forma que a diversidade de opini\u00f5es n\u00e3o fica prejudicada na narrativa. Procuraremos analisar como essa diversidade se manifesta e&nbsp;demonstrar o quanto&nbsp;setorna dif\u00edcil chegar a uma conclus\u00e3o inequ\u00edvoca sobre a tese defendida nesse romance. Para tanto, ser\u00e1 importante compreender a vis\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre Estados Unidos e pa\u00edses latino-americanos constru\u00edda na narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>BORDINI, Maria da Gl\u00f3ria. \u201cA figura\u00e7\u00e3o de um tempo de extremos: Erico Verissimo e o s\u00e9culo XX\u201d.&nbsp;<strong>Fragmentum<\/strong>. Santa Maria: Editora Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras, n. 43, out.\/dez. 2014.<\/li><li>MINCHILLO, Carlos Cortez. \u201cA Am\u00e9rica Latina de Erico Verissimo: vizinhan\u00e7a, fraternidade, fraturas\u201d.&nbsp;<strong>Varia Historia<\/strong>, Belo Horizonte, v. 30, n. 54, p. 705-723, set\/dez 2014.<\/li><li>VERISSIMO, Erico.&nbsp;<strong>O senhor embaixador<\/strong>. Porto Alegre: Editora Globo, 1965.<\/li><li>_____________.&nbsp;<strong>Solo de Clarineta<\/strong>: mem\u00f3rias. Vol. 2. Porto Alegre: Editora Globo, 1976.&nbsp;<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave:&nbsp;<\/strong>literatura e pol\u00edtica; engajamento; Erico\nVerissimo.<\/p>\n\n\n\n<h4>4 As marcas da carreira diplom\u00e1tica de Monteiro Lobato em\nsua escritura: vamos perguntar a Mister Slang<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Elizamari Rodrigues Becker<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na produtiva\nintersec\u00e7\u00e3o entre Literatura Comparada e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, com\nfrequ\u00eancia encontramos escritores-embaixadores que alimentam as literaturas\nnacionais com textos ficcionais claramente devotados a render suas experi\u00eancias\ndiplom\u00e1ticas ao p\u00fablico leitor. Monteiro Lobato foi um escritor, empres\u00e1rio e\narticulador pol\u00edtico bastante controverso. Seu artigo \u201cParanoia ou\nmistifica\u00e7\u00e3o?\u201d (1922) foi o estopim de suas contendas com os modernistas,\ncontendas essas que lhe renderam o r\u00f3tulo de reacion\u00e1rio, mas o conjunto de sua\nobra voltada para p\u00fablico adulto evidencia que sua pugna era dedicada a\ncombater justamente o atraso de nosso pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o a outras na\u00e7\u00f5es, novas e\nvelhas, que j\u00e1 possu\u00edam economias impulsionadas na velocidade do ferro e do\n\u201couro negro\u201d \u2013 o petr\u00f3leo que Lobato tanto sonhou ver extra\u00eddo no Brasil, ideal\nque lhe custou a liberdade e a sa\u00fade.&nbsp; O livro&nbsp;<em>Mister Slang e o\nBrasil&nbsp;<\/em>(1927), integrante do conjunto de obras da literatura adulta de\nMonteiro Lobato, constr\u00f3i e exp\u00f5e, em literatura dialogada, as opini\u00f5es e\nposicionamentos pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos do escritor do Buquira acerca de quest\u00f5es\nde desenvolvimento do Brasil e sob os impulsos das pol\u00edticas de\ninternacionaliza\u00e7\u00e3o do governo que o comissionou. Acredita-se que a experi\u00eancia\ndiplom\u00e1tica de Lobato como adido comercial (1927-1931) do consulado brasileiro\nna maior metr\u00f3pole estadunidense, Nova Iorque, ocorrida durante o governo de\nWashington Lu\u00eds, deixou marcas significativas nesse e em outros escritos seus,\nbem como definiu suas escolhas tradut\u00f3rias e editoriais e o levou a criar uma\nesp\u00e9cie de rede intertextual com a apari\u00e7\u00e3o e reapari\u00e7\u00e3o de uma personagem, Mr.\nSlang, que n\u00e3o coube em um s\u00f3 livro,&nbsp;&nbsp;<em>Mister Slang e o Brasil<\/em>,\ne acabou querendo mais, viajando para a China no final daquele relato e\nreaparecendo de l\u00e1 em um livro de ensaios e cr\u00f4nicas sobre a vida nos Estados\nUnidos,&nbsp;<em>Am\u00e9rica&nbsp;<\/em>(1931). \u00c9 a partir do olhar desse estrangeiro\nque o narrador de Lobato busca compreender a problem\u00e1tica brasileira, com ele\ndialogando sobre governan\u00e7a, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, industrializa\u00e7\u00e3o,\nmoderniza\u00e7\u00e3o e sobre in\u00fameras outras tem\u00e1ticas cong\u00eaneres. A ficcionaliza\u00e7\u00e3o a\npartir desse di\u00e1logo \u00e9 relativamente congruente com o olhar estrangeiro e\nestrangeirizante desses mandat\u00e1rios-embaixadores, olhar dirigido pela pretensa\nisen\u00e7\u00e3o de quem v\u00ea de fora, de quem toma a dist\u00e2ncia requerida para ver o todo,\npara ver com clareza, para avaliar com imparcialidade, mas nunca totalmente\ndesprovida de interesse, de apego (Almeida, 2018). Este estudo pretende,\nportanto, percorrer parte da literatura adulta de Lobato, procurando\nidentificar poss\u00edveis encontros entre seu Mr. Slang com sua pr\u00f3pria voz de\nexperi\u00eancia e carreira diplom\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ALMEIDA, Paulo Roberto de. Dez obras para melhor entender os problemas do Brasil, <em>Spotniks<\/em>, Bras\u00edlia, jun., 2016. Dispon\u00edvel em:&nbsp;<a href=\"http:\/\/spotniks.com\/dez-obras-que-voce-precisa-ler-para-entender-melhor-os-problemas-do-brasil\/\">http:\/\/spotniks.com\/dez-obras-que-voce-precisa-ler-para-entender-melhor-os-problemas-do-brasil\/<\/a>. \u00daltimo acesso em: 20\/07\/2019.<\/li><li>MONTEIRO LOBATO, Jos\u00e9 Bento.<em> Am\u00e9rica. <\/em>S\u00e3o Paulo: Brasiliense, (1931)1951.<\/li><li>MONTEIRO LOBATO, Jos\u00e9 Bento.<em> Mister Slang e o Brasil <\/em>e<em> Problema Vital. <\/em>S\u00e3o Paulo: Brasiliense, (1927)1951.<\/li><li>MONTEIRO LOBATO, Jos\u00e9 Bento. Paranoia ou mistifica\u00e7\u00e3o? In.: <em>Urup\u00eas<\/em>. 4. ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, (1922) 1951.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Monteiro Lobato;&nbsp;<em>Mister Slang e o\nBrasil<\/em>;&nbsp;<em>America<\/em>; carreira liter\u00e1ria; carreira diplom\u00e1tica;\npol\u00edticas de internacionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4>5 Dinah\nSilveira de Queiroz: vida liter\u00e1ria e diplomacia<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Ana Cristina Steffen<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;<\/strong>A paulista Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), apesar de pouco\nconhecida e estudada nos dias de hoje, teve uma carreira liter\u00e1ria com mais de\n40 anos, durante os quais produziu uma vasta e diversificada obra. A autora\npassou pelos mais variados g\u00eaneros: romance, conto, literatura infanto-juvenil,\nfic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, jornalismo liter\u00e1rio, teatro, al\u00e9m de uma biografia da\nPrincesa Isabel Cristina Leopoldina de Bragan\u00e7a e de importantes tradu\u00e7\u00f5es &#8211;\ndentre elas, a primeira vers\u00e3o brasileira de&nbsp;<em>Sense and sensibility<\/em>,\nde Jane Austen, publicada em 1944. Como cronista, assinou as se\u00e7\u00f5es\n\u201cJornalzinho Pobre\u201d do&nbsp;<em>Jornal do Com\u00e9rcio<\/em>, do Rio de Janeiro, e\n\u201cCaf\u00e9 da Manh\u00e3\u201d, do tamb\u00e9m carioca&nbsp;<em>A Manh\u00e3<\/em>. Tamb\u00e9m foi colaboradora\nnas r\u00e1dios Nacional e do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, nas quais eram veiculados\ntextos de sua autoria; suas cr\u00f4nicas eram lidas mesmo nos per\u00edodos em que se\nencontrava fora do Brasil exercendo fun\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, como Adido Cultural\nda Embaixada do Brasil em Madri &#8211; para a qual foi nomeada em 1962 &#8211; ou enquanto\nacompanhava o segundo marido, o tamb\u00e9m diplomata D\u00e1rio Moreira de Castro Alves.\nAssim sendo, um dos objetivos deste trabalho \u00e9 discutir a presen\u00e7a de elementos\nrelacionados \u00e0 atua\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica na literatura produzida por Dinah Silveira\nde Queiroz, principalmente no romance&nbsp;<em>Guida, car\u00edssima Guida<\/em>, al\u00e9m\nde algumas cr\u00f4nicas reunidas na colet\u00e2nea&nbsp;<em>Caf\u00e9 da manh\u00e3<\/em>. Ademais,\nessa pesquisa tamb\u00e9m se prop\u00f5e a ressaltar a circula\u00e7\u00e3o internacional da obra\nde Dinah: al\u00e9m de v\u00e1rias de suas obras terem ganhado tradu\u00e7\u00f5es e publica\u00e7\u00f5es\nfora do Brasil, em pa\u00edses como Canad\u00e1, Coreia do Sul, Espanha, Fran\u00e7a, It\u00e1lia,\nJap\u00e3o e Portugal, em 1983 foi realizado, nos Estados Unidos, um semin\u00e1rio em\nmem\u00f3ria da autora (ALVES, 1989). Este trabalho, por fim, tamb\u00e9m pretende\ncontribuir para divulga\u00e7\u00e3o da obra de Dinah, bem como para o resgate de uma\nautora que, apesar da intensa atua\u00e7\u00e3o no meio liter\u00e1rio e cultural, atualmente\nest\u00e1 em esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ALVES, D\u00e1rio Moreira de Castro.&nbsp;<strong>Dinah, car\u00edssima Dinah<\/strong>. Bras\u00edlia: Horizonte, 1989.<\/li><li>QUEIROZ, Dinah Silveira de.&nbsp;<strong>Caf\u00e9 da manh\u00e3<\/strong>. Rio de Janeiro: Oliv\u00e9 Editor, 1969.<\/li><li>______.&nbsp;<strong>Guida, car\u00edssima Guida<\/strong>.Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1981.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>:&nbsp;Dinah Silveira de Queiroz;&nbsp;<em>Guida,\ncar\u00edssima Guida<\/em>;&nbsp;<em>Caf\u00e9 da manh\u00e3<\/em>; Escritores diplomatas;\nLiteratura brasileira.<\/p>\n\n\n\n<h4>6 Rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas\nem&nbsp;<em>Olga<\/em>, narrativa de Fernando Morais, e&nbsp;reconstru\u00e7\u00e3o\nhist\u00f3rica<\/h4>\n\n\n\n<p><em>M\u00e1rcia Rohr Welter e Juracy Assmann Saraiva<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O\nentrecruzamento de hist\u00f3ria e de literatura sempre foi um campo f\u00e9rtil para as\ninvestiga\u00e7\u00f5es de ambos os campos. A narrativa&nbsp;<em>Olga<\/em>, de Fernando\nMorais (2008), conta a vida de Olga Benario, a esposa judia e comunista de Lu\u00eds\nCarlos Prestes que esteve no Brasil para realizar uma revolu\u00e7\u00e3o comunista e foi\ndeportada para a Alemanha nazista. A obra de Morais oferece um panorama da\nsociedade brasileira e alem\u00e3 da primeira metade do s\u00e9culo XX, e, no processo de\nreconstru\u00e7\u00e3o do passado, Morais utiliza vest\u00edgios hist\u00f3ricos, como recortes de\njornais e cartas, para demonstrar as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas travadas entre\nBrasil e Alemanha e Brasil e Estados Unidos da Am\u00e9rica. A partir disso, no\npresente trabalho, exploram-se as significa\u00e7\u00f5es provenientes das rela\u00e7\u00f5es\ndiplom\u00e1ticas entre esses pa\u00edses, no final da d\u00e9cada de 30 e in\u00edcio da d\u00e9cada de\n40, realizando um confronto entre literatura e hist\u00f3ria por meio do texto \u201cO\nEstado Getulista (1930-1945)\u201d, de Boris Fausto (2002). Para isso, s\u00e3o\nutilizados os pressupostos te\u00f3ricos de Keith Jenkins (2009), que afirma que a\nhist\u00f3ria \u00e9 um constructo pessoal no qual o historiador, a partir de vest\u00edgios\ndo passado, elabora a sua vers\u00e3o dos fatos; de Regina Zilberman (1989), que\naponta que o modo como a obra se apropria de elementos do cotidiano indica seu\ncontato com a sociedade do per\u00edodo; e de Mary Del Priore (2009), que afirma que\no texto biogr\u00e1fico lan\u00e7a luzes sobre um expl\u00edcito \u2013&nbsp;&nbsp;ao propor a\nan\u00e1lise da sociedade de uma \u00e9poca \u2013&nbsp;&nbsp;e de um impl\u00edcito \u2013 ao reunir,\nem um indiv\u00edduo, os conflitos de um per\u00edodo \u2013 da sociedade de um tempo. Assim,\nvalendo-se de uma investiga\u00e7\u00e3o de cunho indutivo e de revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica,\npode-se perceber que os contatos da pol\u00edcia brasileira com um funcion\u00e1rio da\nembaixada norte-americana, na ocasi\u00e3o das pris\u00f5es de membros da revolu\u00e7\u00e3o\nsocialista, tinham por intuito extinguir o comunismo do Brasil; igualmente que\na manifesta\u00e7\u00e3o de ideais antissemitas e a aberta colabora\u00e7\u00e3o com a Gestapo, por\nmeio de um diplomata brasileiro em Berlim, revelam que esses pensamentos se\nfaziam presentes na sociedade do per\u00edodo e que n\u00e3o eram recriminados, uma vez\nque eram expressos de modo aberto em correspond\u00eancias oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>FAUSTO, Boris. O Estado Getulista (1930-1945). In: ______.&nbsp;<em>Hist\u00f3ria Concisa do Brasil<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo, 2002. p. 185-218.<\/li><li>JENKINS, Keith. O que \u00e9 a Hist\u00f3ria? In: ______.&nbsp;<em>A Hist\u00f3ria repensada<\/em><strong>.<\/strong>&nbsp;S\u00e3o Paulo: Contexto, 2009. p. 23- 52.<\/li><li>MORAIS, Fernando.&nbsp;<em>Olga<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia de Letras, 2008.<\/li><li>PRIORE, Mary Del. Biografia: quando o indiv\u00edduo encontra a hist\u00f3ria.&nbsp;<em>Topoi<\/em>, v. 10, n. 19, jul- dez. 2009, p. 7-16. Dispon\u00edvel em:&nbsp;http:\/\/www.revistatopoi.org\/numeros_anteriores\/topoi19\/topoi%2019%20-%2001%20artigo%201.pdf. Acesso em: 11.jun. 2019.<\/li><li>ZILBERMAN, Regina. Est\u00e9tica da recep\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria da literatura. S\u00e3o Paulo: Editora \u00c1tica, 1989.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas; <em>Olga<\/em>; literatura; hist\u00f3ria; Fernando Morais.<\/p>\n\n\n\n<h4>7 Do que\nestamos falando quando falamos da literatura de l\u00edngua inglesa?<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Ian Alexander<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Alguns imp\u00e9rios\napenas mudam de&nbsp;nome. Em 1889, o Imp\u00e9rio Brasileiro sofreu um golpe e se\ntransformou em rep\u00fablica, sem nenhuma descoloniza\u00e7\u00e3o. Em 1957, depois da sua\nderrota na Crise de Suez, o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico entrou em colapso. Entre mar\u00e7o de\n1957 e janeiro de 1984, cinquenta dos seus antigos territ\u00f3rios na \u00c1frica, na\n\u00c1sia, nas Am\u00e9ricas e na Oceania se transformaram em pa\u00edses independentes:\ndesses cinquenta, apenas cinco n\u00e3o fazem parte da Comunidade das Na\u00e7\u00f5es (antiga\nComunidade Brit\u00e2nica de Na\u00e7\u00f5es), com sede em Londres e a Rainha Elizabeth II\ncomo chefe. Os pa\u00edses da Comunidade variam em popula\u00e7\u00e3o entre 1,3 bilh\u00f5es\n(\u00cdndia) e 11 mil (Nauru), e todos t\u00eam outras l\u00ednguas al\u00e9m do ingl\u00eas. Diferente\ndos pa\u00edses da Comunidade Lus\u00f3fona, nenhum dos quais \u00e9 vizinho do outro, a\nmaioria dos membros da Comunidade (Brit\u00e2nica) divide uma fronteira terrestre ou\nmar\u00edtima com pelo menos um outro membro; v\u00e1rios utilizam moedas regionais,\njunto com esses vizinhos; alguns inclusive jogam esportes internacionais como\nparte de times conjuntos. Se o senso comum d\u00e1 o&nbsp;nome&nbsp;<em>Literatura\nBrasileira<\/em>&nbsp;a toda a literatura produzida no antigo Imp\u00e9rio Brasileiro\ne na atual Rep\u00fablica Federativa, esse mesmo senso comum n\u00e3o serve para o mundo\nangl\u00f3fono. Esse trabalho procura investigar as defini\u00e7\u00f5es e as classifica\u00e7\u00f5es\naplicadas \u00e0 literatura de l\u00edngua inglesa em partes diferentes do mundo\nangl\u00f3fono, atrav\u00e9s dos curr\u00edculos de universidades p\u00fablicas. Foram exclu\u00eddos\npa\u00edses que se tornaram independentes antes do s\u00e9culo XIX, como os Estados\nUnidos, que foram anexados ao Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico depois da Primeira Guerra\nMundial, como a Tanz\u00e2nia ou a Jord\u00e2nia, ou que j\u00e1 tinham uma forte tradi\u00e7\u00e3o\nliter\u00e1ria antes da chegada da l\u00edngua inglesa, como a \u00cdndia ou o Egito. Os pa\u00edses\nrestantes s\u00e3o da \u00c1frica, das Am\u00e9ricas e da Oceania, e se dividem entre aqueles\nque se tornaram formalmente independentes em 1931 (o Canad\u00e1, a Austr\u00e1lia, a\nNova Zel\u00e2ndia e a \u00c1frica do Sul) e aqueles que ganharam a independ\u00eancia a\npartir de 1957. De cada continente, foram&nbsp;escolhidos&nbsp;os pa\u00edses de\nmaior popula\u00e7\u00e3o, e a principal universidade p\u00fablica dentro de cada pa\u00eds. Duas\ndessas universidades s\u00e3o transnacionais: a&nbsp;<em>University of the West\nIndies (UWI)<\/em>, com campi nas ilhas de Jamaica, Trinidad e Barbados, e a&nbsp;<em>University\nof the South Pacific (USP)<\/em>, com campus principal em Fiji. A partir dos\nsites dessas universidades, foram identificadas as disciplinas obrigat\u00f3rias e\neletivas para completar um diploma de gradua\u00e7\u00e3o em Literatura de L\u00edngua\nInglesa, calculando-se as porcentagens m\u00e1xima e m\u00ednima de conte\u00fados oriundos do\npa\u00eds em quest\u00e3o, da regi\u00e3o a qual pertence, de outras regi\u00f5es, e das Ilhas\nBrit\u00e2nicas. Nos pa\u00edses em que uma maioria branca se tornou independente em\n1931, a maior parte dos conte\u00fados continua sendo do Reino Unido, enquanto nos\npa\u00edses em que uma maioria n\u00e3o branca ganhou a independ\u00eancia na segunda metade\ndo s\u00e9culo XX, a maior parte \u00e9 ou regional (africana, caribenha, do Pac\u00edfico),\nou da di\u00e1spora negra. Nenhum dos casos apresenta a na\u00e7\u00e3o como sendo um recorte\ndominante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: literatura de l\u00edngua inglesa; literatura\nafricana; literatura caribenha; literatura do Pac\u00edfico; curr\u00edculo\nuniversit\u00e1rio.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4>8 Vest\u00edgios de\nordens: Kazuo Ishiguro e a quest\u00e3o do internacional<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Andrei Dos Santos Cunha<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No romance <strong>Os Vest\u00edgios do Dia<\/strong>, de Kazuo Ishiguro (1989; 1990; 2016), h\u00e1 um encontro diplom\u00e1tico entreguerras na casa do patr\u00e3o do narrador. A cena, ambientada em 1927, une o dom\u00e9stico, o conflito de classes, a quest\u00e3o da Alemanha, e outros exemplos de confronto pol\u00edtico em um \u00fanico evento complexo, como que para demonstrar como diferentes fatores e dramas ecoam e distorcem uns aos outros, tanto no plano dial\u00f3gico como no sincr\u00f4nico. O livro tamb\u00e9m ressuscita temas relacionados \u00e0 hist\u00f3ria da literatura inglesa, como o conflito de classes e a validade do romance psicol\u00f3gico de formato realista para descrever o s\u00e9culo XX, mas destacando que a Inglaterra tinha um lugar central no mundo da \u00e9poca, o que se reflete na forma mesma, realista e did\u00e1tica, com que Ishiguro conta a hist\u00f3ria. \u00c9 uma discuss\u00e3o de pol\u00edtica internacional, mas ao mesmo tempo um caso bastante eloquente de problematiza\u00e7\u00e3o de temas que a literatura comparada est\u00e1 sempre discutindo. O pr\u00f3prio autor de <strong>Os Vest\u00edgios do Dia<\/strong>, Kazuo Ishiguro, tem uma identidade h\u00edbrida, mais facilmente descrita por teorias liter\u00e1rias p\u00f3s-colonialistas e que tamb\u00e9m \u00e9 um elemento de debate corrente nas rela\u00e7\u00f5es internacionais. Nascido no Jap\u00e3o, ele se identifica como um autor de l\u00edngua inglesa, o que pode ser causa de desconforto \u2014 n\u00e3o para o pr\u00f3prio Ishiguro, e sim para os que buscam descrev\u00ea-lo como representante desta ou daquela nacionalidade. Nesse sentido, a situa\u00e7\u00e3o existencial, pol\u00edtica e art\u00edstica de Ishiguro se assemelha \u00e0 de tantos outros escritores que escrevem, por op\u00e7\u00e3o ou vicissitude, em l\u00ednguas diferentes da materna \u2014 algo que, em nosso mundo de 2018, s\u00f3 tende a aumentar, devido \u00e0s for\u00e7as da guerra, da viol\u00eancia e da economia global, e que a autora Tawada Y\u00f4ko (japonesa, que escreve em alem\u00e3o) chama de \u201cexofonia\u201d (2003).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ISHIGURO, K. <strong>Os vest\u00edgios do dia<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Eliana Sabino. Rio de Janeiro: Rocco, 1990.<\/li><li>ISHIGURO, K. <strong>Os vest\u00edgios do dia<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Rubens Siqueira. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016.<\/li><li>ISHIGURO, K. <strong><em>The remains of the day<\/em><\/strong>. Londres: Faber &amp; Faber, 1989.<\/li><li>TAWADA, Y. <strong><em>Ekusofonii<\/em><\/strong><em>: bogo no soto e deru tabi <\/em>[\u30a8\u30af\u30bd\u30d5\u30a9\u30cb\u30fc \u2015\u2015 \u6bcd\u8a9e\u306e\u5916\u3078\u51fa\u308b\u65c5]. T\u00f3quio: Iwanami, 2003.<\/li><li><strong>VEST\u00cdGIOS do dia<\/strong>. T\u00edtulo original: <strong><em>The Remains of the Day<\/em><\/strong>. Dire\u00e7\u00e3o: James Ivory. Roteiro: Kazuo Ishiguro (romance); Ruth Prawer Jhabvala (adapta\u00e7\u00e3o). Reino Unido, EUA: Merchant &amp; Ivory, Columbia e outros, 1993. 1 DVD (134 min).<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: exofonia; Kazuo Ishiguro; <strong>Vest\u00edgios do\ndia<\/strong>; rela\u00e7\u00f5es internacionais; identidades h\u00edbridas.<\/p>\n\n\n\n<h4>9 Emiss\u00e1rios entre(-)lugares, mensagens entre tempos e\nos cris\u00e2ntemos do imperador: pr\u00eamios liter\u00e1rios e ideologias\npol\u00edtico-lingu\u00edsticas em Yoko Tawada<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Marianna Ilgenfritz Daudt<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em 18 de dezembro de 2018, o embaixador do Jap\u00e3o, Takeshi Yagi, convidou Yoko Tawada para o visitar em sua casa em comemora\u00e7\u00e3o pelo recebimento do prestigiado pr\u00eamio da Funda\u00e7\u00e3o Jap\u00e3o que a autora recebia por sua literatura naquele ano. O pr\u00eamio \u00e9 concedido anualmente, desde 1973, a pessoas ou organiza\u00e7\u00f5es que promovem o interc\u00e2mbio cultural e a compreens\u00e3o m\u00fatua internacional do Jap\u00e3o com o mundo. O pr\u00eamio japon\u00eas foi recebido apenas dois depois de Tawada receber o importante Pr\u00eamio Kleist na Alemanha, em 2016. A crescente notoriedade alcan\u00e7ada pela autora, especialmente nos dois pa\u00edses, faz com seja considerada pela Funda\u00e7\u00e3o Jap\u00e3o como uma figura \u00fanica e nunca vista na hist\u00f3ria liter\u00e1ria japonesa moderna, personalidade que aponta para uma nova dire\u00e7\u00e3o no futuro da literatura mundial. Ette (2004; 2016), por sua vez, destaca o papel da escrita translingu\u00edstica no contexto alem\u00e3o e o potencial de renova\u00e7\u00e3o e enriquecimento que os escritores de l\u00edngua estrangeira, como Yoko Tawada, representam para literatura de l\u00edngua alem\u00e3 e do mundo. Com o presente trabalho, busca-se tra\u00e7ar a trajet\u00f3ria de Tawada em termos de reconhecimento no cen\u00e1rio liter\u00e1rio mundial, com foco na Alemanha e no Jap\u00e3o, e discutir as implica\u00e7\u00f5es de seu papel como mediadora entre fronteiras, culturas e idiomas, bem como suas abordagens liter\u00e1rias com rela\u00e7\u00e3o aos temas que tangem \u00e0s rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas entre os diferentes pa\u00edses e culturas. Para tanto, ser\u00e3o apresentados e discutidos o romance&nbsp;<strong><em>Kentoshi<\/em><\/strong>&nbsp;(2014) &#8211; traduzido na Alemanha como&nbsp;<em>Sendbo-o-te<\/em>&nbsp;-; os contos \u201c<em>Ma und Mu<\/em>\u201d e \u201c<em>Bioskoop der Nacht<\/em>\u201d, presentes, respectivamente, nas colet\u00e2neas&nbsp;<strong><em>Sprachpolizei und Spielpolyglotte<\/em><\/strong>&nbsp;(2007) e&nbsp;<strong><em>\u00dcberseezungen<\/em><\/strong>&nbsp;(2002) e em poemas de&nbsp;<strong><em>Wo Europa anf\u00e4ngt und Ein Gast<\/em><\/strong>&nbsp;(2014). Yoko Tawada atua como mediadora entre culturas por meio de sua po\u00e9tica intercultural, de seu posicionamento como tradutora e de seu fazer liter\u00e1rio, que inclui cr\u00edticas \u00e0s posturas pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas de diversos pa\u00edses do mundo. Em sua po\u00e9tica, a intera\u00e7\u00e3o entre culturas \u00e9 buscada de forma constante e consciente, seja pelo evocar das diferen\u00e7as e das experi\u00eancias entre culturas ou do entrela\u00e7amento entre as l\u00ednguas de seu conv\u00edvio, o japon\u00eas e o alem\u00e3o. Como tradutora, Tawada defende a import\u00e2ncia da tradu\u00e7\u00e3o como obra de igual valor ao texto de partida, e aponta como a tradicional primazia dos textos originais esteve sempre atrelada a conceitos que privilegiam as l\u00ednguas e culturas de pa\u00edses hegem\u00f4nicos, cujas pol\u00edticas teriam sedimentado suas identidades lingu\u00edsticas como fator de identifica\u00e7\u00e3o e imposi\u00e7\u00e3o nacionais. Em sua literatura, podem-se observar an\u00e1lises cruas sobre padr\u00f5es pol\u00edticos que imp\u00f5e ou impuseram formas de pensar ou de se expressar, especialmente em suas refer\u00eancias ao modelo de imposi\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica japonesa durante a Era Meiji e ao modelo euroc\u00eantrico, cuja presun\u00e7\u00e3o de centralidade ainda hoje marginaliza formas n\u00e3o-centrais\/europeias de express\u00e3o cultural. Dessas e de outras formas, suas cria\u00e7\u00f5es trazem \u00e0 luz, por meio da literatura, em termos tanto de conte\u00fado como de tr\u00e2nsito e reconhecimento autoral, discuss\u00f5es que vem se fazendo cada vez mais necess\u00e1rias no cen\u00e1rio mundial e que tem o potencial de renovar e trazer nova energia \u00e0s literaturas alem\u00e3, japonesa e de todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>ETTE, Otmar. Pensar o futuro: a po\u00e9tica do movimento nos estudos de trans\u00e1rea. Tradu\u00e7\u00e3o: Luiz Barros Montez.&nbsp;<strong>ALEA<\/strong>, Rio de Janeiro, v. 18\/2, p. 192-209, mai.-ago. 2016.<\/li><li>ETTE, Ottmar.&nbsp;<strong><em>\u00dcberLebensWissen<\/em><\/strong><em>. Die Aufgabe der Philologie<\/em>.&nbsp;Berlim: Kulturverlag Kadmos, 2007.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Yoko Tawada; literatura alem\u00e3; literatura japonesa; exofonia; tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h4>10 A literatura\nsovi\u00e9tica como instrumento de <em>soft power<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p><em>Gabriel Pessin Adam<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo de\n1945 a 1991 foi um marco na hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Duas\nsuperpot\u00eancias, Estados Unidos (EUA) e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (URSS), eram os polos de\npoder de uma estrutura bipolar in\u00e9dita at\u00e9 ent\u00e3o e ainda n\u00e3o repetida. A\ndisputa de propor\u00e7\u00f5es globais foi denominada de Guerra Fria, devido \u00e0 impossibilidade\ndos rivais entrarem em confronto armado direto, meio tradicional de resolver\ndisputas entre pot\u00eancias centrais na pol\u00edtica internacional. Segundo Fred\nHalliday (1999), tal confronto era intersist\u00eamico, pois para al\u00e9m de serem EUA\ne URSS os dois l\u00edderes dos seus respectivos blocos, eles propagavam para os\ndemais pa\u00edses a superioridade de sua conforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mica-social, o\nque seria demonstrado com o passar do tempo, quando um dos sistemas\nprevalecesse sobre o outro. A busca por esta supera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica envolvia\ndiversos setores dos dois governos e de suas sociedades. O elemento mais\nevidente desta disputa era a competi\u00e7\u00e3o militar, seguido de perto pelas\nrela\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-diplom\u00e1ticas. Contudo, outro aspecto de consider\u00e1vel\nimport\u00e2ncia no per\u00edodo era a disputa ideol\u00f3gica, afinal cada uma das\nsuperpot\u00eancias precisava demonstrar de modo cabal que seu sistema era superior,\nao mesmo tempo em que operava no sentido de demonizar o sistema da outra.\nVariadas formas de arte foram utilizadas como instrumento de propaganda\nideol\u00f3gica, entre elas a literatura. Desde o in\u00edcio de sua exist\u00eancia, a Uni\u00e3o\nSovi\u00e9tica compreendeu a import\u00e2ncia da literatura como instrumento de hegemonia\n(no sentido gramsciano) para legitimar e fortalecer o seu regime perante sua popula\u00e7\u00e3o\ne junto aos pa\u00edses que faziam parte de sua zona de influ\u00eancia. Todavia, a\nliteratura produzida por sovi\u00e9ticos n\u00e3o foi utilizada apenas por Moscou. Com o\npassar dos anos, alguns dos dissidentes do regime sovi\u00e9tico ganharam\nproemin\u00eancia no Ocidente em fun\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias que publicaram\ndenunciando o que consideravam falho ou opressivo no governo da URSS. Os EUA e\nos demais pa\u00edses da Europa Ocidental colaboraram para que algumas destas obras\nfossem amplamente divulgadas entre os leitores do bloco capitalista e,\nsupostamente, democr\u00e1tico. Duas obras se destacaram entre todas, Arquip\u00e9lago\nGulag (1973), de Alexandr Soljen\u00edtsin, e Doutor Jivago (1956), de Boris\nPasternak. Inseridas no conflito ideol\u00f3gico da Guerra Fria, as duas obras foram\nutilizadas como propaganda antissovi\u00e9tica, logo, serviram aos prop\u00f3sitos de\nsoft power dos Estados Unidos e de seus aliados. A presente pesquisa tem como\nobjeto de estudo a interface entre cultura, mais especificamente a literatura,\ne rela\u00e7\u00f5es internacionais, sendo temporalmente delimitada ao per\u00edodo da Guerra\nFria. Al\u00e9m das duas obras liter\u00e1rias citadas, ser\u00e3o utilizados como base para o\nseu desenvolvimento obras de Joseph Nye (2002), para delimitar o conceito de\nSoft Power, Antonio Gramsci (2017), a fim de conceituar hegemonia e de Fred\nHalliday (1999), autor neomarxista de rela\u00e7\u00f5es internacionais, o qual\ndesenvolveu a vis\u00e3o da Guerra Fria como um conflito intersist\u00eamico.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>HALLIDAY, Fred. Repensando as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1999.<\/li><li>LIGUORI, Guido; VOZA, Pasquale. <em>Dicion\u00e1rio Gramsciano<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2017.<\/li><li>NYE, Joseph. O Paradoxo do Poder Americano: Por que a \u00fanica Superpot\u00eancia do Mundo n\u00e3o Pode Prosseguir Isolada. S\u00e3o Paulo: Editora UNESP, 2002.<\/li><li>PASTERNAK, Boris. Doutor Jivago. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2017.<\/li><li>SOLJEN\u00cdTSIN, Alexandr. O Arquip\u00e9lago Gulag. Porto: Editora Sextante, 2017.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Literatura Sovi\u00e9tica; Guerra Fria; <em>soft power; <\/em>hegemonia; Rela\u00e7\u00f5es Internacionais.<\/p>\n\n\n\n<h4>11 Carlos Lacerda, operador do <em>soft power<\/em> norte-americano<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Andrea Cristiane Kahmann<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1\u00ba de junho de 1950, Carlos Lacerda escreveria no editorial do seu rec\u00e9m-fundado <em>Tribuna da Imprensa<\/em>: \u201cO senhor Get\u00falio Vargas, senador, n\u00e3o deve ser candidato \u00e0 Presid\u00eancia. Candidato, n\u00e3o deve ser eleito. Eleito, n\u00e3o deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o para impedi-lo de governar\u201d. Get\u00falio havia h\u00e1 pouco afirmado em entrevista a Samuel Wainer: \u201cEu voltarei, mas n\u00e3o como l\u00edder de partido, e sim como l\u00edder de massas\u201d (FERREIRA, 2011: 60). E, desta vez, viria acompanhado por dois jovens seguidores com ele parecidos no porte, nas ideias e na linguagem t\u00edpica da fronteira do sul do Brasil: Leonel Brizola e Jo\u00e3o Goulart. A <em>Tribuna da Imprensa<\/em> promoveu e sustentou com factoides a queda de dois desses \u201ccaudilhos\u201d ga\u00fachos: Get\u00falio Vargas suicidou-se em 1954, sob a como\u00e7\u00e3o causada pelo atentado da Rua Tonelero contra o pr\u00f3prio Carlos Lacerda, e Jo\u00e3o Goulart sofreu o golpe militar em 1964. Mas nem s\u00f3 a partir dos discursos inflamados no jornal de sua propriedade Lacerda trabalharia em prol dos interesses norte-americanos. Ele, que em 1940 fora contratado pela Ag\u00eancia Interamericana, sob o comando de Nelson Rockefeller, para traduzir e publicar no Brasil material vindo dos Estados Unidos (DULLES, 1992: 67), j\u00e1 tinha algum reconhecimento como tradutor e pretendia-se tamb\u00e9m escritor. De sua &#8220;vasta produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria&#8221;, formada por poemas, contos, cr\u00f4nicas, romances e teatro, que lhe dava &#8220;acesso&#8221; a Congressos de Escritores, temos conhecimento em fun\u00e7\u00e3o da extensa biografia em dois volumes escrita por John Dulles, secret\u00e1rio de Estado de Eisenhower entre 1953 e 1959, nome recorrente em estudos sobre os primeiros anos da guerra fria e associado especialmente \u00e0 luta contra o &#8220;comunismo internacional&#8221;. A obra, entre n\u00f3s intitulada &#8220;Carlos Lacerda: a vida de um lutador&#8221;, foi publicada pela Nova Fronteira, editora fundada por Carlos Lacerda em dezembro de 1965, e constitui a principal refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica para esta comunica\u00e7\u00e3o, que discute, a partir do caso de Carlos Lacerda, os usos pol\u00edticos da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u201coriginal\u201d, da tradu\u00e7\u00e3o e da cr\u00edtica. Ao material bibliogr\u00e1fico que nos foi legado por Dulles, somam-se documentos provenientes de consultas ao CPDoc (Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, no Rio de Janeiro) e \u00e0 Hemeroteca Brasileira, seja a Digital, seja ao setor de obras raras, dispon\u00edveis para consultas presenciais na Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional.&nbsp;&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>DULLES, John W. <strong>Carlos Lacerda<\/strong>: a vida de um lutador. Tradu\u00e7\u00e3o de Vanda Mena Barreto de Andrade. vol. 1. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 512p.<\/li><li>FERREIRA, Jorge. <strong>Jo\u00e3o Goulart<\/strong>: uma biografia. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2011. 713p.<\/li><li>TRIBUNA DA IMPRENSA. <strong>Editorial.<\/strong> 1\u00ba de junho de 1950. P\u00e1g. 4. Dispon\u00edvel em: Hemeroteca Digital Brasileira &#8211; Cole\u00e7\u00e3o Digital de Jornais e Revistas da Biblioteca Nacional &lt;http:\/\/memoria.bn.br\/DocReader\/&gt;. Acesso em: 8 dez. 2016.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: Literatura Comparada; Rela\u00e7\u00f5es Internacionais; geopol\u00edtica da cultura; <em>soft power<\/em>; Carlos Lacerda.<\/p>\n\n\n\n<h4>12 <em>Catch-22<\/em> e o discurso pol\u00edtico: uma leitura de narrativas n\u00e3o-confi\u00e1veis<\/h4>\n\n\n\n<p><em>Rafael Conter<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Catch-22<\/em> \u00e9 um romance sat\u00edrico escrito por Joseph\nHeller, publicado originalmente em 1961. A hist\u00f3ria se passa durante a Segunda\nGuerra Mundial e acompanha o dia-a-dia dos soldados e oficiais Norte-Americanos\nestacionados na ilha fict\u00edcia de Pianosa, na It\u00e1lia. O romance \u00e9 narrado em\nterceira pessoa e se desenvolve em uma cronologia n\u00e3o-linear com elementos\nsurrealistas e de humor negro, e conta com in\u00fameros exemplos de discurso\nn\u00e3o-confi\u00e1vel. De acordo com as teorias de Sternberg e Yacobi, a\nn\u00e3o-confiabilidade \u00e9 uma hip\u00f3tese que o leitor assume quando confrontado com as\ntens\u00f5es e as inconsist\u00eancias de um texto, e as estrat\u00e9gias usadas para criar e\ndar sentido a esse texto. Segundo esses autores, h\u00e1 uma busca por coer\u00eancia que\nenvolve uma s\u00e9rie de mecanismos, ferramentas utilizadas pelo leitor para\nacomodar a narrativa de um determinado texto ou discurso. H\u00e1, por exemplo, um\nmecanismo gen\u00e9rico, que resolve inconsist\u00eancias atrav\u00e9s do g\u00eanero, como os\nexageros estil\u00edsticos da s\u00e1tira; ou, tamb\u00e9m, um mecanismo de perspectiva, que\nacomoda as tens\u00f5es entre o narrador e os personagens narrados. Este trabalho \u00e9\numa tentativa de ler <em>Catch-22<\/em> sob a luz dessa teoria, e oferecer algumas\nideias de sua aplica\u00e7\u00e3o no discurso pol\u00edtico. A quest\u00e3o da confiabilidade est\u00e1\nem voga atualmente, com a constru\u00e7\u00e3o de narrativas n\u00e3o-confi\u00e1veis penetrando e\namea\u00e7ando os campos pol\u00edtico e jornal\u00edstico. Em um v\u00eddeo intitulado <em>H\u00e1 um\ngolpe militar em marcha no Brasil hoje<\/em>, Vladimir Safatle chama aten\u00e7\u00e3o para\nos perigos de se encarar discursos autorit\u00e1rios com gra\u00e7a e com\u00e9dia, tais como\nos discursos de \u00f3dio de parcelas da extrema-direita e do neo-fascismo, e\nestrat\u00e9gias pol\u00edticas como as <em>fake news<\/em> e o <em>firehosing<\/em>. Se esse\nfor o caso, um estudo sobre a n\u00e3o-confiabilidade se faz cada vez mais urgente,\ne os personagens e t\u00f3picos presentes em <em>Catch-22<\/em> oferecem um material\nextremamente rico de an\u00e1lise. Narrativas ficcionais e pol\u00edticas n\u00e3o s\u00e3o a mesma\ncoisa, mas podem ser lidas e entendidas de maneiras similares. Sendo assim, um\nestudo da n\u00e3o-confiabilidade em <em>Catch-22<\/em> pode nos auxiliar a entender\nmelhor n\u00e3o s\u00f3 a linguagem, como tamb\u00e9m o mundo em que vivemos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"text-align:center\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>HELLER, Joseph. <em>Catch-22<\/em>.&nbsp;<\/li><li>SAFATLE, Vladimir. <em>H\u00e1 um golpe militar em marcha no Brasil hoje<\/em>. Acesso em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BwLg13hSkRk.&nbsp;<\/li><li>STERNBERG, Meir &amp; YACOBI, Tamar. <em>(Un)Reliability in Narrative Discourse: A Comprehensive Overview. Poetics Today.<\/em> Duke University Press: 2016.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chave<\/strong>: <em>Catch-22<\/em>; confiabilidade; narrativa; <em>fake news<\/em>; <em>firehosing<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LITERATURA, DIPLOMACIA E RELA\u00c7\u00d5ES INTERNACIONAIS Elizamari Becker, Ian Alexander, Gabriel Adam e Andrei Cunha Tanto a literatura comparada quanto o estudo das rela\u00e7\u00f5es internacionais pressup\u00f5em uma geografia, um mosaico ou uma rede de for\u00e7as em intera\u00e7\u00e3o. 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